FILME “CREPÚSCULO” comentários SUAD HADDAD DE ANDRADE Este filme, como o livro, ou os livros desta série, estão fazendo grande sucesso. Jovens, crianças, velhos, enfim, pessoas de todas as idades estão lendo estes massudos livros e vendo os filmes com enorme interesse. É uma história envolvendo vampiros. O interesse pelos vampiros não é novo; muitos outros filmes já foram feitos com este tema e muitos outros livros têm sido escritos. E isto há séculos. Não sei quem escreveu a primeira versão do Conde Drácula, nem quando, mas sei que é muito antiga esta idéia do vampiro. Nas primeiras versões o V. passava o dia dentro do caixão e só podia sair à noite porque a luz do dia era uma ameaça para ele. Neste filme é diferente: não só eles circulam de dia como usufruem do conforto moderno e também das atividades normais dos homens. Está havendo uma evolução ou uma readaptação desta idéia do V. Até a imortalidade dos V. está sendo questionada. O que se mantém é a característica de poderem transformar seres humanos em vampiros ao sugarem seu sangue. Por que este interesse pelo V.? Ou, por que este tema nos mobiliza tanto? Já vou adiantando que não vou comentar o filme, exatamente, mas vou usar do filme para falar das características humanas, dos sonhos e fantasias de todos nós. Minha primeira reação foi de achar que o filme e os livros, estavam chamando atenção não pelo fato de termos vampiros como personagens mas pelos aspectos românticos do filme e a eterna luta entre mocinhos e bandidos. Existem de fato os dois temas, romance e Vampiro, mas penso que a receita de sucesso está em um aspecto muito atual e inquietante de nossa cultura, que é a excessiva sensorialidade e a fuga da subjetividade. 1 Vejamos em primeiro lugar a figura do Vampiro. Quais são as características do Vampiro? Ele é imortal, esta é a mais importante. Ele não tem que lutar as nossas lutas para sobreviver: aparece e desaparece de onde está quando quer; sabe o que acontece em qualquer lugar, não tem dilemas, não tem um corpo como o nosso, que tanto trabalho nos dá; é forte, veloz, não envelhece, não tem que se cuidar para não se ferir, ou adoecer, ou morrer. Tem a pele fria, não come, não bebe; não se expõe ao sol; pode prever o futuro e pode ler as mentes dos humanos. Também não tem vínculos significativos: ele é só, não precisa de ninguém e ninguém precisa dele, nem conta com ele. Por outro lado ele tem tudo o que quer, é dominador, controlador, e só pensa em si. Neste filme, como em outros filmes mais antigos os vampiros vivem em uma comunidade e eles brigam e disputam entre si como nós. E isto mostra como é difícil pensar um ser diferente do que nós somos. Mesmo nestes filmes sobre o mundo futuro e sobre outros planetas os personagens não são nada diferentes de nós, tanto nos sentimentos como nas competições e nos objetivos. Voltando às características do V.: ele não sente nossos sentimentos de frustração, de culpa, de responsabilidade. Ele não tem que lutar como nós, para ter o que quer. Ele não tem objetivos para serem valorizados ou para se sentir gratificado quando consegue realiza-los ou tristeza quando não consegue. Portanto o vampiro não tem sentimentos como nós. E também não tem projetos. Tudo para ele já está estabelecido. Ele não tem porque lutar, com que sonhar. Ele não tem que se realizar como nós os humanos O ser humano é livre e indeterminado, nas palavras do psicanalista Helio Peregrino. Nascemos livres e indeterminados. Temos que nos construir, temos que lutar para sobreviver. A única coisa determinado para nós é a morte. Sabemos que vamos morrer; este é nosso destino e vivemos lutando com o tempo e contra o tempo. 2 O Vampiro não tem esta preocupação, não tem esta briga, ele sabe que é eterno. E não tem que se determinar, se definir, se realizar. Ele está pronto! Será que o vampiro se localiza entre Deus e o homem? Não, o vampiro se localiza entre o animal e o homem. Algumas de suas características podem nos confundir, como a eternidade do vampiro que faz parecer que é igual a da divindade. Na verdade o vampiro é eterno como os animais que são imortais na medida em que os animais vivem para preservar a espécie e não para se realizarem. O vampiro não vive a luta entre amor e ódio, entre vida e morte, entre força e fragilidade, entre potência e impotência. Ele não sofre. Já o homem luta para preservar vínculos porque vive em função dos vínculos com pessoas, com o trabalho, com o grupo social a que pertence; vivemos vinculados com nossos projetos e sonhos. O vampiro não tem o que preservar. O V. também não tem história. Ele já teve uma família, um grupo social a que pertencia, como todos nós, mas isto já ocorreu há muito tempo e não tem mais sentido para ele; o V. do filme tem cento e poucos anos, mas outros tem já duzentos ou mil anos, isto não importa mais, nem o que ocorreu antes com eles. Este desvinculamento é, sem dúvida, o mais importante a ser considerado nesta criação fantástica da mente humana. Então agora podemos passar a pensar como a mente humana criou o V. Vamos pensar no bebê, no recém nascido que nasce chorando reclamando e necessitando urgentemente de cuidados, de proteção e de alimento. Quando desesperado o bebê acredita que está sendo atacado, e que querem matá-lo. Segundo a psicanalista M. Klein a existência do outro é sentida imediatamente, seja quando a criança se sente mal seja quando se sente bem, alimentada, com conforto. Se ele se sente bem o outro é bom e o está protegendo, se se sente mal, o outro o está matando. Então, na menor falta a criança odeia sua necessidade do outro e gostaria de não precisar do seio para alimentá-la; gostaria de ser o seio, de se bastar a si mesma. A alimentação e a relação com o seio nutridor é nosso primeiro contato com o mundo, com a vida. A oralidade do V. tem a ver com esta 3 nossa primeira fase de vida, em que sugamos com prazer ou mordemos com raiva o seio que frustra. Tanto o V. como o lobisomem, expressam muitos de nossos desejos. Ao nascer somos de uma impotência total, o ser humano mais do que os outros animais, e esta impotência é assustadora. O jeito de nos livrarmos deste sentimento insuportável de impotência é nos imaginarmos poderosos, onipotentes, capazes de conseguir tudo, de termos muita força, poderes absolutos. Não é assim o Super-homem? Ele pode voar, tem uma força ilimitada, vê tudo, percebe tudo à distância etc. Este desejo de poder nasce conosco, nas nossas fantasias. Então o que são as fantasias senão a expressão de nossos impulsos: se queremos ser fortes e autosuficientes nós nos imaginamos assim; se estamos com ódio e queremos eliminar o inimigo nós o matamos em nossa mente. Vivemos amor e ódio todo tempo, na realidade e em fantasia. A fantasia é a expressão mental de uma força interna, de uma energia que vem de dentro e que comparece na mente como algo bom ou como algo ruim. O mundo para o recém-nascido é o seio: se o seio está presente ele se sente amado; se o seio está ausente ele se sente abandonado. É este sentimento de abandono que mais nos assusta porque estamos então ameaçados de morte. A grande ameaça é sempre a morte, por isto que o que mais desejamos é nos livrar desta ameaça. Mais como? Acreditando que podemos ser eternos, como o Vampiro! E não é só. Com ódio do seio e da fome, a criança sonha em não precisar de alimento. Sonha também não precisar de ninguém, em não sofrer com as faltas, em não depender de nada, em não ter que se cuidar para não se machucar, para não sentir qualquer dor física ou psíquica. O V. é assim! Então o V. é a expressão de nossos desejos. A jovem encantada com o Edward vê nele o namorado perfeito: o jovem apaixonado que está sempre presente para protegê-la de qualquer perigo, que a leva aos lugares fantásticos como num sonho maravilhoso e que quer só estar com ela e só pensa nela. Todos gostaríamos de ser amados assim. 4 Criamos o V. com estes dons: podemos dizer que ele é afortunado: ele é eterno, tem muitos poderes, se transforma com facilidade; não perde em suas disputas, aparece e desaparece quando quer, lê a mente dos outros e, portanto, sabe o que o outro pensa e se antecipa aos fatos; também não precisa lutar para sobreviver, não fica doente, não envelhece. Tem tudo traçado e é completo. Este ser com estes recursos é o sonho do bebê, ou dos bebês de qualquer idade. E das jovens sonhadoras também. Mas podemos dizer também que o V. é um infeliz; ele não tem objetivos, não tem que se esforçar para nada, não tem projetos, não depende de ninguém e não espera nada de ninguém. Os outros não tem nada para lhe oferecer, a não ser seu sangue que se ele suga, perde a pessoa, porque ela morre. Então: não tem vínculos, não tem o que realizar, está pronto para sempre. Podemos dizer, então, que ele é um condenado. A cara triste do nosso V. diz isto. Tem todos estes poderes mas não tem escolhas. Tem vida própria e não tem vida nenhuma. Tem muita força mas é extremamente frágil, determinado. Diferente de nós que nascemos indeterminados e vivemos nos buscando. Nós desfrutamos de recursos que o V. não tem: o prazer da comida, o prazer de sonharmos, de fazermos projetos, o prazer dos vínculos, dos relacionamentos, o prazer de estarmos sempre nos descobrindo, sempre criando, sempre nos superando. Nascemos indeterminados, estamos todo tempo tentando nos encontrar. Esta é a vida. Este é o encanto da vida. Só que estes vampiros do filme trazem umas novidades; vocês viram como ele ficou assustado quando viu a moça, por que? Porque ela o tocou de forma inesperada, desconhecida, de uma forma nova. Ela mobilizou seus sentimentos; este é o perigo que qualquer V. corre: sentir sentimentos. Isto não faz parte de suas vidas, de sua natureza. Quando ela o tocou, ela criou um sério problema para ele porque sua natureza de vampiro ficou alterada. Ela fez se instalar nele aspectos completamente abandonados, antigos, de quando ele era gente. Ela fez reaparecer nele a vida, uma vida que ele não tinha mais contato. No filme o drama não é da jovem; o drama é do V. O cheiro da jovem, que eles mencionam, é o cheiro 5 humano, de vida, de um ser vivo. Não é só ele, o Eduard, que é diferente neste filme, os outros, do seu grupo também: não sugam os humanos, vivem bem com as pessoas e até ajudam os outros. O chefe deles é médico e atua na comunidade. Mesmo os lobisomens, do outro filme, também estão diferentes; eles protegem a comunidade. E curiosamente o V. não é feliz; apesar de todos os seus poderes eles não são felizes. E também não se sentem superiores! Eles parecem reprimidos, contidos, ameaçados. Só os V. do outro grupo é que não são assim, e são muito violentos, e representam uma ameaça para todos. Vejam: existe então o grupo que é só instinto e outro grupo em que se pensa, discrimina, escolhe. O grupo do Eduard é o segundo grupo, daí a preocupação deles em protegerem os humanos, porque eles escolheram a contensão. O Eduard, e o seu grupo, estão em outro nível: eles reprimem, eles se contém, eles fazem grande esforço para não matarem as pessoas etc. Logo estão mais próximos dos homens do que os outros. Neste filme os V. viram heróis e os lobisomens querem proteger os humanos. Também querem retornar á condição humana ou estão muito preocupados com os humanos. O que é isto? Esta é uma questão que eu penso estar relacionada ao mundo atual, ao mundo em que estamos vivendo. É uma metáfora sobre nossa cultura onde temos realmente muitos vampiros e lobisomens que precisamos identificar, dentro e fora de nós. A renuncia instintiva sempre nos deixa orgulhosos, satisfeitos: quando não comemos tudo que temos vontade, quando não brigamos, não roubamos, não matamos. Estes V. também, como nós, tentam superar a sensorialidade e a impulsividade (vão á escola para aprender). Estão lutando para integrar os nossos dois aspectos básicos: o sensorial e o espiritual ou intelectual. E o filme chama nossa atenção para o perigo do domínio da sensório, da necessidade de satisfação imediata de nossos impulsos e desejos. Como os animais, os vampiros violentos do filme, repetem padrões conhecidos sem pensar, sem avaliar o que estão fazendo. E sem ter nenhuma consideração pelo outro. 6 No filme é o V. que se questiona – parece que o filme quer que nós também nos questionemos sobre nossas vidas, nossos valores. O filme inverte a situação. Na verdade estes problemas são muito humanos, nós é que não queremos perceber. Se prestarmos atenção a muitos jovens de hoje vemos que eles tentam, arrogantemente, eliminar seus vínculos familiares; não se interessam pela tradição da família a que pertencem e desprezam mesmo toda sua história. Eles ficam felizes de pertencerem à sua tribo, ao seu grupo do momento. E não têm projetos! E desprezam os projetos futuros, viram as costas para isto. Fazem exatamente como os vampiros: sem passado, sem futuro, só interessa o presente! O V. nos é familiar, principalmente para as crianças que estão ainda elaborando suas defesas e lutando muito com suas fantasias agressivas; as crianças estão muito perto ainda daquela fase, a oral, em que éramos só boca e sucção, em que éramos vampiros. Estão mais próximos do mundo da força física, do poder físico, da necessidade de gratificação imediata. Eles estão ainda elaborando os processos de construção de valores significativos em que a subjetividade, os recursos pessoais internos, os vínculos e a força moral é que importam. Então, o filme está trazendo este confronto como uma metáfora para festejarmos a Vida. A idéia do V. é uma forma de valorização da vida, do humano. O filme mostra isto: quem ama ou odeia, quem tem que passar pelo sofrimento, suportar o sofrimento físico ou psíquico, está vivo. O filme mostra como os vínculos são importantes, como os sentimentos são importantes, como a morte é um perigo constante, não a morte física mas a morte das coisas boas dentro de nós. O grande perigo é a morte dos bons sentimentos, e isto o filme mostra bem principalmente quando apresenta o grupo dos vampiros assassinos. O Edward tinha perdido os sentimentos, eles estavam mortos dentro dele, e reaparecem ao vê-la. A jovem que sabe o que quer, que sabe de seu sentimento de amor, que escolhe ficar com ele, é absolutamente humana. Ela valoriza o ser humano sendo como ela é e coloca o questionamento para todos nós: quais são nossos reais valores e o que dá sentido à vida? Vejam: vivemos cuidando de nós mesmos e de nossas relações mas estamos sempre tentados pelos 7 poderes do vampiro, pelo narcisismo, que nos faz desconsiderar o outro e nos faz pensar unicamente em nós mesmos. Vivemos tentados pelo desejo de sermos eternos e de não termos que enfrentar dificuldades e principalmente de não precisarmos de ninguém; tentados pelo desejo de não termos que reprimir nossos impulsos. Chegamos muitas vezes a acreditar que isto é que é bom. Os vínculos trazem sofrimento; é a necessidade do outro o que mais nos frustra. E no filme isto está muito claro: não só ela necessita dele ou de outro homem para amar, como ele necessita dela e não pode mais viver longe ou desligado dela. O V. nele se enfraqueceu quando o humano voltou a comparecer. O humano é a preocupação com ela, o sentimento de falta, o desejo de estar junto, de usufruir da companhia dela. Mas é principalmente a necessidade de se controlar, de se conter, de ter que pensar para agir, que o aproxima do humano. O filme mostra a força do humano, e não o contrário. Aliás todas nossas criações mentais são próprias de nossa natureza; o bom é podermos usufruir o máximo de nossa natureza, até para sonharmos com o que não existe. A jovem está totalmente disponível para viver seus sentimentos já ele, o V., não sabe o que fazer com eles. Todos os seres humanos do filme vivem dramas, sofrimentos, mas sabem que é assim, e suportam a vida. Os conflitos maiores são os dos V. que não sabem nem o que fazer com seus poderes. Vejo o filme como uma lição de vida. Só podemos criar personagens que expressam nossos desejos e expõe nossos aspectos agressivos e destrutivos internos; somos bons e maus, capazes de agregar e de desagregar, capazes de construir e de destruir. Mas principalmente capazes de ter consciência de nossos atos e de podermos escolher. Observem e verão que o mundo é assim, sempre foi assim, um mundo de seres humanos, de lutadores incansáveis, valentes, heróicos, apaixonados e muitas vezes desesperados. Vivemos lutando com estes dois aspectos 8 internas que nos são inerentes: amor e ódio. E até os personagens que inventamos têm essas características, e nem podia ser diferente! * * * * * 9 * *