PECADORES
Personagens
Dom Felipe
Jovem com pretensões religiosas, 20 anos;
Ezequiel Maia – o “Padre”
Fundamentalista religioso, 28 anos;
Ulisses Maia
Ateísta/Agnóstico, 26 anos;
Sofia Maia
Mãe de Ulisses e Padre, entre 45/50 anos;
PECADORES
(Luz apagada. Um homem entra e pára em frente a uma cruz de
tamanho natural fixada na parede. Lentamente, o homem acende
sete grandes velas dispostas em meia-lua ao pé da cruz. A luz
das velas revela aos poucos a figura de outro homem: Cristo
crucificado. Após iluminada, a sala expõe um quarto vazio.
Pelo chão, livros, pratos com restos de comida e pedaços de
velas gastas completam a desorganização humilde do ambiente. O
homem despe-se de sua bata já gasta pelo tempo. Sua costa
revela marcas de punições e dores diárias. Retira um chicote
preso a suas roupas agora jogadas no chão e, despido, olhos
cheios de lágrimas, em pé diante da cruz, inicia o que parece
ser sua autoflagelação diária chicoteando as próprias costas).
Padre
- Perdoai-me meu Senhor pelo que fiz e pelo que ainda vou
fazer. Perdoe Senhor, este vil pecador! Retira a culpa dessa
carne pecadora! Que o mal não domine não domine meus atos! Por
que o ato humano é uma covardia contra o espírito! E o meu
espírito é tão... Fraco. (pausa. Volta a se chicotear ainda
com mais força até não agüentar e cair no chão) Que este
sangue se purifique na dor! Por que pela dor Tu me destes a
vida e pela dor a vida se faz! Perdoai-me... Perdoai-me...
(No chão, ele apaga as velas uma a uma com sopros cansados.
Levanta-se ofegante. Luz acende. O homem se veste e, olhando
para outra cruz vazia atrás de si, grita).
- Felipe! Estou pronto!
(Entra Felipe arrastando pelos braços um homem desacordado.
Moço discreto, boa aparência, Dom Filipe veste-se formalmente
como se tivesse um encontro marcado com alguém importante.
Demonstra certo nervosismo e ansiedade. Deixa o corpo ao chão.
Seu olhar percorre o local onde se encontra agora. Há um misto
de medo, nervosismo e curiosidade).
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Dom Felipe
- Onde deixo ele, Padre?
Padre
- Aí mesmo.
Dom Felipe
- Tem certeza do que vamos fazer?
Padre
-
Absoluta,
meu
irmão.
(Olhando
para
o
homem
desacordado)
Ulisses precisa entender a verdade e aceitar. E se o amor não
mostra isso a ele, infelizmente eu preciso lhe apresentar a
dor...
Dom Felipe
- Como o Senhor quiser. E o que eu faço agora?
Padre
(Olhando fixamente para a cruz vazia, firmemente sentencia)
- Me ajude a colocar ele nessa cruz...
Dom Felipe
- Isso é mesmo necessário?
Padre
- (Rispidamente) Felipe, ou é do meu jeito ou não é!
Dom Felipe
-
Tudo
bem,
tudo
bem...
Eu
só
acho
que
isso
pode
ser
exagero...
Padre
- (Irritando-se) Escuta Felipe: nada é exagerado aos olhos do
Senhor. Essa é a hora de você demonstrar sua fé, meu irmão...
3
Ou negá-la de vez e fugir em buscar de outro caminho mais
fácil... (pausa) E então?
(Olhando-o nos olhos e sem dizer uma única palavra, Felipe
ajuda Padre a amarrar o homem desacordado na cruz. Amarram-lhe
os pulsos, antebraços e tornozelos. Em silêncio Felipe e Padre
assistem o despertar confuso do homem durante o falso processo
de crucificação).
Ulisses Maia
- O que... O que tá acontecendo? O que vocês... Que porra é
essa?! O que eu tô fazendo aqui? Vocês piraram?!
(Como os dois permanecem em silêncio, devorando-o com o olhar,
Ulisses prossegue esbravejando para Padre)
- Vamos, porra, me desamarra aqui!... E esse cara? Quem é esse
cara contigo?! Que merda é essa? Porra! Eu tinha certeza que
tu ainda ias pirar...
(Calmamente e como se fosse algo natural, Padre leva o dedo à
boca e indica a ordem de silêncio)
Padre
-
Shhh...
Mais
respeito
aqui
dentro...
Felipe
prepare
as
ferramentas! (aproximando-se ainda mais de Ulisses) Você vai
pagar todos os seus pecados! Nem que pra isso eu tenha que te
deixar apodrecendo nessa cruz...
Dom Felipe
- Padre... E se ele morrer? A gente não vai tá indo contra lei
divina? “Não matarás”...
Ulisses Maia
- (Rindo sarcasticamente) Padre? Você é mesmo inocente... Já
contou pra ele o porquê te chamam de padre, Ezequiel?
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Padre
-
Não
dê
ouvidos
ao
pecador,
Felipe.
Os
mandamentos
são
justificáveis. Eu não esqueci nenhum deles. Pode parecer muito
pra sua cabecinha, mas o principal objetivo do 6º mandamento é
proteger a vida. Sem essa Lei Divina os homens se matariam. A
proibição é para que um homem não tire a vida do outro de
forma banal, é para que ele não cometa assassinatos, Felipe...
E nem faça justiça com as próprias mãos, sem um julgamento
justo e competente...
Felipe
- Mas, padre... E o julgamento?
Padre
(Como se estivesse pregando para uma multidão, Padre passa a
falar em tom de discurso, tocando o rosto de Felipe)
- Felipe, Felipe, Felipe... Os pecadores já foram julgados. Eu
sou apenas a mão da justiça cumprindo seu dever espiritual. O
homem já nasce podre de pecados. Cabe a ele pedir perdão...
(Voltando
a
olhar
para
Ulisses
na
cruz)
Ou
sofrer
as
conseqüências. Não sou Eu quem faz as regras, meu irmão. Eu
apenas as cumpro. (Olhando para o Cristo crucificado) "assim
como é justo amputar um membro do corpo que foi acometido por
um câncer para salvar todo o resto, também é justo eliminar
certos elementos para proteger e preservar toda a sociedade".
Ulisses Maia
- Tomaz de Aquino.
Dom Felipe
- O quê?
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Ulisses Maia
- Filosofia barata...
(Dona Sofia entra no quarto. Confusa com a visão de ver seus
filhos discutindo novamente)
D. Sofia
- O que tá acontecendo aqui, Ezequiel? (Olhando para cruz ela
se espanta ao ver Ulisses amarrado) Ulisses? O que você está
fazendo aí?
Ulisses Maia
(Ulisses afoito procura palavras para tentar justificar a cena
em que se encontra: preso numa cruz pelo próprio irmão)
- Mãe! Eu não lhe falei que essa mania de igreja do Ezequiel
ainda ia deixar ele perturbado? Agora ele passou dos limites
tentando me crucificar vivo... Diz pra ele me tirar daqui,
anda, diz pra ele me tirar daqui que essa brincadeira já foi
longe demais.
D. Sofia
(Dona Sofia, com o carinho próprio das mães indo até Ezequiel)
- Filho, o que tá acontecendo? Por que você amarrou o seu
irmão?
Padre
-
(desesperando
aprender
mãe...
ao
Ele
ver
a
intercessão
da
mãe)
Ele
precisa
precisa entender que a dor purifica a
alma, que Deus é bom, que isso é pro bem dele...
D. Sofia
- Filho, ele é seu irmão. Você vai machucar ele assim...
6
Padre
-
(Falando
alto)
E
eu?
Hein?
Você
acha
que
eu
não
fico
machucado vendo o Ulisses dizer bobagens sobre Deus? Você acha
que não me machuca ver o meu irmão se sentar na roda dos
pecadores? Ele precisa compreender... Me deixa tentar ajudar
ele, mãe... Eu sei que eu posso... Deixa?
(Dona Sofia emudece diante das palavras do filho. Vai até
Ulisses, olha-o nos olhos e carinhosamente diz)
D. Sofia
- Ulisses, ajuda o teu irmão. Ele...
Ulisses
- Eu não acredito nisso que eu tô ouvindo...
D. Sofia
- Ele só está passando por um período complicado... (Ulisses
com os olhos cerrados de lágrima olha para o teto escuro do
quarto)
Ulisses Maia
- Tá. Vai. Me deixa aqui. Tudo bem, tudo bem...
D. Sofia
- (Indo até Padre e tocando-lhe o rosto com as duas mãos) Me
promete que você não vai fazer mal pra ele, Ezequiel?
Padre
- A senhora sabe que eu só quero o bem dele, mãe.
(Mãe
e
filho
se
abraçam
carinhosamente.
Os
dois
ainda
abraçados se olham fixamente e trocam um singelo beijo que
transita entre o desejo e uma afeição materna. Dom Felipe
parece não entender nada. Dona Sofia deixa o quarto sem olhar
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para trás e sem notar um Ulisses amargurado, pendurado numa
cruz que nunca foi pra ele. Padre acompanha-a até a porta)
Ulisses Maia
- (Para Felipe) Viu que família eu tenho? Você viu que família
perfeita eu tenho? Esses dois não valem nada...
Padre
- Não ouça o pecado, Felipe! E termine o que começou...
Ulisses Maia
- Pecado... Sempre o maldito pecado! Vocês matam em nome de
Deus
e
culpam
os
pecadores!
Cometem
crimes
e
acusam
os
pecadores! Maltratam a vida... E a culpa é de quem? A culpa é
de
quem,
hein
Ezequiel?
Você
acusa
a
todos
de
nascerem
pecadores e nem sabe o que é o pecado...
Padre
- E o que é pecado
pra você, meu querido pecadorzinho?
Ulisses Maia
- Medo. Só uma forma de controlar os outros pelo medo. Nada
mais...
Padre
- Medo?
Ulisses Maia
-
Medo
da
morte,
das
doenças,
das
calamidades,
dos
predadores... Medo do desconhecido... Medo do próprio Homem...
Padre
-
Então
não
é
preciso
ter
medo,
meu
amigo.
Reconheça
a
existência divina e peça perdão. Ele é a salvação... Você não
precisa passar por tudo isso, Ulisses... Deus pode...
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Ulisses Maia
- (Gritando) Eu não preciso de Deus! O Homem não precisa de
Deus, Ezequiel...
Padre
- (Irado com as palavras do irmão) E como você explica os
milagres, a devoção, a fé?! Como você explica o número de
devotos? Estão todos errados? Hein? Me responda?! Estão todos
errados e só você tá certo? É isso? É isso, Ulisses?
Ulisses Maia
- O Homem não precisa de Deus, mas precisa de religiões pra se
sentir
valorizado,
pra
saber
que
existe...
Precisa
de
religiões pra se sentir forte...
Padre
- (Calmamente) E você? Se sente forte agora?
Dom Felipe
- (Cortando o diálogo dos dois) Terminei Padre.
Padre
- Faça suas orações e descanse um pouco. Já, já começaremos.
(Padre sai. Dom Felipe vai até o crucifixo de tamanho natural
e inicia suas orações num balbuciar incompreensível)
Ulisses Maia
- Felipe. É Felipe, não é? Venha cá.
Felipe
- (Sem olhar para Ulisses) O que você quer?
9
Ulisses Maia
- Você é um bom garoto, eu posso ver isso nos seus olhos. O
que ele disse pra você, hein? Como ele consegue te iludir
desse jeito? Você parece ser tão inteligente...
Dom Felipe
- Os pecadores precisam conhecer a lei divina, pelo amor... Ou
pela dor.
Ulisses Maia
- Deixa disso, garoto! Você sabe que não é capaz fazer uma
coisa dessas. O que eu fiz de errado pra merecer isso?
Dom Felipe
-
(Virando-se
para
Ulisses)
Blasfemou.
Disse
que
Deus
não
existe, que se ele existe é mal... E isso é errado.
Ulisses Maia
-
Errado?
Quer
dizer
que
todo
erro
agora
é
passível
de
crucificação? E você nunca errou?
Dom Felipe
- Isso não vem ao caso agora...
Ulisses Maia
(Vendo
a
inocência
do
rapaz,
Ulisses
inicia
um
argumento
dosado de sorrisos)
- Claro que vem! Se for pra ser punido eu quero alguém puro
para me punir... Vá! Procure pelo mundo todo e vê se encontra
alguém puro o suficiente pra isso... E como eu tenho certeza
que você não vai encontrar ninguém, acho melhor você me tirar
daqui... Anda garoto!
Dom Felipe
- Não posso passar por cima da vontade de Deus...
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Ulisses Maia
- E que Deus é esse o seu que gosta de ver o mal, que permite
o mal e que se exalta com o que é mal?
Dom Felipe
- (Firmemente) O mesmo Deus que te permite à vida agora. Eu
sei que você não entende as razões divinas, os sacrifícios
necessários. O caminho da fé é duro, meu irmão, mas Deus...
Ulisses Maia
- (Impaciente) Que caminho? Sou eu quem escolhe o caminho!
Garoto, deixa desse papo missionário e me tira daqui logo.
Dom Felipe
- Ulisses, meu irmão, Deus não permitiria de modo algum a
existência do teu mal, se não fosse poderoso e bom a tal ponto
de poder fazer o bem a partir do próprio mal...
Ulisses Maia
- E porque ele não evita esse mal?
Dom Felipe
- Mas Ele quer evitar...
Ulisses Maia
-
Então
se
Ele
quer
evitar
o
mal
e
não
pode,
Ele
é
impotente...
Dom Felipe
- Mas Ele pode! Ele pode todas as coisas...
Ulisses Maia
- Então porque Ele não faz nada? Porque Ele gosta ver o mundo
sofrer... Ele é que o mal. Concorda?
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Dom Felipe
- Não! Não, Deus é bom...
Ulisses Maia
- (Irritando-se) Deus não existe! Ele é uma criação dessa sua
cabecinha
carochinha,
burra
em
que
teima
em
saci
pererê
e
acreditar
matinta
em
contos
pereira...
da
Cresce
moleque!
Dom felipe
- Deus existe, irmão. E Ele quer você...
Ulisses Maia
- (Irado) Duas coisas: eu não sou seu irmão e não quero esse
Deus que me colocou aqui, nessa cruz... E se você bem lembra,
eu tenho a liberdade de acreditar no que eu quero, eu tenho o
livre arbítrio pra escolher meu caminho...
Dom Felipe
- E você escolheu. Só vai ter pagar pela escolha... Agora eu
preciso terminar minhas orações.
(Felipe ajoelha-se em frete ao crucifixo de tamanho natural e
balbucia palavras inaudíveis. Em seguida se levanta e sai)
Ulisses Maia
- Ei! Ei, Felipe... Volta aqui! Me tira daqui, moleque!
(O silêncio agora é o único companheiro de Ulisses. Só, ele
inicia um diálogo consigo mesmo, sem palavras. Resmungos que
se
transformam
em
sílabas
e
sílabas
que
tornam
palavras,
frases inteiras. Agora é somente ele, um homem autoproclamado
ateu, diante do Deus que ele nega, sempre negou. Ulisses fita
o crucifixo a sua frente e no ápice da solidão momentânea,
inicia um diálogo solo)
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Ulisses Maia
-
Quem
diria,
hein?
Nós
dois,
juntos,
depois
de
tanta
história... Tá vendo o que Tu me fez? (Silêncio) Porra...
(em
voz fina, zombando) “vamos amar uns aos outros, vamos salvar o
mundo...” Em que pontos nós chegamos, hein? Matando em nome do
amor! Cobrando, vendendo, pagando, fingindo... Tudo pelo amor!
(reclamando)
Amor
que
nada...
(Olhando
fixamente
para
o
crucifixo a sua frente) Se é amor, é preciso matar? É preciso
morrer por um amor que eu nem sei se é recíproco, um amor com
gosto de sangue? Hein? Me responde, porra! Me responde...
(Gritando) Se Tu és o Filho de Deus, por que não desces dessa
cruz e me salva?! Por que me abandonas sempre quando eu peço
um sinal? Por que... Por que esse vazio aqui dentro só tende a
crescer mais e mais... Essa é a única saída? Acreditar num
Deus
vampiro
satisfaz
na
que
só
ganância,
Anda! É esse o plano?
se
nas
satisfaz
pelo
indulgências?
sangue?
Que
(Gritando)
só
Me
se
diz!
Morrer na droga daquela cruz pra que
todos se matem depois em Teu nome? Se é assim, meu caro, eu
sinto muito, mas eu prefiro seguir sozinho... Eu prefiro...
(Padre entra no quarto e encontra um Ulisses falando sozinho)
Padre
- Ora, ora... Fazendo suas orações, Ulisses? Pedindo perdão?
Ulisses Maia
- Não enche, Ezequiel.
Padre
- (Seriamente) Ouça bem, essa é sua última chance: Ulisses
Maia, você renega todos os seus pecados em nome de Deus?
(Ulisses sacode a cabeça chamando Padre para se aproximar.
Este se aproxima bem esperando uma resposta positiva)
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Ulisses Maia
- (Degustando sílaba por sílaba) Nem fudendo.
Padre
- Está bem, Ulisses. Está bem... Se você prefere assim...
(Padre se ajoelha e em voz alta inicia uma oração no mesmo
momento em que acende as sete velas. Após acesas, ele segue
repetindo a oração. Pega um chicote no meio das ferramentas
que
Dom
Felipe
organizou
no
chão
e
inicia
o
processo
de
“purificação” de Ulisses chicoteando-o)
Padre
- Pai, perdoa este homem por te negar aqui, perante os outros
homens. Que o Senhor receba em sua gloria o seu pedido de
perdão e que a dor o purifique.
(Ulisses
chicotada
Maia
e,
e
seu
irmão
diferente
de
se
um
fitam
Cristo
no
que
intervalo
não
de
chorou
cada
a
dor
humana, Ulisses grita em meio a lágrimas e soluços. A sessão
de espancamento prossegue até a interrupção de Dom Felipe e
Dona
Sofia
que,
ouvindo
os
gritos,
entram
rapidamente
no
quarto)
Dom Felipe/D. Sofia
- Pára, pára! Você vai matar ele!
Dom Felipe
- (Dom Felipe tirando o chicote das mãos de Padre) Já chega
Padre. Deve ser o suficiente por hoje... Ele já aprendeu...
(Padre, Ofegante e em silêncio vai até a mãe e a abraça. Ela o
conduz até a saída. Os dois saem abraçados)
Ulisses Maia
- (Cansado) Expulso...
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Dom Felipe
- O quê?
Ulisses Maia
-
Ele
tentou
apelido...
ser
padre
Ezequiel
foi
e
não
expulso
conseguiu...
da
igreja
Por
que
isso
ele
o
tanto
defende...
Dom Felipe
- Eu sabia que tinha algo errado com ele, mas... Me perdoe, me
perdoe. Não era minha intenção machucá-lo...
Ulisses Maia
- Tudo bem, só me ajude a descer daqui.
Dom Felipe
- Claro! Precisamos ser rápidos, o Padre vai voltar logo...
(Padre
volta
para
o
quarto
ainda
ofegante
e
encontra
Dom
Felipe desamarrando os braços de Ulisses)
Padre
- Felipe! O que você tá fazendo?
Dom Felipe
- (Desconcertado) Padre... Eu... Eu só estava verificando se
ele está bem preso...
Padre
- Claro, claro... E então?
Dom Felipe
- Então o quê?
Padre
- Ele está bem preso?
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Dom Felipe
- Está. Está sim...
Padre
-
Que
bom.
Venha
comigo
Dom
Felipe,
deixa
o
Ulisses
descansando um pouco... Vamos tomar um café...
(Padre conduz Dom Felipe até a saída, fixamente olhando para
Ulisses. Os dois saem e por alguns momentos Ulisses se ver
novamente
sozinho
com
suas
idéias.
Dois
corpos
marcados
permanecem frente a frente: Cristo e Ulisses – O Homem-Deus e
o Homem-Homem)
Ulisses Maia
- (Cansado e sorridente) E então? Foi feita a Vossa Vontade?
(Padre
volta
ao
quarto.
Perturbado
e
com
as
mãos
ensangüentadas, ele se despe entre soluços e lamentos, e fala
atropelando as palavras)
Padre
- Perdoai-me meu Senhor pelo que fiz. Perdoe Senhor este vil
pecador; retira a culpa dessa carne pecadora; que o mal não
domine
não
domine
meus
atos;
Por
que
o
ato
humano
é
uma
covardia contra o espírito; E o meu espírito é fraco. Que este
sangue se purifique na dor; Por que pela dor Tu me destes a
vida
e
pela
dor
a
vida
se
faz;
Perdoai-me,
meu
Senhor...
Perdoai-me...
Ulisses Maia
- O que aconteceu? O que aconteceu, Ezequiel?! Você o matou?!
Ezequiel! Que merda tu foi fazer...
Padre
- (levantando e chorando) Ele traiu a Deus, Ulisses. Ele traiu
a Deus...
16
Ulisses Maia
- Não! Ele traiu a você! E você não suporta ver que as pessoas
podem seguir outro caminho que não seja o seu... A verdade não
é uma só!
Padre
-
(Ainda
chorando)
Não,
não...
Deus
vai
entender
o
sacrifício...
Ulisses Maia
- O seu Deus não vai entender, Ezequiel! Ele não gosta de
pecadores, lembra?
Padre
- (Virando-se para o crucifixo atrás de si, em prantos) Eu não
pequei
senhor...
Sacrifícios
são
necessários...
São
necessários...
Ulisses Maia
- E agora quem é o pecador? Quem é o pecador, Ezequiel? Nós
somos
iguais,
meu
irmão,
em
carne
e
pecado!
Nós
somos
iguais...
Padre
- (Gritando) Cala a boca!
(Padre olha novamente suas mãos manchadas pelo sangue de Dom
Felipe. Em silêncio ele pega um punhal do meio das ferramentas
dispostas ao chão. Volta até o crucifixo. Sua respiração forte
sobressai-se diante dos fatos)
Padre
- Lava-me completamente da minha perversidade e purifica-me do
pecado...
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Ulisses Maia
- O que você vai fazer?
Padre
- Do meu pecado...
(Padre corre com o punhal nas mãos até o pecador fixado na
cruz. Olhos cheios de lágrimas. Luz apaga no grito de Ulisses)
Ulisses Maia
- Nãããooo...
(Luz brevemente apagada. Silêncio. Respiração forte. Soluços e
choro baixinho. Luz acende. Padre, nos pés da cruz pecadora,
está lambuzado de sangue, do seu sangue. Agarrado aos pés de
Ulisses)
Padre
- Perdão... Me perdoa, mano... Me perdoa...
(Dona Sofia, ao ouvir a gritaria entra no quarto. Curiosa)
Dona Sofia
- Ezequiel? O que houve? Eu ouvi os gritos e...
(Agarrando-o) Meu filho, meu filho o que houve? Ezequiel, fala
comigo! Ezequiel...
Ulisses Maia
- (Desesperado) Mãe, me ajuda a sair daqui!
(Dona Sofia desamarra as cordas que prendem Ulisses. Solto,
agora ele pega o corpo do irmão e põe nas pernas da mãe. Os
três
juntos
parecem
formar
a
imagem
de
Pietá.
Três
seres
diferentes e ao mesmo tempo tão similares, definidos por uma
única palavra: pecadores. Luz apaga. Fim de espetáculo).
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PECADORES - Recanto das Letras