Gustavo Santos
A Dança da Vida
Para todos os pais
que não entendem os filhos.
Para todos os filhos
que não entendem os pais.
Para todas as famílias
que não se relacionam.
Para todos os namorados
que não se assumem.
Para todos os casais
que não se tocam.
Para todas as pessoas
que não falam com outras pessoas.
A próxima oportunidade pode,
muito bem, ser a última…
… ou não.
Where were you when I said I loved you?
And where were you when I cried at night?
Waitin’up, couldn’t sleep without you
Thinking of all the times we shared.
I remember when my heart broke.
I remember when I gave up loving you.
My heart couldn’t take no more of you.
I was sad and lonely.
I remember when I walked out.
I remember when I screamed I hated you.
But somehow deep inside still loving you.
Sad and lonely.
«I Remember», Keyshia Cole
Capítulo 1
Março de 2003
A sua última dança não teve música, não teve percussão, não
teve audiência. De uma assentada, duas gotas primaveris caídas
do céu qual unguento perfumaram-lhe a pele e, sem pedir licença
mas com o aval dos deuses, vincularam-no ao presente, ao segundo,
fazendo-o esquecer por décimas a fúria cega com que havia saído de
casa naquela noite.
A água, arrefecida pelos quilómetros que separavam as duas
dimensões, levou-o a encolher os ombros e fez ondular a coluna em
curvas sedutoras à medida que a gota lhe ia ziguezagueando a espinha
e arrepiando o peito.
Era no corpo, apenas no corpo, que sentia toda a intensidade da
vida.
Cada movimento natural ou criado por si representava uma hipotética contracção, um possível balanço ou um alongamento tão especiais como o próprio ar. Ele respirava arte e, como artista, servia-se
de tudo para desenhar as expressões que o seu universo criava. Vivia
num tumulto criativo e muitas vezes eram as mais pequenas coisas
que em momentos como aquele, de pura ira, serviam de pretexto
para relativizar as injustiças e as incompreensões com que há muitos anos convivia.
11
gustavo santos
Os mesmos anos desde que tivera a coragem de tomar a primeira
grande decisão por si.
Antes da escuridão total, a consciência concedera-lhe uma
pequena margem, de sessenta segundos apenas, em que se recordava
de coisas menos saborosas, desprovidas de qualquer boa vibração no
seu corpo.
Lembrava-se de ter feito o pequeno trajecto entre a porta de sua
casa e o portão falante, de tão velho e perro que era, que vedava o
pequeno átrio, também ele pertencente à família e profundo testemunho de cada entrada e saída mais áspera. Cinco pequenos passos
bastavam para chegar de uma margem à outra, mas como os deu de
ouvidos cheios e a gritar os ecos da última reunião familiar, à qual
a maior parte dos intervenientes eram alheios e os protagonistas os
do costume, custou-lhe horrores. A cada passo que dava apetecia-lhe
dar dois atrás, subir os dezassete degraus, alguns já sem cunha, da
velha escada de madeira que dava acesso ao inferno e dizer tudo o
que havia ficado por dizer.
Mas não. Já sabia o resultado e esse era inolvidável: mais gritos.
Essa indecisão enfurecia-o. Quanto mais dentro da rua estava,
menos homem se sentia, por não ser capaz de enfrentar a besta. Às
tantas, e derrotadas que estavam todas as suas forças, decidiu fugir.
Não era a primeira vez que o fazia, mas também não havia forma
de saber se era a última.
O peso da fuga, a assunção da retirada por falta de coragem e a
gota que há muito tempo tinha morrido no tecido grosso da ganga
das suas calças, levando com ela todo e qualquer tipo de bem-estar,
enlouqueceram-no. Estava imerso num corrupio de ideias perigosas
que lhe pareciam uma coreografia confusa de diferentes intensidades, ritmos e pausas em que o único executante, ele mesmo, se descoordenava a cada movimento e onde a sequência não era mais que
uma anarquia deslavada sem estilo nem expressão, princípio, meio
ou fim.
12
a dança da vida
Em pânico, perguntou-se se era aquilo que queria para ele, se
tinha força para continuar a lutar pelo seu sonho e, pela primeira vez,
não soube responder. Estava tão baralhado e atordoado que, quando
pisou o passeio, fronteira entre o património dos pais e o património
da câmara municipal de Sintra, atravessou a estrada de sentido único
sem olhar para o lado, indiferente a si, a tudo e a todos.
Por centímetros não foi colhido por um carro, apesar dos médios
ligados e do chapinhar da borracha dos pneus nas poças da berma.
Não se livrou de uma valente buzinadela mas não se importou,
pensou que não era para ele, e depois de abrir a porta do seu desportivo preto e sentar a sua pele caucasiana na pele negra dos estofos,
olhou uma última vez para as janelas da casa, viu as mesmas luzes
acesas, sorriu sarcasticamente ao perceber que da rua aparentava ser
um lar doce lar, ligou à namorada e disse-lhe:
– Estou a caminho de tua casa.
– O que é que se passou desta vez, querido?
Ela já sabia o que se passava sempre que ele lhe ligava com a voz
trémula. Era como se as suas cordas vocais oscilassem com a raiva
que lhe entrava no ar que engolia. Sem dar muito tempo ao silêncio e percebendo que não era a melhor altura para perguntas, acabou por lhe dizer para ir e deixou a chave debaixo do tapete, como
de costume.
Ele respirou fundo, desligou o telemóvel para não falar com mais
ninguém, pôs o cinto de segurança, rodou a ignição quarenta e cinco
graus à direita e… black out.
Triste será dizer que a tangente que o automóvel lhe fez foi
apenas um prenúncio, uma amarga profecia, pois, poucas horas
após esse instante, nova tentativa do destino seria feita e, essa sim,
consumada.
Contudo, apesar de não ter consciência do que vivera no intervalo de tempo entre o momento em que a luz da sua vida se fundira
e uns breves flashes esbranquiçados que teve, prostrado numa maca,
13
gustavo santos
no interior do hospital, acabou por experimentar os antípodas da
vida. O calor do amor e o gelo do medo.
Luz, tecto, luz, tecto, luz, tecto…
Estava ainda muito revoltado quando entrou em casa da namorada, no centro de Cascais. Ela recebeu-o com a sua sensualidade
morena, mais indiscreta que o costume pelo facto de estar com uma
toalha branca, imaculada, ressaltando os seus tons terra, enrolada à
volta da cabeça. O moreno natural da sua pele ostentava raízes africanas mas o desenho do seu corpo, alto e esguio, de nariz afilado,
provava que era europeia. Alfacinha de gema. Um sonho para qualquer homem, um assombro para qualquer mulher.
– És tão bonita.
Ela não respondeu. Abraçou-o.
Apesar de doutorada em letras, de leccionar línguas e de, pontualmente, escrever alguns livros para o currículo escolar, não era
pessoa de muitas palavras. Preferia agarrar-se à vida pelos gestos e
deixar a oralidade para quem tivesse o dom de proferir as frases certas nos momentos oportunos.
O abraço disse-lhe que ela também o achava bonito e, no par
de minutos que ali ficaram, uma lágrima sua misturou-se com a
humidade que transpirava do peito pequeno, mas atrevido, da sua
namorada. O aconchego quase materno acalmou-lhe as carências,
evaporou o rancor salgado que lhe escorregara da vista e restituiu-lhe o amor ao coração. Aliviado, sentou-se no sofá de pele branca
que enchia a sala e dava para o oceano, sarapintado pelas luzes nocturnas da baía de Cascais, onde tantas vezes já tinham feito amor.
– Vou sair de casa – disse-lhe em tom explosivo, com a certeza
de que ela o hospedaria no seu T1 minimalista.
Ela olhou-o, leu-lhe os pensamentos, e após o tempo suficiente
para tirar todas as dúvidas, levantou-se num salto do sofá e desapareceu pela falsa cortina que dividia a sala do resto da casa.
14
a dança da vida
– Onde é que vais? – perguntou-lhe, com a sensação de que a sua
precipitação a tinha assustado.
Ouviu gavetas a abrir e a fechar, suspiros ansiosos, interruptores a ligar e a desligar, e viu feixes de luz a aparecer e a desaparecer
por detrás da parede de tecido que caía do tecto, feito de dezenas de
fios brancos e soltos.
Ela levou um minuto a dar de si outra vez.
Com ela veio o silêncio e também um pequeno saco que trazia na
mão. Ao sentar-se, de costas para o mar e de frente para ele, estendeu
o braço, sorriu discretamente e apontou com o queixo, dando-lhe a
entender que o que ali estava era para ele.
– O que é isto?
Ela não abriu a boca. Sabia que se falasse iria estragar a surpresa.
Sem resposta, ele pegou lentamente no saco, desagrafou-o e deitou-lhe a mão, com algum receio do que poderia encontrar no fundo.
O seu tacto identificou dois objectos. Um maior, envolto em plástico,
e outro mais pequeno e frio. Quando os trouxe à superfície, já os
seus olhos tinham novos motivos para se afundar. Era uma escova
de dentes e uma chave de casa.
– Isso é o teu kit Cascais.
Batas brancas, manchas de sangue, cheiro a éter…
Viveram o apogeu do amor com as luzes da cidade e da Lua
como únicas testemunhas. Na silhueta dos seus corpos reflectiam-se,
através do luar, traços translúcidos que caíam do céu e se esmagavam nos dois grandes vidros que delimitavam a sala do precipício.
As suas peles, macias como seda quando suadas pelo esforço físico
que o amor exige, moldavam-se às intenções um do outro, como
se fossem matérias-primas produzidas por mariposas, e, à medida
que a noite ia ganhando contornos cada vez mais negros, os seus
corpos, segundo após segundo com mais motivos para transpirar,
iam ficando mais cintilantes, como se fossem uma mescla de prismas
15
gustavo santos
refractores de luz. Era assim que se amavam. E era assim que gostariam de se ter continuado a amar.
Duche tomado e de novo vestidos, beberam um chá quente para
dar tréguas ao corpo e desafiar a noite fria.
– Sentes-te melhor, querido?
Ele anuiu, mas era visível no seu rosto alguma preocupação.
– Ainda não contaste aos teus pais, pois não?
Ele sorriu.
– Como é que tu consegues adivinhar sempre aquilo que eu quero
e aquilo em que estou a pensar?
Ela baixou o olhar para o tapete felpudo que lhe aquecia os pés
descalços e, envergonhada, bebeu mais um gole de chá.
– Queres mais mel? – perguntou-lhe, na tentativa de mudar de
assunto.
– Diz-me. Como é que consegues?
Ela olhou, então, para o namorado e, de ombros encolhidos,
com ar deslumbrado, respondeu:
– Não sei. O que eu sei é que sinto por ti coisas que nunca senti
por mais homem nenhum.
Ele derreteu-se mais rapidamente do que a dose extra de mel que
acabara de mergulhar na sua chávena; com o corpo a arder de desejo
e compromisso, disse-lhe a mais doce das frases:
– Gostava tanto de te ouvir dizer que me amas.
Ela sorriu com doçura.
– A seu tempo. Tudo tem o seu tempo.
Namoravam há um ano.
Ele, ao contrário dela, presenteara-a com um «amo-te» no princípio do segundo trimestre da relação. Porém, a sua visão sobre o
amor era muita rudimentar. A relação dos pais era um exemplo
pobre de comunhão, companheirismo, sentido de construção e tolerância, além de que a sua própria experiência também nunca tinha
ido tão longe.
16
a dança da vida
Ela, como mulher mais madura, cinco anos de diferença provados pelo bilhete de identidade, apercebeu-se disso desde o primeiro
instante e, então, preferiu dar ao amor crescente que sentia alguma
margem de manobra por forma a não antecipar mais um investimento a fundo perdido, como outros que já experienciara. Correu
riscos, alguns calculados outros não, mas a cada dia que passava sentia-se mais aceite por ele e isso dava-lhe todo o tempo do mundo para
dizer que o amava apenas quando tivesse a certeza de que era com ele
que iria, finalmente, materializar o sonho de ser mãe.
– Eu sei… – acabou por responder, resignado, mas nem por isso
menos feliz.
A verdade é que a insistência no tema não passava de uma carência, de um mimo infantil que perdera em idade precoce, pois sabia
perfeitamente, mesmo sem ouvir o que queria, que ela o amava tanto
ou mais que ele a ela. E se naquela noite, em especial, existia nele
uma necessidade iminente de se sentir amado, devido ao desgaste de
mais um confronto familiar, das outras vezes não, e, por isso, não
levou o adiamento muito a peito; antes pelo contrário, e com elogios
a transbordarem-lhe o coração, aquecido pelo amor dela e pela água
melosa que lhe lubrificava a garganta, continuou a dissertar e a fazê-la corar.
– Sabes… tu completas-me. Dás-me tudo o que eu nunca tive
com outras mulheres.
Ela sabia. Mas também sabia que ele lhe devolvera o gosto por
si mesma, pelas coreografias kamasutrianas, pela loucura da vida no
seu estado mais puro. Tinha a certeza de que os dois tinham nascido
um para o outro e que com a consumação de uma vontade antiga
sua, viver com ele, tudo seria possível, e mais dia, menos dia, «amo-te» seria a primeira coisa que diria quando acordasse e a última a
dizer antes de adormecer.
A conversa arrefeceu após largos minutos de boa disposição,
altura em que as afirmações dele passaram da sinceridade ao exagero, ao ponto de lhe dizer, entre outras coisas, que já aos dezoito
17
gustavo santos
meses, quando padecia de um traumatismo craniano, era visitado
por ela, apenas por ela, na sua breve amnésia. Com o bule vazio e as
chávenas com um ligeiro depósito no fundo, voltaram ao ponto de
partida.
– Se quiseres que esteja ao teu lado no dia em que os informares, estarei.
Ele baixou o olhar. Sabia que, inevitavelmente, teria de voltar
à realidade, pelo menos naquela noite. Depois, colocou uma mão,
ainda morna do chá, sobre a mão dela que jazia entre as suas pernas,
afagou-lhe o cabelo escorrido que lhe tapava a orelha com a outra
mão, para que o ouvisse melhor, e disse-lhe:
– Não te preocupes. Há males que vêm por bem.
Ela sorriu.
A resposta surpreendera-a verdadeiramente, mas logo após o
êxtase momentâneo, tão típico das mulheres encantadas, voltou à
realidade por reconhecer nele a impulsividade como uma das características mais fortes da sua personalidade. Assim, e sem hesitar, não
se coibiu de ser tão frontal com ele como era com os seus alunos.
– Tens a certeza de que queres viver comigo? Ou esta solução só
é importante para ti, agora, porque é a mais fácil?
– Porque é que perguntas isso?
– Já te aliciei a vires morar comigo algumas vezes e tu disseste
sempre que não, por causa de o compromisso se poder vir a tornar
demasiado sério.
– Eu sei.
– E então?
Observou-o com os olhos a pedir uma resposta, mas, em vez de
palavras, recebeu hesitações, em vez de certezas, ficou com dúvidas,
e já com a respiração travada e com o silêncio a cavar um buraco
cada vez maior entre eles, à medida que os segundos caíam, insistiu,
sabendo de antemão que tudo o que dissesse naquele momento poderia, mais tarde, ser usado contra si:
18
a dança da vida
– Gostava de sentir que tu também tomaste esta decisão por
causa de nós… nem que isso apenas represente uma parte ínfima da
tua decisão.
– Sei que tens todos os motivos para estares com esse medo, mas
se eu te disser que não é apenas uma coincidência, tu acreditas? –
disse ele, explodindo, ao vê-la estremecer, já com as mãos em volta
da cabeça.
– Acredito – respondeu, de olhos fechados, após uma longa inspiração que lhe devolvera a vida.
Abraçaram-se.
Com os corpos enleados veio de novo a confiança e a clareza de
ideias.
– É claro que a discussão lá em casa apressou as coisas, mas
quero que saibas que penso nisto há muito tempo. Se não fosse hoje,
era para a semana. Tenho a certeza…
Inspirou, novamente trémulo.
– … O que é que queres? É o meu medo. Eu não quero ser como
os meus pais…
As mãos deram-se novamente.
– … E eu sei que não sou tão feliz com mais ninguém; portanto,
acho que está na hora de crescer mais um bocado e assumir o que
sinto por ti perante o mundo inteiro. Tu mereces.
Longos corredores brancos… pessoas muito agitadas… vozes…
Emocionados, beijaram-se.
Um longo, lento e sumarento beijo onde as línguas dançaram ao
som de «Nice and Slow», de Usher. Apesar de o dia seguinte ser o
primeiro do resto das suas vidas, não deixaram de se despedir como
o faziam sempre e entregaram-se como se não houvesse amanhã.
«Temos aqui um politraumatizado… sala de cirurgia…»
19
gustavo santos
– Vou andando.
– Eu vou contigo lá abaixo.
– Não. Não é preciso, amor. Obrigado. Não vês que está a chover? Ficas aqui no quentinho e eu depois mando mensagem quando
chegar a casa.
– Não estás a perceber. Eu só quero ir lá abaixo porque assim
tenho mais uma razão para te dar outro beijo.
– És linda…
Silêncio.
– … e eu também, não sou?
– Cala-te. Levas tudo?
Riram.
– Sim, é só a chave do carro. O telemóvel ficou no porta-luvas,
desligado.
– Então vamos.
Como o porteiro era conhecido pelo seu mau dormir e pela
forma descarada e até assustadora com que interpelava os moradores
do prédio nas madrugadas em que estes faziam mais barulho, desceram do décimo andar até ao rés-do-chão no maior silêncio possível.
Já na rua, debaixo de uma chuva intermitente, deram o último beijo,
um breve toque nos lábios ainda sentidos, e a caminho do carro ele
disse-lhe:
– Tens noção de que amanhã, quando voltares das aulas, vais ter
a casa toda desarrumada com coisas minhas, não tens?
Ela uniu as mãos em frente da boca como se fosse rezar e depois
sorriu com o olhar rasgado.
– Vais contar-lhes hoje?
– Se tiverem o descaramento de estar acordados para me chatearem, conto-lhes agora.
– E não queres que vá contigo?… Sei lá… para te sentires
melhor?
– Não. Quero que estejas aqui para me receberes e fazeres amor
comigo amanhã.
20
Download

A Dança da Vida