REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA
ISSN 1519-5228
Volume 2- Número 1 - 2º Semestre 2002
Gestão dos recursos naturais: Sítio São Brás, Município
de Carlinda – MT
Cleiton Benett 1; Marilena Almeida 1; Mariana Wiecko Volkmer de Castilho 2
RESUMO
O presente trabalho tem como objeto a gestão dos recursos naturais em uma propriedade
na comunidade rural Caná, localizada no município de Carlinda - MT. Na perspectiva do
manejo dos recursos naturais são apresentadas as formas de apropriação e utilização dos
mesmos, pelo produtor, observando os entraves encontrados para levar adiante o seu
empreendimento, considerando os aspectos sócio-econômicos, ambientais e culturais. A
pressão para mudança de agricultura familiar para atividade de pecuária é grande. O
método utilizado na obtenção de dados foi o da pesquisa participante, centrado na
compreensão da dimensão cotidiana da realidade social. Conclui-se que medidas devem
ser tomadas para minimizar os impactos antrópicos no ambiente.
Palavras-chave:
Aprendizagem.
gestão,
recursos
naturais,
Carlinda,
Mato
Grosso,
Grupo
de
ABSTRACT
This paper examines the management of natural resources in a propriety in the rural
community Caná, located in the municipal district of Carlinda, north part of Mato Grosso
state. In face of management of natural resources presented the forms of appropriation
and use of them by peasant, observing the problems find to maintain his propriety,
considering the social, economic, environment and cultural aspects. The existence of
pressure to change agriculture - cattle rising is great. The method used to gather data was
field research, focused on the understanding of the day-to-day dimension of the social
reality of the rural propriety. The paper concludes that measures should be taken to
reduce the men impacts in the environment.
Key-words: management, natural resources, Carlinda, Mato Grosso, learning group.
1. CONTEXTUALIZAÇÃO
Este trabalho é fruto de uma experiência vivenciada no Programa de Ciências AgroAmbientais1, campus de Alta Floresta/MT, no Grupo de Aprendizagem2 Gestão de
Recursos Naturais, junto a uma família de agricultores da comunidade rural Caná, Sítio
São Brás, Lote n° 631, no entroncamento da Linha 12 com a Linha 15, localizada no
município de Carlinda/MT, distante 35 km do Campus Universitário de Alta Floresta
(figuras 1e 2).
Fig. 1 Localização geográfica do município de
Carlinda no Estado e Brasil
Fig. 2 Croqui de localização do
Sítio São Brás
O objetivo deste artigo é compreender como o produtor ocupou a área e como gerencia
os recursos naturais existentes na mesma, observando os entraves encontrados para
levar adiante o seu empreendimento, considerando os aspectos sócio-econômicos,
ambientais e culturais.
Diante dessa perspectiva, faz-se necessário lembrar que os recursos naturais não são
infinitos e, por isso, devem ser utilizados de forma econômica e racional, ou seja, a
natureza deve ser consumida ou utilizada para atender às necessidades da presente
geração e das que ainda virão. Contudo, é impossível desconhecer que o mundo entrou
numa crise sem precedentes no que se refere ao estado do meio ambiente e ao
desequilíbrio causado pelo uso inadequado dos recursos naturais da biosfera.
No caso específico da região norte mato-grossense, o desenvolvimento agropecuário vem
sendo feito em ritmo acelerado, causando danos na exploração dos recursos naturais.
Observa-se uma falta de sensibilidade perante a natureza e seus princípios mais
elementares de funcionamento.
Certamente, toda atividade humana de utilização de recursos naturais e produção
agrícola representa um rompimento da estrutura ecológica da floresta. Contudo, segundo
SCHUBART (1979), não se trata de combater o progresso econômico regional, mas sim
harmonizar esse desenvolvimento com as potencialidades e limitações naturais de modo
a minimizar os prejuízos ao meio ambiente. Ou seja, os recursos naturais devem ser
utilizados de forma que os benefícios que trazem ao desenvolvimento do ser humano, não
prejudiquem o bem estar dos sistemas locais e globais.
Nesse sentido, o manejo dos recursos naturais objetiva a utilização adequada dos
recursos naturais e dos ecossistemas, de modo a respeitar sua capacidade de
reprodução e de carga e sua utilização de forma sustentável. O manejo dos recursos
naturais varia segundo os tipos de recursos, mas se compõe de vários tipos de restrições
- de acesso aos recursos naturais em certos períodos, de uso de certos equipamentos ou
tecnologia (DIEGUES, 1995).
Geograficamente, o norte do Estado de Mato Grosso é caracterizado por relevo de
depressão interplanáltica da Amazônia Meridional; clima equatorial, quente e úmido, com
dois meses de seca, junho e julho, tendo uma precipitação média anual é de 2.750 mm,
com intensidade máxima nos meses de janeiro, fevereiro e março. A temperatura média
anual está em torno de 24ºC, com máxima de 40ºC (FERREIRA, 1997).
A formação geológica indica a origem de complexos metamórficos arqueanos ou précambriano indiferenciado, complexo basal em coberturas do proterozóico, com granitóides
associados, formação gorotire (FERREIRA, 1997). O solo é podzólico vermelho amarelo
distrófico argila de baixa atividade base textura argilosa. Compreendem solos com
horizonte B textural, não hidromórficos, com atividade de argila e saturação de bases
baixas, moderadamente drenadas, com profundidade variável (BARBOSA, 1995). Nos
solos da região, a maior concentração de nutrientes está nos primeiros horizontes.
Constata-se que mesmo nos horizontes em desagregação e decomposição ocorrem
menos bases do que na parte superficial do solo. Isto tem como causa, neste meio que é
de alta lixiviação, a atividade das raízes que, absorvendo os nutrientes liberados,
transportam para as plantas que mantêm aparentemente um ciclo onde pode haver um
incremento em função do tempo. Quando ocorre a queima da floresta, este ciclo acaba e
põe todo o somatório de nutrientes, acumulados em milênios, em contato com o solo que,
possuindo colóide de muito baixa atividade, sem condições de retê-los.
A bacia hidrográfica é representada pelos rios Teles Pires ou São Manoel e Juruena com
inúmeros tributários de natureza temporária ou permanente, ocasionando, por vezes,
inundações próximas aos seus leitos no período de maior intensidade pluviométrica.
A vegetação é caracterizada pela Floresta Ombrófila Aberta Submontana com Cipó,
destacando-se espécies como castanha - do - Pará (Bertholletia excelsa), aroeira
(Astronium gracilis), e a Floresta Ombrófila Aberta Submontana com Palmeira. As árvores
são caracterizadas ainda por folhas grandes e casca rugosa, como o mogno (Swietenia
macrophylla), o cedro (Cedrella odorata) (RADAMBRASIL, 1980).
2 - RESULTADOS E DISCUSSÕES
2.1 - ASPECTOS HISTÓRICOS E PRODUTIVOS
Para um bom entendimento da gestão dos recursos naturais foi realizado um
estágio de vivência, entre os dias 9 e 11 de abril de 2002, na zona rural do
município de Carlinda - MT, especificamente no sítio São Brás, de propriedade do
Sr Antônio Miguel da Silva e Sra. Isabel Araújo Barreto da Silva. Para confecção
do trabalho os acadêmicos se basearam nas entrevistas com os moradores da
propriedade, nas observações in situ, bem como nas participações nas atividades
diárias do grupo familiar.
Os proprietários do imóvel, ambos nascidos no Estado do Paraná e casados na
cidade de Alto Piquiri-PR, chegaram à cidade de Alta Floresta-MT em 20 de
outubro de 1980 e residiram na Comunidade Mundo Novo, Vicinal 3ª Leste até
1986, quando foram contemplados com um lote no assentamento do INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária -, em Carlinda - MT3, que
nesta ocasião ainda pertencia ao Município de Alta Floresta-MT. O convite foi
feito pelos parentes residentes em Alta Floresta-MT, que consideravam um local
promissor e com boas condições para o plantio. Em função, também, de possuir
uma área para trabalho muito pequena no Paraná, que era dividida com outros
familiares, estimulou o produtor e sua família a deslocar-se para a região. Hoje a
família é composta pelo casal e pelos filhos Adão e Eva. A filha casou e não
reside na propriedade.
Em 1982, o produtor fez inscrição no Projeto de Assentamento do INCRA, e em
1986 foi contemplado com um lote no qual reside até hoje. Conforme relato do
produtor, no início, tudo era muito difícil. Havia apenas um bar, uma mercearia,
um posto de gasolina e algumas residências. Para acesso ao lote, não havia
estradas, somente picadas4, os córregos eram atravessados a pé e os
mantimentos e ferramentas para realizar roçagem e derrubada da mata, eram
carregadas pelos animais de carga ou pelos próprios colonos.
Inicialmente, o produtor, acompanhado por duas pessoas, realizou roçada e
derrubada de uma área de 9,68 ha. Após realizar a queimada, construiu um
barraco rústico próximo ao córrego, onde morou provisoriamente por quatro
meses com sua família. Como era área de mata virgem, percebia-se pelas
pegadas, o trânsito de animais selvagens. Na área preparada plantou arroz,
manualmente, e obteve uma colheita de 250 sacos. Com a abertura das estradas
Linha 12 e Linha 15 ainda no ano de 1986, e devido à presença de muitos
religiosos da Igreja Católica na localidade, foi celebrada a primeira missa na
comunidade defronte à propriedade em estudo. Devido à distância e dificuldades
de acesso até a cidade de Alta Floresta-MT, cidade mais próxima e melhor
estruturada para efetuar compras, em dezembro do mesmo ano, o Sr. Antônio
resolveu investir no comércio, instalando, no entroncamento das duas estradas,
um bar que funciona também como uma mercearia. Primeiramente, era um
imóvel rústico, construído em madeira, e em 1990 foi construído em alvenaria. A
residência do proprietário foi construída anexa ao bar.
No início de 1991 o proprietário plantou café em consórcio com arroz (7,26 ha).
Não houve um bom desempenho produtivo do cafeeiro, devido à seca, e o
produtor foi obrigado a eliminar a cultura, realizando desmatamento em novas
áreas, incluindo parte da área de preservação permanente, efetuando plantio de
arroz. Durante quase dez anos realizou plantio da monocultura do arroz em área
mecanizada, com correção do solo. Segundo o produtor, nos primeiros anos
obteve muito lucro, adquirindo trator e diversos implementos agrícolas, além de
realizar financiamentos de custeio para plantio. Nas safras de 1997 e 1998
obteve um prejuízo tão grande que foi obrigado a desfazer de vários bens como o
trator e alguns implementos para amenizar a dívida contraída, restando-lhe
apenas a trilhadeira, que utiliza no período da safra do arroz para prestar serviços
a outros proprietários em forma de comissão.
Com a utilização anual da mesma área para o cultivo do arroz, o solo também
não correspondia ao que o produtor almejava na produção, sendo um fator que
colaborou na baixa da produtividade, além do baixo preço do produto no
mercado. Toda área que era cultivada com arroz o proprietário transformou em
pastagem por acreditar que a criação de gado era uma atividade promissora.
Em 1988, o produtor realizou plantio de cacau (Theobroma cacao), única cultura
perene existente na propriedade, com sementes adquiridas da CEPLAC Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira -, no espaçamento de 3 x 3
m, utilizando o sombreamento provisório5, de feijão guandu (Cajanus cajan) e o
sombreamento definitivo de pinho cuiabano (Schizolobium amazonicun), no
espaçamento de 15 x 15 m. A área ocupada foi de 2,42 ha, num total de 3.000
plantas. Na lavoura, segundo o produtor, desde a sua implantação não foi
realizada nenhuma adubação ou aplicação de inseticidas ou fungicidas. A
vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa) é a única doença que o proprietário tem
observado na cultura, apresentando baixa incidência. O controle é feito com a
remoção das partes infectadas das plantas. Ocorre também o ataque de animais
silvestres como a cutia e várias espécies de macacos que destroem os frutos de
cacau. A produção do ano de 2001 foi de 500 kg e a previsão é de 500 kg para o
ano de 2002. O produto é comercializado na única firma de compra do cacau em
Carlinda-MT, denominado Compra de Cacau Campo Belo.
O produtor tem interesse em realizar adubação para aumentar a produção, pois
considera uma cultura de fácil manuseio e bom valor comercial, alem de ser
utilizada no reflorestamento. O período de colheita do cacau corresponde ao
período de abril a julho.
Em 1989 o proprietário iniciou a criação de gado, com destaque para o rebanho
leiteiro. Aves e suínos são criados para atender o consumo familiar. A produção
do leite é utilizada para o sustento da família e para comercialização. São
entregues aproximadamente 10 litros diários ao laticínio de Colider-MT. A
alimentação dos animais consiste no consumo das gramíneas e suplementos
minerais (sal mineral), na proporção de 2:1(sal branco e sal mineral Fosbovi),
fornecido ao cocho uma vez por semana. As vacinações são realizadas três
vezes ao ano nos meses de fevereiro, maio e novembro para combater a febre
aftosa e o carbúnculo. A técnica de criação é tradicional, não utilizando estação
de monta em virtude do baixo número de animais.
Na área de pastagem foi plantado, principalmente, o capim brizantão (Brachiaria
brizantha), também, em menor escala, o capim tanzânia (Panicum maxinum),
bastante resistente às pragas e doenças das forrageiras. Para a limpeza das
pastagens é utilizado o herbicida comercial Tordon para combater o assa-peixe
(Boehmeria caudata).
A área da propriedade é totalmente cercada com cerca convencional medindo,
aproximadamente, 1.500 m e cerca elétrica com 4.000 m. Para a limpeza da área
onde passam os fios elétricos é realizada a pulverização do herbicida Roundup.
Devido à falta de utilização de práticas de conservação do solo têm ocorrido
erosões nos mesmos.
2.2 - ASPECTOS AMBIENTAIS
De acordo com as declarações do proprietário, até o ano de 1998 o mesmo fazia
uso das queimadas para combater as ninfas das cigarrinhas (Deois sp) e também
para que o rebrotamento do capim ocorresse com mais vigor. A implantação de
pastagem artificial na área onde outrora era cultivado arroz, o produtor preparou o
solo efetuando curva de nível, no intuito de minimizar a ocorrência de erosão,
além de plantar semente de capim na forma de matraca (manualmente). Nas
áreas de pastagem foram observados, com baixa incidência, cupim de montículos
(Cornitermes sp.).
A atividade extrativista, na propriedade, não é realizada e, segundo o produtor,
há poucas espécies com potencial extrativo, como a Castanha-do-Pará.
Conforme a figura 3, a área de pastagem ocupa o maior percentual de utilização
da terra,medida em hectares, enquanto as demais áreas juntas perfazem um total
de 19%. Fato observado em diversas propriedades da localidade, como também
no município de Alta Floresta - MT, conforme discorrido no Plano Municipal de
Desenvolvimento Rural - PMDR, do Conselho Municipal de Desenvolvimento
Rural de Alta Floresta - MT- CMDR
Fig.3 Uso do solo
Na área de horto doméstico encontram-se inseridas as benfeitorias da
propriedade como casa, barracão, bar, tulha, curral; pomar, com frutíferas como
acerola (Malpghia globa), manga (Manguifera undiais), abacaxi (Ananas
camusus), jabuticaba (Myrciaria cauliflora), coco (Cocos nucifera), jaca
(Artocarpus integrisolia), citrus (Citrus ssp) diversos, que são consumidos pela
própria família, e uma pequena horta doméstica.
No imóvel observa-se a existência de duas áreas de mata e o encontro das
águas de dois pequenos córregos que foram represados para os animais
beberem água (figura 4). A mata ciliar encontra-se com vegetação natural, na
margem direita córrego (figura 5), possuindo em média, segundo o produtor, 50 m
de largura ao longo do curso d'água, onde existem duas passarelas por onde o
gado tem acesso à água.
Na mata ciliar observou-se a presença de buriti (Mauritia flexuosa), cacauí
(Theobroma speciosum) e outros arbustos.
Na margem esquerda, as aguadas encontram-se desprotegidas (figura 6), com
algumas espécies vegetais de pequeno e médio porte. Devido a erosão do solo
(lixiviação) nas áreas de pastagens (figura 7), principalmente nos corredores
próximos às cercas elétricas, encontra-se sem qualquer proteção vegetal. A falta
de cobertura vegetal advém do uso constante de herbicidas para inibir o
desenvolvimento de gramíneas ou ervas daninhas e evitar o contato com os fios
eletrificados, que podem causar perda de energia.
O trânsito freqüente de animais para as águas tem causado assoreamento do
córrego. A mata de reserva permanente, que compreende 2,42 ha, encontra-se
preservada, envolta com cerca de arame para evitar a entrada de animais (figura
8). Segundo o proprietário, nunca ocorreu entrada de fogo na mata quando
realizava queimadas nas pastagens e a fauna e a flora praticamente não foi
alterada pela ação antrópica.
Provavelmente, devido a área ser muito pequena e por não existir corredores
ecológicos interligando, a fauna deve ser bem restrita.
Fig. 8 À direita, mata de reserva permanente
2.3 - ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS
A alimentação básica do produtor rural e seus familiares é composta basicamente
de cereais, verduras colhidas na horta e carne, geralmente, de criação doméstica.
Ultimamente a gripe foi a doença que mais acometeu os membros da família. Os
tratamentos são realizados na própria comunidade e quando necessitam de
maiores cuidados deslocam-se para a cidade de Alta Floresta, utilizando-se de
tratamentos em clínica particular. Na comunidade existe um serviço médico
volante que visita os moradores, verificando a necessidade de atendimento
médico e encaminhando para o posto de saúde da comunidade. Outro serviço de
atendimento utilizado pela família é o bioenergético que trabalha com a cura
através das ervas medicinais.
Os componentes do grupo familiar possuem algum grau de escolaridade. Os pais
por terem residido em locais de difícil acesso às escolas e de necessidade de
mão-de-obra e manutenção da família, não obtiveram muitas oportunidades de
prosseguir com os estudos. O Sr. Antônio e a Sra Isabel cursaram as séries
iniciais (1ª a 4ª série). Devido às dificuldades enfrentadas e considerando de
suma importância a educação para melhores oportunidades de emprego e/ou
avanço em qualquer empreendimento, preocuparam-se um oferecer ao filho uma
instrução melhor. Recentemente, Adão concluiu o 2° grau e pretende cursar o 3º
grau em Alta Floresta - MT.
A divisão das atividades da propriedade é feita utilizando quase na sua totalidade
a mão-de-obra familiar, com contratações esporádicas, quando de realização de
roçagens e aplicações de herbicidas, a média de 5 diárias ao mês, no valor de R$
10,00/diária. A esposa, além do trabalho doméstico contribui no atendimento ao
público em geral, no comércio. Os trabalhos domésticos, que pela
macroeconomia vem sendo relegado ao mundo do "não trabalho", do nãorentável e com freqüentemente sem valor, são, paradoxalmente, peça
indispensável à manutenção e crescimento da economia formal, graças a uma
característica especial que possui: "cria valor, mas não está sujeito à lei do valor"
(cf. OLIVEIRA, 1996 apud NETO, 1997).
Na propriedade, como uma forma de diminuir o consumo de gás butano, utiliza-se
para preparo dos alimentos, fogão de carvão, confeccionado pelo próprio
produtor. O carvão também é produzido rusticamente na propriedade, através da
queima de madeira em buraco escavado no pomar do imóvel. O comércio é a
principal fonte de renda da propriedade. É o empreendimento que requer a maior
parte do tempo dos componentes da família.
Foi realizado um levantamento aproximado dos preços pagos e recebidos na
propriedade, verificando-se uma renda líquida anual familiar de aproximadamente
R$ 2.550,00. (TABELAS 1 e 2).
3. CONCLUSÕES / RECOMENDAÇÕES
O acompanhamento do dia a dia do produtor rural mostra que é preciso compreender o
que levou o mesmo a utilizar os recursos naturais de uma forma e não de outra. O homem
do campo muitas vezes procura investir na agricultura, porém vários fatores o
impulsionam a praticar a pecuária ou realizar o êxodo rural, uma vez que o pequeno e
médio produtor encontra-se desmotivado para empregar novas tecnologias adequadas
para seu empreendimento, considerando que são explorados por um sistema de governo
que não subsidia a produção agrícola e que não garante o preço mínimo de custo de
produção.
Contudo, com discutido com o produtor rural, algumas medidas podem ser tomadas de
forma a minimizar o impacto antrópicos na propriedade. Entre eles:
•
•
•
evitar o trânsito de animais nas margens do córrego no intuito de recuperar a mata
ciliar e minimizar o assoreamento da aguada;
a instalação de roda d'água para impulsionar água aos cochos localizados nos pastos.
o sistema de rodízio de pastagens com divisão das áreas com piquetes, que ocuparia
uma área menor, colaborariam no melhor aproveitamento das pastagens.
•
•
o uso de inseticida biológico (Metarhizium anisapliae) no combate às cigarrinhas que
atacam as pastagens, evitando as queimadas que só contribuem com o
empobrecimento do solo eliminando a micro-fauna;
a prática de arranque dos assa-peixes e roçagem na pastagem poderia ser uma forma
de prevenir e evitar a contaminação do córrego e minimizar a lixiviação do solo.
Finalmente, pode-se concluir que há necessidade de viabilizar e divulgar as tecnologias
adequadas e opções de culturas favoráveis para utilização na região, como os Sistemas
Agroflorestais.
4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA. R. C. M.; NEVES, A D. S. Solos do Polo Cacaueiro Juruena, MT. Boletim
técnico 3, Belém, 1985. 4 p.
BRASIL. Departamento Nacional da Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL Levantamento de Recursos Naturais. Folha SC 21, Juruena, vol. 20. Rio de Janeiro, 1980.
201 p.
CASTRO. José Gerley Díaz. Projeto Pedagógico do Programa de Ciências AgroAmbientais. Alta Floresta. 2000. (mimeo). 54 p.
DIEGUES, Antônio Carlos Sant'Anna. Repensando e recriando as formas de apropriação
comum dos espaços e recursos naturais. In: DIEGUES, A C. S. Povos e Mares: leituras
em sócio-antropologia marítima. São Paulo: NUPAUB -USP, 1995. p. 209 -236.
FERREIRA, João Carlos. Mato grosso e seus municípios. Secretaria de Estado de
Educação de Cuiabá, 1997. 326 p.
MATO GROSSO. Código Ambiental. Lei complementar n.° 38, 21 de novembro de 1995.
35 p.
NETO, A M. Q. F. Família operária e reprodução da força de trabalho. Petrópolis: Vozes.
1997. 125 p.
SCHUBART Herbert O R. Critérios Ecológicos para o desenvolvimento agrícola das terras
firmes da Amazônia. Manaus, INPA, 1979. 29 p.
SILVA, A M. Antônio Miguel da Silva: depoimento [abr. de 2002]. Entrevistadores: Cleiton
Benett e Marilena Almeida. Carlinda: Sítio São Brás, 2002.
Notas de rodapé
1- Programa de Ciências Agro Ambientais é uma proposta pedagógica que visa trabalhar
o currículo de forma diferenciada, tendo como ponto de partida a formação profissional
focalizada nos conhecimentos que são realmente significativos para o aluno (CASTRO,
2000)
2- GA é designado Grupo de Aprendizagem, cujo objetivo é trabalhar o currículo de uma
forma que permita ao aluno fazer uma leitura do mundo, aprendendo a questionar
situações, sistematizar problemas e buscar formas criativas de solucioná-las (CASTRO,
2000)
3- O município de Carlinda foi criado através da Lei Estadual n. 6594, de 19 de dezembro
de 1994 (FERREIRA, 1997).
4- Picadas: passarelas na mata demarcando lotes.
5- Sombreamento provisório serve para proteger as plantas em fase de crescimento
contra os efeitos do sol e ventos.
6- corredores ecológicos são como um tipo de passagem por onde os animais transitam e
onde as sementes se espalham gerando novas plantas. Os corredores não têm forma de
túnel e de nenhum outro desenho geométrico.
AGRADECIMENTOS:
Os autores agradecem a contribuição dada pelos proprietários Antônio Miguel e Sra.
Isabel, bem como o auxílio dos professores: Renato Aparecido de Farias, Rosane Duarte
Rosa e Marco Antônio Camargo Ferreira e José Gerley Díaz Castro.
[1] Estudante do curso de graduação em Agronomia do Programa de Ciências AgroAmbientais, Universidade Estadual de Mato Grosso, campus de Alta Floresta. E-mail:
[email protected]
[1] Estudante do curso de graduação em Engenharia Florestal do Programa de Ciências
Agro-Ambientais, Universidade Estadual de Mato Grosso, campus de Alta Floresta. Email: [email protected]
[2] MSc. Geografia e professora do Programa de Ciências AgroAmbientais, Universidade
Estadual de Mato Grosso, campus de Alta Floresta. E-mail: [email protected]
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