1748 X Salão de Iniciação Científica PUCRS O Labirinto do Fauno: o embate político-ideológico entre duas concepções de Espanha Bruno Kloss Hypolito (BPA/PUCRS)1, Dra. Janete Silveira Abrão1 (orientador) 1 Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,Departamento de História, PUCRS Resumo A Espanha é um país cujo passado de trágicos conflitos ainda se faz refletir em seu presente. A Guerra Civil (1936-1939) e, por conseqüência, o regime ditatorial do general Francisco Franco (1939-1975) foi o último exemplo de que conflitos político-ideológicos entre grupos em oposição podem deflagrar uma campanha de terror, perseguição e ódio. A sociedade espanhola atualmente oscila entre a lembrança e o esquecimento destes episódios, muitas vezes trazendo à tona velhos ressentimentos entre alguns grupos. A arte, enquanto reflexo da sociedade, viu-se representando os combates fratricidas das “Espanhas” em conflito. A comunidade cinematográfica mundial vem produzindo ao longo destes trinta e quatro anos uma enorme quantidade de documentários e filmes que abordam temas como a Guerra Civil Espanhola e a ditadura de Franco. Mais recentemente, o diretor de cinema mexicano Guillermo Del Toro realizou dois trabalhos de ficção que exploram essa temática para ambientar suas histórias. O primeiro filme, de 2001, chama-se El Espinazo Del Diablo, que narra a história de um menino que se vê assombrado pelo fantasma de uma criança em um orfanato em meio à Guerra Civil. O segundo filme, de 2006, intitula-se El Laberinto Del Fauno e, mais uma vez, utiliza a ótica de uma criança em uma trama ambientada nos primeiros anos do regime franquista, onde a repressão aos grupos opositores foi a mais violenta. Este último fez com que Del Toro fosse aclamado pela crítica mundial como um promissor diretor da nova geração, ao mesmo tempo em que o filme chamou a atenção para toda sua simbologia e representação sobre o período ao qual o filme remete. Neste sentido, o filme O Labirinto do Fauno será o objeto de análise da presente pesquisa, pois partindo do pressuposto que o filme de Guillermo Del Toro utiliza elementos 1749 objetivos (políticos) e subjetivos (simbólicos) – tanto em cenas como nos personagens – para representar a complexa conjuntura política e ideológica dos primeiros anos da ditadura de Francisco Franco (1939-1944), podemos questionar de que forma o filme representa o embate entre as concepções antagônicas de Nação e Estado espanhol no período em análise. Os objetivos específicos desta pesquisa visam analisar o contexto histórico da Espanha de 1931 até 1944, contemplando os acontecimentos não narrados no filme para que se possa entender a conjuntura política da época; considerando os personagens e suas respectivas representações, buscar-se-á analisar a situação dos diferentes grupos que fizeram parte tanto da resistência ao regime quanto os grupos que o apoiaram, salientando suas respectivas ideologias nacionalistas bem como seus interesses; e por fim, analisar a importância do filme O Labirinto do Fauno para o resgate da memória coletiva sobre a Guerra Civil Espanhola e os primeiros anos de Franquismo. Para tanto, faz-se necessária a compreensão da conjuntura histórica e política da Espanha de 1931 até 1944, utilizando o referencial teórico de autores como Raymond Carr, Gabriel Jackson e Paul Preston. Sobre os paradigmas e conceitos de Estado, Nação e Nacionalismo, serão usadas as concepções de Benedict Anderson e Anthony Smith, bem como o conceito de Ideologia de John Thompson. Para contemplar a análise fílmica, Marcos Napolitano fornecerá, em princípio, o embasamento teórico. E por fim, a reflexão sobre a obra de Del Toro em relação à Memória Coletiva será confrontada com o trabalho de Jacques Le Goff. Para poder responder aos questionamentos da presente pesquisa, os procedimentos metodológicos contemplarão: 1) A análise da bibliografia relativa à Segunda República Espanhola (1931-1936), Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e o período inicial do regime de Franco (1939-1944), em seus aspectos políticos, sociais, econômicos, culturais e ideológicos; 2) A análise dos conceitos de Nação, Nacionalismo, Estado, Ideologia e Memória Coletiva; 3) A análise fílmica selecionando diálogos do filme, elementos objetivos (produção, detalhes técnicos, etc.) e subjetivos (simbologia, ideologia, representação, etc.), contrastando-os com outras fontes documentais e literatura secundária. Os resultados obtidos são parciais, pois ainda carecem de mais estudo teórico e, portanto, análise aprofundada. Entretanto, citarei duas seqüências do filme onde se faz visível o posicionamento ideológico dos dois grupos conflitantes, bem como alguns elementos que fazem parte de seus respectivos projetos de Nação: 1750 A) No decorrer do filme, existe uma seqüência onde o Capitão Vidal - que representa o poder máximo franquista no filme - promove um jantar em sua casa onde os convidados são membros da classe média, um padre e demais oficiais da Guarda Civil. Durante a ceia, ficam claras as intenções desta união entre as classes dirigentes e dominantes tradicionais para a unificação do Estado Espanhol e a idéia de uma “Nação Limpa”, ou seja, uma Nação onde não haja nenhuma oposição ao governo. Ao que o personagem do Capitão Vidal discursa “a guerra terminou e nós (nacionalistas) ganhamos e eles (republicanos) perderam. Não somos todos iguais. Se tivermos que matar todos os desgraçados é o que faremos!”, vemos a semelhança com o que a historiografia nos remete sobre a pós-guerra civil “Aun cuando la legimitad de la victoria se convirtiera en la legimitad de la hazaña, Franco nunca permitió que las divisiones de la guerra civil se apartaran de la memória de sus súbtidos. Su vición siguió siendo maniquea: España y anti-España, vencedores y vencidos”(Carr, 2003). B) Em outra perspectiva da narrativa que compõe a trama, vemos a figura dos guerrilheiros Maquis escondidos em uma gruta onde constatamos a união das classes obreiras e proletárias esquerdistas. A presença de um personagem denominado apenas como “Francês” já sugere por si só a ideologia socialista que prega a universalização do Estado livre e democrático, ao invés de um projeto nacionalista (porém, tal referência não reflete necessariamente os ideais de todos os republicanos). Em breve será possível apresentar outros resultados e conclusões sobre o filme. Neste sentido, já que possui ampla difusão, obras cinematográficas como o Labirinto do Fauno podem auxiliar na compreensão pedagógica de determinados temas, assim como sobre no resgate da memória histórica. Referências Bibliográficas ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 2008. CARR, Raymond. España 1808-1975. 12.ed. Barcelona: Ariel, 2003. JACKSON, Gabriel. La República española y la guerra civil (1931-1939). Barcelona: Orbis S.A., 1976. LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1989. NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In: PINSKY, Carla (orgs.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006, p. 235-289. PRESTON, Paul. España em crisis – Evolución y decadencia del régimen de Franco. Madrid: FCE, 1977. SMITH, Anthony D. Nacionalismo - Teoria, Ideologia, Historia. Madrid: Alianza, 2004. THOMPSON, John B. Ideologia e Cultura Moderna. Rio de Janeiro: Vozes, 1995. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009