ÁREA TEMÁTICA: Trabalho, Organizações e Profissões ENTRE A PROFISSÃO E A COMUNIDADE ACADÉMICA: CONTRIBUTOS PARA UMA CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ORGANIZACIONAL Carvalho, TEresa Doutora em ciências Sociais Universidade de Aveiro [email protected] Sousa, Sofia Branco Doutora em ciências da Educação CIPES – Centro de Investigação em Políticas do Ensino Superior [email protected] 2 de 19 Resumo Existe alguma discussão na literatura sobre a possibilidade de associar a atividade académica a uma profissão Tendo por referência o contexto anglo-saxónico alguns autores criticam a existência de uma ‘profissão’ académica preferindo, em alternativa o termo ‘comunidade académica’. Este termo permite enfatizar a única dimensão em comum a todos os académicos: o conhecimento. Seja ele relativo à sua transmissão (na docência), produção (na investigação), difusão ou aplicação (no serviço). Não obstante a problemática em torno da sua classificação os académicos têm, nos últimos anos, enfrentado desafios importantes decorrentes do impacto das alterações da sociedade em geral e, de forma mais particular, das mudanças nas Instituições de Ensino Superior (IES).Este estudo pretende proceder a uma breve caracterização da comunidade académica em Portugal através de uma abordagem quantitativa assente em dados empíricos recolhidos através das fichas individuais de docentes da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). A análise dos dados permite concluir que a comunidade académica em Portugal é extremamente heterogénea tendo o seu crescimento sido acompanhado de uma crescente segmentação e feminização. Há importantes distinções no sistema com o sub-sector politécnico público a apresentar condições de trabalho mais precárias para os académicos. Não obstante as alterações verificadas no sistema e nas IES, a noção de comunidade académica parece continuar a ser estruturada em torno da conjugação das atividades de ensino e investigação sendo o tipo de conhecimento produzido e a valorização das diferentes formas de o divulgar distinta em função da área científica. Abstract There is a relevant discussion in the literature concerning the possibility to associate academic activities to a profession. Taking the Anglo-Saxon context some authors discuss the possibility of using the term ‘academic community’ in opposition to ‘profession’. The academic community concept allows giving emphasize to the knowledge in its three dimensions: transmission (teaching); production (research), application and diffusion (services). Nevertheless academics have been facing great challenges in the last years due to the impact of general changes in society and, in more specific terms, of changes in higher education institutions. This study intent to develop a brief portrait of academic community in Portugal using a quantitative approach based in empirical data obtained from the teachers’ individual files from the Agency for Assessment and Accreditation of Higher Education - A3ES. Data analysis allows conclude that academic community in Portugal is highly heterogeneous. Academic community increased a lot in the last years turning into a feminized and segmented profession. There are important distinctions within the system with the polytechnic subsystem presenting worst working conditions for these academics. Nevertheless changes in higher education system and institutions, the notion of academic community is still structured around the confluence of research and teaching being the type of knowledge produced and the valorization of different ways to divulgate it distinct between different scientific areas. Palavras-chave: "[ Profissão académica; Comunidade académica; Segmentação; Feminização ]" Keywords: "[ Academic profession; academic community; Segmentation; Feminisation ]" [PAP0746 ] 3 de 19 4 de 19 1. Introdução A profissão académica foi apelidada em 1987 por Harold Perkins de ‘profissão-chave’. O autor pretendia com esse termo, enfatizar a influência e o papel central destes profissionais na sociedade em geral. A associação da actividade académica a uma ‘profissão’ tem sido amplamente discutida na literatura (Altbach, 2000; Askling, 2001; Becher &Trowler, 2001; Enders, 1999; 2001). Tendo por referência o contexto anglosaxónico alguns autores criticam a existência de uma ‘profissão’ académica dado que não lhe reconhecem a existência de boa parte das características associadas às profissões na literatura do campo (Brennan, Locke & Naidoo, 2007). Com isto não pretendemos argumentar a recusa da utilização do termo ‘profissão académica’, mas, pelo contrário, defendemos uma discussão comparativa do termo em relação ao conceito de ‘comunidade académica’. A ‘comunidade académica’, baseada no ethos mertoniano e no próprio conceito de ‘profissão académica’, emerge na sociedade portuguesa como errática (Sousa, 2010) não sendo claro quem constitui a comunidade académica e como se caracterizam os académicos. Tal carácter errático permite-nos enfatizar a única dimensão em comum a todos os académicos: o conhecimento. Seja ele relativo à sua transmissão (na docência), produção (na investigação), difusão ou aplicação (no serviço). Não obstante a problemática em torno da sua classificação os académicos têm, nos últimos anos, enfrentado desafios importantes decorrentes do impacto das alterações da sociedade em geral e, de forma mais particular, das mudanças nas IES. Face aos desafios colocados por estas alterações os académicos são cada vez mais interpretados como meros assalariados, em lugar de ‘profissionais de elite’ (Carvalho, 2012; Musselin, 2004; 2008). Em Portugal os estudos neste domínio são relativamente escassos (Sousa, 2010, 2011; Meira-Soares, 2001; Santiago & Carvalho, 2008; Carvalho & Santiago, 2010). Assim, é objetivo deste artigo contribuir para a discussão desta problemática usando os conceitos de profissão académica e o de comunidade académica para caracterizar o corpo de profissionais das IES em Portugal. Para que se inicie uma discussão mais profunda sobre esta temática importa saber quem são os académicos em Portugal. Esta análise é empiricamente suportada pela discussão de dados quantitativos provenientes de uma base de dados compilada pela A3ES relativa a docentes do ensino superior português. A comparação com estudos anteriores permite-nos analisar e discutir o sentido da evolução deste grupo profissional no contexto nacional. 2. Transformações na carreira académica em Portugal Ao longo dos últimos trinta e cinco anos o sistema e as IES em Portugal foram sujeitas a profundas alterações. Assistiu-se à diversificação do Ensino Superior (ES) primeiro com a criação de um sistema binário através da institucionalização dos politécnicos, mais tarde, com a proliferação de IES privado. Estas alterações no sistema são reconhecidas como tendo permitido o aumento da diversidade da população estudantil, alvo de diversos estudos no contexto nacional. Menos estudados parecem ser os efeitos das reformas do ensino superior nos profissionais académicos e não académicos. Numa perspectiva funcionalista os académicos são tradicionalmente beneficiários de um conjunto de atributos que permitem o uso descomplexado do constructo de profissão para a sua classificação. Possuindo monopólio sobre a criação e uso do conhecimento especializado; autonomia técnica assente no controlo sobre o desempenho das suas tarefas; monopólio sobre a admissão de novos elementos (gatekeeping); um ethos profissional assente na importância do bem público e o reconhecimento social da sua existência enquanto grupo profissional, a sua classificação como grupo profissional emerge como inquestionável (Parsons, 1958, 1972; Freidson, 2001; Parkin, 1979; Murphy, 1988; Johnson, 1972; Dubar & Tripier, 1998; Dubar, 2003). Não obstante, abordagens mais recentes da sociologia das profissões colocam em causa uma perspectiva assente nos atributos preferindo, antes, centrar-se nos processos sociais que conduzem à institucionalização de um grupo ocupacional como profissão. Neste domínio a profissionalização rouba centralidade à profissão. Ou, dito de outro modo, os percursos definidos por um grupo ocupacional, no sentido de obter um estatuto social e privilégios diferenciados na sociedade, passam a ser assumidos como centrais nas análises da 5 de 19 sociologia das profissões. De igual modo, o profissionalismo, entendido como uma terceira lógica de organização que supera o poder do mercado e do controlo burocrático (Freidson, 2001) ou, como discurso ideológico que sustenta as práticas reflexivas dos profissionais (Evetts, 2003) assume uma relevância ímpar no contexto atual de transformações nos sistemas de capitalismo avançado. A profissão académica, pelo estatuto e poder privilegiado que sempre assumiu no sistema de profissões emerge como um grupo particularmente interessante para refletir as intersecções complexas que se estabelecem entre as mudanças sociais e os grupos profissionais que sustentam a sua estrutura. A sua relação privilegiada e única com o estado parece constituir o pilar que sustenta o seu poder material e simbólico (Bourdieu, 1990). Em diferentes momentos políticos, e em presença de distintas configurações do estado, os académicos sempre beneficiaram de uma forte proteção do estado conduzindo autores como Neave e Rhoades (1987: 213) a classificá-los como um “estado cujo poder, privilégios e condições de emprego estão protegidas pela lei constitucional e administrativa”. 2.1 O conceito de comunidade académica Também o conceito de comunidade académica merece alguma atenção tanto do ponto de vista conceptual como do ponto de vista da sua possível diluição na sociedade contemporânea (Sousa, 2010, 2011). A hipótese da existência de uma comunidade académica assenta na possibilidade de haver algo partilhado por todos os académicos. Para Kogan (2000), as disciplinas e as suas áreas seriam o denominador comum das várias comunidades académicas. Seriam as tribos e os territórios de que nos falam Becher e Trowler (2001). Henkel (2000) enfatiza outra dimensão que não a base disciplinar das comunidades, isto é, a ‘natureza’ daqueles que as constituem, identificando esta como o ponto de partida para a constituição de uma (e apenas uma) comunidade de académicos baseada num denominador comum que uniria todos os académicos. Para Austin existem culturas dominantes que afectam os académicos, entre as quais a cultura da profissão académica. O autor identifica quatro valores centrais. São eles que o propósito do ‘académico’ é o de “perseguir, descobrir, criar, produzir, disseminar e transmitir verdade, conhecimento e compreensão, [sendo que] a investigação, a escrita, a publicação e o ensino são veículos para atingir tais valores” (Austin, 1992:1620) Consequentemente, talvez se possa defender que a comunidade académica (no singular) possua como ponto central a existência de uma ‘natureza’ comum, partilhada por todos os académicos que residiria nos quatro valores acima descritos, ou seja, um compromisso com a verdade, com a honestidade, com a liberdade e com a comunidade. Mas, quem constitui a comunidade académica? Segundo Jesuíno e Ávila, deve-se a Merton (1973) “a primeira formulação do conceito de que a comunidade científicai seria dotada duma estrutura normativa, dum ethos, para utilizar a própria expressão do autor” (Jesuíno & Ávila, 1995:75). Tal ethos fundar-se-ia em torno de cinco normas fundamentais: o comunalismo, o universalismo, o desinteresse, a originalidade e o cepticismo. Há várias ligações que podemos estabelecer entre este ethos Mertoniano e a construção do conceito de comunidade académica, nomeadamente, através de três vectores: (1) o regime do conhecimento como um bem público, (2) a liberdade académica e (3) o contrato ciência-sociedade. Segundo Slaughter e Rhoades (2003), o conceito de comunidade académica é, na medida em que se relaciona com o ethos Mertoniano, independente do Estado e do mercado, sendo caracterizado pela liberdade que se vive na universidade Assim parece ser possível defender que o conceito de comunidade académica, desenhado sobre o ethos Mertoniano, se constitui (1) numa relação com o conhecimento como um bem público, aliado à liberdade académica, à esfera pública e à universidade, (2) privilegiando a liberdade académica, sendo independente do Estado e do mercado e (3) baseando-se num contrato com a sociedade no qual o Estado providencia o financiamento necessário. Esta definição não pretende, de modo algum, ser definitiva (nem contrariar o carácter errático do conceito) servindo apenas o objectivo de possibilitar a abordagem do conceito de comunidade académica de um modo mais claro no âmbito da investigação do ensino superior. Barnett (1994) defende que o conceito de ‘comunidade académica’ parece estar a diluir-se e com ele o próprio termo de ‘comunidade’ na sociedade mais vasta. Kogan (2000) sustém que os valores comunitários estão a ser postos em causa. Becher e Trowler referem algumas mudanças nas características da comunidade 6 de 19 académica, tais como a “desprofissionalização da carreira académica”, a “perda de laços” que unem a comunidade académica, a “estratificação”, “hierarquização interna” e “divisões”, a “identidade esquizóide” do académico, a “perda de liberdade e controlo” sobre o trabalho académico, a “obsessão pela propriedade intelectual” e a “prestação de contas” (controlo externo, vindo de fora da academia) (Becher & Trowler, 2001:15-19). Dill refere a erosão da “coesão académica”, das “tribos e territórios académicos”, da “solidariedade académica” e do “poder da cultura académica” através da “rápida fragmentação dos campos académicos”, da “supremacia da autonomia institucional”, do “declínio da solidariedade académica” e do “rápido crescimento” (Dill, 1995). Em investigações anteriores sobre a comunidade académica portuguesa (Sousa, 2010, 2011) concluiu-se que a comunidade académica, baseada no ethos mertoniano e no próprio conceito de profissão académica, emerge na sociedade portuguesa como errática não sendo claro quem constitui a comunidade académica e como se caracterizam os académicos. Tal carácter errático permite-nos enfatizar a única dimensão em comum a todos os académicos: o conhecimento. Seja ele relativo à sua transmissão (na docência), produção (na investigação), difusão ou aplicação (no serviço). O académico é assumido como, simultaneamente, um professor e um investigador: Mas esta simultaneidade é caracterizada pela procura de excelência em ambos os campos. Ser um académico implica ser um professor excelente e ser um investigador excelente. Está relacionado com um tipo de classe de ‘elite’ que, apesar de não ignorar a sociedade está, de algum modo, separado e protegido dela. Esta dimensão – da relação entre os académicos e a sociedade – está repleta de contradições. Por um lado, a sociedade é perspectivada como uma dimensão importante do trabalho académico, já que é percepcionada como parte desse trabalho devendo ser envolvida nele. Por outro lado, a importância da investigação fundamental (que a sociedade não parece entender tão bem como os académicos) é referida nos discursos, sendo o tempo, a disponibilidade e o silêncio (só possíveis de atingir se a academia estiver distante da sociedade) características que são perspectivadas como fundamentais do trabalho académico. 2.2 A profissão académica em Portugal Uma das tendências dominantes na profissão académica em Portugal é para a sua crescente segmentação e diversificação. Na verdade, apesar dos grupos profissionais tenderem a ser interpretados como homogéneos diversos autores têm chamado a atenção para a existência de diversidade na unidade (Abbott, 1988; Carvalho, 2012). No quadro do regime do estado novo a profissão académica sendo classificada como de elite não era, no entanto, una não partilhando os seus membros do mesmo esquema interpretativo e da mesma identidade normativa. No entanto, o caráter repressivo do regime impunha a existência de uma única versão tida como homogénea. O sistema era, então, tal como o definiu Burton Clark (1983) altamente hierarquizado e assente num controlo fortemente burocrático, centralizado e ideológico. Com a emergência do regime democrático, e as alterações supracitadas, importantes transformações são constatadas neste grupo profissional. A par com o aumento da diversidade da sua constituição, com a emergência do sub-sistema politécnico surgem, também, professores de ensino superior com um perfil mais orientado para a prática, é criado o novo regime legal que institui uma carreira académica baseada em distintos níveis e, mais importante ainda, do seu profissionalismo já que os académicos se passam a assumir, então, como uma espécie de garante da democracia. Na década de 80 a emergência e consolidação do subsistema privado contribuiu para intensificar a segmentação do grupo (Carvalho, 2012). Nesta altura a profissão académica perde o seu estatuto de elite para se transformar numa profissão chave na sociedade (Perkin, 1987) dado que assumia a responsabilidade por criar o conhecimento especializado necessário à sustentação dos restantes grupos profissionais (Carvalho, 2012). Esta crescente segmentação do grupo profissional dos académicos foi sendo acompanhada pela sua feminização. A participação das mulheres no ensino superior cresceu não só por via do aumento extraordinário do número de alunas mas, também, pelo aumento da sua participação como profissionais. 7 de 19 Nos últimos anos, o ensino superior em Portugal, como praticamente em todos os países desenvolvidos, tem sofrido pressões centradas na imposição de ideologias managerialistas. A influência da Nova Gestão Pública (NGP) nos académicos portugueses faz-se sentir na degradação das condições de trabalho (Carvalho & Santiago, 2008); no aumento do controlo e das barreiras impostas à entrada para a profissão (consubstanciadas na alteração do estatuto legal da carreira); no questionamento da autonomia com a crescente imposição de modelos de responsabilização individual (accountability); nas alterações nos modos de produção de conhecimento e na imposição de mudanças nas práticas profissionais com a emergência de novos regimes de avaliação de desempenho. Neste âmbito é pertinente questionarmos: que efeitos têm estas alterações no grupo profissional? Que concepção têm de si como grupo profissional? Estará a sua subjectividade a ser afectada? Será possível identificar características dominantes de profissionalismo num grupo tão segmentado? 3. Análise dos Resultados: Profissão e comunidade académica em Portugal Os dados empíricos que sustentam esta análise resultam de análises quantitativas desenvolvidas com base na recolha efectuada pela A3ES aquando da acreditação ou acreditação prévia dos cursos de ensino superior existentes em Portugal. Este processo obriga ao preenchimento de uma ficha individual de docente onde para além dos dados pessoais (Nome; Instituição de Ensino Superior; Unidade Orgânica, Categoria; Grau; Área científica do grau académico; Ano em que foi obtido o grau académico e Instituição que conferiu o grau académico) está, também, incluída informação referente a outros graus académicos; as publicações ou atividades artísticas mais relevantes nos últimos 5 anos bem como a experiência profissional relevante e informação relativa às unidades curriculares a lecionar no ciclo de estudos. Nesta análise a ênfase é colocada nas fichas individuais dos docentes da A3Es dado que estas integram dados dos sub-sistemas público e privado. 3.1.A caracterização da profissão 3.1.1.A segmentação da profissão Na amostra selecionada das fichas individuais de docentes disponibilizadas pela A3ES estão representados 19.794 casos. A constatar a diversidade e segmentação dos profissionais académicos em Portugal depois da revolução democrática do 25 de Abril a amostra inclui uma maioria de académicos do sub-setor público (48,6% do sub sistema universitário e 26,8% do sub sistema politécnico) e uma minoria do sector privado (20,1% do sub sistema universitário e 4% sub sistema politécnico). As caraterísticas dos profissionais académicos analisados nestas fichas individuais de docentes integram já as alterações legais impostas à carreira universitária e do politécnico pelos Decretos-lei 205/2009 e 207/2009. Estes documentos legais vieram alterar a regulamentação das carreiras definidas desde o final da década de 70 e que, pela sua longevidade, assumiam um caráter quasi-constitucional (Carvalho, 2012). Embora se tenha mantido a estrutura burocrática e hierárquica das carreiras procede-se a uma alteração que alinha a carreira em Portugal com os parâmetros internacionais – o doutoramento passa a ser o modo privilegiado para aceder à comunidade académica (Jackson & Tinkler, 2000). Embora esta regulamentação seja relativamente recente a nossa amostra é constituída por 48,5% de doutorados. A verificar-se esta representatividade na população em geral tal significa que em Portugal mais de metade dos académicos não possui doutoramento. O caráter distinto do sub-sistema politécnico, criado com uma vertente mais vocacional, ditou a criação de condições diferenciadas de acesso para os académicos a esta carreira. O bacharelato constituía, desde 1981 o grau necessário para entrar no primeiro patamar da carreira. Assim sendo, é de alguma forma expectável que a maioria dos académicos com bacharelato se encontre no politécnico. Pelo contrário, dada a longa tradição dos doutoramentos na carreira é, sobretudo, nas universidades públicas que se concentram os académicos com doutoramento. 8 de 19 Gráfico nº1 - Distribuição dos académicos de acordo com o grau e tipo de instituição Ao analisar a distribuição dos académicos por categoria no sub-sistema universitário verificamos que, a maioria da amostra se concentra em posições para as quais o doutoramento não é uma qualificação necessária (60% no público e 56,3% no caso do setor privado). No que diz respeito às condições de trabalho é importante salientar que, no caso das universidades públicas, cerca de 48% dos académicos possui nomeação definitiva. No caso das privadas este número é bastante inferior (22,9%). Dos que não possuem nomeação definitiva apenas cerca de 20% no público se encontra numa posição conducente à obtenção da nomeação definitiva enquanto no privado esta percentagem sobe para cerca de 47%. Nos últimos anos, as dificuldades de acesso e progressão na carreira conduziram ao surgimento de uma carreira informal ou paralela (Carvalho e Santiago, 2008). As condições permitidas no quadro legal para a contratação de professores convidados que poderão ser contratados para uma função para a qual não possuem qualificações através da avaliação do currículo permitiu criar uma oportunidade para a contratação fora da carreira. Muitas vezes esta figura do convidado passou a ser usada por um lado, como uma forma de aceder ou ascender na carreira dadas as limitações orçamentais, por outro, para permitir a contratação de profissionais que não conseguiram obter o diploma necessário no período legalmente determinado. No caso das universidades públicas 23,8% dos académicos encontram-se na carreira paralela sendo que apenas cerca de 2% (2,3%) estão numa situação estável (como professores catedráticos ou associados). No caso do setor privado este número sobe para 30% sendo que apenas 3,5% se encontra numa posição que podemos considerar segura. 9 de 19 Publico Tipo Posição Com nomeação Definitiva Professor catedrático % 122 3,1 45 ,5 60 1,5 1185 12,3 297 7,4 169 1,8 80 2,0 Professor Auxiliar (pre-2005) 2463 25,6 358 8,9 Professor Auxiliar (post-2005) 1031 10,7 338 8,5 789 8,2 1232 30,9 9 ,1 287 7,2 512 5,3 419 10,5 1561 16,2 643 16,1 433 4,5 83 2,1 8973 93,2 3987 100,0 651 6,8 1 ,0 9624 100,0 3988 100,0 Professor Associado Convidado Assistente Assistente Estagiário Sem Possibilidade N 7,3 Professor Associado Com possibilidade % 705 Professor catedrático convidado Sem nomeação Definitiva N Privado Professor Auxiliar Convidado Assistente Convidado Outros Total Missing Total Tabela nº 1 – Distribuição dos académicos por categoria no sub-sistema universitário No caso do sub-sistema politécnico a tendência no que respeita à nomeação definitiva no sub-setor público e privado inverte-se. No sub-setor público são cerca de 30% que não possuem nomeação definitiva enquanto no sub-setor privado são 48%. Tal significa que no caso dos politécnicos públicos, ao contrário do que acontece nas universidades, existe uma maior precariedade na carreira do que no setor privado. Esta tendência confirma-se quando analisamos os dados referentes à possibilidade de vir a obter a nomeação definitiva - 20% no setor público e 37% no setor privado têm possibilidade de vir a conseguir a nomeação definitiva. A figura correspondente no sub-sistema politécnico para a carreira paralela é a do professor equivalente. No caso dos politécnicos do setor público a percentagem de académicos na carreira paralela é de 32,7% sendo que no caso do setor privado esta percentagem é manifestamente mais baixa com apenas 10,7% na carreira paralela. Em suma, estes dados parecem revelar a existência de condições diversas de trabalho para o setor público e privado no sub-sistema politécnico sendo que estas condições surgem como mais favoráveis no setor privado. 10 de 19 Publico Tipo Posição Nomeação Definitiva Professor ‘Agregação’ N Coordenador com % N % 21 ,4 6 ,8 319 6,0 120 15,0 Professor Adjunto 1266 23,9 255 31,9 Com Possibilidade Assistante 1074 20,3 295 36,9 Sem Possibilidade Professor Coordenador Equivalente 30 ,6 7 ,9 Professor Adjunto Equivalente 1005 19,0 27 3,4 Assistente Equivalente 1226 23,1 51 6,4 2 ,0 1 ,1 229 4,3 37 4,7 5172 97,5 799 99,9 130 2,5 1 ,1 5302 100,0 800 100,0 Professor Coordenador Sem Nomeaçã o Definitiva Privado (1st e 2nd triennium) Especialmente contratados Outros (Especialistas, Outros) Total Missing Total Tabela nº 2 - Distribuição dos académicos por categoria no sub-sistema politécnico O que estes dados parecem demonstrar é, de facto, uma realidade muito diversa na profissão académica. A diversificação da carreira com o surgimento do sub-sector politécnico e privado traduziu-se, também, numa forte segmentação da profissão. A profissão académica deixou de ser uma profissão de elite existindo, antes, uma forte diversidade no seu interior. Tal como Sacks (2012) refere para o caso de outros profissionais há bandas de marginalidade dentro do grupo profissional dos académicos. Este está longe de ser homogéneo não só em termos do quadro normativo-ideológico que o enforma (Carvalho, 2012) mas, também, em termos das condições de trabalho. Há uma percentagem considerável de professores que se encontra em situações precárias (sem nomeação definitiva) estando uma boa parte enquadrada numa carreira informal ou paralela. Adotando estes critérios poderemos dizer que os académicos dos politécnicos públicos constituem o grupo mais marginal em termos de condições de trabalho dentro da comunidade académica. É importante, no entanto, salientar que estamos a tratar de dados obtidos através de respostas dos próprios professores para uma agência nacional de avaliação. Não sabemos, de facto, se as categorias usadas pelos informantes são correpondentes no setor público e privado e, não tendo acesso às condições contratuais, podemos apenas supor que estas correspondem às definidas na legislação para o sector público. 3.1.2.Feminização A acompanhar a segmentação da profissão assistiu-se, também, à sua feminização. A maioria dos elementos da amostra são homens (57,6%). Esta amostra corresponde à composição de género da população de académicos do sector público já que dados retirados da base de dados nacional, do então Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, revelam que, em 2005, 43% dos académicos eram mulheres (MCTES/OCES, 2005). Estes dados permitem-nos levantar a hipótese de que a inclusão do sub-setor privado não altera as carateristicas de feminização detetadas no sub-setor público. 11 de 19 Esta percentagem de mulheres no ensino superior em Portugal representa um valor superior ao da média europeia (de acordo com o relatório She Figures (2009) em 2006 30% dos investigadores na EU eram mulheres). A expressão da feminização da profissão académica em Portugal resulta do processo democrático do 25 de Abril, da tradição de elevada participação das mulheres no mercado de trabalho em Portugal mas, sobretudo, do aumento extraordinário do número de alunas graças ao processo de massificação e suposta democratização do ES em Portugal. A este respeito importa, no entanto, especificar que o número de professoras está ainda longe de igualar a percentagem de alunas. A respeito da feminização da profissão académica importa também salientar que se constatam em Portugal os mesmos fenómenos de segregação horizontal e vertical verificados noutros sistemas de ensino superior ( Carvalho & Santiago, 2010). As mulheres estão mais concentradas nas áreas chamadas ‘soft’ e nas posições iniciais ou intermédias da carreira. Como se pode verificar no gráfico seguinte as mulheres estão mais concentradas nas áreas da saúde e das ciências sociais, humanidades e educação. No entanto, nesta área a nossa amostra parece não representar a distribuição de género no universo dos profissionais a desenvolver o seu trabalho na academia portuguesa já que a percentagem de homens ultrapassa a de mulheres. Na referida base do ministério de 2005, embora comportando apenas os académicos das universidades públicas, as mulheres constituem a maioria nas áreas da educação/ensino (62,9%) e nas humanidades (54,1%). A elevada percentagem de homens nas ciências e tecnologias confirma a tendência, já antes verificada, para as diferenças de género sobretudo nas áreas das engenharias (Carvalho & Santiago, 2010). Gráfico nº 2 – Distribuição dos académicos por género e área científica A distribuição dos académicos por género e categoria profissional permite perceber a persistência do fenómeno da segregação vertical. Nos últimos patamares da carreira, isto é, nas posições de topo, o diferencial entre homens e mulheres aumenta tanto no sub-sistema universitário como politécnico. No caso do sub-sistema universitário (Gráfico nº 2) a participação de homens e mulheres chega a ser quase igualitária nos patamares iniciais da carreira mas a participação das mulheres diminui à medida que avançamos até à categoria de professor catedrático onde a percentagem de homens é manifestamente superior. 12 de 19 Os homens parecem ter, também um acesso mais facilitado à carreira informal ou paralela já que constituem a maioria nas posições de convidado. Tal justifica-se pelo facto dos processos informais de recrutamento favorecerem os homens em relação às mulheres o que de alguma forma resulta da maior facilidade que estes possuem na integração em redes informais. Gráfico nº 3 – Distribuição dos académicos por género e categoria profissional no sub-sistema universitário No caso do sub-sistema politécnico a situação não é muito distinta (Gráfico nº 3). Nas categorias iniciais, como assistente ou professor adjunto, a participação de homens e mulheres é muito semelhantes já no topo da carreira, enquanto professor coordenador a diferença aumenta com os homens a constituirem uma maioria de quase 60% (59,7%) nos professores coordenadores e de 66,7% nos coordenadores com agregação. As diferenças de género nos lugares de convidado são, ainda, mais marcantes neste sub-sistema. Os homens são 81,6% dos professores coordenadores equivalentes, 61,3% dos professores adjuntos equivalentes e 74, 2% dos especialistas. Tal poderá dever-se ao facto da progressão na carreira nos politécnicos estar mais condicionada em função das restrições na abertura de vagas pelo estado nos últimso anos. A única exceção para estes casos são os assistentes equivalentes (onde o número de homens e mulhers é semelhante) e os especialmente contratados (onde o número de mulheers é superior) provavlemente devido ao número elevados de mulheres que entraram nos politécnicos na fase inicial de implementação. 13 de 19 Distribuição dos académicos por género e categoria profissional no sub-sistema politécnico 90,0% 80,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% 81,60% 74,20% 66,70% 61,30% 59,70% 56,10% 53,30%50,10% 51,90% 33,30% Fem. Masc. Gráfico nº 4 – Distribuição dos académicos por género e categoria profissional no sub-sistema politécnico Uma análise mais atenta do processo de feminização revela que, tal como outros estudos no contexto internacional destacam, a distribuição do número de mulheres não é homogénea de acordo com o tipo de instituição (Bagilhole, 2000). No caso nacional é notório que o número de mulheres aumenta à medida que diminui o prestígio social das IES: as mulheres representam cerca de 41% dos académicos nas universidades públicas e 46% nos politécnicos privados. Apesar de não existirem dados que o comprovem cremos que o capital simbólico das universidades é superior ao dos politécnicos. Não obstante existe uma percentagem mais elevada de mulheres nos politécnicos (tanto públicos como privados) em relação às universidades privadas. Tal poderá ficar a dever-se ao facto de existir uma forte concentração de formações na área da saúde e da educação nos politécnicos que, habitualmente, são áreas conducentes a profissões com elevadas taxas de feminização (veja-se o caso dos enfermeiros). Tipo de instituição UPU - UPI - PPU - PPI Universidade Universidade Politécnico Politécnico Pública Privada Público Privado Género Total Feminino N 3916 1708 2365 371 % 40,7% 42,8% 44,6% 46,4% Masculino N 5708 2280 2937 429 % 59,3% 57,2% 55,4% 53,6% N 9624 3988 5302 800 % 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Tabela nº 3 – Distribuição dos académicos por tipo de instituição e género 14 de 19 Referimos antes que mais importante do que perceber as caraterísticas particulares da profissão académica é perceber os elementos que permitem afirmar que existe unidade no conjunto da diversidade em que se foi transformando a profissão. Procuramos, de seguida, perceber se a desconstrução da profissão académica como profissão de elite deu lugar a uma comunidade académica assente no conhecimento como valor comum. 3.2.Conhecimento e comunidade académica Como verificámos, antes, uma das condições essenciais que parece agregar mais os académicos é a produção e divulgação do conhecimento (Sousa, 2010). Não obstante, a tradição Humboldtiana ditou que a estruturação da profissão se desenhasse em torno das actividades de ensino e investigação. As duas seriam interpretadas como interdependentes. As perspectivas mais recentes da profissão, decorrentes da influência da NGP e das pressões da avaliação e classificação das universidades nos rankings, enquadradas no âmbito da sociedade do conhecimento levaram a que na atualidade a ênfase seja crescentemente colocada na investigação relegando o ensino para um segundo plano. Estudos empíricos anteriores realizados em Portugal demonstram que ao serem questionados sobre a preferência pelo ensino ou pela investigação os académicos em Portugal, de acordo com a tradição Humboltiana, afirmam que preferem conjugar as duas (Carvalho & Santiago, 2008). A forma como conjugam estas atividades distintas parece estar diretamente relacionada com a gestão do tempo académico. No entanto, sabemos que é dada uma forte valorização pelos académicos à produção do conhecimento como atividade fundamental. Mas provavelmente mais importante do que a sua valorização é a questão de perceber que tipo de conhecimento estão os académicos a produzir. Face ao pedido para registarem as publicações mais relevantes dos últimos 5 anos ao preencherem as fichas individuais os académicos deram sempre destaque às publicações em revistas internacionais com revisão por pares. . Referências Ref. 1 Ref. 2 Ref. 3 Ref. 4 Ref. 5 Livros nac 9,5 5,0 3,3 2,2 1,5 Livros inter. 1,3 0,9 0,5 0,4 0,3 Capítulos nac. 2,3 1,8 1,7 1,4 0,9 Capítulos inter. 2,3 2,0 1,5 1,3 0,7 Artigos nac. 8,0 7,1 5,9 4,3 2,6 Artigos inter. 21,3 22,4 20,9 16,6 12,7 Actas nac 4,8 4,6 3,7 2,8 1,5 Actas inter. 6,3 7,3 7,1 6,3 4,6 Act. artística 2,8 2,6 2,2 1,8 1,3 Teses/dissertações 3,5 1,7 1,1 0,9 1,1 Outros 3,8 2,8 2,5 2,5 2,6 Tabela nº 4 – Cinco principais referências dos académicos Mais do que a valorização que os académicos poderão conceder a estas publicações é a valorização que percecionam existir no exterior (e em especial na avaliação das IES e do seu desempenho) que os poderá conduzir a selecionar como a referência mais importante. Apenas na 1ª referência os livros nacionais foram os referidos em 2º lugar. Em todas as restantes referências surgem imediatamente a seguir aos artigos internacionais as publicações em actas de congresso internacional 15 de 19 Dos 19.794 casos analisados fizeram referência a publicações internacionais em revistas com revisão por pares 8393 profissionais. A análise por instituição revela que a grande maioria dos que referem ter publicado este tipo de artigos pertencem às universidades públicas (71,5%) seguidos pelos politécnicos públicos (15,9%). Com percentagens muito inferiores surgem as universidades privadas (10,9%) e os politécnicos privados (1,6%). Estes dados são de alguma forma esperados dado que, apesar dos conhecidos fenómenos de academic drift, os politécnicos não possuem na sua missão de forma tão evidenciada a investigação. As instituições privadas também são conhecidas por terem vindo a desenvolver uma estratégia de crescimento e desenvolvimento baseada sobretudo no ensino. Para além dos artigos em revistas internacionais são também referidos os nacionais. Tanto no caso dos livros, como dos capítulos de livros e das atas de congressos são sempre referenciados os nacionais e internacionais. Não deixa de ser curioso o facto de não terem sido feitas referências a patentes. Tal parece demonstrar que o tipo de produção de conhecimento que os académicos valorizam (ou percecionam como valorizada pelo exterior) é a que está configurada pelo modo 1 de produção do conhecimento (Gibbons et al, 1994). Referimos anteriormente que alguns autores denunciam a importância da área científica na construção da identidade académica. A noção das tribos e territórios académicos decorre do princípio que a área disciplinar detém um forte poder sobre a definição normativa e identitária dos académicos. Assim sendo, procurámos perceber se existem diferenças no tipo de referências que os académicos de diferentes áreas expõem. É possível constatar que, por exemplo, dos que referiram artigos internacionais há uma maior concentração na área das ciências, matemática e informática (31,3%), bem como nas áreas Engenharia, indústrias transformadoras e construção (20,8%). Já no que concerne às publicações em revistas nacionais estas foram referidas por académicos nas áreas das Ciências Sociais e do Comportamento (35,2%) e pela saúde (18,1%). Estes dados poderão não traduzir especificamente outputs em termos de publicações mas expressarem, antes, perceções distintas na valorização de modos distintos de divulgação do conhecimento. Quando questionados sobre a caracterização epistemológica do conhecimento que produzem cerca de 70% afirma concordar muito ou muitíssimo com a afirmação de que o conhecimento é aplicado ou orientado para a prática. Mas, existe também uma percentagem considerável que concorda muito ou muitíssimo com a afirmação de que produz conhecimento básico ou teórico (43,2%). Estas diferenças percentuais ficam a dever-se a diferenças entre as áreas disciplinares. No 1º caso são, sobretudo, as engenharias, indústrias transformadoras e construção que referem desenvolver conhecimento aplicado enquanto nas ciências sociais e do comportamento é o conhecimento básico ou teórico. Em suma, à diversidade das condições que os académicos possuem nos seus locais de trabalho, junta-se também a diversidade na conceção epistemológica do conhecimento que é produzido em função das áreas académicas. O único elemento comum entre os profissionais da academia que poderá configurar a sua descrição enquanto comunidade académica é a dedicação às atividades de ensino e investigação. 4. Conclusão A discussão sobre as características particulares da profissão académica tem já uma forte tradição teórica. Apesar de não parecerem existir dúvidas quanto ao uso do termo profissão para classificar este grupo já o mesmo não parece ser verdade para o uso do epíteto de comunidade académica. Este estudo, baseado, essencialmente, em dados empíricos recolhidos através das fichas individuais de docentes da A3ES revela-nos alguns elementos de caracterização do grupo importantes para esta discussão teórica. Na realidade a profissão académica em Portugal, fruto da diversificação do sistema e da sua expansão, é hoje extremamente variada. Se é verdade que a profissão continua a usufruir de um poder simbólico e cultural forte na sociedade o grupo não pode ser considerado homogéneo. Antes pelo contrário, o desenvolvimento do grupo foi acompanhado pela sua crescente segmentação de tal forma que hoje podemos afirmar que o grupo profissional dos académicos, sendo um grupo de elite, ou uma profissão-chave na sociedade possui, no 16 de 19 seu interior, margens de marginalidade significativas. A este nível podemos afirmar que é o sub-sctor politécnico público o que apresenta as condições mais precárias para os académicos. A par da segmentação a crescente feminização conduziu a que hoje a profissão académica em Portugal apresente dos índices mais elevados na Europa. Importa, no entanto, realçar que a feminização não traduz uma democratização do ensino já que as mulheres se encontram nas áreas mais ‘soft’ e nas posições de base ou intermédias na carreira. Mais curioso parece o facto de os homens parecerem ter mais oportunidades no acesso informal à carreia o que a manter-se poderá ditar uma situação inversa da verificada na atualidade no acesso de homens e mulheres á carreira. Finalmente, a noção de comunidade académica parece ser estruturada em torno da conjugação das atividades de ensino e investigação sendo o tipo de conhecimento produzido e a valorização das diferentes formas de o divulgar distinta em função da área científica. Referências Abbott, A. (1988). The system of professions. An essay on the division of expert labour. 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