1 HIP HOP OU HIP E HOP? 1 Ludmila Oliveira Rocha* CEAFI – Pontífica Universidade Católica de Goiás “As relações entre homem, corpo e arte, na vida e na dança, dependem do contexto histórico e filosófico na qual eles se enquadram e, ao qual nos estamos referindo.” Lilian Freitas Vilela Resumo: O presente artigo traz algumas reflexões sobre dois dos universos da dança do movimento Hip Hop, o Break Dance e o Street Dance. Primeiramente fez-se necessário pensar em que contexto foi inserido estas duas “modalidades” e como se deu historicamente este processo de distinção e diferenciação da nomenclatura dentro do movimento Hip Hop. A partir dos discursos dos sujeitos praticantes (b-boys e street dancers) a análise de opiniões sobre o fazer artístico próprio, e do outro, nos trouxe sutilezas a serem pensadas a partir de duas categorias de análise: divergência e convergência. De forma mais clara, se trata de falarmos a respeito do afastamento e aproximações entre estes dois grupos a partir das sutilezas encontradas em seus discursos sobre si e sobre o outro, e refletirmos sobre questões como: conceito de dança, o lugar da arte e de que forma ela é manifestada pelos dois grupos. Palavras-chave: Hip Hop, divergência, convergência. 1 Trabalho de Conclusão de Curso apresentado sob a forma de Artigo Científico, cumprindo exigência curricular para obtenção de título de Especialista em Pedagogias da Dança pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, sob a orientação da Profª. Drª. Luciana Gomes Ribeiro e Profª. Drª. Valéria Maria Chaves de Figueiredo. * Licenciada em Educação Física pela Pontífica Universidade Católica de Goiás, professora efetiva de Dança Educação pela Secretaria do Estado da Educação, professora de Balé Clássico Infantil/adulto e Street Dance do Sesc-Goiás, ministrante da Disciplina Dança do “Núcleo de Artes Cênicas Integradas” do Sesc-Goiás, bailarina contemporânea do Nômades Grupo de Dança de Goiânia-GO. 2 Abstract: The present article brings up a few reflections about two dance universes of the Hip Hop movement, the break dance and street dance. First it was necessary to consider in what history context was inserted these two "styles" and how was the distinction process of the dances themselves and the meaning of its denomination within the Hip Hop movement. The analysis of the practitioners opinion (b-boys and street dancers) about the their own dance and the other style brought us hidden details that should be analyzed from two different categories: divergences and convergences. More clearly, it is about what keep these styles close or far away from each other, based on their opinions about each others arts, bringing reflections about a variety of subjects like: dance concept, the place of art and how it is manifested by both groups. Keywords: Hip Hop, divergences, convergences. O contexto da dança do movimento Hip Hop Diferente do que a mídia ainda insiste em nos apresentar, o Hip Hop não é um estilo musical, um estilo de dança, um modo de se vestir ou ate mesmo de viver. O termo foi estabelecido por Afrika Bambaataa2 por volta de 1978 no Bronx, um bairro pobre de Nova York e fazia referência direta a uma forma de dançar, popular à época, que consistia em movimentar os quadris (to hip) e saltar (to hop). Porém, seu significado foi e vai muito além disto. Acima de tudo, o Hip Hop trata-se de um movimento sociocultural organizado, que visa emancipar e defender o lugar e os direitos do negro e do pobre como cidadãos na sociedade, mediante a educação e a revolução através de suas três manifestações artísticas: o Rap3 (MC e DJ), a Dança (Break) e Artes plásticas (Graffiti). A cultura Hip Hop se apresenta então como um tipo de manifestação Cultural Urbana. “Urbano” vem do latim e significa: o que é próprio da cidade. Cultura Urbana seria, por extensão, a expressão de grupos que desenvolvem sua arte nas ruas, nos bairros, em espaços públicos que são democratizados, criando novas sociabilidades. Uma vez gestados nas e pelas 2 3 Revolucionário e idealizador do movimento Hip Hop. Ritmo e poesia. Esta é a tradução literal da sigla RAP – rythm and poetry. É o estilo musical mais comum para entre os jovens que vivem na periferia, trazendo a junção da poesia cantada através do MC (Mestre de Cerimônia) e o ritmo pelo DJ (Disk Jockey). 3 comunidades em especial nas periferias, esses grupos possuem um potencial transformador (apud Mendonça, 2009). Alguns chamam de Dança de Rua ou Street Dance, outros de Danças Urbanas o termo global para se referir à dança advinda desta cultura e é comum encontrarmos diferentes declarações, textos e ideias simplificadas a respeito de sua origem. Muitos dizem que ganhou forma definitiva com o grande advento do Break a partir dos anos 70 em Nova York seguindo influências do fortalecimento do movimento negro dos anos 60. Segundo Balbino e Motta, 2006: “A razão para isso foi, em especial, a música que os negros traziam no sangue dos antepassados africanos como o jazz, o blues, o funk e o soul.” Outros seguem por um viés mais complicado que defende as primeiras manifestações da dança de rua na época da crise econômica dos EUA em 1929 onde dançarinos diversos, desempregados, começaram a sair dos cabarés e ir para as ruas. Este viés histórico é encontrado com maior facilidade principalmente em fontes via internet. Diferentes raízes e conceitos sobre a Dança de Rua foram surgindo no decorrer de sua história, que também se tornou conhecida principalmente pelos meios de comunicação e filmes dançantes. Lançados na década de 80 temos os americanos: “Flashdance” (1983), “Beat Street” (1984), “Breakin’ I e II” (1984). Mais atuais, temos: “No Balanço do Amor”- I e II (2001), produção americana da MTV Films; “Honey, no ritmo do seu sonho” (2003); “Entre nessa dança I e II (2004)”; “Ela dança, eu danço I” (2006) – II (2008) e III (2010). Além também, do grande interesse da mídia atual em programas televisivos que tem lançado quadros de competições e apresentações de dança. Foram estes fatores midiáticos e também históricos que, de fato, fizeram com que a dança de rua crescesse e tomasse dimensões maiores. Contudo, um hibridismo foi formado quando tratamos das danças “de Rua” provenientes do movimento Hip Hop e percebemos que essas transformações nos apresentam duas faces, duas culturas Hip Hop distintas: a Old School ou Escola Antiga, e a New School ou Ecola Nova. Nessa perspectiva, dentro do movimento como um todo, pode-se destacar e contrapor duas formas de manifestações dançantes emergentes: O Break Dance e seus estilos advindos da Funk Music, que fazem parte da Old School, e o Street Dance em seus estilos posteriores a este, como representantes da New School. Os dançarinos mais antigos tradicionais da época até os mais atuais, defendem a Escola Antiga, como a formação dos dançarinos mais velhos que obtiveram maior experiência 4 e levaram a dança mais a sério, executando-a de maneira mais completa e “original”, assim como seu surgimento nos guetos americanos. Estão em suma, de alguma forma ligados aos fatos históricos que constituíram essa cultura e carregam consigo uma “cara própria”, uma vez que representa a rua, os guetos e classes menos favorecidas. Quanto aos fatos históricos no Brasil, o dançarino, coreógrafo e educador social Nelson Triunfo, representa ainda hoje a Escola Antiga. Nelsão, como é conhecido, é o principal pioneiro da dança break no país e considerado o responsável pela difusão do break, consequentemente do Hip Hop no Brasil. Seu grupo teve participação na abertura da novela “Partido Alto” em 1984, quando o grande advento do Break começou a ser notado pelas mídias. Atualmente está prestes a publicar seu livro “Nelson Triunfo – do Sertão ao Hip Hop” (2012). Quanto a Escola Nova, esta seria formada pelos dançarinos mais atuais, que depositaram um olhar para a inovação performática e a estética da dança, incrementando movimentos novos e distintos, descaracterizados daqueles trazidos pela originalidade do Break. É representada em sua maioria, por dançarinos de academia que em sua maioria não se interessam pelos fatos históricos e aspectos sociais promovidos pelo real significado da cultura Hip Hop. Mas não podemos eliminar também sua capacidade de obter boas produções artísticas em dança. No cenário nacional, quem representou esta tendência da Escola Nova e idealizou um novo estilo de dança de rua, foi o grupo Dança de Rua do Brasil em 1993 liderado por Marcelo Cirino na cidade de Santos. Destacaram-se na mídia televisiva de forma muito rápida e também pela implantação da modalidade aos palcos de forma sintetizada e competitiva, com técnicas que se mesclam ao Jazz e ao Balé clássico, entrando nas academias e festivais de dança de todo Brasil. Apresenta-se na primeira fase então, os primeiros adeptos e seguidores representados pelo Break Dance da década de 1970, que ainda mantem características e linguagens corporais autênticas. E, na segunda fase, todos os demais estilos emergentes nas décadas de 80 e 90 com grande ou pequena influência do Break Dance. (apud Beltrão, 2000). Destes da segunda fase, podemos citar alguns dos nomes dados aos estilos que vagam pelas academias de dança e de ginástica no Brasil como street dance, dança de rua, street jazz, jazz de rua, danças urbanas, hip-hop. Ambos os grupos aqui destacados, surgem e estão dentro de um processo histórico contínuo, que apesar das transformações, das adaptações aos palcos e de reconhecimento como um estilo emergente, continua carregando consigo o seu mais forte símbolo: a Rua. 5 Porém, todos tentam setorizar suas definições e nomeações da dança. Cada um em sua tendência possui objetivos particulares e uma técnica corporal característica. Mesmo em diferentes roupagens, os dois grupos possivelmente possuem configurações, discursos sobre si e sobre o outro que provavelmente se diferem e/ou se assemelham em alguns aspectos. Discursos que estabelecem uma relação de proximidade, afastamento ou estagnação de um grupo para com o outro, pois estão ambos inseridos na arte de rua da cultura Hip Hop de alguma forma. Este é o ponto principal de discussão da pesquisa. Identificar similaridades e diferenças que permeiam os dois universos, buscar o contraste de ideias e ideais a respeito da prática a que pertencem os dois grupos, das duas escolas. Trazer a partir disso, possibilidades de reflexão sobre pontos peculiares como: o conceito de dança, o lugar da arte e de que forma ela se manifesta. Trata-se de percebemos como as tendências aqui apresentadas, atingem, são vividas, dançadas, imaginadas, defendidas ou não pelos grupos praticantes, e que tipo de valores são impregnados em seus discursos. A pesquisa traz a tentativa de compreender o porquê adeptos pertencentes aos dois grupos, muitas vezes não conseguem manter um bom diálogo ou aproximação artística real, de forma prática e participativa. Do caminho percorrido A pesquisa foi desenvolvida por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas em grupo. Buscando um caráter qualitativo em seu resultado, e foram realizadas junto aos componentes de dois grupos influentes e ativos artisticamente na cidade de Goiânia. O primeiro grupo entrevistado será referido durante a pesquisa como ‘Hip’, e diz respeito a um grupo de Street Dance de academia. E o segundo grupo entrevistado trata-se de um grupo de Break, com dançarinos advindos de diferentes Crews4, e foi dado a ele o termo: ‘Hop’. Os termos foram escolhidos em alusão ao seu significado ao pé da letra, que como dito na introdução do texto significa “to hop” – saltar (na pesquisa, uma ligação analógica ao 4 Turmas, equipes onde os dançarinos se aglomeram para treinar e disputar a dança. No Brasil, algumas crews são conhecidas também como bancas. As crews mantiveram a postura de protesto das gangues, mas sem violência, levando pelo mundo o refrão criado por Afrika Bambaataa: “peace, unity, love and having fun” - paz, união, amor e diversão (Balbino, 2006). 6 grupo de Break, sempre recheados de grandes saltos), e “to hip” - movimentando os quadris (ligação analógica ao grupo de Street Dance, pela característica mais livre da forma de dançar). Embora o termo, não fazer referência apenas à dança, mas sim ao movimento cultural como um todo, aqui, o trataremos como forma ilustrativa de diferenciação dos dois estilos de cada grupo apresentado, afim também de manter o sigilo quanto à identidade dos grupos e dos entrevistados. ‘Hip’ O primeiro grupo entrevistado trata-se de um grupo de Street Dance com quatorze integrantes, sendo que dez estavam presentes durante a entrevista. Tem aproximadamente 12 anos de existência e segundo um dos coreógrafos e integrantes, apresenta como objetivo divulgar o Street Dance / Hip Hop em todo o país, através de coreografias bem elaboradas resultantes de um trabalho de pesquisa que segue a tendência do Hip Hop mundial. Acrescenta ainda, dizendo que esta tendência diz respeito aos estilos da Dança de Rua presentes nas vertentes do cenário artístico da Dança de Rua atual. Como grupo, sempre esteve ligado a uma academia de Dança particular em Goiânia, estão sempre envolvidos em trabalhos da própria academia, além de competições, mostras e eventos. Muitas das dançarinas também praticam outras modalidades de dança como: Jazz, Balé e dança Contemporânea. Já participaram de comerciais, competições e apresentações em festivais como grupo convidado. O perfil geral do grupo segundo o diretor é basicamente de jovens amigos amantes da dança. ‘Hop’ O grupo ‘Hop’, segundo grupo entrevistado, trata-se de um grupo de Break com cinco dançarinos pertencentes a duas crews diferentes. Três dos entrevistados fazem parte de um grupo de Break bem conceituado em Goiânia, e que foram a princípio, minha primeira fonte de procura. Os outros dois dançarinos também presentes, pertencem à outra crew com traços religiosos atribuídos à prática da dança, e estão ligados a uma Igreja Evangélica. Mesmo vindos de “lugares” e grupos diferentes, os dançarinos já se conheciam, e unidos pela dança, atualmente se reúnem diariamente no pátio de uma escola em um bairro pobre de Goiânia para treinar a modalidade. 7 No coletivo, possuem um objetivo em comum de trabalhar e manter as raízes do Hip Hop trazendo ideais como paz, amor, e aversão às drogas. Participam fielmente de rachas5 e eventos de Break na cidade, em outros estados, e alguns até mesmo fora do país. O perfil dos dançarinos se enquadra em jovens de 18 a 32 anos, todos de classe média baixa, trabalhadores e (ou) estudantes, sendo um deles pai de família. Da metodologia As reflexões acerca dos discursos apanhados na entrevista foram feitas a partir de duas categorias de análise comparativa: Divergências e Convergências. Desta forma se torna mais claro e direto os pontos de afastamento e aproximações entre os dois grupos, vistos com clareza nos discursos dos dançarinos durante a entrevista. As perguntas foram feitas de forma simples e descontraída, sempre direcionadas no plural, afim de conseguir diferentes pontos de vista e sutilezas nos discursos dos entrevistados. Dentre as perguntas estavam: O que é dança para vocês? Por que dançam? Como são organizados os treinos e ensaios? Qual é o objetivo de treinar a modalidade? O que acham dos grupos de Break / Street Dance? Conseguem estabelecer um diálogo e manter aproximações com o outro? Divergências Nesta etapa do trabalho, destaco aqui as diferenças notadas nos discursos dos praticantes dos dois grupos entrevistados. Não se trata de falarmos especificadamente o que difere o grupo ‘Hip’ do grupo ‘Hop’, mas que reflexões seus discursos trazem a despeito da dança defendida por eles. É importante dizer primeiramente, que os grupos entrevistados pertencem a dois universos paralelos, porém distintos. Trata-se do universo da dança de rua acadêmica, e seus estilos emergentes da Escola Nova, e a dança de rua representando o Break, e seus estilos emergentes da Escola Antiga. Esta é a primeira reflexão trazida para esta categoria, vista como divergência central do trabalho. 5 Entende-se por rachas as performances competitivas de break onde uma crew, um ou mais b-boys competem (racham) com o outro. 8 Já nos primeiros passos introdutórios da pesquisa, deparei-me com um ponto divergente. O grupo de Break procurado, até então minha única e primordial referência, havia se modificado e passava por uma fase complicada por conta da saída de alguns integrantes. Segundo o líder e idealizador do grupo, o motivo maior de afastamento dos integrantes foi “devido à vinda da Escola Nova, que mudou as ideias e ideais de alguns integrantes do grupo, preferindo sair ou se deslocar para outros grupos com propostas diferenciadas”, diz ele, ou por questões de prioridades da vida particular. O mesmo indicou caminhos para que fosse encontrado um segundo grupo de b-boys praticantes, aonde foram alguns de seus ex-integrantes que procuraram manter a unidade da dança Break e os valores trazidos pelo movimento Hip Hop como um todo. Este sim se trata do grupo ‘Hop’, entrevistado para esta pesquisa. O fato ocorrido, exemplifica um primeiro ponto divergente encontrado dentro da própria tendência da dança Break. Agora sim, traçando um comparativo voltado para os dois grupos entrevistados (‘Hip’ e ‘Hop’), o primeiro ponto notado quanto à divergência nos discursos, foi a concepção de dança dos sujeitos. Tanto o discurso geral dos grupos, quanto o discurso individual na pessoa dos integrantes, se diferenciaram em alguns aspectos. Para o grupo ‘Hip’, ao perguntar o que é dança, que valor e significado ela tinha para eles, surgiram respostas vagas, simples, diretas e superficiais como exemplo: “A dança pra mim, serve pra se libertar”; “Eu gosto da sensação de estar no palco”; “É uma forma de expressar seus sentimentos. É expressão corporal sem usar palavras”; “É um hobby que não da pra viver sem”, ”Dança pra mim é uma forma de expressão. É quem eu sou. Quando eu danço eu me sinto muito a vontade...é como se fosse eu de verdade”. “Eu danço porque eu gosto, porque pra mim é um hobby. Não porque eu quero viver disso, mas eu gosto de estar aqui, eu gosto de dar aula, e gosto do grupo”. (Entrevistados grupo Hip) Pode-se notar que de forma geral, para este grupo o conceito de dança está totalmente ligado apenas ao prazer de dançar, de estar no e com o grupo. Já o grupo ‘Hop’, ainda que em menor quantidade de entrevistados, a concepção de dança para eles pareceu estar mais bem definida, e a nível de interesse, maturidade e 9 seriedade, apresentaram respostas mais contextuais. Alguns dos discursos mais interessantes foram: “Dança pra mim é um estilo de vida que eu adotei e me adaptei, e eu levo muito a sério, pra levar isso mais adiante. Eu já falei pros meninos aqui que eu tenho no sangue. Eu não danço assim, muitas vezes por mídia, dinheiro, por fama que é o que tá acontecendo muito hoje em dia. Eu danço pela essência e pela raiz da dança. Porque a dança não é só simplesmente dançar. Tem que transmitir emoção, sentir e valorizar o que você faz. Eu pra mim dança é isso, e entender desde a raiz, fundamento, e ter amor por ela.” (Entrevistado grupo Hop) Diferentemente do grupo ‘Hip’, o grupo ‘Hop’ teve também em alguns de seus discursos de forma bem interessante, valores humanos emersos e um grau de ligação da prática da dança com a religião a que pertencem. “Eu aprendi com a dança o respeito, amor pelas pessoas. Frequento duas crews e aprendi a valorizar o respeito e a amizade. E danço também, pra esquecer os problemas, sair da vida cotidiana, porque se não fosse a dança, e muitas vezes também porque sou evangélico, hoje eu taria no mundão ae perdido ou morto. Então dança pra mim é isso, respeito.” “Através do break, da dança que eu me converti. Primeiro me converti ao break, dançava o break. Mas assim, hoje não sou louco no break, mas significa muita coisa pra mim. Então a dança hoje pra mim é muito, só que não é tudo. Mas a dança pra mim é valorosa, eu valorizo muito o break na minha vida. Eu sou muito grato por ter esse dom que Deus me tem dado.” (Entrevistados grupo Hop) Outros sujeitos disseram que a dança além do respeito trazido já impregnado nela, tem o poder de transformação, independente de religião ou crença. “Passei muita coisa, já ouvi muita coisa, já ouvi muito grito de vaia e muito grito de aplauso e isso foi me fortalecendo. E nisso, pra mim, é o que eu tenho guardado sabe, da dança...que é respeito e em tudo quanto lugar que você vai, batalha que você pega, você adquire um parceiro diferente. Você racha e ganha um companheiro diferente, você troca ideia com o cara, experiência nova. E sempre assim né, evoluindo, sugando mais e mais. E a dança tem o poder de transformar muita gente, muitas coisas, até mesmo uma criança.” (Entrevistado Hip) Outro ponto divergente que foi notado em um dos discursos do grupo ‘Hop’ mas não no grupo ‘Hip’, trata-se do conceito de dança pelo desafio. 10 Sabe-se que o Break em si, segundo determinadas fontes históricas já mencionadas anteriormente, nasceu durante o surgimento do movimento Hip Hop nos guetos de Nova York em forma de desafio (“rachas”). E esse é um valor impregnado e levado a sério para a vida do praticante. “Eu gosto de desafio, adoro um desafio. Eu acho que é por isso que eu gosto tanto do break, porque é uma batalha constante né, não só com seu oponente, mas consigo mesmo todo dia. De aprender, de dar valor no que você faz no que você é, respeito a si mesmo como dançarino.” (Entrevistado grupo Hip) Após analisarmos os discursos pessoais de cada um do grupo ‘Hip’, percebemos que um dos sujeitos enfatizou a sua motivação em dançar, no amor à modalidade e no significado real de sua essência, valorizando sua história e raízes. Já outro sujeito, do próprio grupo, tem o mesmo amor e valorização pela dança, mas também vê nela outras possibilidades. Este trouxe o desafio da dança, como desafio de vida no mundo profissional e hoje trabalha com a dança. Afastamento Esta é uma subcategoria proposta dentro dos pontos divergentes. Em determinados discursos dos sujeitos, pôde ser notado o que causa afastamento ocasional ou não, entre os dois grupos. Percebemos fatores de afastamento entres os grupos no que diz respeito à objetivo, técnica corporal, processo coreográfico, improvisação, e pré-conceito. Dentro das diferenças encontradas, percebeu-se que os trabalhos desenvolvidos pelos grupos se diferem em alguns aspectos e por isso não possuem um grau significativo de aproximação. O grupo ‘Hip’, segundo o discurso do coreógrafo e integrante mais influente do grupo, tem como objetivo divulgar através de apresentações, o Street Dance / Hip Hop em todo o país através de coreografias bem elaboradas resultantes de um trabalho de pesquisa que segue a tendência do Hip Hop mundial. Esta divulgação do trabalho, trata-se de participações do grupo em mostras acadêmicas da escola a que pertence, festivais de dança (competitivos ou não) em especial de Danças Urbanas que acontecem dentro e fora do estado. Falam dos objetivos e intenções como equipe: “Acho que nem é tanto pelo prazer de competir, é de mostrar que a gente existe.”; “E sempre que vamos pra festivais vemos pessoas e grupos diferentes, assim vemos novas possibilidades.”; 11 “A gente participa, pra todo mundo ter uma visão do que é o estilo, em vez de ficarmos sempre vendo coreografias um do outro, pra ver coisas novas.” (Entrevistados grupo Hip) Destaco estes dois termos do discurso, pois remetem e subentendem a uma relação muito superficial do grupo com outros grupos em eventos do meio. A impressão passada por eles é de que o envolvimento da equipe em atividades artísticas fica no campo maior da observação. Isso nos leva a entender que não existe um vínculo participativo significativo, de aproximação e compartilhamento entre os outros grupos de Dança de Rua que também desenvolvem trabalhos paralelos. Nota-se então, que existe um afastamento, estagnação, ou uma relação apenas de expectadores por parte deles com os próprios grupos similares. Já o objetivo dos praticantes do grupo ‘Hop’, trata-se também de chegar a grandes eventos, porém há de se destacar que os eventos e festivais no mundo do Break, se tratam de grandes competições a nível mundial. Eventos regionais e nacionais também são alvos dos dançarinos, porém a mais almejada e conceituada Batalha de Break é a “Red Bull BC One”. O evento é famoso no mundo inteiro, reúne os 16 melhores b-boys de todo o mundo que são escolhidos por um painel internacional de especialistas. Foi criada em 2004 pela Red Bull e se hospeda cada ano em um país diferente. Assim como várias outras, esta batalha foi mencionada com muita empolgação por alguns dos entrevistados, como seu objetivo principal em treinar Break. Já outro discurso traz o valor religioso como principal objetivo pessoal de praticar a dança, e levam a prática do break como ministério, instrumento de evangelização. Porém isso não os impede de ter participação em eventos e competições; muito pelo contrário. E há de se destacar, que no geral, os dançarinos de Break não são apenas espectadores da dança quando se reúnem para determinado tipo de evento ou competição. Existe uma interação, uma união saudável entre o conjunto todo. Um interesse do compartilhar e valorizar o parceiro que dança com ele e “contra” ele. Outro fator de divergência clara quanto aos dois grupos, diz respeito à técnica corporal e o processo coreográfico. Cada modalidade possui um grau de dificuldade quanto à execução de seus exercícios, e também uma diferenciação considerável do nível de esforço, período de treinos e composições coreográficas. Quando pergunto sobre o processo coreográfico do grupo ‘Hip’, percebe-se que começa da liberdade que cada um tem de montar coreografias, um processo coletivo. Mas, quanto aos casos de apresentação ou competição individual, muitas vezes a montagem 12 coreográfica não é de autoria própria, mas de um influenciador maior do grupo, que já montou os passos. Porém, este processo torna-se restrito porque os treinos e montagens coreográficas ficam na dependência apenas de eventos, apresentações e competições, e não como um processo artístico constante. Durante a entrevista, quando pergunto ao grupo qual a relação e opinião deles a respeito dos dançarinos e grupos de Break, os discursos foram interessantes, e sempre ligados à diferença da técnica corporal. Nota-se que eles demonstram ser dependentes de um método de ensino, e isto se torna um ponto de afastamento do exercício à criatividade e improvisação, e também um ponto que os diferem do grupo ‘Hop’. É como se o padrão de movimentação do Break não fizesse parte da dança deles, e como se fossem incapazes ou muito distantes de conseguir executar a dança dos b-boys. Veja: “Nossa, a pessoa tem que ter muita força!” “Uns monstros...!” “Acho que a dança deles tem mais superação do que o Street, porque o povo pensa que é mais coisa de mala, eles são mais criticados e julgados do que o Street. Então pra eles se destacar mais na sociedade eles precisam superar isso.” “Eu acho que o perfil do B-boy é a criatividade, é aquela pessoa que não depende da outra. É aquela pessoa que pega e fala assim: eu vou fazer isso e faz! Tanto é que, eu acho que o método de ensinar é bem mais complicado.” “(...) o B-boy acho que ele não tem muita expressão, sentimento. É uma coisa mais arrogante. Mas uma característica da dança...não é criticando eles.” “(...) o Break não é bem uma dança assim, é mais um treinamento. É mais que uma coisa de aperfeiçoamento, ele vai aperfeiçoando a técnica dele e aí sim, ele dança! Acho que a diferença é essa, mas não é porque tipo ele é arrogante.” (Entrevistados grupo Hip) Pela característica individualista que a dança Break possui, os dançarinos são tachados de metidos ou arrogantes pelos praticantes da Dança de Rua Acadêmica. Alguns entendem que isto não faz parte da personalidade dos dançarinos, mas da própria dança. Porém, deixam soar certo pré-conceito por conta disto: “Quando vejo um grupo de break dançando, mesmo se estiver perto, me dá medo de aproximar.” 13 “Não sei assim se é a postura deles. Porque assim eles cresceram com aquele sentimento de ‘eu tenho q ser melhor’. E nosso sentimento é “vamos todo mundo melhorar”. Então eu acho que quando a gente chega e olha dá um medo né, de ‘será que eu dou conta de enfrentar?’. Acaba q isso se torna uma barreira.” “Hoje em dia eu vejo que o b.boy, querendo ou não quase todos são arrogantes. Eles acham que são melhores que todo mundo, acha que chega lá e roda no chão e já sabe de tudo. É por isso que muita gente fala nisso, que não tem curso de B-boy em festivais assim de dança urbana.” (Entrevistados grupo Hip) Em outros momentos da discussão, o mesmo sujeito que apresentou um discurso preconceituoso, diz também que outros grupos de Street Dance adquirem esta característica vinda do Break. Na sua opinião, deixa entender que isso se trata de questão de opção, foco e objetivo de grupo, e que este não é o objetivo de seu grupo. A despeito da técnica corporal, os b-boys do grupo ‘Hop’ também expõem suas opiniões a respeito da diferença metodológica das duas modalidades: “O Street é com passos mais combinado em cima, então tem mais facilidade.” “(...) Academia tem toda uma metodologia. O Balé por exemplo é muito ‘caxias’, você tem que treinar um milhão de vezes. O B-boy também treina, mas vai roubando, se errou, sai e improvisa.” “(...) Um ponto negativo que eu vejo dos que dançam Street, é que pouca gente treina mesmo para falar: ‘não, agora eu vô treinar o meu’. Ele só treina o que o professor passa. Parece que é adestrado, não sabe fazer sozinho. No break você absorve, se não deu certo você já descarta e faz outra coisa...é criativo.” (Entrevistados grupo Hop) Quanto ao processo coreográfico, esclarecem que a dança break é tanto individual quanto coletiva. Porém sua característica maior é a individualidade que cada dançarino precisa ter ao tentar superar o adversário na dança. Mas assumem que quando precisam treinar coreografias coletivas para campeonatos, sentem dificuldade. E que nos grupos de Street Dance acadêmico a facilidade está no treinamento coletivo e a dificuldade no individual. Afirmam também que o bom andamento das performances depende muito do próprio b-boy, de sua criatividade, do grau de esforço e força de vontade. Os treinos são em grupo, mas cada b-boy por si tenta desenvolver sua habilidade. O trabalho coletivo é bem participativo e amigável: 14 “É assim, no caso individualmente, um B.boy iniciante você orienta, passa fundamentos e ele vai treinar. A partir dali você vai direcionando, aí ele já vai treinando sozinho e você vai dando opinião do que tem que melhorar. Mas é o grupo se ajudando. Coreografia em grupo, pega um cabeça chave e vai montando, aí pega a ideia de um e de outro, e vai somando pra ter um produto final. E um cobrando do outro, o parceiro tá na roda e você tá ali dando opinião.“ (Entrevistado grupo Hop) Outra característica divergente do grupo ‘Hop’ em relação ao grupo ‘Hip’, trata-se do improviso, que já havia sido citada anteriormente até mesmo pelos próprios integrantes do grupo de Dança de Rua Acadêmica. Percebe-se que a individualidade, e o desenvolvimento da improvisação no grupo de Break, é muito mais presente do que no grupo ‘Hop’. Também há que se dizer, que a dança Break carrega consigo outra característica, o que é mais buscado entre os b.boys: a evolução. Os treinos são intensos e os dançarinos buscam evoluir dia após dia pra alcançar seus objetivos. Exemplificado nos discursos: “Ele tem que procurar sempre evoluir, procurar novas técnicas, novos passos. E hoje em dia o que tá pegando é isso: criatividade! Ele criar e mostrar passos que os jurados ainda não tem visto. Tem que evoluir os passos e a mente. E pra mim não é apenas entrar na roda e dançar, tudo tem que ter uma técnica, um fundamento...tirar uma onda.” “Eu trago isso pra vida porque eu tenho que não ficar numa coisa só. Evoluir a cada dia, evolução é constante! E pagar o preço. A gente tem q pagar o preço. Se a gente quer ser melhor em alguma coisa a gente tem que pagar o preço. Porque eu não quero ficar só dançando por dançar, eu quero evoluir.” (Entrevistados grupo Hop) Sobre a opinião que tinham a respeito dos grupos de Street Dance, nos contam indignados, casos de grupos de academia que demonstram não ter conhecimento sobre o Break e sua ligação com a cultura Hip Hop. E isso claro, causa indignação e impede a aproximação de um grupo com o outro. Por conta disto, alguns b.boys defendem o Break e preferem ficar exatamente no lugar onde estão. Alguns acabam isolados e participativos somente nos eventos específicos da dança Break, estagnados em seu mundo, sendo fieis ao movimento e suas marcas originais. Este afastamento é exemplificado nos discursos: “Tem gente que chega ne mim e fala assim: nossa mano, você dança Hip Hop? Aí eu tenho que dar aquela aula básica e falar olha, o hip hop é uma cultura, e quem foi o pacificador foi Afrika Bambaata juntamente com 15 Grand Master flash, Kool Herc6 e tem quatro elementos(...). E aí explico o que é cada um deles e só depois é que eles vão entender.” “Um amigo meu, uma vez uma mulher perguntou pra ele dentro de uma academia: ‘Essa dança de vocês aí tem nome, os passos? Tem fundamento?’ Sinceramente, ela deu sorte porque não foi comigo!” “Mas faz parte, isso é falta de conhecimento (...).” (Entrevistados Grupo Hop) Segundo a opinião de alguns, dizem sentir o resultado do preconceito pelas características que carregam da rua, e acabam buscando uma autoafirmação e superação na sua dança. Um dos entrevistados diz: “Na minha opinião, a galera do Street tem mais oportunidade do que os b.boys. Em questão até de fazer uma propaganda comercial eles preferem uma academia porque tem credibilidade. E o b.boy não. Como é criado na rua, eles descriminam um pouco. Os bonitinhos fica na frente e os maloqueiros fica lá traz! Nessa questão o Street vai ter mais oportunidade. Mas na minha opinião o B-boy é que dança mais, tem muito mais força, resistência e grau de dificuldade.” (Entrevistado grupo Hop) Outro sujeito ainda do grupo ‘Hop’, foi bem direto em sua opinião a respeito da possibilidade de aproximação com os grupos de Dança de Rua, dizendo apenas que é o Break que o chama mais a atenção e por conta disso não se aproxima dos outros grupos. As divergências aparecem claras e/ou subentendidas em partes dos discursos dos sujeitos. Podemos perceber também, que existe por parte do grupo ‘Hip’, pouco conhecimento em relação à Cultura Hip Hop, ao conceito de dança, poucas opiniões formadas, e um préconceito em relação a grupos de Break Dance. Estes são alguns dos motivos que causam afastamento ou estagnação por parte dos grupos. E quanto ao grupo ‘Hop’, notou-se que a discussão entre eles, apresentou discursos com conteúdos e respostas mais consistentes e pertinentes. As diferenças entre eles e o grupo ‘Hip’ também foram nítidas no sentido das características que a dança apresenta em relação à técnica corporal, e também na questão dos objetivos individuais e como grupo. Demonstraram ser mais ligados aos valores humanos impregnados na prática da dança e às fortes raízes advindas da originalidade da cultura Hip Hop. 6 Djs jamaicanos também responsáveis pela difusão do Hip Hop, ao lado de Afrika Bambaata. Influenciaram ativamente na história da cultura Hip Hop em seu surgimento e trouxeram o ritmo e a bagagem musical que são características próprias da cultura até os dias atuais. 16 Convergências Este é a segunda categoria da pesquisa, estabelecida para pontuar e trazer reflexões agora sobre as convergências encontradas no decorrer dos discursos dos grupos entrevistados. Esses pontos positivos poderão trazer questões de proximidade ou compartilhamento, tanto de ideias e pensamentos quanto da própria prática artística. O que se assemelhou em alguns dos discursos, foi a demonstração de amor à dança e a ligação da prática como hobby. O prazer que o grupo ‘Hip’ demonstrou sentir quando estão no palco, também foi demonstrado pelo grupo ‘Hop’ quando mencionavam suas participações em batalhas e rodas de Break. O espírito competitivo também são pontos convergentes entre os dois grupos, mesmo sendo mais intenso e mais vívido pelo grupo de Break. Sendo isso justificado por conta do próprio espírito competitivo que a dança já carrega consigo. Uma abertura para aprender e praticar outras modalidades de dança, foi encontrada em ambos os grupos. Mas nota-se que essa similaridade é limitada. Quanto ao grupo ‘Hip’, algumas dançarinas praticam outras modalidades de danças acadêmicas como o Jazz e a Dança Contemporânea na academia. Já alguns do grupo ‘Hop’, mencionam e demonstram conhecimento prático e interesse somente nas danças emergentes do Break Dance, consideradas não acadêmicas. Porém, um dos integrantes do grupo ‘Hop’, se mostrou mais aberto à possibilidade de aproximação e boa convivência entre as duas modalidades da dança aqui discutidas, e também a outros tipos de expressões artísticas. Já participou de outras oficinas e aulas de estilos diferenciados de dança até mesmo em academias, e hoje precisa ter essa conexão, gosta, trabalha e lida com a dança no âmbito profissional. Aproximações Aqui se trata de um desdobramento a detalhar as semelhanças de ideias dentro dos discursos, que permite uma relação de proximidade e compartilhamento maior e mais nítido entre os grupos. Um dos dançarinos do grupo ‘Hip’, o mesmo sujeito que anteriormente havia taxado os b.boys de arrogantes, quando pergunto se apesar das diferenças seria possível uma aproximação com a modalidade, aponta: 17 “Ah eu acho que tinha que andar junto, tinha que trabalhar junto. Eu acho que todo mundo aqui tinha que saber dançar b.boy... Porque eu acho que quando a gente ta dançando o Hip Hop a gente tem que ter uma noção de tudo, de Ragga7, de Loocking8, de Popping9, e também uma noção de Break”. “Quando eu falo arrogante, é... não é uma crítica... Porque meu sonho é ser um b.boy.” (Entrevistado Hip) Pode-se notar que o interesse de aproximação de um estilo com o outro, está no compartilhar das técnicas corporais para um melhor resultado no âmbito performático, apresentado no discurso de ambos os grupos: “Eu acho que o próprio show, numa coreografia fica muito mais rica quando tem dança em cima e embaixo. Tem vários grupos que eu assisto que é só break, só acrobacia só um monte de coisa que é cansativo. E tem outros que é só em cima e nem parece cansativo. É legal quando o pessoal ta dançando e de repente faz, um ou dois passos no chão, alguma coisa.” (Entrevistado grupo Hip) “É porque querendo ou não, surgiu da dança de rua, da Dança urbana. E por mais que pra gente seja eles sejam de uma dança assim mais técnica e acrobática, elas saíram do mesmo lugar. E querendo ou não sempre tem uma ligação. Com a música... com a batida.” (Entrevistado grupo Hip) (Entrevistado grupo Hop): “Você pode adaptar, pegar alguns passos de Street Dance e misturar no Break Dance. É igual a capoeira, você pode pegar passos da capoeira e colocar no break pra você ser um b.boy mais extraordinário, com movimentos mais de impacto e de força.” Em geral os integrantes do grupo ‘Hop’, demonstram respeito por todo e qualquer tipo de dança, desde que esta seja bem feita e bem executada. E que podem se aproximar dos grupos de Street Dance, na medida em que isso acrescenta também em seu desenvolvimento como b.boy criativo. Mas demonstram que esta abertura do compartilhar, não deixa para trás o sentimento de fidelidade e amor ao estilo “b.boy” a que pertencem. Este sentimento, talvez possa ser confundido também como uma defesa de território. Um deles diz: “É um bom dançarino que faz a dança... independente do estilo, mas b.boy é b.boy.” (Entrevistado grupo Hop) 7 Ragga ou dancehall digital é um gênero de música eletrônica surgido através de influências do dancehall, na Jamaica, em meados dos anos 80. Derivado do Reggae, este faz furor nas pistas de dança e nas ruas. 8 Estilo de dança originado da Funk Music na décade de 60. Hoje é também associado ao hip hop. 9 Um dos estilos de dança mais antigos e originais do movimento Hip Hop. Criado por Sam Salomon É baseado na técnica de rápida contração e relaxamento dos músculos. 18 O dançarino que mais discutiu a favor do assunto, se mostra mais aberto aos grupos de Street Dance por já ter um convívio maior com o meio artístico geral da dança. Defende os que praticam bem as outras modalidades do Street Dance, e cita um evento que permite bem essa aproximação: ”Existe alguns eventos hoje que o objetivo é a competição de estilos na rua, além do Break. Competindo igual b.boy. Nesse sentido é legal a aproximação. “(...) mas se você vê os cara bom dançando Free Style10 você vai ver. Eu acho que é muito próximo. Eu convivo de vez em quando nesse meio e é muito bom você estar com a galera. Independente se você dança break, o respeito que ele tem por você é o mesmo que ele tem por uma bailarina, por qualquer outro. Lógico que são categorias diferentes, mas é porque eu gosto, então não consigo separar uma coisa da outra.” (Entrevistados grupo Hop) Mas o mesmo deixa claro, assim como os outros colegas, sua preferência e paixão pela dança Break e também defende as características marcantes que diferem um b.boy quando conjuntos a outros dançarinos: “(...) Agora se ver dançando na rua (como na Jam) a galera do Free Style dançando e a galera do break, o problema é que os b.boy começa aí acabou...aí o bicho não quer parar mais”! (Entrevistado grupo Hop) Em quase todos os discursos percebeu-se que os grupos possuem uma ligação forte e uma dedicação à pratica da dança, o que de forma geral se torna uma semelhança. E também não deixam de respeitar o fazer artístico um do outro, mesmo que de forma limitada ou estagnada. Conclusão Percebeu-se através dos discursos dos sujeitos, como as tendências da Nova e Velha Escola atingem, são vividas, dançadas, imaginadas, e defendidas pelos grupos praticantes. E, mesmo que de forma involuntária ou inconsciente isso interfere na relação dos grupos. O contato e possibilidade de compartilhamento real do fazer artístico entre um grupo e outro, se restringe a poucos que tratam a dança como profissão ou como possibilidade de 10 Traduzido ao pé da letra: “Estilo livre”. Um dos estilos de Street Dance mais praticados em academias de dança, advindos do movimento da Escola Nova. 19 melhoria de performance. Ambos os lados respeitam a dança do outro, mas a maioria se mantem numa situação de estagnação em seu próprio campo de prática artística. É possível identificarmos valores impregnados nos discursos de ambos os grupos. Porém, os dançarinos de Break vivem de forma mais intensa e mais focada a prática da dança. Atribuem valores como amizade, superação, respeito, amor e fidelidade à modalidade, mais vívidos do que nos grupos de Street Dance. Apesar de alguns valores e interesses encontrados em comum nos grupos, as diferenças superam as possibilidades de aproximação na medida em que o contato entre ambos fica apenas no campo das ideias e do discurso teórico. O impacto dessas diferenças nos praticantes das modalidades é visto de forma visível nas entrevistas. Praticantes do Street Dance da Escola Nova, com pouco conhecimento sobre a sociedade em que vivem, desinteressados ou desconectados do contexto da dança dentro do movimento Hip Hop, mostram-se estagnados dentro de um processo de repetição indefinida, com pouca abertura para compartilhamento da técnica, e sem muita abertura para discussão. Os praticantes do Break Dance, da Escola Antiga, mesmo sendo de realidades periféricas, demonstram ter maior conhecimento sobre a sociedade em que vivem, mostram-se estagnados dentro de um processo de originalidade e fidelidade da dança, mas com aberturas para um diálogo maior com as técnicas corporais da Escola Nova, além de disporem maior interesse, pontos de vista e abertura para discussão. Estas duas modalidades se distanciam, ou se aproximam na medida em que entendemos que a dança de rua está num lugar da arte que engloba tanto o campo artístico quanto o social. Guarato (2008), afirma que “a dança de rua é tanto estética como social, uma cultura popular plural, que quando analisada por via estética causa estrondosas definições, pois a dança de rua, tal como seus praticantes, tal como a cultura popular, estão inter-relacionando o tempo todo, num processo incessante de apropriação e incorporação, recusa e assimilação, consumindo e produzindo a dança. Diante dessa realidade, não há como manter uma manifestação cultural congelada no tempo”. Mesmo com grandes diferenças entre as duas modalidades, as possibilidades de aproximação, apesar de percebidas mais no campo teórico do que prático, existem. E os praticantes afastados e/ou estagnados em seus lugares, continuam dessa maneira por opção própria ou por hábito. Uns ficam no ‘Hip Hop’, alguns no ‘Hip’, alguns no ‘Hop’, outros no ‘Hip e Hop’. Mas o movimento não para. 20 Bibliografia ALVES, Flávio S.; DIAS, Romualdo. A dança Break: corpos e sentidos em movimento. v.10, n.1, Jan/Abr, p.01-07. Rio Claro: Motriz, 2004. BALBINO, Jéssica; MOTTA, Anita. Hip Hop – A Cultura Marginal: “do povo para o povo”. São Paulo: Unifae, 2006. [Livro reportagem – Trabalho de conclusão de curso. 2006]. BELTRÃO, Bruno. Break dance: Fissão e reação em cadeia. In: Lições de dança 2. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2000. FREITAS, Lilia. O corpo que dança: os jovens e suas tribos urbanas. Campinas: [s.n.], 1998. GUARATO, Rafael. Dança de rua: Corpos para além do movimento. Uberlândia: Eduf, 2008. _____. História e Dança: um olhar sobre a cultura popular urbana – Uberlândia 1990/2009. Uberlândia, 2010. [Trabalho de conclusão de mestrado. 2010]. _____. O culto da história na dança: olhando para o próprio umbigo. Rio de Janeiro, 2010. [Artigo apresentado no VI Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. 2010]. MARQUES, Francisca E. S. Interpretação de produtos culturais – Contributos de uma abordagem etnometodológica aos estudos da comunicação. 1999. (Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/marques-ester-abordagem-etnometodo.pdf). MARQUES, Rose Mary. Danças urbanas, uma história a ser narrada. Grupo de pesquisa em educação física escolar. São Paulo: FEUSP, 2011. MENDONÇA, Rosa; SALLES, Ecio. Cultura Urbana e Educação. In: Salto para o Futuro – Tv Escola. nº5. Rio de Janeiro: Secretaria de Educação à Distância, Ministério da Educação, Governo Federal, 2009. PRIESS, Mauricio. A Dança do movimento Hip Hop e o Movimento da dança Hip Hop. In: Anais – III Fórum de Pesquisa Científica em Arte. Curitiba, 2005. ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirela; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop: a periferia grita. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. SILVA, Daniela; SOUZA, Tatiane. A construção da Identidade no Movimento Hip Hop e o Rap como Contra-narrativa. 1999. (Disponível em: http://www.facom.ufba.br).