FORÇA DE TRABALHO E ACIDENTES LABORAIS COM
PERFUROCORTANTES ENVOLVENDO A EQUIPE DE
ENFERMAGEM
Lídia Samantha Alves de Brito
Gláucia Margarida Bezerra Bispo
Aliniana da Silva Santos
Natália Daiana Lopes Souza
Rhavena Maria Gomes Sousa Rocha
INTRODUÇÃO
A força de trabalho remete a análise de aspectos gerais e específicos da
divisão do trabalho, da dinâmica de emprego e da qualificação técnica para o
trabalho (SILVA; PEDUZZI, 2005). A força de trabalho possui peculiaridades em
cada profissão. Na enfermagem, apresenta valores distintos no conjunto dos
trabalhadores produzindo diferentes status/ reconhecimento nas diversas categorias
profissionais (PEREIRA et al., 2009).
A execução da força de trabalho através do desenvolvimento das
atividades laborais requerem esforços do homem e manuseio de equipamentos, que
muitas vezes podem gerar acidentes, os quais são denominados como acidentes de
trabalho. Os prejuízos que o acidente gera tanto para o empregado quanto para o
empregador é um tema muito debatido na atualidade, assim como os meios para a
sua prevenção.
A lei nº 8.213/91conceitua o acidente do trabalho como aquele que
ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do
trabalho, o qual provoca lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte
ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho
(BRASIL, 1991). O acidente de trabalho é considerado quando o mesmo acontece
no ambiente laboral ou até mesmo no percurso que o trabalhador utiliza para chegar
ao seu trabalho. Ele é responsável pelo maior número de incapacidades e mortes
causado pelo trabalho em todo o mundo (SANTANA et al., 2007).
Em todas as profissões, acidentes podem acontecer no desenvolvimento
das atividades laborais. Dentre os acidentes de trabalho que acontece entre
profissionais de saúde com maior ênfase é o acidente com material perfurocortante
devido ao risco de contaminação com material biológico. Diante de tal fato, é
necessário o conhecimento sobre tais acidentes, e o uso de equipamentos que
protejam o trabalhador.
Dentre os profissionais de saúde, a equipe de enfermagem está em
constante contato com material perfurocortante através das inúmeras tarefas que
realizam, sejam no ambiente hospitalar ou na atenção primária. Dentre as tarefas,
podemos citar: a realização de punção venosa, administração de medicamentos
prescritos, e a administração de vacinas, dentre outras. Tais atividades são
necessárias para o cuidado de enfermagem com a saúde da população.
Nos mundo hodierno, as lesões com materiais perfurocortantes na equipe
de enfermagem representam um grave problema nas instituições de saúde, tanto
pela freqüência com que ocorrem, como pela grave repercussão que representam
sobre a saúde dos empregados (SAQUIS; FELLI, 2002). E também representa uma
preocupação, pois além do alto número de realizações de procedimentos invasivos,
este fato pode resultar em uma contaminação para o profissional de saúde com
microrganismos patógenos, e que podem desencadear um processo infeccioso
grave.
Mesmo com a disseminação de informação sobre a importância do uso de
equipamentos de proteção individual (EPI’s) durante os procedimentos invasivos, na
prática podem-se perceber a falha na utilização desses equipamentos pela equipe
de enfermagem. Somado a este fato está o descuido na realização das atividades,
pela confiança na realização do processo que é rotineiro, e que, muitas vezes, esse
excesso de confiança no procedimento acaba ocasionado um acidente de trabalho
com material perfurocortante.
Objetivou-se analisar o conhecimento produzido e publicado pela
Enfermagem em periódicos nacionais sobre acidentes de trabalho com material
perfurocortante com a equipe de enfermagem.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, a qual pode ser
considerada como uma pesquisa que busca sintetizar estudos realizados acerca de
determinado assunto. A revisão integrativa é um dos métodos de pesquisa utilizados
na prática baseada em evidências e que possibilita a incorporação das evidências
na prática clínica (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008). A revisão integrativa
aconteceu mediante seis etapas: 1ª etapa: formulação da questão norteadora; 2ª
etapa: amostragem ou investigação na literatura; 3ª etapa: coleta de dados; 4ª
etapa: análise crítica dos estudos incluídos; 5ª etapa: discussão dos resultados; e 6ª
etapa: apresentação clara e objetiva da revisão integrativa (SOUZA; SILVA;
CARVALHO, 2010).
O estudo foi iniciado em março de 2013, com a busca da literatura
compreendida entre os meses de abril a novembro. A finalização do estudo
aconteceu no mês de dezembro do mesmo ano. Para a seleção dos artigos
incluídos na revisão integrativa, foi utilizada a internet como instrumento para
acessar o conteúdo online. Foi utilizada a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) para
acessar as seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em
Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Eletronic Library Online (SCIELO).
Para a realização da busca das informações foram utilizadas as palavraschave contempladas nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “acidentes de
trabalho” e “enfermagem”.
Como critérios de inclusão das publicações: ser artigo de pesquisa ou de
revisão que abordassem o tema proposto; ter disponibilidade do texto completo
gratuitamente; ser publicado em periódicos indexados nas bases de dados
anteriormente citadas; estar no idioma português; ter sido publicado no período
compreendido entre janeiro de 2003 a dezembro de 2013.
Foram encontrados 131 artigos na Lilacs, e selecionados 10 artigos de
acordo com o objetivo do estudo. Na Scielo, dos 53 artigos encontrados, foram
selecionados 04 artigos.
Figura 1: Diagrama do processo de seleção dos artigos nas bases de dados
Lilacs e Scielo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após a exclusão de artigos repetidos, foram analisados 10 artigos. Todas
pertencentes aos seguintes periódicos: “Revista da Escola de Enfermagem da USP”,
“Escola Anna Nery Revista de Enfermagem”, “Revista latino-americana de
enfermagem”, “Revista brasileira de enfermagem”, “Online brazilian journal of
nursing”, “Revista enfermagem UERJ”, “Cogitare enfermagem”, e “Arquivos de
ciências da saúde”.
A maioria dos periódicos acima relatados contém artigos sobre acidentes
com perfurocortantes nos anos de 1985 a 2000 (MARZIALE; RODRIGUES, 2002).
De acordo com o ano de publicação, 10%(n=1) no ano de 2003,
30%(n=3) no ano de 2004, 10%(n=1) em 2007, 30%(n=3) no ano de 2008 e em
2009 com 20%(n=2).
O aumento no número de publicações nos anos de 2004 e 2008 pode
estar relacionado ao aumento de acidentes com perfurocortantes em tais anos. No
Brasil, a escassez de dados sistematizados sobre acidentes com perfurocortantes
não permite conhecer a magnitude global do problema (ASSIS, et. al., 2012).
Em estudos analisados, as principais repercussões negativas na equipe
de enfermagem relacionadas ao acidente com perfurocortantes, foram: a tristeza e
medo da contaminação e aquisição de alguma patologia; o desespero e a angustia
diante da falta de diagnóstico do paciente ou, ainda, pela confirmação de patologia
de transmissão ocupacional; preocupação, ansiedade e tensão com os exames após
o acidente e a probabilidade de estar contaminado; vergonha por achar que alguém
entenderá o fato como incompetência profissional; insegurança como decorrente do
acidente (CASTRO, FARIAS, 2009; LIMA, PINHEIRO, VIEIRA, 2007; PEREIRA, et
al., 2004).
Tais repercussões afetam de forma ímpar a vida do profissional que
sofreu o acidente com material perfurocortante, principalmente pela possibilidade de
adquirir uma doença grave, como a Hepatite e a Aids, e do possível julgamento
negativo da sociedade, como por exemplo: incompetência profissional. E este fato
afeta psicologicamente a vida do profissional, como corrobora Bradão Junior (2001),
quando relata que os profissionais passaram a ficar com medo da contaminação no
trabalho, ansiedade, depressão e medo da morte na expectativa do resultado do
teste anti-HIV, fantasias de contaminação, receio de reações negativas (críticas,
discriminação) dos familiares, parceiro e colegas de trabalho e sentimentos de culpa
pelo acidente.
Artigos referem que o maior número de acidentes da equipe de
enfermagem está relacionado com a execução das atividades de punção venosa,
administração de medicação subcutânea e soroterapia, seguidos pelas perfurações
provocadas
por
agulhas
descartadas
em
locais
inadequados
por
outros
trabalhadores (MARZIALE; NISHIMURA; FERREIRA, 2004).
Após o acidente devem ser tomadas medidas a fim de reduzir o risco de
infecção pelo material contaminante, tais como: a realização de exames, a
quimioprofilaxia. No entanto muitos profissionais não realizam procedimentos, pósexposição aos acidentes com perfurocortantes, conforme preconiza o Center
Disease Control (CDC) (VIEIRA; PADILHA, 2008). Cabe ao médico especialista
avaliar a necessidade de realização de exames laboratoriais e o tratamento
preventivo com antiretrovirais (PEREIRA, et al., 2004).
Está explanado em artigos analisados que mesmo com após a realização
de exames pós acidentes não houve caso de contaminação pelos vírus HBV, HCV e
HIV. (MARZIALE; NISHIMURA; FERREIRA, 2004). No entanto é importante frisar
que o risco de contaminação está presente em acidentes com perfurocortantes, e
por isso devem ser utilizado as formas de prevenção durante o desenvolvimento de
tarefas laborais com tais materiais.
Estudos apontam que a maioria dos acidentes com a equipe de
enfermagem acontecem em decorrência da realização ou auxílio de procedimentos,
do reencape de agulhas, descarte inadequado de objetos perfuro cortantes,
manipulação de resíduos sólidos hospitalares, a execução das técnicas de
enfermagem sem o uso dos EPIs, (PEREIRA, et al., 2004; VIEIRA; PADILHA, 2008;
SIMÃO, et al., 2010).
A maioria dos profissionais de enfermagem tem ciência da importância do
uso de EPI’s (PEREIRA, et al., 2004). Mas ter conhecimento sobre o uso de EPI’s
não é suficiente como forma de prevenção, uma vez que seu uso é indispensável
para conferir proteção aos profissionais. Entretanto, muitos pertencentes à equipe de
enfermagem tem resistência à adoção de medidas preventivas ao uso de EPI’s
(MAURO; VEIGA, 2008).
Um estudo relata que para a realização das atividades de enfermagem, é
necessário a atenção, o uso de EPI’s e o uso da técnica correta (ALVES; PASSOS;
TOCANTINS, 2009).
Como forma de contribuição para o acidente de trabalho para a
enfermagem, foram citados a necessidade de agilidade no desenvolvimento das
atividades, cansaço físico mental, ausência de EPI’s e pouca experiência
profissional (SIMÃO, et al., 2010). Também como fatores contribuintes, falta de
atenção, excesso de confiança, estresse e a não observância das normas de
biossegurança (ALVES; PASSOS; TOCANTINS, 2009).
Muitos profissionais de enfermagem não notificam o acidente, seja porque
desconhecem a importância da notificação, por não julgaram necessário, por
acharam que o acidente é simples, pela falta de tempo, pelo fato da sorologia do
paciente ser negativo, por medo demissão (PEREIRA, et al., 2004, MARZIALE,
2003).
Em um estudo, foi apontado pela equipe de enfermagem como principais
dificuldades para realizar a notificação, entre eles, as dificuldades burocráticas do
sistema de notificação, na forma de atendimento, tanto para preenchimento da
Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) como para avaliação especializada,
além de dificuldades pessoais dos profissionais (MARZIALE, 2003).
Salienta-se a importação da notificação de todos os acidentes com
material perfurocortante, uma vez que é através desta que as medidas necessárias
serão tomadas, que o profissional poderá recorrer para o recebimento de algum
benefício, que serão planejadas ações para reduzir a ocorrência de acidentes e
ainda, que poderá ser avaliado o panorama de acidentes através da epidemiologia.
A notificação dos acidentes de trabalhos é legalmente obrigatória,
entretanto, na prática, acontece a subnotificação, devido ao sistema de informação
usado e a concepção fragmentada dos trabalhadores sobre a sua importância
(MARZIALE; NISHIMURA; FERREIRA, 2004). A subnotificação também acontece
pelo fato dos profissionais darem pouca importância às pequenas lesões causadas
por agulhas (CANINI, et al., 2002).
Os
acidentes
dos
trabalhadores de
enfermagem
com
materiais
perfurocortantes mais comuns são com a agulha, em seguida, respectivamente, pelo
manuseio de scalp, e lâmina de bisturi (SIMÃO, et al., 2010; BARBOZA, SOLER,
CIORLIA, 2004; PAULINO, LOPES, ROLIM, 2008).
Esses materiais são os comuns quando relacionados ao acidente de
trabalho com material perfurocortante devido aos procedimentos invasivos que a
equipe desenvolve. Com corrobora Gomes, et al. (2009), que um alto índice dos
acidentes abrangem agulha oca e em seguida, lancetas de bisturi.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A força de trabalho na enfermagem realizada atividades na vida
profissional em que os acidentes com perfurocortantes pela equipe são comuns,
devido o tipo de atividade laboral que a profissão desenvolve.
Devido à
possibilidade de contaminação e de adquirir uma patologia grave, é que os
profissionais apresentam inúmeros sentimentos negativos relacionados ao acidente.
Na pesquisa, podemos observar que muitos profissionais não utilizam os
EPI’s na realização de procedimentos com materiais perfurocortantes. Tal fato deve
ser incentivo e ações educativas são necessárias para a maior proteção dos
trabalhadores da enfermagem, uma vez que um acidente com tais materiais pode
contaminar o trabalhador com doenças como a Hepatite e a Aids.
E uma vez que o acidente ocorra, é necessário realizar a notificação,
procedimento legalmente exigido. Entretanto, podemos observar que muitos
profissionais desconhecem sua obrigatoriedade e sua importância e não a realizam.
Daí, a necessidade de fiscalizações mais frequentes e elaboração de atividades
educativas para a equipe de enfermagem, com o intuito de difundir a importância da
notificação do acidente de trabalho com material perfurocortante.
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