Reflexões de Cinema A ideia desta coluna não é uma crítica cinematográfica, mas trabalhar sobre os temas tratados por filmes para convidar a algumas reflexões. Recomendamos ao leitor ver o filme para melhor desfrutar dos aspectos aqui tratados. A Grande Beleza Por Myrthes Gonzalez Onde está a beleza? No mundo ou nos olhos de quem a aprecia? Oscar de Melhor filme estrangeiro, A Grande Beleza de Paolo Sorrentino, encontramos o contínuo contraste entre o que se mostra visível e o que somos capazes de suportar ver. O filme se passa em Roma, em toda luminosidade primaveril. O expectador é imerso desde os primeiros minutos de exibição em uma experiência de beleza cuja fonte é simples: um roteiro bem construído, bons atores, música, boa fotografia, cenas mágicas e poéticas. Já nos primeiros minutos um turista japonês, quando vai fotografar a cidade, tem um mal súbito e cai no chão, não se sabe se desmaiado ou morto. É como se não suportasse a visão da cidade. A cena muda para a festa de aniversário de Jep Gambardella, que comemorava seu aniversário de 65 anos, em uma festa orgiástica no terraço de seu apartamento em frente ao Coliseu. A festa fervilha de personagens caricaturescos que vão remeter diretamente a estética de Frederico Fellini. Jep é um escritor de um único livro que escreveu há cerca de 40 anos. Época em que numa pequena ilha do mediterrâneo viveu uma grande paixão. Depois não conseguiu mais escrever. Não se sabe como chegou a Roma, mas foi nesta cidade que se tornou jornalista, entrevistando celebridades para uma famosa revista. Jep apresenta um sotaque acentuado do sul da Itália, mostra que não vem de Roma, que foi “absorvido” pela cidade. Mas ao mesmo tempo tem um nome inusitado para um italiano, pois ”Jep”, quem sabe a abreviatura americanizada de Giuseppe (com G), já indica alguém que perdeu suas raízes. Jep perdeu suas raízes que insistem em se pronunciar quando fala. Com Jep visitamos Roma, em beleza e esplendor estonteantes. Mas ao mesmo tempo em que ele parece apreciar a beleza, não é tocado por ela, não consegue vivê-la. Ele é um homem sensível e inteligente que optou por uma vida mundana voltada para a aparência, poder e o dinheiro. Jep fez 65 anos e se sente em crise. Por que tudo é vazio e não é mais capaz de tocar a grande beleza. Por isto não é mais capaz de escrever livros. Está vazio. O que escreve são entrevistas para uma revista que esta ligada a este vazio. Não é claro onde Jep se perdeu, assim como não é claro onde todos nós perdemos a capacidade de encantamento pela vida. Mas o filme vai pouco a pouco denunciando que perdemos a inocência. Tudo começa a se revelar com meninas vestidas em hábitos brancos de freira que estão atrás de uma grade enquanto Jep passa pela rua. Este feminino solene e virginal vai se apresentar em diversos momentos do filme, em diversas versões, como que uma lembrança de uma forma de vínculo com a existência. O ultraje da inocência é revelado quando uma menina, tida como artista precoce, é tirada da convivência com os amigos e é obrigada a pintar uma tela enquanto os adultos se divertiam com sua exibição de ira e dor. Ao mesmo tempo, ao fazer 65 anos Jep, percebe que o tempo de sua vida não é eterno. No transcurso do filme morrem pessoas importantes para ele, acentuando sua crise. Por fim, uma ultima versão das freiras aparece sob a forma de uma “Santa” de 104 anos, que se dedica aos pobres na África. Com uma presença ao mesmo tempo solene e desconcertante, ela fala apenas duas vezes no filme, dando a Jep o que poderia ser um caminho de ”retorno para casa”. Durante uma janta nababesca, ele pergunta como é a pobreza e a resposta é: “A pobreza não pode ser descrita, deve ser vivida.” Finalmente Jep em sua sacada, em frente ao Coliseu, curioso com o fato da “santa” se alimentar somente de raízes, ela fala pela segunda e ultima vez: “Sabe por que eu como somente raízes? Porque as raízes são muito importantes.” Jep vai buscar suas raízes. Não sabemos se consegue encontra-las. Mas talvez a busca já seja o movimento inicial para alçar um grande voo onde a beleza possa ser vivida e não apenas buscada. E um novo livro começa a ser escrito. Proibida reprodução total ou parcial do texto, sem expressa autorização. © Myrthes Gonzalez 2014