Uma Proposição Epistêmica Quadripolar do Constructo Empreendedorismo Autoria: Joysi Moraes, Sandra Regina Holanda Mariano, Alessandra Bellas Romariz de Macedo, Rafael Cuba Mancebo Resumo Neste artigo é apresentado à luz da proposição de Bruyne at al. (1977), sobre os “quatro polos da prática metodológica: epistemológico, morfológico, teórico e técnico”, como vem se constituindo o empreendedorismo nos estudos da Administração. Realizou-se uma análise bibliométrica a partir dos artigos publicados nos eventos vinculados à ANPAD. A seguir, realizou-se a análise de conteúdo nos artigos selecionados, buscando identificar como tem se configurado o tema considerando cada um dos polos. Verificou-se um excesso de pesquisas que privilegiam o polo técnico em detrimento dos demais, o que, provavelmente, esteja contribuindo para com o esvaziamento da própria área na ANPAD. 1 Introdução O crescente interesse por temas relacionados ao empreendedorismo, nas suas mais diversas perspectivas, começou a tomar formar no âmbito dos estudos da Administração no final da década de 1990, mais especificamente, em 1999, com a publicação de dois artigos: “Tendências do comportamento gerencial da mulher empreendedora”, resultado da tese de doutorado de uma estudante de Engenharia de Produção e “Validando um instrumento de medidas de comprometimento: uma proposta empreendedora voltada para as dimensões acadêmica e empresarial”. Este último, na realidade, como assinalam os próprios autores, trata de “apresentar um questionário de avaliação global das práticas de recursos humanos nas empresas e do nível de comprometimento organizacional de seus membros, com a intenção de contribuir para o desenvolvimento das pesquisas sobre esses temas” (BANDEIRA, MARQUES e VEIGA, 1999, p. 12). Destaca-se que aqui foram considerados apenas os artigos disponíveis na base da Associação Nacional Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD), portanto, a partir de 1997. Desde então, tem-se observado um debate acerca da viabilidade dos temas ditos do empreendedorismo tanto teórico-metodológica quanto epistemológica e morfológica no campo da Administração. Uma incursão desavisada na primeira arena de debates dos estudos em Administração no Brasil, os Anais dos EnANPADs, pode causar certo sobressalto ao pesquisador, pois o que se apresenta é uma Quimera. Uma figura da mitologia grega de três cabeças (uma cabra, um leão e um dragão) com corpo de leão e calda de serpente. Isto na sua versão mais plástica (FRANCHINI E SEGANFREDO, 2003). Pelo menos atualmente, a imagem ilustra bem o constructo de empreendedorismo e suas perspectivas. Neste sentido, o objetivo da pesquisa exposta neste artigo é apresentar à luz da proposição de Bruyne at al. (1977), sobre os “quatro polos da prática metodológica”, ou seja, da sua proposição epistêmica quadripolar, como vem se constituindo o empreendedorismo nos estudos da Administração. Designadamente, como este construto tem se constituído de forma epistemológica, morfológica, teórica e técnica. Para tanto, foi realizada, a priori, uma análise bibliométrica a partir de um levantamento dos artigos publicados nos eventos vinculados à Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração. Este método envolve um conjunto de procedimentos, leis e princípios que, aplicados a métodos matemáticos e estatísticos, permite ao pesquisador mapear determinada produção científica, utilizando-se de documentos com propriedades similares (ARAÚJO, 2006; MACIAS-CHAPULA, 1998) que neste caso, é definido pela temática do empreendedorismo. A seguir, realizou-se a análise de conteúdo do material coletado. Segundo Bardin (2006, p. 38), a análise de conteúdo consiste em “um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens”. Sua principal finalidade é o enriquecimento da leitura dos textos selecionados. Os artigos podem ser manuseados na busca por respostas às questões de pesquisa, tornando possível identificar o que os pesquisadores de determinada afirmam e discutem sobre o tema em estudo (VERGARA, 2005). Por fim, a análise de conteúdo permite identificar como tem se configurado o tema em pauta considerando cada um dos polos: epistemológico, morfológico, teórico e técnico. A apresentação da pesquisa neste artigo dá-se do seguinte modo: inicialmente, expõese a metodologia utilizada para realizar o levantamento e a análise dos artigos catalogados. A seguir, são apresentados os polos da prática metodológica que compõem a proposição epistêmica quadripolar de Bruyne et al. (1977), a saber, os polos epistemológico, teórico, morfológico e técnico. Em seguida, são apresentados, então, os resultados obtidos com suas respectivas análises e, por fim, são elaboradas algumas considerações finais, indicando as referências utilizadas ao longo do texto. 2 Metodologia da pesquisa Com o objetivo de identificar como está configurada a pesquisa acadêmica que aborda temas vinculados ao empreendedorismo no Brasil, especialmente no campo de estudos da Administração, a metodologia utilizada foi a análise bibliométrica. Este método envolve um conjunto de procedimentos, leis e princípios que, aplicados a métodos matemáticos e estatísticos, permite ao pesquisador mapear determinada produção científica, utilizando-se de documentos com propriedades similares (ARAÚJO, 2006; MACIAS-CHAPULA, 1998) que neste caso, foi definido pelo tema do empreendedorismo. Como este tipo de abordagem não é uma novidade no campo de estudos da Administração; ao contrário, vem sendo cada vez mais explorada e utilizada pelos pesquisadores, optou-se por não descrevê-la pormenorizadamente. Interessa saber, no entanto, que para a análise bibliométrica, foi realizado um levantamento dos artigos publicados apenas nos eventos vinculados à Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (ANPAD) devido à própria quantidade de artigos encontrados neste repositório. A pesquisa considerou o intervalo de tempo de 1997, ano a partir do qual estão disponibilizados digitalmente todos os artigos dos EnANPADs, até 2011. Trata-se de um estudo de natureza quantitativa e qualitativa, pois se caracteriza pela abordagem exploratória, seguida da análise de conteúdo dos artigos encontrados. Segundo Bardin (2006, p. 38), a análise de conteúdo consiste em “um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens”. Sua principal finalidade é o enriquecimento da leitura dos textos selecionados. Os artigos podem ser manuseados na busca por respostas às questões de pesquisa, tornando possível identificar o que os pesquisadores de determinada área estão afirmando a respeito do tema em estudo (VERGARA, 2005). Certamente, houve a necessidade de interpretar o que vem sendo comunicado pelos pesquisadores da área, ao longo do tempo. A metodologia utilizada para a interpretação dos textos foi a desenvolvida por Bardin (2006) que estrutura-se em três fases: pré-análise; exploração do material; e tratamento dos resultados, dos quais também fazem parte a inferência e a interpretação. Na pré-análise, o material é organizado com o objetivo de tornálo operacional, sistematizando as ideias iniciais. Nesta etapa, realiza-se uma leitura superficial dos textos coletados para conhecê-los. Após esta leitura de contato deve-se selecionar, dentre os textos lidos, aqueles que se inserem na temática a ser analisada. A seguir, já com a definição dos artigos, o pesquisador deve definir as categorias de análise e elaborar indicadores que possam ser identificados nos documentos analisados (BARDIN, 2006). A segunda fase, a de exploração do material, consiste na leitura dedicada e atenta dos textos que serão analisados a luz de categorias previamente definidas. Estas categorias de análise são de dois tipos: quantitativas e qualitativas. Os indicadores quantitativos mostram a quantidade de textos publicados em cada ano e por evento da ANPAD, o tipo de pesquisa e o tema central abordado. Com a leitura dos artigos também é possível identificar a origem dos pesquisadores, ou seja, as Instituições de Ensino Superior (IES) às quais estão vinculados e as organizações onde foram realizados os estudos empíricos. A leitura aprofundada, também leva ao conhecimento dos objetos e sujeitos de pesquisa, das metodologias utilizadas, das construções teóricas, entre outros, onde ainda é possível perceber as preocupações e inquietações dos pesquisadores da área. Na terceira fase, são destacadas as informações fundamentais para análise, culminando nas interpretações inferenciais; é o momento da análise reflexiva e crítica, ponto de culminância da análise de conteúdo, onde também são destacados segmentos dos textos analisados que podem ser representativos dos conteúdos contemplados (BARDIN, 2006). Neste artigo, à medida que a análise é apresentada, cada uma das fases é explicada, a começar pelos critérios para seleção dos artigos que levam às análises subsequentes. 3 Os polos da prática metodológica: uma proposição epistêmica quadripolar Antes de entrarmos na proposição epistêmica quadripolar propriamente dita, faz necessário situá-la no ambiente societal da pesquisa. Isto é, um ambiente formado por campos que influenciam a pesquisa de maneira a facilitar ou limitar as escolhas metodológicas do pesquisador. São quatro campos de natureza e importância diversas e sua influência é específica a cada contexto particular de pesquisa: o campo da demanda social, o campo axiológico, o campo doxológico e o campo epistêmico. Este último é o que nos exploramos neste artigo para buscar compreender o estado da arte no campo do empreendedorismo. Sobre o campo da demanda social, pode-se afirmar que toda produção científica traz a marca da demanda social a qual responde, pois sendo o pesquisador membro de uma sociedade particular, sua atividade é permitida e/ou legitimada, de certo modo, pelo sistema sociocultural dessa sociedade. Assim, a encomenda social de uma pesquisa ou o seu financiamento, por exemplo, podem introduzir intenções normativas ou exclusivamente pragmáticas que desnaturam os processos de objetivação da pesquisa (BRUYNE et al., 1977). O campo axiológico, de acordo com Bruyne et al. (1977), é o campo dos valores sociais e individuais que condicionam a pesquisa científica. São aí considerados os interesses do próprio pesquisador, pois estes podem influenciar e orientar a pesquisa, os juízos de valor pessoais do pesquisador e os valores culturais inerentes à sociedade a qual pertence o pesquisador, pois este também impõem certas escolhas de problemáticas, de temas. Quanto ao campo doxológico, Bruyne, et al.(1977, p. 33) assinalam que “é o campo do saber não sistematizado, da linguagem e das evidências da prática cotidiana, de onde a prática científica deve precisamente esforçar-se para arrancar suas problemáticas específicas. O campo doxológico é o suporte e o produto da linguagem comum, das práticas empíricas”, mas também pode determinar no pesquisador uma certeza, no mínimo, nebulosa, sobre a realidade investigada. Neste sentido, o pesquisador deve buscar imergir nos fenômenos sociais e, ao O campo epistêmico, então, “é o campo de conhecimento científico que chegou a certo grau de objetividade reconhecido: estado das teorias, estado da reflexão epistemológica, estado da metodologia e estado das técnicas de investigação” (BRUYNE et al., 1977, p. 34). Este campo “do ponto de vista metodológico, é concebido como a articulação de diferentes instâncias, de diferentes polos que determinam um espaço no qual a pesquisa se apresenta como apanhada num campo de forças, submetida a determinados fluxos, a determinadas exigências internas” (BRUYNE et al., 1977, p. 34). Estas instâncias ou estes polos não configuram momentos separados de uma pesquisa, mas aspectos particulares de uma mesma realidade de produção de discursos e de práticas científicas. São estes polos que compõem o espaço metodológico quadripolar proposto por Bruyne et al. (1977). Isto é, os autores distinguem quatro polos metodológicos no campo da prática científica: epistemológico, teórico, morfológico e técnico. São estes quatro polos que definem um campo metodológico, que asseguram a cientificidade das práticas de pesquisa e, principalmente, proporcionam o desenvolvimento de determinado campo epistêmico. A representação gráfica do espaço metodológico quadripolar que contribui para a construção e fortalecimento de determinado campo epistêmico é apresentado na Figura 1. O polo epistemológico A priori, é necessário distinguir duas funções da própria epistemologia: como metaciência, que faz o trabalho de reflexão sobre os princípios, os fundamentos e a validade das ciências e; com um caráter metacientífico, cujo trabalho epistemológico revela também um caráter intracientífico e como tal, representa um polo intrínseco à pesquisa científica. 4 Métodos - Dialética - Fenomenologia - Quantificação - Lógica hipotéticodedutiva Quadros de análise - Tipologias - Tipo ideal - Sistemas - Modelos estruturais PÓLO EPISTEMOLÓGICO PÓLO MORFOLÓGICO PÓLO TEÓRICO PÓLO TÉCNICO Quadros de referência - Positivismo - Compreensão - Funcionalismo - Estruturalismo Modos de investigação - Estudos de caso - Estudos comparativos - Experimentações - Simulação Figura 1: Esquema do modelo metateórico dos quatro polos. Fonte: BRUYNE, et al. (1977, p. 36). A epistemologia também assim percebida, enquanto polo essencial da pesquisa, situase tanto numa lógica da descoberta como lógica da prova, pois o modo de produção dos conhecimentos interessa-lhe tanto quanto seus procedimentos de validação. “Daí, a natureza do polo epistemológico na abordagem metodológica, polo considerado motor interno, obrigatório, na investigação do pesquisador que, conscientemente ou não, coloca-se questões epistemológicas porque elas podem ajudá-lo a resolver problemas práticos e a elaborar soluções teóricas válidas” (BRUYNE et al., 1977, p. 44). Neste caso, os autores assinalam a necessidade dos pesquisadores estarem atentos aos princípios da epistemologia interna, ou seja, ‘o objeto e a problemática científica’, ‘o objeto real, o objeto percebido e o objeto construído, portanto, a ruptura epistemológica’ e a ‘gênese da teorização’. Compreendendo-se que o “objeto da ciência é um sistema de relações construídas expressas e se opõe ao objeto pré-construído pela percepção”. O objeto percebido é aquele que aparece espontaneamente como ‘real’, entretanto, há que se reconhecer que o objeto percebido não é toda a realidade. O objeto construído, por sua vez, é uma tradução específica, conceitual do real, é um objeto construído por métodos explícitos; é o objeto científico construído ao longo de um processo de objetivação, conceitualização, formalização e estruturação. A ruptura epistemológica é o que consagra o distanciamento sempre recomeçado do objeto científico diante dos objetos do senso comum, pré-noções, mitos, ideologias (BRUYNE et al., 1977, p. 49-52). A gênese da teorização, por sua vez, ou, ainda, as fontes das formulações teóricas, devem ser procuradas ao nível epistemológico e, por isso mesmo, a preocupação com o quadro metodológico que compõe o campo epistêmico. “Diferentes origens são propostas para a conceitualização; entre estas, serão encontradas nas entrelinhas os grandes processos discursivos: fenomenologia, dialética, lógica hipotético-dedutiva e quantificação” (BRUYNE et al., 1977, p. 53). Optou-se por não descrever cada um destes processos devido às próprias limitações de espaço e considerando-se que uma explicação indevida poderia causar cortes inapropriados e que causariam equívocos. Interessa saber que o polo epistemológico exerce uma função de vigilância critica e, ao longo de toda a pesquisa, ele é a garantia da objetivação, da produção do objeto da pesquisa, ainda define as regras da produção do conhecimento científico, tais como as regras de 5 explicação, compreensão, de validação etc. e encarrega-se de renovar continuamente a ruptura dos objetos científicos com os do senso comum. Por isso mesmo que o polo epistemológico tem em sua órbita uma gama de processos discursivos, de métodos muito gerais que impregnam com sua lógica o pesquisador. Lembrando-se que estes processos não se excluem mutuamente. De fato, alguns podem até ser quase onipresentes, enquanto outros podem aparecer apenas em pesquisas particulares. (BRUYNE et al., 1977, p. 35). O polo teórico Bruyne et al. (1977, p. 101) lembram que nas ciências sociais, a teoria não é um luxo para o pesquisador, é muito mais que uma necessidade, pois sem teoria não há ciência. “A teoria, modo de construção de conhecimento científico, é imanente a toda observação pertinente, é sua condição de possibilidade, condição necessária, da ruptura com as explicações pré-científicas do social. Assim, o progresso da pesquisa e o da elaboração teórica não são apenas paralelos, são também indissociáveis.” A teoria é um artefato dos pesquisadores, pertence à ordem simbólica, é formulada em linguagem simbólica, construída especificamente para isso. A teoria define a própria linguagem do campo. Recusar a construção teórica é condenar-se a manejar ‘provas’ parcelares sem relações entre elas. Por isso mesmo, a teoria deve ser um sistema integrado de proposições com relações lógicas entre elas, no sentido de uma mudança substancial no enunciado de uma proposição importante do sistema tem consequências lógicas para o enunciado das outras (BRUYNE et al., 1977). A construção de conceitos e teorias, segundo os autores, é balizada por quadros de referência que, no conjunto da metodologia, propõem-se a reagrupar sob quatro ‘matrizes disciplinares’ basais, os principais paradigmas dessas correntes que agrupam as convicções metodológicas maiores. São estes os principais quadros de referência: positivismo, compreensão, funcionalismo e estruturalismo. A característica própria do quadro de referência positivista nas ciências sociais é a pesquisa, através da observação de dados da experiência, das leis gerais que regem os fenômenos sociais. A constância ou regularidade dos fenômenos constatados leva à generalização a partir deles, isto é, a formular leis positivas. O quadro da compreensão, ou abordagem compreensiva visa apreender e explicitar o sentido da atividade social individual e coletiva enquanto realização de uma intenção. Neste caso, o objetivo da abordagem compreensiva é exibir as significações internas dos comportamentos. Já o quadro funcionalista, adota desde o início uma concepção totalizante e, ainda, sistêmica, diante dos fatos sociais, pela qual cada um deles é englobado em um conjunto integrado de natureza teleológica. Assim, o funcionalismo investiga as formas duráveis da vida social e cultural, produtos de uma institucionalização: os papéis, as organizações, as normas etc.. O quadro estruturalista, por sua vez, só tem valor e interesse na medida em que se define como método, em que tende explicitamente a colocar no início os problemas de pesquisa sob o ângulo do método e a pensar a si mesmo como uma ‘atividade’. Neste caso, são múltiplas as atividades estruturalistas: etnologia, análises de linguagens, retóricas, literárias etc.. De um ponto de vista epistemológico, o estruturalismo se apresenta como análise imanente de seus objetos de investigação (BRUYNE et al., 1977, p. 136-150). Enfim, o polo teórico guia a elaboração das hipóteses e a construção dos conceitos e está diretamente vinculado ao polo dos quadros de análise (morfológico), que decorrem dos quadros de referência. É o lugar das formulações sistemáticas dos objetos científicos. É no polo teórico que se propõe regras de interpretação dos fatos, de especificação e definição das soluções provisoriamente dadas às problemáticas; é, portanto, o lugar de elaboração das linguagens científicas, onde se determina o movimento da conceitualização, onde se 6 constroem os ‘quadros de referência’ que também guiam a construção teórica do campo (BRUYNE at al., 1977, p. 35). O polo morfológico O polo morfológico ou quadro de análise refere-se às regras de estruturação, de formação ou construção do objeto científico, por meio de modelos ou cópias, ou de simulação de problemáticas reais. “Se a teoria é o lugar da formulação da problemática, o polo morfológico é seu lugar de objetivação. Este polo representa o plano de organização dos fenômenos, os modos de articulação da expressão teórica objetivada da problemática da pesquisa”. (BRUYNE at al., 1977, p. 159). Nas ciências sociais, de acordo com Bruyne at al. (1977), quatro quadros de análise principais realizam, cada um a seu modo, as funções metodológicas do polo morfológico: as tipologias, os tipos ideias, os sistemas e as estruturas-modelos. A tipologia é uma estrutura conceitual analítica que não deve ser pura e simplesmente assimilada a uma teoria. Embora, o objetivo da tipologização ou da classificação sistemática seja a elaboração conceitual, a purificação e a maior precisão dos conceitos. Isto porque o ‘tipo’ realiza a integração de elementos discretos em uma unidade coerente sendo, portanto, a taxonomia a integração de séries discretas em uma ordem contínua. A grande vantagem de um quadro tipológico é que permite a aplicação de método comparativo e, bem como construir um discurso científico em um sistema de classificação que permite agrupar os fenômenos em categorias lógicas segundo critérios que os definem (BRUYNE at al., 1977, p. 175-180). Os tipos ideais constituem procedimentos puramente experimentais que o pesquisador cria voluntária e arbitrariamente, segundo as necessidades da pesquisa. O objetivo do tipo ideal não é o de recensear todas as determinações de um fenômeno. Um tipo ideal serve para que o pesquisador possa classificar determinados fenômenos em determinadas categorias, sem nunca exauri-los. Já o quadro sistêmico de análise de análise reconhece em uma problemática qualquer de pesquisa a predominância do todo sobre as partes e, por conseguintes, aborda seu objeto sob a forma coerente e globalizante de uma rede de relações. Os modelos e as estruturas, como componentes morfológicos da pesquisa, permitem realizar de maneira clara e imperativa o uso estruturalista dos métodos. É o estudo das relações sociais com a ajuda dos modelos propostos (BRUYNE at al., 1977, p. 180-189). Em outros termos, o polo morfológico suscita diversas modalidades de quadros de análise, determina a configuração arquitetônica do objeto, define as regras de formação e de estruturação do objeto científico com base em analogias, estabelece a relação entre seus elementos, dando-lhe uma configuração específica, define as relações causais ou de simetria, enfim, define as relações entre as variáveis da pesquisa. Interessa destacar que as diversas formas de configuração desenvolvidas, na maioria dos casos, engajam a pesquisa em escolhas mutuamente exclusivas. Isto porque a causalidade é pensada de maneira particular em cada um dos quadros de análise. O polo técnico O polo técnico está relacionado com a coleta dos dados, esforça-se por constatá-los para poder confrontá-los com a teoria que os suscitou; tem em sua vizinhança modos de investigação particulares, tais como estudos de caso, estudos comparativos, experimentações, simulações e esses modos de investigação indicam escolhas práticas pelas quais os pesquisadores optam por tipo de olhar, de encontro com os fatos empíricos (BRUYNE at al., 1977, p. 36). Este polo, de acordo com Bruyne et al. (1977, p. 201), tem a função de circunscrever os fatos em sistemas significantes, por protocolos de evidenciação experimental desses dados empíricos. “Assim, a pesquisa, em seu polo técnico, coletará os dados em função dos quais 7 elaborará seus fatos. A forma lógica destes dados será a de enunciados existenciais singulares afirmando acontecimentos observáveis, intersubjetivamente controláveis, que diretamente (perceptíveis), quer indiretamente (inferíveis)”. É preciso lembrar que para aceder ao status de ‘fato’, os dados coletados devem ser pertinentes a hipóteses teóricas precisas, ou seja, devem constituir a confirmação ou a infirmação dessas hipóteses e, afinal, verificar ou falsificar os sistemas teóricos nos quais essas hipóteses particulares se inserem. Assim, “os fatos científicos são conquistados, construídos, constatados e sua própria natureza é instrumentada pelas técnicas que os coletaram, tornada significativa pelo sistema teórico que os produziu ou acolheu” (BRUYNE at al., 1977, p. 203). De toda forma, o polo técnico está relacionado à exigência de testabilidade, de definição dos modos como o pesquisador vai encontrar-se com os fatos empíricos e como vai tratá-los e a confrontação dos dados com a teoria que os suscitou, pois a pesquisa científica se constrói por referência ao mundo dos acontecimentos (BRUYNE at al., 1977). Por último, é preciso salientar que a interação dialética desses diferentes polos constitui o conjunto da prática metodológica e, mais ainda, esta é uma concepção que introduz um ‘modelo topológico e não cronológico’ da pesquisa que, infinitamente variada no tempo e no espaço, move-se no campo metodológico de maneira mais ou menos explícita a cada passo da sua prática (BRUYNE et al., 1977, p. 36). Apresentação e análise dos resultados O levantamento realizado buscou identificar os artigos relacionados ao tema do empreendedorismo disponíveis no repositório da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD), que os disponibiliza na íntegra, aos seus associados. Foram identificados 147 artigos pelo termo “empreendedorismo”. Com o termo “empreendedor” foram listados 384 artigos, aí também inseridos os 147 anteriores. A seguir, utilizou-se o termo “empreend” (sem o ‘e’) com objetivo de evitar perder qualquer artigo que, pelo menos, utilizasse essa terminologia. Foram encontrados 421 artigos, aí inseridos aqueles listados anteriormente. Para evitar erros, foi realizado o download de todos os artigos listados, ficando estes arquivados em uma pasta. Apenas cinco (5) artigos, embora listados, não foram encontrados na base da ANPAD. Todavia, estes foram recuperados nos CDs entregues aos participantes dos encontros anuais da Associação. Na fase 2, os artigos selecionados foram agrupados por ano e por evento da ANPAD. Durante um período de quase oito meses, foi realizada uma leitura sistemática e atenta de cada um dos artigos e registrados os seus dados principais como: título, tema central, ano, veículo onde foi publicado, nome dos autores, origem dos autores (instituições a que estão vinculados os autores), tipo de pesquisa e estratégias utilizadas, tipo de coleta de dados, o tipo de organização onde foi realizada a pesquisa quando era o caso, os principais autores utilizados como referência no corpo do artigo. Na fase 3, os artigos foram analisados mais detidamente de modo que pudessem ser identificados o enfoque privilegiado pelo trabalho e, finalmente, preenchida uma ficha com os principais resultados e conclusões destacados em cada artigo. Ressalta-se que, até por uma limitação de espaço, apenas os resultados mais relevantes são apresentados no artigo em pauta e nem todos são apresentados graficamente. A Tabela 1 mostra a quantidade de trabalhos sobre o tema agrupados por ano e por evento da ANPAD. Pode-se observar que somente a partir de 1999 é que foram publicados os primeiros artigos sobre a temática em pauta. Recorda-se que no site da ANPAD estão disponíveis apenas os artigos publicados a partir do ano de 1997. 8 Ano EnANPAD EnEO Simpósio EnADI 3Es EMA EnAPG EnGPR EnEPQ Total 1997 0 - - - - - - - - 0 1998 0 - - - - - - - - 0 1999 2 - - - - - - - - 2 2000 0 1 - - - - - - - 1 2001 4 - - - - - - - - 4 2002 5 1 - - - - - - - 6 2003 23 - - - 4 - - - - 27 2004 38 6 - - - 0 3 - - 47 2005 27 - - - 7 - - - - 34 2006 40 1 19 - - 1 3 - - 64 2007 34 - - 1 11 - - 1 8 55 2008 31 3 29 - - 1 0 - - 64 2009 29 - - 0 10 - - 3 2 44 2010 26 7 4 - - 0 4 - - 41 2011 23 - - 1 3 - - 3 2 32 Total 282 19 52 2 35 2 10 7 12 421 Tabela 1: Quantidade de artigos por ano e por evento da ANPAD. Fonte: Elaborada pelos autores. Como já exposto no início deste trabalho, um destes dois primeiros artigos, configura em si, conforme denominado, “uma proposta empreendedora voltada para as dimensões acadêmica e empresarial”, cujo objetivo é a validação de um instrumento de medidas de comprometimento nas organizações. O outro artigo, “Tendências do comportamento gerencial da mulher empreendedora”, é resultado da tese de doutorado de uma estudante de Engenharia de Produção, aonde já se observa a referência aos autores clássicos utilizados no referencial teórico dos artigos que abordam o tema do empreendedorismo. No ano seguinte, em 2000, não são apresentados trabalhos sobre o tema no maior evento, o próprio EnANPAD. Porém, na primeira edição do Encontro de Estudos Organizacionais (EnEO) há um artigo intitulado “Ensino na área de organizações: uma proposta multidimensional para formação e capacitação de empreendedores de pequenas e médias empresas”, que discute sobre a incorporação de abordagens dos estudo das organizações aos estudos do empreendedorismo para se obter um modelo integrador e multidimensional de formação empreendedora, adequado aos pequenos e médios negócios. Importante salientar que nas seis edições do EnEO, de 2000 a 2010, são apresentados um total de 19 artigos. Exatamente desta área, vêm algumas das maiores críticas ao empreendedorismo relacionando-o como prática e instrumento do capitalismo e, ao mesmo tempo, os artigos apresentam algumas das contribuições mais relevantes ao constructo, especialmente nos polos morfológico e teórico. Em 2001, foram apresentados quatro artigos, todos no EnANPAD, onde já se observa o interesse dos pesquisadores pela questão do comportamento empreendedor. Os autores ainda se mostram sem muito cuidado com o quadro teórico que dá suporte a este tipo de estudo, pois as teorias sobre o comportamento empreendedor não são sequer mencionadas. Os pesquisadores mostram-se mais concentrados nos modos de investigação e nos resultados obtidos, portanto, com maior foco no polo técnico. Em 2002, foram apenas seis artigos e entre estes dois destacam-se por motivos diferentes, mas que já insinuam o caminho hegemônico tomado pelos pesquisadores da área. O primeiro é um artigo que faz uma análise de disciplinas de empreendedorismo em currículo de cursos de graduação e pós-graduação em Administração em universidades norteamericanas e, de modo geral, trata da formação empreendedora naquelas universidades sem fazer uma análise comparativa com, pelo menos, uma universidade brasileira ou, ainda, com o 9 que se observa no Brasil de maneira geral. O segundo, trata-se de um artigo que analisa o comportamento de empreendedores brasileiros utilizando um instrumento de pesquisa produzido em outro país e ainda não testado no Brasil, o que leva a resultados de certo modo confusos e que não colaboram com o entendimento do próprio perfil do empreendedor nacional e tampouco com o desenvolvimento do polo teórico e começa a marcar uma vasta gama de publicações que destacam o polo técnico. Em 2003, com a criação de uma área denominada de “Empreendedorismo e Comportamento Empreendedor”, foram 23 artigos no EnANPAD e quatro na primeira edição do Encontro de Estudos em Estratégia (3Es) que também destinou uma área aos estudos da “Estratégia e empreendedorismo”. De modo geral, os artigos versam sobre o perfil, o comportamento e as motivações empreendedoras e, ao mesmo tempo, já aparecem artigos que narram a história e a trajetória de empreendedores brasileiros. Dois artigos chamam atenção não pelo aporte que trazem à área do empreendedorismo, mas porque uma preocupação com esta disciplina nos cursos de Administração. O artigo “Empreendedorismo e práticas didáticas nos cursos de graduação em Administração: os estudantes levantam o problema”, por exemplo, é um estudo das práticas didático-pedagógicas dos cursos de graduação em administração enquanto estratégias de ensino que, na percepção dos alunos empreendedores, podem incentivar ou inibir o empreendedorismo (FERREIRA e MATTOS, 2003). Em “Educação empreendedora como alternativa ao descompasso entre a formação e a alocação de profissionais de nível superior no Brasil: estudo de caso em uma universidade pública”, Oliveira et al. (2003) discutem a assimetria que caracteriza a relação entre o processo de formação de profissionais de nível superior no Brasil e a capacidade do mercado de trabalho em absorvê-los apresentando, neste contexto, as potencialidades da educação empreendedora para preencher esta lacuna. Entre os anos de 2004 e 2008, a temática em pauta parece que está a caminho de se consolidar como parte dos estudos da Administração, pois com a nova organização por área estabelecida para os EnANPADs, “Empreendedorismo e Comportamento Empreendedor” passa a fazer parte da grande área de “Estratégia em organizações” e, dentro da área de “Gestão da Ciência, Tecnologia e Inovação” também é criado um subtema denominado de “Empreendedorismo e Negócios Inovadores”. Durante estes cinco anos constata-se um crescimento quantitativo das publicações que não se repetiu nos anos posteriores. Neste período foram publicados 274 artigos, ou seja, 65% da produção total. Observa-se a predominância de artigos sobre a abordagem comportamental estudada em diversos tipos de organizações utilizando estudos de casos em pesquisas exploratório-descritivas. Surgem artigos que buscam vincular empreendedorismo e inovação a partir de bases empíricas sem a devida preocupação com a teoria pertinente. O mesmo se constata nos estudos emergentes sobre as incubadoras, a orientação e a intenção empreendedora. Nesta mesma época, também começam a aparecer artigos que buscam mostrar o teste e a validação de instrumentos para verificar comportamento empreendedor, intenção e orientação empreendedora. Destes, apenas dois artigos foram observados, nos anos seguintes, que após o teste e a validação dos instrumentos, estes foram utilizados no Brasil, especialmente com alunos da graduação. Provavelmente, tais estudos sejam motivados pela própria definição da ANPAD quanto ao interesse de pesquisa uma vez que determina, de modo específico, o escopo de interesse para os trabalhos. Ainda sobre este período, foram encontrados quatro artigos cuja contribuição vai além do polo técnico. “Análise epistemológica do campo do empreendedorismo”, onde se realiza uma primeira análise epistemológica do campo do empreendedorismo, procurando analisar a influência das correntes epistemológicas sobre os trabalhos do campo em questão. Assinala-se, ainda, que o estudo das diferentes correntes de pensamento mostram a influência de vários paradigmas epistemológicos sobre o constructo empreendedorismo, onde se constata uma dominância quase total dos pensamentos 10 racionalistas, funcionalistas e positivas (GUIMARÃES, 2004, p. 10). Na mesma linha, o artigo “De volta aos clássicos: empreendedorismo e conflito institucional” busca resgatar, em um ensaio teórico, a partir da leitura de autores clássicos das Ciências Sociais, o conceito de empreendedorismo para mostrar que, apesar das transformações socioeconômicas ocorridas, já a longa data, muitos autores enfatizam uma dimensão fundamental da ação empreendedora: resistência e conflito com o sistema institucional (MARTES, 2006). “Metodologias, recursos e práticas didático-pedagógicas no ensino de empreendedorismo em cursos de graduação e pós-graduação nacionais e internacionais” e “A universidade forma empreendedores? aspectos convergentes e divergentes sob a ótica de alunos, professores, pais e empreendedores” compõem uma série de artigos cujo cerne é o papel da universidade na formação do empreendedor. Aí colocadas proposições que levam à discussão dos prós e contras sobre o posicionamento de docentes que percebem a universidade como uma das principais propulsoras do desenvolvimento do empreendedorismo no país, bem como daqueles que acreditam que o papel da universidade está mais relacionado à formação de alunos mais reflexivos. Também se observa, como destacam Henrique e Cunha (2006), que o ensino do empreendedorismo tem sido implantado em sinergia com metodologias e práticas didáticopedagógicas mais eficazes para seu aprendizado, mas sem deixar de lado, em muitas ocasiões, os métodos tradicionais de ensino, condizente com uma das vertentes do debate sobre os métodos do ensino de empreendedorismo que defende a necessidade de um estudo teóricoprático, não deixando a desejar quando comparadas a universidades internacionais. Por outro lado, dois anos depois, Nassif et al. (2008) assinalam que, ao buscar identificar os fatores determinantes para a formação empreendedora e que auxiliem na construção de um projeto pedagógico de cursos de Administração comprometidos com a formação empreendedora, verificou-se que é urgente a necessidade de rever projetos pedagógicos e refazer o alinhamento do que se ensina em sala de aula com o que se vive no cotidiano profissional para atender essa realidade, adotando metodologias que integrem teoria e prática, por meio de atividades de extensão e de incentivo à pesquisa. Destaca-se que a partir de 2004, com a publicação de artigos que assinalam o papel da universidade, começam a surgir outros artigos que fazem levantamento das práticas e conteúdos do ensino do Empreendedorismo nos seus respectivos cursos em várias universidades pelo Brasil. A partir de 2009, a quantidade de artigos relacionados à temática do empreendedorismo começou a diminuir, embora ou, quem sabe por isso mesmo, devido a uma nova reorganização de áreas e subtemas no âmbito da ANPAD. Foram apenas 44 artigos. A área de “Estratégia em Organizações” ampliou o escopo dos estudos e apontou que seu interesse passaria a ser no tema “Estratégia, Empreendedorismo e Desenvolvimento”. “Gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação” também redefiniu sua temática, ampliando-a e denominando-a de “Inovação, Empreendedorismo e Redes”. Nos anos de 2010 e 2011 foram retomadas as mesmas nomenclaturas de 2008, todavia, a quantidade de artigos publicados continuou a cair, apontando, respectivamente, 41 e 32. Há que se ressaltar que o número de artigos que tratam do comportamento e do perfil empreendedor diminuiu sensivelmente. O mais interessante é que neste mesmo período, o Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2012) aponta que o Brasil, em comparação com outros 58 países, melhorou sua posição no ranking do empreendedorismo e, atualmente, ocupa a 12ª posição mundial. Também é importante salienta que o Brasil está em 1º lugar entre os 17 países do G-20 que participaram da pesquisa do GEM e, além disso, no mesmo período, como tem sido alardeado na mídia de massa, nacional e internacional, o Brasil passou a ocupar a 6ª posição no ranking das maiores economias do mundo. Os artigos deste triênio tendem a discutir o empreendedorismo social, o intraempreendedorismo, bem como as redes de relacionamentos entre empresas de pequeno e 11 médio porte. Ainda estão presentes relatos que discutem os impactos das práticas empreendedoras na sustentabilidade e na competitividade organizacional. De modo geral, o que se observa é uma maior dispersão de interesses sobre o tema; desde o lócus da pesquisa ao objeto de estudo propriamente. Nota-se que começaram a surgir mais pesquisas sobre o tema, todavia os estudos realizados até então no Brasil ainda não foram fonte de um estudo sistemático que possa produzir uma real contribuição, principalmente, teórico-epistemológica. De modo mais específico, quanto ao tipo de organização pesquisada, constatou-se a preferência dos pesquisadores por pesquisas empíricas em empresas de pequeno e médio porte que correspondem a cerca de 30% dos artigos apresentados. Ocupando o segundo lugar na preferência dos pesquisadores estão as microempresas com 13%. A seguir vem as universidades e as grandes empresas, que respondem cada uma por 12% dos lócus de pesquisa. Ainda com grande representatividade vem as Organizações Não Governamentais (ONGs) com cerca de 8% do total de artigos apresentados, seguidas das organizações públicas, que representam apenas 5%. Estas organizações correspondem a cerca de 80% dos lócus de pesquisa. Os outros cerca de 20% estão distribuídos entre pesquisas realizadas em organizações religiosas, incubadoras, associações comerciais, associações profissionais, cooperativas e no Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Quanto à fonte dos artigos, identificada pela IES ao qual está vinculado o pesquisador, a Tabela 2 identifica os pesquisadores nomeadamente e suas respectivas IES de origem. 1º autor Vânia Maria Jorge Nassif Fernando Gomes de Paiva Jr Quantidade IES a qual o pesquisador está vinculado 8 Faculdade Campo Limpo Paulista 7 Universidade Federal de Pernambuco Carlos Alberto Gonçalves 6 Universidade Federal de Viçosa Hilka Vier Machado 5 Universidade Estadual de Maringá Eda Castro Lucas de Souza 5 Universidade de Brasília Diego Luiz Teixeira Boava 5 Universidade Estadual de Maringá Raimundo Eduardo Silveira Fontenele 4 Universidade de Fortaleza Luciano Rossoni 4 Universidade Positivo Alessandra Mello da Costa 4 Fundação Getúlio Vargas - Rio Total 48 Tabela 2: Relação de autores com maior quantidade de artigos sobre o tema e suas respectivas IES. Fonte: Elaborada pelos autores. São dois os pontos a serem destacados sobre os pesquisadores apontados na Tabela 2. De modo geral, seus objetos e temas de pesquisa são variados. Todavia, observa-se que 70% deste grupo tem um tema em comum: o estudo do papel da universidade na formação empreendedora, ou seja, o ensino do empreendedorismo nas suas diversas abordagens é contemplado pela maioria deste grupo. O segundo ponto diz respeito ao tipo de abordagem e à perspectiva com as quais estes pesquisadores buscam se apropriar deste campo. Sua inserção entre os estudiosos do empreendedorismo é muito clara: busca-se fortalecer e expandir o quadro teórico via trabalhos intensivos e aprofundados no campo epistemológico. Uma informação que se mostrou ímpar foi a descoberta que dos nove artigos publicados nos anais dos eventos da ANPAD, cujo trabalho faz um esforço no sentido de construir de forma cuidadosa e aprimorada no Brasil a dimensão quadripolar proposta por Bruyne at al. (1977), oito são de pesquisadores relacionados na Tabela 2. O último artigo que compõe esta série de nove é de uma das pesquisadoras que, por alguns anos, assinou como segunda autora e consta da Tabela 3. Via de regra, o que se observa, também, é que os pesquisadores da Tabela 2 e da Tabela 3, já trabalharam em parceria em algum momento de suas pesquisas sobre temas relacionados ao empreendedorismo. Outra constatação singular é o número de publicações, geralmente ensaios, que determinados pesquisadores obtém fazendo 12 a crítica ao empreendedorismo e temas relacionados. São pesquisadores com publicações mais regulares do que muitos daqueles que defendem a necessidade do estudo e do desenvolvimento da ação-reflexão-ação do empreendedorismo no Brasil. 2º autor Quantidade Tales Andreassi 5 IES a qual o pesquisador está vinculado Marianne Hoeltgebaum 5 Universidade Refional de Blumenau Fernando Gomes de Paiva Jr. 5 Universidade Federal de Pernambuco Fernanda Maria Felício Macêdo 5 Universidade Estadual de Maringá Rivanda Meira Teixeira 4 Universidade Federal de Sergipe Universidade Federal de Viçosa Fundação Getúlio Vargas - SP Magnus Luiz Emmendoerfer 4 Liliane de Oliveira Guimarães 4 PUC - Minas Eda Castro Lucas de Souza 4 Universidade de Brasília Denise Franca Barros 4 Fundação Getúlio Vargas - RJ Cristina Castro-Lucas 4 Universidade de Brasília Total 44 Tabela 3: Relação de autores com maior quantidade de artigos sobre o tema e suas respectivas IES. Fonte: Elaborada pelos autores. Quanto à categoria analisada é tema abordado nos artigos, o que se constata é um forte interesse dos pesquisadores pelos seguintes assuntos específicos: compreender o comportamento empreendedor, entender como o empreendedorismo está sendo incorporado nos cursos de Administração, apresentando uma preocupação em como prover uma formação empreendedora adequada e, ainda uma grande quantidade de pesquisadores voltados ao estudos do empreendedorismo social. A Tabela 4 mostra a maior concentração de temas que têm interessado aos pesquisadores. Observa-se, de imediato, que uma leitura mais aprofundada dos artigos indica um alto nível de dispersão dos temas de interesse. Embora as organizações que foram lócus das pesquisas apresentem maior uniformidade, a dispersão quanto à temática abordada leva à falta de aprofundamento no nível da discussão nos artigos. O que é corroborado, também, pelo alto índice de artigos que são estudos exploratóriodescritivos que deixam pouca margem para ampliar as discussões sobre o tema em pauta. Tema Quantidade Comportamento empreendedor 72 Ens ino do empreendedoris mo 36 Empreendedoris mo s ocial 22 Atitude empreendedora 12 Empreendedoris mo feminino 10 Intraempreendedoris mo 10 Reflexões e elaborações s obre o cons tructo empreendedoris mo 9 Orientação e intenção empreendedora 8 Empreendedoris mo em organizações públicas 8 Validação de ins trumentos de pes quis a Total 5 192 Tabela 4: Temas específicos abordados nos artigos selecionados. Fonte: Elaborada pelos autores. Quanto ao tipo de abordagem de pesquisa, em relação ao total de artigos analisados, há predominância de investigações de cunho qualitativo (um pouco mais de 65% do total), ainda mais, se considerarmos as abordagens que os pesquisadores denominam de qualitativoquantitativa que respondem por cerca de 10% do total. Assinala-se que, das 24% de pesquisas que utilizam a abordagem quantitativa menos de 5% trabalha com ferramentas mais sofisticadas, como o SPSS, por exemplo. A maioria utiliza para tabulação o Excel e com 13 algumas análises bastante básicas. É preciso destacar que as tabulações e análises mais sofisticadas nas abordagens quantitativas têm aumentado ao longo dos últimos anos. De modo geral, devido às tentativas de validar ou testar modelos para mensuração de intenção empreendedora ou de verificação de comportamento empreendedor, por exemplo, desenvolvidos em outros países no contexto brasileiro. Ainda destaca-se que quase 65% dos artigos são resultados de estudos de casos e 72% dos artigos analisados são estudos exploratório-descritivos. Estas respostas podem indicar o interesse dos pesquisadores em conhecer melhor o fenômeno do empreendedorismo em contextos dos mais variados, principalmente as experiências que vem sendo realizadas no âmbito das empresas de pequeno e médio porte. Todavia, a predominância de estudos exploratório-descritivos mostra ainda um polo teórico que pouco avança. Neste sentido, o que se constatou é que, embora, inúmeras vezes sejam tratados os mesmos temas e até as mesmas abordagens em contextos diferentes ou não, via de regra, os autores afirmam que o tema é ainda pouco estudado e acreditam poder trazer novos conhecimentos à área. Em mais de 70% dos casos, os autores afirmam a necessidade de se familiarizar com o fenômeno estudado. O estudo dos artigos já publicados nos próprios Anais da ANPAD já colaboraria imensamente para o avanço do polo teórico sobre empreendedorismo no Brasil. O problema é que, pelo menos no tema em pauta, parece ainda não existir um reconhecimento do que já foi pesquisado e publicado pelos próprios pesquisadores brasileiros e, normalmente, por colegas que discutem no âmbito dos eventos temas similares. Considerações finais Retomando, especificamente, as proposições de Bruyne et al. (1977), embora elas tenham sido tratadas ao longo da apresentação e análises dos resultados com inserções onde se faziam pertinentes, é preciso salientar que: Nossas maiores contribuições se dão no polo técnico, aquele relacionado à coleta dos dados e são inúmeros os estudos de caso encontrados. Na realidade é para onde converge a maioria das pesquisas empíricas que abordam o empreendedorismo e seus temas relacionados. Aliada a esta discrepância está o fato de que a maioria das pesquisas também é resultado de estudos exploratório-descritivos. Todavia, há que se lembrar que os estudos exploratóriodescritivos estão no nível que Bruyne et al. (1977) denominam de “grau zero” de teorização. Do mesmo modo, um grande número de estudos de casos, ainda que possa levar a estudos em profundidade do tema, o que não foi percebido na análise dos artigos, pode gerar certa estagnação na pesquisa. Isto porque, “o estudo de caso, em sua particularidade, só pode aspirar à cientificidade integrada num processo de pesquisa global onde o papel da teoria não é deformado, onde a crítica epistemológica dos problemas e conceitos não é negligenciada” (BRUYNE et al., 1977, p. 225). Exatamente o contrário do que se constatou na análise de inúmeros artigos: ênfase nos estudos de casos e valorização dos dados, aliada a certa negligência com a teoria, como se parte do trabalho do pesquisador não fosse esforçar-se por confrontar resultados obtidos na pesquisa empírica com a teoria que os suscitou. Devido ao descuido observado em confrontar resultados empíricos com a teoria, o polo morfológico ou quadro de análise pouco avança no Brasil e, assim, pouco contribui com as formulações teóricas do campo como um todo. Lembrando que o polo morfológico representa o plano de organização dos fenômenos, os modos de articulação da expressão teórica objetivada da problemática da pesquisa, ou seja, trata das tipologias, dos tipos ideias, dos sistemas e das estruturas-modelos. Nesta perspectiva, o que se constatou foi a utilização de tipologias propostas em outros países e a carência de tipologias tipicamente brasileiras, embora alguns pesquisadores que estudam especificamente o empreendedorismo no contexto da cultura brasileira já apontem para possibilidades de criação de tipologias nacionais para entender e comparar empreendedores brasileiros com não brasileiros e dentro das nossas 14 próprias regiões, analisando-os sob diferentes perspectivas e lugares. Como assinalam Bruyne at al. (1977), a grande vantagem de um quadro tipológico é que permite a aplicação de método comparativo, bem como construir um discurso científico em um sistema de classificação que permite agrupar os fenômenos em categorias lógicas segundo critérios que os definem. Foi no polo teórico que encontramos algumas das maiores lacunas no constructo do empreendedorismo nos textos analisados. A construção de conceitos e teorias, balizada por quadros de referência, não tem acontecido devido à grande utilização de estudos de casos, estudos exploratório-descritivos e à falta de sistematização do que já está posto nas pesquisas publicadas. Certamente, o quadro de referência utilizado é positivista, mas, como afirmam Bruyne at al. (1977), a característica própria do quadro de referência positivista nas ciências sociais é a pesquisa, através da observação de dados da experiência, da formulação de leis gerais que regem os fenômenos sociais. A formulação destas leis a partir da constância ou regularidade dos fenômenos constatados que levaria, pelo menos supostamente, à generalização a partir deles, isto é, a formular leis positivas, não tem assumido espaço na agenda dos pesquisadores com interesse no tema. Deste modo, o objeto construído pouco se diferencia percebido pelo senso comum, uma vez a tradução específica, conceitual do real, ainda é bastante frágil. Como resultado, o que se constata é a ruptura epistemológica que consagraria o distanciamento sempre recomeçado do objeto científico diante dos objetos do senso comum, pré-noções, mitos, pelo menos nos artigos analisados, parece estar sempre em vias de acontecer. Mas nos anos seguintes, quando se aguarda por estudos mais aprofundados que poderiam promover, ainda que aos poucos, esta ruptura, ela não acontece e os artigos se repetem, na sua maioria, com os estudos de casos e estudos exploratório-descritivos. Assim, a teorização que deveria ser procurada ao nível epistemológico, também, ainda fragilizado, não apresenta a robustez necessária à formulação de um quadro de referência e assim por diante. Enfim, a afirmação de Bruyne at al. (1977) que a interação dialética desses diferentes polos constitui o conjunto da prática metodológica pode ser nitidamente observada à medida que se constata que a fragilidade em um campo, como no caso do campo técnico, cujo problema é o excesso de uso de estudos de casos e estudos exploratório-descritivos, leva à falta de substancialidade em todo o campo de determinado constructo. Também é importante lembrar que embora a área ainda necessite de muita dedicação e disciplina dos seus pesquisadores, já existe, um grupo de pesquisadores já destacados anteriormente e que, ao longo de quase duas décadas, vem providenciando um novo fôlego aos estudos do empreendedorismo no Brasil ao dedicar-se a discutir sobre: a essência do empreendedorismo, a análise epistemológica deste campo, a construção discursiva do conceito e seu sentido axiológico, a constituição ontoteleológica do empreendedorismo, as dimensões epistemológicas da pesquisa em empreendedorismo, enfim, as ideias e o lugar dos empreendedores e dos empreendedorismos em uma perspectiva histórica. Referências ARAÚJO, Carlos Alberto. Bibliometria: evolução histórica e questões atuais. Em Questão. v. 12, n. 1, p. 11-32, jan./jun. 2006. BANDEIRA, Marina Lima; MARQUES, Antônio Luiz e VEIGA, Ricardo Teixeira. 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