QUALIDADE DO SONO DA EQUIPE DE ENFERMAGEM DE UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA CIDADE DE MANAUS Elisama Brito de Jesus1 Noeme Brito de Jesus2 Gilsirene Scantelbury de Almeida3 Arinete Véras Fontes Esteves4 Elielza Guerreiro Menezes5 RESUMO Introdução: Peculiaridades bem específicas, tais como jornada noturna, carga horária excessiva, baixos salários, a lida com a morte iminente e a responsabilidade do cuidado, fazem com que o profissional de enfermagem passe a agregar vários fatores de risco para o desenvolvimento da má qualidade do sono. Com o advento da Revolução Industrial, a mulher passou a estar presente nas atividades extradomiciliares, ao dividir/competir com o homem espaço no mercado de trabalho. Mas, apesar de seu contínuo ingresso profissional, a mulher continua a desenvolver, conjunta e paralelamente, atividades domésticas e a ser a figura responsável pela criação dos filhos. Uma vez que a equipe de enfermagem é constituída, majoritariamente, por mulheres, essas profissionais acabam exercendo suas atividades profissionais com duplas e triplas jornadas de trabalho, sejam elas extra e/ou intradomiciliares. O acúmulo de compromissos trabalhistas não é exclusivo das mulheres, e é justificado, empiricamente, pelos baixos salários, tidos por insuficientes para o sustento familiar. Tal situação acarreta num contínuo desgaste do organismo, que leva a alterações psicofisiológicas caracterizadas por ansiedade, insônia, dificuldade de concentração e de relaxar, ira, sentimento de impotência e frustração, tensão muscular, taquicardia, hipertensão, hiperatividade e náuseas1. Consequente ao alto nível de estresse, o profissional expressa sentimentos de impotência e frustração, ao ser incapaz de realizar com a plenitude e qualidade desejadas, os cuidados de enfermagem. Por conseguinte, é possível inferir que a qualidade prejudicada do sono dos profissionais da equipe de enfermagem não irá afetar somente o funcionário, mas também, diretamente, seus clientes. Pois os profissionais desgastados podem acabar prestando uma assistência com qualidade reduzida, sob o risco de lesarem, física e/ou emocionalmente, seus clientes e familiares. Dada a complexidade do processo de trabalho do enfermeiro e sua equipe, que lhes exige concentração, rapidez, estar em estado de alerta e qualidade na execução de tarefas previstas e imprevistas, considera-se de grande relevância o desenvolvimento de pesquisas que identifiquem as repercussões na saúde destes que decorram da realização de atividades trabalhistas, pois o estado de saúde do profissional irá refletir, diretamente, na prestação do cuidado de enfermagem2. Objetivo: Conhecer a qualidade do 1 Enfermeira, mestranda do programa Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Mestrado Associado de Enfermagem, parceria entre a Universidade do Estado do Pará e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Email: [email protected] 2 Enfermeira Especialista em UTI. Preceptora de enfermagem do Centro Universitário do Norte. 3 Enfermeira doutoranda. Docente titular da Escola de Enfermagem de Manaus-Universidade Federal do Amazonas. 4 Enfermeira doutora. Docente titular da Escola de Enfermagem de Manaus-Universidade Federal do Amazonas. 5 Enfermeira especialista e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Mestrado Associado de Enfermagem, parceria entre a Universidade do Estado do Pará e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Docente do Centro Universitário do Norte e da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas. 01848 sono dos profissionais que compõe a equipe de enfermagem do Hospital Universitário Federal da cidade de Manaus-Amazonas. Metodologia: Este estudo é fruto de parte da pesquisa desenvolvida durante atividades de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal do Amazonas entre os anos 2008 e 2009, na cidade de Manaus-Amazonas, a qual foi exploratória descritiva. Para local de estudo foi escolhido o Hospital Universitário Getúlio Vargas, o qual contava com uma população de 423 profissionais de enfermagem. Após a decisão de a amostra ser composta por 50% da população e, considerando os critérios de inclusão e os casos de absenteísmo, chegou-se a amostra final, representada por 130 profissionais de três categorias distintas: auxiliar de enfermagem, técnico de enfermagem e enfermeiro. Após os profissionais terem assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, eles foram entrevistados. O instrumento de coleta dos dados foi previamente elaborado e testado. Dos 130 profissionais da equipe de enfermagem entrevistados, 31 tinham o título de auxiliar de enfermagem, 68 de técnico de enfermagem e 31 de enfermeiro; é importante salientar que todos os profissionais possuíam carga horária noturna, mesmo que em outra instituição de saúde, e trabalhavam no local de estudo há, no mínimo, 12 meses, já que estes eram critérios de inclusão. Resultados: Seguindo a tendência apontada pela literatura, percebeu-se predominância do gênero feminino em detrimento do masculino nas três categorias profissionais. A média foi de dois contratos trabalhistas por profissional, sendo seguido de três contratos. Os auxiliares de enfermagem, em sua maioria, consideram sua renda mensal regular, enquanto os técnicos de enfermagem e enfermeiros consideram-na boa. Alegaram que, caso fossem mais bem ressarcidos, diminuiriam sua carga horária de trabalho. A fim de se estabelecer as características do padrão de sono destes profissionais, foi-lhes inquirido sobre a média de sono diária, se sentem sono excessivo durante o trabalho, a frequência desse sono e se acreditam que o sono atrapalha sua desenvoltura, até mesmo a ponto de provocar acidentes ou favorecer o acontecimento de erros. Aferiu-se que a média de sono diária dos auxiliares e técnicos de enfermagem é de 5 horas, enquanto a dos enfermeiros é de apenas 3 horas. Mas, apesar de a média de sono estar abaixo da recomendada, os auxiliares de enfermagem e enfermeiros não referem sono durante as atividades trabalhistas, embora os profissionais das três categorias também afirmem sentir sono, às vezes, no trabalho. Sono este que não é considerado danoso pelo auxiliares de enfermagem. Apesar de a maioria dos profissionais negarem já terem cometido erros devido ao sono durante o período de trabalho, 1 auxiliar (3,2%), 2 técnicos de enfermagem (2,9%) e 2 enfermeiros (6,5%) assumiram já ter cometido erro sob estas circunstâncias. Conclusão: Tomando por base a concepção da necessidade biológica de sono diário é de 8 horas e que, até os pequenos dormidores necessitam de no mínimo 5h30 a 6 horas de sono, percebe-se que a média de sono dos profissionais está abaixo do recomendado3. É então possível inferir o porquê destes profissionais apresentarem sintomas como sonolência diurna, insônia e queda de desempenho nas tarefas físicas e mentais, este último, muito preocupante para um profissional que lida com vidas humanas, como é o caso da equipe de enfermagem. Daí, a ocorrência de erros se torna ainda mais perigosa. Esse aspecto também deve ser observado pelo enfermeiro, responsável pela equipe de enfermagem, pois este precisa estar atento às condições físicas e emocionais dos profissionais, com vistas a evitar situações de risco ao cliente. É importante ainda que haja um compromisso individual de cada profissional, para que ele faça sempre uma autoanálise crítica de sua postura e desenvoltura profissional. Implicações para a Enfermagem: Os dados se mostram preocupantes, pois mesmo que os profissionais ainda não tenham desenvolvido distúrbios do sono, o ritmo acelerado, as jornadas excessivas e o turno de trabalho (noturno) são fatores que podem acarretar em estresse ocupacional, descrito como decorrente das tensões associadas ao trabalho e à vida profissional4. Este estresse, por sua vez, irá estar intrínseca e diretamente relacionado à qualidade de vida do profissional, bem como sua prestação de cuidado ao cliente. Dessa feita, percebe-se que ao devotar atenção 01849 à qualidade do sono do profissional de enfermagem, se estará garantindo a melhora da qualidade de vida do profissional, de seu convívio social, familiar e, não menos importante, a melhora da assistência à comunidade por ele assistida. Referências: 1Pafaro RC, De Martino MMF. Estudo do estresse do enfermeiro com dupla jornada de trabalho em um hospital de oncologia pediátrica de Campinas. Revista da Escola de Enfermagem da USP. 2004. Disponível em: http://www.ee.usp.br/reeusp/upload/pdf/106.pdf. Acesso em: 19 abr. 2008. 2 Silva RMB, Carmem LC, Magnago TSBS, Carmagnani MIS, Tavares JP, Prestes FC. Trabalho noturno e a repercussão na saúde dos enfermeiros. Esc. Anna Nery. 2011; 15(2): 270-276. 3Martino MMF. Arquitetura do sono diurno e ciclo vigília-sono em enfermeiros nos turnos de trabalho. Rev. esc. enferm. USP. 2009; 43(1): 194-9. 4Rocha MCP, De Martino MMF. O estresse e qualidade de sono do enfermeiro nos diferentes turnos hospitalares. Rev Esc Enferm USP. 2010; 44(2): 280-6. Descritores: Sono; Equipe de enfermagem; Cuidados de Enfermagem Área temática: Saúde e Qualidade de Vida 01850