ENTRE A ESCOLA E O MOVIMENTO HIP HOP: O Campo das Possibilidades Educativas para a Juventude do Recife Danielle de Farias Tavares Ferreira1 Jaileila de Araújo Menezes2 RESUMO Este trabalho resulta de uma pesquisa para fins de estudo de caso e pretende compreender como vem ocorrendo o diálogo entre a escola pública e o grupo juvenil hip hop na tentativa de construir práticas educativas mais significativas para os jovens recifenses. Fizemos uso de uma metodologia pautada nos princípios da análise do discurso, a qual adota a etnometodologia e a análise conversacional como referentes. Os registros das informações ocorreram através de conversas informais, entrevistas semi-estruturadas utilizadas nas oficinas de hip hop dentro da escola pesquisada e observações realizadas na crew selecionada. A presente pesquisa se constitui, portanto, nas relações estabelecidas de um movimento político-cultural e sua construção de saberes em espaços escolares Palavras-chave: Práticas educativas, movimento hip hop, juventude e escola. 1. INTRODUÇÃO O estudo realizado teve como foco principal identificar o caráter educativo do movimento hip hop e o diálogo possível que o mesmo empreende com a escola na busca por estabelecer um campo de interseção entre a educação escolar e não escolar, e as contribuições que este diálogo traz para a educação dos jovens. Para isso, consideramos as ações que o movimento hip hop desenvolve em prol da participação sociopolítica e investigamos as modalidades de acolhimento dessas ações dentro da instituição escolar. Inicialmente fez-se necessário compreender a juventude enquanto categoria social, e por isso ultrapassamos a noção da mesma como “uma faixa etária” ou uma “classe de idade”, no sentido de um limite etário restrito ao avançarmos em não considerá-la enquanto um grupo homogêneo ou coeso. Nessa perspectiva e conforme Groppo (2000), ela foi conceituada como uma representação de uma 1 Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected] Professora do Departamento de Psicologia e Orientação Educacional – Centro de Educação – UFPE. [email protected] 2 situação social, isto é, aceitou-a como uma criação simbólica, fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens. Caracterizou-se, pois, como uma série de comportamentos e atitudes, ou seja, uma situação vivida em comum por certos indivíduos. Compreender essas múltiplas juventudes que se revela conforme seus contextos têm sua relevância para o entendimento das diversas características, funcionamentos e possíveis transformações que poderemos, enquanto educadores, engendrar. Ainda parafraseando Groppo (2000) são três os principais grupos etários nas sociedades modernas: o sistema educacional escolar, as agências juvenis mantidas por adultos (orfanatos, ONG(s) e etc.) e os grupos juvenis espontâneos que a exemplo temos as posses ou crews do hip hop. Esses tipos de grupos etários juvenis, conforme esse autor, podem ocorrer simultaneamente e o diálogo, por exemplo, entre a escola e o grupo juvenil espontâneo hip hop tornou-se possível graças á influência da educação progressista que valoriza os espaços educativos para além do contexto escolar. Por isso, demos nosso recorte à juventude de uma escola da periferia do Recife e sua participação no movimento hip hop. Diante disso, uma relação sistemática entre esses grupos etários é algo muito promissor para o processo de construção saberes e conseqüente autonomia dos jovens em diferentes espaços, com vistas á incentivá-los a participar da vida social. Entendemos assim que tanto a escola quanto a participação em grupos espontâneos têm o papel fundamental no trajeto juvenil da família para a vida social mais ampla. A participação em grupos espontâneos oportuniza para os jovens assumirem posicionamentos sociais mais ativos e menos subjugados dos adultos. A escola conforme Groppo (2000) foi criada para preparar o indivíduo em relação à grande especialização econômica e profissional da sociedade moderna. Institucionalizou-se, então, esse grupo etário (escola) e lhe foi dada a tarefa de organizar a vida das crianças durantes vários anos, mantendo uma atuação, muitas vezes, técnica-preparatória. Essas instituições escolares acabaram por não darem conta dessa passagem da vida familiar (particularista) para a vida em sociedade (universalista), pois não conseguiam atender todas as necessidades das crianças e adolescentes durante esse período de transição. Isto motivou crianças e jovens a se integrarem em outros grupos etários, onde desfrutavam de suporte afetivo e eram reconhecidos legitimamente. Entre estes grupos daremos ênfase ao grupo juvenil espontâneo do hip hop mais adiante. 2. MARCO TEÓRICO 2.1. Juventude e escola: Os jovens pobres e a escola pública “Sociedades desiguais permitem desiguais condições de exercício da condição juvenil”. (Carrano e Peregrino, 2005, p. 2). Em nosso país, como nos demais países capitalistas, as relações sociais são estabelecidas pelas forças produtivas derivando-se numa lógica classista. Por isso, o reconhecimento e a garantia de expressão da condição juvenil acabam dependendo da classe ou grupo social ao qual se pertença. Diante dessa realidade em que a exclusão se naturaliza, o ensino médio público brasileiro, segundo Carrano e Peregrino (2005) acaba, pois, se destinando às minorias sobreviventes do ensino fundamental3. Interessante notar que a escola pública não exclui esses jovens apenas por reprovação ou por “evasão” induzida, mas também pelos degradados processos de escolarização dos estabelecimentos em que esses jovens pobres são submetidos, ampliando intensamente a hierarquização entre as classes sociais: jovens economicamente competitivos que podem comprar educação de qualidade no mercado e os jovens pobres sujeitados à desvalorização sócio-politico-cultural dos bens públicos. Essas escolas carregam em si a contradição entre os processos de inclusão e exclusão simultaneamente, ao passo que tanto inclui devido à democratização do acesso quanto exclui ao lograr políticas públicas de expansão massificantes e degradantes, ou seja, que não focalizam a qualidade e mantêm uma concepção assistencialista do que é, na verdade, um direito social (vide art.205 da CF/88). 3 Minorias sobreviventes devido aos elevados índices de reprovação e evasão no ensino fundamental, em que são poucos jovens, os quais conseguem concluir o ensino obrigatório. Uma das formas facilitadoras de aumentar o índice de conclusão do fundamental e ingresso no ensino médio tem sido feito a partir de projetos (aceleração, ciclos, etc.) que visam evitar a reprovação, estabelecendo um fluxo mais contínuo de alunos por série e também como forma de dotação de verbas através do aumento significativo do número de alunos nas escolas (FUNDEB). Decorre que se tornou mais compreensivo o porquê da população jovem pobre ser a parcela mais ampla dos desempregados conforme os dados do IBGE sobre a população jovem brasileira (2007). Afinal, é nesse contexto de ocupação de posicionamentos sociais muitas vezes marginais (educação de má qualidade, mercado de trabalho informal, envolvimento com o tráfico, dentre outros) que esses jovens se vêem diante das alternativas disponibilizadas a tais, e estas condições oportunizadas acabam por refletir em suas identidades, conforme afirma Nascimento (2006). Apesar de a escola ser para muitos deles um obstáculo em se manter nela, Nascimento (2006) nos confirma ainda que esse grupo etário (instituição educacional escolar) continua sendo um caminho de inserção social e busca por cidadania nas representações de muitos desses jovens, os quais também a coloca enquanto instituição responsável por desenvolver habilidades de vida e acadêmicas. Essas habilidades não englobam apenas a formação para o trabalho e a realização de seus projetos de vida, mas também como um espaço importante para legitimar as expressões e formas de vida desses jovens, ou seja, de construção de suas próprias cidadanias através de seus saberes. Por isso, não podemos desconsiderar essas expressões vivas dentro das escolas. Fazer a didatização entre os conhecimentos populares e científicos é o primeiro passo nesse processo de formação cidadã. Dado o exposto, Carrano e Peregrino (2005) sintetizam bem essa discussão entre juventude e escola quando esclarecem: “(...) A forma com que os jovens experimentam a degradação das condições de escolarização, a experiência desta forma “de estar” numa escola que deve cavar todos os dias as condições necessárias para o seu funcionamento e a chamada “escolarização sem sentido” são matrizes dos embates cotidianos que nos permitem perceber, nessa escola pública que se desfaz, os germes mais tênues de uma possível escola “recriada” pelo olhar dos jovens que nela habitam. (Carrano e Peregrino, 2005, p.10)”. É a partir do olhar e da valorização de suas formas de expressão que esses jovens recriam a escola e potencializam resistências, críticas e reflexões por parte daqueles que as experimentam, exigindo uma revisão profunda dentro da escola na relação tradicional entre a educação, cidadania e a participação política como já salientava Arroyo (1995 apud RIBEIRO, 2002, p.115). Logo, da mesma maneira que a educação institucionalizada serviu para intensificar as relações de poder na era moderna ao diferenciar escola de abastados X escola de subalternos; adultos mantedores da ordem X adolescentes em formação, então, é também através dela que se tornará possível construir novos significados para a recriação de uma escola que leve em consideração os espaços ocupados por esses atores sociais4 que forma, ou seja, aprendendo com e utilizando suas culturas juvenis. Nesse sentido, propomos através desse trabalho de conclusão de curso refletir sobre as alianças possíveis entre esses dois grupos etários: instituição educacional escolar e grupos juvenis espontâneos, os quais o movimento hip hop se caracteriza como um deles, na tentativa de apreensão de como a escola juntamente com esses grupos juvenis espontâneos podem contribuir na construção de saberes e na formação cidadã destes a partir de suas próprias participações sociopolíticas no contexto contemporâneo. 2.2. História do hip hop enquanto movimento social e seu caráter educativo O movimento hip hop vem sendo considerado um movimento social e diante disso é preciso entendê-lo dentro de seus limites históricos. Constamos nas referências que a cultura hip hop possui uma raiz jamaicana, com inicio por volta da década de 40. Já no final da década de 1960 e início de 1970 com a emigração de jovens jamaicanos para os Estados Unidos devido à crise que se abateu na ilha, muitos desses jovens se alojaram nos subúrbios norte-americanos e um destes jovens conhecido pelo apelido de Kool Herc começou a realizar eventos utilizando o mesmo formato das festas jamaicanas, as quais chamavam de Black Parties. Por isso, Barreto (2004) reconhece no hip hop a presença de elementos estéticos e práticas culturais de populações caribenhas e apontam essas festas de rua jamaicanas como precursoras das aglomerações públicas do hip hop em sua 4 Utilizamos a expressão atores sociais no sentido já colocado por: ver Ranci (2005, p.43-66). Ao considerar o ator social como um ser que se posiciona e reposiciona em diversos lugares no corpo social, e logo, não havendo um lugar fixo para determinada pessoa. origem. A mesma também enfatiza que é de suma importância levar em consideração esse contexto sócio-político em que o hip hop se originou. Segundo a autora, o hip hop nos EUA se deu como uma resposta das populações menos favorecidas ao desmantelamento e destruição de seus bairros a partir do processo de reconfiguração urbana das grandes metrópoles norteamericanas. Nesses bairros moravam imigrantes judeus, italianos, alemães, irlandeses, hispânicos e negros. Nova York e Los Angeles foram o palco desse processo de reconfiguração urbana da década de 1970. Logo, os subúrbios negros de Nova York tais como Bronx, Harlem e Brooklyn sofreram com as disparidades sociais da discriminação social, étnica e estigmatização dos moradores daquelas áreas degradadas. A partir dessa realidade marginalizada de seus bairros, o hip hop se caracterizou enquanto manifestação político-cultural, isto é, como uma reação a essa situação imposta, emergindo num contexto de pobreza, violência, racismo, tráfico e carência de infra-estrutura básica para aqueles guetos da época. Descrito o contexto social originário, prossigamos aos elementos. Segundo a literatura, os quatro elementos remetiam às manifestações culturais que já ocorriam no Caribe como formas de recreação e eram eles: - Elemento Rap (rythm and poetry): relato musical que em sua origem caracterizase pelo enfoque político e de improviso das letras. - Elemento DJ - Quando intitulado por MC (master of cerimonies) tem por finalidade relatar através de articulações e de rimas, os problemas, carências e experiências em geral dos guetos. Ele não só descreve como também lança mensagens de alerta e orientação. - Elemento B. boy (break boy): É o representante da expressão corporal, da dança de rua, o street dance ou break dance, em seus vários estilos (popping, locking, boogaloo, etc.) - Elemento Grafite: Apresenta-se como expressão plástica, pinturas geralmente feitas em vias ou locais públicos bem visíveis como muros, trens, dentre outros. A aglutinação desses quatro elementos compondo uma mesma cultura, segundo Rose (1996 apud BARRETO, 2004, p.19) ocorreu devido aos seus idealizadores e promotores partilharem o mesmo contexto social e experenciarem as mesmas dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, dos conflitos étnicos nos bairros periféricos e das distâncias sociais entre as outras áreas da cidade. As expressões artísticas desenvolvidas por esses quatro elementos nas festas de ruas eram formas de lazer público, inicialmente, para àqueles jovens pobres (em sua maioria afro-americanos, afro-caribenhos e hispânicos). Eles promoviam essas festas ao som de um novo tipo de música, utilizando-se de passos acrobáticos na dança e demarcando seus guetos ao torná-los ambientes atraentes através de seus grafites. Como já foram mencionadas anteriormente, essas manifestações desde sua origem possuíam um cunho cultural de exposição e lazer para aqueles jovens dos guetos. Entretanto, com a passagem dos anos 60 e 70, alguns movimentos pacifistas foram emergindo nesses bairros além das lutas pelos direitos civis dos negros a partir da morte de Martin Luther King (1929-1968). Foi nesse contexto que o movimento social dos Panteras Negras difundiram o lema do orgulho de ser negro com sua ideologia política, engajando-se nas festas de ruas e nos produtos culturais produzidos pelo mercado. As bandeiras de luta dos negros se aliaram a esse movimento social e aos quatro elementos da cultura hip hop, culminando no movimento social hip hop. Para entendermos melhor o que seja esse movimento é preciso compreender que o conceito de movimento social em geral é muito amplo, e segundo Kauchakje (2007) não há um consenso. Todavia, as concepções de movimento social possuem em comum a relação entre movimento social e mudança social, partindo da identificação de uma tensão, conflito, contradição na sociedade, o que leva a formação e desenvolvimento de um movimento social. O hip hop passa, então, a ser considerado um movimento social justamente por desafiar o sistema de distinção racial e classista dominante quando, desde daquela época, os jovens engajados buscavam por valorização de seus guetos, da negritude e de si próprios. Cabe salientar que o hip hop ultrapassou as fronteiras raciais e de classe, pois devido às circularidades culturais ele culminou em se tornar cada vez mais uma expressão artística que mobiliza os mais diversos grupos juvenis e se coloca atualmente como vocalizador das mais diversas demandas, como, por exemplo, por igualdade de gênero, pelo respeito aos mais diversos credos religiosos, entre outros. Barreto (2004) considera o movimento hip hop tendo um lócus simultaneamente local e global. No Brasil segundo Lodi e Souza (2005) o surgimento ocorreu a partir da década de 1970. Este fato muito se deve à força mercadológica do fenômeno de venda das produções artísticas internacionais no país. Na capital paulista, berço das manifestações do hip hop, por exemplo, foi por meio dos bailes e das lojas específicas de musicalidade negra que a cultura hip hop se inseriu entre a “galera”. Os grupos começaram a se fortalecer aqui no Brasil e o cultivo à autoafirmação enquanto negros de classe pobre e oprimida aliado à consciência sociopolítica de fazer valer a participação cidadã desses grupos tornaram-se bandeiras de luta nesse movimento. Esses jovens passaram, então, a pesquisar e difundir o movimento hip hop por todo o país. E mesmo, naquele momento, sendo uma cultura ainda marginalizada do ambiente escolar, os jovens participantes, meio que autodidatamente, estudaram e propagaram as bases ideológicas desse movimento, carregando consigo a consciência de contestação e de participação sociopolítica que a mesma pregava. No nordeste a chegada do movimento hip hop, conforme a série EquipEscola de Formação dos Quilombos dos Palmares (2004) ocorreu em meados dos anos de 1980, novamente com o auxílio da globalização da indústria cultural a qual fez com que os produtos norte-americanos penetrarem na cultura local. Esse processo de circularidade entre culturas se manifestou de diversas maneiras na realidade recifense, como foi o caso do filme Break Dance estrelado no cinema São Luís, o qual se tornou um modelo de passos inspiradores para o surgimento dos dançarinos de break na cidade do Recife, ganhando tonalidades da cultura local (hibridização do break com passos de caboclinhos, frevo e etc.). Diante do exposto tornou-se possível compreender e aceitar o hip hop enquanto um movimento social juvenil de combate as exclusões impostas às populações afro-descendentes, e como todo movimento social a participação sociopolítica e o associativismo são aprendizados incorporados neles, afirma Kauchakje (2007). A participação direta ou a própria dinâmica social, segundo a autora, propiciaria aprendizados de participação aos membros do respectivo movimento, compondo experimentos participativos e inovações democráticas a exemplo das posses ou crews. Essas crews se caracterizam por serem grupos em que os jovens participantes mais antigos conversam com os recém-chegados e desenvolvem juntos oficinas dos quatro elementos, além de promoverem encontros com outras crews através de mutirões de grafite, rodas de break e jornadas de mc, tendo como principal objetivo propagar e fortalecer o movimento. Existe também o conselho representacional do movimento que reúne representantes de todas as posses, e que aqui em Pernambuco é representado pela Rede de Resistência Solidária, sendo o espaço onde os jovens das diversas crews do Recife votam num tipo de organização em formato federativo, e deliberam eventos a serem organizados e mobilizados por toda a cidade. A Mangue Crew, por exemplo, uma das posses existentes na região metropolitana, localizada no bairro do Totó e a qual pesquisamos nesse projeto, em suas reuniões delibera sobre as oficinas que serão organizadas na comunidade, além de prepararem encontros de formação de arte-educadores juntamente com o Maac (Movimento de Articulação Ambiental) da UR-7 Várzea. Ambos promovem oficinas populares e discussões em prol da melhoria das condições de vida da população infanto-juvenil de suas comunidades. Portanto, os itens anteriores expressam matrizes de participação sociopolítica das crews cujo objetivo é colaborar para a melhoria das condições de vida da comunidade em geral. O caráter educativo, portanto, insere-se no processo de aprendizagem de formação cidadã, sobretudo, na construção de sujeitos criativos diante de suas realidades sociais. Souza (2007) considera que nas últimas décadas elaboraram-se uma melhor compreensão do processo de construção de saberes nos movimentos sociais, passando a ser entendido como um processo de confronto de saberes (populares, científicos, religiosos, etc.) e esses confrontos são os responsáveis pela elaboração de novos significados sendo outras representações sociais de saberes construídas coletivamente. Isto significa dizer que não deve existir sobreposição dos conhecimentos científicos geralmente mediados pelas instituições escolares sobre os conhecimentos populares da educação popular não escolar, a exemplo do que ocorre nas crews e oficinas de hip hop. Faz-se necessária, então, a existência do que Souza(2007) nomeou por antinomia, ou seja, que haja relações de correspondência entre esses saberes em busca de novas ressocializações5. Logo, 5 Ressocialização aqui conceituado, ver Souza (2007, p.303-313), como múltiplos processos que ocorrem mediante o confronto entre conheceres, fazeres e sentires de uma pessoa ou um as aprendizagens desenvolvidas através da participação em movimentos sociais de grupos etários espontâneos juvenis precisam ser respeitadas como partes integrantes desse processo de formação sociopolítica, construindo novos significados e saberes aos jovens participantes destes coletivos (crews). 2.3. Educação escolar e não- escolar: diálogo entre a educação formal, informal e não-formal Inicialmente ampliemos a noção de educação ao incorporar, segundo Carrano (2003), além dos meios, das finalidades e dos sistemas; o conjunto das práticas sociais. É preciso reconhecer, então, essas múltiplas formações de identidades que se configuram para o ator social em seu processo de construção de novos saberes. Tanto os territórios ocupados por esses atores quanto suas redes de sociabilidades estabelecem contextos que são consideravelmente educativos. Por isso, reafirmamos as idéias do autor quando o mesmo coloca que as relações humanas são esferas educacionais ampliadas e que se processam nesses espaços sociais ocupados pelos atores. O processo formativo, portanto, dar-se-ia através de inúmeras continuidades e descontinuidades, conflitos e consensos, ou seja, situações vividas pelos atores, as quais muitas vezes não são intencionadas para serem educativas, mas acabam sendo devido a seus efeitos. Logo, a educação pode ser sintetizada nesse paradigma como: “Universo educativo formado por fatos, sucessos, fenômenos ou efeitos educativos - formativos e/ou instrutivos- e por extensão, o conjunto de instituições, meios, âmbitos, situações, relações, processos, agentes e fatores susceptíveis de gerá-los”. (Carrano, 2003, p. 16). Compactuamos com a divisão da educação em três setores: a educação formal, não – formal e informal apenas para fins de didatização. Entretanto, antes de conceituá-las é imprescindível esclarecer que essa tipologia se coloca intensamente rígida para dar conta da mobilidade do processo educativo tanto que muitas ações grupo cultural com os de outras pessoas ou grupos culturais cujos resultados são novos conhecimentos, emoções e ações tornando cada um dos envolvidos mais socializados, culturalmente enriquecidos(simbólica e materialmente), enfim, mais humanos. em espaços não escolares são marcadas por alto nível de formalização, como também o inverso ocorre quando, por exemplo, o próprio espaço escolar se vê construindo diálogos com os conhecimentos populares. Retornando a conceituação dos setores temos que a educação nãoformal possui distintas vertentes. Nos anos 90, segundo Park e Fernandes (2007) o termo educação não-formal era pensado em três funções: como papel complementar ao sistema formal escolar e como papel suplementar. Nesse sentido, a oposição não era o foco. A perspectiva nessa vertente, portanto, seria a de ampliar as experiências escolares. Já a outra vertente, Park e Fernandes (2007) também apontam as diferenças entre o formal e o não - formal, mas em termos de oposição. Para eles, por educação formal entende-se o tipo de educação organizada com uma determinada seqüência (prévia) proporcionada pelas escolas, enquanto que a designação não-formal, embora obedeça a uma estrutura e a uma organização (mesmo que não seja essa a finalidade), diverge ainda da educação formal no que diz respeito a não-fixação de tempos e locais e de flexibilidade na adaptação dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo concreto. A esses aspectos da segunda vertente incorpora-se um diferencial: a preocupação com a mudança ou transformação social por buscarem projetos de desenvolvimento. O foco da educação não- formal nessa vertente, pois, seriam os movimentos sociais, as ações políticas militantes de grupos organizados. Considerar ambas as vertentes não é algo sobrecomum, ao passo que o movimento hip hop possui uma função educativa através de seu caráter sociopolítico já salientado anteriormente. E o mesmo tanto poderá assumir um papel complementar, alternativo ou suplementar ao sistema formal escolar, como também lhe é característico respeitar a flexibilidade na transmissão dos conteúdos de aprendizagem sobre a cultura hip hop e as técnicas de cada um dos quatro elementos da cultura (DJ, Rap, Grafite e Break). Além de também existir a preocupação com a transformação social por buscarem projetos de desenvolvimento individual (o jovem) e coletivo (suas comunidades). O emblema da educação não-formal são os movimentos sociais, as ações políticas militantes do grupo e por isso torna-se evidente o caráter de educação não - formal empreendida por esse movimento. Mas não é apenas a característica de educação não-formal que se evidencia no hip hop; Magro (2002) aponta também para a educação informal quando as elaborações artísticas desses grupos juvenis atingem principalmente as periferias urbanas. A respeito da educação informal conforme nos conta Trilla (1986 apud PARK e FERNANDES, 2007, p.12), a mesma é entendida como toda gama de aprendizagens que realizamos (tanto no papel de ensinantes como de aprendizes), e que acontece sem que haja um planejamento específico, ou seja, muitas vezes sem que nos demos conta. É aquela educação que acontece ao longo da vida, contínua, mas não previamente organizada. Ela se refere, então, a ação educativa e não apenas ao resultado ou efeito educativo. Enfim, mais do que enquadrar as práticas educativas em um desses três setores ou dicotomizar educação formal da não-formal e informal, o importante, enquanto cientistas sociais e educadores é vislumbrar os caminhos do aprender que se pode observar nas situações vivenciadas no cotidiano e coadunarem esses três setores na construção de práticas educativas mais significativas para esse jovens ao relacioná-las com as experiências vivenciadas por eles seja dentro ou fora do contexto escolar. Partindo dessa perspectiva da educação também se fazer presente nas práticas sociais, buscamos enfatizar a relevância de se tomar o processo educativo não-formal e informal do movimento hip hop, o qual já vem se fazendo presente tanto nas instituições escolares como em novos espaços e modos de existir do jovem no Brasil e mais especificamente na cidade do Recife. Esses espaços, a exemplo das crews, segundo Magro (2002), ajudam a construir uma nova visão sobre os adolescentes, passando a considerá-los como atores de direitos e de ações em seus grupos juvenis além de contribuírem na busca por soluções dos problemas sociais e transformações das práticas vigentes. Nessa aliança entre o grupo etário espontâneo hip hop e o grupo etário escola apostamos que as propostas educativas do hip hop, enquanto movimento de formação sociopolítica, contribuirão para romper com a hierarquia constituída na modernidade em que os adultos e a escola são os únicos responsáveis pelo ordenamento social, e desmistificando a concepção dos adolescentes como seres inertes a qualquer ação ou decisão. Trabalhamos aqui com a hipótese do movimento hip hop como uma prática educativa em que ambos os atores do processo (seja adultos ou jovens) se educam enfatizando, assim, os princípios da cidadania e da justiça social. Nossa pesquisa teve, portanto, como objetivo geral identificar o caráter educativo do movimento hip hop, aqui entendido como representante da educação não-formal e informal, e o campo de diálogo possível com a escola, representante da educação formal. E nossos objetivos específicos foram: 1) Qualificar e identificar as práticas educativas do movimento hip hop, considerando as ações que desenvolve ou não em prol da formação cidadã; 2) Investigar as modalidades de acolhimento do movimento hip hop pelas escolas, tendo em vista sua apropriação cotidiana ou episódica; 3) Estabelecer o campo de intersecção entre educação nãoformal, informal e formal a partir de suas contribuições para a educação dos jovens. 3. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA A partir dos objetivos assinalados, desenvolvemos uma pesquisa de cunho qualitativo, pois prezamos por uma pesquisa social que considerasse o fazer científico engajado ao enfatizar as experiências de vida e os detalhes do cotidiano. Os significados construídos entre pesquisadores e informantes ocorreram de maneira dialógica e situados sócio-historicamente, possibilitando desenvolver um olhar etnológico ao conciliar as especificidades. Isso compreendeu uma visão multidirecional e a ausência predefinida de um ponto de chegada. Nota-se, então, a preocupação da presente pesquisa qualitativa no que se refere ao terreno teórico, pois os conceitos e esquemas parciais escolhidos auxiliaram a compreender as possibilidades de um lugar ou contexto não serem generalizáveis além do horizonte que abrange. O processo foi descrito em termos, conforme Spink (2002 apud PINHEIRO, 2004), da desnaturalização sucessiva ou estranhamento em relação à temática, de modo a tornarem claros os limites que atravessam o discurso do pesquisador. Desta forma, utilizamos a idéia de campo-tema desenvolvida por essa autora que abrange todo o processo de imersão no tema de investigação desde as idéias iniciais, conversas, leituras e outros elementos. No nosso caso, a participação na pesquisa “A arte na política: um estudo sobre o movimento hip hop da cidade do Recife”, desenvolvida por pesquisadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Poder, Cultura e Ação Coletiva (GEPCOL), constituiu-se como fonte inspiradora fundamental na construção desse trabalho de conclusão de curso. Utilizamos na tentativa de compreensão das práticas discursivas, os princípios da análise do discurso de tradição inglesa6, a qual adota a etnometodologia e a análise conversacional como referentes, e abandona, assim, aquela visão da linguagem como uma série estática de descrições e do analista como mero coletor de dados neutros. 3.1 Procedimentos para registro de informações e seleção dos atores sociais Adotamos entrevistas semi-estruturadas com atores sociais de uma escola da rede municipal de ensino do bairro de Dois Irmãos, que desenvolve em seus finais de semana oficinas de hip hop pelo programa Escola Aberta e pela Gerência de Animação Cultural da Prefeitura da Cidade do Recife. Programamos entrevistar jovens estudantes ou que já haviam estudado na escola selecionada, mas que continuavam a participar das oficinas de hip hop (seja do break ou do grafite); a coordenadora da escola; os professores de ambas as oficinas de hip hop e um(a) professor (a) de sala de aula referenciado (a) pelos jovens entrevistados como sendo mais receptivo(a) às temáticas juventude/hip hop. Encontramos apenas 2 adolescentes-jovens (entre 15 - 18 anos), os quais tinham sido estudantes da escola, mas continuavam a participar das oficinas de hip hop. Os demais jovens estavam na faixa etária abaixo da selecionada e muitos não estudavam naquela escola, ou seja, eram jovens da comunidade circunvizinha à instituição. Esses dois informantes jovens moravam com seus pais no bairro de Dois Irmãos, local em que se localiza a escola. Ambos são do sexo masculino e um deles trabalhava como marceneiro enquanto o outro não trabalhava. Foram entrevistados também 2 professores de hip hop da referida escola, sendo um da oficina de break e o outro da oficina de grafite. Eles possuíam idades entre (19-21 anos) e encontravam-se concluindo o ensino médio. Trabalhavam como oficineiros daquela escola nos finais de semana e também como oficineiros em outros turnos de outras escolas, além de um deles trabalhar numa gráfica de um parente durante os dias úteis. O professor de grafite fazia parte da Rede de Resistência Solidária, conselho representacional dos grafiteiros do Recife, enquanto o professor de break tinha sido aprendiz de um b. boy consagrado da 6 A tradição anglo-saxão da Análise do Discurso. Ver Potter e Wetherell (1987, p. 158-176). velha escola de break do Recife. As oficinas da escola selecionada ocorriam no turno da tarde de 14h00min as 17h00min. Já com relação à coordenadora entrevistada, a mesma supervisionava as oficinas populares de finais de semana e trabalhava na secretaria da escola nos dias úteis. Tinha uma formação em magistério e era artesã, residindo no bairro de Casa Amarela. A professora referenciada pelo professor de break, que já havia sido aluno daquela escola, possuía formação superior em artes plásticas e ocupava a cadeira de professora de artes da respectiva escola. Residia no município do Paulista. Além das entrevistas semi-estruturadas com os informantes que atuavam nesse diálogo entre a escola e as oficinas de hip hop, houve também os registros de acompanhamento das reuniões da Mangue Crew. Essa posse de grafiteiros do bairro do Totó tem por ideologia a mudança social a partir do desenvolvimento de práticas educativas com as crianças e jovens da comunidade. Por isso, elaboram em escolas e na sua própria sede oficinas para esse público além de também mobilizarem fóruns de formação de arte-educadores grafiteiros como ponto de encontro para estarem discutindo como têm sido desenvolvidas essas respectivas oficinas no bairro. Essa crew, quando desenvolve seus fóruns de arte-educação, consegue reunir grafiteiros de todo o Recife e mantêm parcerias com a associação de moradores do bairro, agências juvenis e com outras crews da cidade. Partimos, então, a buscar uma melhor compreensão desses bairros periféricos em que se situam a escola e a crew selecionada para a partir disto identificarmos os territórios ocupados por esses jovens entrevistados e compreender sua relações com a escola e o movimento hip hop balizadas por demandas de participação sociopolítica. 3.2 Territórios da escola e do movimento hip hop - Dois Irmãos e Totó O bairro de Dois irmãos localiza-se na Região Político-Administrativa 3 da Zona de Urbanização Restrita - ZUR, ou seja, caracterizada pela ausência ou carência de infra-estrutura básica, com potencial construtivo de pouca intensidade de uso e ocupação do solo. Segundo levantamento feito pelo DEIP - Departamento de Informações e Projeções da Prefeitura da Cidade do Recife (2001), essa região concentra a maioria das áreas pobres da cidade num percentual de 28,50%. Apesar de nesse bairro existir grandes edificações como o horto zoobotânico de Dois Irmãos, o açude da Prata, o qual forneceu a primeira água encanada para o Recife em 1847; o LAFEPE - Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco e a moderna estrutura da UFRPE - Universidade Federal Rural de Pernambuco; há também muita concentração de Zeis, áreas de assentamentos habitacionais da população de baixa renda, emergidos espontaneamente e propostos pelo poder público como áreas permitidas à construção dessas moradias populares. Nenhum registro fora encontrado sobre a história das Zeis desse bairro. O Córrego da Fortuna se consolida como uma dessas Zeis e é nela que se localiza a escola selecionada para este estudo de caso. Diante dessa realidade podemos perceber como o hip hop se faz presente nessas comunidades alijadas das áreas de lazer, saneamento e de melhor estrutura de urbanização. Torna-se, pois, uma forma de expressão político-cultural na construção de uma identidade dessas zonas, que na maioria das vezes se encontram marginalizadas pelo poder público. Sobre o bairro do Totó, onde se localiza a sede da crew acompanhada, podemos caracterizá-lo como parte da Região Político-Administrativa 5, inserido na Zona de Urbanização de Morros e constituída de áreas que, por suas características geomorfológicas, exigem condições especiais de uso e ocupação do solo devido ao seu baixo potencial construtivo. O bairro do Totó possui mais de 50% de seu território ocupado por Zeis. A história desse bairro atualmente fora contado através da produção de um grupo de moradores que exibiram vídeos no Projeto: Círculos Populares. O evento, realizado pela Prefeitura do Recife, teve como objetivo unir e fortalecer as comunidades e principalmente os jovens que habitam nelas através do esporte e do lazer. Nesse projeto o movimento hip hop também se fez presente. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO A sistematização construída com os jovens, os professores de hip hop, a coordenadora e com a professora referenciada seguiu a seguinte organização cronológica: 1) Elaboração de 4 roteiros de entrevistas, sendo 1 para os jovens, 1 para os professores das oficinas, 1 para a coordenação e 1 para a professora referenciada. 2) transcrição das entrevistas gravadas; 3) Leituras flutuantes das entrevistas transcritas com a finalidade de apreensão dos principais eixos temáticos e formulação de possíveis categorias; 4) Elaboração de quadros de análises, sendo 1 dos jovens, 1 dos professores de hip hop, 1 da coordenadora e 1 da professora referenciada. Estes quadros contiveram os eixos temáticos, as categorias e alguns trechos das entrevistas dentro de seus respectivos eixos temáticos. 5) Leitura flutuante dos registros de acompanhamento feitos nas reuniões que registramos de formação dos arte-educadores da Mangue Crew. Os eixos temáticos tiveram como base os objetivos da pesquisa e foram sintetizados em perguntas colocadas nos roteiros das entrevistas elaboradas. Os quadros basearam-se nos mapas de associação de idéias conforme Rodrigues (2009), efetuados alguns ajustes. É importante salientar que conforme os quadros de análise, cada informante possuía eixos temáticos conforme o analisado nas entrevistas transcritas. E por fim, o que conceituamos por categoria, aqui, não possui a função classificatória e fechada, pois se caracteriza por ser um levantamento de repertórios, ou seja, domínios semelhantes que dialogam com outros de modo a fluir entre os sentidos produzidos. Os resultados confirmaram as hipóteses iniciais. 4.1 Caráter educativo: Conhecimentos e práticas educativas nas oficinas e crew do hip hop Segundo Freire (1987) não há ensino sem pesquisa nem pesquisa sem ensino. Ensino porque busca, porque indaga e pesquisa para constatar. O hip hop incentiva a busca do conhecimento mesmo que autodidaticamente. A participação no movimento desperta indagações e levam esses jovens a irem mais além, ou seja, a buscarem respostas para suas curiosidades. Transformam suas ingênuas curiosidades em curiosidades epistemológicas, isto é, fazem com que superem o senso comum e busquem a criticidade dos fatos. Através dessa criticidade eles se unem e buscam a participação sociopolítica enquanto práticas educativas através da arte, e nela destaca a necessidade de inserção social dos seus grupos e de suas comunidades marginalizadas, criando uma arte engajada, uma identidade, um posicionamento através desta arte periférica. O hip hop tem auxiliado, de fato, certo número significativo de jovens a encontrar um posicionamento no corpo social e a se auto-afirmarem enquanto atores sociais de direitos. Ou seja, a vergonha da vida discriminada da favela abre espaço à valorização própria dos que se descobrem capazes de fazer arte, de mudar a própria vida e a das pessoas que compõe suas redes de sociabilidades. E, portanto, transformam a falta de uma perspectiva existencial na saudável e transformadora consciência da cidadania e de serem autores dela. Nas pesquisas realizadas nas oficinas de hip hop da escola registramos que tanto os alunos quanto os professores dessas oficinas percebem a importância que essa participação no movimento tem na vida deles. A construção de novos conhecimentos que a mesma possibilita também fora registrada. Dividimos sistematicamente em tipologias de conteúdos os conhecimentos produzidos dentro de cada oficina e da crew. São eles o ensinar dos conteúdos factuais, atitudinais e procedimentais presentes nas oficinas e crew pesquisadas, sendo essas características tipológicas de conteúdos baseado nas conceituações de Zabala (1998). É demonstrado mais uma vez o caráter educativo do hip hop ao passo que constrói em suas oficinas e crews práticas educativas que resultam num possível diálogo entre escola e movimento hip hop em busca de uma formação mais significativa para esses jovens. O ensino dos conteúdos factuais são aqueles que utilizam estratégias que reforçam as repetições mediante associações dos fatos. Esses conhecimentos construídos através de atividades de memória foram os seguintes, registrados nas oficinas e na crew de hip hop: Conhecer a origem do hip hop e suas bandeiras de luta; manterem-se informados sobre os fatos que ocorre tanto no mundo quanto em suas comunidades. Sobre os conhecimentos procedimentais tivemos as apropriações das técnicas tanto da dança de rua quanto dos desenhos do grafite. Algumas práticas pedagógicas como definição de temas a serem conscientizados através da dança ou do grafite foram também utilizadas em ambas às oficinas. Abaixo um trecho de uma entrevista expõe o discurso construído sobre esses momentos: “Mas não é só praticar por praticar porque tem que ter a prática e o conceito... porque o grafite não é simplesmente um desenho bonito na parede, pois tem todo um processo de conhecimento e de está sabendo o que está acontecendo no mundo para poder utilizar essa arte como protesto mesmo. Eu começo a aula dando um tema. Hoje mesmo o tema foi sobre a dengue. Pedi que eles fizessem um desenho sobre a proliferação da dengue.” (Professor da oficina de grafite, 19 anos); Neste caso, realizaram exercícios suficientes e progressivos das diferentes ações (passos de dança, técnicas de desenho...) que formaram os procedimentos, as técnicas ou estratégias, partindo de atividades como foi o caso dos temas geradores significativos e funcionais imprescindíveis para que esses saberes produzissem sentidos aos alunos. Os conteúdos atitudinais registrados remetiam à disciplina e o respeito à liderança do grupo, trazendo a noção de obediência aos mais velhos. São características dos conteúdos atitudinais voltarem-se ao caráter conceitual dos valores, das normas e atitudes, ou seja, o que cada um implica. Para que esse conhecimento atue de forma efetiva na aprendizagem faz-se necessário mobilizar o componente afetivo no ensino. Logo, e parafraseando Zabala (1998), as atividades de ensino devem englobar tanto os componentes cognitivos como os afetivos e condutuais, pois os pensamentos e comportamentos de uma pessoa não dependem apenas do que está socialmente estabelecido, mas também das relações pessoais que esta estabelece com o objeto da atitude ou do valor. construídos através desses conteúdos Muitos do conhecimento atitudinais salientados acabaram repercutindo também em sala de aula como nos diz a coordenadora: “A questão do cumprimento, do respeito um pelo outro para que um não invada o espaço do outro a gente vê sendo trabalhado dentro dessa oficina. Noção de coletividade muito forte entre eles também. O respeito pelos menores que querem aprender também e isso acaba aparecendo em sala no respeito maior ao professor”. (Coordenadora das oficinas da escola,49 anos) Tornou-se, portanto, claro o que Freire (1987) já afirmava, ao dizer que é aprendendo que se torna possível ensinar e entender a importância dessas experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, na sala de aula das escolas, nos pátios do recreio e etc. Em que diversos gestos dos alunos, dos coordenadores, docentes, pessoal administrativo se cruzam e produzem significações. O hip hop, portanto, faz parte da vivência de muitos desses jovens que moram em periferias e que estudam nas escolas públicas de nossa cidade. A aliança da instituição escolar com as ações educativas de participação sociopolítica e de reconhecimento de construção de conhecimentos ( conteúdos atitudinais, procedimentais e atitudinais) presentes dentro dos grupos de hip hop não se constitui como algo sem fundamento ou deslocado do contexto de nossos alunos e por isso precisam ser considerados dentro de nossas escolas. Utilizar-se de todo esse conhecimento produzido por esses grupos espontâneos e construir juntos (escola-comunidade/hip hop) experiências educativas inovadoras voltadas para uma formação verdadeiramente cidadã é algo possível e já vem sendo praticado nessa escola acompanhada. É, enfim, um diálogo entre grupos juvenis e escola que vem dando, pelo menos nesse estudo de caso, promissores resultados no que tange à formação juvenil, até porque uma escola verdadeiramente democrática deve levar em consideração os conhecimentos que os seus estudantes trazem frutos das relações pessoais empreendidas em suas participações nos diferentes contextos. 4.2 Modalidades de acolhimento do hip hop na escola pesquisada Em relação à apropriação episódica do movimento hip hop na escola pesquisada registramos a existência de duas oficinas: A oficina de break dance e a oficina de grafitagem em que ambas são destinadas tanto aos alunos da escola quando abertas às crianças e jovens das comunidades circunvizinhas. Uma dessas oficinas é oferecida pelo Programa Escola Aberta enquanto a outra é fornecida pela Gerência de Animação Cultural (GAC) da Prefeitura da cidade do Recife. São considerados por acolhimentos episódicos do movimento hip hop na escola essas oficinas porque não fazem parte do Projeto Político Pedagógico da mesma e dessa maneira se coloca como temporárias, isto é, não as têm enquanto prioridade nem enquanto instrumento de transformação permanente na produção de novos saberes dentro da escola, apesar de toda a contribuição visível que essas oficinas vêm dando à formação desses jovens. O custeio dessas oficinas (material, ajuda de custo aos professores oficineiros e etc.) é oferecido por esses programas, não sendo de responsabilidade da escola e tendo a mesma apenas a obrigação de ceder o espaço para realização das oficinas. Entretanto, fora percebido que essa escola além de ceder o espaço para o desenvolvimento das oficinas vem mobilizando mensalmente reuniões com todos os professores oficineiros. Sistematiza nessas reuniões metas a serem alcançadas pelas oficinas de hip hop e discute os problemas que vem ocorrendo no decorrer das atividades, além de reconhecer a importância dada pelos jovens a essas oficinas e por isso disponibilizando espaços para que esses grupos se apresentem nas festas e datas comemorativas da comunidade escolar. “Fazemos reunião com a diretoria e os oficineiros para traçarmos metas. Acho que é um trabalho bem sistematizado e por isso que eu acho que essa escola acolheu bem essas oficinas”. (Coordenadora das oficinas da escola pesquisada) “Já nos apresentamos, nos feriados tipo páscoa e é pros alunos da escola mesmo em dia de aula normal”. (Jovem Masc. B. 18 anos); Tornou, então, perceptível o acolhimento e reconhecimento do valor social dessas oficinas de hip hop nesta escola pesquisada, mesmo que esse acolhimento ainda ocorra mais episodicamente do que como presença continua no cotidiano escolar. Registramos também que apenas uma professora da escola trabalha com as linguagens e expressões juvenis em sala de aula, mesmo o corpo docente estando ciente de que os Parâmetros Nacionais da Educação (1998) indicam no eixo dos temas transversais, a necessidade de se reconhecer e apreciar as pluralidades culturais nos currículos escolares e trabalhá-las dentro de sala, estando as expressões culturais juvenis imersas nessas pluralidades e sendo o hip hop uma delas. Outra questão analisada foi a coordenação da escola reconhecer como benefício central dessas oficinas o incentivo que estas dão aos jovens para que retornem a escola, convidando-os a reiniciarem os estudos ou até como forma de evitar que saíam da mesma. “Aprendi muita coisa. Tipo sair da rua, ficar mais em casa, estudar mais. Quando eu não conhecia o break eu gazeava muita aula, não estudava, mas depois que eu conheci o break as pessoas sempre falava que tem que terminar os estudos pra botar pra frente e é isso ai”. (Masc. Jô, 18 anos); Entendemos, então, que os maiores benefícios dessas oficinas sob o olhar dos que dirigem esta instituição está nesse incentivo que estas concedem à escola quando elevam as matrículas e diminuem as evasões juvenis, alavancando maiores fundos econômicos e índices positivos à escola. A questão da conscientização que estas oficinas trazem sobre a importância de buscarem o conhecimento(quinto elemento da cultura do hip hop) e as mudanças que estas empreendem na vida desses jovens, não foi considerado como benefício primordial pela coordenação, mas sim a expansão das matriculas. Por isso, cobram dos professores oficineiros a expansão dessas oficinas. Surgiram, então, algumas dificuldades relatadas nas falas dos professores das oficinas e a pressão em expandir as oficinas entre os jovens da comunidade local as se coloca como uma delas, sendo os professores prejudicados se as oficinas não permanecerem cheias. Eles afirmaram, inicialmente, que a demora em receber os materiais solicitados leva a uma progressiva desvalorização das oficinas devido à improvisação por falta de materiais ou chegada tardia destes. E outro aspecto levantado como dificuldade foi essa cobrança que sofrem para manterem suas oficinas sempre cheias, culminando em expansão e convite a mais alunos se matricularem, mas reduzindo a segundo plano as práticas educativas desenvolvidas por essas oficinas, segundo o olhar de alguns professores e dirigentes. Já em relação à apropriação cotidiana dentro dessa escola, apenas uma professora da disciplina de artes foi referenciada e a mesma informou que desenvolve trabalhos com o grafite como linguagem atual e com o uso de músicas de rap ao trabalhar música popular brasileira. Outros temas como sexualidade, drogas, ação da policia, violência contra a mulher, segundo ela, despertam interesse nos jovens, mas confessa que poucos são os professores que possuem esse ótica mais aberta para além dos conteúdos disciplinares como nos informa abaixo: “Quando o currículo não é fechado eu costumo trabalhar assuntos como drogas, sexualidade e até a grafitagem por ser uma linguagem atual ... temas como violência, atuação da polícia ou má atuação também chama o interesse deles. Quando eu trabalho música eles costumam trazer o hip hop e diante dos bregas e outro estilo eu costumo escolher o hip hop para trabalhar com eles por ter mais cultura...” (professora da disciplina de artes, 30 anos). A docente relata que a expressão que utilizou “mais cultura” significa porque o considera educativo e explica dizendo: “Porque pelo o que eu sei ela vem de uma certa cultura negra nos EUA e discute a questão social, de discriminação e só por estas questões que desperta eu vejo sim um caráter educativo. Também por toda a sua origem... é uma cultura bem interessante de ser trabalhada tanto que eu já trabalhei com grafitagem em sala de aula.” (professora da disciplina de artes,30 anos). Observamos que esta professora afirma o que Santos (1999) já defendia ao não considerar impossível construir uma aula a partir dos documentos vivos da cultura das ruas (rimas, grafite, arte engajada e etc.) e tenta, quando permitido pela escola, correlacionar os conhecimento desses alunos desenvolvidos nessas participações em grupos juvenis com os conhecimentos científicos. Diante do exposto e apesar dessas oficinas não fazerem parte do projeto político pedagógico da escola, e do trabalho dessa professora ainda ser uma minoria num grupo composto por 16 professores, essa apropriação cotidiana demonstra que as manifestações comunitárias e as articulações escola-comunidade e conseqüentemente escola-movimento hip hop vem se tornando cada vez mais presente no cotidiano escolar, produzindo saberes mais significativos ao construir o diálogo entre esse grupo etário de educação formal e o grupo etário espontâneo juvenil. É possível então afirmar, a partir das práticas relatadas por essa professora, que a escola possui também um acolhimento cotidiano do hip hop, sendo este desenvolvido por essa professora em sala de aula e, desta forma, considerando os conhecimentos e as práticas educativas produzidas em ambientes fora das salas de aulas. Há, portanto, uma correlação, através do dialogo empreendido em sala com esses jovens, dos conhecimentos científicos e dos populares trazidos para escola e vivenciados por eles fora dela, contribuindo sobremaneira na formação voltada para a construção de uma cidadania viva7. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos dados apresentados observamos que nossas hipóteses iniciais foram confirmadas nesse estudo de caso ao passo que a participação sociopolítica e a conseqüente propagação da cidadania no movimento originou-se entre seus militantes através da existência do chamado quinto elemento do hip hop, o qual constitui a busca pelo conhecimento, pela responsabilidade social e por essa participação política na sociedade. O movimento hip hop e seus quatro elementos, além desse quinto elemento que se coloca como a busca pelo conhecimento e por participação sociopolítica, portanto, constitui-se de um caráter educativo, pois constrói, ressignifica e ressocializa novos saberes através do diálogo que possibilita entre os 7 Educação para a cidadania como horizonte do movimento social na perspectiva de alcançar uma cidadania viva, ou seja, de criar novas formas de produzir, viver e educar baseados em princípios de cooperação e solidariedade, princípios estes mais amplos se comparados aos que se assentam a cidadania burguesa. Ver também Ribeiro (2002, p. 113-128). conhecimentos científicos empreendidos pela escola e os conhecimentos populares presentes nesse movimento, negando-se apoiar posicionamentos de uma suposta “cidadania” burguesa, pilar da era moderna, a qual utiliza-se da exclusão social para se manter. A existência do hip hop dentro das escolas reconfigura e recria um novo espaço, considerando as redes de sociabilidades das quais seus jovens fazem parte e o que aprendem dentro dessas redes. As escolas, assim como ocorre nas crews, para esses jovens participantes do movimento, precisam ser espaços de agregação, de respeito à cidadania construída por eles e de desenvolvimento do ensinoaprendizagem através da relação entre esses saberes (populares e científicos), elaborando, assim, novos posicionamentos que irão se constituindo nas identidades desses jovens. A exclusão de um grupo etário sobre o outro leva-nos a desconsiderar a realidade desses jovens e alimenta uma escola alheia a realidade em que se insere. Resultados disso temos quando nos deparamos com dados do IBGE afirmando que 45% dos jovens das escola periféricas deixam-nas por não se sentirem parte dela, o que reflete um espaço desprendido de seu público. Por isso, acreditamos que outra escola é possível, tanto que em nossa pesquisa posicionamos alguns poucos passos, mas já existentes, de uma instituição escolar que vem considerando as práticas político-culturais que esses jovens desenvolvem além do espaço escolar, resgantando-os como conhecimentos prévios necessários para o desenvolvimento de aulas mais interessantes e contextualizadas com as histórias de vida dos mesmos, os quais muito têm a ensinar e a aprender. 6. REFERÊNCIAS BARRETO, Silvia Gonçalves P. Hip-Hop na Região Metropolitana de Recife. Dissertação de mestrado em Área de Pós-Graduação em Sociologia, CFCH, UFPE. Recife, 2004. 188p. CARRANO, Paulo César R. Juventudes e cidades educadoras, Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. __________ ; PERREGRINO, M. O direito à juventude na escola que se expande: desafio para a democratização da escola pública no Brasil. Revista Anales de la educación común. Buenos Aires, 2005, p. 18-27. EQUIP – Escola de Formação Quilombo dos Palmares. 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