Artigo Original
Demanda, evasão e desempenho dos candidatos à
Residência Médica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço.
Demand, evasion and performance of the candidates
for Residency in Head and Neck Surgery.
RESUMO
Rui Celso Martins Mamede1
Francisco Veríssimo de Mello Filho2
Hilton Marcos Alves Ricz2
ABSTRACT
Introdução: apesar da positiva inserção dos egressos no mercado
de trabalho, temos observado que o número de inscritos ao
processo seletivo para a residência de Cirurgia de Cabeça e
Pescoço (CCP) vem caindo. Objetivos: analisar possíveis
determinantes que tem levado à não procura pela residência em
CCP de Ribeirão Preto. Métodos: foram coletados do Centro de
Recursos Humanos do Hospital das Clínicas da FMRPUSP: 1 –
informações sobre o número de médicos inscritos, ingressantes e
egressos da Residência Médica (RM) em CCP; 2 – a partir de 1996,
as notas obtidas no exame teórico dos candidatos à CCP e à
Cirurgia Geral (CG). Resultados: de 1958 a 1981, recebemos 28
profissionais e, destes, 20 completaram o programa (0,83/ano). De
1982 a 1992 (acesso direto, com dois anos de pré-requisito em
Cirurgia Geral), recebemos 29 residentes (RM credenciada), ou
seja, 2,6/ano, porém, somente 11 terminaram o programa (1/ano).
De 1993 a 2007 (acesso direto com pré-requisito de um ano de CG
e um de Otorrinolaringologia – ORL), recebemos 44 residentes e
todos terminaram o programa (2,93/ano). Os candidatos à CCP
obtiveram médias maiores que os da CG. Conclusões: a demanda
foi crescente a partir de 1958, mostrando tendência a queda a partir
da exigência do acesso indireto à especialidade; a tendência à
evasão durante o acesso direto com pré-requisito de dois anos de
CG foi maior; o maior número de egresso ocorreu com o acesso
direto e pré-requisito em CG e ORL, quando o desempenho dos
candidatos foi melhor que os da CG.
Introduction: despite the positive access of graduates to the work
market, the number of persons enrolled in the selective process for
the residency in Head and Neck Surgery (HNS) has been falling.
Objectives: to analyze the possible determinants that led to failure
to enroll in the HNS residency program. Methods: the following
data were collected at the Center of Human Resources: 1 –
information about the number of doctors enrolled, entering and
leaving the Medical Residency (MR); 2 – the notes obtained by
candidates to HNS and to General Surgery (GS) starting in 1996.
Results: from 1958 to 1981 we received 28 professionals, 20 of
whom completed the program (0.83/year). From 1982 to 1992
(direct access; prerequisite of 2 years of GS), we received 29
residents (accredited MR), i.e., 2.6/year, but only 11 concluded the
program (1/year). From 1993 to 2007 (direct access with a
prerequisite of 1 year of GS and 1 of Otorhinolaryngology – ORL),
we received 44 residents, all of whom concluded the program
(2.93/year). Candidates for HNS obtained higher means than GS
candidates. Conclusions: there was a growing demand since
1958, followed by a tendency to a fall with the requirement of
indirect access to the specialty; the tendency to evasion during
direct access with a prerequisite of 2 years of GS was greater; the
largest number of candidates who completed the residency
program occurred with direct access and with the prerequisite in GS
and ORL, when the performance of HNS candidates was better
than that of GS candidates.
Descritores: Ensino. Internato e Residência.
Key words: Teaching. Internship and Residency.
INTRODUÇÃO
A Cirurgia de Cabeça e Pescoço (CCP) é a área do conhecimento que estuda os tumores benignos e malignos da face e
pescoço. É relativamente nova, pois a Sociedade Brasileira de
Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) existe há apenas 40
anos e poucos são os serviços que oferecem programas de
Residência Médica, sendo atualmente 22 os credenciados pela
SBCCP e pelo MEC1. Portanto, trata-se de especialidade com
limitado número de profissionais prontos no Brasil e, por outro
lado, com o mercado de trabalho promissor em cidades de
médio e grande porte.
O treinamento de profissionais em Cirurgia de Cabeça e
Pescoço pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP USP)
teve início em 1957 (há 50 anos) e já passaram pelo programa
101 profissionais. Atualmente, oferece três vagas para médicos
com dois anos de Cirurgia Geral, em um programa de 2880
horas anuais, dos quais 15% estão reservados a atividades
teóricas. Com essa carga horária, o treinamento prático é
intensivo, perfazendo 60 horas semanais, fazendo com que o
residente termine o programa com grande experiência nas
principais cirurgias da área. Além disso, o residente é treinado
para atuar em trauma de cabeça e pescoço e em cirurgia de
base do crânio. O residente poderá estender seu programa em
um ano a mais, para aquele interessado no treinamento em
maxilo-buco-mandibular, junto ao Centro Integrado de Estudos
das Deformidades da Face (envolve a FMRP e Faculdade de
1. Professor Titular da Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
2. Professor Doutor da Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
Instituição: Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, Brasil.
Correspondência: Rui Celso Martins Mamede, Rua Nélio Guimarães, 170 – 14025-290 Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail : [email protected]
Recebido em: 01/10/2007; aceito para publicação em: 10/01/2008; publicado online em: 12/02/2008.
Conflito de interesse: nenhum. Fonte de fomento: nenhuma.
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Rev. Bras. Cir. Cabeça Pescoço, v. 37, nº 1, p. 6 - 9, janeiro / fevereiro / março 2008
Odontologia) e estágios em reconstrução em cabeça e
pescoço (R5 da especialidade autorizado pela Comissão
Nacional de Residência Médica).
Os egressos desse programa estão distribuídos em todo o
território brasileiro e, apesar da positiva avaliação sobre a
inserção no mercado de trabalho, temos observado que, ao
longo dos últimos anos, o número de inscritos ao processo
seletivo para a especialidade vem caindo. Diante disso, o
objetivo desse estudo foi de analisar possíveis determinantes
que tem levado à não procura pela residência em CCP de
Ribeirão Preto.
MÉTODOS
A coleta de dados foi feita através de busca de informações
sobre o número de indivíduos que ingressaram na Residência
de CCP, a partir de 1958, no Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Como no início das atividades a Residência não era regulamentada, a instituição não mantinha arquivos sobre essa
especialização, por isso, os dados anteriores a 1982 foram
obtidos a partir de contatos com colegas que tiveram oportunidade de vivenciar a especialidade. Pelos mesmos mecanismos, detectamos os nomes dos profissionais que completaram
o programa, tornando-se especialistas em CCP (segundo o
MEC).
Para o alcance dos objetivos a partir de 1982, foram coletados
os seguintes dados do Centro de Recursos Humanos do
Hospital das Clínicas: informações sobre o número de médicos
inscritos, ingressantes e egressos da Residência Médica em
CCP; e, para a avaliação de desempenho no processo seletivo,
foram tomados dados a partir de 1996, ocasião em que o CRH
começou a arquivar tais resultados. Assim, os dados de
desempenho são relacionados às notas obtidas no exame
teórico dos candidatos à CCP e à Cirurgia Geral (CG).
RESULTADOS
De 1958 a 1981 (total de 24 anos), recebemos 28 profissionais
e, destes, 20 completaram o programa, sendo que três eram
bolivianos e um panamenho, ou seja, 0,83 em média por ano
(figura 1). Dois bolivianos retornaram ao país de origem,
enquanto os demais estrangeiros estão no Brasil. Dos 20
egressos, muitos atuam na área da Endoscopia peroral, que foi
um dos braços de onde originou a CCP em Ribeirão Preto.
ano, em média). Como a legislação permitia, depois de dois
anos de especialização em CG, o profissional recebia o título da
CNRM de especialista em CG e abandonava o programa.
Figura 2 - Média anual de residentes que finalizaram o programa de
CCP. Acesso direto, sem pré-requisito (1958-81). Acesso direto com
pré-requisito de dois anos em cirurgia geral (1982-92). Acesso direto
com pré-requisito de um ano de CG e ORL.
A partir de 1993 e após autorização da SBCCP e da CNRM, o
programa de Ribeirão Preto passou a fornecer, como prérequisito, um ano de CG e um ano de ORL. Nesses 15 anos
(1993-2007), recebemos 44 residentes e todos terminaram o
programa, com média de 2,93 por ano – figura 3.
Figura 3 - Média das notas dos candidatos à CCP (azul) e à CG (vinho)
de 1996-2007. Notas obtidas na prova teórica do processo seletivo à
Residência Médica (questões sobre Cirurgia, Clínica Médica, Medicina
Social, Pediatria e Ginecologia e Obstritetrícia). Em 2004 e 2005 não
houve seleção para CCP.
No processo de seleção para acesso à residência médica, as
provas escritas do HC da FMRP USP contêm 100 testes com
temas sobre as áreas básicas em medicina (Ginecologia e
Obstetrícia, Cirurgia Geral, Clinica Médica, Pediatria e Medicina
Social). Os médicos candidatos ao programa em CCP obtiveram médias crescentes, de 4,5 a 6,8, de 1996 até 2003. Pela
figura 4, é possível verificar que de 1996 a 1999 as médias
obtidas pelos candidatos a CCP era menor que a dos candidatos à CG, contudo, a partir de 2000, esta tornou-se maior.
Figura 4 - Número de candidatos à CCP, de 1996 a 2007 (nos anos
2004 e 2005 não houve seleção para CCP).
Figura 1 - Número de residentes que completaram o programa de 1958
a 2007.
Em 1982, iniciou-se a Residência Médica credenciada pelo
Governo Federal, mantendo o acesso direto para a CCP,
porém, exigindo dois anos de pré-requisito em CG. Desta data
e até 1992, recebemos 29 residentes, ou seja, 2,6 por ano
(figura 2), todavia, somente 11 terminaram o programa (1,0 por
Nesse período, o número de inscritos por ano na área de CCP
variou de 8 a 21, no entanto, a partir de 2003 esse número não
ultrapassou seis. Em 2004, por imposição da CNRM e aconselhada pela SBCCP, o acesso passou a ser indireto, com a
exigência que o profissional viesse com o pré-requisito de dois
anos em CG, ou seja, já com o título de especialista. Diante
dessas mudanças, nos anos 2004 e 2005 não houve seleção
para CCP, pois os residentes já estavam na instituição cursando
o pré-requisito. A partir dessa data, o número de candidatos
inscritos diminuiu para seis em 2006 e cinco em 2007 e a média
7
das notas dos candidatos diminuiu, voltando a igualar-se ou a
ser menor que a da CG. Deve-se frisar que, dos cinco candidatos que compareceram ao concurso em 2007, nenhum
permaneceu no programa. Houve a necessidade de seleção
em segunda época e, mesmo assim, somente uma das três
vagas foi preenchida (figura 4).
DISCUSSÃO
Segundo Goldwasser2 e Martins3, a residência médica, modelo
de pós-graduação baseada no treinamento em serviço, deve
preparar o egresso da faculdade de medicina para atuar no
mundo real do mercado de trabalho, fornecendo a ele, além dos
conhecimentos e habilidades necessários, o treinamento para
assumir responsabilidades e para expressar reações aos
eventos inesperados. Com a inscrição do primeiro estagiário,
uma médica, a residência em CCP do HCFMRP USP iniciou-se
em 1958. Nessa época, o período de treinamento era de 12
meses. De 1958 a 1981, ocorreram alterações no programa,
pois passou para 24 meses e depois para 36 meses de
duração, com conteúdo exclusivo em CCP. Desde então, o
programa formou 101 médicos em CCP.
Até 1981, o número de profissionais que ocupava as três vagas
do programa era inconstante porque tratava de especialidade
nova no mercado de trabalho. Acresce a isso o fato de que o
número de graduandos em medicina era muito menor, pois
existiam, no país, somente 62 faculdades de medicina, em
contraste com as 167 na atualidade. Ademais, a locomoção dos
médicos de regiões distantes era muito dispendiosa para os
ganhos da época. Muitos dos que iniciavam o programa não
terminavam, pois não havia a cultura da Residência Médica
para obter um bom emprego e, quando o residente encontrava
possibilidade de emprego, abandonava o programa. Acrescese que a certificação do título de especialista junto às sociedades médicas (a partir de alguns anos de experiências na área)
era, em alguns casos, o exigido para conseguir-se emprego.
Após a exigência de credenciamento da Residência Médica
pelo Governo Federal, implantado em 1982, a procura pela
especialidade nos três programas formadores de residentes
em CCP existentes naquela época aumentou. Entretanto,
como havia a exigência de pré-requisito de dois anos em CG,
muitos dos que procuravam essa especialidade eram para
receber o título de cirurgião geral e, dois anos depois, abandonavam o programa que deveria ser de quatro anos. Somente 11
tornaram-se cirurgiões de cabeça e pescoço pelo HC da FMRP
USP, em 11 anos (1982-92).
A partir de 1993, o programa de Residência Médica em CCP do
HC de Ribeirão Preto passou a fornecer, como pré-requisito,
um ano de CG e um ano de ORL. Avaliamos que os 12 anos que
se seguiram (1993-2004) foram os mais produtivos, pois
recebemos 44 residentes e todos terminaram o programa, com
média de 2,9 residentes por ano. Nessa fase, nos quatro anos
do programa, incluindo os dois de pré-requisito, o treinamento
do residente abordava atividades crescentes na CCP, ano a
ano, a ponto de, ao concluírem, terem participado ativamente
de mais de uma centena de cirurgias de grande porte da área
de conhecimento da CCP. Acreditamos que a competência
adquirida era a que melhor se adaptava ao competitivo
mercado de trabalho, daí o interesse demonstrado com a
intensa procura pelos graduandos.
Nas provas de seleção à residência de Ribeirão Preto, os
candidatos ao programa em CCP obtiveram, de 1996 a 1999,
médias iguais ou inferiores às obtidas pelos candidatos à CG.
No entanto, depois do ano 2000, houve inversão nesses
valores, pois a CCP passou a ser procurada por candidatos
melhor preparados em teoria que os que procuravam a CG.
Saliente-se que, até 2002, o número de candidatos para CCP
nunca foi menor que oito (1998 e 2002), chegando a ser sete
vezes o número de vagas (21) no ano de 1996. Todavia, em
2003, esse número diminuiu para seis.
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Em 2004, por imposição da CNRM e aconselhada pela SBCCP,
o acesso passou a ser indireto, com a exigência de pré-requisito
de dois anos em CG. A partir dessa data, o número de candidatos passou a ser seis em 2006 e cinco em 2007 e a média das
notas dos candidatos diminuiu, voltando a igualar-se ou ser
menor que a da CG. Deve-se frisar que, dos cinco candidatos
que compareceram ao concurso em 2007, nenhum permaneceu no serviço. Houve a necessidade de seleção em segunda
época e, mesmo assim, somente uma das três vagas foi
preenchida. Nesse ano, houve a necessidade de chamadas
sucessivas dos remanescentes (“correr a lista”), como também
ocorreu na maioria dos serviços formadores, devido às
desistências e incansáveis transferências de um programa para
outro.
A diminuição no número de candidatos depois do ano 2.000
(figura 3) pode ser justificado por duas maneiras: o acesso
indireto e a perda do atrativo dos médicos pela CCP. A diminuição no número de candidatos decorrente do desinteresse dos
médicos pela CCP não explica a queda acentuada no número
dos candidatos para o ano 2006/07, porém, é uma hipótese que
não se pode descartar. Nos últimos 10 anos, no HC da FMRP
USP, observou-se aumento da preferência pelos candidatos a
Residência Médica por Anestesia (+85%), Neurologia (+223%)
e Psiquiatria (+123%) e diminuição por CG (-30%), Ginecologia
e Obstetrícia (-30%), Oftalmologia (-36%), Ortopedia e
Traumatologia (-35%), Pediatria (-15%) e Radiologia (-31%) e
mantiveram-se estáveis a: Clínica Médica, Genética Médica,
Neurocirurgia e ORL. Acreditamos que a demanda por especialidades médicas decorre de uma série de fatores, entre os quais
se incluem aptidões pessoais, oportunidades de trabalho,
níveis de remuneração, o montante do investimento financeiro
necessário para iniciar o exercício da especialidade e a
qualidade de vida oferecida durante o exercício da especialidade. É possível que esteja ocorrendo desinteresse pela CCP por
ser uma especialidade que exige muitas horas de atividades
hospitalar, não só pela demanda de cuidados que o paciente
exige, mas também para a remuneração pelo serviço prestada.
Estudo feito por Gilbert et al.4 com residentes de Obstetrícia e
Ginecologia mostrou que tais residentes estão buscando
estabelecer limites para a vida profissional, tendendo a migrar
para sub-especialidades que permitam rotinas com horários
mais regulares, como a vídeo-endoscopia ou o contato com o
paciente mediado pela tecnologia, como o diagnóstico por
imagem. Para reverter essa situação da CCP, acreditamos ser
necessário tornar a especialidade mais conhecida entre os
graduandos de medicina, mostrando a possibilidade de exercer
as atividades por meio de um trabalho em equipe e mostrar as
sub-especialidades que propiciam melhor qualidade de vida
profissional. Essas medidas seriam capazes de trazer de volta o
interesse dos médicos pela CCP.
O acesso indireto parece-nos a proposta mais ajustada, pois a
diminuição no número de candidatos, em nosso hospital, foi
imediata à sua instalação. Com o acesso indireto, os possíveis
inscritos para a CCP diminuíram, pois, além da retirada de
temas correlatos (temas de ORL), fica restrita àqueles que
tenham treinamento em CG. A suposição de que essa diminuta
população seria constituída de profissionais melhor treinados
parece não estar acontecendo, uma vez que muitos dos
cirurgiões gerais que se inscrevem no concurso para CCP
fazem-no por não encontrarem o emprego desejado. Além
disso, os candidatos que se inscrevem provêm dos mais
variados tipos de serviços formadores em CG e é sabido que
muitos não conseguem manter o nível desejado. Segundo
Bridges e Diamond 5, o custo de um residente da área cirúrgica,
nos Estados Unidos, é de US$ 48 mil, pois envolve a aquisição
de instrumentais de custos elevados. Esse valor inviabiliza a
compra de equipamentos em muitas instituições naquele país,
refletindo em perda de qualidade na formação de seus residentes. Nessa mesma linha, vários autores mostram que o déficit
no aprendizado, muitas vezes, inicia-se até antes, ainda na
graduação, citando como exemplo a falha no ensino da
ressuscitação neonatal, detectada durante o exame de seleção
para a Residência Médica6-8.
Obviamente, no meio desses candidatos existem aqueles com
aptidão e sensibilidade para dedicar-se ao bem estar físico e
mental dos pacientes da CCP, são os idealistas, ou seja,
aqueles que fazem o estágio em CG em instituição conceituada
já pensando em ser um CCP. No entanto, segundo Briane9, o
exame de seleção não consegue detectar essas características, pois priorizam a formação técnica, independendo se o
acesso é direto ou não.
Acreditamos, como Cruz10, que a formação do residente
envolve múltiplos aspectos, como o conhecimento clínico, o
desenvolvimento de habilidades e técnicas, além da capacidade de inovação, mas também do amadurecimento de atitudes
pessoais, éticas e profissionais e isso tudo, consegue-se mais
facilmente em quatro anos de formação. Por isso, somos
favoráveis ao acesso direto em CCP às instituições que têm
possibilidade de fornecer o pré-requisito e que esse prérequisito seja adaptável à estrutura da instituição, sendo um
período em CG.
CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
1. Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Disponível
em: http://www.sbccp.org.br/
2. Goldwasser RS. A prova prática no processo de seleção do concurso
de Residência Médica. Rev Bras Educ Méd. 2006;30:115-24.
3. Martins LAN: Residência Médica estresse e crescimento. São Paulo:
Casa do Psicólogo; 2005.
4. Gilbert ACB, Cardoso MHCA, Wuillaume SM. Médicos residentes e
suas relações com/e no mundo da saúde e da doença: um estudo de
caso institucional com residentes em obstetrícia/ginecologia. Interface
Comun Saúde Educ. 2006;10(19):103-16.
5. Bridges M, Diamond DL. The fi nancial impact of teaching surgical
residents in the operating room. Am J Surg. 1999;177(1):28-32.
6. Carlotti APCP, Ferlin MLS, Martinez FE. Do our newly graduated
medical doctors have adequate knowledge about neonatal resuscitation? São Paulo Med J. 2007;125(3):181-6.
7. Almeida MFB, Guinsburg R, Costa JO, Anchieta LM, Freire LMS.
Ensino da reanimação neonatal em maternidade pública das capitais
brasileiras. J Pediatr (Rio de Janeiro). 2005;81(3):233-9.
8. Foster K, Craven P, Reid S. Neonatal resuscitation educational
experience of staff in New South Wales and Australian Capital Territory
hospitals. J Paediatr Child Health. 2006;42(1-2):16-9.
9. Briani MC. O ensino médico no Brasil está mudando? Rev Bras Educ
Méd. 2001;25(3):73-7.
10. Cruz CHC. Competências e habilidades: da proposta à prática. 2ª
ed. São Paulo: Loyola; 2001.
Os dados desse estudo em relação à Residência Médica em
CCP no HC da FMRP USP permitem concluir que: a demanda
foi crescente a partir de 1958, mostrando tendência a queda à
partir da exigência do acesso indireto à especialidade; a
tendência à evasão durante o acesso direto com pré-requisito
de dois anos de CG foi maior; o maior número de egresso
ocorreu com o acesso direto e pré-requisito em CG e ORL; o
desempenho dos candidatos foi melhor que os da CG quando
do acesso direto com pré-requisito em CG e ORL.
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