Universidade Federal de Minas Gerais
Instituto de Ciências Biológicas
Programa de Pós-Graduação em
Ecologia, Conservação e Manejo da Vida
Silvestre
Estudos Sobre Caça e Mercado de Primatas
em Tombali, Sul da Guiné-Bissau
Augusto Cá
Belo Horizonte
2008
Estudos Sobre Caça e Mercado de
Primatas em Tombali, Sul da GuinéBissau
Augusto Cá
Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-Graduação
em Ecologia, Conservação e
Manejo da Vida Silvestre,
como requisito parcial para a
obtenção do título de Mestre.
Orientador: Dr. Mário Alberto Cozzuol
Belo Horizonte
2008
ii
Sumário
Agradecimentos
.............................................................................. v
Resumo
........................................................................................ vi
Palavras-chave
.............................................................................. vi
Abstract
........................................................................................ vii
Key words ........................................................................................ vii
Lista das siglas
.............................................................................. x
1. INTRODUÇÃO .............................................................................. 1
1.2 Objetivo .............................................................................. 2
1.2.1 Objetivo geral ................................................................... 2
1.2.2 Objetivos específicos
.............................................. 3
2 BREVE HISTORIA DA GUINÉ-BISSAU
................................... 4
2.1 Contexto histórico, político e social guineense
............. 5
2.2 Contexto sócio-político do povo da Guiné-Bissau .............. 7
2.3 Legislação de caça e política de conservação nacional ... 11
3 ANTECEDENTES DE ESTUDOS FAUNÍSTICO
ESPECIFICAMENTE DE PRIMATAS
................................... 14
4 MATERIAL E MÉTODO
........................................................ 20
4.1Área de estudo
................................................................... 21
4.2 Levantamento de dados ........................................................ 22
4.3 Tabulação e compilação dos dados dos gráficos
.............. 24
4.4 Análise das redes sociais
.............................................. 24
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
.............................................. 26
5.1Visitas às aldeias e entrevistas .............................................. 27
5.2 Análise quantitativa dos dados .............................................. 31
5.3 Análises das redes sociais
.............................................. 37
6 CONCLUSÃO
.............................................................................. 51
7 PROPOSTAS
.............................................................................. 56
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
.............................................. 60
GLOSSÁRIO
.............................................................................. 63
ANEXO
........................................................................................ 65
iii
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1 Mapa da Guiné-Bissau
..........................................................33
Figura 2 Mapa da localização da Região de Tombali
...........................33
Figura 3 Preferência de caça em Cacine
................................................43
Figura 4 Preferência de caça em Cubucaré ................................................43
Figura 5 Grupos étnicos entrevistados em Cacine ......................................44
Figura 6 Grupos étnicos entrevistados em Cubucaré
...........................44
Figura 7 Grupos religiosos em Cacine
................................................45
Figura 8 Grupos religiosos em Cubucaré ................................................46
Figura 9 Porcentagem dos líderes conforme os grupos étnicos,
Cacine
...........................................................................................47
Figura 10 Porcentagem dos líderes conforme grupos étnicos,
Cubucaré
...........................................................................................47
Figura 11 Porcentagem dos atravessadores conforme os grupos
étnicos
...........................................................................................48
Figura 12 Funções dos caçadores e não caçadores dentro
da cadeia
...........................................................................................54
Figura 13 Relação dos municípios participantes na cadeia de caça
......55
Figura 14 Relação entre as espécies caçadas e mercado de caça
......56
Figura 15 Definição dos papéis dos atores da cadeia de caça .................57
Figura 16 Organizações étnicas
.......................................................... 58
Figura 17 Identidade dos atores entrevistados
......................................59
Figura 18 Ausência das conexões entre os atores ......................................60
Anexo
Figura 1 Cercopithecus mona .....................................................................75
Figura 2 Uma família exibindo couro de uma gazela
...........................75
Figura 3 Líderes comunitários, Cacine
................................................75
Figura 4 Pousada Waque a caimnho de Cacine ......................................75
Figura 5 Régulo do grupo social Papel
................................................76
Figura 6 régulo do grupo social Fula ..........................................................76
Figura 7 Alguns figurinos da cultura Balanta................................................75
Figura 8 Babuíno abatido em Cacine ..........................................................76
Figura 9 Babuíno em cativeiro, Cubucaré ................................................76
Figura 10 Filhote de um chimpanzé em Cacine
......................................77
Figura 11 Primeiro contato com a Prefeitura de Cacine ...........................77
iv
Agradecimentos
À minha esposa, Odete Cá, e aos nossos filhos: Ester, Glória, Thaís e
Oséias, pelo apoio, motivação e encorajamento nos momentos difíceis.
Agradeço bastante à Odete pela compreensão e dedicação aos filhos durante a
minha ausência (aulas, curso de campo em Ouro Preto, viagem à GuinéBissau);
Minha gratidão ao Prof. Dr. José Eugênio Côrtes Figueira, com quem iniciei
este trabalho. Foi através dele que tive a oportunidade de estudar no ICB da
UFMG. Agradeço igualmente à esposa dele, Malú de Melo, pela amizade,
apoio e encorajamento;
À Cooperação bilateral Brasil e Guiné-Bissau, acordo esse que proporciona
a vinda de estudantes ao Brasil;
Ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)
pelo apoio e bolsa que foi importante e fundamental para minha provisão,
Ao Prof. Dr. Mário Alberto Cozzuol, por aceitar o desafio muito complexo de
dar seguimento de orientação e ao Colegiado da Pós-Graduação, órgão esse
ao qual sou muitíssimo grato, pelo apoio. Agradeço ainda ao Prof. Mário pelo
acompanhamento, dedicação, contribuições significativas e diálogo proveitoso,
para que os meus objetivos acadêmicos se concretizassem;
Ao colegiado da Pós-Graduação, órgão esse ao qual sou muitíssimo grato,
pois soube me amparar, apoiar e me compreender quando mais precisei;
Ao pesquisador, Dr. Dimitri Fazito, pela valiosa e inexpressiva contribuição
das análises dos dados, através do programa das redes sociais. Essas
contribuições foram decisivas na minha compreensão dos atributos e relações
entre os atores da cadeia de caça dos primatas no sul da Guiné-Bissau;
Ao Dr. Alfredo Simões Silva, Diretor do Instituto de Biodiversidade das Áreas
protegidas da Guiné-Bissau, pelo incentivo e apoio logístico durante o trabalho
de campo. Meus agradecimentos se estendem ao Dr. Nelson Gomes Dias,
Diretor Geral da IUCN (Bissau), pela colaboração e indicação das áreas de
grande necessidade de conservação guineense;
Também, agradeço à Dra. Cristina Silva e
esforços e incentivos durante a coleta de dados;
ao Dr. Mário Biagué, pelos
Às autoridades e líderes das comunidades, nas quais se desenvolveu esta
pesquisa. A minha gratidão inclui o reconhecimento e o apoio das populações
dos municípios estudados, e aos atravessadores, que aceitaram cooperar com
este trabalho;
Também agradeço aos jovens que compuseram a equipe;
v
Aos colegas e amigos do Laboratório do Prof. Dr. José Eugênio;
Aos meus colegas e amigos africanos, especialmente meus compatriotas
(Mário Cabaneco, Francisca S. Cabaneco, filhos, e João José Utiron), pela
colaboração, incentivo nos momentos mais difíceis desta pesquisa;
Ao Pastor. Oscar (Igreja Metodista de Venda Nova) e a todos os irmãos
desta congregação, pela hospitalidade, apoio e amor fraterno;
Por fim, mas que é mais importante, a Deus por tudo que tem feito por mim e
pela família.
vi
Resumo
Este trabalho, Estudo sobre caça e mercado de primatas em Tombali,
sul da Guiné-Bissau, trata de uma análise dos dados coletados através de
entrevistas, se fundamenta na Biologia da Conservação. A ênfase da
discussão está sobre a caça e tráfico de espécies de primatas. Integram a
abordagem referências ao papel dos caçadores, líderes comunitários,
moradores, atravessadores e a fiscalização. Pretende-se com este trabalho
contribuir para a compreensão do processo que estimula a caça de primatas e
propor caminhos alternativos para minimizar o impacto da caça das espécies
ameaçadas: Papio papio, Cercopithecus mona, Cercopithecus aethiops,
Cercopithecus petaurista, Colobus polykomos, Colobus badius e Pan
troglodytes. As redes sociais servem de ferramentas para se compreender os
papéis e funções dos atores envolvidos na cadeia da caça dos primatas.
Alguns elementos (culturais e religiosos) colaboram no entendimento das
razões de cada grupo social que compõem as comunidades pesquisadas. A
falta de alternativas para a provisão familiar leva os habitantes da região à
caça, que é a forma mais fácil de subsistência. Esta pesquisa aponta algumas
alternativas tais como: empreendimento turístico (ecoturismo e turismo rural)
na região como nova fonte de obtenção da renda - usando os caçadores como
guias turísticos, conscientização das populações locais (educação ambiental) -,
política de apoio à agricultura familiar. Estas medidas ou políticas são
relevantes e eficazes para o envolvimento e comprometimento das
comunidades locais, objetivando-se minimizar a pressão de caça dos primatas
e conservação do meio ambiente em Cacine e Cubucaré, para que a
população local faça uso sustentável dos recursos naturais, trilhando-se por
caminhos possíveis para que não se agravem as práticas do desequilíbrio da
biodiversidade nesses municípios.
Palavras-chave: caça, mercado, primatas, redes sociais, comunidades
vii
Abstract
This work, Studies on hunting and primate market in Tombalí, south
Giné-Bissau, is an analysis of the data collected using interviews, and is based
on the Conservation Biology. The focus of the discussion is on the hunting and
trade of several species of primates. The approach is developed on the roll of
hunters, community leaders, locals, traders and government agents. The goal
of this work is to contribute to the understanding of the process that stimulate
the primate hunting and to propose alternatives to minimize the hunting impact
on the threated species: Papio papio, Cercopithecus mona, Cercopithecus
aethiops, Cercopithecus petaurista, Colobus polykomos, Colobus badius and
Pan troglodytes. The Social Networks were used as tools to understandingthe
rolls of the actors involved in the primate hunting chain. Some elements
(cultural and religious) collaborate to understand the reasons of each group that
integrate the communities under analysis. The absence of alternatives for the
familiar needs drive the locals to huntings, which is the easiest way to survive.
The research point to some alternatives like tourism (ecotourism and rural
tourism) as new sources of familiar income in the region – using the hunters as
tourism guides, local people awareness (through environmental education) - ,
policies to support the familiar agriculture. This actions or policies are relevant
and efficients in involve and compromise the local population in the aim to
reduce the impact of hunting on primates, and environmental conservation in
Cacine and Cubucaré, inducing a sustainable use of the natural resources and
reducing the negative impact on the biodiversity in those areas.
Key-words: hunting, market, primates, social network, community
viii
“Todo esforço é produtivo, quando metódico e
continuado. Disciplina é liberdade”. (Renato Russo)
ix
LISTA DAS SIGLAS
UINC – União Internacional para a Conservação da Natureza (The World
Conservation Union).
WWF – (Fundo Internacional para a Natureza)
PRS - Partido da Renovação Social.
DGFC – Direção Geral das Florestas e Caça.
PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.
RGB – República da Guiné-Bissau.
MDS – Multidimensional Scaling.
CITES – Conservação Internacional sobre Comércio de Espécies Ameaçadas.
CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa.
PALOPs - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
IBAP- Instituto da Biodiversidade das Áreas Protegidas
x
1. INTRODUÇÃO
11
Neste trabalho, Estudo sobre caça e mercado de primatas em Tombali, sul da
Guiné-Bissau, faz-se uma análise sobre a caça de primatas, os motivos e a
forma de se caçar. E feita uma breve descrição da história do país, menção a
alguns grupos sociais que compõem sua diversidade cultural. A ameaça de
extinção dos primatas constitui um dos motivos desta pesquisa, pois a
destruição e a exploração não sustentáveis das florestas têm sido vistas
consideravelmente em todas as regiões do país, sobretudo nos municípios de
Cacine e Cubucaré. São práticas que ameaçam a biodiversidade nacional.
Soma-se à justificativa a necessidade de conservação ambiental, interesse
que responde aos apelos das políticas sub-regionais, propostas internacionais
inerentes aos objetivos da Biologia da Conservação.
O país pode ser considerado novo, pois obteve recentemente sua
independência, um dado importante na sistematização de estudos e práticas de
uso dos recursos naturais. Há a necessidade das autoridades guineenses
dialogarem com países vizinhos ou outros, cujos programas ambientais são
proveitosos e eficientes, visto que se procura desenvolver atividades
sustentáveis e menos agressivas ao meio ambiente e que contribuem na
reedução do processo corrosivo dos solos, devastação das florestas,
fragmentação e super-exploração das espécies para o uso humano.
No que se refere à metodologia, a equipe (composta pelo autor desta
dissertação e os cinco jovens das aldeias pesquisadas) fez entrevistas semiestruturadas com 217 participantes. Esta pesquisa é fruto da coleta de dados
obtido na Guiné-Bissau, durante o trabalho de campo. Também se apóia em
algumas fontes secundárias, a partir do livro Biologia da conservação, da
autoria de Richard E. Primack e Efraim Rodrigues, bem como das contribuições
de Paulo Freire. Os relatórios da WWF e UICN aparecem no trabalho para
reforçar as preocupações que têm constadas no quadro das políticas
internacionais sobre a conservação do meio ambiente.
12
1.2. Objetivos
1.2.1. Objetivo geral
O objetivo principal do presente trabalho é o de fazer um levantamento e
avaliação preliminar das espécies dos primatas caçados, uso dos animais
caçados, tráfico, destino da caça e intensidade de consumo em 40 aldeias com
diferentes etnias e costumes, da região de Tombali, situada no sul da GuinéBissau.
1.2.2. Objetivos específicos
a) Realizar um levantamento das espécies de primatas através de:
• informações dos moradores a partir das entrevistas;
• visualização direta das espécies;
b) Identificar os principais atores que promovem e participam da caça na
região;
c) Estabelecer as conexões entre os atores e avaliar seus papéis no
processo de cadeia da caça;
d) Identificar os pontos críticos nas redes sociais e propor caminhos
possíveis para minimizar os impactos.
13
2. BREVE HISTÓRIA DA GUINÉ-BISSAU
14
2.1. Contexto histórico, político e social guineense
A República da Guiné-Bissau está situada na costa ocidental da África. Faz
fronteira com dois países de língua oficial francesa: Senegal ao norte e leste e
sudeste a Guiné Conakry, conhecido antigamente como Guiné francesa, e ao
sul e oeste com Oceano Atlântico. A Guiné-Bissau possui uma área continental
e outra insular: Arquipélago dos Bijagós (com mais de oitenta ilhas), e outras
ilhas que se localizam na Região de Cacheu (norte) e Tombali (sul). A altitude
máxima nacional é de 300 metros (acima do nível do mar). O sul é composto
por florestas tropicais e o norte e leste por savanas. Há dois períodos que
marcam as estações guineenses durante o ano: a estação de chuva, que se
estende de maio a novembro, e a da seca, que vai de dezembro a abril (Fig-1)
Desde o século XV, 1446, os povos autóctones foram invadidos pelos
aventureiros portugueses e o país passou a fazer parte das colônias
portuguesas em África, até 24 de setembro de 1973, data oficial da
proclamação unilateral da Independência Nacional, pois essa independência só
foi reconhecida pela antiga metrópole em 10 de setembro de 1974, após a
Revolução dos Cravos (25/04/74). Alguns registros indicam que Álvaro
Fernandes foi o primeiro navegador português a desembarcar na localidade de
Bissau, que era um entreposto comercial de escravos (Landerest, 1965), uma
das desgraças que assolaram o continente em geral e a Guiné-Bissau,
especificamente, uma vez que foi o pior em desenvolvimento humano e
educacional. Acredita-se que esse atraso se deva à maior resistência ao
domínio português. Foi a primeira colônia a proclamar sua libertação, através
de uma luta armada. Essa proclamação abriu possibilidades para outras
colônias africanas (Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe).
Uma das figuras importantes da história política guineense é Amílcar
Lopes Cabral, fundador do PAIGC (Partido africano para a Independência da
Guiné e Cabo Verde). Sua consciência política vai além do território da GuinéBissau, pois participou da fundação de alguns partidos que objetivavam
independências das colônias portuguesas na África, como é o caso do MPLA
(Movimento Popular da Libertação de Angola). Foi transferido para Angola, em
15
virtude do trabalho de conscientização e mobilização das massas populares
guineenses para a luta armada. Permaneceu dois anos no exílio, período em
que contribuiu com seus conhecimentos das Ciências Agrárias (formou-se em
agronomeia em Portugal).
O país se organizou para sua independência, quando Amilcar Lopes
Cabral fundou o partido PAIGC em 1956. Daí começou a rebelião do povo
guineense
contra
os
portugueses
e estas
rebeliões mais tarde
se
transformaram numa guerra das guerrilhas, que teve o seu início 23 de janeiro
de 1963, no sul da Guiné-Bissau, Região de Tombali, fato esse que contribuiu
para que muitas espécies de animais silvestres migrassem para países
vizinhos (Senegal e Guiné Conakry).
A inserção do país em contextos e políticas internacionais lhe permitiu
fazer parte de muitas organizações, por exemplo, Nações Unidas, União
Africana, CEDAO (Comunidade de Estados de Desenvolvimento da África
Ocidental), CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), PALOPs
(Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), EMOA (Estados Monetários
da África Ocidental), dentre outras convenções internacionais.
A partir da década de 1980, o país conhece outra face de sua história
política, pois João Bernardo Vieira, Nino, que participou da luta armada da
libertação, assume a Presidência, através de um golpe militar, denominado
Conselho da Revolução. O ex-comandante, Nino, foi deposto em 7 maio de
1999, por um grupo que começou a revolta em 7 de junho de 1998.
As primeiras eleições pluripartidárias aconteceram em 1994, quando
João Bernardo Vieira, Nino (da etnia Papel), ainda era o presidente em
exercício período em que foi eleito democraticamente. Novas eleições
ocorreram em 2000 e culminaram com a vitória de Kumba Yalá (etnia Balanta),
licenciado em Filosofia. A Guiné-Bissau é dividida administrativamente em oito
Regiões (Estados), e 38 Setores (Municípios), incluindo-se o da capital (Setor
Autônomo – Bissau). Eis os nomes das Regiões: Bafatá, Biombo, Setor
Autônomo de Bissau, Bolama-Bijagós, Cacheu, Gabu, Oio, Quínara e Tombali.
16
A diversidade étnica faz com que o país seja uma das nações de cultura
multifacetada. Cada grupo social carrega seus costumes, hábitos, tradição e
ritos. Além do português, idioma oficial, o crioulo é a língua mais falada
nacionalmente. As línguas faladas são diversas, pois cada grupo social usa a
própria língua que tem o nome do mesmo grupo. Por exemplo, os Fulas falam
a língua fula, os Balantas falam balanta, os Papéis falam papel e assim por
diante.
2.2. Contexto sócio político: os povos da Guiné-Bissau
O recenseamento de 1950, reconheceu a existência de aproximadamente de
30 grupos sociais distribuídos em todo o território guineense (Landereset,
1965), dentre os quais se destacam Balantas, Manjacos, Bijagós,. Mandingas,
Biafadas, Papéis, Mancanhas (Brames), Balantas-Mané, Baiotes, Nalus. A
multiplicidade cultural encantou os primeiros viajantes, tais como André Álvares
de Almeida, André Donelha e Francisco Lemos de Azevedo Coelho (Landerest,
1965). Apesar dessas diferenças e da multiplicidade, reinava um ambiente
pacífico, o que dificultava os portugueses em sua ocupação. Por isso,
adotaram uma estratégia que se baseava em jogar um grupo contra outro
(Landerest, 1965). Essa tática funcionou, pois começaram a se desenrolar
conflitos inter-étnicos, principalmente quando os portugueses concediam
privilégios e afeições a uns grupos em detrimentos de outros.
Quando os portugueses chegaram à Guiné-Bissau, vários povos do
território
constituíam
sociedades
agrárias
em
fases
diferentes
de
desenvolvimento sócio-econômico e cultural, distinguindo-se por uma estrutura
social “horizontal” não estatizada, por um lado, e uma estrutura social “vertical”,
por outro lado (Landereset, 1965).
De modo geral, os grupos sociais dividem-se em dois principais eixos:
horizontal e vertical. A estrutura horizontal não possui a estratificação social,
como é o caso dos Balantas, enquanto o eixo vertical é considerado como
altamente estratificada (por exemplo, Fulas e Mandingas), com os nobres
exploradores no vértice da pirâmide social e os camponeses e escravos na
17
base. No meio destas duas estruturas sociais definidas estão grupos como os
Manjacos, Mancanhas, Papéis e outros grupos sociais guineenses (Landerest,
1965). Não constitui o objetivo desta pesquisa a análise detalhada da
organização sócio-econômica de todos os grupos étnicos guineenses, mas,
seguidamente, será feito um resumo de alguns:
Balantas
Este grupo social não é estatizado, nem estratificado, mas sua
organização social caracteriza-se pelas relações igualitárias. “Os Balantas
nunca conheceram uma autoridade central a exercer poderes coercivos. A sua
organização social consistia numa série de tabancas ou aldeias que, por si,
eram compostas por uma série de moranças ou cercas”. Antes da chegada dos
portugueses, entre os Balantas, à semelhança de outros grupos sociais, a
principal atividade econômica era a agricultura de subsistência. Hoje eles são
considerados os maiores produtores de arroz.
Na sociedade Balanta tradicional, a terra pertence à comunidade da
tabanca e é distribuída de acordo com as necessidades específicas de cada
família ou indivíduo, enquanto os instrumentos de produção são propriedade
privada. Observando-se a cultura desse grupo, pode-se perceber a existência
de dois tipos de terras: públicas e sagradas. As terras públicas ficam à
disposição dos membros da comunidade para cultivo; as terras sagradas são
reservadas para o uso cerimonial de Aule ou Irã (poderosas forças
sobrenaturais).
Bijagós
Os habitantes do Arquipélago dos Bijagós formam um dos grupos
guineenses mais complexos. Durante séculos, eles resistiram tenazmente a
todas as formas de interferência européia no seu estilo de vida. Até 1937, e
algumas ilhas nunca aceitaram a dominação colonial, ( João) Esta resistência e
insubordinação foram decisivas para que os portugueses os considerassem
18
“primitivos” e “incivilizados” (Landerest, 1965). Em razão disso passou-se a
criar sobre esse grupo algumas noções altamente romantizadas e errôneas,
principalmente a de que se trata de uma sociedade essencialmente matriarcal,
onde a mulher goza de enorme privilégio e liberdade (Landerest, 1965).
Entretanto, uma observação mais atenta deixa transparecer que se trata de
uma sociedade fundamentalmente patriarcal, pois a mulher, embora participe
de maneira significativa na produção material e possua uma função importante
em assuntos sociais, políticos e religiosos, permanece essencialmente desigual
em
relação ao homem
(Landerest, 1965).
Cada ilha
carrega
suas
particularidades culturais, na medida em que os ritos, os hábitos, dentre outros
aspectos variam de ilha para ilha, inclusive na mesma ilha é possível encontrar
diferenças de uma aldeia para outra. Acredita-se que os habitantes destas ilhas
são originários do território continental adjacente (Landerest, 1965).
Fulas ou Fulbe
O grupo é designado pelos portugueses de duas maneiras (Fulas ou
Fulbe), pelos ingleses são conhecidos por Fulanis e pelos franceses como
Peuls, além de outros nomes porque são conhecidos por outros grupos. Mas,
chamam-se a si mesmos Pulo ou Fulbe e pertencem a um grupo maior
localizado na África Ocidental, do Senegal aos Camarões. O aparecimento
destes famosos pastores na Guiné-Bissau, em número significativo, parece
datar do século XV, com uma série de invasões originadas em Macina, atual
Mali, via Futa Touro, ao longo das margens do rio Senegal (no antigo reino de
Tekrur), e na região de Futa Djalon, os nomes de Coli Temala e Coli Tenguela,
pai e filho, bem como o nome de Dulo Demba, que comandou o seu exército
aterrorizador através da Gâmbia e Casamance até Guinala, onde foi derrotado
pelos Biafadas (Landerest, 1965).
A sociedade fula da Guiné-Bissau é composta por três grupos principais,
que se distinguem por critérios de direito de nascimento, classe social e de
terra da origem (Landerest, 1965). Semelhantemente aos Mandingas, os Fulas
pertenciam a uma sociedade altamente estratificada de nobres e aristocratas,
19
artífices, gente comum e escravos. Os fulas teriam chegado à região já
diferenciados entre senhores e escravos, donos de gado e profissionais como
ferreiros, ourives, tecelões, tintureiros, músicos e guardadores da tradição oral,
os famosos griots (Landerst, 1965. Historicamente, Fulas e gado estiveram
sempre estreitamente ligados e a procura de pastagem para o gado foi uma
das razões para o aparecimento dos Fulas nômades na região da GuinéBissau. De acordo com Landerest (1965), ao se fixar, esse grupo centrou-se na
produção das culturas de subsistência como milho, mandioca e cultura de
exportação de amendoim.
Papéis
A descrição desse grupo incluirá outros grupos sociais (Manjacos,
Mancanhas – Brames) por terem a mesma origem. São do eixo vertical, aquele
que possui um líder tribal (régulo)em cada comunidade ou região. A esse chefe
comunitário pagam-se tributos em dias de trabalho, porção de manjares cada
vez que se realizam cerimônias, rituais. Nesses grupos sociais, a herança
(bens e autoridade político-social) é transmitida do tio para sobrinho e não do
pai para o filho. Em caso de haver muitos sobrinhos, o mais velho assume o
trono. Quanto aos laços matrimoniais, o pai é que indica esposa para o filho,
que deverá ser sobrinha materna.
Outra forma de organização social são as chamadas djorsons (origem
ou linhagem familiar), num total de sete. É dessas que surgem os sobrenomes
de seus membros, ou seja, todo o que descende da linhagem de Bodjucumo
leva o sobrenome de Cá, Bosutchu (Djú), Boyigha (Sá), Botat (Indi), Boshó
(Có), Bossafinté (Té), Bossassu ou Djagra (nanque ou Iyé). Cada djorson sabe
a delimitação das suas terras e áreas florestais, que são passadas de geração
a geração.
20
Nalus
Provenientes do Sudão, interior da África. foram os primeiros a ocupar a
região de Tombali (Mendey 1968), daí o nome popularmente disseminado na
Guiné-Bissau; tchon di Nalu, que quer dizer terra dos Nalus. Com o decorrer
dos tempos, os Nalus passaram a conviver com os Balantas (originários do
norte da Guiné-Bissau), Fulas, Soussos, Tandas, Djacancas, Bijagós, dentre
outros grupos sociais. Por isso, ocorre com facilidade o processo de
mestiçagem e um decrescente número que é genuinamente da etnia.
Um dos hábitos culturais das mulheres nalus é o de não cortar cabelo.
As famílias são chefiadas por um homem (Insséme Kamichanka) que recebe
como pagamento da sua autoridade dois dias de trabalho de toda a
comunidade a cada ano (Mendey 1968). Entre os Nalus, há algumas lendas
dentre as quais se destaca a seguinte: “houve um tempo em que o seu
território foi assolado por flagelo e a sua população foi aniquilada. Ter-se-iam
salvos apenas alguns habitantes da povoação de uma aldeia chamada Bárria.
Deles se dizem descentes” (Mendey 1968).
Importante é relacionar a história da Guiné-Bissau à região de Tombali,
pois foi ali que se desencadeou a luta armada pela independência nacional. A
escolha da região deve-se às suas características e condições favoráveis para
uma guerra de guerrilha. É uma das melhores em produção agrícola (arroz,
amendoim, batata doce, milho etc.). Os Nalus e os Balantas são grupos sociais
guineenses que mais participaram da luta da libertação. A razão disso se deve
a dois fatores: localização geográfica e o espírito hospitaleiro (receptividade
aos dirigentes da luta, o apoio material, encorajamento).
2.3. Legislação e políticas de conservação na Guiné-Bissau
A proteção dos primatas e de outras espécies silvestres é de responsabilidade
da Direção Geral das Florestas e Caça. (D.G.F.C) Os primatas são totalmente
protegidos pela lei atual da caça (Decreto Lei n 21/1980). A caça dos primatas
é completamente proibida em todo o território nacional;( Limoges, 1989).
Recentemente a área das lagoas de Cufada na região de Tombali, foi elevada
21
ao estatus e árera protegida. A Guiné-Bissau assinou a Convenção sobre o
Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Ameaçada de
Extinção (CITES), a Convenção em Diversidade Biológica e a Convenção de
Ramsar, inerente às regiões úmidas
Supõe-se que a caça seja uma das mais antigas maneiras de o ser
humano utilizar os recursos naturais. Acredita-se que seja a segunda atividade,
pois é precedida pela coleta de frutas, tubérculos e folhas (Hill; Hawkes, 1983).
A partir da caça, a humanidade conseguiu progredir em sua forma de
locomoção, o desenvolvimento do crânio, habilidade manual, fabricação de
instrumentos de produção e bélicos, bem como estratégias para a provisão dos
membros da família (Peres, 2007).
Ainda que em grau não muito considerável, a caça de subsistência e /ou
comercial produz conseqüências imediatas sobre não só as populações, mas
também sobre o meio ambiente, o que pode acarretar a extinção da
biodiversidade, apesar da sua importância como fonte alimentar, de renda e
suprimento protéico para as comunidades rurais (Peres, 1990).
As conseqüências das práticas da caça geram reflexões sobre sua
eficácia, as técnicas utilizadas, os impactos ambientais, o desequilíbrio da
fauna e flora, inclusive sobre as populações humanas que habitam regiões
tropicais (Hill; Hawkes, 1983).
Alguns procedimentos fundamentais podem ser aplicados no manejo da
caça nas florestas tropicais, tais como a variação, o contexto biológico e
cultural local (Robinson; Bodmer, 1997; Torgler, at al 2000). Diferentemente
das outras regiões da África ocidental (Durval et al., 2003), no sul da Guiné, os
chimpanzés, conhecidos nacionalmente por dari, são a única espécie de
primata que não é caçada em se tratando da provisão, porque carregam
características muito idênticas às dos seres humanos. Por exemplo, na região
de Boé, os habitantes islâmicos acreditam que esses primatas albergam
espíritos dos mais velhos. Essa crença, por um lado, propicia uma prática
social benéfica para conservação dos chimpanzés. Por outro lado, as outras
espécies consumidas pelas populações locais tornam-se vulneráveis e
22
ameaçadas, uma preocupação que se soma às devastações das áreas
florestais, consideradas de preponderância prioritária por vários documentos
sobre biodiversidade da Guiné-Bissau (Limoges 1989).
23
3. ANTECEDENTES DE ESTUDOS FAUNÍSTICOS,
ESPECIFICAMENTE DE PRIMATAS, NA GUINÉ-BISSAU
24
Estudar a fauna de vertebrados guineenses constitui um dos desafios atuais,
pois poucos estudos foram publicados a respeito. Segundo Gippoliti e Embaló
(2004), apenas Bocage publicou uma primeira lista de espécies de mamíferos
terrestres em 1890. Os autores afirmam ainda que dez anos depois, durante
um censo de cinco meses, para o museu de História Natural de Genoa,
Leonardo Fea recolheu espécimes em Bissau, Bolama, Farim, Cacheu, Cacine
e Cambec (Gippoliti; Embaló, 2004), mas os seus registros de mamíferos
(relativamente escassos), que incluem chimpanzés, não teriam sido publicados.
Desde o início do século XX, (1906) Maclaud publicou uma lista dos mamíferos
e as aves da África Ocidental, incluindo Guiné Portuguesa, atual Guiné-Bissau.
Acredita-se que a primeira expedição científica foi a do zoólogo suíço, Albert
Monard, que recolheu entre 1937/38 espécimes em várias localidades do país
(Gippoliti; Embaló, 2004).
Novos documentos foram produzidos sobre a fauna guineense após a
Segunda Guerra Mundial por uma expedição zoológica portuguesa, intitulada
“Missão Zoológica da Guiné”. Foi dirigida por Fernando Frade e forneceu
informação sobre a fauna da Guiné-Bissau (Gippoliti; Embaló, 2004). Em 1989,
a Direção Geral das Florestas e Caça (DGFC) e a Cooperação Canadiana
realizaram um extenso inventário da vida selvagem, com o apoio financeiro do
IUCN (Limoges 1989). Em fevereiro/ março de 1994, durante um censo de
primatas em áreas selecionadas do país, os técnicos da DGFC permaneceram
dez dias na floresta de Cantanhez, região sul da Guiné Bissau, para confirmar
a presença de chimpanzés e outros primatas. Nesse período, os técnicos
realizaram uma avaliação preliminar de conservação (Gippoliti and Dell'Omo
1996).
Atualmente alguns estudiosos guineenses (tais como Cristina Silva,
Alfredo Simões, e Mário Biague) têm-se empenhado em pesquisas sobre a
flora e a fauna da Guiné-Bissau. De acordo com Gippoliti e Dell’Omo (2003), as
revisões modernas sobre a fauna guineense relacionam os estudos feitos por
Frade e Silva (1980),
e Reiner e Simões (1998) às pesquisas sobre os
mamíferos e especialmente primatas. Crescem interesses sobre a conservação
dos habitats e espécies silvestres, que poderão servir de atrativos turísticos.
25
Esse crescimento ajuda a minimizar o descaso que tem sido visto nas agendas
de líderes políticos mundiais e comunidade científica que não haviam
priorizado projetos relacionados à preservação ambiental guineense. Precisase, efetivamente, de organização e formação cívica dos cidadãos sobre os
graves efeitos dos descasos tanto dos governos e das próprias populações no
concernente às políticas do equilíbrio da biodiversidade. Este é talvez o caso
da Guiné-Bissau e outros países da África Ocidental.
Em 1988, os chimpanzés foram declarados pelo relatório da UICN, que
atua na Guiné-Bissau, extintos no território guineense (Gippoliti; Embaló, 2004),
mas o inventário dos mamíferos da Guiné-Bissau (Thibault et al, 1993)
contraria o documento, pois defende a existência dessas espécies ainda no
território da Guiné-Bissau. A sua distribuição atual se estende pelo leste do
país, na região de Boé entre o rio Corubal e a fronteira com a Guiné Conakry, e
nas regiões sudeste de Quínara e Tombali. Os censos mais recentes sugerem
que ainda vive no território da Guiné-Bissau uma população de chimpanzés
estimada entre 600 e 1000 indivíduos (Gippoliti; Embaló, 2004).
De acordo com o relatório do WWF (2001), a idade dos mamíferos
africanos está para terminar. O seu desaparecimento está diretamente ligado
ao comércio de caça ilegal, tráfico e desmatamento. Na Guiné-Bissau, a caça
de subsistência, que antes alimentava famílias nos campos, dá lugar à caça
comercial que abastece os mercados das cidades. A região sul da GuinéBissau tem sofrido grande pressão extrativista desde a década de 1970 depois
da independência. Ou seja, a exploração desordenada de madeira, da caça e
da pesca tornaram-se crescentes e insustentáveis. Por exemplo, após a
Independência Nacional (1974), a extração de madeira e caça ilegal foram
atividades mais intensas ao longo da rodovia que liga Bissau (capital do país) a
Catio, sede da Região de Tombali. Ao longo desta rodovia existem diversas
comunidades de ribeirinhos que utilizam a floresta e rios como fonte de
subsistência. Elas são mais numerosas entre o médio curso do rio até a foz,
onde a perturbação ambiental é mais intensa
26
Quase todas essas comunidades sempre dependeram da caça e pesca
como principal fonte de alimento (Gross 1975, Ayres et al. 1979). No entanto, a
presença constante de caçadores em áreas relativamente pouco habitadas,
tais como Cacine e Cubucaré são alguns dos exemplos de que a caça não é
exclusivamente para a subsistência, e sim, para venda. A crescente demanda
de carne de animais silvestres, por parte dos centros urbanos (restaurantes,
bares e caça por encomenda), tem provocado o aumento de caça. O sistema
funciona da seguinte maneira: os biderus (intermediários ou atravessadores)
fazem suas encomendas, pagando com antecedência em dinheiro ou
cartuchos comprados nos centros urbanos. Ainda se incluem nesse processo o
pagamento pelos alimentos consumidos, pelos dias em que o caçador
permaneceu na floresta. Quando um atravessador compra um babuíno de 5kg,
que custa em média 5.000,00 FCFA (U$ 2,5), ao chegar ao centro urbano,
vende-o para os donos de bares e restaurantes pelo dobro, e estes também
triplicam o preço, após o preparo dos pratos típicos. Mediante este prépagamento, os caçadores ficam comprometidos a caçar muitos animais que
correspondam ao valor combinado (à dívida) e obter lucros.
Tanto os animais, classificados pela UICN como ameaçados de extinção
(chimpanzés), quanto os com maior abundância (babuínos e macacos mona)
são caçados indiscriminadamente. Todas as comunidades dos municípios de
Cacine e Cubucaré carecem de programas de assistência social e de uso da
terra por parte do governo, por isso as aldeias dedicam-se à caça objetivando
suprir as necessidades e sobrevivência. Os dois fatores (falta de assistência e
a necessidade de sobrevivência) agregam-se a outros, tais como a fragilidade
econômica do país, novas concessões para construção de pousadas,
acampamentos turísticos.
A caça cresce vertiginosamente, de tal modo que se torna difícil o
controle da atividade da caça nas regiões estudadas. A Direção Geral de
Floresta e Caça, órgão do Estado que fiscaliza a caça na Guiné-Bissau, não só
enfrenta as dificuldades de recursos humanos habilitados e financeiros, mas
também as de acesso às áreas para fiscalizá-las.
27
A atividade de caça no território nacional pode agravar-se em
decorrência da influência de países vizinhos (Senegal e Guiné-Conakry), pois
suas estruturas econômicas são melhores (a fiscalização da caça é mais
eficiente), por isso os caçadores dessas nações tendem a praticar a caça ilegal
na Guiné-Bissau. O quadro acima descrito parece não ter solução, mas há
possibilidades de se revertê-lo, recorrendo-se ao ecoturismo, uma alternativa
que reúne interesse econômico e proteção ambiental. No Quênia, por exemplo,
este tipo de turismo é uma das atividades mais lucrativas do país (Primack;
Rodrigues, 2001). Na conjuntura mundial, o ecoturismo é um mercado em
expansão: “é uma indústria que está crescendo em muitos países em
desenvolvimento rendendo aproximadamente U$ 12 bilhões por ano no mundo
todo. Os ecoturistas investem em um determinado local e gastam parte do seu
dinheiro ou sua totalidade para vivenciar a diversidade biológica e ver
determinadas espécies (primatas). O ecoturismo tem tradicionalmente sido a
indústria-chave dos países africanos do leste como o Quénia e a Tanzânia, e é
cada vez mais parte do cenário turístico em muitos países americanos e
asiáticos. No início dos anos 70 foi feita uma estimativa de que cada leão no
Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, poderia ser avaliado em
U$27.000,00 por ano de renda proveniente do turismo, enquanto uma manada
de elefantes valia U$610.000,00 por ano (Primack; Rodrigues, 2001)”.
Assim, o ecoturismo poderia servir como uma das alternativas mais
imediatas para a proteção da biodiversidade da Guiné-Bissau, especialmente
nos municípios de Cacine e Cubucaré. Com a abertura de novos hotéis de
selva nas proximidades de Buba, já é possível prever que este mercado
também esteja em expansão na região de Tombali, na qual a indústria do
ecoturismo já vem sendo explorada largamente. É importante dizer que ainda
não há algum estudo prévio sobre os impactos ambientais no local. Caso seja
estruturado bem tal estudo, as probabilidades tendem a desenhar alternativas
que vão, conseqüentemente, envolver as comunidades locais, o que geraria
empregos diretos e indiretos. Desta forma, pode-se diminuir a pressão
extrativista exercida por moradores e caçadores dessas comunidades e
colaborar com programas de conservação ambiental. Portanto, será necessário
28
conhecer melhor a composição e abundância das espécies faunísticas e avaliar
o impacto que a pressão humana vem causando nas suas estruturas, pois
poucos estudos foram desenvolvidos até o momento.
29
4. MATERIAIS E MÉTODOS
30
4.1. Área de estudo
Cacine e Cubucaré ficam situados a sul da Guiné-Bissau, na região
administrativa de Tombali (Figura 2). Abrangem basicamente toda floresta mais
rica em biodiversidade da Guiné-Bssau. A Região está compreendida entre os
paralelos 11º 30´45” e 11º 00´15”, de latitude norte, e os meridianos 14º 42´ 21”
e 15º 12´ 37”, de longitude oeste. A superfície da região é de 1.528,97 km2. É
limitada a oeste e noroeste pelo rio Cumbijã e pela estrada Nhacoba – Colibuia.
Ao norte é delimitada pela estrada Quebo-Mampata e pelos rios Colibuia, Sare
Hagi, Dagala, Gamaiel e Chapada que estende até a linha da fronteira com a
Guiné-Conakry. A leste é limitada pela fronteira com a Guiné-Conakry; ao sul
pelo rio Barabam, e pela estrada principal que liga Cameconde a Cambeque
passando pelo rio Poxiuco. Esta região
20.000 habitantes, distribuídos
é habitada por aproximadamente
por mais de 56 aldeias. A densidade
2
populacional é de 18 hab/km . As etnias que habitam a região são: Balantas,
Nalus, Tandas, Fulas, Djacancas e Soussos.
Fig 1- mapa de Guiné-Bssau
31
Fig.-2. Localização dos municipios de Cacine e Cubucare na região de Tombalí
A Região de Tombali é a mais pluviosa do país; sua precipitação atinge até
2500 mm por ano, com uma temperatura média de 24,5 a 28,4ºC, condições
climáticas favoráveis ao desenvolvimento da agricultura. Neste contexto uma
parte importante de florestas é desmatada para a agricultura itinerante com
queimadas sistemáticas. A rizicultura de “bolanha” dos mangais é praticada,
sobretudo, por Balantas nas margens do rio Cumbijã e constitui uma das
tradições voltadas para a agricultura há séculos. A fruticultura ganhou
proporções importantes nos últimos anos com o avanço da monocultura de
caju, que, entre outros, constitui um dos fatores sociais e ambientais que estão
na origem da forte migração da população em direção ao Cacine e Cubucaré.
A pesca agrega-se às atividades de subsistência entre as populações
autóctones.
32
4.2. Levantamento de dados
Devido à natureza dos objetivos do presente estudo, a metodologia de
investigação
escolhida
centrou-se,
sobretudo,
nas
entrevistas
e
no
deslocamento aos matos em arredores das aldeias nas quais foi realizado este
trabalho. O estudo ocorreu em dois municípios (Cacine e Cubucaré),
pertencentes à Região Administrava de Tombali, sul da Guiné-Bissau, entre
abril e maio de 2007. Durante esse período realizaram-se 200 entrevistas com
moradores,
caçadores,
líderes
comunitários
dos
dois
municípios
e,
coincidentemente, alguns atravessadores (17). O autor desta dissertação
achou oportuna a ocasião em que os atravessadores cumpriam suas rotinas
(compra da carne) para dialogar com eles, entrevistando-os. Em todas as
entrevistas, gastaram-se, em média, 30 minutos para cada uma, totalizando
6.510 minutos, ou seja, aproximadamente 109h de entrevistas. Realizaram-se
16 visitas de campo, totalizando 320 horas de coletas de dados.
Antes dos levantamentos de dados, foram feitos contatos com
autoridades locais e líderes comunitários, respeitando os procedimentos éticos
das comunidades, para informar os objetivos e o enfoque deste trabalho. Esses
contatos propiciaram resultados proveitosos, pois não só as autoridades, mas
também os líderes colaboraram para que se efetivassem reuniões de
informação e sensibilização necessárias para as comunidades. Sempre se
reuniam duas aldeias próximas e pequenas numa mesma localidade, a fim de
facilitar as comunidades, o que totaliza 10 aldeias em 5 reuniões no município
de Cacine, e as 10 comunidades se reuniram separadamente. A partir da
eficácia deste tipo de estratégia, em Cubucaré adotou-se o mesmo
procedimento, por isso reuniu-se 7 sete vezes, e cada reunião compunha-se de
duas aldeias, sendo que em 6 aldeias ocorreram reuniões separadamente,
devido à distância que as separa. Em todas as reuniões discutiram-se questões
de caça, desmatamento, desequilíbrio ecológico. Os encontros serviram para a
33
interação (observação-participação), de tal modo que se conseguiu a
credibilidade junto aos moradores. Os líderes comunitários selecionaram as
pessoas que participaram das entrevistas, bem como cinco jovens que
serviram de facilitadores e acompanhantes do autor desta pesquisa nas
entrevistas e nas visitas de campo. Levaram-se em consideração a experiência
e o conhecimento dos participantes, uma vez que o o objetivo desta pesquisa
visa trazer contribuições acadêmicas e que sua extensão prática para as
comunidades e o país seja proveitosa.
As entrevistas foram semi-estruturadas.
Esta técnica foi escolhida
devido ao objetivo deste trabalho, pois é um tipo de entrevista que combina
perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de
discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de
questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito
semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento
para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o
interessa fazendo perguntas adicionais a fim de elucidar questões que não
ficaram claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante
tenha “fugido” ao tema ou tenha dificuldades com ele.
A entrevista semi-estruturada é muito utilizada quando se deseja
delimitar o volume de informações, obtendo um direcionamento maior para o
tema, intervindo para que os objetivos sejam alcançados. A principal vantagem
deste tipo de entrevista semi-estruturada é que produz uma melhor amostra da
população de interesse. A entrevista tem um índice de respostas bem mais
abrangente, uma vez que é mais comum as pessoas aceitarem falar sobre
determinados assuntos (Selltiz et al., 1987).
Aos entrevistados foram apresentadas 11 questões referentes à caça e
mecado dos primatas na região.
Em anexo estes questionários contêm
imagens das 11 espécies primatas existente na Guiné-Bissau, (através do
manual, guia do campo dos mamíferos africanos). Os mesmos questionários
foram respondidos pelos atravessadores, porque não havia questionários
específicos e previamente elaborados para eles.
34
4.3. Tabulação e compilação dos dados e gráficos
Nesta parte do trabalho apresentam-se os métodos utilizados na
montagem da planilha eletrônica, a qual contém todos os atores (dos centros
urbanos e comunidades pesquisadas), seus respectivos atributos dentro da
cadeia de caça, nos municípios de Cacine e Cubucaré.
4.4. Análise das redes sociais
Os dados coletados pelas 217 entrevistas foram inseridos na planilha de
Excel, e transportados para o programa UCINET, programa de análise de
redes sociais. A análise destes dados foi feita com o apoio de Dimitri Fazito,
pesquisador
e
pós-doutorando
em
Demografia
no
Departamento
de
Demografia do CEDEPLAR/UFMG.
A técnica conhecida como MDS (Multidimensional Scaling) consiste na
plotagem dos gráficos multidimensionais dos atores (indivíduos) segundo sua
semelhança ou dessemelhança. Assim, quanto mais similares mais próximos
ficarão os atores entre si, e quanto mais dessemelhantes mais afastados e
distantes ficarão no gráfico. Este programa permite compreender os laços entre
os atores, através das seguintes medidas: aproximação, centralidade, síntese
das medidas globais, intermediação, coeficiente de agrupamento, densidade.
Ou seja, em primeiro lugar, o programa calcula as proximidades estruturais nos
posicionamentos da rede e, depois, cria uma hierarquia usando a técnica de
proximidade (Cluster analysis). Finalmente, após definidos os grupos, o
algoritmo de MDS procura alocar os atores mais próximos entre si, separando,
ao mesmo tempo e dinamicamente, os atores mais diferentes, de acordo com o
perfil da proximidade estrutural. É um procedimento interativo e foi reproduzido
100 vezes. Para se ter maior certeza da configuração final, os dados desta
pesquisa foram rodados 5 vezes até uma estabilização da configuração
multidimensional.
35
36
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
37
Durante as entrevistas, as seguintes espécies foram reconhecidas pelos
participantes: Pan troglodyte, Papio papio Cercopithecus mona Cercopithecus
pentaurista,Cercopithecus aethiops, Colobus polykomos, Colobus badius.
Todas estas espécies são caçadas para venda e/ou para consumo familiar ou
tráfico. As técnicas de caça utilizadas pelos caçadores da região são: arma de
fogo, caçada com cães, caçada com armadilha, caçada com lança e caçada
com cinturão de fogo.
As seguintes aldeias participaram nas pesquisas: Cacine: aldeias de
Benduco, Lamoi, Madina Cuvadje, Gã-Ture, Gadamael Porto, Djana, Míssira,
Dadura,Sanconha, Djabicunda, Saliquenhe, Cantonazinho, Caiotico, Cacoca,
Cansalan, Cabuxanuqe, Caunepu, Cassaca e Cassete; Cubucaré: Sintchuru,
Toma, Saleiro, Guiledje, Quebá-Sutuda, Ponta Vicente, Sincham Care, Foro
Sadjuma, Ndolo, Mato de Amíndara, Mato de Lauchande, Iemeberem, Mato
Cibi, Mato de Cambeque, Madina Cantinhos Mato de Canamine, Áfia, Mato de
Canode, Cafal e Mato de Cantabo.
Muitas aldeias recusaram participar por medo de serem denunciadas
pelas autoridades. Isso ocorreu mais no município de Cacine na qual a caça
volta-se ao comércio. Os entrevistados tinham idade compreendida entre 24 e
86 anos. 75% foram homens, por ser a caça uma atividade masculina.
Mulheres também foram entrevistadas, compondo 25 % dos entrevistados. Isso
serve para avaliar a percepção feminina sobre os problemas ambientais na
região. O autor desta pesquisa foi acompanhado no trabalho das entrevistas e
visita ao campo pelos jovens das próprias aldeias (grupo que será daqui em em
diante denominado de equipe)
5.1. Visitas às aldeias e entrevistas
A maior parte dos caçadores entrevistados no município de Cacine
informou que caçam os primatas para vender e não para o consumo em virtude
de a crença religiosa islâmica considerar esse tipo de carne abominável,
imunda e também pelo fato de os macacos possuírem proximidade parental
38
aos humanos. A venda faz-se em diferentes pontos (beira das rodovias: venda
direta durante o dia, venda direta com deslocamento a Bissau) e cidades dos
caçadores. A maior parte da caça é vendida diretamente aos atravessadores,
que se deslocam de Bissau até as aldeias à procura da caça.
Em Cubucaré, a caça volta-se para subsistência por causa da distância
deste município em relação aos grandes centros urbanos. Os caçadores
comerciais praticam suas atividades após terem recebido pedidos de
mercadoria por parte dos atravessadores (aqui importa observar que há
caçadores que não se dedicam à caça mercadológica, mas como um meio de
subsistência protéica). Todos os caçadores afirmaram que necessitam da caça
para a provisão familiar, devido à falta de outra opção para se conseguir renda
ou dinheiro dentro de aldeia. Foram identificados vários pontos de venda da
carne de caca em Bissau (mercado de Chapa, Caracol e Belém, assim como
algumas embaixadas, quartéis).
Em várias localidades foram fotografados primatas vivos mantidos em
cativeiros. Em visita a alguns matos das aldeias viram-se chimpanzés próximos
de aldeias, no mato de Cassacá. Deparou-se com um pequeno grupo de
babuínos que fugiram rapidamente após ter visto a equipe. Esta descobriu
evidencias indiretas da presença de chimpanzés (ninhos, pegadas, trilhas,
alimentos) e ainda foram encontrados cartuchos vazios (calibre 12). Alguns dos
cartuchos já apresentavam sinais de decomposição (ferrugem etc.) enquanto
que outros eram muito recentes. No mato de Sanconha viu-se um caçador
proveniente de Farim (norte do país) propositadamente para caçar. Este
caçador trazia uma fêmea de babuíno adulta morta. Segundo o caçador, a
fêmea morta seria vendida conjuntamente com outros animais que tinham sido
caçados nos matos na aldeia de Sanconha. O caçador encontrava-se no mato
há mais de uma semana. Assegurou, por outro lado, ter conhecimento que a
caça era proibida, mas ainda assim caçava, pois não havia qualquer vigilância
e que ali existiam alguns animais.
A equipe encontrou-se com um técnico da DGFC a pé, na aldeia de
Cassete, em cumprimento de seu exercício: sensibilizar a população sobre a
39
importância da consciência e utilização adequada do meio ambiente. Importa
considerar as dificuldades que os fiscais enfrentam em seu labor. Geralmente
deslocam-se a pé (sem qualquer viatura de apoio ou motocicletas), nas aldeias
de Bricama. Nos arredores foram babuínos mantidos em cativeiros como
mascotes. Usualmente estes animais estão acorrentados pela cintura e em
más condições. Alguns deles não têm acesso à sombra ou estrutura de
proteção contra a chuva, nem água à disposição para beber.
Na aldeia de Lamoi, a equipe foi informada de que chegam diariamente
atravessadores para encomendar a caça (principalmente babuínos). Ocorre,
igualmente, o fato de os próprios caçadores se deslocarem de Cacine aos
grandes centros urbanos para vender a carne de animais caçados.
Embora vistos da estrada, os matos pareçam conservados, entretanto a
aparente conservação dos matos é desmascarada quando se lhes adentra.
Nos vários matos deparou-se com consideráveis áreas completamente
destruídas, objetivando o cultivo de amendoim, mandioca, batata-doce e outras
culturas. Há grande devastação dos habitats visitados. Daí não é de estranhar
a presença dos animais (desde roedores a primatas) nestes campos de cultivo,
uma vez que estes surgiram com a devastação das florestas, territórios
também desses animais.
Observou-se ainda que, com o avanço do nível das águas do rio sobre
várias bolanhas (terrenos alagados nos quais se plantam arrozais) foram
inundadas e inutilizadas. Os habitantes destas aldeias afirmaram que devido a
esse fato apenas lhes restava transformar o mato em campos agrícolas por
causa da inexistência de um sistema de apoio para a construção dos diques de
proteção
A destruição das florestas toma contornos mais graves nas aldeias de
Guiledje, Lauchande e toda faixa junto à fronteira com Guiné Conakry, cuja
floresta já se pode considerar praticamente inexistente. Toda a extensão junto
à fronteira havia sido destruída pelo fogo (incêndios de grandes proporções),
por isso a maior parte do território, que podia sustentar as populações dos
primatas e outros animais, estava totalmente queimada. Foram também vistos
40
grandes incêndios na aldeia de Saleiro, Cubucaré, como conseqüências do
desflorestamento e das sucessivas queimadas, sem qualquer controle ou
planejamento, prática essa que aumenta e acarreta drasticamente a falta de
água na região.
Durante as entrevistas e deslocamentos às florestas, percebeu-se que
as florestas que, inicialmente se julgavam constituir territórios de abrigos para
diversos grupos de primatas, não o eram, pois as intensas práticas de
devastações (queimadas, caça, tráfico, a falta de alimentos dos animais nas
matas) impeliram os animais a criarem estratégias de autoproteção e
readaptação (subdividem-se em pequenos grupos). Face ao cenário, pode-se
inferir que haverá significativamente menos primatas do que se estima. Tal
estimativa deve-se a vários fatores acima mencionados, bem como à taxa de
pluviosidade cada vez menor (segundo o relatório do PNUD/Guiné-Bissau de
1997), resultando numa escassez acentuada de recursos alimentares para os
primatas. Por sua vez, a invasão dos matos, com culturas de amendoim, batata
doce e outras culturas, tem aproximado as culturas agrícolas humanas aos
animais que ali vivem, facilitando e estimulando, assim, a apetência destes
pelas colheitas.
No território que vai desde Cacine até Cubucaré (de acordo com
Embalo, técnico da DGFC) há apenas um grupo de chimpanzés em cada
município que se subdivide em vários subgrupos, razão pela qual alguns
habitantes puderam afirmar que existem muitas populações de chimpanzés. Os
animais se subdividem estrategicamente em grupos pequenos para se
sobreviverem. Foi ainda obtida informação que na lagoa de Vendo na
circunvizinhança de Toma são realizados com bastante freqüência abates de
animais de grande porte, principalmente no horário em que eles procuram por
água. Usam-se algumas técnicas para se capturar esses animais tais como:
lança, arma de fogo ou, então, os caçadores escondem-se e aguardam pelas
presas. Praticamente todos os caçadores foram unânimes em afirmar que
determinadas espécies são cada vez raras, o que aumenta a dificuldade da
caça. O caso dos babuínos (macaco cão) é o exemplo mais grave. A caça
excessiva da espécie poderá ter repercussões que a levam à extinção iminente
41
em apenas 15 anos ( Ministério de Meio Ambiente 2002). Por fim, e não menos
importante, cabe observar-se que ocorre por todo território a destruição do
mato visando à plantação de caju, de culturas itinerárias, entre outras colheitas.
Muitas vezes as queimadas são efetuadas sob o protesto de pára-fogo, mas,
às vezes e inesperadamente, o fogo atinge outras áreas de florestas.
Antes da chegada ao município de Cubucaré, a equipe encontrou-se
com um caçador jovem funcionário da “Pousada do Saltinho” a 200 km de
Cacine.
É um estabelecimento turístico que recebe hóspedes caçadores.
Geralmente, os turistas caçadores saem de madrugada em busca dos
babuínos. Nessa madrugada foi descoberta uma árvore onde dormia um bando
de babuínos. Segundo esse jovem, em uma das caçadas (às 5h), na presença
de um técnico da DGFC, em Kirafe, abateram-se 16 animais (babuínos), cuja
maioria foi vendida. Nesse grupo de animais mortos estavam crias, machos e
fêmeas adultos (algumas fêmeas estavam grávidas).
5.2. Análise quantitativa dos dados
Tanto no município de Cacine, quanto em Cubucaré, a espécie mais
caçada foi Papio pappio (figuras 3 e 4. A diferença mais importante é que a
caça desta espécie é 12% maior em Cubucaré em relação a Cacine, mas em
compensação em Cacine, a caça de Pan troglodites, visando-se fins
comerciais, é proporcionalmente maior. As variações nas outras espécies alvo
são poucas, somando todas 32% e 33 % respetivamente.
Os chimpanzés foram citados pelos caçadores entre preferidos,
entretanto a sua caça não é para o consumo da carne mas para o tráfico das
suas crias, para vender aos turistas interessados neste animal como animal de
estimação ou mascote, e também partes do animal são usadas na medicina
tradicional para curar algumas doenças segundo a crença dos moradores.
Outras espécies foram citadas, mas em menor porcentagem. O Papio papio foi
a espécie mais citada por causa da grande demanda da carne desta espécie
por donos de bares e restaurantes.
42
Fig.3: preferência de caça em Cacine
Os
Fig.4: preferência de caça em Cubucaré
dados
dos gráficos das figuras 5 e 6 demonstram a diversidade dos grupos étnicos
43
envolvidos na atividade da caça. Em Cacine predominam os Fulas (47%) e em
Cubucaré uma ligeira predominância dos Balantas são o grupo mais numeroso
(29%). São dados que sinalizam tendências de ameaças às espécies em
Cacine, porque os Fulas dedicam-se à caça comercial, enquanto que os
Balantas mantêm suas famílias através dessa forma de subsistência, que é
uma forma menos agressiva às populações caçadas.
Fig.5: Grupos étnicos entrevistados em Cacine
Fig.6: Grupos étnicos entrevistados em Cubucaré
44
No gráfico da figura 5, em Cacine, o grupo social Fula constitui a maior
parte dos entrevistados, o que denota ser igualmente a maioria da população.
É um grupo pertencente ao eixo vertical, com um líder, régulo. A ele respeita-se
e suas decisões tendem a ser cumpridas. Além da caça como alternativa à
subsistência deste grupo social, ele é conhecido nacionalmente como o que
predomina no cenário comercial. Outro fator que contribui para que os Fulas se
embrenhem na caça é de ordem religiosa, visto que pela tradição islâmica não
consomem a carne dos primatas por ser abominável e da sua proximidade dos
humanos.
Outros grupos (Tandas e Soussos) são de tradição islâmica, um fator
preocupante e ameaçador aos babuínos, porque caçam visando conseguir
muito dinheiro com a venda, ou seja, a totalidade perfaz 67% do grupo islâmico
entrevistado que, de certa forma, apóiam a caça comercial. Esse apoio denota
ainda o fato cultural: a liderança, que envolve alguns caçadores.
No gráfico da Figura 6 não existe uma predominância étnica marcada,
mas o somatório dos animistas (Balantas, Djacancas e Nalus – 62%) é maior
ao dos islâmicos (38%). Os animistas pertencem ao eixo horizontal, sem
estratificação social idêntica como a dos Fulas. Assim, o eixo horizontal
consome a carne dos primatas e a venda, neste caso, ocorre em menor escala
se comparada à atividade comercial desses dois eixos. Isso significaria que o
índice de abate por parte dos Balantas é inferior ao dos Fulas, caçadores que
45
Fig.7 Grupos religiosos em Cacine
se interessam pela carne dessas espécies visando à venda.
Fig.8 Grupos religiosos em Cubucaré
A leitura dos gráficos das figuras 7 e 8 leva a interpretação para a esfera
religiosa. Em Cacine, o islamismo é crença da maioria dos habitantes (Fulas,
Tandas e Soussos). Conforme já referenciado, essa religião não consome a
carne dos primatas, por considerá-la abominável. Segundo a tradição cultural
dos grupos sociais, as espécies caçadas albergam espíritos humanos dos
ancestrais. Preferem caçar para fins comerciais. Em Cubucaré predominam os
animistas
(Balantas,
Djacancas
e
Nalus),
populações
que
praticam
especialmente a caça de subsitência. Assim, pressão de caça é menor nas
aldeias habitadas por animistas, ao contrário das aldeias islâmicas.
Os gráficos das figuras 9 e 10 fazem uma comparação da participação
dos líderes comunitários, de acordo com os grupos étnicos. Em Cacine
predominam os Fulas (fig. 9), eixo vertical. É um dado que explica que Cacine
tende a caçar mais para o comércio devido à influência dos líderes-caçadores,
que são maiores facilitadores das negociações entre os atravessadores e a
comunidade. Com relação a Cubucaré, percebe-se que os Balantas (eixo
horizontal) representam a maior parte da liderança. Esta comunidade não se
46
interessa pela caça comercial, apenas faz dessa atividade um meio de
subsistência.
Fig.9 Porcentagem dos lídres de acordo com os grupos étnicos em Cacine
Fig.10 Porcentagem dos líderes de acordo com os grupos étnicos em Cubucaré
47
O gráfico da figura 11 permite perceber que a participação dos grupos
islámicos como atravessadores é menor (Fulas e Tandas - 12%), por causa do
constrangimento religioso, visto que não se sentem à vontade transportando a
carne dos primatas, uma vez que a fé islâmica condena este tipo de alimento.
Esses atravessadores preferem comercializar secretamente a carne dos
primatas. Assim, a maioria dos atravessadores são animistas, crença que não
leva em conta os valores éticos observados por islâmicos. Dentre os
atravessadores, observa-se a presença de dois grupos sociais (Papéis e
Bijagós) não pertencentes aos nativos que habitam Cacine e Cubucaré.
Fig.11 Porcentagem dos atravessadores de acordo com os grupos étnicos
5.3. Análises das redes sociais
As análises das redes focalizam os laços entre os pontos (pessoas,
organizações, espécies, comunidades etc.) num espaço qualquer que não seja
necessariamente delimitado fisicamente, uma vez que esse espaço, algumas
vezes, pode não ser medido. Albert-Laslo Barabasi (2003), um físico e
matemático, que estuda os modelos de redes e as diversas topografias da
natureza, traz um dos melhores estudos sobre ponto de partida de qualquer
análise de rede, o qual transcende as redes sociais.
48
Para esse estudioso, o mais importante na análise de rede é a
compreensão de uma topologia (no caso desta pesquisa Cacine e Cubucaré), é
preciso entender a estrutura invariante de relações entre pontos determinados
num espaço qualquer, bem como a distribuição dos pontos dos laços que
compõem o seu sistema, por exemplo, uma bacia hidrográfica, uma cadeia
ecológica, um sistema de transporte aéreo, a rede virtual da internet ou uma
rede social de uma comunidade de caçadores, compradores e atravessadores.
Todos esses sistemas seguem um modelo de redes que lhe é próprio. Há
diferentes modelos tais como, modelos de redes aleatórias, modelos de mundo
pequeno, modelo de escala livre e modelos híbridos; cada tipo carrega suas
particularidades.
Nesta pesquisa o foco não são as especificidades, mas o funcionamento
da rede sócio-ecológica das comunidades caçadoras no sul da Guiné-Bissau.
Ainda é fundamental compreender como os indivíduos (humanos) se
relacionam e como esse relacionamento está ligado ao ato de caçar uma
determinada espécie, e por fim, como isso alimenta o mercado de caça e
sustenta uma pressão ecológica sobre o ambiente. A análise de redes é, neste
caso, vantajosa para o analista, na medida em que ele busca identificar os
fatores estruturais (relacionados com fatores de atributos sociais, como etnia,
sexo, idade etc.) que criam constrangimento sobre os indivíduos e os tornam
suscetíveis a pensar ou agir de determinada maneira. Assim, uma análise de
rede ajuda a compreender como o caçador de uma determinada espécie de
primata pode estar mais ou menos condicionado a caçá-la e a se relacionar
com outras pessoas para vender sua mercadoria. Além do mais, numa rede de
217
indivíduos
podem-se
identificar
quais
indivíduos
eficientes
para
desempenhar o papel de atravessador e confirmar ou não quais atores são de
fato eficientes do ponto de vista do seu potencial de intermediação. Finalmente,
um objetivo importante é conhecer a hierarquia estrutural das relações entre os
217 indivíduos e como esta se articula com as características gerais da
população tais como, etnia, caçador, líder comunitário, morador, e papel
desempenhado na cadeia de caça.
49
A partir da descrição acima, esta análise se orienta pelas estratégias: 1)
apresenta-se uma análise geral sobre a estrutura da rede total, sem se
focalizar no indivíduo, mas na estrutura global da rede. 2) com base na visão
geral sobre a rede, passa-se a definir a importância dos papéis individuais na
organização da relação e assim se focaliza os indivíduos mais importantes para
caracterizar as relações entre os atores.
5.3.1. Síntese das medidas globais
A síntese das medidas globais da rede composta por 217 entrevistados
congrega diferentes comunidades étnicas envolvidas na caça, objetivando uma
provisão familiar.
5.3.1.1. Densidade
Trata-se de uma medida de ligação geral entre atores da rede e, ao
mesmo tempo, avalia a distribuição dos contatos essências entre os
participantes (217), dentre todos os contatos possíveis. As conexões tornam-se
mais sólidas caso os indivíduos pertençam à mesma tabanca (aldeia), mas a
fragilidade ocorre quando as tabancas se distanciam. Quanto menor for o
número dos atores, maiores são os vínculos sociais. Por exemplo, numa rede
de 217 indivíduos de diferentes comunidades é mais fácil que os seus
componentes se conheçam melhor do que aquela rede composta de 4.500
atores.
A medida da densidade varia de zero (0) a um (1). Quanto mais próxima
de um (1), mais densa e coesa é a rede. Neste último caso, poder-se-ia afirmar
que todos os participantes se conhecem. No caso em estudo, a densidade de
217 participantes equivale a 0,1847, o que explicaria que, em média, os 217 se
conhecem ou contatam-se diretamente 18,47% de todos existentes (desvio de
0,38 indica uma alta variação, mas para dados binários como este caso, o
desvio não importa muito).
50
Com base nos dados, pode-se observar que se trata de uma rede
irregular, mas é esperado por se tratar de uma rede real. A irregularidade é
proveniente do número pouco significativo (apenas cinco entrevistados numa
tabanca de, aproximadamente, 500 habitantes em média), e de analisar
conjuntamente dois municípios diferentes.
5.3.1.2. Distância (geodésica)
A distância média elevada implica numa rede desconectada e mais
vulnerável à ação de intermediários, pois quanto mais os indivíduos estiverem
dispersos, a probabilidade de fortalecerem os seus laços mais se torna frágil.
A fragilidade explica-se fundamentalmente pela distância que separa as
aldeias entre si. Entretanto, essa rede é bem conectada e possui uma distância
média de 1,815, isto é, na média, os indivíduos são capazes de contatar
qualquer integrante, visto que há menos de um indivíduo como intermediário.
Caso a distância média fosse acima ou igual a dois, dir-se-ia que todos podem
contatar os outros com mais de um intermediário, contudo, a média da
freqüência da distância entre os atores, simultaneamente, sugere que a média
de 1,8 se distribui irregularmente, ou seja, 81% possuem a distância média de
2, enquanto 19% têm a média de 1. Pode-se constatar que os líderes
comunitários e os atravessadores estão melhor conectados, ou seja, o grupo
desses 19%. Isto reflete a distribuição dos atores em aldeias, com poucos
indivíduos (líderes atravessadores) mais conectados.
5.3.1.3. Coeficiente de agrupamento (clustering)
É uma medida de agrupamento que aponta se a rede é concentrada em
vizinhanças, Isto é, se o coeficiente for elevado, ele assinala que a rede possui
um índice elevado de aglomeração e, portanto, os indivíduos podem estar
distantes do outros embora estejam fortemente ligados a um grupo específico
de atores vizinhos. Isso é notado entre os líderes de Cacine que estão
próximos entre si e mantêm forte conexão.
51
Em ambos os municípios, os atravessadores mantêm suas conexões
fortes entre si, ao mesmo tempo, que estabelecem fortes laços com os líderes
e caçadores desses municípios. Assim, percebe-se que se trata de um
coeficiente elevado. Apenas os caçadores e moradores não possuem vínculos
fortes entre si tal qual os líderes, ou seja, um coeficiente menos elevado.
Essa medida também gera uma espécie de hierarquia para todos os
indivíduos da rede, pois há funções e papéis sociais designados para cada
classe. Quanto mais próximo o coeficiente de zero (0) significa que o indivíduo
está inserido em nenhuma comunidade ou aldeia. Na rede de 217 indivíduos,
encontra-se um coeficiente de aglomeração ou agrupamento médio de 0,89
assinalando uma considerável tendência entre os indivíduos para a formação
de vizinhanças, caso seja comparada esta medida com densidade geral (0,18).
Percebe-se que essa rede possui uma distribuição homogênea, porque
compõe-se de indivíduos de diferentes costumes, tradições, hábitos e regiões
distintas.
5.3.1.4. Centralidade
A centralidade é uma medida com ramos estruturais baseados no
mesmo princípio, mas focam aspectos diferentes (às vezes os pontos, às vezes
as conexões). Assim, se apresenta uma análise resumida de vários tipos de
centralidade.
5.3.1.5. Grau de centralidade (degree)
O grau de centralidade mede-se pelas proporções dos pontos vizinhos
(diretamente conectados ao indivíduo central). É uma medida básica, apesar
de ser dependente da vizinhança. Quando a centralização total chegar próximo
de 100% significa que a rede é bastante heterogênea tendo apenas um ou
poucos indivíduos muito centrais e a maioria fica isolada ou com apenas uma
ligação direta aos mais centrais. No caso da rede de 217 participantes, a
centralização foi de 40,96% (grau de entrada) e mostra uma centralização
52
moderada. Essa centralização não possui muitos indivíduos centrais, o que
significa a maior parte dos indivíduos é capaz de conectar-se com outros mais
distantes da rede, um traço demonstrativo das pessoas que tendem a ser
independentes.
5.3.1.6 Proximidade (closeness)
Trata-se de uma medida que explica a proximidade e /ou distância dos
pontos entre si, que se diferencia da anterior, pois se baseia na distância
geográfica entre os pontos. Este tipo de medida considera os pontos da rede
que se ligam, mesmo que as distâncias sejam maiores que um passo direto.
Na rede de 217, o índice foi de 87,18%; como se localiza perto de 100%, o que
se vê nessa medida é um grau de heterogeneidade maior. Essa medida
interpreta-se geralmente como um indicador da capacidade de controlo ou de
não estar sob o controle de outros. Desse modo, uma alta medida significa, por
um lado, que os pontos são mais independentes.
5.3.1.7. Intermediação (betweeness)
É uma medida específica para a intermediação. Quanto maior o poder de
língua, afinidade cultural, vínculo étnico, dentre outros requisitos, tiver um
atravessador em relação a seus concorrentes, maiores são as vantagens
durante a negociação com os líderes comunitários e caçadores. Pode-se ver
neste caso que a medida é muito baixa (em torno de 4%), o que é esperado
quando se tem uma rede média ou grande, como essa constituída por 217
atores. A maioria dos intermediários é de outros municípios e possui poucas
afinidades culturais com os nativos da região. Em seguida será apresentada
uma análise através dos gráficos produzidos a partir de um programa da
UCINET de redes sociais.
53
5.3.2. Análise de visualização dos atributos
Observando o gráfico da Figura 12, é possível notar as diferenças que
marcam as relações entre os grupos dos caçadores dos dois municípios e os
líderes, que também são caçadores. A interposição dos atores mostra que o
grupo social da esquerda, Fula, possui mais líderes caçadores do que o da
direita, onde a sua maioria é do grupo social Balanta.
As possíveis razões do índice de os líderes participarem da caça são de
interesse comercial porque em Cacine, grande parte das aldeias está próxima
dos centros urbanos, uma facilidade de acesso ao mercado da demanda da
carne de caça. Os líderes se unem e fortalecem o comércio, aproveitando as
duplas funções políticas, sociais enquanto autoridades dos líderes caçadores.
Participam ativamente da cadeia e das atividades que facilitam o comércio da
carne caçada. Diferentemente, o grupo social da direita (Cubucaré), composto
predominantemente por Balantas, possui um menor número de líderescaçadores.
A baixa participação e envolvimento comercial desses líderes explicamse pelo fato de a atividade de caça nesta região estar voltada para a
sobrevivência. Associa-se a isso a distância que separa a região do centro
urbano. Por fim, os dois têm em comum um núcleo, os atravessadores. Estes,
por sua vez, não enfrentam muitas dificuldades em suas operações na região
de Cacine, por causa do envolvimento dos líderes nas atividades da caça e do
comércio.
54
Fig.12: Funções dos caçadores e não Caçadores dentro da cadeia
- não caçador
- caçador
O gráfico da figura 13 representa os municípios (Cubucaré e Cacine) e
outros municípios de onde vieram os atravessadores com suas influências do
poder aquisitivos sobre os habitantes de Cacine e Cubucaré; estas influências
são capazes de levar os líderes a aceitarem as propostas. Os atravessadores
vêm de distintas partes do país e não residem nos dois municípios nos quais se
realizam a caça e o comércio. A rede de contato inicia-se com a intermediação
dos próprios líderes, pois sem a autorização destes, a interação torna-se difícil.
Assim, o envolvimento dos líderes comunitários de Cacine na atividade facilita
o desenvolvimento das negociações e da efetivação.
À semelhança da interatividade da sobreposição acima, a questão
econômica leva muitos aderirem a esta atividade. A influência dos municípios
que não são da região, como é caso de Bissau, Catio, Buba e Bambadinca, é
muito forte, porque são cidade nas quais moram os donos de bares e
restaurantes especializados nos pratos típicos de carne de caça. Então, os
atravessadores partem desses municípios em direção às regiões onde se
55
realiza a caça, para atender a demandada dos donos desses estabelecimentos
gastronômicos.
Fig.13: Relação dos municípios participantes na cadeia de caça
- Cacine,
- Cubucaré,
- Buba,
- Bissau,
- Catio,
- Banbadinca
A figura 14 mostra que os atravessadores e líderes não caçadores estão
mais aglomerados e conectados entre si, de um lado. De outro, revela os tipos
das espécies caçadas. Nota-se que os caçadores da mesma espécie estão
bastante distantes entre si, o que não os obriga à disputa pela mesma
mercadoria. Exceto se esta constituir a demanda dos atravessadores, que são
catalisadores e promotores da cadeia comercial, pois determinam a espécie a
ser caçada, bem como as condições e circunstâncias de todo o processo. De
acordo com o gráfico, os babuínos (Papio papio) são presas preferidas, fato
que denota a ameaça de extinção dessa espécie e que caminha paralelamente
com a falta de políticas de conservação e exploração sustentáveis.
56
Fig.14: Relação entre as espécies caçadas, caçadores e mercado de caça
Pan troglodydes,
Colobus polykobus,
Papio papio,
Cercophitecus pentaurista,
Cercophitecus mona,
Cercophitecus aethiops,
Colobus badius,
(líderes não
caçadores e atravesadores)
A figura 15 ilustra a interação e os papéis dos atores no cenário do
mercado de caça. As funções e as políticas de mobilização e o engajamento
plasmam o processo que se inicia geralmente com a presença dos
atravessadores. Ao chegarem às comunidades, apresentam aos líderes locais
as propostas de compra: espécie, o volume da mercadoria e o seu preço pelo
qual eles se dispõem a pagar, sempre visando obter vantagens expressivas. A
figura também permite identificar os moradores dispersos e periféricos,
influenciados pelos líderes.
Essa dispersão, em grande medida, enfraquece a unidade, o poder de
decisão e estipulação do preço da mercadoria a se negociar primeiramente
com os líderes e posteriormente com os atravessadores. Pode-se ainda
constatar uma relativa dispersão dos líderes, a qual contribui para o
57
fortalecimento do núcleo da cadeia, os atravessadores, que impõem as
condições comerciais, tipo de mercadoria, formas de pagamento e os preços.
Uma
das
alegações
dos
atravessadores
relaciona-se
com
as
dificuldades do alto custo do transporte, conservação e os riscos da perda da
mercadoria em decorrência da fiscalização. As justificativas às vezes são
aceitas, pois os caçadores estão conscientes da ilegalidade que grassa na
cadeia, principalmente no período da reprodução, bem como as tentativas dos
subornos aos fiscais.
Fig.15: Definição dos papéis dos atores da cadeia de caça
Atravessadores,
líderes comunitários,
caçadores e moradores ( líderes caçadores)
O gráfico da figura 16 revela organizações étnicas com suas tradições,
costumes e rituais. Essas organizações dividem-se em dois tipos de estruturas
sociais: vertical (Fulas, Soussos, Tandas) com um chefe tribal (régulo), que
decide pela comunidade, e é obedecido pelo restante da pirâmide. Essa forma
organizacional facilita as negociações entre líderes, atravessadores e os
58
caçadores, uma vez que os hábitos de obediência ao régulo cooperam para
que a tarefa dos líderes dos caçadores seja eficiente.
A estrutura horizontal (Balantas, Nalus, Djacancas) não possui
representante (régulo).
As decisões comunitárias são tomadas a partir do
consenso dos anciãos. A diferença reside em não haver uma figura que
simbolize o poder absoluto, ou seja, aquele poder sociopolítico que se
centraliza numa única pessoa. Assim, nas aldeias nas quais predominam
grupos sociais com um chefe, as negociações tendem a tornar-se mais fáceis,
como é o caso do município de Cacine, à esquerda.
Fig.16: Organizações étnicas
Fulas,
Balantas,
Tandas,
Djacancas,
Nalus,
Bijagós,
Papéis,
Soussos
No município de Cubucaré, à direita, predominam estruturas horizontais.
Desse modo, as dificuldades dos atravessadores e dos líderes dos caçadores
devem-se ao fato de a decisão depender do consenso democrático. Ou seja,
as manipulações tanto dos atravessadores, quanto dos líderes dos caçadores
surtem menos efeitos econômicos nefastos para os caçadores onde a
horizontalidade é predominante. Relevante e crucial é sublinhar a questão das
59
afinidades étnicas e o domínio lingüístico do atravessador, isto é, a negociação
pode ser facilitada ou prejudicada pelo fato das origens étnicas do
atravessador: se ele pertence ou não àquele grupo social, sua fluência
lingüística e a proximidade dialetal. Do contrário, corre-se o risco pelas razões
e motivos ora mensurados. Portanto, além dos fatores econômicos, a
negociação comercial é influenciada pelos princípios étnicos, pela localização
geográfica, dentre outros requisitos.
Fig.17: Identidade dos atores participantes das entrevistas durante o levantamento de dados
atravessadores e líderes não caçadores,
líderes caçadores, caçadores e moradores
O gráfico da Figura 17 facilita a identificação dos atores quanto à origem étnica,
função, município ou aldeia. A partir dados identitários, pode-se desenvolver
melhor as ações políticas educativas, um aliado importante para a exploração
sustentável. São dados que contribuem na maneira da atuação diferenciada,
pois cada ator ou grupo envolvido na cadeia de caça requer sua especificidade,
visto que as tradições, os costumes e rituais culturais diferenciam-se umas das
outras.
60
Fig.18: Ausência das conexões entre os atores
Líderes,
atravessadores,
caçadores e moradores
Nos gráficos anteriores, as conexões aparecem em toda a cadeia, ainda
que de forma frágil. Entretanto, na figura 18, as conexões estão ausentes, pois
não se vê qualquer vínculo entre os atores, o que indicaria um ponto fraco de
cada setor. Por outras palavras, caso o governo guineense queira controlar,
coibir e estancar a prática não sustentável da caça, pode facilmente controlar
as ações ilícitas dos atravessadores, líderes-caçadores e caçadores. O
primeiro setor a se combater são os atravessadores, núcleo da cadeia.
Conseqüentemente, se desmembra o esqueleto, uma vez que os
caçadores ficariam sem os compradores e a caça restringir-se-á à subsistência,
que é uma atividade menos agressiva ao meio ambiente se comparada àquela
que se destina ao mercado. A política governamental precisaria criar uma
alternativa para suprir as necessidades dos moradores, criando, igualmente,
programas educativos que valorizem a natureza, a consciência ecológica e
uma exploração sustentável (ecoturismo, parques ecológicos, unidades de
conservação etc.).
61
6. CONCLUSÃO
62
Ao final da abordagem deste trabalho concluiu-se que a caça no sul da
Guiné é considerada um problema devido à situação geográfica dos municípios
de Cacine e Cubucaré. São regiões distantes da capital e de difíceis acessos,
um dado que se soma à proximidade da Guiné Conakry, um país cujo sistema
de fiscalização é eficiente. Aliada a essas preocupações destaca-se a
facilidade de trânsito humano, uma vez que o fluxo e o refluxo tanto dos
caçadores nacionais quanto dos estrangeiros são fáceis.
Os atravessadores desempenham papel muito importante na promoção
da caça na região, pois estabelecem o nexo comercial entre dois segmentos:
caçadores, e os bares e restaurantes dos centros urbanos. Os líderes também
são influentes dentro da cadeia, principalmente os líderes caçadores, visto que
apóiam os atravessadores nas negociações da caça e exercem influências nas
suas comunidades, isto é, as sociedades verticais.
A distribuição dos grupos sociais pelo país, as práticas religiosas, os
costumes e demais aspectos tradicionais abarcam vantagens e desvantagens,
na medida em que nas sociedades horizontais (Balantas, Djacancas e Nalus),
as que não possuem um líder comunitário (régulo), ocorre também a caça, mas
esta volta-se para a provisão familiar. O tráfico dos filhotes dos chimpanzés,
neste grupo social é de baixo índice, caso comparado com as sociedades
verticais. Nas sociedades verticais, as que possuem um líder comunitário
(régulo). As decisões deste tendem a ser cumpridas pela aldeia. É uma figura
social digna de toda a honra e que não se pode contrariá-lo. Neste caso das
comunidades islâmicas (Fulas, Tandas, Soussos), o respeito às solicitações
dos líderes é desastroso, pois os atravessadores recorrem a eles para que
influenciem os caçadores. Os pedidos são muito mais observados quando
alguns líderes pertencem à classe dos caçadores. Por essa razão, os
atravessadores os procuram para conseguirem carne dos primatas ou filhotes.
A questão étnica tem demonstrando sua relevância na cadeia de caça.
Por exemplo, as pessoas que se aderem à religião muçulmana caçam os
primatas para a venda e não para o consumo, por esses animais pertencerem
aos tipos de carne abomináveis a essa crença religiosa. Apesar de não
63
consumirem a carne dos primatas, os muçulmanos constituem a maioria dos
caçadores em relação às outras étnias. O interesse pela caça deve-se ao fato
de ser um povo com hábitos comerciais. As etnias animistas caçam algumas
espécies de primatas para o consumo, embora comercializem a carne em
menor índice.
Entre as espécies caçadas, os babuínos (Papio papio) são mais
procurados pelos atravessadores devido à demanda da carne destas espécies
no mercado. Segundo os entrevistados isso se deve ao sabor da carne,
características que aumentou a pressão de caça sobre essa espécie. O
chimpanzé (Pan troglodites) não é caçado para o consumo, mas para o tráfico
dos filhotes comercializados ilegalmente em países vizinhos. Para se capturar
os filhotes, os caçadores na maioria dos casos matam a mãe, o que aumenta
a ameaça sobre essa espécie. Somam-se a isso as importações direcionadas
para as aldeias das fronteiras.
As condições boas das estradas e a localização de algumas aldeias de
Cacine é um componente que favorece a caça e a procura para o consumo dos
centros urbanos. São fatores que atraem e interessam aos atravessadores, ao
contrário das dificuldades encontradas em Cubucaré, município desprovido de
boas estradas. Os atravessadores, com suas propostas, contribuem para o
desequilíbrio da fauna e flora nacionais, uma vez que os moradores da região
sul, por não possuírem outra fonte renda, tornam-se alvo fácil para praticar a
caça dos primatas.
A pesquisa traz alguns resumos dos relatórios da UICN (União
Internacional da Conservação da Natureza) e da WWF (União Mundial para a
Conservação), que cooperam para a discussão acadêmica no que se refere à
política da conservação do meio ambiente. São documentos pelos quais se
podem inferir as conseqüências dos desflorestamentos e do desequilíbrio da
biodiversidade na Guiné-Bissau e, conseqüentemente, da costa ocidental da
África. Os gráficos, as fotografias e os mapas são excelentes ferramentas na
leitura das preocupações e os objetivos deste trabalho, pois reúnem dados
coletados durante a pesquisa de campo.
64
Pode-se resumir o trabalho em dois grandes blocos, a saber: a
exposição da temática que se subdivide em abordagens gerais e as
necessidades prementes de cunho pedagógico. Viu-se que a iminente ameaça
às espécies deve-se aos fatores econômicos, isto é, caça-se na Guiné-Bissau
para a venda legal e ilegal da carne dos primatas para a provisão familiar e,
paralelamente a essa atividade, desenvolve-se o tráfico dos filhotes. Outro
elemento abordado, quanto ao desequilíbrio da biodiversidade, são as
monoculturas, as queimadas e a fiscalização ineficiente. O segundo bloco do
trabalho compõe-se das propostas e as alternativas para a exploração
sustentável da fauna e flora nacionais. Nestas propostas percebe-se que a
educação dos sujeitos ecológicos terá sua validade quando as autoridades
oferecerem opções para que as comunidades obtenham as provisões. Do
contrário, a progressão do desequilíbrio ambiental ocorrerá implacavelmente.
Sugeriu-se ao governo da Guiné-Bissau um diálogo com diversos
segmentos nacionais que atuam nas políticas de conservação do meio
ambiente, organismos internacionais (UICN, WWF) e igualmente sugeriu-se às
autoridades guineenses um diálogo com alguns países que possuam
experiência de políticas ambientais, para que se faça o aproveitamento dos
recursos naturais, respeitando os princípios da Biologia da Conservação. Um
exemplo seria o Senegal que, em alguns casos, foi citado como modelo pelo
fato de as suas leis terem eficácia. Nesse país proíbe-se a caça e o tráfico de
vida silvestre, especialmente dos primatas.
Este trabalho é uma contribuição no que diz respeito às preocupações e
debates que têm constado das políticas de conservação ambiental. Precisamse aprofundar as análises e estimular as autoridades guineenses objetivando a
execução
das
propostas
da
Biologia
da
Conservação,
Sociologia,
Paleontologia, Ecologia, dentre outras áreas voltadas à preservação do meio
ambiente.
A análise das redes sociais foi fundamental para esta pesquisa porque
facilitou a compreensão dos laços e inter-relações existentes dentro da cadeia
de caça de primatas em Tombali. Através das análises de redes sociais pode65
se afirmar que os atravessadores são promotores principais que influenciam
todos outros atores da cadeia. Ainda permite diferenciar os grupos sociais de
acordo com suas crenças, rituais e outras práticas culturais, sobretudo, na
maneira como cada grupo social vê e age na atividade da caça dos primatas.
As conexões e interações geralmente são estáveis, embora o critério de
afinidade seja muito importante no desenvolvimento e eficiência nos negócios.
Havendo um bom ambiente interativo, pode-se dizer que haverá também uma
relação mútua entre os atravessadores e líderes caçadores, uma vez que estes
líderes são facilitadores das propostas dos atravessadores dentro das
comunidades. A rede social não só mostrou como alguns atores estão
conectados entre si, mas também a fragilidade conectiva entre os caçadores,
pois estes estão dispersos e desunidos, ao contrário dos atravessadores e
líderes caçadores; ou seja, a desunião dos caçadores constitui um ponto fraco
deste setor por causa da sua dispersão demonstrada dentro da cadeia.
Os atravessadores são mais conectados, por isso as suas ações são
mais influentes dentro da rede, isso explica a alta pressão de caça na região,
que aumentaria o impacto ao meio ambiente. Ora, esse impacto soma-se a
outros fatores externos ao país, por exemplo, a influência do deserto do Saara,
que já atinge países da região, tais como Mauritânia, Mali, Senegal e que
possa se agravar devido à situação geográfica do país, que sempre recebe a
influencia da desertificação vinda do deserto acima referido. Portanto, a partir
das análises das redes sociais, pode-se chegar à conclusão da necessidade da
elaboração de propostas e alternativas práticas, respeitando os princípios
étnicos, culturais, religiosos de cada grupo social para minimizar o impacto de
caça e uso dos recursos naturais de forma sustentável.
66
7. PROPOSTAS
67
Com base nos objetivos deste trabalho e nas abordagens dos capítulos
anteriores, passa-se a apresentação de algumas propostas e alternativas como
estratégias para integrar a proteção efetiva das políticas de conservação da
fauna e flora na região sul, Cacine e Cubucaré e da biodiversidade nacional de
forma geral.
É importante considerar que as atividades de subsistências influenciam
no processo da desertificação, poluição ambiental, ameaça às espécies de
algumas plantas, animais e dos relevos, uma vez que as populações locais
aproveitam-se dos recursos disponíveis para a provisão das famílias face à
falta das alternativas sociais.
Diante desse quadro, esta pesquisa interessa-se por apresentar as
seguintes propostas:
1) A primeira proposta é a educação ambiental para a formação do
sujeito ecológico, pois é o principal instrumento para conscientizar as
comunidades locais no uso dos recursos naturais de uma forma sustentável.
Esta proposta responde aos interesses e aos objetivos dos programas dos
anos inicias da formação da consciência ecológica guineense.
2) Outro aspecto da proposta educacional é organizar programas de
ensino sobre a consciência ecológica, aproveitando-se aspectos positivos das
diversidades culturais, sem as destruir. É possível estimular as aldeias a se
sentirem envolvidos e comprometidos com a exploração sustentável da região
em que estão inseridas, para que haja um equilíbrio entre a natureza e os
seres humanos, ou seja, criação de projetos integrados de conservação –
desenvolvimento (Primack; Rodrigues, 2001).
3) O segundo setor que necessita da eficiência das políticas de
conservação da vida silvestre, especialmente dos primatas que habitam as
florestas da Guiné-Bissau, é o setor da produção agrícola. Apoiar as
comunidades locais nas suas produções, oferecendo-lhes variedades das
sementes com maior produtividade. O apoio pode se estender à melhoria e
aumento da criação de animais domésticos como suprimento protéico, o que
diminuiria
a
caça.
É
fundamental
intensificar
as
campanhas
cívico68
educacionais, por exemplo, ka bu kema matu (não queime o mato), por causa
das necessidades do equilíbrio ecológico, da ameaça à vida silvestre, bem
como da falta de chuvas que acelera e acentua o processo da desertificação
que já atinge os países da região (Senegal, Mali, Guiné Conakry, Gâmbia).
4) As políticas de alternativas na produção de bio combustíveis
(combustíveis de efeitos nocivos à saúde humana e ambiental em menor grau)
podem contribuir na desaceleração da extinção dos primatas, porque a
população passa a ter opção para angariar recursos de sobrevivência. O
artesanato, a cerâmica, as esculturas, pinturas, artes, confecção de panos e
tecidos, e a apicultura constituem possibilidades de rendas que não põe em
risco os primatas ameaçados no sul da Guiné-Bissau.
5) Encorajar o ecoturismo numa ou mais áreas protegidas no sul da
Guiné-Bissau pode ser acrescentado às propostas desta pesquisa, a fim de
diminuir os impactos das queimadas e da exploração não sustentável, visto que
a diversidade da paisagem e a importância biológica deste pequeno país
podem acomodar vários projetos de conservação, dependentes do ecoturismo.
O ecoturismo geraria também rendimentos para comunidades locais,
sem o risco de aumentar seriamente os problemas de caça ilegal. Os
programas de ecoturismo informais já se estabeleceram pelas populações
locais, como é o caso de Iemberem (Duvall 2003). Qualquer programa deste
tipo seria extremamente estimulante num país com poucas infra-estruturas, e
por isso valeria a pena investigar.
Acredita-se que o stress pode tornar os primatas mais vulneráveis às
doenças. Desse modo, qualquer projeto de ecoturismo precisa ser bem
investigado, estudando-se regulamentos técnicos bem definidos. Uma das
possibilidades práticas é instruir e transformar os caçadores em guias
turísticos, como uma forma de captação de renda.
6) As propostas desta pesquisa podem abranger ainda a melhoria da
conservação do pescado na região de Cacine e Cubucaré. Pode-se também
melhorar o escoamento desse pescado, para que as comunidades possam
conseguir ter nova fonte de riqueza e de provisão de outros produtos básicos.
69
criar viveiros para diferentes espécies de peixes, uma excelente fonte de
nutrientes de menores riscos à saúde.
As alternativas apresentadas poderiam contribuir na redução da pressão
sobre os recursos naturais explorados de modo não sustentável, visando o
equilíbrio ecológico. Do contrário, os primatas das florestas guineenses, em
breve, constarão da lista das espécies já extintas nacionalmente, e
possivelmente em países vizinhos (Cf. as fotos dos animais em extinção
Portanto, o interesse desta pesquisa é o de que as propostas
apresentadas e as abordagens possam ser úteis para as populações dos
municípios de Cacine e Cubucaré, região sul da Guiné-Bissau, e que
encontrem tanto o amparo quanto o interesse por parte das autoridades
guineenses. Isto feito, pode-se dizer que se conseguiu reunir de forma
equilibradas a produção e reflexão sobre o conhecimento, seu o ensino e sua
extensão e aplicação social.
70
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73
GLOSSÁRIO
Aulé: Na língua balanta é o termo que designa uma divindade com poderes
sobrenaturais (deus), capaz de fazer o bem em benefício social ou o mal.
Balantas: o nome refere-se ao grupo social pertencente ao eixo horizontal, isto
é, sem estratificação social. As decisões são tomadas por anciãos É o grupo
que mais participou da luta armada pela independência, porque habita as
regiões nas quais se desencadearam ações militares contra as tropas
portuguesas. Concentram-se mais no sul da Guiné-Bissau, apesar da presença
em outras regiões do país.
Bideru: a palavra diz respeito a alguém que sobrevive através da
comercialização de algum produto. É o mesmo que intermediário ou
atravessador, porque compra mercadoria e a revende a terceiros.
Bijagós: é grupo social que habita no arquipélago que leva o mesmo nome do
grupo. Pertencem ao eixo horizontal.
Bolanha: é alagado (terreno pantanoso) onde se desenvolve o cultivo de arroz,
principal item da alimentação nacional.
Dari: nome que na língua mais falada nacionalmente, crioulo, se usa para
designar o chimpanzé.
Fulas: um dos grupos sociais com maior densidade populacional, à
semelhança dos Balantas. É originário da África do Norte. Dedica-se às
atividades comerciais, inclusive comércio exterior.
São praticantes do
islamismo, tais como, os Mandingas, os Biafadas, os Saracolés. É nesse grupo
e outros que se aderem a essa crença religiosa que ocorre a excisão clitoriana
(circuncisão feminina – um ritual em que as participantes ficam reclusas
durante algum). A circuncisão, fanadu (em crioulo), é um ritual de
emancipação, com traços que se diferenciam de uma etnia para outra.
Iran: Na língua crioula, a palavra é utilizada para se referir a Aule, a divindade
de poderes sobrenaturais para fazer o bem ou o mal.
74
Ka bu kema matu:
o termo diz respeito a um apelo: a conservação das
florestas (mato). Sua tradução livre da língua crioula para a portuguesa seria:
“não queime o mato”.
Papéis: é um grupo social que primeiro ocupou Bissau. O nome correto da
cidade na língua papel é Ussau, mas por processo da corrupção lingüística, por
parte dos colonizadores, passou-se a chamar a cidade de Bissau. O nome do
grupo deve-se a um episódio: na época colonial, recrutavam-se os indivíduos
desse grupo para trabalhos, e ao final do dia entregava-se-lhes os tickets que
seriam reembolsados em dinheiro no final de cada mês trabalhado. Mas como
os trabalhadores eram analfabetos e desconheciam as datas (quando ocorreria
exatamente o fim do mês), resolvia levar diariamente os tickets (papéis) à
Administração dos serviços, que sempre alegava: o pagamento só será
efetuado no final do mês. Como já eram rotineiras as idas e as vindas dos
trabalhadores ussaus aonde funcionava a Administração, quando, de longe,
apareciam esses trabalhadores, os portugueses diziam: “lá vêm os papéis”. Daí
ficou disseminado pelo país o nome do grupo até hoje. É um grupo que habita
em Biombo, Quinhamel, Prábis, dentre outras regiões do território nacional.
Régulo: título atribuído à figura mais importante do grupo, um indivíduo que
política e socialmente ocupa o maior escalão da hierarquia de cada grupo
pertencente a um eixo vertical. Geralmente os indivíduos desse tipo de
estratificação social, pagam ao seu respectivo régulo impostos em tributos
(produtos agrícolas ou em dias de trabalho). Sua opinião é muito honrada e
cumprida sem embargos. Quem o desobedece é visto como um insubordinado.
Portanto, régulo diz respeito ao líder máximo de uma etnia.
Tabanca: nome usado para designar uma aldeia ou um povoado. Também se
utiliza a palavra morança para se referir a à aldeia.
75
ANEXOS
76
Fotografias representativas
Exemplos das entrevistas
77
78
79
80
Download

Bissau - Universidade Federal de Minas Gerais