Paixão e Obsessão “Existem coisas Sr. Miguel que não designam as pessoas, como sua classe social, por exemplo. Mas sim, suas falas e ações. Acredito que todos possuam suas qualidades, independe de quais sejam, por isso afirmo, que tudo está sem eu lugar em minha opinião.” Capítulo – I A Dinastia Jonshuan iniciara-se na Inglaterra há cerca de cinco gerações, quando o Rei Guilherme II assumiu o trono em 1613. Era uma época conturbada de muitas mudanças e guerras, mas a paz aos poucos conseguia ser restabelecida. Era uma época onde reis, rainhas e príncipes eram vistos com soberanias, e pompas, onde eram poucos os que conseguiam conquistar a confiança do povo e trazer um bom reino. Tal fato começara a se tornar-se diferente com o Rei Arthur VI, tataraneto de seu antecessor Guilherme Jonshuan e esperava-se seguir com o futuro sucessor do trono, o príncipe Eduardo Jonshuan. Eduardo era um jovem príncipe no auge de sua juventude e esplendor. Vivia cercado de parlamentares e nobres tentando incuti-lo a forma mais correta e melhor de se governar um país, mas para ele: não existia a melhor maneira e sim aquela que mais se adequaria no momento para ajudar o seu povo. Vivia a liberdade e dava asas a isso, embora muitas vezes fosse reprimido por seu pai, este era obrigado a admitir que não havia motivos para dizer que seu filho não sabia desempenhar suas funções, ao menos por enquanto. Um novo verão aproximava-se de Leicestershire, aonde o Castelo de Belvoir, residência oficial da família real, se situava. O Vale de Belvoir não poderia ser mais majestoso do que seu próprio nome sugeria. Suas vastas campinas verdes, árvores e belas flores, davam um contraste magnífico ao lugar. O céu no verão ao amanhecer, despontava diversas cores, deis de um vermelho até um forte azul que cobria como um tapete o seu céu. O castelo de Belvoir com seu ar antigo e bem preservado, com suas altas torres e bandeiras tremulando, contribuía para a majestosidade do lugar. Era uma manhã quente do ano de 1729, onde ventava muito na região, particularmente este dia. Dois jovens eram visto ao longe cavalgando apressados pelo belo campo próximo do castelo, enquanto um belo sol nascia demonstrando o calor que trazia. -Vamos Eduardo... você costumava correr mais rápido! - Ora Otávio... o que posso fazer se meu cavalo não se alimentara ainda... Dois jovens galopavam elegantemente pelo Vale, sem notar que eram observados de longe. Eduardo, o príncipe, como sempre o chamavam, era um jovem belo e elegante, o mais cortejado da corte inglesa. Alto e forte, cabelos castanhos e olhos puramente verdes. Possuía um olhar terno e corajoso, dono de uma beleza sem igual. O rapaz ao seu lado que lhe fazia companhia, era Otávio Blonk, o ajudante real do castelo. Mais alto que o príncipe, exuberantes olhos azuis e cabelos pretos que caiam sobre seu rosto charmosamente. Dotado de um físico talentoso, era muito bondoso e nobre, era sem dúvida a pessoa que o príncipe mais confiava. Criados desde pequenos, ambos cresceram juntos, e embora o jovem Otávio fosse três anos mais jovem que o príncipe, sabia muito bem de suas responsabilidades. Eram observados com curiosidade por uma jovem no interior do castelo, que acabara de se levantar e abrira a janela a fim de contemplar o belo dia que fazia, era a princesa Daria, irmã de Eduardo Jonshuan. Daria era uma moça formosa e bela, a caçula da família real. Possuía longos cabelos castanhos e olhos igualmente, era uma das moças mais bela da corte e igualmente cortejada por ser a filha do rei. Sempre fora muito apegada a seu irmão e muitas vezes acabava-se envolvida nas questões reais, mesmo que isso lhe fosse proibido. Adorava ler e se via muitas vezes distraída por eles. Procurava aconselhar seu irmão sempre da melhor maneira, e divertia-se muito mais fazendo isso do que nas costumeiras reuniões das nobres da corte. Seu sorriso era uma constante para todos que viviam ali, mas nos últimos dias apresentava-se aborrecida, algumas notícias começavam a chegar à corte, e não lhe eram de seu agrado e muito menos de seu irmão... notícias essas que mudariam a vida de todos completamente... notícias trazidas pelo mar. Durante o café da manhã, o primeiro momento em que a Família Real reunia-se juntamente com outros nobres, o rei fez sentir a falta de um de seus familiares e deixou isso claro ao dizer: - Onde está o meu filho? O rei Arthur VI já era um homem de meia idade, cabelos grisalhos e fundos olhos verdes, possuía um ar autoritário para aqueles que não o conheciam o suficiente, mas sabia abraçar aqueles que lhe eram queridos. O rei Arthur era conhecido por seu reino rígido, com diversas normas e regras e não aceitava erros, para ele, eram algo que apenas “atrasava a questão”. Era exigente consigo mesmo e com os outros, mas não podia negar o amor incondicional que sentia por seus dois filhos e sua esposa, a rainha Catherina. Infelizmente há alguns dias era obrigado a ver-se aborrecido com o príncipe. - Acho que ele deve estar cavalgando meu rei, como faz todos os dias... – a rainha dissera do outro extremo da mesa. Catherina não era tão mais velha que o próprio rei, seus cabelos louros sempre eram muito bem presos em um gracioso coque, era conhecida como a soberana, a que trazia tranqüilidade aos discursos do rei, e mesmo que este não permitisse que as mulheres de sua família participassem dos assuntos do reino, era com ela que buscava os conselhos mais profundos... e por mais que a rainha tentasse em não ver seus filhos preocupados ou aborrecidos, não era sempre que seus bons conselhos eram conseguidos ser ouvidos pelo rei. - É um absurdo... é eu dar as costas e esse menino some novamente... – o rei resmungara aborrecido. - Ora Arthur fala como se ele ainda fosse uma criança... – a rainha não gostara do tom do marido. - Para mim ele sempre o será... mesmo que fisicamente não aparente! - Por favor, Arthur, deixe o rapaz... o que há de tão importante para ser dito agora que não possa esperar? – um homem gordinho sentado ao lado da princesa Daria comentara aborrecido. - O problema Augustus é que ele sabe de suas responsabilidades e não as faz... – o rei dissera apoiando uma de suas mãos na mesa, bufando. - Ele deve estar nos estábulos... eu vou chamá-lo, já terminei. – Daria colocara seu guardanapo de pano em cima da mesa e elegantemente sobre os olhares dos nobres, saíra da sala do café da manhã. Assim como a princesa afirmara, ela sabia aonde eles se encontravam, havia visto-o mais cedo cavalgando nas terras próximas ao castelo, com certeza deveria estar nos estábulos, pensou. Chegara rapidamente aos jardins passando pelos largos corredores do castelo completamente limpos e iluminados pelos raios de sol que adentravam pelas altas janelas. A grama estava úmida devido à fina chuva que caíra na noite anterior e seguira rápido até o seu destino, sem prender-se a paisagem que tanto a fascinava. Ao aproximar-se da estalagem pode ouvir vozes altas em uma conversa animada... sabia ser a de seu irmão. - Papai o procura Eduardo. – Daria dissera animadamente aparecendo por de trás dos rapazes. - Oh Daria... bom dia! Como sabia onde nos encontrar? – o príncipe virara-se animado e a reverenciara cordialmente. - Notei-os pela minha janela hoje de manhã. Como vai Sr. Blonk? – A princesa sorrira ao dizer. Eduardo o príncipe, sempre fora muito charmoso, mas a princesa tivera a impressão que suas botas e sua casaca marrom estavam tão sujas, que não iria agradar a nenhuma dama da corte. O ajudante real a reverenciara novamente e ao contrário do príncipe, suas vestes estavam limpas, sua beleza só não era equiparada à do próprio príncipe pela sua condição social. - Bom dia Alteza! Seu irmão Eduardo acaba de cair do cavalo... se não, teríamos voltado mais cedo. – comentara em tom de riso ao que o príncipe dissera. - Ora Otavio... detalhes como esses nós não devemos compartilhar. – Eduardo dissera rindo. - Mas você está bem? – a princesa perguntara preocupada, o príncipe assentira que tudo estava em ordem. - Tentei fazer o cavalo saltar um dos obstáculos, mas era alto demais... o que o rei quer? - Não fale assim, Alteza... – Otavio retrucara segurando em uma das rédeas de seu cavalo negro, trazendo – o para dentro do estábulo. - Oh, por favor, Blonk... meu pai não mandaria Daria aqui se não fosse algo sobre o reino. – Eduardo dissera displicente montando em seu cavalo baio. - Primeiro – Daria dissera cruzando seus braços – eu vim por minha vontade, segundo: não é sobre o reino, tenho certeza e sim sobre você. O príncipe permanecera em silêncio diante o comentário enquanto observava Otávio guardar os cavalos no estábulo, assim que o rapaz terminara, voltaram caminhando rápido para o castelo. - O rei já acordara nervoso, Alteza? – Otávio perguntara sério para a princesa, observando-a pelo canto dos olhos enquanto caminhavam. - Não, não notei. Mas ele não gostara de ver Eduardo fora da mesa do café da manhã tão cedo. – a princesa respondera voltando sua cabeça para ver a reação de seu irmão. - Ora, ele quer que eu dê um mapa de todos os lugares que me encontro? – Eduardo dissera demonstrando uma ligeira irritação em sua voz. - Alteza, em sua situação, com certeza o rei não demonstraria um comportamento diferente... – o ajudante real comentara fechando um dos botões de sua casaca azul marinho. – não agora que ele deseja que se case. - E isto me irrita completamente meu amigo. Não aceito ele vir me propor, propor não... impor que eu me case... e o pior... com quem ele quer. – Eduardo apertara seus passos e passara a frente de seus companheiros, deixando-os para trás. - Alteza, acha que é sobre isso que seu pai quer tratar com o príncipe? – Otávio perguntara baixo para a princesa e a notou abaixar a cabeça. - Com certeza o é, Otávio. Ontem minha mãe estava me dizendo que com certeza ele irá casar-se esse verão ainda. – Daria dissera e em sua voz seu tom era de amargura, o ajudante o notou. - Eduardo não gostará em nada de saber disso... aceita minha opinião, Alteza? ela assentira que sim e o rapaz continuara – Não acho isso justo com Eduardo, ele será um excelente rei independente de estar casado ou não. - A questão meu amigo é que meu pai jamais aceitará uma nora que não tenha uma linhagem nobre... e ele teme que Eduardo não saiba fazer suas escolhas... – Daria dissera subindo os degraus de pedra do castelo, enquanto seu irmão empurrara a alta porta de entrada, abrindo-a. - Eduardo possui consciência disso... - Sim ele o tem, mas em uma conversa que para mim fora mais uma discussão, ele dissera ao rei que qualquer uma poderia tornar-se rainha, desde que ele tivesse vontade de desposá-la... – a princesa comentara relembrando de má vontade algumas das discussões que seu irmão tivera com seu pai. O ajudante nada dissera e seguiram em silêncio até a sala do café da manhã, aonde Eduardo abrira a porta com estrondo. - Bom dia senhores. Chamara-me meu pai? – perguntara chamando a atenção dos poucos nobres que ainda estavam ali. O rei levantara sua cabeça surpreso enquanto seu filho sentava-se no extremo oposto da mesa, Otavio cordialmente afastara-se da princesa quando esta entrara na sala, fazendo a rainha vir em sua direção seguida por um dos nobres. - Daria, minha filha. Venha comigo... – dissera pegando no braço da filha e saíram da sala. - Aconteceu alguma coisa? - a princesa perguntara olhando assustada para ambos. - Não meu bem... apenas que seu pai deseja falar à sós com seu irmão. – o mesmo senhor gordinho que dirigira a palavra mais cedo para o rei, falara amavelmente com a princesa. - E os senhores desejam falar alguma coisa para mim? – a princesa perguntara desconfiada enquanto era levada até uma das salas ao lado, vazia no momento. O senhor trancara a porta e a rainha e a princesa se sentaram em um largo sofá rosa, observando-o se aproximar. - Minha princesa, como seu tio, eu conversei com sua mãe e senti vontade de lhe deixar a par da situação, também. – o senhor gordinho sentara-se em uma poltrona em frente a elas, deixando a mostra sua casaca preta fechada apertadamente. - Diga tio Moubs, está me deixando preocupada... algo aconteceu? Augustus Moubs era o irmão mais novo do rei Arthur, apenas um ano de idade a menos o afastou da coroa, mas o senhor conformara-se com isso passivamente, afirmando que com certeza ele não seria um rei tão bom quanto seu irmão. De rosto simpático e redondo, bochechas vermelhas, roupas ligeiramente apertadas, o Sr. Moubs era muito querido por todos, casado com uma duquesa, a Sra. Adrien Moubs, possuía um filho, Andrei que apenas era visto no castelo durante o verão, pois estudava em um colégio interno em Londres. Os príncipes possuíam um carinho total pelo tio, e não hesitavam em pedir-lhe algum conselho, pois sabiam que além de sempre bemhumorado, ele era acima de tudo, o conselheiro do rei. - Você já sabe minha querida que seu irmão irá casar-se. – o Sr. Moubs comentara baixo, e a princesa franzira sua testa e antes que pudesse dizer algo, seu tio continuou – E que já está tudo arranjado? - Eu suspeitava disso... mas Eduardo está sabendo de algo? – perguntara olhando para sua mãe que nada dissera. - Não exatamente... ele saberá hoje. - Não entendo meu tio porque está contando nestes termos, o que poderei fazer? Nada... meu irmão não aceitará tal decisão e meu pai sabe disso. - Por isso que gostaríamos que você usasse de sua boa relação com seu irmão e o convencesse a fazer o que é certo. – a rainha dissera voltando sua atenção para a filha. Daria calou-se mediante ao que ouvira. Não aceitava que pudessem impor algo e dizer que aquilo era “o que é certo” para alguém, demonstrara esse pensamento quando disse: - Mas minha mãe, eu nem sei com quem ele irá casar-se, como posso mostrar para ele que isso é certo, sendo que sei que ele é totalmente contra a isso... e eu também. O Sr. Moubs olhara com surpresa para a sobrinha e a rainha nada dissera mais uma vez, já sabia da opinião da princesa. - Arranjamos os laços com a Dinamarca, ele irá casar-se com a única princesa com direito ao trono, será ótimo, iremos unir os reinos. – O Sr. Moubs dissera animado, mas logo parara ao ver a reação da princesa. - Não concordo meu tio. A Inglaterra é forte o suficiente, não precisa de maiores laços... - Daria... isso cabe ao seu pai. – a rainha falara em tom sério fazendo a princesa olha-la incrédula. - Minha mãe, como pode permitir que seu filho case com alguém que ele nem ao menos sabe o nome? Isso não é justo... criamos os filhos com tanto amor para depois entregá-los ao primeiro que parecer oportuno? - Daria, seu irmão será o rei da Inglaterra! Acha mesmo que o entregaremos ao primeiro que parecer oportuno? É claro que não... seu pai sabe o que faz. – a rainha dissera desapontada com a reação da filha. - E eu sei o que faço quando digo que me perdoem, mas não posso aceitar isso. Não sem antes conhecê-la, e ao menos saber seu nome e que as intenções dela e de seu reino, são realmente as melhores. - Ela se chama Ella Bonfour e tem a sua idade, querida Daria. O Sr. Moubs comentara enquanto a princesa retirava-se da sala, mas esta apenas o ouviu, nada dissera. Capítulo - II Não demorou em que o castelo todo ficasse sabendo da briga que houvera entre o rei e seu filho. Eduardo não aceitara a condição que lhe era imposta e mais que isso,