DOI: 10.4025/4cih.pphuem.120
GUERRAS RELIGIOSAS NO FILME A RAINHA MARGOT
Rosangela de Oliveira Dias
Universidade Severino Sombra
A possibilidade aberta por novas fontes de pesquisa para a escrita da história
transformou o cinema em meio para a produção historiográfica. Não somente enquanto fonte,
mas principalmente enquanto forma de reflexão sobre o mundo contemporâneo. Daí a
expressão cinema-história cunhada pelo francês Marc Ferro nos anos 70 e até hoje utilizada
por vários historiadores que se dedicam ao uso do filme/cinema enquanto fonte/objeto da
história. A proposta deste trabalho é pensar o filme como reflexão historiográfica e facilitador
do ensino da história.
Para fazer tal uso me aproprio da reflexão de Robert Rosenstone. Segundo este autor
“aproximar-se do mundo do cinema é uma experiência que suscita entusiasmo e desconcerto.”
(Rosenstone,1998,p.105) Entusiasmo em função do inusitado, de podermos sair da academia,
de uma biblioteca e de fontes documentais tradicionais. Além do desafio que é pensar o filme
enquanto reflexão histórica e nos voltarmos para outra linguagem e desta extrair uma escrita e
um conteúdo didático para transmitirmos este pensamento historiográfico. Além disso,
segundo J.J. Rack “as imagens são mais apropriadas para explicar a história do que as
palavras. A história escrita convencional é (...) linear e limitada (...) incapaz de mostrar o
complexo e multidimensional mundo dos seres humanos.” (Apud Rosenstone,1998,p.107)
Ainda que não concorde plenamente com o historiador Rack, aceito a premissa de que
determinados filmes extrapolam a função de unicamente divertir e fazem refletir. Esta,
inclusive foi a idéia proposta pelo cineasta Eisenstein ao pensar a produção filmográfica. Para
Eisenstein a montagem de um filme funcionaria como um hai-kai, um ideograma que, a partir
da junção de determinadas imagens, produz uma reflexão sobre o tema narrado. Segundo ele
este seria “... o papel que toda obra de arte se impõe, a necessidade da exposição coerente e
orgânica do tema, do material, da trama, da ação...” (Eisenstein2,1990,p.13,grifo no
original) Ora, estas não seriam também as premissas de um discurso histórico? Não é exigido
do historiador que exponha de forma coerente e orgânica seu tema, trama e ação, ainda que
não somente isso. Entretanto, ainda segundo Eisenstein, “o filme, com suas ricas
potencialidades técnicas e sua abundante invenção criativa, permite estabelecer um contato
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internacional com as idéias contemporâneas.” (Eisenstein1,1990,p.11)
É esta idéia que
abraço ao utilizar o filme como meio didático para ensino e reflexão sobre a história.
O filme que me proponho a trabalhar é A rainha Margot, co-produção
Francesa/Alemã/Italiana dirigida por Patrice Chéreau realizada em 1994. O pré-texto do filme
é o romance de Alexandre Dumas A rainha Margot, escrito em 1844, mas, e isto é o que
procuro demonstrar, Chéreau queria refletir sobre as guerras étnicas surgidas na região
balcânica após o fim da União Soviética.
O texto ora apresentado levantará algumas questões sobre o filme, abrindo um leque
de possibilidades de uso didático do mesmo. Para tal farei inúmeras ligações do filme com as
diferentes possibilidades/narrativas que o mesmo explora/aborda.
O pré-texto para a narrativa cinematográfica é o livro A rainha Margot de Alexandre
Dumas, considerado pertencente ao romantismo tardio, em função de as grandes obras
românticas de Balzac e Vitor Hugo, terem sido escritas anos antes de A rainha. Segundo
Marlyse Meyer o livro de Dumas inscrever-se-ia no chamado folhetim histórico. O folhetim
surgiu na França em 1830 visando aumentar o público leitor, inicialmente não passava de um
rodapé dos jornais e “Podia ser dramático, crítico, tornando-se cada vez mais recreativo.”
(Meyer,1996,p.31) Mas o sucesso e a consolidação do folhetim aconteceram “...quando
Girardin, utilizando o que já vinha sendo feito para os periódicos, decide publicar ficção em
pedaços.” (Meyer,1996,p.32).
Alexandre Dumas foi autor de sucesso de folhetins e, como abordou temas da história
da França, como a Revolução Francesa (Os três Mosqueteiros) e a Noite de São Bartolomeu
(em A rainha Margot), inscreveu-se nesta corrente. Segundo Marlise Meyer o chamado
folhetim histórico “... cavouca segredos de alcova e mexericos de outros tempos, ressuscita
espadachins e suas bravatas, ministros, rainhas...” (Meyer,1996,p.67) A rainha Margot aborda
estes temas, situando a narrativa em 1532 período das guerras religiosas entre protestantes e
católicos em solo francês.
Temos aí a primeira possibilidade aberta pelo filme, trabalhá-lo pensando como o
século XIX se apropriou e utilizou temas históricos em seus romances. A especificidade do
romance histórico, os temas abordados pelo folhetim e como as tramas deste gênero utiliza as
intrigas palacianas, conflitos entre pais/filhos e os amores impossíveis como motor da
narrativa.
Outra questão a ser abordada são as três temporalidades que se cruzam no filme. Por
que as Guerras Religiosas do século XVI seriam tema profícuo e de sucesso na França em
1844? Que pontos em comum existiriam entre a sociedade francesa do final do século XVI e a
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de meados do XIX? A mesma questão se coloca para o século XX. Há semelhanças entre a
França/Europa do século XVI e a Europa do final do século XX?
Em termos de espacialidade, podemos pensar que, ainda que o filme se passe
majoritariamente em solo Frances e suas tramas e personagens principais sejam franceses,
consideramos que o filme ultrapassa as fronteiras da França. Vários são os indícios deste fato.
O filme é uma co-produção com Alemanha e Itália e o pré-texto inicial, as Guerras Religiosas
do século XVI, mais especificamente a Noite de São Bartolomeu, permite uma abordagem
para além do território Frances. Este dado nos remete à questão atualmente tão discutida que é
a formação/consolidação da União Européia.
Nossa hipótese é que o filme trata bem mais do final do século XX do que do século
em que a trama se passa. A análise cinema-história que utilizamos parte desse pressuposto,
todo filme fala do presente, seus enredos, tramas, personagens e formas narrativas abordam o
momento em que o mesmo é feito. Ainda que, supostamente, a trama se passe no passado ou
num futuro de ficção científica, o filme pensa, reflete, trata o aqui e agora. Isto não invalida a
possibilidade de utilizarmos um filme para compreensão, reflexão e análise do passado, mas
devemos sempre trabalhá-lo no sentido de ressaltarmos que, bem mais do que o passado é o
presente que justificam tanto a produção do filme quanto sua análise.
Patrice Chéreau, diretor de A rainha Margot, deseja refletir bem mais sobre a Europa
do final do século do que discutir as disputas religiosas entre católicos e protestantes no
século XVI, ainda que também faça isto. Comecemos do início, isto é, da trama “original”.
O romance de Dumas, A rainha Margot, se passa durante as Guerras religiosas
francesas de 1560 a 1595, violento conflito entre católicos e protestantes. Neste momento a
França, segundo o historiador Perry Anderson, caminhava em direção ao absolutismo. O
absolutismo, tipo de estado surgido no Ocidente entre as monarquias centralizadas da França,
Inglaterra e Espanha, rompeu a soberania piramidal e parcelada com seus sistemas de
propriedade e vassalagem do período medieval. (Anderson,1998,p.15-40) A partir de então,
como coloca Norberto Bobbio se estabelece uma “forma de Governo em que o detentor do
poder exerce este último sem dependência ou controle de outros poderes, superiores ou
inferiores.”(Bobbio,2004,p.2)
Neste ponto, o Absolutismo do poder monárquico é alcançado, ao menos em teoria,
na medida em que o príncipe não encontra mais limites para o exercício de seu poder
nem dentro nem fora do estado nascente. Ele não é mais súdito de ninguém e
reduziu a súditos todos aqueles que estão debaixo de suas ordens. Delineou-se, na
verdade, em seus traços essenciais, o novo e indiscutível princípio de legitimidade
do príncipe n o Estado: o princípio de soberania... (Bobbio,2004,p.3)
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A consolidação do Absolutismo na França se deu em direção ao Estado monárquico
centralizado e as Guerras religiosas foram uma das três grandes rupturas que sofreu o
processo, as outras foram a Guerra dos Cem Anos (séc. XV) e a Fronda (sec. XVII).
(Anderson,1998,p.85) As guerras ocorreram após os conflitos religiosos, resultado da
Reforma e:
Do princípio ao fim, (...) foram conduzidas pelas três grandes linhagens rivais de
Guise, Montmorency e Bourbon, cada uma com o controle de um território
senhorial, vasta clientela, influência dentro do aparelho de Estado, tropas leais e
conexões internacionais. (Anderson,1998,p.90)
Ainda, segundo Anderson, o protestantismo na França se espalhou nas regiões mais
pobres da França e muito ligadas ao particularismo senhorial.
O filme A rainha Margot se inicia justamente numa tentativa de estabelecer a paz
entre as facções religiosas, através do casamento forçado da católica Marguerite de Valois e o
protestante Henri de Navarre. Entretanto, as bodas funcionaram para detonar um violento
massacre de protestantes conhecido como a “noite de São Bartolomeu”. O massacre ocorreu
em 24 de agosto de 1572 e teve a conivência do rei francês Carlos IX irmão de Margot.
O filme começa mostrando a animosidade existente entre católicos protestantes de
forma contundente. Paris está lotada de protestantes que vieram assistir ao casamento de
Marguerite Valois e Henri de Navarre. As estalagens estão cheias e um comercian
te ávido por ganhar dinheiro, aluga um mesmo quarto para dois hóspedes, um protestante e
um católico. O espaço se mostra pequeno demais para os dois que quase se matam, mas em
função da situação decidem permanecer no mesmo quarto. Situação que nos remete aos
Bálcãs, onde muçulmanos e católicos viviam juntos desde muito tempo, mas com o fim da
República Iugoslava isto se tornou impossível. José Augusto Lindgreen Alves ao trabalhar a
região destacou o fato de que nela, o Império Otomano aplicou a primeira política
“multiculturalista”, o chamado sistema do millet.
De acordo com esse sistema, que perdurou por longos séculos, as comunidades eram
identificadas a partir da religião (muçulmana, ortodoxa ou judaica) e administradas
pelo líder religioso respectivo conforme os preceitos de cada. (...) o millet permitiu,
com todas as dificuldades de povos subjugados, aos búlgaros serem búlgaros, aos
gregos serem gregos, aos sérvios se manterem sérvios, sob o “jugo” da Sublime
Porta que não os islamizou à força, por mais de quinhentos anos. (Alves,2004,p.58)
Segundo Emmanuel Le Roy Ladurie em seu livro O estado monárquico
(Ladurie,1994,p.211) o massacre do século XVI visou “restabelecer uma ‘verdade’: a da fé
católica”. As guerras nos Bálcãs dos anos 1990 utilizaram como justificativa separatista a
religião. “Na pós-modernidade vigente a religiosidade voltou com força avassaladora.”
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Animosidades antigas decorrentes de hostilidades tribais anteriores ao estabelecimento do
Estado-nação na Europa ressurgem, bem como a idéia de que “o indivíduo somente se realiza
na respectiva ‘comunidade de identificação’. E um dos ingredientes mais fortes sempre foi a
religião.” (Alves,2004,p.76) Dois momentos, mas uma intransigência que aproxima os dois
momentos: séculos XVI e XX.
A segunda cena do filme é o casamento de Marguerite com Henri em cerimônia
cercada de grande pompa. Segundo Ladurie, “o último dos Valois passa por precursor, em
termos de invenção de imagens absolutas da realeza, às quais os primeiro Bourbon e
sobretudo Luis XIV darão a fulgurância que se conhece.” (Ladurie,2004,p.216) Marguerite se
nega a dar o sim, quando é perguntada se deseja Henri como esposo. Um de seus irmãos, o rei
Carlos IX, cujo mentor é Coligny, líder dos protestantes huguenotes, empurra sua cabeça e o
casamento se consuma.
O “verdadeiro” Henri de Navarra era bem jovem, um adolescente, mas em nosso filme
o autor que o interpreta teria Daneil Auteil teria 44 anos. Considero que isto se deve para que
fosse estabelecida uma analogia entre os governantes de hoje, que chegam ao poder com esta
idade. Situação que se repete com Carlos IX, que em 1572 deveria ter 22 anos, mas o ator que
o interpreta Jean Hugues Anglade teria 39 anos.
Utilizo tais informações para estabelecer a ligação entre as Guerras religiosas da
França no século XVI e o final do século XX são as guerras religiosas da Bósnia, os conflitos
étnicos nos Bálcãs ocorridos após a dissolução da antiga Yugoslávia. O filme é uma coprodução de países da Europa central, a França é a líder desta co-produção; o filme é falado
em Frances e os intérpretes dos protagonistas são artistas franceses. O processo de
consolidação da criação de uma Europa unificada é/foi projeto encabeçado pela República
Francesa. O processo separatista dos nacionalismos dos Bálcãs dos anos 1990 vão se utilizar
da religião para fortalecer o nacionalismo patriótico, enfraquecendo o processo de unificação
européia. A necessidade de uma Europa forte econômica e unida politicamente surge nos anos
50. “A experiência da dominação fascista, da Segunda Guerra Mundial e do holocausto, ao
lado da perda de poder e prestígio pós-1945 iluminaram a construção de uma alternativa de
poder ao mundo bipolar, a chamada União Européia.” Jean Monnet e Robert Schuman,
políticos franceses lideraram este processo e são considerados dois dos Pères Fondateurs
responsáveis pela Nova Europa surgida dos destroços da Segunda Guerra. (Silva,2004, p.923)
Eles foram os elaboradores do Plano Schuman que, divulgado em 9 de maio de 1950, tornouse a data considerada de fundação da União Européia. Schuman foi Presidente do Parlamento
Europeu entre 1958 e 1960.
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A idéia era estabelecer o controle da produção do carvão e do aço, matérias-primas
fundamentais para a produção de armamentos. (Silva,2004) Criou-se então a CECA
(Comunidade Européia do Carvão e do Aço) e, posteriormente a CEE (Comunidade Européia
da Energia Atômica e a CEEA ou EURATOM (Comunidade Européia da Energia Atômica).
A próxima etapa desta unificação européia se dará com a criação do Mercado Comum
Europeu (CEE) que buscava uma cooperação econômica respeitando a soberania dos Estadosnação e os interesses estratégicos de seus membros. (Silva,2004,p.923) Ao final do século XX
a CEE se consolida e assume o papel de pólo do poder europeu, uma verdadeira união
européia se estabelece com a livre circulação de pessoas e a plena vigência do passaporte
comum. (Silva,2004,p.925) A chamada grande União Européia se dá a partir de 1986, quando
os países membros aceitam a Ata Única Européia que prevê a constituição de um mercado
plenamente unificado, realzado através do tratado de Maastricht em 1992. Entretanto,
O fim do socialismo soviético, com a abertura da Europa central e oriental, a
reconstrução alemã, os temores da França na nova e instável conjuntura do pósGuerra Fria - tudo isso obriga a um acelerado relançamento da idéia de uma
comunidade européia para além da entidade econômica. (grifo do autor,
Silva,2004,p.925)
Mais uma analogia estabelecida para corroborar a idéia de que o filme trata do século
XX. O cineasta Patrice Chéreau utiliza as Guerras Religiosas do século XVI para refletir
sobre esta nova Europa que se delineia, ou melhor, que é ameaçada de não se concretizar em
função das Guerras Civis que explodem nos Bálcãs com o fim da União Soviética. Se, a
divisão religiosa, dificultou ou retardou o processo de unificação da França sob a égide de um
estado absolutista, as guerras civis da Bósnia também oferecem este perigo. Agora para uma
união européia. Chéreau busca similitudes nos dois processos quando comunidades que
viviam aparentemente em paz começam a se destruir em função de diferenças religiosas e/ou
lingüísticas. Não coloco que o projeto de União Européia seja um projeto absolutista, mas
como esse, busca criar uma união política entre habitantes de diferentes comunidades/países,
os chamados Estado-nação, unidade central de organização da vida política moderna, criados
a partir do absolutismo.
A violência do filme, as intrigas palacianas e o combate à intolerância se mostram
eficazes na denúncia/analogia com a situação dos Bálcãs ao final do século XX. Nosso filme é
realizado em 1994, momento crítico da principal guerra havida na antiga República
Federativa da Iugoslávia após a dissolução da União Soviética. A República Iugoslava
formou-se, após o final da Segunda Guerra Mundial, sob a liderança de Tito, chefe
guerrilheiro contra os nazistas na região que conseguiu unificar as diversas etnias integrantes
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da nova República (croatas, sérvios, eslovênios, montenegrinos, albaneses e macedônios).
Entretanto, a morte de Tito em 1980 e a posterior desintegração da União Soviética em 1989
fizeram explodir e retomar os movimentos separatistas. As diferentes etnias da antiga
República Iugoslava e a violência desta guerra, que apelou até mesmo para o extermínio
étnico, exibiram o esfacelamento do Estado e o fim do monopólio legítimo da violência que a
maioria dos estados europeus desde 1945 desfrutavam. (Hobsbawm,1998,p.269) Monopólio
obtido, regulamentado e legitimado através (ainda que não só) do estado absolutista.
A rainha Margot expõe a barbárie das Guerras Religiosas, período onde ainda não
vigorava o Estado absolutista plenamente consolidado, para nos falar da barbárie instalada nos
Bálcãs no início dos anos 90. Barbárie que remete a Europa para um momento anterior ao
estabelecimento do Estado-nação ainda não consolidado para um momento do Estado-nação
em plena dissolução.
Outro fato que nos permite analisar o filme A rainha Margot como uma
alegoria/reflexão sobre a Europa contemporânea é o fato de seu diretor ser oriundo da ópera.
As atuais montagens operísticas se caracterizam por uma tentativa de modernização que
passa, justamente, pela adaptação de libretos operísticos para a chamada realidade
contemporânea. Patrice Chéreau, em 2002, no consagrado festival anual operístico de
Bayreuth,i transferiu a ação de O anel dos Nibelungos, ópera de Wagner “originalmente
passada num tempo mítico, para a época da revolução industrial, transformando deuses em
barões de fraque, adornados por barbas bem desenhadas.” (Claudio, 2002)
Inúmeras cenas e situações encontradas no filme poderiam ser invocadas para
demonstrar que o diretor nos quer falar da Europa do final do século XX. A sensualidade e a
lascívia encontradas na personagem Margot, que sai à noite mascarada à procura de sexo, nos
remete muito mais século XX e à reflexão de Michael Ignatieff sobre os Bálcãs. Segundo este
autor o caos resultante desse colapso “propiciava a oportunidade de ingressar em um paraíso
erótico onde tudo é permitido. Daí a cultura semi-sexual, semi-pornográfica das pistolas nos
postos da fronteira.” (Ignatieff, apud Hobsbawm,1998,p.269) O comportamento de Margot,
bem como o de Henri de Navarre com diversas amantes corrobora esta idéia.
O filme é extremamente escuro e de cores fortes, o vermelho que remete a sangue
domina inúmeras cenas. A violência das cenas referentes à Noite de São Bartolomeu
aproxima-nos da tragédia de uma França anterior ao Estado-nação e nos remete à ameaça de
não concretização de uma Europa idealizada “criadora do iluminismo universalista, podendo e
devendo abrigar todas as tribos e fés que dentro dela convivam.” (Alves,2004,p.77)
5354
Notas
i
Bayreuth é palco de um dos maiores festivais de ópera do mundo totalmente dedicado à obra do alemão
Richard Wagner (1813-1883). Durante um mês, o Festspielhaus, o teatro amarelo que o rei Ludwig II mandou
construir especialmente para as montagens de Wagner, atrai uma legião de aficionados que chegam a comprar
com quatro anos de antecedência os ingressos para a montagem da tetralogia O anel dos nibelungos, carro-chefe
da programação.
Referências Bibliográficas
ALVES, José Augusto Lindgreen. “Os Bálcãs novamente esquecidos” in REVISTA
BRASILEIRA DE POLÍTICA INTERNACIONAL. VOL 47 N°1, Brasília Jan./June 2004
(p.55-83)
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado absolutista. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985
BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política
(Vol.1). Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004
EISENSTEIN, Sergei (1). A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990
(2). O sentido do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990
HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo Companhia da Letras, 1998
LADURIE, Emmanuel Le Roy. O estado monárquico, França, 1460-1610. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994
MEYER, Marlise. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996
ROSENSTONE, Robert – “História em imagens, história em palavras: reflexões sobre as
possibilidades de plasmar a história em imagens”, in O OLHO DA HISTÓRIA. Revista de
História Contemporânea, V.1, n.5 – (1998) – Salvador-Ba: Bahia, set. 1998
CLAUDIO, Ivan. “Ouro para eruditos” in Revista ISTO É on line, 30/01/2002.
http://www.terra.com.br/istoe/1687/artes/1687_ouro_eruditos.htm 
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