AS ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL PARAGUAIO Priscila Gomes Santos Rio de Janeiro 2013 AS ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL PARAGUAIO Priscila Gomes Santos Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Língua Espanhola). Orientador: Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold. Rio de Janeiro Fevereiro de 2013. 2 Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio PRISCILA GOMES SANTOS ORIENTADORA: Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Língua Espanhola). Examinada por: Presidente, Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold (UFRJ) Profª. Drª. Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ) Profª. Drª. Viviane Conceição Antunes Lima (UFRRJ) Profª. Dr°. Pierre François Georges Guisan (UFRJ) – suplente Profº. Drª. Adriana Leitão Martins (UFRJ) – suplente Rio de Janeiro Fevereiro de 2013. 3 Rio de Janeiro Fevereiro de 2013 Santos, Priscila Gomes. A282e Estratégia de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio / Priscila Gomes Santos. – Rio de Janeiro: UFRJ, 2013. xxxiii, 100 f.:il.; 31cm. Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Departamento de Letras Neolatinas, 2013. Bibliografias: f. 87-90. 1. Língua Espanhola – Línguas em contato – Rio de Janeiro. 2. Língua Espanhola – Gramática Gerativa 3. Variação. 4. Clíticos. 5. Paraguai. I. Sebold, Maria Mercedes Riveiro Quintans. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. Título. 4 Aos meus avós, Anita e Cláudio, por verem em mim o que eu não sabia que existia; Ao meu pai, que se aqui estivesse ficaria imensamente feliz; À minha família do coração, Barddal e Carvalho, pela acolhida e conselhos; Aos meus amigos, que sempre estiveram presente quando foi necessário. 5 Agradecimentos Cursar o mestrado e escrever uma dissertação seria uma tarefa bem fácil se não tivéssemos outras “vidas” além da acadêmica, pois esta nos consome boa parte do tempo, do humor e outros afins... Não creio que eu seja a única pessoa a passar por isso, mas tenho certeza que sou a única com pessoas incríveis em todos os âmbitos da minha vida e que merecem ter meus sinceros agradecimentos eternizados nestas páginas que, de alguma forma, têm o “dedo” de cada um de vocês. Começo por agradecer a Deus, pois sem a sua permissão nada disso seria possível e também a minha família, Mãe, Pai, Padrasto e Irmã, cada um ao seu modo me impulsionou ao longo da minha vida. Aos amigos que sempre estão presentes quando é preciso: Bia, meu anjo desde a graduação, que segundo tia Dorinha é minha prima! Obrigada pelo carinho, compreensão, apoio desde sempre e por toda revisão e sugestão, seja nos textos ou na vida. Seria injusto de minha parte falar só da Bia, pois sua família é de igual valor para mim: tia Carminha e tio Zildo, obrigada pela acolhida de sempre, assim como os miojos... Liz – minha grande surpresa e presente que ganhei enquanto me preparava para a seleção do mestrado –, pessoa ímpar, que por vezes atuou segundo à minha necessidade do momento... meu Überich. Peço a Deus que seja uma pessoa para a vida inteira. Meu reforço positivo, motivadora tanto do meu desenvolvimento pessoal, quanto do profissional, que por vezes acredita mais no meu êxito do que eu mesma. Diego, meu grande amigo! Porém, nem sempre foi assim. No início da graduação, não éramos muito próximos, mas ainda bem que tudo mudou!!! Companheiro de compras no PY, incentivador da minha biblioteca Chomskyana e a voz sensata que surge quando é preciso. Assim como a Marina que tem sido uma ótima amiga e motivadora, principalmente, nessa reta final. Elaine, mais uma amiga que o destino me tinha reservado. Uma pessoa seríssima, aparentemente distante, mas que vira a noite com você por conta da tensão pré-seleção de mestrado, te acompanha até a prova e fica lá fora esperando você acabar e falar mil palavras por segundo até se acalmar... passa por todo o seu processo seletivo como se fosse 6 o dela. Recebe sms menos de 15hs antes de uma apresentação sua e está lá no dia seguinte, antes mesmo de você chegar, esperando para ver sua apresentação. Imara, Pitty e Robert, pessoas por quem possuo grande apreço pelo carinho e amizade, pelas discussões teórico-filosóficas, pela bobeira, pelas gargalhadas e alegrias compartilhadas. Por serem meus braços quando o meu estava imobilizado e, principalmente, por não me deixarem à minha própria sorte em relação aos meus dotes culinários. São os melhores vizinhos que alguém pode ter! Não poderia deixar de registrar meus agradecimentos a dois seres fantásticos: D. Lígia e Lara, que fizeram com que a escrita de algumas partes fossem bem mais suaves e meus momentos mais alegres. Carol Parrini e Flavia Paixão, assim como o Diego, foram revelações muitos boas e importantes. Tivemos idas e vindas, mas no final sempre estamos perto. Tanto em parcerias e descobertas em eventos acadêmicos, mas, principalmente, na vida como um todo, seja via e-mail, chat ou facebook. A distância não se apresenta como empecilho. Aos amigos Thais Neves, Bruno Alberto, Leonardo Marcotulio, Mayara, Thamara e outros, que por ventura, não tiveram seus nomes mencionados aqui, mas que fizeram parte deste momento. À Guaraciara Coutinho, por ter me ajudado a manter a sanidade!rs durante o processo, as conversas sempre interessantes e o humor refinado. À minha orientadora, Maria Mercedes Sebold, por ter me deixado caminhar com minhas próprias pernas ao longo do curso. Ao longo da graduação, tive o prazer de conhecer e estudar com professores excelentes, porém menciono aqui (correndo o risco de ser injusta) professores que foram importantes tanto na graduação, quanto agora no mestrado. Às professoras Dinah Callou e Silvia Cavalcante, pelas conversas, tira-dúvidas e materiais fornecidos que foram de importância vital para a pesquisa. À professora Cláudia Luna, pelos ensinamentos literários, pelos ouvidos atentos às apresentações do meu projeto, pela paciência e carinho dispensados da graduação até ao mestrado. À professora Maria Maura Cezário, minha primeira professora de linguística, que despertou em mim a vontade de ser pesquisadora e acabou por me iniciar nos estudos linguístico. 7 Ao professor Humberto Menezes, minha introdução aos estudos gerativistas, sempre muito atencioso e paciente e assim foi o meu primeiro contato com a gerativa, bem agradável. Saindo da linguística e indo para língua espanhola (minha paixão), tenho duas referências. A primeira é a professora Leticia Rebollo, por quem eu tenho muito respeito e carinho. O 5º período da graduação foi perfeito, pois estudei fonética da língua espanhola com ela, uma professora que me fascinava pelo seu conhecimento e empenho nas aulas. Muito obrigada pela oportunidade que me deu ao me convidar para fazer iniciação científica. Fez-me crescer como pessoa e como pesquisadora. Já no último período de língua espanhola, estudei com a minha última referência, a professora Consuelo Alfaro – dona de um conhecimento não só acadêmico, mas também de mundo, que encanta e faz qualquer um virar fã. Tive o privilégio de ser avaliada por ela no meu 1º colóquio e, como era de se esperar, fez comentários valiosíssimos. Também foi da minha banca de seleção e minha professora no mestrado, do primeiro ao último semestre. Agradeço por todo o conhecimento que compartilhou comigo em todas estas ocasiões. 8 SINOPSE Análise das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio, língua em situação de contato linguístico com o guarani - língua indígena co-oficial - analisadas através da associação do quadro teórico da gramática da gerativa e da Teoria de Variação e Mudança, a partir de corpus de textos escritos e testes linguísticos. 9 Esta pesquisa foi parcialmente financiada pela CAPES 10 Resumo ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL PARAGUAIO Priscila Gomes Santos Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. Esta pesquisa sobre o clítico acusativo no espanhol paraguaio (EPA) é um estudo de cunho gerativista que busca observar e descrever o comportamento do clítico de 3ª pessoa a partir dos contextos e condições sintáticas das diferentes retomadas do objeto direto no espanhol do Paraguai. Para isso, fez-se uma pesquisa de campo em busca de um corpus específico a fim de verificar as estratégias de retomada do objeto direto, descrevê-las e apontar uma possível causa interna para as diferentes estratégias utilizadas pelos falantes da variedade paraguaia do espanhol. O corpus foi montado a partir de testes de compreensão e produção escrita, além de dados coletados a partir de entrevista oral. Além disso, foram aplicados mais dois (02) tipos de testes: de compreensão e de produção escrita –online e presencial. Para a análise do corpus, foi utilizada a Teoria de Variação e Mudança associada aos pressupostos da Gramática Gerativa. Codificaram-se os dados segundo as variáveis dependente e independente preestabelecidas de acordo com as hipóteses suscitadas pelo estudo e, posteriormente, os dados foram processados pelo programa de análise estatística multifatorial Goldvarb X. A análise empregada permitiu observar e descrever comportamentos da variedade linguística aqui estudada e que não tinham sido tratados até o momento na variedade do espanhol do Paraguai. Os resultados indicam que talvez o clítico nesta variedade do espanhol tenha o traço [-sintático] e [+morfológico] possibilitando as diferente estratégia de retomadas. Palavras-chave: Espanhol paraguaio, Línguas em contato, Clítico, Teoria de Variação e Mudança. Rio de Janeiro Fevereiro de 2013 11 Resumen ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DEL OBJETO DIRECTO EN EL ESPAÑOL PARAGUAYO Priscila Gomes Santos Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. Esta investigación del clítico acusativo en el español paraguayo (EPA) es un estudio de cuño generativista, que busca observar y describir el comportamiento del clítico de 3ª persona a partir de los contextos y condiciones sintácticas de las distintas retomadas del objeto directo en el español de Paraguay. Para ello se hizo una investigación de campo buscando un corpus específico, con el fin de verificar las estrategias de retomada del objeto directo, describirlas y apuntar una posible causa interna para las diferentes estrategias utilizadas por los hablantes de la variedad paraguaya del español. El corpus se elaboró a partir de test de comprensión y producción escrita. Los testes aplicados fueron de dos tipos: de comprensión y producción escrita – obtenidos presencialmente y online. Para el análisis del corpus se utilizó la Teoría de Variación y Cambio asociada a los presupuestos de la Gramática Generativa. Los datos se codificaron según las variables dependiente e independiente preestablecidas de acuerdo con las hipótesis suscitadas por el estudio y, posteriormente, los datos se procesaron por el programa de análisis estadístico multifactorial Goldvarb X. El análisis empleado permitió observar y describir el comportamiento de la variedad lingüística estudiada y que todavía no había sido tratada. Los resultados indican que quizás el clítico en esta variedad del español tenga el rasgo [-sintáctico] e [+morfológico] posibilitando las distintas estrategias de retomadas del objeto directo. Palabras clave: español paraguayo, Lenguas en contacto, Clítico, Teoría de Variación y Cambio. Rio de Janeiro Fevereiro de 2013 12 Abstract STRATEGIES RETAKE DIRECT OBJECT IN PARAGUAYAN SPANISH Priscila Gomes Santos Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. This research on the accusative clitic in Paraguayan Spanish (EPA) is a generative nature study that focus on observing and describing the behaviour of the 3rd person clitic based on context and syntactic conditions in the different retakes of the direct object in Paraguayan Spanish. In this regard, field research was held in search of a specific corpus in order to verify direct object retake strategies, describe them, and indicate a possible internal cause for the use of different strategies observed on Paraguayan Spanish native speakers. The corpus was set up according to comprehension and writing tests, as well as data collected from oral interview. Furthermore, two (02) more types of tests were applied: in person and online comprehension and writing. The corpus was analyzed by using the Variation and Change Theory, in association with Generative Grammar assumptions. All data were decoded according to the dependent and independent variables, pre-established according to hypotheses raised by this study and, subsequently, processed by multifactorial statistical analysis program Goldvarb X. The adopted method allowed observing and describing the presently studied linguistic variety behaviors never discussed before. Keywords: Paraguayan Spanish, Language in contact, Clitic, Variation and Change Theory. Rio de Janeiro Fevereiro de 2013 13 Sumário Capítulo 1 – A Gramática Gerativa e a Variação Linguística 1.1 A Gramática Gerativa (GG): uma teoria mentalista ....................................................... 19 1.2 Noções centrais da teoria gerativa .............................................................................. 21 1.3 Momentos da teoria .................................................................................................... 22 1.3.1 O modelo da teoria de Princípios & Parâmetros (P&P) ............................................. 23 1.3.2 O Programa Minimalista (PM) ................................................................................... 24 1.4 Mudança e Variação linguística na GG ....................................................................... 26 Capítulo 2 – Línguas em contato 2.1 A República do Paraguai ............................................................................................. 29 2.2 Línguas em contato: Uma discussão ........................................................................... 32 2.3 Bilinguismo ................................................................................................................. 35 2.4 Bilinguismo no Paraguai (PY) ..................................................................................... 36 2.5 Contato Espanhol/Guarani ......................................................................................... 38 Capítulo 3 – Os clíticos 3.1 O pronome clítico........................................................................................................ 40 3.2 O sistema pronominal ................................................................................................. 42 3.3 O sistema pronominal do espanhol paraguaio ............................................................ 44 3.4 Os pronomes clíticos de terceira pessoa ..................................................................... 45 3.5 Estratégias de retomada do objeto direto anafórico .................................................... 46 3.6 Apagamento do objeto direto ...................................................................................... 47 3.7 Tipos de objeto nulo .................................................................................................... 50 3.8 Estratégias de retomada do clítico acusativo descritas para o EPA ............................ 51 Capítulo 4 – Metodologia Capítulo 5 – Descrição e análise dos dados 5.1. Estratégias de retomada: rodada geral ........................................................................ 61 5.2. Rodada específica: estratégias de retomada ................................................................ 64 5.3. Tipo Verbal.................................................................................................................. 65 14 5.4. Sujeito na oração que contém ODA............................................................................. 69 5.5. Distância do antecedente ............................................................................................ 72 5.6. Traço semântico do antecedente ................................................................................. 75 5.7. Referência do antecedente .......................................................................................... 77 5.8. Posição do antecedente ............................................................................................... 81 Capítulo 6 – Considerações Finais Referências bilbiográficas Anexos 15 0. Introdução Esta dissertação faz um estudo das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio. O Paraguai vivencia uma situação de contato linguístico entre o espanhol e a língua guarani, bem peculiar, pois a língua guarani tem status de co-oficial, ao contrário das outras línguas indígenas em situação de contato com o espanhol na América Latina. Cabe ressaltar que cada situação de contato é única e produz fenômenos de naturezas diferentes. Logo, só a situação de contato não seria a única causa do fenômeno, causa essa externa à língua, mas também parece haver uma causa interna implicando no apagamento. Para observação preliminar da realização do fenômeno proposto para estudo, foi utilizada uma amostra do corpus, coletado e compilado especificamente para a dissertação. Os dados foram codificados segundo as variáveis dependente e independente pré-estabelecidas de acordo com as hipóteses suscitadas pelo estudo. Posteriormente, os dados foram processados pelo programa de análise estatística multifatorial Goldvarb X. A partir dos dados levantados até o momento, há indícios de que um dos traços distintivos da variedade paraguaia, no que diz respeito às possibilidades de retomada do objeto direto [-animado] – não humano –, é o caráter [+morfológico] e [–sintático] que o clítico assume nesta variedade do espanhol. O interesse por este tema justifica-se pela necessidade de apresentar o estado atual do fenômeno linguístico de uma variedade do espanhol, bem como analisar a variação e descrever os contextos de ocorrência de omissão do objeto direto no EPA com a intenção de contribuir para estudos linguísticos em língua espanhola. Este estudo pretende observar e descrever o comportamento do clítico de 3ª pessoa a partir dos contextos e condições sintáticas das retomadas do objeto direto no espanhol do Paraguai. O trabalho se justifica pelo fato de que uma das estratégias de retomada disponível na variedade paraguaia do espanhol, o apagamento do clítico em função 16 anafórica, não está disponível em outras variedades do espanhol. No entanto, tal estratégia aproxima a variedade Paraguai do português brasileiro. As perguntas norteadoras deste estudo foram qual o status gramatical do clítico na variante paraguaia da língua espanhola? E qual possibilidade do apagamento do clítico de acusativo estar ligado às propriedades da sentença? Algumas das hipóteses levantadas para entender a natureza deste clítico – que pode ser retomado pelas estratégia de retomada pelo clítico, estratégia de retomada por SN e estratégia de retomada por apagamento –já haviam sido propostas para o português brasileiro, como por exemplo: a hipótese da distância do antecedente, a hipótese de referencialidade do antecedente, animacidade do antecedente, oração na qual o antecedente está incluído. Mas também há hipóteses como o tipo verbal e definitude que não haviam sido testadas ainda no fenômeno em português. O agrupamento das hipóteses para o estudo das estratégias de retomada do objeto direto do espanhol paraguaio foi também uma inovação. A partir destas hipóteses levantadas foi possível verificar a natureza [+morfológica] e [-sintática] do clítico de acusativo na variedade paraguaia do espanhol e assim apontar uma possível causa interna à língua para o comportamento diferenciado das estratégias de retomada na variedade paraguaia do espanhol. Para o desenvolvimento do tema, esta dissertação está organizada em 6 capítulos mais as considerações finais e anexos. No capítulo 1, se apresenta uma breve descrição da teoria gerativa a partir de suas questões fundadoras, bem como, noções importantes a esta dissertação dentro dos modelos do quadro gerativo utilizados. No capítulo 2, se discute acerca de línguas em contato, bilinguismo e a situação social da língua no Paraguai, para que se possa entender o fenômeno da variação linguística em uma situação de contato. No capítulo 3, se apresentam discussões relativas ao status do clítico e uma sistematização dos pronomes no espanhol geral e no espanhol paraguaio. No capítulo 4, se apresenta todo o percurso metodológico empreendido desde programas computacionais utilizados aos testes aplicados e o corpus utilizado. No capítulo 5, se faz a descrição do corpus e sua análise. E por fim, se apresentam as 17 considerações finais acerca do trabalho e dos resultados obtidos. Além dos anexos relevantes para a dissertação. 18 1. A Gramática Gerativa e a Variação Linguística 1.1 A Gramática Gerativa (GG): uma teoria mentalista O presente trabalho toma por base a Gramática Gerativa, mais especificamente o modelo de Princípios & Parâmetros (P&P) em sua versão atualizada, o Programa Minimalista (PM). Cada uma das propriedades comuns que devem ser encontradas em todas as línguas humanas, com base na hipótese de que todas as línguas são produto de uma faculdade de linguagem uniforme e específica da espécie humana, são chamados de universais linguísticos. A proposta dos universais linguísticos que remonta à Grécia antiga vai ao encontro da proposta gerativista da Gramática Universal (GU). O programa da GG está calcado na “natureza mentalista”. O mentalismo surge com a Escola bloomfieldiana e diz respeito à atitude dos linguistas que definiam as unidades linguísticas e as regras de combinação por sua significação, sendo esta definida empiricamente e de maneira intuitiva. Skinner, representante do mentalismo behaviorista, ocupava-se da qualidade do estímulo e da resposta produzida, e não da mente que recebia o estímulo e produzia uma resposta. Já para Chomsky e a linguística gerativa, o foco está na mente – o oposto dos estudos behavioristas. Logo, estudar a linguagem com a perspectiva gerativista é estudar as propriedades mentais da faculdade da linguagem. O programa da GG propõe o desenvolvimento das quatro (04) questões abaixo apresentadas: 1Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de uma determinada língua particular, por exemplo, do Português? O que é que existe na mente deste falante que lhe permite falar/compreender 19 expressões do Português e ter intuições de natureza fonológica, sintática e semântica sobre a sua língua? 2- Como é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente do falante? Que tipos de conhecimentos é necessário pressupor que a criança traz, a priori, para o processo de aquisição de uma língua particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua mente? 3- Como é que o sistema de conhecimentos adquiridos é utilizado pelo falante em situações discursivas concretas? 4- Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que servem de base ao sistema de conhecimentos linguísticos? (Chomsky, 1986) Podemos relacionar as perguntas feitas por Chomsky – que servem como base dos pressupostos teóricos da gramática gerativa – aos seguintes campos: conhecimento, aquisição, uso e cérebro (órgão físico). A primeira pergunta diz respeito ao conhecimento e envolve questionamentos antigos como o problema de Descartes1. Já a segunda pergunta diz respeito à aquisição da linguagem e nos remete ao problema de Platão2. A terceira questão diz respeito ao uso da língua, à interação. A quarta e última questão é a menos abordada até o momento, pois não trata mais da mente, mas do sistema físico/biológico do cérebro. A fase inicial dos estudos da GG teve maior foco na pergunta 1 e nos desdobramentos da mesma, tendo assim, um teor mais descritivo nos estudos, pois se queria descrever diferentes sistemas linguísticos. O aparato descritivo era muito rico, mas o explicativo nem tanto. As explicações dadas O problema de Descartes: A criatividade da linguagem (a) os falantes têm a capacidade de produzir e entender um número potencialmente infinito de expressões novas; (b) suas produções linguísticas não correspondem de maneira uniforme aos estímulos, isto é, não existe uma correlação unívoca entre o que o falante diz e suas circunstâncias externas ou internas; e (c) o que os falantes dizem é, em geral, coerente e apropriado à situação, às circunstâncias em que se produz o ato de fala. (Chomsky, 1986) 1 2 O problema de Platão: problema lógico da aquisição da linguagem Como é possível que os seres humanos cujos contatos com o mundo são breves, pessoais e limitados, sejam capazes de saber tanto quanto sabem. Exemplo: o conceito de triângulo perfeito. Como é possível que uma criança que aprende a sua língua materna chegue a um conhecimento linguístico extremamente estruturado a partir de experiências linguísticas confusas, limitadas e inexistentes? (Chomsky, 1986) 20 eram localizadas, ou seja, eram explicações para determinada língua e não para todas. Em um segundo momento, os estudos de gramática gerativa caminharam no sentido de unificar as explicações e esvaziar esse aparato descritivo. Com isso, foi se deslocando o estudo da pergunta 1 para a pergunta 2. A pergunta 2 tem centralidade, pois ao explicar os fatos – e não simplesmente descrevê-los – ela tem um apelo científico maior do que as outras perguntas. Através desta pergunta, explica-se a Gramática Universal e não só se descreve um sistema linguístico puro e simplesmente. Esta segunda pergunta proposta pelo o programa permite à GG uma adequação do ponto de vista explicativo, não apenas do ponto de vista descritivo. Aplicando a teoria ao objeto de estudo em questão, diferentes realizações de retomadas do objeto direto, uma possível explicação teórica para as diferentes realizações seria através da composicionalidade dos traços do clítico de objeto direto. A partir do exposto fica evidenciado que o modelo teórico gerativista dá conta de embasar estudos de fenômenos como os das línguas em contato, pois não só pode descrevê-lo, mas também explicá-lo, apoiando-se na segunda questão proposta por Chomsky para o desenvolvimento do programa gerativista. 1.2 Noções centrais da teoria gerativa A Gramática Universal (GU) é a teoria das propriedades da forma das gramáticas das línguas naturais e/ou dos princípios que regem a constituição das mesmas, concebida como um modelo formal do estado inicial da aquisição da linguagem entendido como um programa biológico específico da espécie humana que garante a criação/aquisição de línguas naturais. (cf. Corrêa, 2006) A Faculdade da Linguagem, noção base da gramática gerativa, é a capacidade inata que interage com a experiência linguística para produzir o conhecimento linguístico dos indivíduos, ou seja, a linguagem é uma propriedade do código genético, um objeto interno aos seres humanos como membros da espécie, uma capacidade inata ao ser. A faculdade da linguagem é um dos módulos 21 da mente/cérebro, que, por sua vez, é composta por outro módulo, como a sintaxe que também é modular. Ser modular não significa que existam módulos físicos. Ser modular significa que existem princípios que são específicos para aquele tipo de conhecimento. Os conceitos de Língua-I e de Língua-E são importantes para o entendimento da competição de gramáticas, abordada mais a frente, pois é a partir delas que se dá a variação na Gramática Gerativa, noção base para o entendimento do fenômeno abordado nesta dissertação. Na concepção de língua da gramática Figura 1 - Esquema módulo faculdade da linguagem gerativa, as línguas são objetos internos, individuais e intencionais. Ou seja, são objetos internos à mente dos indivíduos/falantes, propriedade na mente/cérebro e não são sucessões físicas ou práticas sociais externas. A gramática de um falante (a Língua-I) é um mecanismo finito que gera potencialmente um número infinito de enunciados; e não um conjunto de enunciados ou de atos de fala. Uma Língua-I é uma das opções permitidas pela GU, sem distinções de maneira sociológica; é uma série finita de operações de unidades linguísticas para derivar as expressões infinitas possíveis em uma língua. A Língua-E é um conjunto de enunciados ou atos de fala, um epifenômeno, um produto subsidiário da gramática mental dos falantes e não teria sequer existência no mundo real. É a linguagem como prática social cuja função primordial é a comunicação. 1.3 Momentos da teoria Para exemplificar a teoria, Chomsky faz uso da metáfora segunda a qual um marciano, ao chegar à Terra, deduziria que todos os terráqueos falam uma mesma 22 língua considerando que as línguas se diferenciam pelos parâmetros, que são particulares, mas todas são estruturadas pelos mesmos princípios, que são imutáveis. Essa metáfora é compatível com a hipótese universalista, segundo a qual as línguas seguem princípios fixos e inatos, modificam-se através dos parâmetros e a estruturação sintática das línguas é mais parecida que diferente uma das outras. O conhecimento gramatical dos indivíduos se caracteriza pela interação das propriedades (categoriais, de subcategorização, de seleção semântica etc.) que as unidades léxicas projetam na sintaxe com princípios que impõem restrições de boa formação sobre as representações linguísticas. Na aquisição da linguagem, a criança, como parte da sua dotação genética, conheceria de antemão certos princípios universais que regulam a combinação de palavras. A criança se limita a aprender as unidades lexicais e a eleger, a partir de um reduzido número de dados linguísticos, um dos valores de cada um dos parâmetros (ou opções abertas) da GU. 1.3.1 O modelo da teoria de Princípios & Parâmetros (P&P) Um dos modelos da gramática gerativa é o da Teoria de Princípios e Parâmetros. Seu objetivo é buscar uma solução para o problema lógico da aquisição da linguagem e a solução que se propõe segue uma lógica naturalista: eliminar redundâncias e descobrir princípios, simplificar os primitivos e os mecanismos da teoria linguística. Nesse modelo, o léxico, é visto como sendo independente do sistema computacional. Ele coloca à disposição da sintaxe, por exemplo, um verbo ou os traços referentes ao verbo, informa que esse verbo tem um n argumentos3. Tal função faz parte da grade temática ou semântica do verbo posto à disposição pelo léxico. A grade temática diz respeito aos papéis temáticos ou semânticos dos predicados. 3 No léxico estão definidas a quantidade de argumentos (de 0 a 3) que um verbo pode selecionar, a natureza desses argumentos (se interno ou externo), e as restrições semânticas e categoriais do verbo. 23 O léxico, nesse momento da teoria, é entendido como um armazém de itens lexicais, entradas lexicais que contêm informações minimamente de natureza fonética, sintática, semântica. As entradas lexicais teriam também informações de natureza idiossincráticas, do tipo “óculos” (só existe no plural). 1.3.2 O Programa Minimalista (PM) O Programa Minimalista (PM) (Chomsky, 1995) é uma reformulação da Teoria de Princípios e Parâmetros, conservando a concepção de princípios e parâmetros e da GU. O PM atualiza o conceito do modelo anterior para um modelo de língua que é tido como um sistema cognitivo, que suporta as restrições impostas por outros sistemas atuantes no desempenho linguístico. São mantidas as ideias da Teoria de Princípios e Parâmetros sobre a aquisição da linguagem e sobre a maneira de caracterizar o conhecimento gramatical dos indivíduos, mas se formularam duas perguntas, que obrigam a repensar boa parte das propostas anteriores: (a) Até que ponto a linguagem enquanto sistema computacional que entra em contato com outros sistemas da mente está bem desenhada? (b) Até que ponto podemos dar conta das propriedades das gramáticas mentais e da faculdade da linguagem utilizando o mínimo aparato descritivo e teórico possível? Existem dois princípios no PM: o de Interpretação Plena e o de Economia. O Princípio da Interpretação Plena garante que toda a informação relevante para que a interpretação sintática esteja visível nos níveis de interface do sistema cognitivo da língua e que toda informação sintática não relevante para a interpretação seja eliminada no curso da derivação linguística. O Princípio da Economia considera que as línguas humanas operam de modo tal que os custos computacionais são minimizados, e, assim, o sistema computacional opera com um custo mínimo. Neste modelo, a linguagem é composta pelo sistema computacional e pelo léxico, sendo ele responsável pelo provimento dos itens que serão utilizados nas 24 computações sintáticas. As informações de ordem fonéticas, semânticas e sintáticas dos itens lexicais apresentam traços que não são redundantes, estando de acordo com o princípio da economia. [os traços] indicam o tipo de informação que é tomada como gramaticalmente relevante na língua. Essa importância é sinalizada na interface fônica em termos de padrões regulares correspondentes à informação morfofonológica e à informação pertinente à ordem dos constituintes. Regularidade na interface fônica implica relevância gramatical de distinções semânticas (como número, pessoa, tempo etc.) ou expressão de funções sintáticas (Caso) (cf. Corrêa, 2006). A identidade de cada língua é de responsabilidade dos traços formais do léxico (tais como gênero, número, pessoa, QU-, caso e outros), que podem ser classificados quanto à sua interpretabilidade (conteúdo semântico) e quanto à sua natureza intrínseca ou opcional: os traços interpretáveis podem ser intrínsecos – aqueles que aparecem armazenados na entrada lexical (ou determinados por propriedades explicitamente listadas no léxico); ou opcionais – aqueles adicionados no momento da seleção dos itens para compor a numeração. No PM, o conteúdo dos parâmetros se restringe às propriedades morfológicas dos itens pertencentes às categorias funcionais do léxico. A proposta é a de que o sistema computacional da linguagem humana é universal e invariável. A distinção entre línguas, neste momento da teoria, está minimizada aos traços (aqui entendidos como propriedades de um elemento linguístico, que o caracterizam), que têm uma função considerável na manifestação visível e na variação linguística. Diferentemente do modelo anterior, em que a diferença estava nos parâmetros que eram particulares a cada língua. Dentro da visão de que todas as línguas possuem propriedades comuns, o universalismo é visto no PM por meio dos traços semanticamente interpretáveis que são gerais. Ao compararmos duas línguas como o português do Brasil (doravante PB) e o espanhol dentro do PM, os traços seriam comuns para as duas e poderia haver uma diferença na realização morfológica desses traços. Esta diferença morfológica na realização dos traços que 25 distingue uma língua de outra, português do espanhol, por exemplo, talvez também esteja disponível e seja capaz de diferenciar variedades de uma mesma língua como o espanhol paraguaio e o espanhol peninsular, ao mesmo tempo em que aproxima o espanhol paraguaio do português brasileiro. 1.4 Mudança e Variação linguística na GG Na visão gerativista, existem duas gramáticas, uma social e outra biológica – a gramática social corresponderia à Língua-E (produção linguística externa) e a biológica, à Lingua-I (sistema interno). Sendo assim, o indivíduo, quando no momento da aquisição, recebe os dados primários da gramática social da geração anterior, que é reflexo da sua gramática biológica. Sob a perspectiva da gramática gerativa atual, a mudança linguística é estreitamente condicionada pelo requerimento de que todas as línguas se adaptam a especificações da faculdade humana da linguagem; mas a mudança linguística, assim como o fato cru da diversidade estrutural das línguas do mundo, marca um limite para a especificação biológica da linguagem. (KROCH, 2003:1) A mudança linguística, a partir do quadro da GG, se dá sempre por meio da aquisição da linguagem, ou seja, a mudança acontece no processo de transmissão de uma geração a outra, ocorrendo mudança das regras sintáticas. A mudança linguística é por definição uma falha4 na transmissão de traços linguísticos através do tempo. Tais falhas, em princípio, podem ocorrer entre grupos de falantes nativos adultos, que, por alguma razão, substituem um traço por outro no uso da língua, como acontece quando novas palavras são cunhadas e substituem velhas; porém, no caso de traços sintáticos e gramaticais, tal inovação por adultos monolíngues quase não é atestada. Por outro lado, as falhas na transmissão parecem ocorrer no curso da aquisição da linguagem; isto é, elas são falhas no aprendizado. Uma vez que, numa instância de mudança sintática, o traço que os aprendizes falham em adquirir pode em princípio ser aprendido, tendo sido parte da gramática da língua num passado 4 Entende-se por falha uma alteração de input recebida por uma geração que pode vir a desencadear nas próximas gerações uma mudança de parâmetros. 26 imediato, a causa da falha deve recair em alguma mudança, talvez sutil, no tipo de evidência disponível para o aprendiz ou em alguma diferença, por exemplo, na sua idade durante o processo de aquisição, como no caso da mudança induzida através da aquisição de segunda língua por adultos em situação de contato linguístico. (KROCH, 2003:2) As situações de contato, dentro desta abordagem, são vistas como um constituidoras de “fatores potencialmente perturbadores das condições necessárias para a emergência de uma gramática particular” (Paixão de Sousa, 2005), pois emergem novas gramáticas reestruturadas que se devem aos limites estabelecidos pela GU e os dados primários disponíveis (input) durante o processo de aquisição da linguagem de uma geração. A situação de contato linguístico dentro do modelo gerativista não é tratada como causa de empréstimos ou substratos linguísticos ou marcas linguísticas diferenciadas que as línguas em questão possam apresentar, e sim como uma inovação linguística na reestruturação de uma nova gramática individual. Cabe salientar que neste modelo de concepção de língua a mudança não é gradual, diferentemente da proposta da sociolinguística, pois a gramática não se altera ao longo dos anos. A mudança é abrupta, já que se dá no momento da aquisição e não está restrita a uma determinada comunidade, pois a gramática é uma entidade real, biológica, representada na mente/cérebro do indivíduo adulto, ou seja, experiências diferentes podem fazer surgirem gramáticas diferentes em indivíduos diferentes. Contudo, a reestruturação sintática na gramática de um maior número de indivíduos tende a reforçar as inovações desta nova gramática e, assim, acaba ocorrendo uma competição de gramáticas. Tal competição se dá através da coexistência entre uma gramática inovadora (reestruturada sintaticamente) a gramática conservadora, que não deixa de ser expressa de um dia para o outro. Nesta dissertação, a noção de competição de gramáticas se torna fundamental, pois o objeto de estudo é o fenômeno das diferentes estratégias de 27 retomada do objeto direto na variedade linguística do espanhol do Paraguai, língua que está em situação de contato com o guarani. Ao que parece, no espanhol paraguaio ocorre uma competição de gramáticas, pois parte dos falantes já fazem uso de estratégias de retomada diferentes das previstas para o espanhol de outras variedades, que se devem ao input diferenciado que receberam da Língua-E da geração anterior. E assim configuram sua gramática interna durante o período de aquisição de forma diferente da língua-I da geração que forneceu o input a esta geração. 28 2. Línguas em contato A noção de línguas em contato é fundamental para pode identificar e definir a situação linguística paraguaia e então proceder com as análises. Duas ou mais línguas estão em contato quando convivem no mesmo espaço geográfico e são usadas pelos mesmos indivíduos alternadamente 2.1 A República do Paraguai O Paraguai está localizado na América Latina, mais especificamente na América do Sul, limitado ao Sul e Sudeste pela Argentina, ao Leste pelo Brasil e ao Noroeste pela Bolívia. Não tem costa marítima, mas é dividido pelo Rio Paraguai. Tem como capital a cidade de Assunção. Informação Geral: Independência: 15 de maio de 1811 Capital: Asunción (fundada em 1537 por Juan de Salazar y Espinoza) População: 6.669.086 habitantes (2007)5 Superfície: 406.752 km2 Idiomas Oficias: Castellano e Guarani Moeda: Guarani O Paraguai se diferencia dos demais países da América Latina que possuem parte da população indígena no que tangencia o idioma oficial, ou seja, é o único país que tem como língua oficial uma língua indígena, no caso o Guarani – que foi 5 http://www.tsje.gov.py/informacion-sobre-paraguay.php 29 reconhecido na constituição de 1967 e como pode ser visto no Censo Nacional de Población y Viviendas 2002 (Tabela 1 – versão oficial atualizada), é a língua mais usada no país, seguida pela língua espanhola, denominada no censo por castellano. Como terceiro idioma mais falado no Paraguai, tem-se o português, com 4,24% dos falantes – embora a porcentagem corresponda a aproximadamente 10% do total de falantes de espanhol, é um número significativo comparado às outras línguas faladas no país. DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO SEGUNDO O IDIOMA Indivíduos % Guaraní 3.946.904 51,35% Castellano 3.170.812 41,25% Portugués 326.496 4,24% Inglés 91.573 1,19% Alemán 59.166 0,76% Outras línguas indígenas6 59.125 0,76% Orientais e Eslavas7 12.198 0,15% Francés 8.650 0,11% Italiano 5.071 0,06% Idiomas Total8 7.685.749 Tabela 1 – Distribuição linguística no PY – Censo 2002 Segundo o Censo Nacional de Población y Viviendas de 28 de agosto de 2002, Assunção (a capital) conta com 512.112 habitantes dos 5.163.198 habitantes do país, concentrando 10% da população total em seu centro urbano. 6 Aché ñe’e, Angaité, Ava-guaraní ñe’e, Ayoreo, Enlhet norte, Enxet Sur, Guaraní ocorrênciasidental ñe’e, Maká, Manjui, Maskoy, Mbya ñe’e, Nivaclé, Ñandeva ñe’e, Pai ñe’e, Sanapaná, Toba, Toba-qom, Tomárâho, Ybytoso. 7 Japonês, Coreano, Chinês e Árabe. 8 O número total é superior ao da população, pois se havia contabilizado mais de um idioma por pessoa quando foi o caso. 30 31 Figura 2- Mapa do Paraguai 2.2 Línguas em contato: Uma discussão O contato linguístico não ocorre em um espaço físico e sim no indivíduo usuário das línguas que estão em contato – neste caso específico o espanhol e o guarani jesuítico –, ou seja, o lugar do contato é o indivíduo (cf. Appel & Muysken). As situações de línguas em contato estão intimamente ligadas a fenômenos como: diglossia, bilinguismo (multilinguismo), processos de pidnização e criolização, convergência, substituição e manutenção de línguas. O conceito de línguas em contato, assim como o de bilinguismo, é muito amplo. Para este trabalho, o conceito que mais se adequa à pesquisa é o proposto por Moreno Fernández (1998), que estabelece como situação de contato linguístico quando duas ou mais línguas quaisquer estabelecem uma situação qualquer. Esta situação social da língua é uma das mais favoráveis à mudança linguística, que pode se dar devido aos empréstimos linguísticos de todas as naturezas, ou pelo fenômeno de interferência9, ou ainda pela transferência linguística10. Tal fenômeno pode ser brevemente definido por diferenças ou desvios da norma linguística monolíngue que corresponde a estruturas existentes na língua de contato. A diferenciação entre interferência ou transferência linguística se dá segundo a estabilidade do fenômeno: se estiver mais estável, denota uma transferência; e menos estável, uma interferência linguística da língua em contato (cf. APPEL & MUYSKEN, 1996). O fenômeno do contato entre línguas é algo previsível e são inumeráveis os casos de coexistência de línguas. No ano de 1976, Uribe Villegas constatou que as comunidades multilíngues eram majoritárias, havia algo em torno de cinco mil (5.000) línguas e aproximadamente 140 Estados Nacionais. Portanto, as 9 ‘Aqueles desvios de normas de qualquer língua que ocorrem na fala de bilíngues, como resultado de seu conhecimento com mais de uma língua, isto é, como resultado de línguas em contato, será referido como fenômenos de interferência’ (WEINRICH, 1953-1974, p.1). 10 A transferência positiva decorria das semelhanças entre a língua materna e a língua estrangeira e facilitava a aprendizagem. Por sua vez, a transferência negativa ou interferência resultava das diferenças entre as duas línguas e causava erros e dificuldades na aprendizagem de línguas. 32 comunidades seriam majoritariamente multilíngues, sendo assim, em um único Estado coexistem centenas de línguas. A América Latina, em especial o Paraguai e o Peru, são áreas de línguas em contato. Esta situação de contato linguístico acontece desde a colonização, se pensarmos no contato com as línguas neolatinas. Tanto no Paraguai quanto no Peru, o contato linguístico é múltiplo, de acordo com as diversas línguas indígenas que podem ser encontradas nos dois países. Contudo, focaremos na situação de contato linguístico existente no Paraguai, que se dá entre a variante do espanhol com a variante do Guarani jesuítico ou clássico, pois também há no Paraguai uma terceira língua resultante do contato das duas últimas: o Jopara, uma língua coloquial com marcas e estruturas linguísticas do guarani e do espanhol paraguaio. É importante salientar que, embora existam diversas formas de contato linguístico não só na América Latina, como na América do Norte, Europa e demais continentes (e consequentemente não só com línguas neolatinas, mas também anglo-saxônicas, entre outras), cada situação de contato é única e distinta das demais. Por conseguinte, os fenômenos linguísticos produzidos também serão de naturezas diferentes. Se tomarmos o Paraguai e o Peru como exemplos, não poderíamos dizer que o fenômeno do apagamento do clítico de objeto direto apresentado nos dois países seja da mesma natureza, pois as línguas de contato, embora indígenas, são de famílias diferentes e o modo que se dá o contato também. Em 1953, se inicia o estudo das línguas em contato pela sociolinguística com o lançamento do Livro Languages in contact de Weinrich, que é a base dos estudos modernos das línguas em contato. Contudo, na América Latina, os estudos começam a ter tradição somente a partir de Lenz (1983), que estudou o espanhol chileno e a influência do araucano (Mapuche). Em muitos países, há casos de coexistência de duas ou mais línguas, ou seja, vive-se em uma situação de plurilinguíssimo ou multilinguismo11. Quase não "A finalidade consiste, ao contrário, em desenvolver um repertório linguístico, no qual todas as capacidades linguísticas encontrem lugar" (QCER, p. 6). Plurilinguismo vs multilinguismo Segundo QCER, o conceito de plurilinguismo se distingue de multilinguismo no seguinte modo: • o multilinguismo consiste no conhecimento de um certo número de línguas ou na coexistência de diversas línguas em uma determinada sociedade; • o plurilinguismo enfatiza a integração, uma vez que "conhecimento e experiências linguísticas contribuem para a formação da competência comunicativa, na qual as línguas estabelecem relações recíprocas e interagem" (QCER, p. 5). 11 33 existem países que sejam completamente monolíngues, pois fatores como redes sociais e econômicas acabam difundindo outras línguas num contexto anteriormente monolíngue. O multilinguismo põe diferentes línguas em contato e devido a essa convivência se pode observar alguns conflitos linguísticos, a produção de interferências linguísticas, a substituição de um idioma por outro e até a aparição de novas línguas/dialetos. Um exemplo de nova língua é o Jopara, já referido anteriormente, que tem estruturas sintáticas e lexicais tanto do espanhol quanto do Guarani jesuítico falado no Paraguai. O contato entre línguas é a consequência do contato entre sociedades e isso faz com que surjam vários fenômenos linguísticos. Pode-se destacar como mais importantes os seguintes: bilinguismo, diglossia, línguas francas, empréstimos, mudanças de código. Resumidamente, os fenômenos que podem surgir do contato entre línguas e sociedades seriam: bilinguismo – a prática de usar alternativamente duas línguas; diglossia12 – situação de bilinguismo ou bidialetalismo em que há diferença de status sociopolítico entre as duas línguas ou dialetos; empréstimos13 (borrowing); interferências linguísticas – léxicas, morfossintáticas e fonéticas; aparição de línguas francas14 (pidgins e crioulos) e mudança de código. Conforme Silva-Corvalán (1989), há vários tipos de bilinguismo: social, grupal ou individual. O bilinguismo social ou de sociedade é aquele que existe quando grupos numerosos de indivíduos falam duas línguas, já o de grupo ou elite está restrito a um pequeno grupo de indivíduos que estão ligados por relação de trabalho ou familiares. Um indivíduo bilíngue é aquele que tem certa competência Segundo Fishman, diglossia é um conceito que descreve uma comunidade bilíngue na qual existe uma alta porcentagem de indivíduos bilíngues que dominam as duas línguas em coexistência, embora ambas estejam diferenciadas funcionalmente em términos de variedade alta e variedade baixa. 12 13Incorporação ao léxico de uma língua de um termo pertencente a outra língua [Dá-se por diferentes processos, tais como a reprodução do termo sem alteração de pronúncia e/ou grafia (know-how), ou com adaptação fonológica e ortográfica (garçom, futebol).] 14Diz-se de língua não vernácula de populações heterogêneas, que serve como segunda língua para fins principalmente comerciais. 34 linguística no uso das duas línguas, contudo tal competência não precisa ser necessariamente igual à competência de um falante da modalidade padrão das línguas em questão. 2.3 Bilinguismo As diferentes entradas em um dicionário não especializado, o senso comum, servem para problematizar não só a definição de bilinguismo/multilinguismo, mas também para identificar a partir de qual visão de bilinguismo estamos partindo. O termo bilinguismo possui várias acepções no dicionário sob a rubrica da sociolinguística, como: “coexistência de dois sistemas linguísticos diferentes (língua, dialeto, falar etc.) numa coletividade, usados alternativamente pelos falantes segundo exigências do meio em que vivem, ou de situações específicas” ou “uso concomitante de duas línguas por um falante, ou grupo, com igual fluência ou com a proeminência de uma delas” (Houaiss, 2003) ou “existência de duas línguas num país com status de língua oficial” (Houaiss, 2003) ou ainda “ensino, oficial ou não, de uma língua estrangeira, além da língua materna” (Houaiss, 2003). Embora toda situação de contado seja diferente e específica, a dinâmica envolvida difere a cada caso, pois leva em consideração as línguas em contato, seu usos, a composição da sociedade envolvida, entre outros. A situação linguística do Paraguai, no entanto, parece constituir um caso bem mais específico, porque além de contemplar em seu fenômeno linguístico todas as acepções citadas sobre o bilinguismo, o contato é entre uma língua aculturante (espanhol, língua do colonizador) e uma língua aculturada (guarani, língua dos colonizados), que, ao contrário das outras línguas indígenas da América Latina, preservou seu léxico, mas mudou a ordem dos seus constituintes, assemelhando a ordem dos constituintes do espanhol (SVO). Além disso, o guarani teve sua prática incentivada e não foi relegado ao segundo plano. É a única língua indígena com o status de língua oficial e tem seu ensino e divulgação garantidos por políticas linguísticas. 35 2.4 Bilinguismo no Paraguai (PY) O Paraguai apresenta uma situação de pluriculturalismo e multilinguismo em seu território. Nele convivem distintas línguas e culturas ameríndias com a língua espanhola, assim como acontece em tantos outros países da América Latina. O que torna o Paraguai distinto dos demais é o fato de haver a uma ampla população bilíngue (espanhol e guarani). O bilinguismo foi oficializado, no Paraguai, pela Constituição de 1967 e reafirmado na Constituição de 1992, elevando o Guarani a língua cooficial do país. Históricamente, sólo desde finales del siglo XVIII se puede hablar de Paraguay como una nación con un núcleo de bilingüismo. Melià (1992) considera Paraguay, antes de esta fecha, no pude considerarse como una nación bilingüe sino preferentemente monolingüe en lengua indígena donde el guaraní seria la lengua de comunicación, pero también la lengua de uso cotidiano y habitual tanto de la población indígena como no indígena. (Palacios, 2000, p.02) Os dados publicados no Censo Nacional de população e moradias dos anos de 1950, 1962, 1982, 1992 e 2002 permitem descrever a situação linguística da população paraguaia. Sua divisão linguística, que pode ser conferida no quadro abaixo, obedece à seguinte divisão: 1) falantes bilíngues de guarani e espanhol; 2) falantes monolíngues de guarani; 3) falantes monolíngues de espanhol; 4) falantes de outras línguas. HISTÓRICO DA DISTRIBUIÇÃO LINGUÍSTICA DA POPULAÇÃO DO PARAGUAI ANO 1950 1962 1982 1992 LÍNGUA Falantes % Falantes % Falantes % Falantes % 633.151 57% 761.137 50.6% 1.247.742 48.6% 1.736.342 49.6% GUARANI 414.032 37.3% 648.884 43.1% 1.029.786 40.1% 1.345.513 38.4% ESPANHOL 48.474 4.4% 61.570 4.1% 166.441 6.5% 227.204 6.5% GUARANIESPANHOL 36 OUTRAS LÍNGUAS TOTAL 15.155 1.4% 33.165 2.2% 121.881 4.8% 194.591 5.6% 1.110.812 100% 1.504.756 100% 2.565.850 100% 3.503.650 100% Tabela 2 – Distribuição linguística da população paraguaia (Fonte: Censo paraguaio, 1992) Como se pode observar na tabela acima, manteve-se relativamente estável o bilinguismo paraguaio e o guarani possui vigência plena. Ao contrário de outros países, não há indicadores de um processo de substituição linguística em detrimento do espanhol. Contudo, na terceira tabela, em que estão representadas as predileções de línguas faladas em casa, há uma mudança em relação à zona urbana: a língua guarani é utilizada por 42,9% frente a 54,7% de utilização da língua espanhola. Todavia, permanece na zona rural uma predileção pelo guarani (82,7%). Cabe lembrar que o Paraguai, na última década, se transformou em um país mais urbano – esta população é de 659.174 habitantes, enquanto a população rural é de 458.224 habitantes. IDIOMA FAMILIAR15 Língua País Zona Urbana Zona Rural GUARANI 661.589 59,2 % 282.677 42,9 % 378.912 82,7 % ESPANHOL 398.741 35,7 % 360.310 54,7 % 38.431 8,4 % OUTRO 56.858 5,1 % 16.058 2,4 % 40.800 8,9 % TOTAL 1.117.398 100% 659.174 100% 458.224 100% Tabela 3 – Distribuição linguística familiar da população paraguaia (Fonte: Censo paraguaio, 1992) Há diferentes tipos de bilinguismo predominantes nas zonas rurais e urbanas. O bilinguismo16 rural paraguaio parece ser do tipo subordinado e a Segundo o Censo de 2002. Melià (1992, apud Palacios, 2000) aponta que a competência linguística bilíngue nas zonas rurais é adquirida mediante a escolarização, mas que só será completada si houver outros processos socioculturais de relação do indivíduo com meios urbanos como a leitura de jornais ou exigências de um emprego. 15 16 37 competência linguística destes indivíduos, incipiente. Já nas áreas urbanas, o tipo de bilinguismo predominante é o coordenado ou simétrico. Atendiendo al tipo de bilingüismo social, la sociedad paraguaya se ha considerado habitualmente como modelo de bilingüismo con diglosia estable, con el español como variante alta y con el guaraní como variante baja, socialmente subordinada en función de criterios como prestigio, tradición literaria, adquisición, estandarización y estabilidad. (Palacios, 2000, p.36) O Paraguai vive uma situação diglóssica não conflitiva, baseada na divisão de funções e situações comunicativas, uma situação estável social e comunicativamente. Rubin (1974: 121-122 apud Palacios, 2000) considera o espanhol a língua que os falantes escolhem para os ‘assuntos de educação, religião, governo e cultura superior’, já o guarani é empregado para ‘assuntos de intimidade ou solidariedade primária do grupo’. 2.5 Contato Espanhol/Guarani PAR BILÍNGUE POPULAÇÃO % GUARANÍ Y CASTELLANO 2.655.423 81,2% CASTELLANO Y PORTUGUÉS 264.706 8,0% GUARANÍ Y PORTUGUÉS 196.716 6,0% CASTELLANO E INGLÉS 90.390 2,7% CASTELLANO Y ALEMÁN 41.980 1,3% GUARANÍ Y ALEMÁN 10.749 0,3% NO HABLA 8.582 0,26% NO INFORMÓ IDIOMA 992 0,03% TOTAL 3.269.538 Tabela 4 – Distribuição da população em situação de bilinguismo no Paraguai – Censo 2002 38 A tabela acima mostra uma legitimação da situação de bilíngue paraguaia e a dificuldade de caracterizar o falante monolíngue. Outro dado relevante é que dos 3 pares bilíngues mais comuns, o português faz parte de dois e é a 3ª língua mais falada no país. No espanhol paraguaio, constata-se que, além de empréstimos e interferências de ordem fonéticas e morfológicas, também há influências sintáticas da língua guarani, como, por exemplo, a simplificação generalizada 17 do sistema pronominal átono de terceira pessoa – reestruturação que obedece a um processo de convergência linguística entre o espanhol e o guarani (a língua indígena carece de marcas morfológicas de gênero, número ou caso e de um sistema pronominal átono). O resultado dessa simplificação é o uso generalizado de um único pronome le para objeto direto e indireto sem distinção de gênero e número. Tal simplificação pronominal não supõe uma mudança estigmatizada e se generaliza entre a população urbana de nível médio e médio-alto, diferentemente da simplificação do sistema pronominal átono que ocorre em algumas áreas peruanas, equatorianas, mexicanas ou guatemaltecas. 17 Uso de uma única partícula como pronome, não fazendo diferença de caso, pessoa e número. 39 3. Os Clíticos Os pronomes, especialmente os clíticos, não têm uma definição consensual nos diversos quadros teóricos existentes. Uma das possíveis conceituações para os pronomes, dentro da GG, é a proposta de Cardinaletti (1994) e Cardinaletti e Starke (1999), que propõem um modelo tripartido para os pronomes e os dividem em pronomes fortes, pronomes fracos e clíticos. Mas, antes que se apresente o modelo tripartido, cabe apresentar as configurações das categorias existentes de pronomes. 3.1 O pronome clítico A proposta de Cardinaletti e Starke (1999), postula que há nas línguas naturais distintas classes de pronomes que possuem configurações internas distintas. E estas classes podem ser divididas em duas categorias de pronomes: os que se comportam como DPs18 plenos e os que expressam propriedades sintáticas especiais. A categoria dos pronomes que têm comportamento de pronome pleno são pronomes fortes e seu DP abriga a categoria lexical e há movimento de N (nome) para D(determinante). Na categoria que incorpora os clíticos, as projeções são somente funcionais. A diferença das duas categorias está na estrutura interna, pois os pronomes são gerados em N e projetam um NP. Já os clíticos são “adjungidos” em D e projetam um DP, não havendo projeção nominal. Por este motivo, não coocorrem com determinantes. 18 Núcleo funcional que abriga o NP (nome) 40 Abaixo se pode ver as representações19 em árvore dos pronomes fortes e dos clíticos: Figura 3 - Projeção dos pronomes Segundo Cardinaletti e Starke (1999), o sistema pronominal pode ser visto como um modelo tripartido em que cada parte dessa divisão tem características específicas para cada classe de pronome. Figura 4 - Modelo tripartido dos clíticos - Cardinaletti e Starke (1999) Esse modelo tripartido e gradativo considera que um pronome forte é hierarquicamente superior ao pronome fraco que por sua vez é superior ao clítico. No que tange às deficiências das classes, pode se dizer que as deficiências são herdadas de uma classe a outra e acrescida, às deficiências da própria classe. Dentro desta hipótese temos os pronomes fortes como [+sintáticos] e os clíticos como [-sintáticos]. Na escala de gradação, um elemento passa de concreto a abstrato, sintático a morfológico. Sendo assim, ao classificar as classes de pronomes propostas por Cardinaletti e Starke (1999), dentro da escala de gradação pode-se interpretar este clítico, em oposição ao pronome forte, como possuidor do traço [+morfológico] e o pronome forte continua com o traço [+sintático]. O clítico 19 Retirados de Souza, 2011. 41 com traço [+morfológico] pode vir a ser interpretado como morfema verbal de concordância. A interpretação deste clítico como [+morfológico] favorece a explicação da causa interna à língua para mudanças linguísticas tanto na variedade espanhola do Paraguai, quanto em outras variedades da língua espanhola – em que foi constatada – a possibilidade de uso da estratégia de retomada por apagamento. Trabalhos como os de Palacios (1998a, 1998b 2000), Granda entre outros afirmam que as causas são externas, pois estes autores não encontraram motivações sintáticas para o uso da estratégia de retomada por apagamento. De fato, a motivação não parece ser sintática, mas sim morfológica/semântica. Pois por ser um clítico com traço morfológico, este passa a se adjungir ao verbo como um morfema e ao ser aplicado o princípio da economia linguística – uma vez, que também ocorre o fenômeno linguístico do leísmo – a concordância se enfraquece e isto favorece o apagamento deste clítico de objeto direto na variedade espanhola do Paraguai. 3.2 O sistema pronominal O espanhol, assim como o PB, dispõe de um sistema pronominal dividido em formas tônicas e átonas (clíticos) em suas formas de singular e plural das três pessoas discursivas. Contudo, o sistema de pronomes do PB é fraco e tende ao apagamento dos clíticos, ao contrário do espanhol que possui um sistema vigoroso de clíticos e que só licencia o apagamento em alguns contextos restritos. O português do Brasil licencia o apagamento em todos os contextos, como os não recuperáveis pelo contexto imediato ou referente [+humano]. Como pode ser verificado nos seguintes exemplos: - Você viu o médico? - Não vi. A divisão do sistema pronominal espanhol pode ser vista nas tabelas 20 abaixo: 20 As tabelas foram confeccionadas para este trabalho. 42 Quadro de pronomes pessoais tônicos no espanhol Pronomes Sujeito 1ª Singular Yo como 2ª singular Tú comes/Usted come* 3ª singular Él/Ella come 1ª Plural Nosotros comemos 2ª Plural Vosotros coméis/ Ustedes comen* 3ª plural Ellos/as comen Pronomes Objeto 1ª Singular (prep) mí conmigo 2ª singular (prep) ti contigo 3ª Singular (prep) consigo *Segunda pessoa gramatical/ terceira do discurso Tabela 5 – Pronomes tônicos do espanhol Quadro de clíticos pronominais do espanhol Clíticos Acusativo Dativo me (a mí) te (a tí) Pronominais lo (a él) le/se (a él) la (a ella) le/se (a ella) nos (a nosotros) vos ( a vosotros) los (a ellos) les (a ellos) las (a ellas) les (a ellas) Me Te Anáfora Se Nos Os Se Tabela 6 – Pronomes átonos do espanhol 43 Na língua espanhola, os pronomes clíticos podem aparecer antecedendo o verbo (próclise) ou pospostos a ele (ênclise) e estabelecem uma relação de adjacência estrita: somente outro clítico pode intervir entre eles. a. No te lo vendo b. *Te lo no vendo A colocação dos clíticos pode variar conforme as propriedades da flexão verbal ao qual se adjungem. No espanhol, o pronome aparece proclítico com as formas finitas dos verbos, enquanto que a ênclise se registra com infinitivos, gerúndios e imperativos. Já os particípios não admitem clíticos. Os pronomes átonos, ao contrário dos pronomes tônicos, podem referir-se tanto a seres humanos quanto a não humanos ou inanimados. É importante salientar que pronomes tônicos e clíticos não estão em distribuição complementar no espanhol peninsular; ambas as formas podem coexistir na mesma sentença. 3.3 O sistema pronominal do espanhol paraguaio O leísmo21 é um fenômeno linguístico em que se verifica o uso de le(s) na função de complemento direto, na posição de lo (para masculino singular ou neutro), los (para masculino plural) e la(s) (para feminino), que são as formas às que etimologicamente correspondem exercer essa função. O espanhol do Paraguai (EP) tem adotado a forma le(s), tanto para o pronome complemento direto, como para o indireto de pessoa. Provavelmente isso se deve a uma herança do espanhol do século XVI, quando o pronome le, pronome 21 Los pronombres le, les proceden, respectivamente, de las formas latinas de dativo illi, illis. El dativo (…) se expresaba el complemento indirecto. Por ello, la norma culta del español estándar establece el uso de estas formas para ejercer dicha función, independientemente del género del sustantivo al que se refiere el pronombre. Debido a su extensión entre hablantes cultos y escritores de prestigio, se admite el uso de le en lugar de lo en función de complemento directo cuando el referente es una persona de sexo masculino. Sin embargo, el uso de les por los cuando el referente es plural, aunque no carece de ejemplos literarios, no está tan extendido como cuando el referente es singular, por lo que se desaconseja en el habla culta. El leísmo no se admite de ningún modo en la norma culta cuando el referente es inanimado: El libro que me prestaste LE leí de un tirón; Los informes me LES mandas cuando puedas. Y tampoco se admite, en general, cuando el referente es una mujer: LE consideran estúpida, aunque existen algunos casos en que el leísmo femenino de persona no se considera incorrecto. (DICCIONÁRIO PANHISPÁNICO DE DUDAS – El Leísmo, 2005). 44 complemento direto, teve seu uso generalizado tanto para pessoas como para coisas sobretudo entre os escritores espanhóis. Germán de Granda (1978) estabeleceu que o leísmo paraguaio mantém relação direta com os fatores sociolinguísticos, como socioleto 22 e registro23. Socioletos mais baixos demonstram o leísmo tanto no registro oral quanto no escrito, os socioletos medianos y altos demonstram o leísmo em registro oral, preferencialmente em fala não formal. Não há publicações recentes sobre o espanhol paraguaio, contudo está em curso o projeto AVAKOTEPA24, que pretende mapear o espanhol e o guarani falado no Paraguai e a criação de um corpus para trabalhos futuros. 3.4 Os pronomes clíticos de terceira pessoa Como já foi dito anteriormente, tanto na modalidade escrita, quanto na modalidade falada da língua espanhola peninsular, o uso dos pronomes clíticos é produtivo. Em contrapartida, no português brasileiro, a frequência de uso é baixa nas duas modalidades da língua, aparecendo numa frequência maior na modalidade escrita culta, porém menor que na língua espanhola25. Essa baixa frequência de utilização dos clíticos de objeto direto também foi observada por Palacios (1998, 2000 e 2001) no espanhol paraguaio. A necessidade da retomada através do clítico na língua espanhola não é exigência da gramática normativa (pois a frequência de uso é alta até mesmo na fala de pessoas com baixa escolaridade), mas uma exigência da gramática da 22 Cada uma das variedades de uma língua usada pelos grupos de indivíduos que, tendo características sociais em comum (p.ex., a profissão, os passatempos, a geração etc.), usam termos técnicos, ou gírias, ou fraseados que os distinguem dos demais falantes na sua comunidade; dialeto social, variante diastrática (HOUAISS, 2004). 23 Variante linguística condicionada pelo grau de formalidade existente na situação em que se dá o ato da fala, ou da finalidade, no ato da escrita; estilo, linguagem [Na língua falada podem distinguir-se, em grau decrescente de formalidade, os registros oratório, formal, coloquial tenso, coloquial distenso e familiar, e na linguagem escrita, literário, formal, informal, pessoal; algumas pessoas usam uma classificação simplificada e falam, tanto para a língua falada como para a escrita, em registro formal e registro informal.] (HOUAISS, 2004). 24 El principal objetivo del proyecto AVAKOTEPA es recopilar un corpus oral y textual de referencia del guaraní hablado en el Paraguay que sirva de base empírica para investigaciones de índole lingüística, y que den a conocer, con mayor amplitud, algunos rasgos y aspectos representativos de la cultura guaranítica. 25 Conforme Santos, 2011. 45 língua, já que o não uso do clítico gera sentenças agramaticais (cf. Fanjul 1999, p.139). O português brasileiro tem apresentado uma substituição progressiva da estratégia de retomada por pronome clítico pela retomada pela forma lexical e pela categoria vazia. Esta substituição pode ser atribuída ao enfraquecimento da concordância na variedade brasileira, diferenciando-a, assim, do português europeu (PE) e também de outras línguas românicas como o espanhol (peninsular). (cf. Galves, Duarte, Cyrino, 2006) Pode-se dizer que o espanhol paraguaio apresenta características mais próximas, no que tange à distribuição de clíticos de objeto direto, ao português brasileiro do que ao próprio espanhol peninsular. Talvez isso se deva à configuração dos traços (semânticos, sintáticos e morfológicos) desta variedade da língua, o que reforça a ideia dos universais linguísticos, isto é, que as línguas são mais semelhantes que diferentes. As diferenças existentes se devem aos traços que podem ser marcados ou não [+ ou -], mas que estariam presentes em todas as línguas. 3.5 Estratégias de retomada do objeto direto anafórico Nas línguas românicas, a primeira estratégia de retomada do objeto direto seria a pronominalização que consiste em substituir um sintagma nominal por um pronome. Tais pronomes podem ser de natureza clítica, demonstrativa ou lexical. A gramática normativa recomenda o uso do pronome clítico para a retomada, porém a língua licencia o uso de outras formas nominais. Exemplos: - Você viu o médico? - Não o vi. (clítico) -Não vi ele. (lexical) A segunda estratégia seria a retomada por um sintagma nominal – lexemas com núcleo idêntico ao do SN antecedente, com ou sem mudança de determinante –; expressões sinônimas ou quase sinônimas; nomes genéricos. 46 -Não vi o médico. (SN) -Não vi o doutor. (SN) Ainda há a possibilidade de retomada pela categoria vazia, doravante objeto nulo (ON), possibilidade esta que é licenciada na variante espanhola peninsular em contextos no quais o referente é um objeto [-definido ou determinado] e pode ser recuperado mediante o contexto. -Não vi [ø]. (apagamento) 3.6 Apagamento do objeto direto O apagamento do objeto caracteriza-se pela supressão do complemento direto (CD) de um verbo transitivo quando ele pode recuperar as informações em um contexto imediato. Esta supressão implica a ausência de um SN ou um pronome átono, como em espanhol padrão, que executa a função CD. Este fenômeno é chamado comumente de "construções de objeto nulo”. As construções de objeto nulo, entretanto, ocorrem seguindo alguns contextos sintático-semânticos. Primeiramente, se observa a questão da animacidade, pois os estudos prévios (Palacios, 1998 e 2001) que discorrem sobre o Espanhol Paraguaio relatam que o apagamento do objeto direto é recorrente quando o antecedente possui traço [- humano] – embora haja ocorrência da elipse também com antecedente de traços [+ humano] –, por isso o motivo do critério semântico de animacidade ser relevante para o estudo. A noção de animacidade é uma noção semântica que envolve um conjunto de elementos agrupados por apresentarem a característica de serem animados; o que é diferente do traço humano. O conjunto dos elementos que são animados inclui, além dos seres humanos, os demais seres que, assim como a espécie humana, apresentam algum tipo de vida. De acordo com a abordagem minimalista, os traços semânticos de animacidade e especificidade do antecedente estão relacionados 47 a pontos distintos na derivação, sendo, no entanto, interpretados em Forma Lógica. O traço de animacidade é intrínseco ao item lexical, já entrando com ele na derivação de uma sentença, ou seja, se tivermos como antecedente o DP menino ou o DP formiga, mesmo não sabendo, a priori, se são específicos e/ou definidos, saberemos que são antecedentes com traço semântico [+animado]. Por outro lado, o traço de especificidade é derivado sintaticamente, já que, dependendo da estrutura sintática, o antecedente será específico ou não, um antecedente será específico ou não a depender do contexto que envolve esse elemento (contexto sintático, além do semântico-pragmático). (CASAGRANDE, 2007 p 30) Ademais, os estudos mais recentes do PB (Cyrino, Kato e Duarte, 2006) sobre o objeto direto com sua análise apoiada no Programa Minimalista (PM) revelam a importância dos traços semânticos animacidade [+/-a], definitude [+/d] e especificidade [+/-e] para uma análise mais completa dos dados. Shwenter & Silva (2002), primeiramente, destacam o fato de que os clíticos acusativos de 1ª e 2ª pessoas são obrigatoriamente interpretados como referentes a antecedentes humanos e específicos, fato que faz com que a sua omissão torne a sentença agramatical, diferentemente do clítico acusativo de 3ª pessoa que, pode ser realizado pela estratégia de retomada nula ou pela estratégia de retomada por pronome lexical. Exemplos26: (a) Eu não sabia que você foi ao cinema também. Você *(me) viu lá? (b) Eu não sabia que você foi ao cinema também. Eu não *(te) vi lá? Para a construção com o apagamento do objeto e a estratégia de retomada por pronome lexical, os traços mais relevantes são: animacidade, especificidade e definitude (esta última não sendo tão relevante para a marcação de objeto direto anafórico no PB, mas sim em outras línguas). O objeto direto com os traços [+a, +e] não pode ser nulo, deve ser realizado como um pronome, no caso ele. Já referentes que sejam [-a] e/ou [-e] podem ser 26 Retirados de Shwenter & Silva, 2002. 48 retomados pelo objeto nulo. Dessa forma, os autores concluem que é a conjunção de animacidade e especificidade que governa a ocorrência do objeto nulo e do pronome em PB. Numa comparação com outras línguas, levando em conta a teoria da diferencial object marking, os autores mostram que em espanhol, por exemplo, existe uma marca morfológica que define o objeto direto (acusativo). Eles afirmam que, segundo Haspelmath (2001), há algumas condições às quais a marcação de objeto está sujeita; uma dessas condições é a que temos em espanhol: “(...) in Spanish for direct objects: the high degree of individuation of the object or its high position on the animacy/definiteness hierarchy strongly favors overt accusative case marking” (Shwenter & Silva, 2002: 10) Objetos diretos que em espanhol não são marcados pela marca morfológica de acusativo a27, ainda que não sejam inteiramente nulos, como em PB, formam uma classe semântico-pragmática com aqueles objetos que geralmente são nulos em PB, como nos exemplos (c) e (d). Já nos exemplos (e) e (f), a marca morfológica de acusativo a é licenciada pela interação entre os traços de animacidade e especificidade. Como exemplos28 temos: (c) Ayer vi ø/*a tu libro. [-anim, +spec] (d) Quiero entrevistarø/?*a una persona que sepa catalán [-anim, -spec] (e) Ayer vi *ø/a tu hermana. [+anim, +spec] (f) Quiero entrevistar *ø/a una persona que sabe catalán. [+anim, +spec] 27 A marcação diferencial de caso é um fenômeno linguístico que consiste no acréscimo de uma marca morfológica no objeto direto de algumas línguas, no espanhol esta marca morfológica é o a e esta marcação é sensível aos traços de animacidade, definitude e especificidade. 28 Retirados de Shwenter & Silva, 2002. 49 Algumas variedades do espanhol nas quais o objeto nulo ocorre mostram distribuição desse nulo bastante semelhante ao PB. Choi (2000) verificou que nas amostras de tanto falantes bilíngues, quanto falantes monolíngues do Paraguai houve mais de 90% de ocorrências de objetos nulos com referente de traço [pessoa] e raramente objetos nulos com referente de traço [+pessoa]. A partir da observação translinguística do fenômeno da marcação de objeto direto, Shwenter & Silva afirmam que a distribuição tanto de objetos diretos anafóricos nulos, quanto de pronominais é igualmente atingida por animacidade e especificidade, efeitos que também estão presentes em línguas de DOM (differential object marking): In our view, then, the phenomena considered under the rubric of DOM – normally restricted to the variable case marking of direct objects as found in languages like Spanish – ought to be expanded to include the differential formal expression that anaphoric DOs take in languages like Brazilian Portuguese. (Shwenter & Silva, 2003: 15) 3.7 Tipos de objeto nulo Segundo Huang (1984), o objeto nulo tem uma interpretação específica definida, análoga a de um pronome lexical, podendo ser chamado de objeto nulo referencial. Raposo (1992) descreveu que há dois tipos de objeto nulo: o objeto nulo opcional e o objeto nulo discursivamente identificado. A transitividade verbal está associada à possibilidade de omissão. Verbos como beber, comer e estudar, que são atividades biológicas, permitem o objeto nulo. Os estudos vistos - Granda (1978, 1992, 1996), Córvalan (1993,1994), Palacios (1998a, 1998b 2000, 2001 e 2005) - até então não apresentaram restrições sintáticas quanto ao uso do objeto nulo, mas restrições discursivas. Tampoco parecen existir restricciones temporales o aspectuales; encontramos elisión de objeto con el verbo en presente; con el verbo en pasado: cuando el verbo lleva aspecto perfectivo, pero 50 también si aparece en imperfectivo; tanto en formas flexionadas como no flexionadas. La semántica del verbo tampoco condiciona la elisión del pronombre, ya este fenómeno se muestra con verbos de conocimiento; de percepción, de habla; o de movimiento. (Palacios, 1998b, p.136) No PB, o objeto nulo está associado ao enfraquecimento da concordância e consequentemente ao processo de perda dos clíticos acusativos de 3ª pessoa. Em substituição aos clíticos acusativos perdidos, o PB apresenta a possibilidade inclusive de retomada por pronomes retos (ele/ela), os quais não são possíveis no português europeu e tão pouco no espanhol peninsular. Não há estudos descritivos sobre o espanhol paraguaio que indiquem as possíveis causas internas de mudança nos parâmetros da língua, mas acredita-se que sejam causas semelhantes às do português do Brasil. Nesta dissertação, defende-se que uma das causas para as diferentes estratégias de retomada do objeto direto do espanhol paraguaio se deva a uma motivação interna, uma nova configuração da gramática interna do falante, que altera a binaridade dos traços de número e concordância – critérios morfológicos – e licencia a estratégia de retomada com a categoria vazia. 3.8 Estratégias de retomada do clítico acusativo descritas para o EPA Segundo autores como Granda (1978, 1992, 1996), Córvalan (1993,1994), Palacios (1998a, 1998b, 2000, 2001) e Choi (2000), o EPA também utiliza como estratégia de retomada a não realização do clítico de objeto direto de 3ª pessoa [humano]. Como pode ser visto em alguns exemplos extraídos de Palacios29 (1998b): 27a. Normalmente el gasto _paga 29 Os exemplos 27(a, b, c, d e e) são referente a amostra de língua oral, coleta por Palacios para o trabalho em questão e os exemplos 28(a, b, c, d, e, f, g, h e i) são de língua escrita de estudantes universitários Paraguaios. Não há maiores informações sobre a amostra. 51 27b. Fue cuando empecé a conocer españoles y qué empresa era de españoles y dónde era, antes no _sabía. 27c. Él pensaba comercializar con la energía vendiendo-a otros países que no tienen energía 27 d. Las casas no aguantan 1...f Aguantan dos o tres años y luego ya al abandonar _con los fuertes vientos [...J se pudren todo 27e. El vestido de novia a lo mejor _compra el novio, _compra la novia 28a. ¿Cómo hizo él para sentarse a la mesa de ella? Aquella parte no _había visto 28b. ¿Por qué no podía tener un poco de plata si la mamó quería darle (por 'dársela') 28c. Si Claudia nos _contaba a los hermanos, ya teníamos que intervenir 28d. Todos le pueden decir que -vieron 28e. Maliciaba la desgracia, _sentía. 28f. Los quebracheros tenían que meterse por el monte y elegir un palo. Cuando _encontraban, se ponían a hachear hasta que_echaban ['derribaban'] y entonces tenían que volver a la administración para decir dónde estaba su tronco. 28g. Antes no teníamos policía ni tampoco_necesitábamos Cuando comenzamos a necesitar_ya no servía. 28h. Tuvo la mala idea de contar_le a la directora ['contárselo'] 28i. El tronco había que arrastrar_ hasta la picada Os exemplos acima apresentam alguns dos possíveis contextos para o apagamento do clítico de objeto direto na variedade paraguaia, que a diferencia da variedade peninsular, como por exemplo, orações transitivas com referentes [+definidos o determinados]. Como afirma Palacios (1998b): En definitiva, estamos ante un caso de convergencia lingüística de las estructuras morfosintácticas pronominales del guaraní y del español y no ante un caso de calco sintáctico. El concepto de convergencia de lenguas en contacto lo entiendo, siguiendo a Gumperz y Wilson (1971) y matizado por Germán de Granda(1994), como un conjunto de procesos paralelos que 52 desembocan en el desarrollo de estructuras gramaticales comunes en las lenguas en contacto, lo que supone la eliminación o ampliación de restricciones gramaticales de un fenómeno lingüístico, la activación de un fenómeno que conlleva un aumento de su frecuencia de uso o la adición o eliminación de algún elemento de un paradigma lingüístico. (p. 140) As conclusões de Palacios (1998a) são fundamentadas por conclusões de Germán de Granda (1994 apud Palacios 1998a) El español paraguayo -continúaomite por lo general el pronombre personal objeto de cosa, en una estructura claramente isomórfica respecto a la existente en guaraní". (p.327). Os estudos, anteriormente mencionados, que abordam o fenômeno do apagamento do clítico de objeto direto no espanhol paraguaio defendem a transferência linguística, ou seja, o apagamento se deve ao fato do guarani – língua em situação de contato com o espanhol – não ter uma partícula semelhante ao clítico do espanhol e tal característica ser transferida ao espanhol. Além disso, alguns estudos não analisam dados e outros estudos não explicitam o corpus utilizado. 53 4. Metodologia A metodologia está baseada na associação da Teoria da Variação e Mudança (WLH, 1968) com os pressupostos da GG (1986), amplamente difundida como Sociolinguística Paramétrica ou Variação Paramétrica, em uma versão atualizada, o Programa Minimalista (Chomsky, 1999) – que entre outras coisas apresenta uma atualização da noção de parâmetro. A análise oferecida pela variação paramétrica se ocupa do tratamento estatístico de dados para que se possa sistematizar a variação/mudança encontrada. Para isso, trabalha-se com variáveis estatísticas. São elas: as variáveis dependentes e as variáveis independentes. Variável é um conjunto de variantes que, por sua vez, são os diferentes modos de realização de uma mesma forma linguística. Entendemos por variável dependente duas ou mais possibilidades de realização de um fenômeno; no caso do estudo do apagamento do clítico de objeto direto, temos uma variável binária, pois ele pode ou não ocorrer. Já as variáveis independentes são constituídas de grupos de fatores linguísticos ou extralinguísticos que podem influenciar o comportamento da variável dependente. Ainda considerando o apagamento do clítico de objeto direto, a variável independente Distância em relação à primeira menção tem como grupo de fatores o número de retomadas de um objeto direto do corpus. A variável dependente desta pesquisa é a retomada do objeto direto anafórico, que possui seis variantes: Retomada por clítico, Retomada por SN anafórico30, Outros – pronome lexical, pronome demonstrativo, pronome indefinido – e Retomada por objeto direto anafórico nulo. Como variáveis independentes, foram estabelecidos alguns grupos de fatores que abarcam a natureza morfológica, sintática e semântica do fenômeno em questão. Tais grupos foram adaptados de Soledade (2011), que criou seu grupo (i) lexemas com núcleos idênticos ao do SN antecedente, com ou sem mudança de determinante; (ii) expressões sinônimas ou quase sinônimas; (iii) nomes genéricos (coisa, trambolho, fato...) 30 54 de fatores de acordo com os estudos prévios sobre os clíticos do português do Brasil. Seu objetivo era estudar a realização do objeto direto anafórico em peças de autores brasileiros dos séculos XIX e XX. No presente estudo, o objetivo é estudar a realização do objeto direto anafórico na variante paraguaia do espanhol em corpora oral e escrito, como descrito anteriormente. A versão adaptada do grupo de fatores utilizada nesta dissertação está composta por treze (13) grupos de fatores linguísticos. São eles: a) Forma do verbo; a. Simples b. Perífrases (Va+infinitivo, Va+gerúndio e Va+particípio) c. Formas nominais b) Tipo Verbal (Vendler, 1967); a. Estado b. Atividade c. Processo culminado d. Culminação c) Transitividade verbal; a. Transitivos b. Bitransitivos d) Tipo sintático da oração; a. Raiz (matriz/simples/1ª em coordenação) b. Completivas c. Relativas d. Adjuntas e. Coordenadas (2ª coordenada) e) Função do antecedente; a. Objeto 55 b. Sujeito c. Adjunto d. Complemento nominal e. Predicativo f. Tópico estrutura/discurso f) Posição do antecedente; a. Argumental b. Não argumental (tópico discursivo ou tópico estrutural) g) Distância em relação à primeira menção; a. 1ª referência (após a 1ª menção) b. 2ª referência c. 3ª referência d. 4ª referência e. 5ª referência ou posterior h) Sujeito na oração que contém o ODA; a. Sintagma nominal b. Pronome pleno c. Pronome nulo i) Traço semântico do antecedente; a. [+ animado] b. [- animado] c. [+ humano] d. antecedente “sentencial” ou demonstrativo neutro a. [- humano] j) Referencialidade do antecedente; a. [+específico/+referencial] 56 b. [-específico/+referencial] c. SN´s indefinidos/genéricos d. [-referencial] (oração) k) Forma/especificidade do antecedente; a. Nomes contáveis no plural com determinante b. Nomes contáveis no plural sem determinante c. Nomes contáveis no singular com determinante d. Nomes contáveis no singular sem determinante e. Nomes não contáveis com determinante f. Nomes não contáveis sem determinante l) Definitude; a. [+definido] b. [-definido] m) Direção de cliticização; a. Anteposto ao verbo b. Posposto ao verbo E por cinco (05) variáveis independentes extralinguísticas. São elas: a) Sexo; a. Feminino b. Masculino c. Não se aplica b) Faixa etária; a. Faixa I b. Faixa II c. Faixa III 57 c) Escolaridade; a. Nível fundamental b. Nível médio c. Nível Superior d) Tipo de teste; a. reescrita b. história das imagens c. oral d. julgamento de gramaticalidade e) Identificação do informante. Tais grupos totalizam dezenove (19) grupos de fatores a serem codificados para a análise sociolinguística quantitativa do corpus. Para a análise da variante paraguaia do espanhol, foi constituído um corpus representativo da fala paraguaia. Para tanto, foram aplicados testes de compreensão e produção escrita, além de dados coletados a partir de entrevista oral. Nesta pesquisa, foram aplicados dois (02) tipos de testes: de compreensão e de produção escrita – obtidos de maneira online e presencial. Os testes online têm as mesmas configurações dos testes aplicados presencialmente a fim de manter a homogeneidade da pesquisa. Os testes online estão disponíveis no endereço https://sites.google.com/site/testeling/. Foi empregada a tecnologia de formulários online, nos quais as respostas, os resultados dos testes, são atualizados diretamente em uma tabela compatível com o programa Excel da suíte Microsoft Office com a identificação do informante. O teste de produção escrita foi adaptado de Sebold (2005), que tinha como objetivo analisar as estratégias de retomada dos objetos diretos e indiretos de falantes de PB aprendizes de ELE na produção oral. A adaptação consiste na escolha da imagem utilizada. Para dar conta das variáveis extralinguísticas, os 58 informantes foram submetidos a um questionário sociocultural antes da realização dos testes linguísticos. O teste de compreensão consistia em dois (02) textos retirados da internet com lacunas-alvo e distratoras para que o informante as completasse como julgasse necessário. O teste de produção escrita contava com duas imagens de seis quadros cada uma e o informante deveria escrever sobre a história que se desenrolava nos quadros. Os testes31 foram aplicados a 22 informantes universitários – 4 online e 18 presenciais32 –, falantes de espanhol, que nasceram e vivem em Assunção. Esta região foi escolhida por estar afastada das fronteiras brasileiras e também por ser a capital e, portanto, concentrar um maior número de indivíduos com diferentes níveis de escolaridade e faixas etárias. Em um estudo piloto feito previamente ao ingresso no mestrado, também foi aplicado um teste de reescrita composto por dois fragmentos que os informantes deveriam reescrever evitando as repetições, além de um teste de produção escrita, que é idêntico ao aplicado durante o mestrado. O corpus foi codificado de acordo com as hipóteses levantadas para pesquisa e também pelo grupo de fatores previamente estabelecido. Posteriormente, a codificação dos dados foi submetida ao programa computacional de análise estatística multifatorial Goldvarb X (Sankoff, Tagliamonte e Smith, 2005) para que se obtevesse uma análise quantitativa do corpus. 31 A amostra analisada neste trabalho foi a escrita, porque as mudanças quando chegam a atingir a escrita já foram consolidadas na fala. 32 A distribuição irregular dos informantes nas modalidade online e presencial foi devida à falta de informantes dentro do perfil estabelecido, as duas amostras foram contabilizadas juntas, pois seguiam os mesmos parâmetros. 59 Figura 6 – Tela central e janela de especificação dos fatores do Goldvarb X O programa Goldvarb X é uma atualização do pacote VARBRUL, que é uma ferramenta metodológica utilizada na Sociolinguística Variacionista para cálculos estatísticos auxiliares na análise de fenômenos linguísticos variáveis. A partir da interpretação dos resultados levantados através da análise estatística fornecida pelo Goldvarb e os dados obtidos, pretende-se verificar quais traços diferenciam a variante paraguaia no que diz respeito ao apagamento do clítico de objeto direto. 60 5. Descrição e análise dos dados Nesta seção, serão apresentados os dados estatísticos, a interpretação e a discussão dos resultados, a partir dos cruzamentos e peso relativo das variáveis independentes estudadas. Inicialmente, foi realizada uma rodada geral preliminar com os 19 grupos (variáveis dependente e independentes) e após esta rodada foram descartadas algumas variáveis independentes que não se mostraram relevantes, segundo a visão da pesquisadora. Os grupos descartados foram: Forma verbal e Forma/especificidade do antecedente. Também foram feitas amalgamações 33 de fatores para que se pudesse obter no final o peso relativo das variáveis. Obteve-se 45 ocorrências de objeto direto anafórico, na modalidade teste online, distribuídas entre dois informantes, um do sexo masculino e outro do sexo feminino, ambos de nível superior e faixa etária jovem. 5.1. Estratégias de retomada: rodada geral Primeiramente, será visto o grupo denominado variável dependente, que é composto por quatro estratégias possíveis na recuperação do objeto direto anafórico, são elas: por clítico, por sintagma nominal (SN), por apagamento e por outros pronomes (pronomes indefinido, lexical e demonstrativo). A estratégia de retomada prevista para o espanhol é a retomada por clítico, mas não é a única. Sua omissão é reconhecida quando o referente pode ser recuperado pelo contexto. A seguir, veremos o gráfico 1 e a tabela 7 com a distribuição geral do ODA no espanhol do Paraguai. 33 Junção de fatores a fim de eliminar Knockout gerados nas rodadas. 61 Distribuição geral das realizações do ODA no espanhol do Paraguai Outros pronomes 7% Clítico 42% Apagamento 27% SN 24% Gráfico 1 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio Como se pode observar no gráfico, a retomada pelo clítico, apesar de ocupar a 1ª posição com 42% de preferência, indica uma variação na predileção e distribuição das estratégias de retomada no espanhol paraguaio, pois as outras estratégias – SN, Apagamento e outros pronomes – somadas ultrapassam o percentual de ocorrências de retomadas por clíticos. A 2ª posição é ocupada pela estratégia do apagamento com um percentual de aproximadamente 27% das ocorrências, seguida pela estratégia de retomada por SN que tem o percentual de aproximadamente 24%. E por último, a estratégia de retomada por pronomes outros – lexical, demonstrativo e indefinido – que obteve percentual de aproximadamente 7%. Observando os resultados preliminares da distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio, nota-se uma configuração diferenciada da língua se comparada a outras variedades como o espanhol peninsular ou mesmo o espanhol peruano, o qual também se encontra em uma situação de contato linguístico com uma língua indígena, mas tem uma distribuição das estratégias de retomada diferente do espanhol paraguaio. 62 Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio Clítico Sintagma Nominal Apagamento Outros 42.2% 24.4% 26.7% 6.7% (19/45) (11/45) (12/45) (3/45) Tabela 7 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio Após observar os dados obtidos sobre a distribuição das estratégias do ODA, podemos chegar a algumas conclusões: a língua espanhola no Paraguai apresenta possibilidades de retomada por clítico, permitindo inclusive a retomada por SN, não prevista, e um alto número de retomadas com apagamento do clítico. Tal evidência pode sugerir que essa disponibilidade aproxima essa variedade de outras do espanhol (peruana, guatemalteca) assim como do português do Brasil. já que duas estratégias, não previstas ou previstas com limitações, somadas ultrapassam 50% das ocorrências verificadas no corpus. Apresentam-se, a seguir, exemplos das estratégias de retomadas encontradas. Retomada por clítico a) Todo el equipo estaba de acuerdo. Os dijeron que había un problema y que había que resolverlo. O sintagma un problema foi retomado pela estratégia de retomada por clítico, neste caso, não fez uso do leísmo. 63 Retomada por SN b) Así que les recomiendo: ¡cuenten sus historias y divulguen sus historias!” O sintagma sus historias foi retomado por repetição do mesmo SN. Retomada pela categoria vazia c) Federico la llevo a cenar y se olvidaron de unas rosas que Federico llevó a princesa... ella emocionada [ø] dejó sobre el banco. O sintagma unas rosas não foi retomado, ou seja, foi utilizada a categoria vazia. Retomada por outros pronomes a) Les cuento mi experiencia porque creo que es una manera de mostrarles que no todo en internet está mal y que no todos mienten y les digo esto porque, además de mi historia, sé que hay muchas otras que también resultaron (o resultarán) en grandes amistades o casamientos. A oração foi retomada por um pronome demonstrativo. 5.2. Rodada específica: estratégias de retomada Para poder obter o peso relativo de cada fator analisado, é necessário não haver na rodada gerada pelo Goldvarb X nenhum single group34 ou knockout35. A fim 34 Single Group é a ocorrência de grupo simples, ou seja, um grupo de variáveis que não apresentou pelo menos um valor binário na análise. 35 Knockout é quando ocorre zero em alguma das variantes analisadas. 64 de eliminar esses problemas, a estratégia “outros” foi retirada na rodada posterior e assim foram obtidos os seguintes valores: Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio Tipo de Estratégia Percentual Clítico Sintagma Nominal Apagamento 45.2% 26.2% 28.6% (19/42) (11/42) (12/42) Tabela 8 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio Nesta nova configuração, ternária, de variantes possíveis no espanhol do Paraguai, a variável esperada como mais produtiva, a retomada por clítico, é superada em aproximadamente 55% das ocorrências (embora continue ocupando a 1ª posição), seguida da estratégia de retomada por apagamento, que tem um percentual de 28,6%, muito próximo da estratégia de retomada por SN que apresenta um percentual de 26.2% – mais da metade de ocorrências de retomada por clítico e somente 2.4 pontos percentuais abaixo da 2ª estratégia mais utilizada, o apagamento. 5.3. Tipo Verbal Esta variável dependente verifica o tipo verbal encontrado nas orações em que ocorrem as retomadas do objeto direto. O grupo de fatores é composto pelas categorias propostas pela a classificação de Vendler (1967). Vendler propõe quatro categorias de verbos: 1. Atividades (activities): aqueles que denotam eventos que ocorrem durante um tempo sem, entretanto, precisar terminar num ponto determinado. 65 Ex361: A mãe cozinhará à noite 2. Processos culminados (accomplishments): aqueles que denotam processos nos quais existe um ponto final lógico. Ex2: A mãe cozinhará um suflê à noite. 3. Culminações (achievements): aqueles que denotam eventos que ocorrem em um único momento no tempo. Ex3: O cachorro morreu. 4. Estados (states): aqueles que denotam não ações que não se desenvolvem no tempo. Ex4: Minha mãe sabe cozinhar Tipo Verbal Culminação 17% Estado 7% Atividade 21% Processo Culminado 55% Gráfico 2 – Distribuição dos tipos verbais na oração que contém o ODA O Tipo Verbal com maior frequência na amostra foi o tipo verbal processo culminado com 54.8% (23/42) das ocorrências. Os tipos verbais atividade, culminação e estado tiveram, respectivamente, as seguintes frequências: 21.4% (9/42), 16.7% (7/42) e 7.1% (3/42). 36 Os exemplos que ilustram a classificação do tipo verbal de Vendler (1967) foram retirados de Sebold (2009). 66 Tipo verbal x Estratégia de retomada Clítico Sintagma Nominal Apagamento 100% - - 33.3% 33.3% 33.3% (3/9) (3/9) (3/9) Processo 56.5% 17.4% 26.1% culminado (13/23) (4/23) (6/23) 42.9% 57.1% 0% (3/7) (4/7) (0/7) Estado Atividade Culminação (3/3) Tabela 9 – Distribuição dos tipos verbais na oração que contém o ODA Com o tipo verbal processo ocorrem as três estratégias de retomada, sendo favorecedor da estratégia de retomada por clítico, isto é, 56.5% (13/23) das ocorrências, que representa mais que o dobro da segunda estratégia favorecida, apagamento, com 26.1%(6/23) das ocorrências. A estratégia de retomada por SN ocorreu em 17.4% (4/23) dos casos na amostra. Já o tipo verbal atividade favoreceu igualmente todas as estratégias, teve uma frequência de 33.3% (3/9) em cada estratégia e foi o segundo tipo verbal mais utilizado. Devido à frequência das ocorrências apresentadas, pode-se dizer que o tipo verbal atividade é neutro, pois não favoreceu e nem desfavoreceu nenhuma das três estratégias de retomada, seja por clítico, SN ou apagamento. Os verbos de culminação desfavoreceram a estratégia de retomada por apagamento, não havendo nenhuma ocorrência com este tipo de verbo. A estratégia favorecida foi a de retomada por SN, 57.1% (4/7). Já a retomada por clítico ocorre em 42.9% (3/7) das orações com o tipo verbal culminação. O tipo verbal menos usado foi o de estado, 7.1% (3/42), que só ocorreu em orações cuja estratégia de retomada foi a do apagamento. Os resultados obtidos no grupo de fatores tipo verbal refutam a hipótese de 67 que a as estratégias de retomadas apresentadas pela variedade paraguaia do espanhol estejam ligadas ao tipo verbal da oração. Como pode ser visto no exemplo: Sin poder alcanzar[ø - el sombrero], puesto que la tormenta cada vez más se está haciendo más dura... Neste exemplo, a estratégia selecionada foi a retomada por apagamento, que ocorreu com o tipo verbal processo culminado. Há uma distribuição satisfatória das estratégias entre os tipos verbais. Essa pode ser mais uma evidencia de que as restrições não são sintáticas, conforme indica Palacios (1998b), mas sim restrições derivadas de traços morfológicos. 68 5.4. Sujeito na oração que contém ODA Esta variável dependente verifica o tipo de realização do sujeito na oração que contém o objeto direto anafórico (ODA), composto pelos seguintes fatores: SN, pronome pleno e pronome nulo. Só foram encontrados resultados para os fatores SN e pronome nulo. Era esperado que não houvesse ocorrência de pronome pleno já que o espanhol é uma língua de não preenchimento da posição de sujeito por pronome. Realização do sujeito SN 26% Não preenchido 74% Gráfico 3 – Distribuição das realizações do sujeito na oração que contém o ODA Sujeito na oração que contém o ODA Tipo de Realização SN Não preenchido Clítico Sintagma Nominal Apagamento 18.2% 36.4% 45.5% 26.3% (2/42) (4/42) (5/42) (11/42) 54.8% 22.6% 22.6% 73.8% (17/42) (7/42) (7/42) (31/42) Tabela 10 – Distribuição das realizações do sujeito na oração que contém o ODA 69 O tipo de realização preferencial na amostra foi o não preenchimento da posição de sujeito por um pronome com 73.8% das ocorrências. Tendo sido encontrado o mesmo número de ocorrências, 22.6% (7/42) nos dois diferentes tipos de estratégia que concorrem com o clítico (apagamento e SN). Somadas estas ocorrências, encontramos um valor abaixo dos 50%, mas bem próximo e que não deve ser ignorado, pois evidencia uma possível mudança na reorganização dos parâmetros da gramática interna na variedade paraguaia da língua espanhola (45.8% das ocorrências). A variável não esperada, neste caso, o preenchimento da posição de sujeito por um SN com – 11/42 ocorrências – 26.3% foi o tipo de realização preferencial nas ocorrências em que se selecionava a estratégia de apagamento (45.5%), seguido pela estratégia de retomada por SN (36.4%) e por último a estratégia de retomada por clíticos com 18.2% – 02/42 ocorrências – das ocorrências da variável por tipo de realização de sujeito por SN. Observe-se o seguinte fragmento: "[Lo] conocí a mi marido en la internet. Cuando hablamos por primera vez él me dijo que estaba solo y que buscaba una persona con quien tener compromisos serios. Siempre cuando chateábamos me decía que estaba interesado en una persona para formalizar algo, aunque él me dijera que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo[ø] mil veces. Ao analisar o fragmento acima, onde se encontram as retomadas por apagamento, evidenciamos o sujeito nulo. O padrão apresentado na variante paraguaia se assemelha ao padrão apresentado no PB, já que os fatores são inversamente proporcionais. Ou seja, quanto maior a retomada por clítico, maior também é a ocorrência de não preenchimento do sujeito; assim como quanto maior a ocorrência de sujeito preenchido por SN, duas ocorrências de sujeitos preenchido, destacado no exemplo, maior é a ocorrência de retomadas pelo apagamento. Outra particularidade encontrada na variante paraguaia foram as retomadas por SN’s, que dentro deste grupo tiveram comportamento semelhante às retomadas por apagamento. Foram encontradas ocorrências de retomadas por SN em orações cujo sujeito fosse não preenchido. 70 Tarallo (1993), em análise de um corpus diacrônico, assinala a preferência por sujeitos plenos e objetos nulos como característica da gramática do PB em oposição à gramática do PE, que demonstra preferência pelos sujeitos nulos e objetos diretos lexicalizados. Partindo das conclusões assinaladas por Tarallo (1993), pode-se dizer que as características da variedade paraguaia são diferentes em relação às características da variedade peninsular, por exemplo, assemelhando-se às características do PB. Embora não realize as estratégias de retomada com o sujeito preenchido por um pronome, característica que mantém semelhança com a variante peninsular do espanhol, a diferença entre as variedades do espanhol reside na frequência das ocorrências. Isto é, o traço de clítico [+morfológico] está disponível tanto para o português brasileiro, quanto para o espanhol paraguaio. Já o traço [+sintático] está disponível para o português europeu e o espanhol peninsular. O fato de ter o traço de clítico [+morfológico], implica em ter também o traço [-sintático], que estão distribuídos em oposição. Segundo Galves (1998), as duas gramáticas (PB e PE) aceitam tanto o sujeito nulo, quanto o objeto nulo, entretanto a frequência com que ambos ocorrem nas duas variedades difere consideravelmente. Deste modo, a análise deste fator pode revelar uma relação entre esses dois fatos linguísticos pertencentes a parâmetros diferentes da língua. 71 5.5. Distância do antecedente Esta variável dependente verifica a hipótese já atestada para o PB por Duarte (1986) de que quanto maior a distância do referente, maior seria a probabilidade de ocorrer a estratégia de retomada por apagamento. Foram contabilizadas até a 6 ª menção (5ª menção após o referente), pois dada a dimensão das amostras e no tipo de teste aplicado, não seria possível realizar muitas retomadas. 5ª menção 3% 4ª menção 12% Distância 6ª menção 2% 3ª menção 19% 2ª menção 64% Gráfico 4 – Distribuição das retomadas de acordo com a distância do antecedente A distância com maior frequência na amostra foi a retomada após a 1ª menção com 64.3% (27/42) das ocorrências. As 2ª menção, 3ª menção, 4ª menção e 5ª menção tiveram, respectivamente, as seguintes frequências: 19% (8/42), 11.9% (5/42), 2.4% (1/42) e 2.4% (1/42), como é possível visualizar na tabela apresentada a seguir: 72 Distribuição das retomadas de acordo com a distância do antecedente Distância 1ª menção 2ª menção 3ª menção 4ª menção 5ª menção Clítico Sintagma Nominal Apagamento 40.7% 22.2% 37% 64.3% (11/42) (6/42) (10/42) (27/42) 50% 37.5% 12.5% 19% (4/42) (3/42) (1/42) (8/42) 60% 20% 20% 11.9% (3/42) (1/42) (1/42) (5/42) 0% 100% 0% 2.4% (0/42) (1/42) (0/42) (1/42) 100% 0% 0% 2.4% (1/42) (0/42) (0/42) (1/42) Tabela 11 – Distribuição das retomadas de acordo com a distância do antecedente Na 1ª menção, ocorreram as três estratégias de retomada - retomada por clítico, retomada por SN e retomada por apagamento - sendo favorecedor da estratégia de retomada por clítico, 40.7% (11/42) das ocorrências, que é bem próxima à segunda estratégia favorecida, apagamento, com 37%(10/42) das ocorrências. A estratégia de retomada por SN ocorreu em 22.2% (6/42) dos casos na amostra. Na 2ª menção, também ocorreram as três estratégias de retomada, sendo favorecedor da estratégia de retomada por clítico, 50% (4/42) das ocorrências, seguida pela segunda estratégia favorecida, SN, com 37.5%(3/42) das ocorrências. A estratégia de retomada por apagamento ocorreu em 12.5% (1/42) dos casos na amostra. Na 3ª menção, também ocorreram as três estratégias de retomada, sendo favorecedor da estratégia de retomada por clítico, 60% (3/42) das ocorrências, seguida por empate das estratégias de retomada por clítico e SN, as duas com 20 % (1/42) cada uma delas. 73 As 4ª e 5ª menções só ocorreram com um estratégia, respectivamente, retomada por SN e retomada por clítico 100%(1/42). Um fato relevante para análise é o tipo de corpus utilizado na pesquisa, nesta dissertação, mais especificamente, o teste de produção a partir das imagens. Este teste não favoreceu uma retomada exaustiva do referente e, por isso, não se pode refutar totalmente a hipótese da distância, segundo a qual só ocorreriam estratégias de retomada diferentes do pronome clítico após a 1 a menção do antecedente. Os resultados obtidos apontam para a interpretação segundo a quanto maior for a distância do antecedente, maior a probabilidade da eleição das estratégias de retomada por objeto nulo ou sintagma nominal. Contudo foram encontradas retomadas por objeto nulo já na 1a menção após o referente, sendo esta a menção com maior ocorrência desta estratégia de retomada. A estratégia de retomada por objeto nulo também foi encontrada nas 2a e 3a menções, mas não foi encontrada na 4a e 5a menção após o referente. Há ocorrências da estratégia de retomadas por clítico em quase todas as menções após o referente, menos na 4a menção. Tais ocorrências evidenciam que o clítico na variedade paraguaia no espanhol continua presente tanto na modalidade escrita, quanto na modalidade falada, mas á não é a única estratégia de retomada utilizada. "[Lo] conocí a mi marido en la internet. Cuando hablamos por primera vez él me dijo que estaba solo y que buscaba una persona con quien tener compromisos serios. Siempre cuando chateábamos me decía que estaba interesado en una persona para formalizar algo, aunque el me dijera que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo[ø] mil veces. les cuento mi experiencia porque creo es una manera de mostrarles que no todo en internet esta mal y que no todos mienten y les digo que además de mi historia se que hay muchas otras que también resultaron en grandes amistades o casamientos. así que les recomiendo: cuenten sus historias y divúlguenlas O trecho acima é parte do teste de reescrita e evidencia as poucas retomadas possibilitadas pelo teste e mostra a 1ª menção depois do referente tanto retomada por clítico quanto por apagamento. 74 5.6. Traço semântico do antecedente O controle da variável dependente traço semântico do antecedente teve por objetivo verificar a animacidade do referente, a fim de mapear com quais traços de animacidade ocorrem as estratégias de retomada por clítico, retomada por SN e retomada por apagamento. Traço semântico do antecedente Sentencial 31% [-animado] 55% [+humano] 14% Gráfico 5 – Distribuição das retomadas de acordo com o traço de animacidade O fator [-animado], cujo grupo engloba referentes não humanos e não vivos, foi de 55% (23/42) das ocorrências. Seguido do fator sentencial ou demonstrativo neutro com 31% (13/42) das ocorrências, embora este fator não tenha sido o preferencial, favoreceu a ocorrência das três estratégias de retomadas por clítico, SN e apagamento. O fator [+humano] que não é correspondente ao clítico de 3ª pessoa, e sim de 1ª pessoa, só foi categorizado pois apresentou apagamento e se tornou interessante para a pesquisa. Tal fator corrobora a ideia de que o apagamento de clíticos na variedade paraguaia do espanhol está disponível não somente para contextos não licenciados no espanhol peninsular, mas também para clíticos de 1ª pessoa que não são licenciados. 75 Distribuição das retomadas de acordo com o traço de animacidade Animacidade Clítico Sintagma Nominal Apagamento 16.7% 0% 85.3% 14.3% (1/42) (0/42) (5/42) (6/42) ou 30.8% 15.4% 53.8% 31% demosntrativo (4/42) (2/42) (7/42) (13/42) 60.9% 39.1% 0% 54.8% (14/42) (9/42) (0/42) (23/42) [+humano]37 Sentencial neutro [-animado] Tabela 12 – Distribuição das retomadas de acordo com o traço semântico de animacidade No fator [-animado], a estratégia preferencial de retomada do objeto acusativo foi a retomada por apagamento com 53.8% (7/42). Seguida pela estratégia de retomada por clítico com 30.8% (4/42). E por fim a pela estratégia de retomada por SN com 15.4% (2/42). No fator [-animado], só ocorreram 2 estratégias de retomada: por clítico e por SN, sendo a retomada por clítico a preferencial com 60.9%(14/42) e a retomada por SN com 39.1%(9/42). Os resultados obtidos apresentam uma predileção pelo fator sentencial ou demonstrativo neutro para a ocorrência da estratégia de retomada por apagamento. Como podemos ver no exemplo: (…)que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo [ø] mil veces.(…). O referente humano em questão é um clítico de 1ª pessoa, sujeito, só foi contabilizado pois resultou interessante, já que só houve uma retomada por clítico, contra 5 retomadas por apagamento. É referente ao exemplo "[ø] conocí a mi marido en la internet.” 37 76 Já a estratégia de retomada por clítico ocorreu com todos os fatores, como era esperado, pois a estratégia de retomada por clítico é tida como preferencial pela norma padrão. Como podemos ver no exemplo: (...)cuenten sus historias y divulguenlas. 5.7. Referência do antecedente Esta variável dependente junto com anterior compõe os fatores semânticos necessários para identificar o tipo do antecedente. Pois a partir da composicionalidade destes traços – animacidade e referencialidade – pode se verificar se de fato não há restrições semânticas para a ocorrência da estratégia de retomada por apagamento. Referencialidade do antecedente [-referencial] 29% SN´s indefinidos/ genéricos 2% [+específico/ +referencial] 40% [-específico/ +referencial] 29% Gráfico 6 – Distribuição das retomadas de acordo com a referencialidade Foram estabelecidos 4 fatores para esta variável, são eles: [+específico/+referencial], [-referencial] (oração), [-específico/+referencial] e SN’s indefinidos/genéricos. 77 O fator com maior ocorrência foi o [+específico/+referencial] com 40.5% (17/42). Seguido dos fatores [-referencial] (oração) e [-específico/+referencial] com respectivamente 28.6% (12/42) das ocorrências, mas com distribuição interna diferente. Por último o fator SN’s indefinidos/genéricos. Distribuição das retomadas de acordo com a referencialidade Clítico Referencialidade Sintagma Nominal Apagamento 35.3% 35.3% 29.4% 40.5% (6/42) (6/42) (5/42) (17/42) 33.3% 16.7% 50% 28.6% (4/42) (2/42) (6/42) (12/42) 75% 25% 0% 28.6% (9/42) (3/42) (0/42) (12/42) SN´s 0% 0% 100% 2.4% indefinidos/genéricos (0/42) (0/42) (1/42) (1/42) [+específico/+referencial] [-referencial] (oração) [-específico/+referencial] Tabela 13 – Distribuição das retomadas de acordo com o traço semântico de animacidade A distribuição das estratégias de retomadas pelos fatores foi a seguinte: Com o fator de maior ocorrência, [+específico/+referencial], a estratégia de retomada preferencial foi a retomada por clítico e SN com 35.3% (6/42) e com diferença de menos de 10 pontos percentuais, a estratégia de retomada por apagamento com ocorrência de 29.4%(5/42). O fator [-referencial] (oração), favoreceu a retomada por apagamento com 50 % (6/42) das ocorrências, a segunda estratégia favorecida foi a retomada por clítico com 33.3%(4/42) e por último a estratégia de retomada por SN com 16.7% (2/42) das ocorrências. O 3º fator mais relevante foi o [-específico/+referencial], no qual só houve retomadas por clítico e por SN, sendo a retomada por clítico a favorecida com 75%(9/42) das ocorrências, contra 25% (3/42) das ocorrências de retomada por SN. 78 Só houve uma ocorrência com o fator SN’s indefinidos/genéricos e foi com a estratégia de retomada por apagamento. Exemplos: Retomada por Clítico (…)cuenten sus historias y divúlguenlas . (…) ([+específico/+referencial]) Retomada por SN Finalmente, consegue el sombrero empapado(...)([+específico/+referencial]) Os resultados obtidos na variante traço semântico de animacidade vão de encontro à escala de referencialidade proposta para o PB, já que os resultados apresentam uma escala de referencialidade oposta à apresentada e defendida por Duarte, Kato, Cyrino e Berlinck (2006). Sendo assim, pode-se assumir que as línguas estão num contínuo e neste caso, o Espanhol peninsular e o português europeu estão do lado mais conservador, o espanhol paraguaio e peruano estariam no meio do processo, já o PB no lado mais inovador. Apresenta-se abaixo a representação da escala de referencialidade: Não-argumento [- específico] [-referencial] Proposição [-humano] [+humano] [+ específico] [+referencial] Figura 7 – Escala de referencialidade de Kato, Duarte, Cyrino & Berlinck, (2006) O estudo, da escala de referencialidade, propõe, a partir dessa generalização, a seguinte hipótese, hipótese do mapeamento implicacionalque propõe que: 79 a. quanto mais referencial, maior a possibilidade de um pronome não-nulo. b. uma variante nula em um ponto específico da escala implica uma variante nula à sua esquerda, na hierarquia referencial. 80 5.8. Posição do antecedente A variável dependente posição do antecedente teve como hipótese que quando o fator for argumental haverá maior frequência da estratégia de retomada por clítico Posição do antecedente Não argumental 29% Argumental 71% Gráfico 7 – Posição argumental na oração que contém o ODA Só há dois fatores neste grupo, argumental e não argumental. A posição com maior frequência, 71% das ocorrências foi a posição argumental, contra 29% das ocorrências da posição não –argumental. Posição argumental na oração que contém o ODA Tipo de Realização Clítico Sintagma Nominal Apagamento Não 16.7% 16.7% 66.7% 28.6% argumental (2/42) (2/42) (8/42) (12/42) 56.7% 30% 13.3% 71.4% (17/42) (9/42) (4/42) (30/42) Argumental Tabela 14 – Posição argumental na oração que contém o ODA 81 Todos os fatores proporcionaram todas as estratégias de retomada. Sendo a posição argumental favorecedora da retomada por clítico com 56.7% (17/42) das ocorrências, seguida da retomada por SN com 30% (9/42) das ocorrências e por último a estratégia de retomada por apagamento com 13.33% (4/42) das ocorrências. Na posição não–argumental, a estratégia favorecida foi a de retomada por apagamento com 66.7% (8/42) das ocorrências, seguida igualmente pelas estratégias de retomada por clítico e por SN 16.7%(2/42) das ocorrências respectivamente. Os resultados obtidos indicam que a posição não habitual, isto é, favorece à estratégia de retomada por apagamento, devido ao fato de não ser a posição original, bem como o enfraquecimento dos traços de concordância, a posição nãoargumental acaba por favorecer a retomada por apagamento. A retomada por SN apresenta-se como uma estratégia intermediária, aparece nas duas possíveis posições, argumental e não-argumental, mas com uma ocorrência não muito expressiva. Abaixo pode se ver exemplos das retomadas nas diferentes posições do antecedente: Retomada por Clítico El hombre corre para alcanzarlo, pero no lo consigue. (argumental) Retomada por SN (...) Finalmente, consigue el sombrero empapado(...) (argumental) El se incorpora y saluda a la mujer, entregándole el ramo que había traído, y luego se sientan juntos en el banco. (não-argumental) 82 6. Considerações finais Este estudo teve como objetivo levantar as condições sintáticas dos contextos de omissão do objeto direto no espanhol paraguaio e descrever/explicitar a natureza do objeto direto pronominal no EPA a fim de tentar depreender a natureza do pronome que é apagado com base no modelo teórico da gramática gerativa. Para isso foi necessário levantar algumas hipóteses, que ao início foram propostas para o PB, pois não havia hipóteses sintáticas, morfológicas ou semânticas disponíveis para as diferentes estratégias de retomada do objeto direto na variedade paraguaia. Os estudos anteriores, detinham-se somente no substrato guarani como causa única para a estratégia de retomada por apagamento, por exemplo. Depois do levantamento das hipóteses e formado o grupo de fatores para a análise, foi possível testar algumas hipóteses como a hipótese da distância do antecedente, a hipótese de referencialidade do antecedente, a animacidade do antecedente, a oração na qual o antecedente estava incluído, o tipo verbal, a definitude e o sujeito da oração. Partindo destas hipóteses foi possível responder às perguntas norteadoras do estudo que foram: qual o status gramatical do clítico na variante paraguaia da língua espanhola? qual a possibilidade do apagamento do clítico de acusativo está ligado às propriedades da sentença? A explicação para a seleção de tal estratégia podia ser a natureza [+morfológica] e [-sintática] do clítico de acusativo na variedade paraguaia do espanhol que pode apontar a causa interna à língua para o comportamento diferenciado das estratégias de retomada na variedade paraguaia do espanhol. Antes as diferentes estratégias de retomadas eram atribuídas somente os substrato linguístico do guarani. Pois o Paraguai vivencia uma situação de contato 83 linguístico com a língua guarani, cuja situação de contato linguístico é bem peculiar, pois a língua guarani tem status de co-oficial, ao contrário das outras línguas indígenas em situação de contato com o espanhol na América Latina que são relegadas ao segundo plano. Após observar os dados obtidos sobre a distribuição das estratégias do ODA se pode chegar a algumas conclusões: A língua espanhola no Paraguai apresenta uma possibilidade multivariada de retomada, permitindo a retomada por SN, não prevista, e um alto número de retomadas com apagamento do clítico. Sugerindo que a língua esteja num continuum do processo de mudança, já que duas estratégias, não prevista ou prevista com limitações, somadas ultrapassam 50% das ocorrências verificadas no corpus. Partindo das conclusões assinaladas por Tarallo (1993), pode se dizer que as características da variante paraguaia são diferentes em relação às características da variedade peninsular, por exemplo, assemelhando-se às características do PB. Embora não apareçam as estratégias de retomada com o sujeito preenchido por um pronome (característica que mantém semelhança com a variedade peninsular do espanhol), a diferença entre as variedades do espanhol reside na frequência das ocorrências. O comportamento diferente do esperado para a língua espanhola na variedade do Paraguai com a refutação das hipóteses tipo de estratégia, distância do antecedente, por exemplo, ajuda a corroborar a ideia do universalismo linguístico e assumir que as línguas estão em um contínuo e, neste caso, evolutivo. O Espanhol peninsular e o português europeu estão do lado mais conservador, o espanhol paraguaio e peruano estariam no meio do processo, já o PB, no lado mais inovador. Pois admitem estratégias de retomada por apagamento, assim como retomada por SN. Cabe salientar que a amostra analisada não era tão extensa, mas confirma e vai ao encontro dos trabalhos anteriores sobre a variedade do espanhol do Paraguai. A forma de análise empregada permitiu ver e descrever alguns comportamentos da variedade linguística em questão que antes não haviam sido tratados. 84 Uma das conclusões que se pode chegar a respeito da configuração da variedade paraguaia do espanhol é o preenchimento da posição de sujeito, mesmo não sendo o foco do estudo foram dados levantados que chamaram a atenção, pois ajuda na descrição desta variedade linguística, que apresenta características bem particulares. Outra conclusão importante a que se pode chegar neste estudo foi a natureza do clítico da variedade do espanhol paraguaio, que tem traço [+morfológico] e [-sintático]. Sendo assim na interface morfossemântica possibilita o apagamento do clítico na retomada do objeto direto, pois devido ao enfraquecimento da concordância o clítico interpretado como um morfema pode ser apagado, já que outras marcas na oração, na qual está incluído, já oferecem a interpretação necessária. Partindo desta assunção pode se dizer que a variedade do espanhol paraguaio está mais próxima do português brasileiro com a qual compartilha traços linguísticos e se diferencia da variedade peninsular do espanhol e do português europeu. Fato que vai ao encontro da teoria dos universais linguísticos, segundo a qual as línguas são mais parecidas que diferentes. Espera-se com este estudo contribuir para a descrição linguística da variedade espanhola do Paraguai apresentando o estado atual do fenômeno linguístico das diferentes estratégias de retomada do objeto direto, através da análise da variação e descrição dos contextos de ocorrência de omissão do objeto direto na variedade espanhola do Paraguai. 85 7. Referências Bibliográficas ALEZA IZQUIERDO, Milagros y ENGUITA UTRILLA, José María (coords.): La lengua española en América: normas y usos actuales, Universitat de València, Valencia, 2010. Con la colaboración de Marta ALBELDA MARCO, Antonio BRIZ GÓMEZ, Miguel CALDERÓN CAMPOS, Eduardo ESPAÑA PALOP, Alejandro FAJARDO AGUIRRE, Félix FERNÁNDEZ DE CASTRO, David GIMÉNEZ FOLQUÉS, Rosario NAVARRO GALA y Antonio TORRES TORRES. ISBN: 978-84-6940302-0. En línea: <http://www.uv.es/aleza>. APPEL, René.; MUYSKEN, Pieter. Bilinguismo y Contacto de Lenguas. Barcelona:Ariel, 1996 CARAVEDO, Rocío, Pronombres objeto en el español andino. 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São Paulo: Parábola Editorial. 2006 (1968). 88 89 8. Anexos A. Imagens para a produção escrita B. Codificação C. Termo de consentimento livre e esclarecido D. Cuestionario socio-cultural 90 A. Imagens para a produção escrita 91 92 B. Codificação VARIÁVEL DEPENDENTE 1. TIPO DE ESTRATÉGIA c clítico s SN l pronome lexical d pronome demonstrativo n nulo o pronome indefinido i amalgamados VARIÁVEIS INDEPENDENTES Linguísticas 2. MODO VERBAL I indicativo S subjuntivo/imperativo R infinitivo simples D gerúndio simples P perífrases Va+infinitivo Va+gerúndio Va+particípio N formas nominais 3. TIPO VERBAL e estado a atividade p processo culminado c culminação 4. TRANSITIVIDADE VERBAL E ESTRUTURA PROJETADA PELO VERBO 1 V+OD (SN) (Verbos transitivos) 2 V+OD (SN)+ Obl/Compl. Circunst. (Verbos transitivos de três lugares) 3 V+OD + OI (Verbos ditransitivos) 4 V+OD (SN)+ Predicativo do objeto (Verbos transitivos predicativos) 5 V+OD [Suacc + Vinf] 6 Vcópula+Predicativo do sujeito (Verbos copulativos) 7 V+OD (S) 8 V+OD + Obl(S) 1 transitivos 2 bitransitivos 5. TIPO SINTÁTICO DA ORAÇÃO EM QUE OCORRE O ODA 93 a b c d e f g b Raiz (matriz/simples/1ª em coordenação) Completiva de verbo (função de sujeito) Completiva de verbo (função de objeto) Completiva de nome Relativa Adjunta Coordenada (2ª coordenada) completivas 6. FUNÇÃO DO ANTECEDENTE o Objeto s Sujeito a Adjunto c Complemento nominal p Predicativo t Tópico estrutura/discursivo 7. POSIÇÃO DO ANTECEDENTE a argumental (mesma sentença ou sentenças paralelas) t Não argumental (tópico discursivo ou tópico estrutural) 8. DISTÂNCIA EM RELAÇÃO À PRIMEIRA MENÇÃO 1 1ª referência (após a 1ª menção) 2 2ª referência 3 3ª referência 4 4ª referência 5 5ª referência ou posterior 6 9. SUJEITO NA ORAÇÃO QUE CONTÉM ODA s SN p Pronome pleno n Pronome nulo 10. TRAÇO SEMÂNTICO DO ANTECEDENTE a [+ animado] i [- animado] h [+ humano] s antecedente “sentencial” ou demonstrativo neutro p [- humano] 11. REFERENCIALIDADE DO ANTECEDENTE e [+específico/+referencial] r [-específico/+referencial] g SN´s indefinidos/genéricos 94 o [-referencial] (oração) 12. FORMA/ESPECIFICIDADE DO ANTECEDENTE 1 Nomes contáveis no plural com determinante 2 Nomes contáveis no plural sem determinante 3 Nomes contáveis no singular com determinante 4 Nomes contáveis no singular sem determinante 5 Nomes não contáveis com determinante 6 Nomes não contáveis com determinante 13. DEFINITUDE d [+definido] n [-definido] 14. POSIÇÃO DO CLÍTICO a anteposto ao verbo p posposto ao verbo m intermediário ao verbo / não se aplica Socioculturais 15. SEXO f feminino m masculino / não se aplica 16. ESCOLARIDADE 1 superior 2 média 3 básica / não se aplica 17. FAIXA ETÁRIA a 20 até 35 anos b 36 até 55 anos c 56 em diante / não se aplica Controle da pesquisa 18. TIPO DE TESTE R reescrita I história das imagens 95 O J E oral julgamento de gramaticalidade entrevista outrem 19. IDENTIFICAÇÃO DO INFORMANTE a informante 1 b informante 2 96 C. Termo de consentimento livre e esclarecido CONSENTIMIENTO INFORMADO Estimado participante Soy estudiante de maestría del Programa de Letras Neolatinas do curso de Lengua Española de la UFRJ. Como parte de los requisitos del (Programa/curso) se llevará a cabo una investigación. La misma trata sobre Las características de la variante paraguaya de lengua española. El objetivo del estudio es investigar Las características propias del español paraguayo. Esta investigación es requisito para obtener mi Bachillerato en Educación. Usted ha sido seleccionado para participar en esta investigación la cual consiste en contestar un cuestionario o preguntas que le tomará aproximadamente 65 minutos. Usted puede contestar solamente las preguntas que así desee. La información obtenida a través de este estudio será mantenida bajo estricta confidencialidad y su nombre no será utilizado. Usted tiene el derecho de retirar el consentimiento para la participación en cualquier momento. El estudio no conlleva ningún riesgo ni recibe ningún beneficio. No recibirá compensación por participar. Los resultados grupales estarán disponibles en internet si así desea solicitarlos. Si tiene alguna pregunta sobre esta investigación, se puede comunicar conmigo al número +552173261467 o con mi director(a) de investigación Drª. Mª Mercedes Riveiro Quintans Sebold al +552126170991. Preguntas o dudas sobre los derechos como participante en este estudio, pueden ser dirigidas a la Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Letras Neolatinas, AC/ Coordenador do Programa, Avenida Horácio de Macedo, nº 2151 – Cidade Universitária – Rio de Janeiro/RJ – CEP 21941-917 – Brasil. Priscila Gomes Santos Investigadora principal He leído el procedimiento descrito arriba. La investigadora me ha explicado el estudio y ha contestado mis preguntas. Voluntariamente doy mi consentimiento 97 para participar en el estudio de Priscila Gomes Santos sobre Las características de la variante paraguaya de lengua española. He recibido copia de este procedimiento. ________________________________________________ Firma del participante _______________________ Fecha 98 D. Cuestionario socio-cultural 99 100