1 Estudo matricial para o financiamento da educação no município de Araputanga, em Mato Grosso. Resumo sucinto No bojo da discussão e das propostas para a edificação do Plano Municipal de Educação, foi realizada em 6 e 7 de julho de 2006 a 1ª CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE ARAPUTANGA, que sob a liderança do poder executivo e contando com ampla participação da sociedade local, estabeleceu os objetivos e metas que deverão sulear o setor nos anos próximos futuros. O presente estudo visa identificar as condições presentes e as eventuais necessidades, atuais ou futuras, relativas ao financiamento da educação, a partir das bases (de vontades, compromissos e obrigações), expressas como resultados da Conferência. Será desenvolvido analiticamente a partir de algumas cotizações com o cenário nacional e eventualmente o estadual e o internacional, anotando, ao final, as demandas por recursos em cada objetivo ou meta definidos; fontes e disponibilidades atuais; bem como eventuais necessidades de complementação financeira por recursos complementares com caráter constante ou contingente. 2 Alteração demográfica em curso Embora ainda pouco observada no planejamento das políticas públicas no Brasil, a variável relativa à conformação demográfica nacional é um fator fundamental para as proposições das políticas públicas em universos temporais mais amplos. O quadro abaixo nos situa em relação aos ritmos recentes verificados no país: Quadro I – Variação percentual da participação das faixas etárias na composição demográfica brasileira, 2000 a 2005. O rápido processo de envelhecimento da população evidencia-se no percentual acumulado entre 2000 e 2004/2005, de decréscimo relativo na faixa de 0 a 39 anos de idade e de substancial acréscimo na faixa de 40 anos ou mais de idade. É ocasionado por dois fatores concomitantes: a redução das taxas de natalidade e a ampliação da expectativa de vida da população. A conjugação dessas tendências levou à revisão das estimativas demográficas do IBGE em 2004, mas ainda assim, trabalha-se atualmente com bases de cálculo que superestimam a fecundidade e subestimam a rápida expansão da expectativa de vida (principalmente nas faixas etárias mais elevadas). Pelas nossas análises, isso se reflete na fórmula de cálculo da estimativa populacional de Araputanga que mantém praticamente inalterados os percentuais da estratificação etária do município, conforme a projeção do IBGE para 2006, comparada ao resultado censitário de 2000. Tais resultados são muito distintos dos observados em Mato Grosso e que seguem, proporcionalmente, as variações nacionais. Em virtude de tais diferenças, e servindo-nos dos resultados de nascimentos e óbitos registrados em 2003, da pesquisa IPEC de julho de 2006, bem como da variação histórica da matrícula entre 2000 e 2005, como base de projeção, refizemos os cálculos buscando uma aproximação maior com os dados reais do município. Ressaltamos que a projeção se ateve apenas à estratificação, mantendo o número relativo à projeção populacional total do IBGE. Os resultados comparados das 3 estimativas do IBGE para Mato Grosso e Araputanga, bem como os alcançados pela nossa projeção estão refletidos no quadro abaixo: Quadro II – Variação percentual da população de Mato Grosso e Araputanga por faixa etária entre 2000 e 2005 e 2006, segundo o IBGE e projeção do autor. Em números absolutos teríamos a seguinte conformação demográfica: Quadro III – Variação da população de Araputanga em números absolutos, por faixa etária, entre 2000 e 2006, segundo o IBGE e projeção do autor. Fontes: IBGE, Estimativa Populacional 2006 e Censo Demográfico 2000, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Em relação à população total, é importante frisar o arrefecimento do impacto migratório, com aproximadamente 48,02% da população sempre tendo residido no município e 68,5% com residência há 6 ou mais anos, conforme pesquisa do IPEC. As cidades que individualmente mais contribuíram com a imigração pertencem à região circunvizinha, registrando-se, por ordem de importância: Quatro Marcos, Cáceres, Reserva do Cabaçal, Figueirópolis e Cuiabá. As estimativas do IBGE apresentam a seguinte evolução histórica no período compreendido entre 1997 e 2006: 4 Quadro IV – Araputanga – População residente, 1997 a 2006 Voltando ao cenário demográfico nacional e visando estabelecer uma comparação internacional e histórica, teremos as seguintes distribuições etárias em alguns países selecionados, com as datas de referência de 1960 e 2004: Quadro V – Composição demográfica por faixas etárias Alteração demográfica em países selecionados (1960 e 2004) País 0 a 14 anos 15 a 64 anos 65 anos ou mais 2004 1960 2004 1960 2004 1960 Brasil 27,1 42,6 66,2 54,6 6,4 2,7 Coréia do Sul 19,6 42,3 71,7 54,8 8,7 2,9 Nova Zelândia 21,8 32,9 66,2 58,5 12,0 8,7 Estados Unidos 20,7 31,0 66,9 59,7 12,4 9,2 Alemanha 14,3 21,3 66,4 67,8 19,3 10,8 Fontes: OCDE, Statistics on the Member Countries, OECD in Figures, 2005, IBGE, PNAD 2004, Contagem Populacional, 1996, e International Data Base: http://www.census.gov/ipc/www/idbsprd.html acessado em 19/07/2006, com tratamento dos dados e elaboração gráfica pelo autor. Podemos deduzir que o Brasil caminha para uma estratificação etária que nos aproximará em médio prazo da distribuição coreana atual e nos levará em um segundo momento a uma distribuição assemelhada à neozelandesa ou norteamericana. Ressaltamos que o processo em curso deverá propiciar, nas próximas duas décadas, uma gradual elevação da população adulta em idade apropriada ao trabalho, expandindo em conseqüência o contingente da População Economicamente Ativa – PEA. No caso específico do Brasil, essa ampliação da PEA se caracterizará como um fator tensional em relação aos persistentes indicadores de trabalho infantojuvenil e às taxas de atividade (entendidas como a soma das pessoas que possuem atividades isoladas ou concomitantes de estudo e trabalho), verificadas principalmente entre a população com idade entre 15 e 19 anos. Considerando o ano de referência, a PNAD/IBGE levantava em 2005 no Brasil que 2,1% (1,68% em 2004) das nossas crianças entre 5 a 9 anos de idade já se 5 encontravam trabalhando; entre10 a 14 anos 12,8% (11,57% em 2004) estavam em igual condição e entre 15 a 19 eram 47,6% (46,32% em 2004)1. Em Mato Grosso, 1,4% das crianças com 5 a 9 anos de idade já trabalhavam em 2005; 13,7% das crianças entre 10 e 14 anos e 53,3% dos jovens entre 15 e 19 anos. Comparativamente, temos mais crianças e jovens entre 10 e 19 anos trabalhando em Mato Grosso do que a média brasileira. Em Araputanga, pelo menos 1,95% das crianças até 14 anos trabalham, e 6,11% dos jovens entre 14 e 18 anos, em 20062. Estas estimativas possivelmente estão subestimadas. Reforça essa hipótese o elevado número de entrevistados (35,55% sobre o universo total da enquête), que não responderam à questão do trabalho infanto-juvenil, quando instados a ela pelo IPEC. A situação do ingresso precoce de crianças e jovens no mercado de trabalho, ao lado do evidente tensionamento em relação aos postos de emprego3, contribui igualmente para a manutenção dos abusivos índices de inadequação entre idade e série cursada e, quase certamente, é um dos fatores que interferem para o baixo desempenho estudantil das crianças e jovens brasileiros. Ressaltamos em relação aos jovens com 15 a 19 anos, que os altos índices de absenteísmo da escola (31,96% no Brasil e 29,41% em Mato Grosso em 2005), coincidem com o elevado grau de ocupação no mercado de trabalho, conforme vimos acima. Voltando às comparações com os países selecionados, frisamos que no início da década de 1960 a Coréia possuía uma distribuição etária muito assemelhada à brasileira e as mudanças verificadas na progressão posterior devem-se, em grande medida, às políticas educacionais implementadas. Atualmente os índices de adequação entre a idade e os níveis educacionais cursados na Coréia situam-se entre os melhores do mundo. O ingresso dos jovens no mercado de trabalho coincide, cada vez mais, com a conclusão dos estudos em nível superior, seja com formação tecnológica pós-média, seja com a conclusão de cursos universitários. Foi considerado para essa totalização o número de crianças e jovens ocupados no período de referência de 365 dias anteriores ao levantamento da PNAD (que se realiza no mês de setembro). Os dados são do IBGE, PNADs 2004 e 2005, com tratamento do autor. 2 Segundo os dados da pesquisa IPEC realizada entre 1 e 31 de julho de 2006, 62,50% das crianças até 14 anos não trabalhavam, 1,95% trabalhavam e não se obteve resposta de 35,55% dos entrevistados. Em relação à população entre 14 e 18 anos os que não trabalham somam 58,88%, os que trabalham 6,11% e não se obteve resposta de 35,01% das entrevistas. 3 19,64% das pessoas com 20 a 54 anos não possuíam ocupação no Brasil e 18,44% em Mato Grosso em 2005. 1 6 Ainda comparando os países, as Taxas de Dependência Demográfica - TDD4 apresentam a seguinte evolução: Quadro VI – Taxa de Dependência Demográfica / TDD (série histórica e projeção, em países selecionados) Número de dependentes para cada grupo de 100 pessoas em idade de trabalhar 1960 2004 2025 2050 Países Total Total Total Total C I C I C I C I Brasil 83 78 5 51 41 10 44 28 16 60 25 35 Coréia 82 77 5 39 27 12 47 20 27 81 22 59 N. Zelândia 53¹ 36 17 51 33 18 52 27 25 65 25 40 EUA 67 52 15 49 31 18 61 32 29 67 33 34 Alemanha 54² 34 20 51 22 29 60 21 39 76 23 53 Legenda: C = Crianças (0 a 15 anos); I = Idosos (65 anos ou mais) Notas: 1 - o ano de referência é 1991 2 - o ano de referência é 1970 Fontes: OCDE, Statistics on the Member Countries, OECD in Figures, 2005, IBGE, PNAD 2004, Contagem Populacional, 1996, e International Data Base, http://www.census.gov/ipc/www/idbsprd.html acessado em 19/07/2006, como fonte primária para as projeções, com organização, tratamento dos dados e elaboração gráfica pelo autor. O que se evidencia é que já ingressamos, no Brasil, no período mais favorável da transição demográfica e que o mesmo deverá prolongar-se até 2027 aproximadamente, e a partir daí iniciar nova escalada de ampliação da TDD. Em 2035 projeta-se a TDD em 49 para 100 (com 26 crianças e 23 idosos), em 2040 já com as polaridades invertidas devemos chegar a 52 (25 crianças e 27 idosos), e em 2045 a 56 (com 25 crianças e 31 idosos). Em relação à Araputanga, verificamos uma relação de 54 crianças e jovens (0 a 15 anos) e 7 idosos (65 anos ou mais) para cada grupo de 100 habitantes em 2006, implicando em uma TDD de 61. Essa taxa é superior à do Brasil (51 em 2004) e à de Mato Grosso (53 em 2005). Em relação à estratificação etária, a população de 0 a 19 anos de idade representava 39,49% da população total de Mato Grosso em 2004 e 38,37% em 2005. Em Araputanga respondia, segundo o IBGE por 43,13% da população total em 2006 (ou 39,5% conforme a nossa estimativa para o mesmo ano). Não obstante, a tendência de redução percentual das crianças sobre o total populacional é claramente identificada na série histórica das matrículas no município, como veremos posteriormente em análise específica. Com isso, independentemente do quantum atual, podemos afirmar a tendência, também presente em Araputanga, de redução da Taxa de Dependência Demográfica, pela participação relativa a menor de crianças e jovens em ritmo superior ao do aumento populacional dos idosos. A TDD é obtida pela divisão entre a soma de dependentes (crianças e idosos), dividida pela população jovem e adulta em idade própria para o trabalho. 4 7 A TDD a menor, que já estamos vivendo, pode representar uma ocasião única para uma profunda reestruturação do país. À parte dos seus impactos à maior nas despesas públicas, (principalmente nas áreas da previdência e saúde, com possível elevação de desembolsos para fazer frente às novas necessidades); também os sentiremos à menor, principalmente na educação e nos serviços voltados ao jovem e à criança. E se tivéssemos uma distribuição de renda minimamente razoável, seria uma oportunidade rara para robustecermos definitivamente o mercado de consumo interno e ampliarmos ao mesmo tempo a baixíssima poupança privada, possibilitando assim o aumento dos investimentos e a elevação do capital nacional. Ao aumento proporcional da população adulta, no entanto, não conseguimos vislumbrar hoje políticas estruturais capazes de propiciar o salto possível. Essas políticas deveriam ligar-se necessariamente à alteração rápida e qualitativa da escolaridade média do país representada, por exemplo, na elaboração e implantação de um sistema formal de aprendizagens ao longo da vida, desde os processos de alfabetização até a pós-graduação. Os processos de formação, idealmente, deveriam ocorrer simultaneamente aos esforços de alteração, (igualmente massiva e rápida), das matrizes produtivas do país, concentrando-se os esforços, principalmente, nas áreas da indústria (priorizando-se a inovação e as manufaturas com emprego de alta tecnologia); dos serviços (focando-se na qualificação integral de cadeias produtivas e nos atendimentos sociais de maior complexidade); e na construção de ambientes legais, tributários, creditícios e formativos que pudessem favorecer a formalização e qualificação das atividades econômicas daqueles que hoje se encontram na informalidade, entre outras iniciativas. A demanda educacional dos adultos, porém, é hoje tratada como um adereço, um apêndice ou uma política focal (em geral voltada à alfabetização), sem uma análise estratégica que a pudesse ligar aos aspectos mais amplos e agudos do modelo social e econômico do país. A estrutura produtiva brasileira reflete nas suas bases de atividade essa baixa oferta formativa, caracterizando-se igualmente por apresentar uma baixa demanda por pessoal qualificado. Assim, os setores que atuam na ponta de desenvolvimento e aplicações tecnológicas possuem uma participação extremamente pequena em relação à geração de postos de trabalho, e as matrizes produtivas, em geral, ostentam pífios índices de inovação e dependência científica e tecnológica. Atestando esse panorama possuíamos em 2004 uma composição de escolaridade na População Economicamente Ativa ocupada do Brasil e de Mato Grosso absolutamente preocupante: 8 Quadro VII – PEA ocupada por nível educacional concluído (Brasil e Mato Grosso) E quando consideramos a escolaridade da população com 10 anos ou mais de idade (PEA ocupada e não ocupada), também em 2004 no Brasil e em Mato Grosso e em julho de 2006 em Araputanga, verificamos a seguinte situação: Gráfico I – Grau de escolaridade concluído Situação de escolaridade da população com 10 anos ou mais de idade 70,0 60,0 57,0 Mato Grosso Brasil 50,0 Araputanga 40,0 30,0 27,2 20,0 11,5 10,0 60,1 57,3 16,9 16,5 18,3 20,5 0,0 Menos que a educação obrigatória Ensino fundamental completo Ensino médio completo 4,5 2,9 5,5 Ensino superior completo Fontes: IBGE, PNAD 2004 para os dados do Brasil e Mato Grosso e IPEC, pesquisa „survey‟ para os dados de Araputanga. Se em relação à educação obrigatória Mato Grosso apresenta uma situação pior que a brasileira, Araputanga, com 56,99% de demandantes situa-se com um débito de formação muito próximo ao da média nacional. A brutal contenção de matrículas registradas na EJA a partir de 2003 (-84,8% em relação a 2002) atesta um absurdo descaso do governo do estado com esse atendimento e a absoluta insuficiência das políticas públicas em relação à educação dos adultos no estado e no município. Mas é importante ressaltar as demais diferenças encontradas. Vemos que a formação em nível médio no município é expressivamente maior que a do estado e isso certamente embute uma relação direta com a formação em nível fundamental a menor. Esse, aliás, é um traço que se identifica em todo o país. Possuímos mais jovens e adultos com formação média do que com a formação fundamental, a distinção em Araputanga refere-se à expressão dessa diferença, 9 não à sua existência. E o outro dado que merece atenção é o do baixo número de pessoas que possuem formação superior completa. Aqui, verificamos que ainda não se registra o impacto (que não deverá tardar), da existência de uma agência formadora terciária local. Aponta também para o papel estratégico que a mesma pode desenvolver, se conseguir ligar-se a uma perspectiva estratégica e integrada a um eventual modelo de desenvolvimento local e regional que puder ser construído. Sem considerarmos, porém, a demanda educacional dos adultos, o impacto imediato nas condições de financiamento per capita das ofertas educacionais voltadas às crianças e jovens deverá sofrer gradual melhoria nos anos próximos futuros (pela redução da população específica, pela manutenção da vinculação legal dos recursos e pelo desempenho econômico, que embora não acene para uma expansão significativa da produção e das riquezas, igualmente não aponta para um cenário de retração). Demanda quantitativa e qualitativa e expansão e qualificação do atendimento Com o cenário demográfico analisado, podemos prever que se não houver uma decidida intervenção local que aponte a necessidade, (legal e estratégica), do atendimento à educação obrigatória dos adultos, a expansão das ofertas deverá ocorrer apenas nas duas pontas da educação básica: no ensino médio e na educação infantil. Se isto for verificado, estaremos reproduzindo o discurso e as práticas nacionais, no âmbito da afirmação de uma visão restrita de competência das políticas municipais e estaduais que ganhou corpo e base normativa com a aprovação do FUNDEF, mas que possui origem nas recomendações do Banco Mundial, por volta dos anos 80. Em relação ao ensino médio, verificamos um cenário atual de elevado absenteísmo e de alta distorção entre o nível cursado e a idade apropriada, registrando-se um elevado número de matrículas da população com 15 a 17 anos de idade no ensino fundamental e não no médio. No que tange à educação infantil, os índices de atendimento brasileiros, embora se expandindo ano a ano, apresentam dois desafios de curto prazo: a gradual universalização das ofertas escolares para as faixas etárias de 5 e 4 anos de idade e a expansão do atendimento integral em creches ou estabelecimentos assemelhados para a faixa de zero a três anos de idade. Em Araputanga, a partir das estratificações populacionais acima expressas no quadro III, e considerando a estimativa demográfica do IBGE (e não a por nós projetada), chegamos à seguinte projeção de demanda por nível de atendimento educacional, considerando inicialmente para as matrículas em creche apenas as crianças com 2 e 3 anos de idade e já computando as crianças com 6 anos de 10 idade no universo de atendimento do ensino fundamental, conforme as prescrições legais vigentes e desconsiderando o prazo de 2010 para tal efetivação: Quadro VIII – Araputanga – Projeção estimativa de demanda por nível de atendimento educativo e faixas etárias, 2006. Vejamos agora os resultados oficiais do Censo Escolar de 2005, (MEC/INEP), que embora não anotando a idade dos matriculados, nos proporciona uma primeira e muito segura aproximação a partir do atendimento efetivo nas três redes existentes no município. Esse retrato nos possibilitará a relação entre a demanda estimada e o atendimento realmente verificado. Lembramos que o quadro abaixo expressa as matrículas iniciais registradas em março de 2005. Quadro IX – Araputanga – matrículas iniciais por dependência administrativa e nível de oferta na educação básica - 2005 Araputanga – Matrícula inicial - 2005 Ensino Fundamental (Regular) Dependência TOTAL Estadual Municipal Privada Creche PréEscola Educação Especial (Incluídos) Total 1ª a 4ª série e Anos Iniciais 5ª a 8ª série e Anos Finais Ensino Médio (Regular) Educação Especial Total Educação de Jovens e Adultos (presencial) FundaFundaTotal mental mental 148 545 8 2.973 1.497 1.476 1.035 100 38 83 23 0 0 8 1.823 556 1.267 970 8 8 83 23 148 463 0 973 838 135 0 0 0 0 0 0 82 0 177 103 74 65 92 30 0 0 Fonte: MEC/INEP, Censo Escolar 2005. 11 Cotizando as demandas estimativas por faixa etária (quadro VIII) e o atendimento por nível de oferta, retratado pelas matrículas (quadro IX), teremos a seguinte situação aproximativa: Quadro X – Araputanga – Projeção estimativa de demanda por nível de atendimento educativo e faixas etárias, 2006. Em relação ao atendimento em creches é importante ressaltar que se considerarmos o universo total de demandantes potenciais (aproximadamente 1.162 crianças com 0 a 3 anos de idade – quadro III segundo o IBGE), o percentual de atendimento passa a situar-se em 12,7%. Pelo mesmo critério (população total de 0 a 3 anos), o atendimento em creches em 2005 é de 8,3% em Mato Grosso e de 12,8% no Brasil. Em relação à educação infantil em escolas ou centros específicos, os indicadores de Araputanga apontam para uma universalização próxima (95,3%) e se distanciam das performances médias do Brasil, (com 61,6% de atendimento) e de Mato Grosso (com 44,9%). No que tange ao ensino fundamental, a matrícula bruta em Mato Grosso é de 110,2 % e alcança 110,7% no Brasil, em 2005. Neste caso, os números de Araputanga (105,1%) refletem certamente a baixíssima cobertura verificada para a população com 18 anos ou mais de idade. Em Mato Grosso os alunos com 18 anos ou mais, no ensino fundamental, representam 8,9% das matrículas totais. No Brasil, representam 11,3% e em Araputanga, considerando a oferta da EJA, equivalem a apenas 0,77%! Finalmente, em relação ao ensino médio, as matrículas brutas no município (107,8%) são superiores às verificadas em Mato Grosso (100,75%) e no Brasil (93,53%). 12 A progressão histórica das matrículas por nível de ensino e dependência administrativa está retratada abaixo: Quadro XI – Araputanga – Matrículas iniciais série histórica 2000 a 2005 2005 Estadual Municipal Privada TOTAL Creche PréEscola Fundamental 0 148 0 148 0 463 82 545 1823 973 177 2973 2004 Creche PréEscola Estadual Municipal Privada TOTAL 0 172 0 172 2003 1a4 5a8 Médio 556 838 103 1497 1267 135 74 1476 970 0 65 1035 Fundamental 1a4 5a8 Médio 0 530 106 636 1.911 995 218 3.124 537 826 124 1.487 1.374 169 94 1.637 PréEscola Classe Alf Fundamental 1a4 Estadual Municipal Privada TOTAL 0 251 80 331 0 0 30 30 2.124 958 244 3.326 2002 PréEscola Classe Alf Estadual Municipal Privada TOTAL 0 208 91 299 2001 Especial 8 0 92 100 EJA EJA Fund 83 0 0 83 23 0 0 23 Especial EJA EJA Fund 1.002 0 50 1.052 0 0 87 87 49 0 0 49 0 0 0 0 5a8 Médio Especial EJA EJA Fund 598 778 135 1.511 1.526 180 109 1.815 857 0 78 935 0 0 78 78 91 0 0 91 0 0 0 0 Fundamental 1a4 5a8 Médio Especial EJA EJA Fund 0 85 29 114 2.014 970 265 3.249 624 768 147 1.539 1.390 202 118 1.710 613 80 77 770 0 0 60 60 598 0 0 598 306 0 0 306 PréEscola Classe Alf Fundamental 1a4 5a8 Médio Especial EJA EJA Fund Estadual Municipal Privada TOTAL 0 206 92 298 0 0 23 23 2.329 1.123 231 3.683 654 930 136 1.720 1.675 193 95 1.963 491 74 80 645 0 0 58 58 399 0 0 399 0 0 0 0 2000 PréEscola Classe Alf Fundamental 1a4 5a8 Médio Especial EJA EJA Fund Estadual Municipal Privada TOTAL 0 221 78 299 0 0 51 51 2.606 1.097 265 3.968 916 925 157 1.998 1.690 172 108 1.970 487 58 62 607 0 0 0 0 363 0 0 363 0 0 0 0 Fonte: MEC/INEP Censo Escolar 2000 a 2005 Algumas evidências podem ser constatadas, reforçando o que dissemos acima sobre a alteração demográfica, mais uma vez aplicada à realidade local de Araputanga: a) As matrículas no ensino fundamental apresentam uma retração em números absolutos que é ainda mais evidente quando comparada à variação da população total; b) A expansão do atendimento concentra-se nas ofertas da educação infantil, seguida pelo ensino médio; 13 c) A educação de adultos, que representa como vimos a maior demanda educacional isolada, sofre um decréscimo acentuado nos anos mais recentes. E isso partindo de uma base anterior de atendimento que, mesmo no seu pico, já poderia ser considerada como absolutamente insatisfatória. Podemos inferir assim que o principal diferencial positivo da educação provida no território municipal se encontra nos índices de cobertura da educação infantil para crianças com 4 e 5 anos de idade. Por outro lado, embora seja satisfatório o indicador relativo às ofertas no ensino médio, (sem considerarmos as eventuais defasagens entre idade e série), a política educacional voltada aos adultos é praticamente inexistente. Essa situação, com a manutenção da baixa escolaridade dos pais, pelo nosso entendimento, tende a refletir-se negativamente sobre o aproveitamento educacional das crianças em todo o sistema, mas principalmente no ensino fundamental, com conseqüentes reflexos no ensino médio. Esclareço que nos colocamos entre os que defendem o entendimento de que o processo educativo guarda uma profunda e vertical dependência em relação aos ambientes familiares e sociais do entorno da criança e do jovem. Sem ambientes enriquecidos no seu cotidiano de vida, dificilmente a criança consegue suprir as suas demandas e aperfeiçoar as suas potencialidades contando apenas com os períodos e as atividades formais da escola. Uma lição à qual o Brasil se recusa criminosamente a aplicar é a de que sem um sólido processo formativo dos adultos, não há possibilidade real de superação das matrizes de desempenho educacional, por um lado, e das estruturas arcaicas de produção, distribuição de renda e consumo, por outro. Isso pode ser aprendido tanto no exemplo histórico da Coréia que, possuindo índices praticamente iguais aos brasileiros na década de 60, já conseguiu a erradicação prática do analfabetismo; quanto no exemplo atual da China que entre 1990 e 2004 reduziu em 50,48% o analfabetismo em números absolutos, enquanto o Brasil o reduzia em apenas 13,71% no mesmo período. Em ambos os casos a ampliação e qualificação do atendimento às crianças foram ou são concomitantes com a educação dos seus familiares adultos, com impactos positivos tanto no robustecimento da imagem social e da importância da educação, quanto no desempenho escolar desde as séries iniciais. Mais à frente será aberta uma rápida discussão sobre os rendimentos escolares atuais e o desempenho qualitativo das crianças e jovens nas principais escolas de Araputanga. Voltando à análise quantitativa, constata-se no período de 2000 a 2005 o decréscimo geral das matrículas tanto em números absolutos (de 5.288 em 2000 14 para 4.884 em 2005) quanto em números relativos, conforme demonstram os gráficos II e III, espelhando o comportamento total e por nível de ensino: Gráfico II – Araputanga - Matrículas totais na educação básica (da educação infantil ao ensino médio) sobre a população total (série histórica 2000 a 2005) Araputanga 39,00 38,20 Percentual das matrículas totais sobre a população 38,00 36,90 36,59 36,21 37,00 36,00 34,31 35,00 33,37 34,00 33,00 32,00 31,00 30,00 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Fonte: IBGE - Censo e estimativas populacionais e MEC/INEP - Censo Escolar, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Gráfico III – Araputanga - Matrículas na educação básica por nível de ensino (soma dos totais registrados na rede estadual, municipal e privada entre 2000 a 2005) Araputanga Matrículas por nível de ensino 35,00 (% sobre população total) 30,00 Fundamental Médio infantil creche adultos 25,00 20,00 15,00 10,00 5,00 0,00 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Fonte : MEC/INEP com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Ao examinarmos o comportamento por nível de oferta comparando-se 2000 com 2005 evidencia-se a retração de matrículas no ensino fundamental (- 28,71%) e na educação de adultos (- 77,13%), e a expansão no ensino médio (+70,51%) e na educação infantil (+ 98%, com as creches incluídas). O percentual de redução verificado no ensino fundamental é superior ao de Mato Grosso no mesmo período (25,07% pelos dados da PNAD ou 1,65% se consideramos o censo escolar), o que mais uma vez indica a provável superestimação do contingente populacional infantil pelo IBGE. 15 Focando o desempenho quantitativo das redes, o comportamento das matrículas totais faz despontar o acentuado decréscimo na rede estadual e o crescimento na rede municipal. É importante anotar que a rede particular registra uma redução de 28,94%, e não a de 8,77% anotada no gráfico, quando não consideramos as matrículas específicas da educação especial: Gráfico IV – Araputanga - Matrículas totais por dependência administrativa (educação básica) Fonte: MEC/INEP – Censo escolar, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Verificando agora o desempenho por nível de ensino, apenas na rede municipal, encontraremos as seguintes variações no período em análise: Gráfico V – Araputanga – Evolução de matrículas na rede municipal de educação Araputanga - Matrículas por nível de ensino (rede municipal) 1800 1600 Ensino Médio Fundamental V a VIII Fundamental I a IV Educação Infantil 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 2000 2001 2002 2003 2004 Fonte: MEC/INEP – Censo escolar, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. 2005 16 Em 2003 encerram-se as ofertas municipais do ensino médio5, verificando-se ato contínuo em 2004, o aumento das matrículas na educação infantil e as tendências de aumento nas séries iniciais do ensino fundamental e de redução nas séries finais. Em relação às ofertas totais existentes, públicas e privadas, a participação percentual da rede municipal é retratada abaixo: Gráfico VI – Araputanga – Evolução da participação da rede municipal de educação no total de matrículas por nível de ensino – 2000, 2003 e 2005. Participação da rede municipal em ofertas por nível de ensino 2000 90,0 2003 2005 80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 Infantil 1a4 5a8 Fonte: MEC/INEP – Censo escolar, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Contando em 2005 com 88,2% das matrículas na educação infantil, há uma clara tendência de expansão das ofertas municipais também no ensino fundamental. Além de responder por 56% das matrículas nas séries iniciais, a participação sobre as matrículas totais no fundamental apresenta uma evolução que vai de 27,6% em 2000 para 32,7% em 2005 (mesmo considerando o pequeno decréscimo relativo nas ofertas das séries finais). Pode-se inferir também uma tendência clara de equalização de matrículas entre as séries iniciais e finais do ensino fundamental, que reflete, com certeza, uma crescente regularização do fluxo, com a adequação entre idade e série cursada. Nos anos mais recentes verificamos que as matrículas nas séries finais (5 a 8) apresentam uma tendência constante de queda que possivelmente já se encontre muito próxima da estabilização. Em 2003 representavam 54,6%; em 2004 passaram a 52,4% e em 2005 situaram-se em 49,6% das matrículas totais (sendo que possivelmente este último dado já reflete a ampliação das matrículas para a faixa etária de 6 anos de idade). Em 2005 a distorção entre idade e série era de 15,8 nas Até 2002 a Escola Municipal Cleusa Braga Hortêncio, situada na comunidade de Botas, na zona rural (a 50 Km da sede aproximadamente), oferecia o ensino médio. Em 2003 tal oferta é legalmente transferida para o Estado, que continua a utilizar o espaço da escola municipal, agora na condição de extensão da Escola Estadual João Sato. 5 17 séries iniciais e de 31,5 nas séries finais. Em Mato Grosso eram de 25,4 e 41, respectivamente e no Brasil de 27 e 38,9. Com os cenários até aqui construídos, sedimenta-se a hipótese do abono demográfico à qual nos referimos acima, que também beneficia Araputanga. Essa situação trará impactos ao financiamento per capita e a eventual possibilidade de otimização das políticas locais no setor educacional, mesmo sem contar com fontes novas de recursos, além das legais obrigatórias. É óbvio que essa hipótese não considera as demandas potenciais da educação infantil em creches e da educação dos adultos, que não podem ser prescindidas em uma política estratégica de educação e desenvolvimento. Antes de passarmos à análise dos fatores econômicos e das suas relações com o financiamento do setor educacional, cabe uma rápida digressão sobre a qualidade atual da oferta. É relevante anotarmos o cenário mais amplo, e utilizamos para tal o programa PISA, onde o Brasil se situou na última colocação entre 39 países avaliados em 2003 em alfabetização em matemática e resolução de problemas. O PISA é aplicado aos jovens com 15 anos de idade, (na maior parte dos países, é a idade em que se inicia a última etapa formativa pré-universitária), e se divide em sete níveis de proficiência distribuídos em uma escala de zero a mil pontos. Abaixo, o posicionamento dos países: Gráfico VII – PISA 2003 – Médias Nacionais PISA 2003 (alfabetização em matemática) 550 500 450 400 Fonte: OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) PISA (2003) Learning for Tomorrow's World, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. China (Hong Kong) Coréia Finlândia Japão Holanda Bélgica Canadá Suiça China (Macau) Australia Nova Zelândia Islândia República Tcheca Dinamarca Suécia França Austria Reino Unido Irlanda Alemanha Noruega Eslováquia Polônia Luxemburgo Hungria Espanha Estados Unidos Federação Russa Itália Portugal Grécia Turquia Sérvia e Montenegro Uruguai México Tailândia Indonésia Brasil Tunísia 350 18 Tão preocupante quanto essas médias finais, é a posição ocupada entre os níveis de proficiência. Com 53,3% dos jovens ficando abaixo do nível 1, também nesse enfoque a liderança negativa é do Brasil. Isso implica em que mais da metade dos nossos jovens com 15 anos de idade não conseguem sequer resolver problemas de baixíssima complexidade, que seriam solucionados, em média, por crianças na faixa etária de 9 a 11 anos de idade. Não tratamos aqui do domínio conteudístico, pura e simplesmente; estamos nos referindo às habilidades básicas de formulação de raciocínios e formulação de pensamento. É importante lembrar que no nível 1 aquilata-se a existência de habilidade para responder questões envolvendo contextos familiares onde todas as informações relevantes para a solução estão presentes e os problemas são claramente definidos em seus enunciados, com as soluções podendo ser identificadas neles próprios. Dos nossos jovens repetimos, 53,3% se encontram em situação inferior ao domínio dessa capacidade. Gráfico VIII – PISA 2003 – Extremos de desempenho – percentuais nacionais 60,0 Inferior ao nível 1 Nível 6 a 7 Percentual de jovens nos níveis pior (inferior a 1) e melhor (6 a 7) 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 Fonte: OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) PISA (2003) Learning for Tomorrow's World, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Uma última anotação, não observável no gráfico, é que 1,2% dos jovens brasileiros demonstram habilidades compatíveis com os níveis mais elevados da avaliação (5 a 7). E aqui nos situamos em melhor situação que o México (0,36%), a Indonésia (0,23%) e a Tunísia (0,21%). O percentual brasileiro é próximo daquele que aponta o ingresso antecipado de 1,6% dos jovens com 16 anos de idade no ensino superior, em 2005, no Brasil. Mas na outra ponta desse indicador Hong-Kong possui 30,7%, a Bélgica 26,4%, a Holanda 25,5%, a Coréia 24,8% e o Japão 24,3% dos seus jovens nos níveis 5 Brasil Tunísia Indonésia Turquia México Uruguai Grécia Tailândia Itália Sérvia e Montenegro Portugal Federação Russa Alemanha Estados Unidos Hungria Espanha Bélgica Luxemburgo Polônia Noruega Austria Eslováquia Suécia França Reino Unido Suiça República Tcheca Japão Nova Zelândia Irlanda Dinamarca Islândia Australia China (Hong Kong) Coréia Holanda Canadá Finlândia -10,0 China (Macau) 0,0 19 a 7 da avaliação. Dos 39 países avaliados em 20 há no mínimo 12% dos jovens nessa condição, uma situação pelo menos 10 vezes melhor do que a do Brasil. Nesse cenário geral situamos a divulgação do „Prova Brasil‟, que pela primeira vez coloca à luz os resultados individualizados por unidade escolar. Frisamos que não discutiremos aqui quaisquer das questões relativas aos méritos ou fragilidades metodológicas do Prova Brasil, como também nos abstemos das necessárias considerações sobre o viés da análise política que recobre a realização de uma avaliação nacional de desempenho escolar, e o espaço que a mesma ocupa nas iniciativas recentemente colocadas em curso e que visam a conformação de um sistema de acreditação global sob a lógica orientadora da concepção da educação como um serviço mercantil regulado pela OMC. Enfatizamos também que a metodologia e a escala utilizadas pelo Prova Brasil são distintas das utilizadas no PISA, dividindo-se em 11 níveis para a Língua Portuguesa e em 12 níveis para a matemática. Em Araputanga, seis escolas participaram do Prova Brasil, sendo três delas vinculadas administrativamente ao município e três ao Estado. Em números absolutos foram avaliadas 160 crianças da 4ª série (94 da rede estadual e 66 da municipal) e 254 crianças da 8ª série (221 de escolas estaduais e 33 das escolas municipais). Não foram consideradas nesta análise, porém, as diferenças de desempenho por vínculo administrativo. Os gráficos abaixo apresentam os resultados com os níveis comprimidos em apenas 5 faixas de pontuação. As quatro primeiras faixas são compostas por dois níveis cada e a última é composta por três níveis no caso da Língua Portuguesa e quatro níveis no caso da Matemática. A numeração abaixo da nominação da escola corresponde à sua média geral em cada avaliação. O ranqueamento apresentado não considera as médias globais obtidas, e sim os melhores desempenhos nos níveis de pontuação mais elevados. Gráfico IX a – Prova Brasil 2005 – Araputanga, Língua Portuguesa 4ª série. Língua Portuguesa 4a. Série Até 150 150 a 200 200 a 250 250 a 300 300 ou mais 60 50 40 30 20 10 0 EM Rodolfo Trechaud Curvo (159,12) EE Nossa Sra. De Fátima (166,85) EE Joaquim C. Marques (170,13) EM José Evaristo Costa (176,45) 20 Gráfico IX b – Prova Brasil 2005 – Araputanga, Língua Portuguesa 8ª série. Língua Portuguesa 8a. Série Até 150 150 a 200 200 a 250 250 a 300 300 ou mais 60 50 40 30 20 10 0 EM Cleusa Braga Hortencio (202,89) EE João Sato (225,19) EE Nossa Sra. De Fátima (209,42) EE Joaquim A. C. Marques (225,34) Em uma análise perfunctória podemos observar que as principais diferenças entre o desempenho de estudantes da 4ª e da 8ª séries estão concentradas na primeira agrupação (até 150 pontos), com significativo decréscimo entre a 4ª e a 8ª, e na terceira (200 a 250 pontos), com significativo acréscimo. E é extremamente preocupante o baixo percentual daqueles que conseguem pontuação igual ou superior a 300. É interessante também verificarmos o desempenho da EE João Sato que possui o desenho médio mais acabado, entre as avaliadas na 8ª série, aproximando-se, em virtude disso, dos resultados finais da EE Joaquim A. C. Marques. Passemos agora à Matemática: Gráfico IX c – Prova Brasil 2005 – Araputanga, Matemática 4ª série. Matemática 4a. Série 80 Até 150 150 a 200 200 a 250 250 a 300 300 ou mais 70 60 50 40 30 20 10 0 EE Nossa Sra. De Fátima (171,15) EM Rodolfo Trechaud Curvo (170,31) EMPG José Evaristo Costa (172,26) EE Joaquim C. Marques (180,78) 21 Gráfico IX d – Prova Brasil 2005 – Araputanga, Matemática 8ª série. Matemática 8a. Série 70 Até 150 150 a 200 200 a 250 250 a 300 300 ou mais 60 50 40 30 20 10 0 EM Cleusa Braga Hortencio (222,96) EE Nossa Sra. De Fátima (237,41) EE João Sato (237,99) EE Joaquim A. C. Marques (237,5) Se relacionada à Língua Portuguesa, a Matemática apresenta aparentemente melhores resultados de aprendizagem. Não se verifica na 8ª série nenhum aluno com aproveitamento inferior a 150 pontos. E é significativo o número daqueles que se situam no quarto agrupamento (250 a 300 pontos). Mas também aqui muito poucos conseguem ultrapassar os 300 pontos na escala de avaliação. Uma síntese ilustrativa, agrupando agora em apenas três, as faixas de rendimento escolar, pela média total das seis escolas, nos dá uma rápida visão da performance comparativa entre a 4ª e a 8ª série: Gráfico X – Prova Brasil 2005 – Araputanga, média agrupada de desempenho Língua Portuguesa Matemática 100 100 4a Série 8a Série 90 90 80 80 70 70 60 60 50 50 40 40 30 30 20 20 10 10 0 0 até 200 200 a 300 300 ou mais até 200 200 a 300 300 ou mais Fonte (gráficos IX e X): MEC/INEP, Prova Brasil 2005, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. É curioso verificarmos que aproximadamente 20% dos alunos possuem na 4ª série um desempenho situado entre 200 e 300 pontos tanto na Língua Portuguesa quanto na 22 Matemática. E preocupante constatarmos que quase 20% em Matemática e 40% em Língua Portuguesa apresentam um desempenho inferior a 200 pontos, na 8ª série. A totalização também ressalta a baixíssima incidência dos que conseguem mais de 300 pontos em ambas as disciplinas. Embora enfatizando as diferenças metodológicas entre o PISA e o Prova Brasil, que não nos oferecem condições de adequação analítica, registramos, apenas como ilustração, que a pontuação mínima no PISA equivale a 357,77 pontos. Com essas considerações vemos que, se em relação à cobertura o ensino fundamental para as crianças representa um desafio já quase superado em Araputanga, não podemos dizer o mesmo no que tange à sua qualidade. E a qualificação formal docente não parece ser uma causa decisiva ou, menos ainda, suficiente. Um exemplo: das quatro escolas que participaram da avaliação da 8ª série, três possuem 100% do seu quadro docente com formação universitária (Cleusa Hortêncio, N. Sra. de Fátima e Joaquim C. Marques) e uma (João Sato) possui 89,5% dos professores com o terceiro grau. Na média geral a João Sato teve o melhor desempenho em Matemática e o segundo melhor em Língua Portuguesa. Em relação à 4ª série, 100% dos docentes da N. Sra. De Fátima, 91,7% da Joaquim C. Marques, 88,2% da José Evaristo Costa e 86,7% da Rodolfo T. Curvo possuem formação superior. A melhor média em Língua Portuguesa foi alcançada pela José Evaristo e em Matemática pela Joaquim C. Marques. Não queremos infirmar a importância da formação universitária, mas a constatação óbvia é que ela é insuficiente, por si, para assegurar a qualidade educacional necessária. Feitas estas observações sobre demandas quantitativas e qualitativas, avancemos para a análise dos recursos da educação. Financiamento da educação A aplicação dos recursos públicos em educação no Brasil é regulada na Constituição Federal e em legislações infraconstitucionais específicas. Atualmente a sua composição é integrada globalmente por um percentual mínimo vinculado, dos recursos provenientes de impostos (e compensações derivadas, como é o caso da Lei Kandir), arrecadados pelos municípios, estados ou pela União. Para estados e municípios o mínimo legal é de 25% e para a União de 18%. Em relação aos estados e municípios, verificam-se prescrições legais próprias nas constituições estaduais ou leis orgânicas que situam a vinculação mínima em patamares variáveis de 25% a 35%, configurando-se, porém, em exceção as vinculações superiores ao mínimo constitucional. A estas vinculações soma-se o salário-educação. Como acréscimos contingentes provenientes de políticas sociais, verificam-se o financiamento de 23 algumas ações ou programas transversais à educação, que guardam impacto sobre ela, citando-se como exemplo o Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Saúde do Escolar ou em outra vertente, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI, ou o FIES (antigo CREDUC) entre outros criados e mantidos pelos três entes federados. Uma parcela de tais gastos é bancada por fatias percentuais da Cofins, da CSLPPJ, da Contribuição sobre a Receita de Concursos de Prognósticos e da Renda Líquida da Loteria Instantânea. Em relação aos recursos ordinários, a criação do FUNDEF regulou patamares unificados de financiamento mínimo para o ensino fundamental no nível dos estados federados, mantendo, entretanto, significativas diferenças de custo per capita entre as unidades da federação, com variações que alcançam até 300% nos seus extremos. A estas desiguais bases de aplicação, somam-se as derivadas das condições econômico-financeiras específicas de cada município, que podem elevar as diferenças reais de financiamento para patamares superiores a 1.000%. Em municípios pequenos e com baixa base de arrecadação, também podem ser verificadas flutuações episódicas expressivas derivadas de impostos eventuais como, por exemplo, o ITBI. É importante ainda frisar que a partir da promulgação da Constituição em 1988, a voraz expansão tributária do Estado brasileiro tem ocorrido, fundamentalmente, por via de outros instrumentos fiscais como a constituição de fundos e a criação ou expansão de alíquotas de taxas e contribuições, que são isentas das vinculações à educação. Uma evidência clara dessa equação é que a carga tributária corresponde em 2006 a aproximadamente 38% do PIB brasileiro e os recursos aplicados na educação situam-se em patamares próximos a 4%. A história recente do financiamento e da gestão da educação no Brasil assemelhase a um folhetim de aventuras piratas, repleto de logros e saqueios. Participam de tais maquinações barões imperiais representados por cultos consultores de agências multilaterais; impolutos economistas; arautos bem pagos que justificam com sua voz e seus textos toda a sorte de espoliações dos seus patrões e espertos provincianos de todo tipo e tamanho. Suas urdiduras encontram o fértil solo do silêncio cúmplice e da ignorância indefensa e servil. As vozes dissidentes se escutam apenas nas páginas pouco lidas de alguns ensaios acadêmicos e na estridência muda de assembléias pouco freqüentadas. Com isso progridem os espertos sobre as naus infantis dilapidando por completo os tesouros de possibilidades desta triste nação sem destino, comandada por insensatos insanos. Além das pretensas espertezas sub-reptícias dos que governam a pátria, convivemos também com os afrontosos conluios, (de exemplar cinismo quando comparados 24 com os seus discursos), que gradualmente surripiam os recursos da educação que a Constituição buscou garantir. No caso da União, vigora desde o governo FHC a partir de 2000, reeditada pelo governo Lula através da EC 42/2003 até o início de 2007, a Desvinculação das Receitas da União – DRU, que reduz em 20% o mínimo fixado pela Constituição6. Com isso no balcão do Congresso, e sem muito alarido se opera mágica e alquimicamente a transformação de 18% em 14,4%. A ela se junta a Lei Kandir que desde 1997 isenta a exportação de produtos primários e semi-elaborados do pagamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A Lei Kandir previa o que se convencionou chamar de „seguro receita‟ que era obtido pela comparação da arrecadação do ICMS em relação à média registrada no período base de junho de 1995 a julho de 1996. Se o valor apurado fosse menor a diferença era depositada no último dia útil de cada mês. Entre 2000 e 2002 vigorou um valor fixo calculado pelo coeficiente de participação de cada estado. Em 2004, sob o governo Lula o mecanismo automático foi suspenso e os valores passaram a ser negociados a cada ano entre os estados e a União. O impacto para a educação em Mato Grosso foi brutal, como veremos mais à frente quando examinarmos as exportações. Denunciamos também um falso e repetitivo discurso que visa turvar as visões e embotar os pensamentos, que repete ainda que de maneira absolutamente inconsistente, a idéia de que os recursos para a educação são suficientes, mas mal aplicados. Se a má aplicação guarda uma profunda verdade, a suficiência dos recursos é uma afirmação que só pode ser explicada pela ignorância crassa em relação à situação no Brasil, ou pela má-fé. Mas a má aplicação não está como se diz abundantemente, nos recursos despendidos com o ensino superior público. Ele é necessário e estratégico. Vamos encontrá-la, isto sim, nas práticas usuais que financiam com recursos contabilmente imputados à educação desde a compra de materiais permanentes, passando por gastos de custeio e consumo e chegando à remuneração de pessoal sem qualquer A DRU é sucedânea do Fundo Social de Emergência - FSE que vigorou em 1994 e 1995 e do Fundo de Estabilização Fiscal – FEF que teve vida de 1996 a 1999. O bizarro argumento utilizado em relação aos fundos explicava que embora flexibilizassem a vinculação de algumas fontes, mantinham o destino da aplicação podendo inclusive ampliá-la. O que se verificou no período foi uma inexplicável flutuação dos valores de “retorno” sobre os recursos totais do MEC. Em 1994 equivaleram a 16%; em 1995 a 36,4%; em 1996 a 17,3%; em 1997 a 24,9%; em 1998 a 34,7% e em 1999 a 20,1%. Com a DRU foi abandonado o disfarce, assumindo-se claramente o pungueio. Em 2000, no seu primeiro ano de vigência, estimávamos uma redução em valores absolutos de R$ 1,93 bilhão. Em 2003 o prejuízo já estaria na casa de R$ 3,6 bilhões, chegando estimativamente a R$ 4,3 bilhões em 2004 e a R$ 6,4 em 2006. Este último valor foi denunciado pelo então candidato Cristovam Buarque em entrevista a OESP em agosto de 2006. 6 25 relação com o fazer educacional. Vamos encontrá-la em mecanismos mais sutis como o da distorção distributiva do FUNDEF que favorece os estados e pune os municípios, como veremos à frente. Mas vamos encontrá-la também nas práticas menos gráceis e cotidianas da corrupção em sentido estrito, para o enriquecimento pessoal ou o financiamento de campanhas. E podemos igualmente identificá-la na aplicação inconseqüente e ineficaz de que tantos programas e projetos são testemunhas, como por exemplo, a frustrada aventura da implantação dos Ciclos Básicos de Aprendizagem – CBA em Mato Grosso, ou mais recentemente o ridículo projeto “Eterno Aprendiz” de qualificação docente, também patrocinado pela SEDUC-MT. Mas ainda que conseguíssemos superar as conspirações mórbidas e perversas das equipes econômicas, as fraudes contábeis, os desvios criminosos e os débitos da inconseqüência e da incompetência, mesmo assim ainda faltariam recursos para financiarmos uma educação universal e de qualidade. Os gastos federais apresentam o seguinte comportamento, que explicita tanto as variações do FSE e do FEF quanto o impacto da DRU, patenteando as perdas históricas da educação. Gráfico XI – União – Despesas consolidadas em valores correntes, MEC e total de Órgãos e Poderes 1995 a 2004. MEC: Despesa executada em valores correntes 1.600.000.000 1.400.000.000 3,82 4,50 Despesa total de Órgão e Poder 4,00 Percentual da educação sobre a despesa total 3,23 1.200.000.000 Ministério da Educação 3,50 3,00 1.000.000.000 2,47 2,47 2,07 800.000.000 2,17 2,24 2,50 1,96 2,00 2,07 600.000.000 1,50 400.000.000 1,18 200.000.000 1,00 0,50 0,00 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Fonte: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 2006, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. A consolidação do gasto público total com a educação é um dado mais difícil e impreciso, pelas fragilidades na produção das informações e dos instrumentos de acompanhamento e controle. Sem condições para o levantamento acurado dos 26 dados em fontes primárias, utilizaremos a sistematização encontrada em Jorge Abrahão7, que cobre o período entre 1995 e 2002. Gráfico XII – Estimativa do gasto público com educação em valores correntes e como percentual do PIB, 1995 a 2002. Estimativa do gasto público da União, estados e municípios 1995 a 2002 4,4 70.000 60.000 R$ em valores correntes Em % do PIB 4,2 50.000 4 40.000 3,8 30.000 3,6 20.000 3,4 10.000 3,2 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Fonte: Jorge Abrahão, 2005. Em relação a 2002 os dados de Abrahão (R$ 57,9 bilhões) estão próximos das estimativas que fazíamos a partir de dados da STN, TCEs, Banco Central e Ministério do Planejamento (R$ 58,3 bilhões). Em relação a 2000 Abrahão aponta R$ 46,4 bilhões e nossas estimativas são de R$ 53,1 bilhões. De qualquer forma, há uma distância abissal quando comparamos tais valores e os recursos estimados necessários para a implantação de uma política educacional consistente. Em 2002 avaliávamos as necessidades da educação brasileira em R$ 134,09 bilhões, considerando políticas de atendimento massivo na educação infantil e EJA (incluindo a alfabetização), de qualificação e modernização das ofertas no fundamental e médio, e de expansão do ensino superior. Parcela desses recursos era contingente e de aplicação gradual, mas previa-se a necessidade de novos aportes anuais constantes de aproximadamente R$ 27,5 bilhões, implicando em uma aplicação permanente que alcançaria o montante de R$ 85,8 bilhões, em valores de 2002. Corrigido, tal montante alcança R$ 106,65 bilhões em 2005. Expostas essas premissas, iniciamos pela revisão histórica do comportamento do FUNDEF no período compreendido entre 1999 e 2005 em Mato Grosso. Abrahão, Jorge, Financiamento e Gasto Público da Educação Básica no Brasil e Comparações com Alguns Países da OCDE e América Latina, in Educ. Soc., Campinas, vol 26, n. 92, p. 841-858, Especial, outubro de 2005. 7 27 Lembramos que como o valor mínimo nacional sempre ficou abaixo do per capita registrado em Mato Grosso, o estado nunca registrou qualquer complementação da União na composição dos valores do FUNDEF desde a sua implantação em 1997. O gráfico abaixo apontará a progressão nominal dos repasses anualizados e o seu valor corrigido pelas perdas inflacionárias, mantendo 1999 como o ano de referência para a montagem da série histórica. É apontada também a variação percentual verificada em cada exercício, sobre o imediatamente anterior, considerando os valores corrigidos pelo seu poder de compra no mesmo ano de referência de 1999. Gráfico XIII – Araputanga – Transferências totais anuais recebidas do FUNDEF em R$ e variação percentual em relação ao ano imediatamente anterior (para os valores corrigidos, 1999 é igual a 1008) 20 1.200.000 Valores do FUNDEF 15 1.000.000 Valores nominais Valores corrigidos 10 Variação % real 5 600.000 0 400.000 -10 -5 200.000 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Fontes: STN e Banco do Brasil para os dados relativos aos valores nominais mensais do FUNDEF, IBGE – IPCA para os índices inflacionários, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Entre 2000 e 2005 verificamos em relação ao FUNDEF um crescimento médio real (sobre os valores corrigidos) de 5,33% ao ano, com picos de mais (+) 13,98% em 2002 e menos (-) 6,43% em 2003. Quando cotizamos esse desempenho com as matrículas verificadas no ensino fundamental da rede municipal de educação, chegamos aos valores per capita anuais. E sobre o valor per capita a média do crescimento real (também em valores corrigidos), é superior em 8,26% ao do acréscimo percentual sobre o volume total dos repasses, chegando a 13,59% ao ano. Isto se dá, principalmente, pela variação a menor das matrículas, refletindo o já analisado bônus demográfico. 8 Foram calculados os índices inflacionários tendo por referência o IPCA cheio do IBGE. % R$ 800.000 28 O pico a maior9 no valor per capita, considerando as receitas executadas, ocorre também em 2002, quando se registrou o melhor desempenho do agronegócio em Mato Grosso. Nesse exercício, o valor per capita alcançou uma elevação de 38,76% em relação ao ano anterior, aproveitando complementarmente (no caso específico de Araputanga), o decréscimo recorde de matrículas na rede municipal, que anotou –13,62% em relação a 2001. O pico a menor foi registrado em 2000, ainda assim com um crescimento de 0,96% em relação a 1999. Entre 2002 e 2001 registra-se a maior queda anual de matrículas como já vimos (-13,62%), e entre 2001 e 2000 verificamos uma elevação de 2,37% nas mesmas. A demonstração gráfica do desempenho do valor per capita no ensino fundamental, em Araputanga, pode ser conferida abaixo. O gráfico XIV-a toma por referência os valores recebidos em um exercício, dividido pelo número de matrículas do ano anterior. O uso dessa fórmula se atém ao mecanismo de funcionamento do FUNDEF que vincula o valor dos repasses em um dado ano ao número das matrículas oficialmente registradas no censo escolar do exercício anterior. Com o crescimento constante das matrículas no ensino fundamental suportado pelas redes municipais (Araputanga é um dos exemplos dessa realidade que é comum em Mato Grosso e no Brasil), e com o conseqüente decréscimo das mesmas nas redes estaduais, há uma distorção distributiva de aproximadamente R$ 400 milhões10 ao ano em desfavor dos municípios brasileiros. Em Mato Grosso, entre 1999 e 2001, apuramos uma distorção de aproximadamente R$ 41,6 milhões em prejuízo dos municípios, calculando um valor médio per capita atualizado em valores de 2002, de R$ 675,80 ao ano. Essa situação persiste até a data atual, embora tenhamos neste ano de 2006 o início da implantação da automatização do censo escolar, que era um antigo reclamo, que uma vez atendido poderá melhorar substancialmente a eficácia distributiva do eventual FUNDEB. O gráfico XIV-b, considerando a situação fática da gestão, divide os valores recebidos em dado exercício pelo número de matrículas daquele mesmo ano. Em ambas as simulações consideramos os valores já corrigidos tendo, porém, 1998 como o ano de referência. Os indicadores à esquerda (0,00 a 1.400,00) referem-se a valores em reais, os indicadores à direita (-40,00 a 160,00) referem-se às variações percentuais. A nominação das colunas possui o seguinte entendimento: M1998-R$99 significa que o O índice de 111% registrado entre 1999 e 1998 é atípico e deve-se ao momento de implantação do FUNDEF, com as adequações iniciais que o recobriram em MT. 10 Esse valor é referente à situação existente em 2002, tendo por base os valores estaduais do FUNDEF naquele ano e a variação das matrículas registradas entre 2001 e 2002. 9 29 valor per capita foi obtido pela divisão entre os recursos recebidos em 1999 pelas matrículas registradas em 1998, e assim, sucessivamente. Gráfico XIV a – Valor per capita para o ensino fundamental considerando o ano de referência das matrículas, aplicando-se sobre ele os recursos do ano posterior. Araputanga - Valor per capita - ensino fundamental 1400,00 aluno/ano nominal 160,00 aluno/ano corrigido 140,00 Variação % de R$ sobre ano anterior (valor corrigido) 120,00 Variação % de matrículas sobre ano anterior 100,00 1200,00 1000,00 80,00 800,00 60,00 600,00 40,00 20,00 400,00 0,00 200,00 -20,00 -40,00 0,00 M1998-R$99 M1999-R$00 M2000-R$01 M2001-R$02 M2002-R$03 M2003-R$04 M2004-R$05 Fontes: STN e Banco do Brasil para os dados relativos aos valores nominais mensais do FUNDEF, IBGE – IPCA para os índices inflacionários e MEC/INEP para os dados relativos às matrículas iniciais, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. No gráfico seguinte, os números inseridos nas barras representam: matrículas em números absolutos, valores em reais (R$) e índices de variação percentual. Os indicadores à esquerda expressam tanto as matrículas em números absolutos quanto os valores em reais (R$). Gráfico XIV b – Araputanga – Valor per capita para o ensino fundamental considerando os recursos recebidos e as matrículas verificadas no mesmo ano. 120 100 973 970 1.123 1.097 1.095 1.061 1.000 995 111,4 958 Matrículas Valor Nominal Valor Corrigido Variação % de R$ sobre ano anterior Variação % matrículas sobre ano anterior Fundef per capita 1.200 80 800 60 600 40 1111,97 1179,05 919,93 995,60 809,31 892,29 749,33 856,67 540,03 584,89 517,30 550,14 400 452,93 497,40 38,7 20,9 0 -2,21 M e R$ 2002 -1,24 -13,62 M e R$ 2001 3,86 8,0 2,37 0,18 20 13,7 4,4 3,20 214,22 200 214,22 14,2 -20 0 M e R$ 1998 M e R$ 1999 M e R$ 2000 M e R$ 2003 M e R$ 2004 M e R$ 2005 Fontes: STN e Banco do Brasil para os dados relativos aos valores nominais mensais do FUNDEF, IBGE – IPCA para os índices inflacionários e MEC/INEP para os dados relativos às matrículas iniciais, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. 30 O que se verifica é que mesmo diante de eventuais oscilações, e na situação retratada no gráfico XIV-b há uma tendência pelo incremento do montante per capita no ensino fundamental. É importante observar que essa tendência é acompanhada pela estabilização ou decréscimo das matrículas. Se esse dado pode nos oferecer uma condição de planejamento de médio prazo, o mais prudente será considerar uma margem variável anual situada entre menos 5% e mais 5% (em valores corrigidos), tendo por base o desempenho verificado no ano anterior. E a partir daí orientar a expansão da educação infantil e eventualmente da EJA (neste caso, contando com parcerias com o estado e a União). Exemplificando 2006 será, possivelmente, um ano atípico (a pior), se considerarmos a série histórica. Aponta, com segurança, para isso, o desempenho acumulado até agosto, se comparado com o ano anterior: Valores nominais: 2006 - 01/01 a 31/08: R$ 752.446,80 – Valor per capita realizado (jan a ago): R$ 712,54 2005 - 01/01 a 31/08: R$ 755.849,79 – Valor per capita realizado (jan a ago): R$ 776,82 Valores corrigidos11 : 2006 - 01/01 a 31/08: R$ 739.429,47 – Valor per capita realizado (jan a ago): R$ 700,21 2005 - 01/01 a 31/08: R$ 727.177,89 – Valor per capita realizado (jan a ago): R$ 747,35 Registramos no período uma variação a menor no valor per capita de R$ 47,14 ou 6,30%. Ressaltamos que dois fatores concorrem para essa queda: o fraco desempenho da economia, que manteve praticamente congelados os recursos em valores nominais e a ampliação estimada das matrículas na rede municipal, que alcança 8,53% em relação a 2005. O município apresenta a seguinte participação histórica no FUNDEF: Quadro XII – Araputanga – FUNDEF, deduções e recebimentos. Dedução efetuada Transferência Resultado final (ICMS, FPM e LC87) recebida 2003 1.001.397,05 855.032,24 -146.364,81 2004 1.106.386,14 990.617,91 -115.768,23 12 2005 1.354.744,24 1.147.220,11 -207.524,13 200613 1.365.000,00 1.100.000,00 -265.000,00 Total 4.703.233,19 4.075.650,15 -627.583,04 Fontes: STN, Banco Central e Banco do Brasil. Compondo as receitas, além dos recursos do FUNDEF, temos as transferências não voluntárias da União retratadas abaixo: Para a equalização dos valores, considerou-se 1999 = 100 e os índices inflacionários verificados até agosto de cada ano. Para 2005 considerou-se o número oficial de matrículas no ensino fundamental (973) e para 2006 o número estimativo (1.056). 12 Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional – STN/MF, Finanças do Brasil, Dados Contábeis dos Municípios, 2005. 13 Valor estimado. 11 31 Quadro XIII – Araputanga – Transferências não voluntárias recebidas PNAC PNAE PNATE QUOTA SE 200614 4.118,40 35.424,00 8.254,57 42.262,36 2005 8.100,00 53.352,00 27.840,00 53.492,47 2004 360 34.306,80 25.529,15 26.546,41 2003 217,44 34.190,00 2002 32.282,00 2001 31.174,00 2000 31.350,00 Fontes: MEC/FNDE e Banco do Brasil. E estas se somam às previsões orçamentárias de transferências voluntárias da União e do Estado, prevendo-se R$ 100 mil para o transporte escolar e R$ 38 mil para o Projeto Aplauso, em convênio com a SEDUC, registrando-se também em 2006 (embora sem previsão orçamentária específica) a transferência pelo FNDE de R$ 12.309,66 para a execução de projeto da educação infantil. Complementa o orçamento da educação municipal a participação sobre a arrecadação dos percentuais e impostos não adstritos à incidência do FUNDEF. Totalizados, tais recursos representam em 2006 aproximadamente 26,2% sobre os ingressos provenientes de impostos e transferências e 19,56% do orçamento total da Prefeitura. Exemplificando com os dados realizados de 2005, temos a seguinte situação: Das receitas orçamentárias previstas, registrou-se um acréscimo de 10,29% na receita corrente realizada (de R$ 13,161 para R$ 14,516 milhões). A receita proveniente de impostos diretos e transferidos alcançou R$ 10,965 milhões. Considerando a incidência de 10% e 25% mais recursos específicos de outras transferências intergovernamentais, a educação contou com um orçamento mínimo de R$ 2,822 milhões. Comparativamente, o município dispôs de R$ 1,944 milhão para investimentos (realizando R$ 832 mil em obras e instalações e R$ 1,112 milhão em equipamentos e material permanente). Sobre a receita corrente, os investimentos representaram 13,4% e os gastos com a educação 18,4%. Sobre as despesas correntes (de R$ 12,348 milhões), os percentuais foram respectivamente de 15,7% e 22,8%. Considerando a previsão orçamentária de 2006 verificamos que o município apresenta, em um cenário de comparações externas, uma situação de gastos educacionais previstos sobre a despesa pública total (19,56%) assemelhada à do Chile. É superior também às médias dos países que apresentam baixas Taxas de Dependência Demográfica – TDD em relação às crianças, como vimos acima principalmente nos exemplos da Alemanha, Coréia e EUA. A Nova Zelândia que possui 14 uma TDD Até julho de 2006. infantil um pouco maior (33), também apresenta um 32 comprometimento orçamentário superior. E os países ditos „emergentes‟, que possuem proximidades maiores com a realidade brasileira estão investindo em ritmo muito maior que o do Brasil. A diferença do comprometimento de despesa entre Araputanga e o Brasil é de 38,5%. Merece menção especial o fato de que entre os países selecionados o que possui a menor taxa de alfabetização na população com 15 anos ou mais é o Peru (87,7), seguido pelo Brasil (88,4), Malásia (88,7), México (90,3), Paraguai (91,6), Tailândia (92,6), Chile (95,7) e Argentina (97,2), sendo que os demais já erradicaram o analfabetismo. Assim não há surpresa que à exceção do Paraguai, que mantém valores muito próximos dos brasileiros, todos os demais estejam com um nível maior de investimentos educacionais. Gráfico XV – Gasto com educação como percentual da despesa pública Fontes: OCDE, Education at a Glance 2006, STN e Banco Central, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Em estudo recente15, a UNESCO avaliando as metas da Educação para Todos projetava também a situação do analfabetismo em 2015, considerando os ritmos verificados até 2004. A situação, que espelha também o volume dos investimentos apontados acima é a seguinte: Brasil (92,3), Peru (92,4), Malásia (93,3), México (94,6), Paraguai (94,8), Tailândia (95,7), Chile (97,2) e Argentina (98,1). O índice de Araputanga, embora expressivamente superior ao do Brasil, não nos assegura condições suficientes para o desafio de mais de cinco mil e seiscentas pessoas. E há razões sistêmicas que dão base à diferença constatada. Ela se explica 15 UNESCO, 2005 - Education for All Global Monitoring Report - Literacy for Life, 2006. 33 pela composição orçamentária dos entes federados e pelo modelo tributário brasileiro. No primeiro caso, o peso da dívida pública (interna e externa) compromete a maior fatia do orçamento da União; soma-se a isso a já apontada excepcionalidade da DRU (Desvinculação das Receitas da União) e a composição dos tributos que tem reduzido o peso relativo dos impostos em favor de outros instrumentos de arrecadação fiscal, e temos a pífia participação da educação sobre as despesas públicas totais da União. No segundo caso, a repartição da massa tributária reserva aos municípios entre 14 e 17% do total arrecadado (considerando também as transferências voluntárias dos estados e da União). Em 2000, por exemplo, a divisão federativa da receita tributária apontava a seguinte distribuição: União 59,5%, Estados 25,1% e Municípios 15,4%. Assim, os 25% serão aplicados apenas sobre a parcela de impostos que compõe os 39,5% da massa tributária dos estados e municípios. Está feito o milagre da conversão de 25 em 11. É importante frisar que a situação de Araputanga é comum à maioria dos municípios brasileiros. Mas há uma condição que a distingue, como vimos acima, a sua capacidade de investimento: Gráfico XVI – Gastos comparados com educação e investimentos Gasto municipal com educação e investimentos 2005 (% sobre receitas correntes) - (municípios selecionados) 40,0 Investimento bruto (recursos correntes) 33,3 35,0 Recursos ordinários da educação sobre receitas correntes 30,0 25,0 Investimento líquido (recursos próprios) 28,7 21,2 21,0 17,1 20,0 24,9 25,0 18,4 16,3 18,4 15,0 19,1 18,4 15,2 12,9 10,0 5,0 PONTES E LACERDA ARAPUTANGA FIGUEIROPOLIS VILA BELA VALE S. DOMINGOS PORTO ESPERIDIAO PORTO ESTRELA CUIABA CACERES QUATRO MARCOS JAURU RIO BRANCO MIRASSOL D'OESTE -5,0 CURVELANDIA 0,0 Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional – Finanças do Brasil - Dados Contábeis dos Municípios, 2005, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Sem ter firmado convênios de transferência de capital em 2005, Araputanga, ainda assim, apresentou o quarto maior volume percentual de investimentos entre os 34 municípios selecionados, situando-se no segundo posto quando o ranqueamento se faz pelo investimento líquido16. Daí podemos deduzir: a) que há uma margem considerável de decisão autônoma local na definição das prioridades de investimento; b) que o município apresenta um alto potencial de captação de recursos por via de parcerias intergovernamentais, reservando parcela da sua capacidade de investimento para alocação em contrapartidas a eventuais ações negociadas; c) que é possível o planejamento de políticas ousadas em cenários de média e longa duração, com a destinação de parcela dos recursos disponíveis, em modelos que otimizem parcerias e ampliem os recursos originários dos cofres municipais. Além das possibilidades governamentais, são também viáveis interlocuções com o setor produtivo, para (por exemplo, e entre outras possibilidades), definir-se por programas de agregação de valor à produção local com a edificação de arranjos produtivos locais e a expansão qualitativa das cadeias produtivas locais e regionais. Ofertas educativas adequadas à amplificação das atividades secundárias e terciárias e a ampliação da escolaridade média da sua população pode ser um caminho que consiga conjugar à expressiva demanda pela educação obrigatória dos jovens e adultos uma plataforma concreta de qualificação e diversificação criativa das atividades econômicas locais. Nessa hipótese a educação deverá ser pensada como um instrumento estratégico absolutamente fundamental e diferenciado em relação às novas projeções de inserção regional, nacional e global que o município possa querer alcançar. Ainda nessa linha, seria necessária eventualmente a revisão do Plano Plurianual para as impositivas adequações sistêmicas que seriam demandadas. Neste cenário teríamos uma profunda rediscussão conceitual sobre o sentido social da escola, seus novos papéis, funções, modelos e territorialidades e a radicalização do processo de planejamento participativo e ascendente, amplificando as práticas e gerando novos procedimentos de gestão que, setorialmente, foram inauguradas pela iniciativa do chamamento coletivo à edificação do Plano Municipal de Educação, liderado pela administração municipal e que dá causa e este trabalho, entre outros colocados em curso. Sem avançarmos nessa possibilidade, passemos à análise da LDO. A previsão orçamentária total da educação (com o FUNDEF incluído) registra os seguintes valores para 200617, em Araputanga: Consideramos investimento líquido a soma dos investimentos totais subtraída dos aportes provenientes de transferências intergovernamentais de capital, processadas por convênios com o Estado e a União. 16 35 Quadro XIV – Araputanga – Educação, valores orçamentários para 2006 Educação: Previsão orçamentária 2006 Atividade e nível de ensino R$ em 000 % Administração 149 5,09 Ensino Fundamental 2329 79,60 Educação Infantil 235 8,03 EJA 163 5,57 Educação Especial 50 1,71 Total 2926 100,00 Fonte: Prefeitura de Araputanga, Lei de Diretrizes Orçamentárias, 2006. Se cotizarmos as dotações orçamentários com os percentuais de matrículas estimadas para 2006 por nível de ensino teremos a seguinte relação e custo-alunoano: Quadro XV – Araputanga – Educação, estimativa de valores por atividade e nível de ensino. Custo Atividade e nível de R$ em % Matrículas % R$ aluno Matrículas ensino18 000 estimado Administração 149 5,09 1056 60,86 2205,49 Ensino Fundamental 2329 79,60 679 39,14 346,10 Educação Infantil 235 8,03 EJA 163 5,57 Educação Especial 50 1,71 1735 100 1477,81 Total 2926 100,00 Fonte: Prefeitura de Araputanga, Lei de Diretrizes Orçamentárias, 2006. É importante salientar que os valores espelhados no orçamento acabam geralmente por ser redirecionados, na execução efetiva das despesas, de maneira distinta da prevista. No caso específico, pesa principalmente a fase de implantação da obrigação legal da assunção das creches pelos órgãos municipais de educação. Como o preceito legal não veio acompanhado pelas necessárias adequações sistêmicas, (foram mantidos, por exemplo, programas e vinculações federais destinadas às creches diretamente às Secretarias Municipais de Assistência ou BemEstar Social, e não à Educação, entre outras), a administração plena da educação infantil ainda tem se dado de forma assistemática. Dessa forma, conta-se em alguns casos com o compartilhamento da gestão com órgãos do setor social; com o aproveitamento, de maneira oficiosa, de professores com vínculo legal com o ensino São considerados aqui apenas os recursos da educação. O orçamento global da Secretaria também abrange cultura, desporto e lazer, elevando seu orçamento total para R$ 3.407.000,00. 18 Como não há registro de atividades próprias na educação especial e na EJA podemos entender a consignação de valores como uma cautela orçamentária para assegurar o elemento de despesa em uma eventual decisão ou necessidade superveniente no transcurso do ano civil. Assegura-se também a eventualidade do repasse de tais recursos para atividades em parceria, via convênios específicos e especiais. Além de tais hipóteses, anotamos igualmente a possibilidade do remanejamento orçamentário para outro elemento de despesa. 17 36 fundamental, com a cessão, também oficiosa, de outros profissionais para a atuação na área (em alguns casos com vínculo com a saúde e em outros com a administração), além de outras práticas típicas de tais períodos de adaptação. Esse cenário certamente impactou a distribuição do custo/aluno por nível de oferta, como retratado no quadro acima. Certamente a execução efetiva do orçamento verá reduzida, ao fim do exercício, a estimativa de gastos no ensino fundamental, e acrescida a estimativa para a educação infantil. Em 2004 verificava-se no Brasil uma estimativa média de custo 33,7% mais alta na educação infantil, em comparação ao ensino fundamental. Se aplicarmos essa média verificada à Araputanga, teríamos um valor anual de R$ 1.305,62 para o ensino fundamental e R$ 1.745,61 para a educação infantil19. Com quaisquer dos números, entretanto, podemos inferir que o valor per capita do município situa-se um pouco acima das médias de Mato Grosso e do Brasil, porém muito abaixo das médias internacionais de investimento, como veremos ao final. PIB e informações econômicas comparadas Com base na situação retratada passamos à análise comparada do Produto Interno Bruto, verificando inicialmente a relação do desempenho de Araputanga com o verificado no estado e na União. Preliminarmente, porém, faremos algumas rápidas considerações sobre a base produtiva de Mato Grosso, Araputanga e do Brasil. Esclarecemos que essa análise tem por escopo não apenas a percepção da composição prospectiva das receitas, mas principalmente um dado entendimento do papel desempenhado pela educação na sociedade e na economia. Em modelos complexos a escolaridade da população se coloca como condição sine qua non tanto para a produção assentada no emprego tecnológico, quanto para o consumo interno, que reputamos como alicerce imprescindível das economias e a sua própria condição legitimadora. Mato Grosso O modelo econômico mato-grossense guarda atualmente profunda dependência da monocultura da soja, e secundariamente do algodão e da pecuária. Caracterizamos-nos como um estado exportador de commodities com um desenho social que acena estruturalmente para a ampliação do fosso entre os que detêm capacidade de investimento e bens de capital (no caso local, fundamentalmente a Essa é uma projeção subestimada, pois não considera as diferenças a maior no custo/aluno das séries finais do ensino fundamental e nem a quase certa transferência orçamentária que será verificada, pela inexistência de ofertas próprias para a EJA e a Educação Especial. 19 37 terra e as condições de acesso às máquinas e insumos de alta tecnologia), e os que se vinculam direta ou indiretamente aos serviços demandados por essas atividades da economia primária. A indústria de transformação, as atividades de inovação de uso dos recursos naturais (com base científica e tecnológica) e os serviços, (incluindo os que poderiam ser derivados do patrimônio cultural e natural), não são considerados com o devido e necessário cuidado estratégico pelo poder público. Nesse aspecto, embora sejam extremamente insatisfatórias e tímidas as iniciativas do Brasil, ainda assim guardam extrema distância daquelas encontradas em Mato Grosso. Com os resultados eleitorais recentes, que consolidam no poder político os representantes dos interesses diretos e imediatos da exploração primária, essa situação não deverá ser enfrentada nos anos próximos futuros. Deveremos assim, contar com a manutenção do modelo de produção de commodities destinada à exportação, como a principal característica econômica e produtiva de Mato Grosso. Sem alterações estruturais sistêmicas, permaneceremos adstritos às relações de interesse atuais e sujeitos às flutuações causadas pelas profundas dependências do cenário internacional do mercado de bens primários, que também afeta o país. Em uma perspectiva histórica é evidente a fragilização dos países e regiões que optaram por esse caminho caudatário, como foi o caso do Brasil e de Mato Grosso. Entre 1960 e 2001 as exportações mundiais sofreram as seguintes alterações tipológicas: Quadro XVI – Participação relativa dos produtos primários e dos bens manufaturados na exportação mundial ANO Alimentos 1960 2001 17,4 % 7,4 % Produtos agrícolas crus Minérios e metais 16,7 % 1,8 % 3,6 % 3,0 % Combustíveis Bens manufaturados 9,9 % 9,1 % 51,3 % 74,1 % Fonte: UNCTAD (2005) O quadro explicita a brutal redução relativa da participação dos produtos agrícolas crus, com uma queda de 89,2% no período, seguido pela que se verifica na exportação de alimentos, com 57,5%. Com menores índices, também decaem os minérios (16,6%) e os combustíveis (8,1%). Os bens manufaturados elevam a sua participação em 44,4%. Ao mesmo tempo, o valor dos produtos primários decaiu entre 1980 e 2003 de 15% para 10% sobre o valor global do comércio20. Estimava-se em 2003 o valor aproximado de U$ 9 trilhões de dólares para o comércio mundial. Isso implicaria em uma participação dos produtos primários de aproximadamente U$ 900 bilhões. 20 38 O impacto de largo prazo pode ser vislumbrado no gráfico abaixo que demonstra que à expressiva ampliação da produtividade no campo (aproximadamente 40% no período histórico), correspondeu uma igualmente expressiva redução na relação de troca (aproximadamente –20% no mesmo período). Essa relação manteve o poder de compra do setor relativamente inalterado, considerando as perdas inflacionárias. Gráfico XVII – Desempenho do agronegócio no mercado internacional (1991 = 100) 150 140 130 120 110 100 90 80 70 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 Série histórica Poder de Compra Relação de troca Produtividade Fonte: FIESP (julho de 2004), “O Sucesso da Agroindústria: O que se pode aprender?” – Estudo encomendado à MB associados. O que verificamos é que a ampliação da produtividade na economia primária tem servido apenas à manutenção das condições de reprodutibilidade da produção, com uma margem inelástica de ganhos, impossibilitando a formação desconcentrada de grandes poupanças ou capitais. A possibilidade da formação de capital é para o produtor situado na base do processo, uma eventualidade dificilmente verificada. E se tal equação se aplica às pessoas, não é diferente quando olhamos para os países e regiões. No gráfico abaixo veremos que entre 1965 e 2004, entre as regiões selecionadas (onde se concentram os „países em desenvolvimento‟), tanto a América Latina quanto a África Subsaariana apresentaram redução na sua capacidade de formação bruta de capital imobilizado. No caso da África Subsaariana o decréscimo foi de 18,5% (de 20,5% em 1965 para 16,7% em 2004). E na América Latina o desempenho foi ainda pior, caindo de 21,1% em 1965 para 16,5% em 2004. Uma diferença de 21,8%. As prioridades definidas nos anos 80 marcam hoje os fossos de desenvolvimento com os quais convivemos. No mesmo período a Ásia (excetuando-se a China) teve um crescimento de 25,7% e a China de 109,1%. É desnecessário lembrarmos que em ambos os casos a prioridade foi dada a um modelo que compatibilizava (e que ainda está em curso), a expansão da 39 escolaridade média, a inovação científica e a produção de bens e serviços de alta e média complexidade tecnológica. Gráfico XVIII – Formação bruta de capital fixo21 Formação bruta de capital - países e regiões selecionadas, 1965 - 2004 50 China Ásia (excluindo a China) América Latina África Sub-Saariana 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 1965 1967 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2004 Fonte: UNCTAD, Trade and Developmente Report, 2006 com elaboração gráfica do autor. Voltando à nossa economia de base primária, veremos que a lógica da concentração se manifestará aqui, tanto em relação à produção em si quanto (e principalmente), em relação à preponderância das corporações de mediação comercial, que na maioria dos casos embutem nas suas ações o financiamento direto, a securitização e a compra antecipada, entre outros mecanismos que asseguram um controle semipleno do mercado setorial. É basicamente nessas corporações que o capital excedente se concentra, assumindo um papel, aparentemente pouco observado, de efetiva regulação e domínio das condições de produção e preço. São essas corporações que, em última análise, possuem a capacidade de ditar o ritmo econômico, subordinando tanto as atividades dos setores privados dependentes, quanto (na maior parte dos casos), a própria elaboração das políticas públicas, aos seus interesses próprios e exclusivos. É o caso atual de Mato Grosso onde se verifica um temerário e voraz ritmo concentrador nos anos recentes, patenteando uma clara vinculação de Valor total dos investimentos brutos (sem deduzir o uso devido à depreciação e obsolescência) em capital fixo (máquinas e equipamentos, estruturas e edificações, rebanhos e culturas permanentes) realizados pelos setores públicos e privados em um determinado ano. A relação entre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e o PIB a preços correntes corresponde à Taxa de Investimento. A FBCF refere-se aos acréscimos ao estoque de capital fixo realizados a cada ano, visando ao aumento da capacidade produtiva de um país ou de uma dada região. 21 40 dependência da economia do Estado ao desempenho de algumas poucas empresas. Considerando apenas as sete maiores organizações comerciais exportadoras verificaremos a seguinte evolução da sua participação sobre o total das exportações: Quadro XVII – Mato Grosso - Participação das 7 maiores empresas22 sobre as exportações totais do estado. 2006 2003 2004 2005 (até setembro) 65,41% 66,35% 68,59% 68,79% Fonte: MDIC/SECEX. De 2003 a 2005 duas dentre essas sete empresas (Bunge S.A. e Amaggi Ltda) responderam isoladamente por 37,2% das exportações em 2003, 35,4% em 2004 e 34,6% em 2005 (sendo que o decréscimo nesse ano deveu-se à acentuada redução da participação relativa da Amaggi que caiu de 17,47% em 2004 para 13,8% em 2005, com uma queda no mercado exportador de 21% de um ano para o outro). Mas é importante percebermos que nesse período foi negociado e concedido o empréstimo de U$ 30 milhões de dólares da International Finance Corporation - IFC (que é uma subsidiária do Banco Mundial) ao Grupo Amaggi. Essa operação pode ser entendida como uma senha à comunidade financeira, indicando uma nova condição de confiabilidade dada à corporação e selando a trajetória iniciada no final dos anos 90 e início dos anos 2000 de aproximação entre o grupo e a comunidade financeira internacional. Efetivamente, logo após o endosso da IFC a empresa do governador captou em um contrato de empréstimo sindicalizado mais U$ 230 milhões de dólares, de um consórcio de 11 bancos que, liderados pelo Rabobank holandês, inclui também o ING Bank (Holanda), HSBC (Reino Unido), BNP Paribas (França), Crédit Suisse First Boston (Suiça), UFJ Bank (Japão), WestLB (Alemanha), Fortis Bank (Holanda/Bélgica), HSB Nord Bank (Suécia), Banco Bradesco e Banco Itaú (Brasil). A leitura que fazemos de tais movimentos aponta para a constituição de uma condição de interlocução e decisão privilegiada que passa a ser ocupada pela família Maggi junto às representações do capital financeiro internacional. Entendemos que em tal situação desenha-se uma inserção caudatária do estado na economia global, com uma profunda conjugação de interesses privados passando a nortear as políticas públicas locais. Em 2005 as 10 maiores empresas exportadoras eram pela ordem: Bunge Alimentos S/A, Amaggi Exportação e Importação LTDA, ADM do Brasil LTDA, Cargill Agrícola S/A, Inlogs Logística LTDA, Comércio e Indústrias Brasileiras Coinbra S/A, (não identificamos a sétima colocada), Friboi LTDA, Sadia S.A. e Companhia Brasileira de Distribuição. 22 41 Sem negar a possibilidade de alguns avanços relativos à agregação de valor à produção local, (com produtos semi-elaborados, por exemplo), não temos receio, porém, em afirmar que estes avanços apenas serão verificados se estiverem em consonância com os interesses dos prestamistas acima referidos e dos grupos econômicos que representam. Acreditamos que o papel ora desempenhado pelo governador do estado traz embutida em sua nova condição pessoal a assunção de um papel implícito reservado para Mato Grosso na distribuição internacional da produção e do trabalho: transformar-se em uma região fornecedora de proteína vegetal e/ou animal com baixo valor agregado aos mercados mundiais de consumo, principalmente os europeus e mais especificamente o holandês, que é isoladamente o destino final de aproximadamente 25% das exportações totais de Mato Grosso. Em 2004 já era clara essa evidência se analisados os destinos das nossas exportações: Quadro XVIII – Exportações de Mato Grosso, por blocos econômicos (em U$ milhões FOB23) Incremento 2004 Participação Blocos Econômicos em % U$ milhões em % 2004 / 2003 União Européia 1.569 50,6 27 Assoc. Européia de Livre Comércio 94 3,0 14 Ásia (exclusive o Oriente Médio) 930 29,9 71 Oriente Médio 202 6,5 109 América Latina – ALADI (exclusive Mercosul) 86 2,9 57 Demais 219 6,6 29 Total 3.100 100 42 Fonte: MDIC/SECEX E se verificamos a composição da pauta de exportações encontraremos na série histórica uma tendência cristalina para a redução da importância relativa dos produtos manufaturados e semimanufaturados e para a concentração nas commodities. Isso ocorre principalmente pela expressividade alcançada pela soja. Servindo como a cultura carreadora da expansão agrícola, a soja se implantou em uma matriz de pretensa modernização produtiva, com alta dependência tecnológica, química e mecânica, e profunda inserção na lógica de mercado, privilegiando os processos de produtividade maximizada por trabalhador e por hectare. FOB - Free on Board - Incoterm significa que o vendedor entrega a mercadoria, desembaraçada para exportação, quando ela transpõe a amurada do navio no porto de embarque. O comprador suporta todos os custos e riscos somente a partir daquele ponto. Aplicável a transporte marítimo ou hidroviário. 23 42 É uma estrutura produtiva que pressupõe a existência de latifúndios como condição inerente ao ganho de escala e à competitividade do preço. Podemos defini-la como capital-dependente e poupadora de postos de trabalho. Não obstante, além de não ter conseguido impedir as velhas práticas sociais, mantendo Mato Grosso como estado líder na ocorrência do trabalho escravo, e do óbvio impacto que tem causado ao patrimônio natural, pela expansão do desmatamento, em pouco consegue alterar a distribuição da renda no estado, fazendo-o, ainda assim pelo seu pior viés, com uma redução absurda daqueles que se encontram nas faixas mais altas de renda, como podemos verificar ao examinarmos a renda do trabalho da PEA ocupada da área rural de Mato Grosso. Gráfico XIX – Mato Grosso, PEA ocupada por faixas de renda (em salários mínimos SM) Mato Grosso População na área rural por faixas de rendimento (em números absolutos - gráfico em escala logarítmica) 1 000 000 454 226 375 848 416 524 418 066 100 000 70.854 69 629 63 128 78 861 10 000 5 467 3 960 3 488 1.987 1 000 1996 2003 Até 2 SM 2004 Mais de 2 a 10 SM 2005 Mais de 10 SM Fonte: IBGE, PNADs dos anos referidos com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Não há erro nos números. Em 2005 apenas 1.987 pessoas que trabalhavam na zona rural possuíam remunerações superiores a 10 salários mínimos. Eram 5.467 pessoas em 1996, ano a partir do qual se inicia a explosão da soja em Mato Grosso! Os que recebiam remunerações de até 2 salários mínimos eram 375.848 em 1996 e passam para 454.226 em 2005. A faixa da população com ganho intermediário (entre mais de 2 até 10 salários mínimos), apresenta pouca variação. Eram 69.629 em 1996 e passam a 70.854 em 2005. Um saldo preocupante para dez anos de „intenso progresso‟. É o caso de se perguntar: o „progresso‟ está beneficiando a quem? É esse modelo, entretanto, que tem assegurado aos produtos primários, desde 1997, um percentual superior a 80% sobre o total dos bens e produtos exportados por Mato Grosso, e um crescimento das exportações que quadruplicou o seu valor entre 2000 (U$ 1.033 bilhão) e 2005 (U$ 4.151 bilhões), conforme se demonstra: 43 Gráfico XX – Composição histórica da pauta de exportações de Mato Grosso por tipologia de produção. Mato Grosso - Valor dos produtos exportados por tipologia (em U$ FOB) e composição das exportações por tipologia de produtos (gráfico menor) 4.500.000 100% 4.000.000 80% 3.500.000 60% 3.000.000 40% 2.500.000 20% 2.000.000 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1993 1994 0% 1.500.000 1.000.000 500.000 Commodities Semimanufaturados 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 0 Manufaturados Fonte: MDICE – SECEX, Depla, 2005. Se não verificamos a mobilidade positiva dos trabalhadores entre as faixas de renda no campo, também não vamos encontrar aumentos expressivos na renda total da PEA na cidade. Comparando apenas o faturamento das empresas exportadoras com a massa da renda total do trabalho na cidade e no campo temos a seguinte situação: Gráfico XXI – Mato Grosso, faturamento das exportações e renda do trabalho Valor anual das exportações e da renda da PEA (urbana e rural) em Mato Grosso 12.000.000.000 12 2005 R$ 2004 R$ Crescimento % 2005/2004 10.000.000.000 10 8.000.000.000 8 6.000.000.000 6 4.000.000.000 4 2.000.000.000 2 0 0 Grãos e derivados Algodão, Cana e derivados Carne e derivados Madeira e derivados Pedras, Minerais e derivados Outros Total Renda Total Renda Total da PEA na da PEA no Cidade Campo Fontes: IBGE, PNADs 2005 e 2004 para a renda da PEA; MDICE – Secex, Balança Comercial Brasileira, para os produtos e valores da exportação e IPEA para a cotização anual média do dólar comercial – venda, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. 44 Entre 2004 e 2005 enquanto o faturamento das exportações cresce quase 12%, a renda dos trabalhadores na cidade se amplia em aproximadamente 5% e no campo 7%. Com o inegável peso da agricultura e subsidiariamente da pecuária e do extrativismo, não vemos sinais de reversão da tendência ora observada; ao contrário disso, devemos caminhar para o robustecimento dessa trajetória. Examinemos alguns dados recentes sobre a agricultura e a pecuária e a sua participação no cenário nacional. Em relação à produção agrícola brasileira, Mato Grosso detinha em 2003: 45,91% do algodão herbáceo, 23,5% da soja, 16,96% da borracha e 13,10% do sorgo. Naquele ano, a soja e o algodão significaram ingressos de quase R$ 8 bilhões (R$ 6.717 da soja e mais R$ 1.235 do algodão). Embora tenham participação relativa significativa no mercado nacional a borracha (com R$ 31 milhões) e o sorgo (com R$ 42 milhões) apresentam pouca expressividade na economia estadual. Em relação à ocupação do território, a existência de grandes extensões de planícies oferece uma condição diferenciada, com uma vantagem comparativa que tem sido entendida como uma „vocação natural‟ que faz avançar a agricultura mecanizada sobre o cerrado mato-grossense. Levantando a área colhida podemos ter um retrato dessa expansão nos anos recentes: Quadro XIX – Área colhida dos principais produtos agrícolas de Mato Grosso (em ha) Safras Algodão herbáceo Arroz (em casca) Café (em coco) Cana de Açúcar Feijão Mandioca 1990 43.422 355.210 72.097 50.675 70.627 1995 69.390 417.074 16.292 98.906 2000 257.762 698.518 35.323 2004¹ 469.780 738.165 34.517 Milho Soja Sorgo 27.004 270.283 1.522.754 10.528 36.915 23.764 439.390 2.322.825 18.718 118.506 28.326 27.317 541.792 3.121.353 100.780 206.829 43.476 37.341 941.092 5.263.428 183.291 Fonte: IBGE/PAM-2004 ¹previsão de safras sujeita as retificações Registra-se entre 1990 e 2004 um crescimento de 226,8% com o acréscimo de 5,5 milhões de ha em área colhida. A soja que detinha 62,84% da área total em 1990 passou para 66,47% em 2004, liderando o processo. Também expandiram: o algodão que saiu de 1,77% para 5,92%, e o sorgo de 0,43% para 2,31%. Com menor expressividade também apresentam crescimento a cana de vai de 2,09% para 2,61% e o milho de 11,15% para 11,88%. Tiveram redução na área colhida: o café, de 2,97% para 0,43%, o feijão que vai de 2,91% para 0,54%, a mandioca, de 1,11% para 0,47% e o arroz que cai de 14,65% 45 para 9,32%. Vemos também, com isso, que a expansão está calcada nas culturas que possuem a maior demanda por insumos químicos e mecânicos e que estão voltadas quase que inteiramente ao mercado de exportação (soja, sorgo, algodão) ou a uma base mista de comercialização nacional e internacional (derivados energéticos e alimentares da cana, principalmente). As culturas mais tradicionais, voltadas ao consumo interno e geralmente localizadas nas pequenas e médias propriedades, como o arroz, o feijão e a mandioca perdem espaço no novo modelo, ou apresentam crescimento retraído (milho) refletindo uma tendência nacional. Voltando-nos à pecuária, a percebemos como um forte componente da estrutura sócio-econômica do setor produtivo mato-grossense, concentrando 12,6% do rebanho nacional. Cáceres com 892 mil cabeças, Juara com 874 mil e Vila Bela da Santíssima Trindade com 807 mil lideravam em 2003 a participação no rebanho do estado, sendo que Cáceres possuía o quinto maior rebanho entre os municípios do Brasil. No período recente de 2000-2003, enquanto o país cresceu a uma taxa de 4,8 %, Mato Grosso cresceu a um ritmo de 9,2% ao ano, passando de um rebanho de 18,9 milhões para 24,6 milhões de cabeças. Existem instaladas no estado, vinte e sete (27) unidades frigoríficas, a maioria delas credenciada para a exportação. A pecuária extensiva, embora apresente uma produtividade insatisfatória, representa o segundo maior rebanho estadual nacional. No setor de pecus destacam–se ainda a pecuária leiteira, a suinocultura, a avicultura (carne e ovos) e a apicultura, que experimentam processos significativos de aumento da produção e modernização das atividades em diversas regiões do estado. Mas possuem ainda pequena participação na economia estadual e na produção brasileira, ficando a vara de suínos, por exemplo, com 3,45% do total nacional, o leite com 2,2% e os ovos com 1,76%, em 2003. O quadro abaixo numera os principais rebanhos, a produção de carne, leite e ovos, em anos recentes, em Mato Grosso: Quadro XX – Principais indicadores da produção pecuária Especificação 2001 2002 2003 19.921 22.184 24.614 Abate de Bovinos-1000 toneladas 505 591 645 Efetivo Suínos -1000 cabeças 933 1.035 1.115 Abate de Suínos - 1000 cabeças 176 273 468 442.803 467.095 491.370 33.653 40.439 46.259 Efetivo Bovinos -1000 cabeças Produção de Leite - 1000 litros Produção de Ovos - 1000 dúzias Fonte: IBGE/PAM-2004 46 O Estado de Mato Grosso nos últimos anos vem apresentando taxas de crescimento do PIB superiores às médias regionais e à nacional. Esse desempenho vem sendo sustentado, como vimos, pela expansão das atividades do agronegócio e pelo seu desempenho nas exportações, ressaltando-se, porém, a alta dependência sistêmica da economia local, conforme já apontado. Em 2004 a receita corrente do Estado foi de aproximadamente R$ 5,2 bilhões. A arrecadação tributária representou 61% desse total. O ICMS que é o principal imposto respondeu isoladamente por 56% de toda a receita. Em conjunto com os Fundos de Participação do Estado e dos municípios, constituem aproximadamente 98% do FUNDEF, com o FPE e FPM respondendo por 28% e o ICMS por 70%. Com esse peso fica clara a importância do entendimento da sua composição e desempenho, pelo impacto que causa ao financiamento da educação. Quadro XXI – Mato Grosso - Arrecadação do ICMS por setor de atividade, 2004. Composição do ICMS Setor de Atividade Substituição Tributária Comércio Indústria Comunicação Energia Elétrica Transporte Agricultura Pecuária Ação Fiscal ICMS Diferença de Alíquota Importação Cor.Mon.ICMS Exportação Total do ICMS R$ 942.815.833,49 652.290.687,33 292.560.614,88 279.034.481,20 276.755.520,42 130.071.541,20 122.656.529,04 78.945.695,95 96.034.660,67 66.213.624,24 5.764.200,37 5.707.785,34 24.266,29 2.948.875.440,42 % 31,97% 22,12% 9,92% 9,46% 9,39% 4,41% 4,16% 2,68% 2,42% 1,76% 0,24% 0,20% 0,00% 100,00% Fonte: Guidance - Relatório ACHPC ajustado - 2004. Embora a arrecadação tributária direta sobre a agricultura tenha representado apenas 4,16% sobre o total do ICMS em 2004, o seu peso relativo é evidentemente maior e substancialmente expressivo quando se verificam os impactos sobre a renda dos serviços, em especial os setores de combustíveis, finanças, comunicações e produtos químicos, entre outros. O setor primário, no seu conjunto, considerando também o extrativismo da madeira e os produtos semimanufaturados respondeu de forma direta por aproximadamente 15% do total do ICMS. Podemos deduzir assim que a sua contribuição direta para a educação é de aproximadamente R$ 110 milhões. Mas se computarmos os efeitos imediatos e em cascata que acarreta a setores de forte participação contributiva, se duplicarmos esse montante estaremos com uma margem de erro muito pequena. Tratamos então de algo em torno de R$ 220 milhões, em um universo de aproximadamente R$ 47 1,2 bilhão de reais, que estimamos como a despesa pública com educação no estado em 2006. Considerando então uma queda abrupta como não foi ainda verificada em anos recentes, de 10% linear e universal para todo o parque produtivo primário, poderíamos ter no universo da arrecadação uma redução de aproximadamente R$ 22 milhões, que seria acompanhada por uma provável retração de iniciativas econômicas em outros setores. Somando a perda direta de 1,83% (representada pelos R$ 22 milhões) com uma estimativa acautelatória de 3,0% computada à conta de uma contingente recessão, teríamos um tenebroso cenário a impactar negativamente o financiamento em aproximadamente 5%. Embora aparentemente não seja um número assustador, pesam sobre ele as perspectivas de um planejamento de maior fôlego, que poderia ser prejudicado, e a possível e eventual existência de mecanismos inerciais não controláveis de aumento automático das despesas, que podem estar representados na expansão inconsistente de atendimento que crie despesas permanentes de manutenção e custeio, por exemplo. Ademais, pela extremada dependência que apresenta em relação a dois ou três produtos básicos e à plataforma de comercialização pela exportação, uma crise em tais moldes pode possuir uma duração maior, pois implicaria em uma alteração incapaz de prescindir da base produtiva instalada, levando obviamente à restrição das escolhas e possibilidades. O que representaria uma eventual necessidade de rodízio de culturas? O arroz terá mercado? O sorgo? Quais são os limites da cana ou de outros substitutivos energéticos, como a mamona? Se chegarmos a isso pagaremos o preço de não termos fortalecido as capacidades de consumo da população local, de não termos gerado iniciativas que pudessem ampliar a sua ação autônoma, de termos optado por um modelo que não gera poupança, que não distribui renda e que não amplia a capacidade social de causar. Não se fecham todas as saídas, mas se reduzem as possibilidades criativas das soluções. A vulnerabilidade do modelo mato-grossense começa a ser sentida mais fortemente já a partir de 2005 com a conjugação negativa de fatores que reduziram com grande impacto os rendimentos da soja. De um lado, os efeitos da valorização do real frente ao dólar, de outro a subida dos preços dos insumos, combustíveis e transporte. A isso se soma a queda internacional nos preços das commodities e em especial da soja com a boa colheita da safra americana, e o cenário de dificuldades está formado. Ainda no final de 2005 o governo se via obrigado a negociar o contingenciamento orçamentário com os demais poderes para tentar reduzir os impactos da crise que já se refletia no setor público. 48 Esse viés tem sido predominante na história econômica do estado, com a alternância apenas dos produtos que lideram os sucessivos ciclos com seus fluxos e refluxos de crescimento e renda. Acreditamos que não se trata aqui das condições modernizadas ou não da produção, apenas. O extrativismo mineral contava, em sua época inicial, com tecnologias de exploração apropriadas; as usinas matogrossenses no período áureo da cana possuíam capacidade tecnológica de ponta e produziram importantes capitais privados, apresentando igualmente um alto grau de inserção internacional. O mesmo se verificou com maior ou menor intensidade e em outras frentes de produção como, por exemplo, na experiência de indústrias de transformação de carne, inicialmente com capital belga. Aos setores que apresentavam maior uso tecnológico correspondia também a coexistência de bases com baixíssimo emprego de tecnologias, como na exploração da poaia, do ouro e outros recursos minerais ou não minerais em garimpos ou frentes de exploração não reguladas e da pecuária extensiva, que ainda se mantém ostentando predominantemente péssimos índices de produtividade, não obstante a importância econômica da atividade e a sua expressiva participação no mercado nacional e internacional. Acreditamos que a baixa dependência de recursos humanos qualificados na estrutura produtiva do Estado, que é claramente apontada nos vários indicadores de escolaridade, reflete bem o modelo atual. Mato Grosso é, entre os estados do Centro-Oeste, o que melhor remunera o trabalho da PEA com 4 anos ou menos de escolaridade e o que pior remunera a PEA com formação superior. É o estado onde encontramos também as melhores oportunidades de rendimento para a população com 7 anos ou menos de escolaridade. Em Mato Grosso a PEA que não concluiu a educação obrigatória representa 24% dos que recebem 10 ou mais salários mínimos, na estratificação da renda; em Goiás são 21%, em Mato Grosso do Sul, 20% e no Distrito Federal apenas 3%. No Brasil representam 13%. Paradoxalmente, ao invés de discutirmos os necessários marcos de avanço, nos vemos obrigados a esgrimirmos defesas que reduzam riscos e impeçam perdas maiores do que as já verificadas. É pouco. Muito pouco para um estado que oferece tantas oportunidades e detém tantas riquezas, como Mato Grosso. Araputanga A economia municipal possui características distintas das que orientam o processo recente da economia estadual. Na agricultura, a principal presença é da cultura do milho. Em 2003 respondeu por 73,2% da área colhida e 63,0% do faturamento agrícola municipal. As culturas tradicionais da mandioca, do feijão e do arroz se mantêm voltadas ao consumo interno, principalmente; e entre as lavouras 49 permanentes destaca-se o maracujá que, embora detendo apenas 0,8% da área colhida, foi responsável por 7,9% do faturamento: Gráfico XXII – Araputanga - Principais produtos agrícolas, produção e valor, 2003. Araputanga - Produção Agrícola 2003 (Gráfico logarítmico) R$ 1.896 10.000 Área colhida (ha) Valor (R$ 1.000) 2.000 R$ 188 R$ 238 400 R$ 290 R$ 350 1.000 250 40 22 R$ 18 R$ 19 100 15 R$ 4 R$ 5 10 3 2 2 Laranja Manga 1 Milho Arroz Mandioca Maracujá Feijão Cana Coco-dabaía Fonte: IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Na pecuária, tínhamos o seguinte retrato: Gráfico XXIII – Araputanga – Efetivo dos rebanhos, 2003. Araputanga - Efetivo dos rebanhos 2003 (gráfico logarítmico) 1000000 100000 223.590 10000 9.329 1000 1.296 100 10 39 456 504 Mulo Búfalo 2.971 3.841 Cavalo Porco 15.205 90 1 Asno Cabra Ovelha Galo e frango Galinha Boi Fonte: IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. 50 A única atividade extrativista era a da madeira, também voltada fundamentalmente ao consumo local e com pequena expressão produtiva e econômica: Gráfico XXIV – Araputanga - Extrativismo, 2003. Araputanga - Exploração de madeira 2003 15000 R$ 100 R$ 97 Quantidade m³ Valor (R$ 1.000) R$ 80 12000 R$ 60 9000 R$ 54 6000 R$ 40 3000 R$ 20 R$ 0 0 Lenha Tora Fonte: IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Finalmente, na produção animal destacam-se as atividades da bacia leiteira, com 13,7 milhões de litros, equivalendo a 2,8% do total estadual. Gráfico XXV – Araputanga - Principais produtos de origem animal, 2003. Araputanga - Produção animal 2003 (Gráfico logarítmico) 100.000 10.000 9.420 13.753 1.000 100 61 10 Vacas ordenhadas (cabeças) Leite de vaca (mil litros) Ovos de galinha (mil dúzias) Fonte: IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Podemos inferir que o modelo da economia primária municipal possui um caráter majoritariamente endógeno, voltado ao abastecimento parcial do mercado local e 51 à base de transformação representada pela indústria de laticínios. O principal produto agrícola consorcia-se com a demanda de nutrição energética animal sinalizando para a existência de uma função apenas complementar na cadeia produtiva da carne e do leite. Quando examinamos as principais atividades produtivas e os postos formais de trabalho que a elas se vinculam, a importância do setor secundário na economia local se clarifica como podemos observar: Gráfico XXVI – Araputanga – Postos de trabalho, massa salarial e salários médios 2003. Postos de trabalho e salários por setor de atividade (Gráfico em escala logarítmica) 10000 R $ 7.967 Pessoal ocupado (2.598 pessoas) Salários anuais totais (em R$ 1.000) R $ 2.518 1000 R $ 1.288 R $ 1.143 1447 R $ 489 513 R $ 209 R $ 124 238 100 R $ 117 R $ 77 82 R $ 67 81 46 470,86 382,16 881,65 550,68 1412,28 669,87 375,00 493,59 465,28 382,72 Administração pública Educação Intermediação financeira Transporte, armazenagem e comunicações Saúde Construção Agricultura e pecuária Outros serviços 15 Comércio, ativ. Imob., alojamento e alimentação 18 Indústrias de transformação 10 1 62 40 Fonte: IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. A indústria de transformação responde por 55,7% dos postos formais de trabalho e por 56,6% da massa salarial. A agricultura e a pecuária, juntas, respondiam por 0,57% dos postos de trabalho e 0,47% dos salários registrados. Os setores de serviço, incluindo a administração pública geravam 43% dos trabalhos e 42,4% da renda assalariada. Se na produção e ocupação há uma diferença patente em relação ao perfil estadual, infelizmente essa diferença não se reflete na distribuição da renda do trabalho verificada em 2000. Se Araputanga possuía um número maior de pessoas com remuneração superior a 10 salários mínimos na comparação com a média estadual, também é verdade que a população situada na faixa de renda até 2 salários também era maior do que a que se registrava em Mato Grosso. Com isso, temos uma classe média comprimida, e uma baixa capacidade interna de iniciativa econômica e consumo, conforme vemos abaixo: 52 Gráfico XXVII – Araputanga e Mato Grosso - Distribuição comparada da renda por faixas de salário mínimo, 2000. Distribuição % da renda do trabalho por faixas de salários mínimos 70 65 Araputanga 2000 Mato Grosso 2000 62 60 50 40 34 30 30 20 10 6 4 0 Até 2 SM Mais de 2 a 10 SM Mais de 10 SM Fontes: IBGE, Censo Demográfico 2000, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Entre os municípios de Mato Grosso apenas 23 possuem percentuais maiores do que os de Araputanga na faixa mais alta de renda, entretanto 64 possuem um contingente menor de pessoas ganhando até 2 SM e 82 possuem uma maior classe de renda média. Entendemos que há aqui um desafio inquietante. O de se conseguir um desenho produtivo local que consiga compatibilizar os aspectos positivos da estrutura industrial existente com uma distribuição de renda que espelhe uma efetiva dinamização da economia municipal e regional. Identifica-se inicialmente o potencial de formalização de Arranjos Produtivos Locais – APLs, a partir da base já existente, e que pudessem atuar com a verticalização das atividades voltadas à nutrição animal, à modernização e à inovação de manejo do gado de leite, à otimização da cadeia láctea e à engenharia de alimentos, à identificação de subprodutos e à especialização de algumas atividades, à prospecção de mercados, propaganda e marketing, entre outros. Concomitantemente, seria necessário iniciar-se um processo de discussão visando a diversificação das atividades econômicas que conseguisse acenar com novos caminhos, principalmente na área de serviços, já considerando a estrutura educacional existente e a possibilidade de ampliação da sua inserção regional; a identificação de demandas ou potencialidades locais e regionais e as oportunidades que apresentam; e a criação de cadeias produtivas regionais em consórcios de 53 atividades intermunicipais integradas. Este último esforço poderia redundar também em uma reengenharia das atividades das administrações municipais em áreas que permitam ou facilitem um melhor desempenho em uma plataforma conjugada de ações e iniciativas. Entre as muitas possibilidades (nos setores de saúde, vias públicas, transporte e instrumentos de gestão, entre outros), citamos a eventual criação de um Conselho Intermunicipal de Educação que asseguraria a autonomia em relação aos processos formais e poderia servir como uma estrutura comum para a prospecção de fontes de financiamento, elaboração de projetos e execução de políticas integradas em áreas rurais limítrofes ou em níveis (e formas de oferta) educacionais voltadas à demanda adulta, como um exemplo. O que nos parece mais evidente é que embora com uma estrutura econômica mais estável que a do estado, Araputanga também possui um alto grau de dependência em relação à indústria de transformação. E acreditamos que se houver o desejo do acautelamento, por um lado, e do desenvolvimento social emancipado, por outro, é urgente um modelo educacional que consiga estabelecer um liame concreto entre os esforços de diversificação e qualificação produtiva e uma oferta para a educação de adultos pertinente e adequada a um eventual projeto de cidade ou região. Há, porém, um problema evidente e aparentemente insolúvel: a baixa poupança local disponível, que se reflete na pequena capacidade de investimento e empreendimento, pelo menos na leitura econômica dominante. Efetivamente, para um PIB de R$ 144,8 milhões em 2003, a soma em agências locais de valores poupados ou convertidos em depósitos a prazo (renda fixa e outras aplicações), era de R$ 4,3 milhões no mesmo ano. Isso pode ser explicado: a) pela ocorrência de importantes investimentos naquele ano que transformaram o capital excedente em capital fixo; b) por uma ampliação do consumo local; c) porque o eventual capital excedente líquido gerado não é aplicado na base municipal; d) porque não há geração expressiva de capital excedente líquido, entre outras hipóteses. De qualquer forma, é uma situação que indica precariedades para o caminho da diversificação produtiva como acima proposto. Somando-se à também preocupante estratificação da renda distribuída do trabalho, vemos que a possibilidade de geração de capitais desconcentrados é muito exígua. Esse cenário demandaria do poder público uma articulação externa forte visando à identificação de fontes alternativas para o financiamento eventual de novos empreendimentos, ao mesmo tempo em que se colocaria em curso uma forte ação de qualificação educacional formal e profissional nos espaços de atuação e campos de atividades vislumbrados. Comparativamente com os municípios da 54 região tínhamos o seguinte cenário em 2003, que colocava Araputanga (mesmo possuindo o maior PIB nominal), com o segundo pior desempenho na relação entre poupança e PIB entre os cinco municípios analisados: Gráfico XXVIII – Relação entre poupança e PIB, municípios selecionados, 2003. 160.000.000 7,00 6,56 PIB Poupança e aplicações privadas % Poupança / PIB 144.885.451 140.000.000 5,62 6,00 5,12 120.000.000 5,00 100.912.899 100.000.000 91.189.946 4,00 80.000.000 2,97 64.738.929 3,00 60.000.000 2,00 22.481.835 1.264.078 0 0,88 572.814 4.665.307 6.620.977 20.000.000 4.310.178 40.000.000 1,00 0,00 Araputanga Mirassol d’Oeste São José dos Quatro Marcos Jauru Rio Branco Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, PIB dos Municípios do Brasil 2000-2003, e Pesquisa de Informações Básicas Municipais, 2003, com tratamento dos dados e elaboração gráfica do autor. Brasil Em relação ao Brasil, embora apresente um cenário econômico mais complexo e diversificado, podemos detectar, como grandes linhas de identificação de tendências, um caminho similar ao de Mato Grosso no que respeita às suas bases produtivas prioritárias. Em 1980 o Brasil, com 20% do total, liderava as exportações entre os países em desenvolvimento, (em valor acrescentado da indústria), com larga vantagem, seguido pela China (10%), México (7,6%) e Coréia (4,7%). Em 2000 a China toma a dianteira com 29,4%, seguida pela Coréia com 10,8%. O Brasil cai para 7,9% e o México para 5,2%.24 O principal fator dessas mudanças está no crescimento dos bens manufaturados. A China e a Coréia encontram-se atualmente em fase de expansão da sua indústria de média e alta tecnologia. O México mantém sua liderança nesse setor na América Latina, em virtude das “maquiadoras” e o Brasil não se encontra sequer na relação dos sete principais exportadores entre os países em desenvolvimento. 24 Fonte: UNIDO 2004. 55 Em relação à exportação de serviços a situação em 2000 também não era melhor. No setor de transportes, turismo e comunicações o Brasil não aparece entre os 10 maiores exportadores (entre os países em desenvolvimento). Lideram nos transportes, com U$ 26,5 bilhões de dólares, somados, a Coréia (13,7) e Hong Kong (12,8). Com U$ 24,5 bilhões de dólares a China (16,2) e o México (8,3) são os que se encontram à frente no turismo e novamente nas comunicações com U$ 2,5 bilhões de dólares (China 1,3 e México 1,2). No setor de construção civil a Turquia é a primeira com U$ 1 bilhão, seguida pela China com 0,6. O Brasil está em sexto com um faturamento de U$ 0,2 bilhão. Nos serviços financeiros Hong Kong (2,7), Taiwan (0,8) e Coréia (0,7) estão à frente do Brasil que apresentou um faturamento de U$ 0,37 bilhão. E finalizando, no setor de seguros o Brasil situa-se também na sexta posição com U$ 0,3, tendo o México à frente com U$ 1,8 bilhão25. Esses resultados são frutos não ocasionais de uma reestruturação macroeconômica e política que o país colocou em curso, desde o início dos anos 90, ao adotar a cartilha, até hoje utilizada, com os cânones sacrossantos da pretensa nova ordem econômica mundial. Talvez possam ser entendidos como modernos ritos sacrificais de aceitação e ingresso. O país os tem cumprido à risca e estamos todos, aparentemente, muito orgulhosos das nossas ações responsáveis; os de fora nos aplaudem e elogiam, cai o „Risco Brasil‟, o mercado nos respeita, a democracia é plena e plana, estamos deixando de ser um país em desenvolvimento e começando a ser reconhecidos como “um país emergente”. O que fizemos para isso? Cumprimos os nove sacramentos: Abertura comercial. Eliminação ou redução de tarifas e alíquotas para a importação, pretensamente para facilitar o acesso aos bens de produção e para efetivar um „choque de competitividade‟ sobre a indústria local, favorecendo a sua modernização e eficácia de gestão. A abertura traria como contrapartida uma promessa (que também embutia uma ameaça) da abertura de mercados aos produtos nacionais em condições mais vantajosas. A regra geral era a minimização de quaisquer encargos fiscais ou tributários. Collor de Melo simbolizava o esforço com uma frase célebre: “Os carros no Brasil são carroças”. Já com Fernando Henrique, no início do real o algodão chegou a ter alíquota zero, depois elevada a 3 por cento. A tarifa média brasileira que era de 43% em 1990, reduziu-se para 14,2% em 2000 e chegou a 10,7% em 2005 já sob o governo Lula. Atualmente 26% da pauta de importação possuem alíquotas entre zero e 2%. Embora a redução tenha atingido praticamente todos os itens, é importante ressalvar o incentivo, no nosso entendimento injustificável, dado à importação de bens de consumo não–duráveis. 25 Fonte: UNIDO, 2004. 56 Com alíquota média de 13,3% e máxima de 20%, equiparam-se às tarifas dos bens de capital que têm média de 12,1% e máxima de 35%. Na Índia as alíquotas médias em 2006 são de 29,9%; na Coréia, taxam pesadamente os bens em relação aos quais, a produção interna é pouco competitiva, como é o caso da agricultura, e mantêm alíquotas menores para os produtos em relação aos quais possuem alto grau de competitividade, como é o caso dos industriais. Enquanto no Brasil as alíquotas são distribuídas em 12 faixas com a máxima fixada em 35% (na prática só aplicada aos automóveis), na Coréia elas se dividem em 95 faixas com a máxima chegando a 907%. Privatização. As empresas estatais devem ser privatizadas, independentemente de quaisquer fatores ou resultados. É um dogma de fé assentado na idéia de que a eficiência da iniciativa privada é incontestável, da mesma maneira que não se contesta a ineficiência pública, os seus „interesses difusos‟ e baixos níveis de controle. No caso brasileiro não sobrou quase nada. Sob FHC foi criado o Conselho Nacional de Desestatização – CND que promoveu, em condições até hoje contestadas, mas não revistas, a abertura de explorações até então resguardadas ao Estado à iniciativa privada e a venda de participações ou empresas como a Vale do Rio Doce, a Embraer, a Embratel, as companhias elétricas de geração e distribuição, o tratamento e abastecimento de água, portos e terminais, estradas, telecomunicações, informática, bancos, petróleo e petroquímica. Disciplina fiscal. Eliminação dos déficits fiscais como medida necessária para a redução da inflação e o combate às fugas de capital. A Lei de Responsabilidade Fiscal tornou-se um catecismo da ortodoxia econômica representando um primeiro passo no caminho da criação de instrumentos de controle em tempo real de quaisquer iniciativas ou ações em qualquer nível da gestão federada. Desregulação. Com uma pretensa defesa das micro e pequenas empresas, a desregulação na verdade, não conseguiu eliminar, e sequer reduzir a burocracia, não conseguiu combater os ambientes propícios à corrupção, não conseguiu ampliar os níveis de formalização da atividade econômica (esta sim, uma necessidade urgente), atendo-se tão somente em assegurar condições ainda mais favoráveis ao livre ingresso e saída dos capitais internacionais especulativos. Este é um dogma siamês com o das taxas de juros. Direito de propriedade. Para a produção de riqueza, o incentivo à poupança e o estímulo ao investimento, deve-se edificar uma sólida legislação de defesa dos direitos de propriedade. Leis tímidas e Judiciário desinstrumentalizado e fraco impedem a dinamicidade econômica e desestimulam os investimentos. Com esta reza foram aprovadas as Leis de propriedade industrial (1996) e de propriedade intelectual (1998). Em 2003 o Brasil depositava 0,2% das patentes 57 mundiais. Os EUA ficavam com 35,7%, o Japão com 15,2%, a Alemanha com 12,7% e entre os ditos „emergentes‟ a Coréia ficava com 2,7%, a China com 1,2%, e a Índia com 0,6%. Em 2002 os EUA tiveram uma receita de pouco mais de U$ 19 bilhões de dólares e a Alemanha de U$ 6,7 bilhões. No mesmo ano, no relatório „Perspectivas da Economia Mundial‟, o Banco Mundial reconhecia que as aprovações das leis de patentes de meados dos anos 90 prejudicavam largamente os países sem uma alicerçada base de produção científica e exemplificava com dois casos emblemáticos: o México e o Brasil. Taxas de juros. Visando o estímulo e a ampliação da poupança local e também o combate à fuga de capitais, as taxas de juros devem ser livremente determinadas pelos mercados financeiros e adequadas à realidade de cada país, sendo positivas e reais. Seguindo a cartilha temos as taxas mais elevadas do mundo, conseguindo manter prisioneiros, pela volúpia do lucro, grandes capitais que aqui repousam em temporadas eventuais, bem cuidados e nutridos, para em seguida seguir viagem para fixar morada em outro lugar. Com os juros altos nos concedemos o prazer de um desembolso maior para o pagamento dos serviços das dívidas interna e externa. Um pouco mais de U$ 1 bilhão para cada ponto percentual. Taxas de câmbio. Para que as exportações sejam favorecidas os países em desenvolvimento devem optar por uma taxa de câmbio competitiva que barateie seus produtos ampliando os mercados. Com o câmbio atual vivemos o desastre da soja e os seus impactos nos recursos estaduais para a educação. Teremos um 2006 que, com valores corrigidos deverá situar os valores do FUNDEF em um patamar inferior ao alcançado em 2005. Mas as exportações vão bem. Reforma tributária. Modelos que privilegiem uma base ampla para a arrecadação tributária, moderando e reduzindo as Marginal Tax Rates. Em outras palavras, é melhor que muitos paguem muito do que poucos pagando muito. Menor incidência de impostos em fatos tributários e setores específicos em troca da ampliação do número de contribuintes. Investimento estrangeiro direto. Especialmente os países em desenvolvimento devem criar incentivos para a captação e introdução do capital e das tecnologias de que não dispõem. Com as privatizações do período FHC captamos U$ 41,7 bilhões de dólares de investidores estrangeiros, representando 53% do total dos recursos das vendas. O acesso à tecnologia está assegurado mediante o pagamento de royalties e uma emenda à Constituição equiparou as empresas estrangeiras às nacionais. Também contando com o amparo de reformas constitucionais foi extinto o monopólio do petróleo permitindo-se às empresas estrangeiras explorar, importar e refinar petróleo no Brasil, participarem do transporte 58 de cabotagem e da exploração dos recursos minerais, com a extinção dos conceitos de empresa brasileira e de empresa brasileira de capital nacional. A privatização da telefonia ou da exploração do gás canalizado são outros exemplos de facilitação de instalação e atividade proporcionadas ao capital estrangeiro. Neste tópico o Brasil foi possivelmente mais realista que o rei. Ao invés de „surpreendermos‟ apenas o „cliente‟, surpreendemos também os patrões. O que ganhamos com isso? Com a obediência canina aos cânones e fundamentos da economia neoliberal monopólica e atomicamente irradiada? Em 2005 analisando os impactos da remodelagem comercial sobre o desenvolvimento humano o PNUD fazia uma constatação tardia26: os países que mais rapidamente reduziram suas tarifas de importação e abriram os seus mercados (Brasil e Peru como dois exemplos acabados), foram os que menos cresceram na década. Países que adotaram medidas gradualistas e negociadas de abertura, preservando seus parques produtivos e protegendo os seus mercados foram os que mais cresceram (a China como principal exemplo). E mais que isso, contrariando frontalmente as receitas que pregam para os países em desenvolvimento (como uma verdadeira panacéia), os países desenvolvidos aumentaram os subsídios internos à agricultura e mantiveram uma política opressiva e discriminatória na importação de bens primários. No primeiro caso verifica-se um aumento dos subsídios à agricultura no Japão (de U$ 48 bilhões de dólares em 1986 para U$ 49 bilhões em 2004), nos EUA (de U$ 36 bilhões em 1986 para U$ 46 bilhões em 2004) e na União Européia (de U$ 101 bilhões em 1986 para U$ 133 bilhões em 2004). E no segundo caso, ao lado do problema das tarifas de importação que já examinamos acima, há também uma prática de proteção endógena e discriminação exógena, com a fixação de alíquotas diferenciadas não por produto, mas por país de origem, que pode variar entre 2% a 16%, a depender da proveniência. E há mais um agravante: a política dos impostos progressivos. Para os produtos primários sem processamento mantêm-se os menores níveis relativos de taxação, que se expandem enormemente para as matérias-primas processadas. Assim, no Japão os impostos de importação sobre produtos alimentares processados são 7 vezes maiores; no Canadá, 12 vezes, na União Européia, exemplificando com o cacau, a importação da matéria bruta não é taxada, a pasta de cacau paga impostos de 9% e produtos finalizados como o licor ou o cacau em pó pagam 30%. A lógica é clara: manter as economias em desenvolvimento em um estágio de provimento rudimentar de matérias-primas (com uma acentuada queda histórica de preço) reservando a agregação de valor e o abastecimento de produtos finais aos mercados (internos e externos) às economias avançadas. A esses mecanismos 26 In Relatório do Desenvolvimento Humano, 2005 PNUD. 59 colonizadores nada sofisticados tributamos uma obediência reverencial com esparsos lapsos de contendas lamuriosas e sem resultados efetivos. Há ainda os instrumentos de domínio central de informações estratégicas antecipadas e os instrumentos de controle e fixação artificial de preço e valor. Também aqui não há previsão de mudanças para os quatro próximos e desperdiçados anos. Na questão educacional o que se avizinha é a provável aprovação do FUNDEB que promete uma ampliação nominal dos recursos para a educação, pela União, de aproximadamente R$ 4 bilhões anuais, prevendo-se um período inicial graduado. Esses valores são equivalentes ao que se retira hoje do financiamento através da DRU. Dessa forma, só teremos uma situação diferenciada, realmente, se ocorrer a improvável hipótese de suspensão do mecanismo da DRU pelo não envio de nova emenda constitucional em 2007. A DRU é sucedânea do Fundo Social de Emergência - FSE e do Fundo de Estabilização Fiscal – FEF. Com ela, a partir de 2000 aplica-se o redutor de 20% sobre os recursos federais constitucionalmente vinculados à educação (18%). Vencida sua vigência em 2002, a Emenda Constitucional 42/2003, já sob a iniciativa do governo Lula, estendeu sua validade até 2007. Em 2000, no seu primeiro ano de vigência, estimávamos uma redução em valores absolutos de R$ 1,93 bilhão. Em 2003 o prejuízo já estaria na casa de R$ 3,6 bilhões, chegando estimativamente a R$ 4,3 bilhões em 2006. Com a DRU, ao invés dos 18% constitucionais a União aplica 14,4% apenas dos recursos vinculados. Evolução comparada do PIB – Brasil, Mato Grosso e Araputanga. Com modelos econômicos estruturais relativamente distintos, como vimos, verificase, porém, algumas preocupantes similaridades entre os três entes federados. É comum nas três esferas a exacerbada tendência de concentração de riquezas e a péssima distribuição da renda. A expressiva dependência de atividade monoespecífica (embora com tipologias distintas), é verificada tanto em Mato Grosso quanto em Araputanga. Em Mato Grosso, porém, a situação de extrema dependência em relação ao desempenho do agronegócio27, pode apresentar variações abruptas e significativas nas receitas públicas, espelhando-se em valores atípicos (a menor ou a maior), principalmente nas fontes arrecadadoras do ICMS e do IPI-exportação. Com isso o desempenho do FUNDEF apresenta equivalente flutuação. Em Araputanga, embora o crescimento médio anual seja menos intenso As commodities têm verificado, como vimos, um estancamento histórico e persistente no seu valor de troca que aponta, nos últimos 25 anos, uma situação onde a expansão da produtividade é proporcional à redução do preço nos mercados internacionais. 27 60 a variabilidade verificada é menor, demonstrando um grau maior de amadurecimento econômico e solidez. Em relação ao desempenho comparado do PIB per capita, o gráfico abaixo retrata o ritmo das três economias entre 2000 e 2003: Gráfico XXIX – PIB per capita, Brasil, Mato Grosso e Araputanga, 2000 a 2003. Evolução comparada do PIB per capita 12 000 140 120 10 000 100 8 000 80 6 000 60 4 000 40 2 000 20 Per capita (R$) 2000 Brasil (R$) Mato Grosso (R$) Per capita (R$) 2001 Araputanga (R$) Per capita (R$) 2002 Brasil (%) Araputanga X BR (%) Per capita (R$) 2003 Araputanga X MT (%) Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, com tratamento dos dados e elaboração gráfica pelo autor. Vemos que no período analisado o PIB per capita de Araputanga situou-se acima do mesmo indicador quando verificado em Mato Grosso e no Brasil. Em relação ao Brasil a variação foi de +3,14% em 2000 para +18,01% em 2003. Em relação a Mato Grosso, Araputanga apresentava uma diferença de +25,19% em 2000, vendo esse percentual (embora ainda expressivo), reduzir-se para +22,28% em 2003. Essa variação implica em que o município vem apresentado índices de crescimento superiores ao do Brasil, mas inferiores aos de Mato Grosso. No cenário local, a estrutura produtiva distinta do estado e do município, é um bom indicador causal. Enquanto Araputanga possui como principais fatores de produção a pecuária leiteira e a indústria de laticínios, Mato Grosso acentua suas atividades no setor agrícola, expandindo enormemente a sua dependência da cultura da soja e, (representando aproximadamente um sexto dela em termos de faturamento), da cultura do algodão. Em 2003, por exemplo, o PIB estadual foi de R$ 22.615 bilhões, sendo a soja responsável por R$ 6.717 e o algodão por R$ 1.235 bilhão, representando em conjunto 35,16% de todo o PIB estadual. Comparativamente, o valor total da produção industrial do Estado, (extrativista e de transformação), era estimada em R$ 9.451 bilhões. 61 Pesa, porém, a favor do município, uma estabilidade maior em relação aos seus índices de participação no ICMS, derivada da menor flutuação do valor adicionado da atividade industrial, principalmente. O quadro abaixo apresenta o valor adicionado-VA na produção da riqueza local (Mato Grosso), por setor de atividade, em série histórica que compreende o período de 1999 a 2003: Quadro XXI – Mato Grosso – Percentual do Valor Adicionado - VA por atividade econômica, 1999 a 2003. ATIVIDADES ECONÔMICAS 1999 2000 2001 2002 2003 VA médio Pico de flutuação Agropecuária 25,0 16,0 10,0 18,0 5,6 14,92 346% Indústria Extrativista Mineral -3,0 6,0 -10,0 7,0 3,1 0,62 323% Indústria Transformação 12,0 11,0 7,0 9,0 10,1 9,82 71% Construção Civil 8,0 5,0 9,0 5,0 2,0 5,8 350% Energia/Água 5,0 6,0 5,0 11,0 5,6 6,52 120% Comércio 7,0 8,0 12,0 9,0 5,6 8,32 114% Alojamento./Alimentação 2,0 4,0 9,0 9,0 6,1 6,02 350% Transporte 11,0 14,0 1,3 5,0 0,1 6,28 13900% Comunicações 6,0 11,0 25,0 19,0 9,5 14,1 317% Aluguéis 1,0 5,0 5,0 6,0 1,9 3,78 500% Instituições Financeiras 9,0 8,0 8,0 9,0 5,9 7,98 53% Administração Pública 2,0 2,0 2,0 2,0 2,0 2 0% Saúde e Educação 4,0 2,0 2,0 2,0 2,0 2,4 100% Serviços Domésticos 2,0 3,0 5,0 2,0 2,0 2,8 150% Outros serviços coletivos 2,0 5,0 -1,0 2,0 2,0 2 120% ESTADO 8,70 7,80 6,78 9,50 4,88 7,532 95% Fonte: SEPLAN-MT/IBGE O que verificamos é que enquanto o pico de flutuação da agropecuária chega a 346% (1999 e 2003), no comércio registra 114% (2001 e 2003) e na indústria de transformação 71% (1999 e 2001); um índice menor que o pico de flutuação de 95% registrado pelo conjunto do estado entre 2002 e 2003. E outro aspecto importante é o VA médio da indústria de transformação, que só fica abaixo da agropecuária e do setor de comunicações. 62 Se considerarmos o balanceamento das atividades produtivas locais, (com as relevantes participações também da agropecuária e do comércio), vemos que o município apresenta condições econômicas estáveis e seguras que lhe permitem uma condição de planejamento privilegiada. É importante observar que embora pouco enfatizada nas ações do governo estadual, a bacia leiteira de Mato Grosso (na qual Araputanga, com 13.753 mil/l em 2003 detém 2,8% de participação), responde por 2,2% da produção total brasileira, e se encontra em fase de gradual e segura expansão, como podemos observar abaixo, em um recorte do Quadro XX: Quadro XXII – Mato Grosso – Produção da Bacia Leiteira, 2001 a 2003. Bacia leiteira de MT 2001 Produção de Leite 1000 litros 442.803 2002 2003 467.095 491.370 Fonte: IBGE/PAM, 2004 Situando-se na região de planejamento Sudoeste (sub-região Cáceres), apresenta um PIB per capita 79,7% superior à média regional e a soma da sua atividade econômica equivale a 12,8% do total regional e a 0,66% do PIB total de Mato Grosso. Quando inserida no cenário mais amplo do estado, transparecem as suas potencialidades. De um lado, pela liderança econômica e política que exerce na sua microrregião, de outro, pela capacidade própria de investimentos, que amplia sua condição para o estabelecimento de parcerias, e ainda pela vislumbrada possibilidade de verticalização produtiva consorciada com uma matriz sócioeconômica-educacional de diversificação das atividades econômicas, criação de unidades produtivas aproveitando a cadeia carne-couro-leite e de formalização das atividades econômicas, contribuindo para o fortalecimento de uma classe média mais robustecida e capitalizada. Contribuem para isso tanto o desenho territorial do município, que facilita a concentração de esforços, o rápido deslocamento e atendimento e a integração e interação social, quanto o seu perfil demográfico, praticamente estável, propiciando o conhecimento mútuo e uma forte identidade com a paisagem e a cultura local. Tais fatores situam Araputanga em uma condição distinta no atual cenário econômico do estado: se não compõem o grupo de municípios que se destacam na liderança do agronegócio, também se situa distante daqueles que enfrentam crises econômico-produtivas estruturais. A sua situação intermediária não provêm de qualquer estagnação, ao contrário, é sólida e apresenta uma curva positiva gradual e constante de um seguro modelo de desenvolvimento. O quadro abaixo nos localiza em relação ao retrato da produção econômica de 2000: 63 Quadro XXIII – Mato Grosso – PIB nominal e per capita e percentual de participação por região ou município, 2000. Regiões de Planejamento Sub-Regiões PIB 2000 R$ 1000 % do PIB TOTA L PIB per capita 2000 Norte 759.356 5,51 3414,9 Noroeste I 233.307 1,69 3486,6 Noroeste II 184.836 1,34 3739,5 Oeste 952.819 6,91 6682,2 Nordeste 298.095 2,16 3722,2 Centro 558.226 4,05 7467,3 Centro-Norte 717.901 5,21 5363,1 Centro-Oeste 295.608 2,14 4550 Centro-Oeste - Diamantino 204.031 1,48 5460 91.577 0,66 3080 Leste 895.317 6,49 5303,1 Leste - Barra do Garças 363.935 2,64 4.920.0 Leste - Médio Araguaia 531.322 3,85 5910 2.378.435 17,2 7556,9 1.626.706 11,8 6560 Sudeste – Paranatinga 115.399 0,83 5740 Sudeste – Primavera 655.742 4,75 4510 1.885.037 13,7 4828 707.633 5,13 3690 91.159 0,66 6.631,0 Sudoeste - Guaporé 239.490 1,73 4110 Sudoeste - Parecis 385.157 2,79 14940 Sul 4.258.841 30,9 5145,4 Sul - Cuiabá/VG 3.859.160 28 5156 408.681 2,9 3140 13.777.806 100 5534 Centro-Oeste - Alto Paraguai Sudeste Sudeste – Rondonópolis Sudoeste Sudoeste - Cáceres Araputanga Sul - Baixada Cuiabana TOTAL Entre 2000 e 2003 a participação do PIB de Araputanga sobre o total de Mato Grosso se reduz de 0,66 (ou 0,67 se considerarmos os dados revistos do IBGE), para 0,64%. Mas essa redução, como dissemos acima, não pode ser entendida como estagnação, ela é derivada do acentuado grau de participação dos resultados do agronegócio, que se concentra em alguns poucos municípios e regiões. E mais uma vez é importante anotar que embora em ritmo inferior ao verificado nos municípios 64 que sediam as culturas da soja ou do algodão, (principalmente), Araputanga apresenta uma inegável consistência econômica pela conjugação balanceada das atividades primárias, secundárias e terciárias existentes na base municipal, mesmo sem desconsiderar a alta dependência da atividade industrial. Os índices de crescimento que tem alcançado mostram-se assim mais próximos ao desenho do crescimento médio global do estado e do país, se comparados à pujança (entretanto flutuante e episódica) de outros municípios de Mato Grosso, como demonstrado abaixo, na comparação com alguns municípios selecionados: Gráfico XXX – PIB nominal, variação percentual em relação ao exercício anterior, 2001/2000 a 2003/2002. Variação % do PIB em relação ao ano anterior 200 2001/00 2002/01 175 2003/02 150 125 100 75 50 25 0 as Br il o pu at ra M A ss ro G o lis a ng ta á ab ui C po nó i r ua es er o nd ác C Ro so rri So l za q Ta pe lto al riz co Sa A A -25 Enfatizamos que os indicadores apresentam realidades distintas. A variação em Acorizal, por exemplo, não indica uma tendência e sim uma fragilidade. Com uma economia muito frágil e reduzida, fatos ocasionais podem representar impactos estatísticos muito elevados. Alto Taquari, Sapezal e Sorriso, por sua vez, indicam um comportamento transverso com o da cultura do soja. Essa realidade também é refletida em Rondonópolis, atenuada, entretanto, pelo peso do setor de serviços; e em Cáceres e Cuiabá as variações ocorrem, com uma mediania situada um pouco abaixo do desempenho médio da região, no primeiro caso e do estado, no segundo. Araputanga mantêm um ritmo próprio mais refratário às flutuações. A essa situação, corresponde o ranqueamento intermediário superior de Araputanga quando agrupamos os municípios por decís de participação na composição do PIB de Mato Grosso. Atualmente, a distribuição da produção de riquezas no estado, considerando o PIB em valor nominal, apresenta: 65 a) No décimo decil uma concentração sediada, de um lado nos municípios pólo, como Cuiabá, Rondonópolis, Várzea Grande, Sinop e Tangará da Serra, e de outro, nos municípios que se vocacionaram para o agronegócio e a agricultura de precisão, como Sorriso, Primavera do Leste, Campo Novo do Parecís, Campo Verde, Sapezal, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Diamantino. Se no primeiro grupo encontramos aproximadamente 39,68% da população do estado, no segundo grupo residem apenas 7,78%. A renda média per capita no primeiro grupo é de R$ 7.164 e no segundo grupo alcança R$ 22.811. b) No primeiro decil a predominância é do Araguaia (com Serra Nova Dourada, Novo Santo Antonio, Ponte Branca, Luciara, Araguainha, Nova Nazaré e Santa Cruz do Xingu), e da região Sudoeste, (com Reserva do Cabaçal, Indiavaí, Vale de São Domingos, Conquista do Oeste e Curvelândia), aos quais se juntam São Pedro da Cipa e São José do Povo. Nesses municípios residem 1,22% dos mato-grossenses que vivem com um PIB médio per capita de R$ 5.43628. Araputanga situa-se no 8º decil, sua população corresponde a 0,52% do estado e a participação percentual do seu PIB foi de 0,64% em 2003, com um PIB per capita de R$ 10.260 (U$ 9.361 em PPP) no mesmo ano, sendo que o per capita de Mato Grosso foi de R$ 8.391 (U$ 7.655 em PPP). Gráfico XXXI – Mato Grosso - Distribuição do PIB nominal por decís de municípios, 2003. 3,4 0,7 1,4 1,9 2,6 PIB de MT por Decil de Municípios 2003 PIB de Mato Grosso (% acumulado) 4,5 6,4 9,2 54,7 9,96 15,1 20,18 0,80 69,86 Municípios do 8o. Decil (9,2 %) Nova Ubiratã Canarana Brasnorte Jaciara Colíder Nova Olímpia Araputanga Sto Ant. do Leste Nobres 0,00 Alto Garças 0,20 S. José Rio Claro 42 municípios (30%) 27 municípios (20%) Poxoréo 70 municípios (50%) Paranatinga 0,40 N. São Joaquim 0,60 Na ordenação dos decís por PIB per capita encontramos uma média de R$ 3.467 no primeiro decil e de R$ 36,101 no décimo decil. Também por esse critério Araputanga se situa no 8º decil. Entre 139 municípios, 29 possuem PIB per capita superior e 109 situam-se abaixo do per capita de Araputanga. 28 66 Tais situações diferenciadas acabam por refletir-se diretamente nas distintas condições de financiamento que teremos em cada município. Mesmo com o FUNDEF, é patente o parâmetro que privilegia a capacidade desigual dos financiamentos quando vistos em localidade comunal. Vemos assim que não há no modelo brasileiro a afirmação radical da idéia republicana da igualdade. O lócus de moradia define aqui a capacidade de acesso e fruição dos recursos públicos desigualmente distribuídos. Se uma criança residir em São Paulo, Salvador, Boa Vista, Cuiabá ou Araputanga, contará com distintos valores a financiar a sua educação. No nosso caso específico, podemos perceber tais diferenças na relação entre o custo/aluno e o PIB per capita, conforme o gráfico abaixo com exemplos macro referenciados: Gráfico XXXII – Relação comparada entre PIB per capita e custo/aluno anual, ensino fundamental, 2003. (valores equalizados por Paridade do Poder de Compra – U$ PPP) Custo aluno/ano 2003 em U$ PPP Ensino Fundamental - séries iniciais e finais 30.000 25 27.373 PIB per capita Custo aluno/ano % do custo aluno sobre PIB per capita 22 25.000 20 20.000 15 15 14 15.000 12 10 9.361 10.000 7.932 7.655 6.005 5 5.000 1.404 1.102 Araputanga Mato Grosso 987 0 0 Média OCDE Brasil Fontes: OCDE, Education at a Glance, 2006, IBGE PIB dos Municípios Brasileiros 1995 – 2003. Sem ingressar no mérito de tal situação, anotamos que esse desenho amplia a importância dos gestores locais, reforçando a sua capacidade na definição das prioridades de alocação dos recursos públicos e na discussão, proposição e execução de políticas municipais. O gráfico também indica, em valores equalizados, a distância considerável dos investimentos nacionais, quando comparados à média dos países da OCDE. Se considerarmos o cenário mundializado atualmente existente de profundas interrelações e interdependências, podemos constatar sem muito esforço, que o espaço futuro reservado à nossa população e país aponta para uma subalternidade 67 largamente alicerçada nas diferenças de acesso aos bens do conhecimento e secundariamente, da informação. É importante ressaltar que a equalização dos valores em Paridade do Poder de Compra indica uma situação real em que as diferenças dos valores não são meramente cambiais. O investimento de U$ 6.005 dólares PPP da OCDE em contraposição aos U$ 987 do Brasil implica em gastos que concretizam de um lado o acesso a bens e recursos educacionais como bibliotecas atualizadas, universalização do acesso à internet nas escolas, laboratórios bem equipados, oficinas para o trabalho com madeira, ferro, papel, apoio para atividades extraescolares como viagens de estudo, intercâmbios, excursões dirigidas, montagem de modelos de inter-relação entre escolas e otimização do uso de bens comuns como bancos de dados e projetos integrados (cada dia mais comuns na vivência da comunidade européia), bons sistemas nacionais e regionais de avaliação e salários compatíveis com o custo de vida que permitem ao docente a dedicação integral a uma única escola e ao seu projeto, entre outras distinções. Percebendo os impactos profundos dessas diferenças, alguns países com análises retardatárias vivem hoje a situação de uma acentuada busca de redução de tal fosso, com investimentos que se aproximam de 30% (trinta por cento) da despesa pública total, como vimos acima nos exemplos da Malásia e da Tailândia. Em outros casos, a redução do valor total não significa decréscimo no investimento per capita, como ocorre, por exemplo, com a Alemanha, o Japão e o Canadá. Nestes casos, verifica-se um efetivo decréscimo na demanda, auxiliado pela inexistência de demandas adultas ou juvenis reprimidas. Outro bloco chama a atenção, composto por países que se encontram já hoje com excelentes plataformas educativas, mas que ainda assim mantém ou ampliam os investimentos, como é o caso da Finlândia, Coréia, Dinamarca, Suécia e Eslováquia. Que futuro almejamos e com que ritmo se pretende alcançá-lo? Como entendemos o papel do poder público, suas funções, responsabilidades e capacidades? O que pode um município no caótico estado de inconsistência, falta de planejamento e inexistência de um projeto comum nacional? Serão os moinhos, efetivamente dragões? Será possível vencê-los com a força do desejo? Da vontade coletiva e da ação significada? O planejamento orçamentário e financeiro da educação é só um instrumento, que em si só não basta. Mas sem ele a força dos ventos apaga as tênues chamas das velas. Passamos a tratar agora da defesa das chamas, da capacidade de mantermos algumas luzes acesas, no mínimo para lembrar que os túneis também têm um final. E para manter o desejo de caminhar até ele, de desvendá-lo, de 68 chegar às luzes mais sólidas e constantes dos saberes pertinentes, do conhecimento aplicado, da ciência significada na vida das pessoas, que a usam e a constroem, em benefício próprio e de todos. Com tais anotações passamos ao levantamento analítico e financeiro da proposta do Plano Municipal de Educação de Araputanga. Financiamento no Plano Municipal de Educação de Araputanga Desafios vivos: das proclamações às demandas – transformando palavras em ações. Considerações preliminares No nosso entendimento a obrigatoriedade legal da elaboração dos Planos de Educação no Brasil apresenta: a) uma reveladora inversão de trajeto (de uma construção ascendente ideal para a prática descendente que se inicia no Plano Federal, passa pelos estaduais e chega aos municipais); b) uma irrefreável tendência à burocratização dos seus processos de edificação que no mais das vezes, (embora Araputanga represente uma exceção), privilegia o debate setorial interno, uma perspectiva de similaridade e adequação ao Plano Nacional e baixa capacidade de mobilização, ampliação do debate e envolvimento efetivo da sociedade no planejamento estratégico do setor; c) uma baixa capacidade do setor em afirmar-se como fator determinante para os rumos, potencialidades e necessidades do país, não tendo conseguido espelhar nas leis aprovadas até o momento, o papel sistêmico e integrado da educação para o desenvolvimento nacional; d) uma inescusável fragilidade (do ponto de vista da elaboração legal), nascida da inconsistência das fontes de financiamento (que não alteram as matrizes dos mínimos constitucionais e não atualizam as bases de incidência da vinculação tributária); da débil distribuição e fixação de competências entre os entes federados (que ao invés de rediscutirem competências sistêmicas apropriadas às suas configurações de atuação continuam o exercício de gestores de redes com difusas responsabilidades de cooperação); pela não fixação clara e objetiva dos focos e das condições de realização das avaliações plurianuais, e pela inexistência da previsão de responsabilizações e sanções em relação à eventual não observância das metas. Com tais características, os Planos de Educação dos entes federados têm servido como uma carta de intenções, uma declaração de vontade, que não consegue ultrapassar a condição de impacto marginal, colocando-se como 69 instrumentos de baixíssima eficácia nas relações reais que definem prioridades de ação e investimento do poder público nacional. Em Araputanga, pela disposição da administração municipal, manifesta-se o desejo de fortalecimento da educação, reservando-se ao Plano Municipal um papel diferenciado. Por um dever de lealdade e pela crença sincera na vontade do poder público local, sugerimos que as garantias efetivas que se pretenda imprimir às decisões até aqui tomadas sejam legalmente fortalecidas com posteriores intervenções na Lei Orgânica Municipal e na legislação complementar e ordinária. Em relação às bases de referência do PME, entre múltiplas variáveis possíveis, dois caminhos têm se colocado com capacidade real de incidência: a) o que coloca as unidades de atendimento educativo como foco e visa o seu fortalecimento como núcleos de constituição do sistema municipal de educação; e b) o que centra as atenções do Plano em um processo de desenvolvimento local e/ou regional, do qual seriam derivadas suas metas, considerando-se a educação, nessa hipótese, como uma dimensão crucial para a elaboração de políticas públicas sistêmicas e integradas, com a definição clara dos papéis culturais, sociais e econômicos que poderia passar a assumir. Na primeira conjetura os desafios estarão voltados à ampliação da capacidade das unidades educativas de gestar projetos próprios, de geri-los, de assegurar a sua continuidade e permanência, de definir prioridades e executá-las. Nesse caso caberá ao poder público a edificação de um instrumental legal assegurador de tais condições, por um lado, e por outro, de criar as condições de apoio executivo às decisões das unidades, de acompanhamento das mesmas nos seus processos próprios; avaliação de resultados e definição das condições e formas de eventuais intervenções de correção de rumos, assegurando em termos genéricos, mas com análises pontuais e permanentes, a cobertura e a qualidade. No segundo caso, pressupõem-se ao executivo municipal um papel de liderança para o chamamento, discussão e deliberação coletiva sobre uma dada política de desenvolvimento a partir da qual se definiriam os papéis e funções do setor educacional. Nessa direção, os projetos das unidades educativas guardariam fortes dependências em relação ao modelo definido, suas formas de construção e prioridades. No presente trabalho, estaremos, porém, adstritos aos resultados da 1ª Conferência Municipal de Educação ressaltando a necessidade já apontada acima da revisão e adequação legal da legislação municipal originária, complementar e ordinária. 70 EDUCAÇÃO INFANTIL Objetivos e Metas 1. Cobertura: a) Atendimento de 50% das crianças de 0 a 3 anos em creches ou estabelecimentos apropriados até 2010 e b) Atendimento de 100% das crianças com 4 e 5 anos de idade em estabelecimentos próprios ou escolas com projeto específico de integração educativa de tais faixas etárias, até 2008, prevendo-se em ambos os casos apoios básicos de alimentação (com 50% das necessidades diárias calóricas e protéicas), saúde preventiva e, no caso das ofertas no campo, transporte escolar. Em relação à faixa etária de 0 a 3 anos de idade registram-se as matrículas de 148 crianças em 2005 e de 176 em 2006, pelos dados finais (2005) e preliminares (2006) do censo educacional do MEC/INEP. Para o alcance da meta estima-se o atendimento de 583 crianças, colocando-se assim uma demanda por expansão para mais 407 crianças. Para alcançá-la em 2011 será necessária a ampliação anual de 102 matrículas em média o que acarretará o seguinte quadro de despesas com a manutenção e custeio educacional, considerando o valor per capita de R$ 1.745,61 em valores de 2006: Despesa anual atual estimada: R$ 307.227 Incremento previsto na despesa anual: R$ 178.052 (2008 a 2011) Despesa total anual em 2011: R$ 1.019.435 Em relação ao atendimento da faixa etária de 4 e 5 anos de idade, as matrículas brutas (considerando a rede municipal [531] e a particular [89]) representaram em 2006 aproximadamente 108,4% da população dessa coorte. Com a regularização de fluxo deverá situar-se em aproximadamente 572 crianças, segundo estimativas do IBGE. Considerando a manutenção das matrículas registradas em 2006 e o valor per capita de R$ 1.588,35 no mesmo ano de referência, teremos: Despesa anual atual estimada: R$ 843.413 Incremento previsto na despesa anual: R$ zero Despesa total anual em 2010: R$ 843.413 Em relação aos investimentos, prevê-se a construção de um Centro de Atendimento Integrado da Educação Infantil (creche e pré-escola). Investimento estimado (obra e equipamentos): R$ 1.400.000 Estão considerados no valor per capita de manutenção e custeio os impactos das políticas de formação, carreira e salários, entre outras. 71 2. Qualidade: A adoção progressiva do atendimento em tempo integral para as crianças com 4 e 5 anos importará no acréscimo de aproximadamente 75% sobre o total das despesas executas nas ofertas pré-escolares, com o seguinte incremento: Despesa anual atual estimada: R$ zero Incremento previsto na despesa anual: R$ 126.511 (2008 a 2011) Despesa total anual em 2011: R$ 632.559 Como condição necessária ao aperfeiçoamento continuado e à qualidade das ofertas sugere-se a previsão de investimentos anuais, não computados nos valores per capita de manutenção e custeio: Investimento anual sugerido: R$ 150.000 (2008 a 2012) ENSINO FUNDAMENTAL Objetivos e Metas 1. Cobertura: a) Atendimento de 100% das crianças com idade entre 6 e 14 anos provendo os apoios básicos de alimentação (com 30% das necessidades diárias calóricas e protéicas), saúde preventiva e, no caso das ofertas no campo, transporte escolar. As matrículas no fundamental apresentam a seguinte evolução recente no município: Araputanga: matrículas totais no ensino fundamental 3328 3278 120 3326 E. Fundamental Matrícula Bruta (%) 117,6 3228 115 3178 110,5 3128 110 3124 3078 105,1 3028 105 103,9 2978 2973 2928 2939 100 2878 2828 95 2003 2004 2005 2006 72 Vemos que a tendência de regularização do fluxo escolar indica para a estabilização da demanda em número igual ou pouco acima da população estimada para a faixa etária, de 2.828 crianças. É possível que tenhamos ainda leve flutuação a maior nos próximos dois ou três anos, advinda da efetivação do atendimento da população com 6 anos de idade, mas o aumento real nas matrículas líquidas é absolutamente improvável. Nesse cenário, a despesa projetada é a seguinte, mantendo-se o universo atual de matrículas com a tendência na rede municipal de expansão nas séries iniciais e retração nas séries finais, com o valor per capita médio de R$ 1.305,62 em 2006: Despesa anual atual estimada: R$ 1.383.957 Incremento previsto na despesa básica anual: R$ zero Despesa total anual em 2012: R$ 1.383.957 Esse quadro de estabilidade despreza as oscilações internas de transferências de matrículas entre as redes públicas. Enfatizamos, porém, que tais flutuações podem alcançar entre 3% a 10% ao ano (a menor na rede estadual e a maior na rede municipal, observando-se a tendência dos últimos anos). 2. Qualidade: a) Como referido no corpo do documento, o grande desafio do ensino fundamental no município, considerando-se, entre outros fatores, os últimos resultados do Prova Brasil, é o incremento de qualidade. Para tal objetivo o PME apresenta um leque de propostas que prevêem investimentos em obras, materiais e equipamentos, acarretando (em alguns casos, a exemplo de laboratórios e bibliotecas), a ampliação dos recursos despendidos com manutenção e custeio. As despesas com os processos de qualificação em serviço, assessorias e outras são computadas no valor per capita estimado de 2006. Síntese descritiva de metas agrupadas: 1) Ampliação das escolas, reformas de adequação ao projeto educativo e para o atendimento aos alunos com necessidades especiais e outras intervenções físicas de melhoria: Investimento anual mínimo necessário: R$ Incremento previsto na despesa anual de custeio: R$ 200.000 (2007 a 2009) zero 2) Criação de ambiências enriquecidas, escolares e/ou sociais, como bibliotecas, laboratórios, espaços de criação e/ou exibição multimídia, museus temáticos, anfiteatro e outros: Investimento anual mínimo necessário: R$ Incremento previsto na despesa anual de custeio: R$ 350.000 (2010 a 2012) 95.000 73 3) Criação de um fundo para investimentos em investigação educacional, editoração e publicação de livros, periódicos, e outros registros em mídias diversas: Investimento anual mínimo necessário: R$ 50.000 (2007 em diante) Incremento previsto na despesa anual de custeio: R$ 35.000 (2007 em diante) 4) Melhoria da qualificação formal dos profissionais da educação e incrementos salariais reais (prevendo 4% de reajuste anual acima dos índices inflacionários, pelo período de 3 anos, com revisão do índice a partir daí): Investimento anual mínimo necessário: R$ 73.748 Incremento previsto na despesa com pessoal: R$ 221.244 Esclarece-se neste item que entre 2004 e 2005 registrou-se uma variação de 37,35% a maior no valor anual da folha de pagamentos, advindo principalmente do enquadramento dos profissionais que concluíram a educação terciária. Enquadramentos posteriores serão residuais e foram considerados com uma média anual de incidência de 2% sobre o valor total da folha pelo mesmo período de 3 anos. Ainda neste tópico prevê-se a implantação da hora atividade compondo um terço do regime de trabalho dos docentes efetivos e contratados, a partir de 2008. A previsão do impacto da meta considera o valor de R$ 791,85 como média de remuneração mensal do magistério e um quadro de 80 docentes. Se inserirmos as estimativas de expansão (na educação infantil e de jovens e adultos, por exemplo), teremos números subestimados: Incremento previsto na despesa com pessoal: R$ 424.431 (a partir de 2008) 5) Criação dos marcos legais e da estrutura de funcionamento do modelo de avaliação sistêmica da educação provida em Araputanga (pública e privada), incluindo as despesas anuais com a execução dos seus processos e instrumentos: Investimento inicial (marcos legais e estrutura): R$ 38.000 Incremento previsto na despesa anual: R$ 73.000 6) Implantação gradual do atendimento escolar em tempo integral para crianças provenientes de famílias que apresentam rendimento per capita igual ou inferior a dois salários mínimos mensais, assegurando condições de apoio com suprimento alimentar que supra 70% das necessidades diárias, práticas esportivas e artísticas e acompanhamento pessoalizado às tarefas escolares. A efetivação dessa política deverá atingir aproximadamente 690 crianças (pelo mínimo), com um incremento de custo estimado em 80% sobre o valor per capita, mantendo 2006 como referência: Despesa anual atual estimada: R$ zero Incremento previsto na despesa anual: R$ 144.140 (2008 a 2012) Despesa total anual em 2012: R$ 720.702 74 7) Instalação e funcionamento do Núcleo Municipal de Atendimento Familiar Integrado, em parceria com os setores de saúde e assistência social, prevendo trabalhos de apoio, orientação e integração educacional, visando também a saúde preventiva, a geração de renda e a melhoria geral na qualidade de vida das famílias atendidas. Prevê-se a implementação gradual dos trabalhos (a partir de 2007) com um universo de 3.000 famílias como meta de chegada, prevendo-se dois encontros anuais com cada família (16 horas/ano) além das atividades coletivas, setoriais e/ou temáticas: Despesa anual atual estimada: R$ zero Investimento inicial (instalação, veículo e equipamentos): R$ 85.000 Investimento anual mínimo necessário: R$ 25.000 (2008 a 2010) Incremento inicial do custeio em 2007 R$ 46.900 Incremento previsto na despesa anual de custeio: R$ 26.800 (2008 a 2014) Despesa anual em 2014: R$ 234.500 Despesa total no período: R$ 1.285.600 EDUCAÇÃO ESPECIAL E SAÚDE DO ESCOLAR Objetivos e Metas 1. Cobertura: a) Em 2006 foram atendidas 82 pessoas na educação especial, sendo 70 em instituição particular especializada e 12 em escola pública estadual. A rede municipal relata ainda o atendimento de 4 alunos incluídos nas ofertas regulares, mas que não constam nos resultados preliminares do censo escolar de 2006. A meta de cobertura deve prever o atendimento de 100% dos demandantes pela educação obrigatória, a adequação dos estabelecimentos de educação infantil para esse atendimento na totalidade dos casos demandados, além de assegurar a continuidade para os níveis posteriores de oferta, no ensino médio, profissional e superior. b) Uma necessidade inicial seria a realização de um censo específico sobre tal demanda com a descrição tipológica que deve orientar o atendimento e eventuais adequações necessárias. c) Os impactos no financiamento serão verificados na qualificação (humana, física e de equipamentos) das eventuais unidades municipais que atuarão com o atendimento inclusivo; nos esforços integrados com a saúde visando a detecção de casos e o tratamento (principalmente no que tange à acuidade visual e auditiva); e em eventuais adaptações do transporte escolar. 75 Neste tópico, ressaltamos que os resultados da pesquisa IPEC reforçam o apontamento da necessidade do censo, como um pressuposto indispensável à formulação das políticas e da matriz de financiamento. Pelo IPEC 6,47% dos entrevistados possuem na família alguém com necessidades especiais. Uma interpretação desse dado poderia apontar entre 235 a 249 pessoas, aproximadamente, considerando uma composição média familiar de 4 pessoas. Ainda segundo o IPEC, 63,08% desse universo de demandantes potenciais não estudam atualmente. O quadro tipológico levantado pelo instituto está complementado com os números estimativos de pessoas, abaixo: Tipologia % incidência No estimativo de pessoas FISICA 35,98% 90 MENTAL 23,83% 59 VISUAL 17,76% 44 AUDITIVA 14,02% 35 OUTROS 6,54% 21 Se tais dados forem confirmados, será necessária e urgente a definição de uma política mais complexa visando prioritariamente, em um primeiro momento, a cobertura. As despesas com o censo poderão possuir grandezas muito variáveis a depender do modelo de execução do mesmo. Uma ampla mobilização social, com campanhas de esclarecimento e locais de coleta de informações, como um exemplo possível, poderia minimizar custos e agregar uma importante dimensão política e educativa à questão. Sugere-se, apenas a título ilustrativo uma previsão de R$ 8.000 para a ação. EDUCAÇÃO DOS JOVENS E ADULTOS Objetivos e Metas 1. Cobertura: a) A maior demanda educacional do município é a oferta obrigatória para a população com 15 anos ou mais de idade. São 5.663 detentores do direito à educação e demandantes potenciais, que possuem formação inferior ao ensino fundamental completo. Entre esses se estima 1.325 pessoas sem o domínio instrumental da escrita e da leitura. Desse universo foram atendidas 23 pessoas em 2005 e 147 em 2006, todas pela rede estadual. Não são verificadas ofertas municipais para essa população. É uma situação que impacta sistemicamente o rendimento escolar, afetando diretamente as crianças e os jovens. Verifica-se aqui um desafio urgente de intervenção. Em relação a essa questão iniciou-se em 2005 em Mato Grosso um processo de demanda social difusa e legalmente 76 qualificada, que contou com a intervenção decisiva do Ministério Público Estadual notificando à ação os poderes estaduais (através do Governador e do Presidente da Assembléia Legislativa) e várias Prefeituras do estado, incluindo a Capital. Os resultados foram auspiciosos. O censo de 2006 registra um crescimento de 47% de matrículas e os municípios que não registravam ofertas públicas para a EJA decaíram de 51 em 2005 para 9 em 2006. b) A prioridade conferida a essa questão embute, além das bases legais que lhe dão sustentação, questões de mérito relativas de um lado, à conformação efetiva da nação brasileira e à constituição da sociedade política republicana, e de outro, ao rendimento educacional, entendido sob o prisma sistêmico e inter-relacionado nas dimensões de contato entre as escolas e as famílias. c) Também aqui é necessário priorizar-se a realização de censo específico (que pode ser consorciado com o da educação especial), para aferirmos, mais do que os números de demandantes (que se pode estimar com margens pequenas de erro), a disposição de vontade dos mesmos em transformar o seu direito subjetivo em atendimento educacional efetivo. d) Um exemplo recente, tomado das iniciativas de São Félix do Araguaia que realizou o seu censo entre outubro e novembro de 2006, indicou a formalização legal da demanda de aproximadamente 1.200 pessoas. A rede municipal são-felixcense conta em 2006 com 1.003 matriculados no ensino fundamental, um número próximo do de Araputanga (1.060). Não terá condições, por si, para prover a demanda formalizada. Os cuidados tomados, porém, favoreceram a edificação de um projeto amplo e consorciado que prevê a obrigatória participação da União e do governo de Mato Grosso no suprimento do direito dos brasileiros que lá habitam. No caso específico de São Félix projeta-se uma despesa total de aproximadamente R$ 10,2 milhões de reais no período compreendido entre 2007 e 2012. Desse total o município deverá arcar com 17,7%, dividindo-se a despesa restante com a União e o Estado, computando-se também os impactos do FUNDEB a partir de 2008. e) No caso específico de Araputanga acreditamos que a demanda formalizada poderá ser ainda maior que a registrada em São Félix (principalmente em virtude das distintas taxas de urbanização), o que indicaria a necessidade prévia de uma interlocução qualificada junto ao MEC e à SEDUC para a modelagem (antecipada à realização de 77 eventual censo) de parcerias possíveis. Ressaltamos que uma vez formalizada a demanda pelos adultos a omissão no atendimento ou a sua oferta irregular importam em crime de responsabilidade do gestor público. Daí mais uma vez a recomendação de uma negociação antecipada com o governo do Estado e a União, que entendemos como co-participantes e responsáveis solidários, uma vez levantada a questão, com os impactos legais que ela comporta. f) Também neste tópico, os apontamentos relativos ao financiamento são ainda pouco exatos. Como referência, o custo médio per capita anual (incluindo custeio e investimentos) alcançou R$ 1.465 em São Félix. É importante frisar que há fonte já disponível e automática de financiamento por parte da União (Fazendo Escola e Brasil Alfabetizado) e do Estado (Letração). Enquanto o Brasil Alfabetizado e o Letração são restritos à alfabetização, o Fazendo Escola prevê aportes para a EJA. Neste último caso os valores anuais per capita variam entre aproximadamente R$ 43 a R$ 225, a depender do índice de fragilidade apresentado pelos indicadores municipais. Em um projeto mais abrangente e legalmente embasado as condições de negociação poderão ser diferenciadas. Lembramos, por fim, que entre 2008 e 2010 se poderá contar com os recursos progressivos do FUNDEB no financiamento das ofertas. No caso de eventual derivação posterior do município para o modelo de Plano centrado nos processos de desenvolvimento local e/ou regional, a educação dos adultos representará certamente um desafio impostergável. E poderá ser pensada a partir da sua integração com políticas mais gerais de diversificação e qualificação produtiva e geração de trabalho e renda. O quadro com a síntese da progressão de despesas no período de 2006 a 2015 segue anexo e não considera as eventuais demandas da educação infantil e nem a relativa à educação de jovens e adultos. Para a efetivação de garantias legais mais sólidas recomendam-se as seguintes ações normativas e regulatórias mínimas: 1) Revisão do Plano de Carreira, da Lei de gestão democrática e da Lei Orgânica Municipal (esta última preferencialmente após a aprovação final do FUNDEB); 2) Criação de legislação própria que institua o Sistema Municipal de Avaliação Educacional Processual e Sistêmica (com interfaces com o PCR e a Lei de Gestão Democrática) 78 3) Elaboração de decreto ou lei que institua uma política integrada para o atendimento à criança e à família definindo competências e responsabilidades das secretarias afins (especialmente saúde, educação e assistência social). 4) Definir em lei as competências e responsabilidades municipais com a educação superior, profissionalizante, em nível médio e educação obrigatória de jovens e adultos, incluindo os processos de alfabetização. Cabe a observação de que independentemente das prioridades legais definidas na legislação o município pode assumir um papel de garantidor do cumprimento local de atribuições específicas ou compartilhadas dos demais entes federados tanto pela via administrativa quanto, eventualmente, por via judicial. Além desses aspectos frisamos finalmente a importância de edificarem-se instrumentos legais que assegurem: a) projetos diferenciados que podem possuir características próprias em cada escola; b) práticas docentes de investigação; c) modelagem operacional da hora-atividade; d) mecanismos de repasse direto de recursos às escolas e as formas de gestão social e coletiva dos mesmos; e) a instituição das estruturas de controle e gestão co-operada entre o poder público e a sociedade (conselhos e assemelhados que podem ser compostos desde a escola até a administração do sistema como um todo, prevendo-se também a possibilidade de um Conselho de Educação Regional [ou Intermunicipal]); f) diretrizes básicas para as obras e estruturas físicas (metragem mínima de salas, previsão de ambientes mínimos para escolas, creches e outros estabelecimentos, etc); g) processos permanentes de qualificação profissional (como um direito-dever previsto e regulado pelo PCR); h) as condições de lotação de pessoal (por escola, por meio de atribuições de salas e aulas ou por turmas formadas, entre outras possibilidades).