BIOLOGIA
IACI BELO
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ASSUNTO: EVOLUÇÃO
Série: 3EM
Evolucionismo - de Lamarck e Darwin aos dias de hoje
por Alexandre Indriunas
Mutação e evolução
“A mutação é a chave para a nossa evolução. Ela nos permitiu evoluir de um
organismo unicelular à espécie dominante do planeta. O processo é lento, normalmente
leva milhares e milhares de anos. Mas em algumas centenas de milênios a evolução dá
um salto.” Assim começa a narração do filme X-Men. Os personagens mutantes das
histórias em quadrinhos, também levados ao cinema, travam uma luta constante entre
eles e os “humanos comuns”, onde a supremacia da “raça” mutante é buscada pelo vilão
Magneto, e a coexistência com os humanos, por Xavier e seus aliados. Mas, ideias como
as de evolução, mutações e da lei do mais forte não permeiam somente a ficção, estão
presentes nas mais variadas áreas do conhecimento humano como na biologia e
sociologia.
Imagem de livro de Charles Darwin
Atualmente empregamos palavras como evolução e adaptação com naturalidade,
mas, nem sempre foi assim. Até o século 19 as ideias vigentes eram outras e graças a
pensadores como Buffon e Wallace e principalmente Lamarck e Darwin, seguidos de
Weissmann e Dobzhansky, podemos hoje melhor compreender como os seres vivos se
originaram e como as mais diferentes espécies que encontramos hoje, e as extintas,
surgiram.
Lamarck e a primeira grande teoria da evolução
O primeiro cientista a desenvolver uma teoria da evolução considerada completa foi
o francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Cavalheiro de Lamarck (1744-1829) no
início do século 19, ao longo de sua obra e com maior repercussão através do seu livro
Filosofia Zoológica (Philosophie Zoologique) de 1809.
Lamarck, assim como seus contemporâneos, acreditava na lei da geração
espontânea, para ele os primeiros seres a habitarem o planeta seriam micro-organismos
originados de algo “não-vivo”.
Mas como a partir de seres tão simples pode-se chegar a organismos multicelulares
e complexos? A resposta seria que há uma tendência intrínseca nos organismos que
leva a níveis organizacionais cada vez mais complexos com o passar do tempo. Assim,
seres simples tenderiam a evoluir a seres complexos resultando no homem.
Muito bem, mas e como isso acontece? Ai está um “pulo do gato” de sua teoria, a lei
do uso e desuso. Resumidamente é “o que não se usa atrofia, o que se usa fortalece”,
ou seja, estruturas e órgãos que são utilizados com mais frequência e intensidade tornamse mais desenvolvidos e adaptados às necessidades que o meio, ou a natureza, impõe, e
aquilo que não tem serventia e não é utilizado atrofia e se reduz. Isso explicaria as
diferenças das estruturas como dentes, mandíbulas, patas, olhos ou estômago entre as
mais diversas espécies de animais.
E como isso pode mudar uma espécie? Lamarck responde a isso afirmando que
estas características desenvolvidas pela necessidade de adaptação ao meio são
transmitidas aos seus descendentes, empregando o conceito da herança dos caracteres
adquiridos. O exemplo clássico é o do pescoço das girafas: para tanto, vamos
imaginar que as “girafas” antigas possuíssem pescoço pequeno, bem menor que os das
atuais, e, para comer as folhas das copas de árvores elas deveriam esticar e
repetidamente continuar esticando cada vez mais seu pescoço, e esse esforço
direcionado levaria ao alongamento gradativo. Assim, o alongamento do pescoço (uso)
seria transmitido para os seus descendentes. Seus filhotes teriam pescoços mais longos
que as gerações anteriores e com o passar do tempo, e muito alongamento de pescoço,
geração após geração, as girafas de pescoço curto se transformariam nas de pescoço
longo, as atuais.
O exemplo clássico da teoria de Lamarck é o das girafas
Assim, através de ajuste ao meio, a herança dos caracteres adquiridos transmitida
às gerações seguintes, tendo o uso e desuso como mecanismo, aliado à tendência
natural de aperfeiçoar-se, levaria à evolução das espécies.
Um ponto importante na teoria de Lamarck, que posteriormente seria chamada de
lamarckismo, é o fato dele não mencionar qualquer utilidade às modificações que os
seres sofreram, ou seja, um bico de um pássaro não se torna mais forte para quebrar
uma castanha, ou os olhos de um predador não se tornam mais acurados para visualizar
sua presa, e, sim de tanto quebrar castanhas e por espreitar as presas essas estruturas
se desenvolvem... Não existe a finalidade, ele fornece uma teoria de como, e não
porque, das modificações, da evolução das espécies. Lamarck explica que os grandes
quadrúpedes herbívoros possuem o “hábito de consumir, todos os dias, grandes volumes
de matéria alimentar que distendem os órgãos que os recebe” e “possuem o hábito de
“não fazerem mais que movimentos lentos” e isso resulta em que “os corpos desses
animais engrossaram consideravelmente, tornaram-se pesados e maciços, e adquiriram
um volume muito grande como se vê em elefantes, rinocerontes, vacas, búfalos e
cavalos.” Por outro lado em regiões onde há predadores, eles são obrigados a correr,
assim, antílopes e gazelas são mais esbeltos devido ao fato de correr. Mas, essas
características são uma adaptação para a corrida, são um efeito da corrida.
É importante salientar que embora Lamarck tenha o merecido crédito pela sua obra
e teoria, mas, outros contemporâneos a ele compartilharam de idéias como a sua. Um
exemplo foi o de seu amigo, o médico inglês, Erasmus Darwin (1731 - 1802), um
pioneiro na concepção da herança dos caracteres adquiridos e em tópicos evolutivos
como a seleção sexual onde o macho mais apto compete para propagar a espécie
aprimorando-a, apresentadas em sua obra mais importante “Zoonomia, or, The Laws of
Organic Life” (1794). Mas, o “Darwin” que entrou definitivamente para a história e
revolucionou o pensamento ocidental foi seu neto, Charles Robert Darwin.
Charles Darwin e a teoria da seleção natural
As teorias do naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809 – 1882)
acrescentaram pontos vitais para a compreensão do evolucionismo, sendo considerado
por muitos uma das figuras mais importantes da ciência. Para analisar os principais
pontos de sua teoria, vamos conhecer os fatos relevantes
de sua vida.
Nascido em um ambiente abastado intelectual e
financeiramente, o jovem Charles Darwin pôde ao
completar seus estudos na escola local, em Sherwsbury, e
iniciar o curso de medicina em Edimburgo, porém ao cabo
de dois anos (1825 a 1827) abandonou os estudos e
encaminhou-se à Faculdade de Estudos Cristãos na
Universidade de Cambridge para cursar Teologia. Durante
sua estadia em Cambridge, Darwin criou uma forte
amizade com o padre e botânico John Stevens Henslow,
de onde surgiu seu verdadeiro interesse pelo naturalismo.
Graças a sua sede de conhecimento e a influência de seu
amigo, Darwin foi convidado a embarcar como
acompanhante do capitão Fitz Roy no navio Beagle em
Enciclopédia Delta universal
uma expedição de aproximadamente cinco anos ao redor
Charles Darwin
do mundo com a missão de completar dados cartográficos
para a Marinha Inglesa. Muito embora não fosse o naturalista oficial do navio, cargo
ocupado pelo cirurgião Robert McCormick, Darwin teve uma grande oportunidade de
coletar materiais e observar a exuberante natureza dos trópicos.
Planta do navio Beagle
Zarpando de Plymouth, Inglaterra, em dezembro de 1831 com o intuito de melhor
mapear o Hemisfério Sul, o veleiro Beagle retornaria somente em outubro de 1836. Sua
primeira escala foi nas ilhas Canárias seguida da estadia no Cabo Verde, durante o
mesmo ano após cruzar o Atlântico suas paradas foram em Salvador, Rio de Janeiro,
Montevidéu, Punta Alta e Terra do Fogo. Continuando seu trajeto, ancorou nas Ilhas
Malvinas, cruzou o Estreito de Magalhães e seguindo pela costa do Chile no ano de 1835
até as Ilhas Galápagos nos meses de setembro e outubro. Após cruzar o Oceano Pacífico
chegando a Austrália em janeiro de 1836, o Beagle continuou sua viagem pelas Ilhas
Keeling, Ilhas Maurício, cruzando o Cabo da Boa Esperança entre os meses de maio e
junho e sua última parada antes de retornar a Inglaterra foi em Pernambuco.
Pouco importa o que Charles Darwin levou em suas malas no início da viagem, mas
a bagagem que trouxe serviu de material para desenvolver uma obra que transformaria o
mundo. Não somente o material colhido em sua volta ao mundo, mas também a
observação e pesquisa sobre a criação de animais e o cultivo de plantas contribuíram
para escrever “A origem das espécies” (mais precisamente “A origem das espécies por
meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”).
Lançado em 1859, sua primeira edição de 1250 exemplares se esgotou no mesmo dia.
Vários historiadores e biógrafos especulam sobre a demora do lançamento em mais
de 20 anos desde sua viagem a bordo do Beagle a vários motivos, mas concordam que
ele sabia que suas ideias causariam alvoroço e repercussão. Em 1844, ele já havia
deixado aos cuidados de sua esposa um manuscrito com sua teoria que ela deveria
publicar, caso ele viesse a falecer.
Charles Darwin durante sua viagem teve a oportunidade de aportar no arquipélago
de Galápagos, e nestas ilhas inóspitas habitavam tartarugas, as quais os marinheiros
levavam consigo como provisão de alimento durante suas viagens. Eles diziam que
poderiam indicar de qual das ilhas do arquipélago eram originadas as tartarugas pela
forma de seus cascos, por exemplo, as originárias da Ilha Isabela têm a carapaça em
forma de domo e as, da Ilha Espanhola, têm a carapaça em forma de sela. Estas formas
estão relacionadas com adaptações ao ambiente, assim as em forma de domo protegem
suas partes moles da vegetação rasteira, pois vivem numa ilha que possui uma vegetação
relativamente mais exuberante, e as em forma de sela permitem que elas ergam muito
mais a cabeça em busca de alimento, pois é onde predominam cactos e arbustos
espinhosos.
As tartarugas das ilhas de Galápagos
fundamentais para as teorias de Darwin
foram
Além dessas conclusões outras surgiram da observação das práticas agropecuárias.
Há muito, desde os primórdios da civilização, os homens selecionam entre as plantas e os
animais aqueles que possuem as características desejadas cultivando-as e cruzando-as,
descartando as que não possuem as características desejadas. Esta prática é hoje
conhecida como melhoramento genético tradicional.
Darwin postulava que toda a diversidade de vida se originava de um ancestral comum
que evoluiu através de múltiplas e sucessivas vias divergentes, tendo formas ancestrais e
formas derivadas, originadas das primeiras. E esse processo é puramente material e
mecânico, excluindo aqui qualquer noção de intenção divina de organização e
complexidade, pois a seleção natural, mecanismo fundamental de sua teoria evolucionista,
privilegia a sobrevivência dos mais aptos em detrimento a dos menos aptos. A idéia de
economia natural, onde os seres viveriam sob o espectro da harmonia divina, já havia sido
abalada por Lamarck, mas retirar dos organismos a finalidade de evoluir era um
pressuposto muito incômodo para a época. Os seres que fossem capazes de, numa
competição por alimento, território ou parceiros, superar seus adversários teriam mais
chances de se reproduzir e transmitir suas características superiores aos seus
descendentes.
Mas, como um ser, animal ou planta, se modifica? Darwin aludia isso a pequenas
variações nos organismos, geradas pelo acaso, e quando estas variações eram úteis para
a sobrevivência, tornando os mais aptos, estes sobreviveriam, mas se essa alteração
fosse deletéria ou não o provesse de vantagens adaptativas ao meio e a competição, eles
não viveriam para transmiti-las aos seus descendentes. Para melhor entender esse
mecanismo vamos comparar as idéia do “pescoço da girafa” exposto para exemplificar a
teoria de Lamarck. Para Darwin não seria o alongamento voluntário do pescoço que faria
com que as girafas evoluíssem para as de pescoço comprido, mas imaginemos um grupo
das mesmas girafas primitivas, de pescoço pequeno, em um ambiente onde não
abundassem plantas pequenas, e que nesse grupo, pelo acaso nascessem algumas com
um pescoço um pouco maior. Numa situação dessas, elas levam vantagem, pois podem
mais facilmente alcançar as copas das árvores, e como isso dispor de mais alimento, as
de pescoço menor não conseguiriam, e poderiam sucumbir de fome, ou mesmo não
competir para se reproduzir. Quem ganharia o páreo? As com pescoço maior! Elas teriam
mais chances de sobrevivência e reprodução, e conseqüentemente transmitir sua
característica vantajosa para os seus filhotes. E do mesmo modo que acontecia na
teoria de Lamarck, geração após geração, os pescoços das girafas iriam aumentando,
mas diferentemente dele, Darwin afirma que não seria por uso e desuso, mas porque
aquelas que têm o pescoço maior têm mais chances. O mecanismo de transmissão das
características continuou sendo a herança dos caracteres adquiridos, tal qual consolidado
por Lamarck.
Influências e querelas
Uma das críticas mais comuns a obra de Charles Darwin é a suposta falta de
originalidade no que diz respeito a emprego de ideias advindas de outros pensadores.
Estes comentários algumas vezes visam desmerecer, ou no mínimo questionar sua
genialidade.
A expressão “a sobrevivência do mais apto”, elegida por Darwin para explicar o
mecanismo da seleção natural, foi cunhada pelo engenheiro e filósofo inglês Herbert
Spencer (1820 – 1903). Considerado um lamarckista, Spencer foi um crítico da obra de
Darwin, pois acreditava que a lei do uso e desuso aliada a seleção natural simplificaria em
muito o entendimento de alguns fenômenos da evolução. A Spencer também cabe o
crédito popularização da palavra “evolução”.
A capivara foi um dos animais estudados por Darwin
A seleção natural das espécies foi concebida pelo sacerdote anglicano Thomas
Robert Malthus (1766 – 1834) em seu Essay on Population (1798). Sua análise
pessimista e fatalista onde a população humana cresce em progressão geométrica e a
produção de alimentos em progressão aritmética levaria a escassez de alimentos, gerou
muita repercussão. O malthusianismo, como ficaram conhecidas suas ideias, encontrava
nas epidemias e guerras o mecanismo natural de controle da população, assim como via
nas assistências caritativas em hospitais e asilos um retardo a ação da natureza.
Sobre esta perspectiva Darwin parece ter se apoderado de idéias de outros
pensadores, mas não é bem assim. A influência de Malthus e Spencer é clara e
declarada, mas a genialidade de sua obra não fica em nada comprometida por empregar
essas idéias, pois mesmo tendo bebido dessas fontes, a maturidade e a longa e
sistemática concepção de sua teoria se deu por mérito próprio.
Porém, a crítica mais ferrenha é aludida à colocação de Wallace a segundo plano
no contexto do evolucionismo. Alfred Russel Wallace (1823 – 1913) foi um eminente
naturalista inglês, que compartilhava com Darwin as ideias evolucionistas, e mais ainda,
teve tamanha influência sobre a redação de a “Origem das espécies” que em reedições,
Darwin publicou na íntegra o trabalho de Wallace. Trabalhando no arquipélago de Mali
Wallace relevou a importância da geografia no processo evolutivo, algo já referido por
Darwin na sua viagem a bordo do Beagle, rendendo-se posteriormente ao mecanismo da
seleção natural como fator primário do evolucionismo. As correspondências e leituras
das obras de ambos evolucionistas serviram para o amadurecimento simultâneo de suas
teorias, mas o fato é que a obra de Darwin teve maior abrangência pela forma clara e
acessível e pela coerência e síntese na qual foi cunhada.
Podemos pensar em um marco pós-Darwin e os caminhos que suas idéias
tomaram. Primeiramente vamos nos direcionar aos evolucionistas, cientistas e
pensadores, que deram continuidade e profundidade ao entendimento dos mecanismos
de transmissão das características hereditárias e, em segundo lugar, a outros influentes
pensadores e seu impacto direto no contexto social.
O final do século 19 e início do século 20 foi marcado pelo decréscimo da influência
lamarckista em prol da darwinista. A teoria do uso e desuso, mesmo que ainda defendida
por alguns com Spencer, foi pouco a pouco substituída por novas concepções. Um dos
mais ferrenhos opositores foi o biólogo alemão August Friedrich Leopold Weismann
(1834 -1914) com sua teoria dos plasmas germinativos e somáticos, na qual, segundo
ele, somente através do plasma germinativo as características hereditárias seriam
transmitidas, enquanto o plasma somático em nada contribuía com a transmissão, desse
modo as mudanças originárias do esforço do ser, pressuposto da teoria de Lamarck,
atuariam sobre o plasma somático e consequentemente não teriam valor hereditário.
Não só o lamarckismo entrou em declínio, no início do século 20. As teorias
evolucionistas e a tradição naturalista foram suplantadas pelo experimentalismo com a
redescoberta dos estudos de Mendel. O monge Gregor Johann Mendel (1822 - 1884)
formulou as leis da hereditariedade e a influência de seu trabalho empírico influenciou os
estudiosos do novo século. Porém, alguns cientistas como o ucraniano Feodosy
Grigorievich Dobzhansky (1900 – 1975), ou Theodosius Dobzhansky como era
empregado, naturalista de formação, agregaram a evolução aos estudos da nova ciência
originada dos trabalhos experimentais de hereditariedade. Atualmente, a teoria
evolucionista, mas especificamente a de Darwin, recebe a denominação de Teoria
Sintética da Evolução, conciliando a genética e o evolucionismo.
Mas além deste panorama científico, as teorias darwinistas tiveram influência direta
sobre pensadores humanistas, por exemplo, o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856
- 1939), reconhece que a obra de Darwin foi uma das inspirações que o levou a estudar
medicina.
Nem só no âmbito dos estudiosos elas permearam. Ideias errôneas como a de que
“o homem veio do macaco” é uma delas, vinculadas ao senso comum. Lembremos
que Darwin afirma que a evolução ao longo do tempo cria a ancestralidade, desse modo
espécies existentes, ou mesmo extintas, têm sua origem em outra espécie que diverge
evolutivamente. Então em algum momento uma espécie comum entre os primatas deu
origem a ramificações nas quais atualmente encontramos os gorilas, chipanzés e o
homem. Se mesmo hoje em dia, com o mapeamento genético, sabendo da nossa
semelhança evolutiva comum, a ideia de sermos parentes próximos desses primatas
possa causar incômodo, imagine no século 19. O homem foi colocado na natureza como
mais uma espécie, peculiar é bem verdade, mas não deixando de ser encarado com um
animal. Biologicamente isto é um fato incontestável, mas socialmente é avassalador.
Mas, mais perniciosa que esta ideia foi o fato das teorias de Malthus, inspiradoras
para a aplicação a natureza no entendimento de Darwin, terem ganho uma nova
roupagem e virem a ser denominadas por darwinismo social. Darwinismo evolutivo e
darwinismo social se confundiram ao longo da história, mas a teoria contida em
“Origem das espécies” não tinha o caráter social e político, mas biológico. Porém,
argumentações científicas foram empregadas para ideais racistas e imperialistas. O
melhor exemplo se encontra no trabalho de Francis Galton (1822 – 1911), primo de
Charles Darwin, que se dedicou a promover a eugenia. De uma formação eclética,
sendo reconhecido como matemático, Galton viu na teoria evolucionista a oportunidade
de, através de mecanismos como cruzamentos genéticos, melhorar a raça humana. Ele
foi o idealizador da biometria, coletando medidas físicas e psíquicas de pessoas, a fim de
selecionar exemplares que pudessem aprimorar a raça. Diante de uma Inglaterra
fragmentada pela revolução industrial, onde de um lado havia a “harmoniosa” burguesia
e de outro a massa disforme dos operários, Galton aterrorizava-se com a perda da
supremacia da raça. Assim dedicou toda sua vida a promover suas ideias
“evolucionistas”.
Atualmente as teorias evolucionistas são amplamente aceitas e graças aos avanços
dos estudos paleontológicos, ecológicos e principalmente genéticos podemos entender
os mecanismos que Darwin em sua época não podia. A teoria da evolução de Darwin
atualmente é explicada pela Teoria Sintética da Evolução, onde as variações
hereditárias (mutações e recombinações genéticas) aliadas ao processo de seleção
natural nos dão subsídios para compreender os fenômenos evolutivos e a origem das
espécies.
Mas como toda linha de pensamento e estudo, o darwinismo, seja ele o original,
proposto por seu idealizador, ou a teoria sintética da evolução, referida como uma teoria
neodarwinista, encontra opositores dentro e fora do meio científico. Os criacionistas não
admitem que as proposições bíblicas estejam erradas ou mesmo que o “acaso” reja as
mudanças. As linhas mais conservadoras, minoritárias é verdade, tem uma leitura literal
da bíblia, refutando qualquer prova científica da origem das espécies e principalmente do
homem que teria sido criado “a imagem e semelhança de Deus”. Embora essa
abordagem não mereça a discussão no âmbito científico, ela é bastante influente no
campo ideológico. Há os criacionistas menos radicais que se curvam diante dos fatos
comprovados como a datação da Terra, a presença de elos evolutivos nas espécies,
porém a presença divina se manifesta na ideia que o “acaso” não rege a evolução e sim
um “design inteligente”, onde as diversas formas teriam um propósito.
E nem tudo é um mar de rosas mesmo dentro do grupo dos evolucionistas não
criacionistas. Outra discussão, bastante ideológica, refere-se à questão da unanimidade
da teoria neodarwinista. Muitos cientistas e filósofos apontam que estas teorias sufocam
qualquer outra forma de possível entendimento e compreensão dos fenômenos da
evolução. Para eles as lacunas e questões que possam existir são simplesmente
ignoradas e qualquer pensador que se oponha a ela é ignorado ou alvo de chacota,
sendo assim não uma teoria e sim um dogma.
Não obstante a estas questões, o fato é o legado de Charles Darwin e
posteriormente os avanços da genética recolocaram o homem no Universo.
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