Oficina QUIMICURTA Rodrigo S. Pereira 1 Kátia Aparecida da S. Aquino2 PRÉ-PRODUÇÃO A pré-produção é a primeira etapa do processo para fazer um filme. Os profissionais envolvidos trabalham basicamente para tornar uma ideia em algo concreto, desenvolvendo-a criativamente (roteiro e design de produção) como viabilizando-a financeiramente, levantando recursos, adquirindo equipamento e resolvendo toda a burocracia. Esta etapa tem duração variada, pode durar poucos meses ou mesmo muitos anos. 1. Noções de roteiro (p. 1) 2. Noções de design de produção (p. 5) 3. Orientações para a pré-produção do curta-metragem (p. 7) 4. Bibliografia e Referências (p. 10) 1. Noções de roteiro O roteiro é, para todos os efeitos, o esqueleto de um filme. É o que, como uma partida de futebol, todo espectador julga ser capaz de compreender e criticar, e é normalmente o que assume a dianteira no gosto popular, sendo então conhecido apenas como "a história". Não há um esquema único para a criação de um roteiro – mesmo sua tabulação é variável (ainda que tenha se adotado um modelo básico). É possível que o roteiro tenha sido uma ideia original do roteirista, que o desenvolveu sozinho e o apresentou, pronto, a outros profissionais que pudessem viabilizar o filme. Por vezes, um diretor possui em mãos um argumento (uma ideia, um resumo curto de um roteiro apenas com seus elementos-chave) e o passa a um roteirista para que este o desenvolva. Pode ser até mesmo que um produtor leia um romance que encontrou na rua e decida filmá-lo, e vá procurar um roteirista para adaptá-lo. Após estabelecido o roteiro, o diretor (auxiliado ou não pelo diretor de fotografia, e também pelo roteirista – quando não é ele mesmo) pode, a partir dele, criar o storyboard. Trata-se de uma decupagem imagética, funcionando como uma história em quadrinhos. Não é obrigatório o uso de 1 Bacharelando em Cinema e Audiovisual, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, autor deste texto 2 Professora de Química do Colégio de Aplicação da UFPE e coordenadora do projeto QUIMICURTA 1 storyboards, principalmente em filmes com pouca ação (e por ação, compreendamos qualquer ação física, como dançar, correr, e não somente lutar ou atirar). É importante saber que um roteiro pode não estar finalizado até o momento em que não se tem mais o que filmar e deve-se montar o filme. Francis Ford Coppola passou noites em claro retrabalhando o roteiro de Apocalypse Now (1979) durante as filmagens (como é dito no documentário Heart of Darkness – ver Bibliografia e Referências). Num exemplo menos extremo, Joss Whedon teve a oportunidade de escrever seu roteiro para The Avengers (2012) isolado, um pouco antes de se unir à equipe, mas ele fez questão de consultar o elenco posteriormente e saber as impressões de cada ator a respeito de seu personagem, avaliando o que poderia usar no roteiro (que foi então reescrito algumas vezes. Ver Bibliografia e Referências). Vê-se na Ilustração 1, os créditos de roteiro de Easy Rider (dir. Dennis Hopper, 1969), entretanto, só o terceiro nome pertence a um roteirista profissional. Peter Fonda foi, principalmente, quem cunhou o argumento do filme, o que Flavio de Campos (ver Bibliografia e Referências) chamaria de “massa da estória”. O argumento é importante para guiar o roteirista no desenvolvimento dos personagens, das cenas e dos diálogos. É, basicamente, o que determina o objetivo do filme. Não é obrigatório, mas é muito comum que no argumento conste o gênero do filme. Definir um filme como “comédia”, “ação”, “horror” ou “romance” (dentre outras possibilidades) vai guiar a criação do roteiro, lhe conferindo um foco. Digamos, portanto, que o objetivo de uma comédia seja provocar riso, de um horror, chocar, e de um suspense, provocar tensão (ou assustar). 2 Ilustração 1: "Sem Destino" (Easy Rider, dir. Dennis Hopper, 1969) “(...) 'Eu [Peter Fonda] estava meio doidão e olhei para... uma foto de Anjos Selvagens, eu e Bruce Dern numa moto', ele recorda. 'E de repente eu pensei: é isso aí, esse é o western moderno, dois caras atravessando o país de moto... e talvez eles tenham feito uma supertransação e estejam cheios de grana. E eles atravessam o país e vão se aposentar na Flórida... Mas aí dois caçadores de pato num caminhão acabam com eles só porque não gostam do visual deles.'64 Eram quatro e meia da manhã [em Toronto] e a única pessoa doida o bastante para entender a ideia era Dennis Hopper. Embora brigassem o tempo todo, Hopper e Fonda eram grandes amigos. Era uma e meia da manhã em Los Angeles quando Fonda ligou para Hopper e acordou-o dizendo: 'Bicho, escuta só...'” BISKIND, Peter. Easy Riders, Raging Bulls: How the sex-drugs-and-rock'n'roll generation saved Hollywood, p. 44. Editora Intrínseca, 2009 (64: Lawrence Linderman, Playboy, 9/70). Existem coisas que não cabe ao roteirista determinar, como detalhes estéticos do cenário (repare que “cenário”, neste caso, não engloba objetos utilizados na cena, chamados props ou “objetos de cena”) e figurino, iluminação ou enquadramento. O que deve estar muito bem definido no roteiro são os personagens e a descrição de suas ações, de forma a dar o maior suporte possível ao ator. Segundo Aristóteles, o personagem é subordinado à trama (ou um elemento desta), ou seja, 3 a história é mais importante que ele. O dramaturgo Henrik Ibsen, no século XIX, diz o contrário: os personagens bem construídos são capazes de gerar drama por si só. A composição do personagem é uma etapa complexa da construção do roteiro, e na verdade é muitas vezes à parte deste. É comum que sejam escritos “dossiês complementares”, ou seja, detalhes que não constam no roteiro, mas que auxiliarão o ator a incorporar aquele personagem. Detalhes simples, como local de origem, histórias de infância, família, opiniões acerca de um assunto ou outro (relevante para a trama ou não), traumas, tiques... a cada detalhe acrescentado, o personagem ganha complexidade e, por quê não dizer, vida. Na Ilustração 2 (p. 4), vê-se um quadro do filme Alien (dir. Ridley Scott, 1979) mostrando os personagens de Harry Dean Stanton e Yaphet Kotto. Os dois atores improvisaram inteiramente um diálogo entre estes dois personagens em dado momento do filme, baseados unicamente nos imensos dossiês que lhes foram entregues. Este seria um exemplo prático do drama de Henrik Ibsen. A lógica de Aristóteles, entretanto, é mais utilizada. Nela, comumente os personagens obedecem a arquétipos. Os mais conhecidos são: herói, vilão (ou “sombra”), mentor e pícaro. O roteirista Christopher Vogler3 identificou-os em seu livro The Writer's Journey: Mythic Structure For Writers, junto com outros quatro: camaleão, guardião do limiar, aliado e arauto. Estes oito arquétipos compõe as funções principais dos personagens na trama completa (que pode inclusive ser chamada de jornada do herói). Ilustração 2: "Alien - O Oitavo Passageiro" (Alien, dir. Ridley Scott, 1979) Os personagens devem também ser classificados, cena a cena, conforme sua função 3: Christopher Vogler estudou na USC School of Cinema-Television, onde também se formou George Lucas. Como este, foi inspirado pelo mitologista Joseph Campbell, principalmente por seu livro The Hero with a Thousand Faces (1949) e a ideia do “monomito”. Escreveu The Writer's Journey: Mythic Structure For Writers (2007) a partir de um memorando homônimo de 7 páginas que escreveu a fim de guiar os roteiristas da Walt Disney. 4 imediata, como agentes (personagens que realizam a ação central da cena), ajudantes (personagens que estão diretamente envolvidos na ação central ou que exercem ações relacionadas), comentador (personagem que pode ou não estar fora da ação, e a comenta de alguma forma) e os emblemas (personagem-cenário, que existe para caracterizar o ambiente ou a situação, mas não interfere na ação de forma alguma). Na cena da Ilustração 2, os sete tripulantes da nave Nostromo estão presentes, mas nem todos são agentes. A estrutura principal de um filme é a “curva dramática” (criada muito, muito antes do Cinema, a partir de narrativas literárias e teatrais). Na Ilustração 3 (p. 5), podemos ver a curva dramática básica, composta de três Atos, Exposição (onde são estabelecidos os principais personagens, sua situação inicial, locações importantes), Complicação (corpo do filme, que mostra as consequências de alguma modificação na situação inicial) e Resolução (o final, que mostra a nova situação), separados por dois Pontos de Virada, o Ataque (modificação na situação inicial) e o Clímax (ponto de tensão máxima entre os lados opostos de uma trama). Muitos autores descrevem curvas dramáticas ligeiramente diferentes, mais complexas (e algumas nem sequer “curvas”, chamadas “progressão”), acrescentando, por exemplo, o Ponto Central (dividindo o filme em duas Partes, ao invés dos Atos), mas a ideia básica é a mesma. Ilustração 3: A curva dramática. Mesmo filmes “não convencionais” (seria mais interessante dizer “não comerciais”, mas há exceções, como os cineastas estadunidenses David Lynch e Terrence Mallick) – cujo propósito não é contar uma história – normalmente têm roteiros. O Cão Andaluz (1929), famoso curta-metragem surrealista de Luís Buñuel, foi escrito por ele mesmo e Salvador Dalí, exatamente como se vê no filme. Quando o objetivo de um filme não é apenas contar a história, mas expressar algo (alguns contando uma história, outros não), intensifica-se o uso de subtexto, isto é, se utiliza outros 5 elementos que não as palavras para expressar o que quer que seja. Há uma série de recursos, mas o principal é o índice, que pode ser um elemento visual ou sonoro que anuncia algo. Por exemplo, quando uma laranja aparece em “O Poderoso Chefão” (The Godfather, dir. Francis Ford Coppola, 1972), alguém morre em seguida. 2. Noções de design de produção Termo cunhado por David O. Selznick na produção de ...Gone With The Wind (1939), o designer de produção é responsável pela criação de um conceito artístico. Ele guia todo o departamento de arte (até então, era o diretor de arte a cumprir esta função) na concepção do material do filme: cenários, decoração, figurino, maquiagem. Em ...Gone With The Wind, William Cameron Menzies estreou esta função, escolhendo até mesmo as cores e texturas predominantes. Hoje em dia, o design de produção é mais notável nos filmes de fantasia e ficção científica, em que há grande produção de concept arts. Ilustração 4: “Hellboy II - O Exército Dourado” (dir. Guillermo del Toro, 2008) O design de produção não precisa ser responsabilidade de uma pessoa só. Sabe-se que Guillermo Del Toro promoveu reuniões com toda a equipe de Hellboy II para discutir o design de produção, e todos podiam dar novas ideias. Numa destas reuniões surgiu a ideia da animação caricata (usando bonecos de marionete) que conta a lenda do Exército Dourado, ao invés de realizar este prólogo com atores, como se vê na Ilustração 4. 6 É responsabilidade deste profissional orientar a construção dos cenários e objetos a serem utilizados nas filmagens, ou de ajustar as locações. Entretanto, o designer de produção pode não ser o cerne criativo por trás da arte do filme, apenas um supervisor que coordena as diferentes partes. Na série Harry Potter, por exemplo, os oito filmes têm o mesmo designer de produção, mas a equipe de direção de arte (sim, o diretor de arte nem sempre é um só, principalmente nas superproduções) muda ligeiramente de um filme para outro. A partir do roteiro (ou apenas do argumento, ou nenhum dos dois), com ajuda ou não do diretor, o designer deve criar a identidade visual do filme, de forma a lhe conferir alguma coesão. Por exemplo, quando se há diferença temporal significativa entre sequências de um filme, de forma que o leve a uma época completamente diferente, é importante que o designer torne as partes visualmente compatíveis. Não se trata de torná-las semelhantes (seria estranho que uma cidade dos anos 30 fosse visualmente semelhante a uma metrópole atual), mas algum elemento visual deve conectá-las para que o espectador não sinta o choque da transição temporal. Vale a menção do recente 2 Coelhos (dir: Afonso Poyart, 2012), cujo design de produção é tremendamente falho. 7 3. Orientações para a pré-produção do curta-metragem Ao se produzir um curta-metragem, é frequente que as etapas de produção se confundam e se percam. É vital evitar que isto ocorra. Para realizar um bom filme, é necessária organização (mesmo quando a intenção é improvisar). Na fase de pré-produção de um curta-metragem, existem 2 prioridades: fechar o roteiro e encontrar as locações (quando não se trata de uma animação). É muito comum adaptar o roteiro às locações disponíveis para se filmar, ainda que por vezes seja frustrante. Num roteiro de longa-metragem, existem as estruturas que auxiliam sua construção: os atos, personagens primários e secundários, funções narrativas, etc. No entanto, para um curta-metragem, não há tempo hábil para fazer uso de todos estes recursos. É importante conhecer os elementos de um roteiro completo para que se saiba do que abrir mão. O primeiro passo é escrever o argumento. Neste momento, pode ser que uma enxurrada de ideias lhe venha à cabeça. Controle-se! Você não dispõe de muito tempo de filme, e acabará por ter de escolher uma de suas genialidades em detrimento de outras – é um tanto difícil realizar um filme sobre “tudo”. Mas não descarte todas as suas ideias, pois ao desenvolver o roteiro, pode ser que retorne a elas. Outra forte possibilidade é que você não tenha nenhuma ideia de por onde começar. O segundo caso é preocupante, mas não há razão para desespero. Felizmente, a oficina QUIMICURTA tem um tema: “Aqui tem Química”, e você pode começar por aí. Como dizer “Aqui tem Química” num filme? Em 2010, alunos do 3° B produziram o filme “Bom Dia Mustardinha”, que em meio a uma paródia de noticiário, dá uma aula de Química (no caso, sobre Radioatividade). No ano anterior, alunos apresentaram na Feira de Conhecimentos um trabalho sobre perfumes, inspirados pelo filme “Perfume – A História de Um Assassino” (dir: Tom Tykwer, 2006). No primeiro caso, a referência ao tema é literal, trabalhando apenas com o texto. No segundo, a referência é subtextual. Qual das duas abordagens você prefere? Digamos que você prefira “dar uma aula de Química” (trabalhar o texto). Gostaria de contextualizá-la com uma situação real (por exemplo, filmar algo que ocorre antes, durante ou depois de uma aula de Química no CAp), ou utilizar o absurdo, como os meninos de “Bom Dia Mustardinha”? No filme, ao entrevistar um vendedor ambulante (de UM pacote de Mentos), o repórter é obrigado a ouvi-lo discursar sobre as noções básicas de Radioatividade. Pense no assunto de Química que lhe rendeu as melhores notas, ou, pensando melhor, as piores! A segunda opção já exige um pouco mais de criatividade, mas ao mesmo tempo confere uma maior liberdade de criação. Ao se trabalhar o subtexto, pode-se respeitar o tema da oficina e, ao mesmo tempo, contar uma história completamente diferente! Qualquer elemento do cenário, um 8 objeto, uma imagem, há potencial para todos os lados. Sabemos que o ENEM justifica suas questões de Exatas com situações do cotidiano, e esta já é uma ideia. O preparo de uma refeição, um celular sendo carregado, uma garrafa de água que estourou quando seu conteúdo congelou, ou mesmo uma grade enferrujada, são todas soluções simples e eficientes de dizer “Aqui tem Química”. Mas sua ideia não precisa originar-se na Química. Um filme raramente aborda um tema único, existindo uma gama de temas transversais que vêm aparecendo, cena a cena. Apesar do tema da oficina ser “Aqui tem Química”, ninguém disse que precisa ser o tema principal, não é? Vamos, aproveitem-se das brechas sempre que possível. Por exemplo, no filme “O Extermínio” (28 Days Later, dir. Danny Boyle, 2002), os testes de público levaram o estúdio a exigir um final feliz. Alex Garland (roteirista) e Danny Boyle criaram o final, que em muito destoa do restante do filme, mas utilizaram artifícios subtextuais para se apropriarem dele de forma a não desvirtuarem seu próprio discurso. Teve sua primeira ideia? Agora a enxugue: ela está fresca, mas pingando óleo. Vá tirando os excessos, como detalhes estéticos, nomes, datas, falas, lugares, até que você chegue à sua essência, ou seja, o que aquela ideia significa para você e como você gostaria de expressá-la. Tem sua essência? Agora exagere-a. Aumente tudo, berre “ESSÊNCIA!”. Extrapole-se em todos os sentidos, e só então tempere. Acrescente salsa, cebola picada, alho e sal a gosto, talvez um molho, e seu argumento está pronto. Definido o argumento, é hora de começar a desenvolvê-lo. Caso o filme utilize personagens (não vamos excluir a possibilidade de um documentário, e mais, sem pessoas), comece por estes. Desenvolva-os, dê vida a eles! É claro, é mais fácil falar que fazer. Além disso, não queremos cair num monte de rótulos e estereótipos. Decerto você não é um especialista em traçar perfis, portanto procure trabalhar com terreno seguro: faça referências a seus amigos e a situações que vocês viveram juntos. Busque inspiração de seus personagens em pessoas que todos da equipe conhecem, de forma que a associação (e imitação) será facilitada. Um conselho: não utilize mais que cinco personagens. Claro que você pode usar quantas pessoas quiser no filme, dezenas de figurantes se for o caso, mas concentre a trama em no máximo cinco pessoas. Um personagem mal construído ou mal exposto “pesa” no filme, ou seja, o excesso é evidente e negativo. Dê uma boa função a cada personagem, torne-o essencial ao filme. Se o personagem é apenas “legal”, mas não contribui em nada para a narrativa, que tal repensá-lo? Pode doer descartar um personagem, mas ele é como uma unha encravada: muito melhor sem ele. Se for o caso de uma história “com-começo-meio-e-fim”, é bom ter em mente a curva dramática. Domine-a. Um exercício interessante é pensar nos filmes que você gosta e identificar os 9 pontos de virada deles, perceber a diferença entre seus atos. Então pense somente nos eventoschave: como começa, como se transforma e como termina. Um curta não dispõe de todo o tempo de um longa para se desenvolver, portanto deve ser mais econômico, mais sucinto. Dispomos de no máximo 10min no QUIMICURTA. O que é comum em curtas é que, quando há uma história, ele não a inicie nem a termine, mas esteja lá pelo meio, e deixe o início subentendido e o final, um mistério. Tal como o Segundo Ato é o corpo de um longa-metragem, o curta-metragem deve se fazer valer do desenvolvimento da história, e não de suas extremidades. No sucesso de Christopher Nolan, “A Origem” (Inception, dir. Christopher Nolan, 2010), uma grande parte do filme é utilizada na exposição, tentando estabelecer com segurança os elementos fantásticos da trama (a isto se dá o nome de “suspensão da descrença”). Ainda antes de pensar em detalhes, como falas, pense na totalidade do filme, e divida-o em cenas. Tente perceber o que cada cena quer passar, e quanto tempo ela precisa para expressar isso. Organize-o como, por exemplo: Garoto e Garota passeiam/ Garota encontra Ex/ Garoto e Garota brigam/ Garoto chega em casa sozinho. Só depois de ter o filme TODO na cabeça, comece a trabalhar nos detalhes, nas falas e nas ações, e escreva por fim cada cena como deve ser. Definidas as cenas, é hora de partir para o design de produção. Pense nos “ondes”, busque suas locações e verifique sua disponibilidade. É bom fazê-lo antes de desenvolver completamente o roteiro, pois adaptá-lo para outra locação pode ser frustrante. O filme fará uso de material gráfico original para o cenário, ou algum objeto de cena, talvez? Que cores expressam melhor as temáticas a serem abordadas? Como vocês farão uso delas? “Uma caixa vermelha sobre a mesa, a moça veste um vestido negro”. Bastam estas duas cores, e sua imaginação o leva a um quadro dramático, romântico, talvez sensual. Basta um filtro sépia, e todos pensam no passado, talvez num flashback. Tente reparar, nos filmes que você gosta, se ele utiliza mais cores “quentes” (predominância de vermelho, alta saturação), “neutras” (tons pastéis e/ ou baixa saturação) ou “frias” (predominância de azul, baixa saturação), e então compare com seu roteiro. “Matrix” (dir: irmãos Wachowski, 1999) faz um simples e inteligente uso de filtros para separar realidades: dentro da Matrix, utiliza-se um filtro verde com saturação normal (neutro-quente); fora, um filtro azul com baixa saturação (frio). E bastam de dicas. Qualquer orientação além destas é específica demais, e pode ser dada pessoalmente. Boa sorte a todos! 10 BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS CARREIRO, Rodrigo. História, Linguagem e Crítica de Cinema. Recife: Livro Rápido, 2008. BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. Film Art: An Introduction. New York: McGraw-Hill, 1977. TRUFFAUT, François. Hitchcock/Truffaut. São Paulo: Cia. Das Letras, 2005. BISKIND, Peter. Easy Riders, Raging Bulls: How the sex-drugs-and-rock'n'roll generation saved Hollywood, p. 44. Editora Intrínseca, 2009. CAMPOS, Flavio de. Roteiro de cinema e televisão – A Arte E A Técnica De Imaginar, Perceber E Narrar Uma Estória. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. 2ª Edição. Entrevista com Joss Whedon, diretor de The Avengers (2012), vista em: http://omelete.uol.com.br/vingadores/cinema/os-vingadores-avengers-omelete-entrevista-josswhedon/ FILMES 2 Coelhos (dir. Afonso Poyart, 2012, Black Maria) Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, dir. Ridley Scott, 1979, 20th Century Fox) Apocalypse Now (dir. Francis Ford Coppola, 1979, Zoetrope Studios) Bom Dia Mustardinha (Tomás Arruda; Hagrayr Ágnnes; Caio Cysneiros, 2010) O Cão Andaluz (Un chien andalou, dir. Luis Buñuel, 1929) E O Vento Levou (...Gone With The Wind, pro. David O'Selznick, 1939, Warner Bros.) O Extermínio (28 Days Later, dir. Danny Boyle, 2002, DNA Films/ 20th Century Fox) Francis Ford Coppola – O Apocalipse de Um Cineasta (Heart of Darkness – A filmmaker's apocalypse, Fax Bahr; George Hickenlooper; Eleanor Coppola, 1991, American Zoetrope) Hellboy II – O Exército Dourado (dir. Guillermo del Toro, 2008, Universal Pictures) Matrix (The Matrix, dir. irmãos Wachowski, 1999, Warner Bros.) A Origem (Inception, dir. Christopher Nolan, 2010, Warner Bros./ Legendary Pictures) Perfume – A História de Um Assassino (dir. Tom Tykwer, 2006, Constantin Film Produktion) O Poderoso Chefão (The Godfather, dir. Francis Ford Coppola, 1972, Paramount Pictures) Os Vingadores (dir. Joss Whedon, 2012, Marvel Studios/ Paramount Pictures) Sem Destino (Easy Rider, dir. Dennis Hopper, 1969, Columbia Pictures Corporation) 11