AS ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL PARAGUAIO
Priscila Gomes Santos
Rio de Janeiro
2013
AS ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL PARAGUAIO
Priscila Gomes Santos
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade
Federal do Rio de Janeiro como requisito para a
obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas
(Língua Espanhola).
Orientador: Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro
Quintans Sebold.
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013.
2
Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio
PRISCILA GOMES SANTOS
ORIENTADORA: Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da
Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Mestre em
Letras Neolatinas (Língua Espanhola).
Examinada por:
Presidente, Profª. Drª. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold (UFRJ)
Profª. Drª. Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (UFRJ)
Profª. Drª. Viviane Conceição Antunes Lima (UFRRJ)
Profª. Dr°. Pierre François Georges Guisan (UFRJ) – suplente
Profº. Drª. Adriana Leitão Martins (UFRJ) – suplente
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013.
3
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013
Santos, Priscila Gomes.
A282e
Estratégia de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio / Priscila Gomes Santos.
– Rio de Janeiro: UFRJ,
2013.
xxxiii, 100 f.:il.; 31cm.
Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras,
Departamento de Letras Neolatinas, 2013.
Bibliografias: f. 87-90.
1. Língua Espanhola – Línguas em contato – Rio de Janeiro. 2. Língua Espanhola –
Gramática Gerativa 3. Variação. 4. Clíticos. 5. Paraguai. I. Sebold, Maria Mercedes Riveiro
Quintans. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. Título.
4
Aos meus avós, Anita e Cláudio, por verem em mim o que eu não sabia que existia;
Ao meu pai, que se aqui estivesse ficaria imensamente feliz;
À minha família do coração, Barddal e Carvalho, pela acolhida e conselhos;
Aos meus amigos, que sempre estiveram presente quando foi necessário.
5
Agradecimentos
Cursar o mestrado e escrever uma dissertação seria uma tarefa bem fácil se não
tivéssemos outras “vidas” além da acadêmica, pois esta nos consome boa parte do tempo,
do humor e outros afins...
Não creio que eu seja a única pessoa a passar por isso, mas tenho certeza que sou
a única com pessoas incríveis em todos os âmbitos da minha vida e que merecem ter meus
sinceros agradecimentos eternizados nestas páginas que, de alguma forma, têm o “dedo”
de cada um de vocês.
Começo por agradecer a Deus, pois sem a sua permissão nada disso seria possível
e também a minha família, Mãe, Pai, Padrasto e Irmã, cada um ao seu modo me
impulsionou ao longo da minha vida.
Aos amigos que sempre estão presentes quando é preciso:
Bia, meu anjo desde a graduação, que segundo tia Dorinha é minha prima!
Obrigada pelo carinho, compreensão, apoio desde sempre e por toda revisão e sugestão,
seja nos textos ou na vida. Seria injusto de minha parte falar só da Bia, pois sua família é
de igual valor para mim: tia Carminha e tio Zildo, obrigada pela acolhida de sempre, assim
como os miojos...
Liz – minha grande surpresa e presente que ganhei enquanto me preparava para a
seleção do mestrado –, pessoa ímpar, que por vezes atuou segundo à minha necessidade
do momento... meu Überich. Peço a Deus que seja uma pessoa para a vida inteira. Meu
reforço positivo, motivadora tanto do meu desenvolvimento pessoal, quanto do
profissional, que por vezes acredita mais no meu êxito do que eu mesma.
Diego, meu grande amigo! Porém, nem sempre foi assim. No início da graduação,
não éramos muito próximos, mas ainda bem que tudo mudou!!! Companheiro de compras
no PY, incentivador da minha biblioteca Chomskyana e a voz sensata que surge quando
é preciso. Assim como a Marina que tem sido uma ótima amiga e motivadora,
principalmente, nessa reta final.
Elaine, mais uma amiga que o destino me tinha reservado. Uma pessoa seríssima,
aparentemente distante, mas que vira a noite com você por conta da tensão pré-seleção
de mestrado, te acompanha até a prova e fica lá fora esperando você acabar e falar mil
palavras por segundo até se acalmar... passa por todo o seu processo seletivo como se fosse
6
o dela. Recebe sms menos de 15hs antes de uma apresentação sua e está lá no dia seguinte,
antes mesmo de você chegar, esperando para ver sua apresentação.
Imara, Pitty e Robert, pessoas por quem possuo grande apreço pelo carinho e
amizade, pelas discussões teórico-filosóficas, pela bobeira, pelas gargalhadas e alegrias
compartilhadas. Por serem meus braços quando o meu estava imobilizado e,
principalmente, por não me deixarem à minha própria sorte em relação aos meus dotes
culinários. São os melhores vizinhos que alguém pode ter!
Não poderia deixar de registrar meus agradecimentos a dois seres fantásticos: D.
Lígia e Lara, que fizeram com que a escrita de algumas partes fossem bem mais suaves e
meus momentos mais alegres.
Carol Parrini e Flavia Paixão, assim como o Diego, foram revelações muitos boas
e importantes. Tivemos idas e vindas, mas no final sempre estamos perto. Tanto em
parcerias e descobertas em eventos acadêmicos, mas, principalmente, na vida como um
todo, seja via e-mail, chat ou facebook. A distância não se apresenta como empecilho.
Aos amigos Thais Neves, Bruno Alberto, Leonardo Marcotulio, Mayara, Thamara
e outros, que por ventura, não tiveram seus nomes mencionados aqui, mas que fizeram
parte deste momento.
À Guaraciara Coutinho, por ter me ajudado a manter a sanidade!rs durante o
processo, as conversas sempre interessantes e o humor refinado.
À minha orientadora, Maria Mercedes Sebold, por ter me deixado caminhar com
minhas próprias pernas ao longo do curso.
Ao longo da graduação, tive o prazer de conhecer e estudar com professores
excelentes, porém menciono aqui (correndo o risco de ser injusta) professores que foram
importantes tanto na graduação, quanto agora no mestrado.
Às professoras Dinah Callou e Silvia Cavalcante, pelas conversas, tira-dúvidas e
materiais fornecidos que foram de importância vital para a pesquisa.
À professora Cláudia Luna, pelos ensinamentos literários, pelos ouvidos atentos
às apresentações do meu projeto, pela paciência e carinho dispensados da graduação até
ao mestrado.
À professora Maria Maura Cezário, minha primeira professora de linguística, que
despertou em mim a vontade de ser pesquisadora e acabou por me iniciar nos estudos
linguístico.
7
Ao professor Humberto Menezes, minha introdução aos estudos gerativistas,
sempre muito atencioso e paciente e assim foi o meu primeiro contato com a gerativa,
bem agradável.
Saindo da linguística e indo para língua espanhola (minha paixão), tenho duas
referências. A primeira é a professora Leticia Rebollo, por quem eu tenho muito respeito
e carinho. O 5º período da graduação foi perfeito, pois estudei fonética da língua
espanhola com ela, uma professora que me fascinava pelo seu conhecimento e empenho
nas aulas. Muito obrigada pela oportunidade que me deu ao me convidar para fazer
iniciação científica. Fez-me crescer como pessoa e como pesquisadora.
Já no último período de língua espanhola, estudei com a minha última referência,
a professora Consuelo Alfaro – dona de um conhecimento não só acadêmico, mas também
de mundo, que encanta e faz qualquer um virar fã. Tive o privilégio de ser avaliada por ela
no meu 1º colóquio e, como era de se esperar, fez comentários valiosíssimos. Também foi
da minha banca de seleção e minha professora no mestrado, do primeiro ao último
semestre. Agradeço por todo o conhecimento que compartilhou comigo em todas estas
ocasiões.
8
SINOPSE
Análise das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio, língua em situação de contato linguístico com o
guarani - língua indígena co-oficial - analisadas através da
associação do quadro teórico da gramática da gerativa e da Teoria
de Variação e Mudança, a partir de corpus de textos escritos e
testes linguísticos.
9
Esta pesquisa foi parcialmente financiada pela CAPES
10
Resumo
ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DO OBJETO DIRETO NO ESPANHOL
PARAGUAIO
Priscila Gomes Santos
Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio.
Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) – Faculdade de Letras,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
Esta pesquisa sobre o clítico acusativo no espanhol paraguaio (EPA) é um estudo de cunho
gerativista que busca observar e descrever o comportamento do clítico de 3ª pessoa a partir
dos contextos e condições sintáticas das diferentes retomadas do objeto direto no espanhol
do Paraguai. Para isso, fez-se uma pesquisa de campo em busca de um corpus específico a fim
de verificar as estratégias de retomada do objeto direto, descrevê-las e apontar uma possível
causa interna para as diferentes estratégias utilizadas pelos falantes da variedade paraguaia
do espanhol. O corpus foi montado a partir de testes de compreensão e produção escrita, além
de dados coletados a partir de entrevista oral. Além disso, foram aplicados mais dois (02)
tipos de testes: de compreensão e de produção escrita –online e presencial. Para a análise do
corpus, foi utilizada a Teoria de Variação e Mudança associada aos pressupostos da
Gramática Gerativa. Codificaram-se os dados segundo as variáveis dependente e
independente preestabelecidas de acordo com as hipóteses suscitadas pelo estudo e,
posteriormente, os dados foram processados pelo programa de análise estatística
multifatorial Goldvarb X.
A análise empregada permitiu observar e descrever
comportamentos da variedade linguística aqui estudada e que não tinham sido tratados até
o momento na variedade do espanhol do Paraguai. Os resultados indicam que talvez o clítico
nesta variedade do espanhol tenha o traço [-sintático] e [+morfológico] possibilitando as
diferente estratégia de retomadas.
Palavras-chave: Espanhol paraguaio, Línguas em contato, Clítico, Teoria de Variação e
Mudança.
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013
11
Resumen
ESTRATÉGIAS DE RETOMADA DEL OBJETO DIRECTO EN EL ESPAÑOL
PARAGUAYO
Priscila Gomes Santos
Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol paraguaio. Rio
de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) – Faculdade de Letras,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
Esta investigación del clítico acusativo en el español paraguayo (EPA) es un estudio de cuño
generativista, que busca observar y describir el comportamiento del clítico de 3ª persona a partir
de los contextos y condiciones sintácticas de las distintas retomadas del objeto directo en el
español de Paraguay. Para ello se hizo una investigación de campo buscando un corpus específico,
con el fin de verificar las estrategias de retomada del objeto directo, describirlas y apuntar una
posible causa interna para las diferentes estrategias utilizadas por los hablantes de la variedad
paraguaya del español. El corpus se elaboró a partir de test de comprensión y producción escrita.
Los testes aplicados fueron de dos tipos: de comprensión y producción escrita – obtenidos
presencialmente y online. Para el análisis del corpus se utilizó la Teoría de Variación y Cambio
asociada a los presupuestos de la Gramática Generativa. Los datos se codificaron según las
variables dependiente e independiente preestablecidas de acuerdo con las hipótesis suscitadas
por el estudio y, posteriormente, los datos se procesaron por el programa de análisis estadístico
multifactorial Goldvarb X. El análisis empleado permitió observar y describir el comportamiento
de la variedad lingüística estudiada y que todavía no había sido tratada. Los resultados indican
que quizás el clítico en esta variedad del español tenga el rasgo [-sintáctico] e [+morfológico]
posibilitando las distintas estrategias de retomadas del objeto directo.
Palabras clave: español paraguayo, Lenguas en contacto, Clítico, Teoría de Variación y Cambio.
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013
12
Abstract
STRATEGIES RETAKE DIRECT OBJECT IN PARAGUAYAN SPANISH
Priscila Gomes Santos
Orientadora: Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold
SANTOS, Priscila Gomes. Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Língua Espanhola) –
Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
This research on the accusative clitic in Paraguayan Spanish (EPA) is a generative nature
study that focus on observing and describing the behaviour of the 3rd person clitic based
on context and syntactic conditions in the different retakes of the direct object in
Paraguayan Spanish. In this regard, field research was held in search of a specific corpus
in order to verify direct object retake strategies, describe them, and indicate a possible
internal cause for the use of different strategies observed on Paraguayan Spanish native
speakers. The corpus was set up according to comprehension and writing tests, as well as
data collected from oral interview. Furthermore, two (02) more types of tests were
applied: in person and online comprehension and writing. The corpus was analyzed by
using the Variation and Change Theory, in association with Generative Grammar
assumptions. All data were decoded according to the dependent and independent
variables, pre-established according to hypotheses raised by this study and,
subsequently, processed by multifactorial statistical analysis program Goldvarb X. The
adopted method allowed observing and describing the presently studied linguistic
variety behaviors never discussed before.
Keywords: Paraguayan Spanish, Language in contact, Clitic, Variation and Change
Theory.
Rio de Janeiro
Fevereiro de 2013
13
Sumário
Capítulo 1 – A Gramática Gerativa e a Variação Linguística
1.1
A Gramática Gerativa (GG): uma teoria mentalista ....................................................... 19
1.2
Noções centrais da teoria gerativa .............................................................................. 21
1.3
Momentos da teoria .................................................................................................... 22
1.3.1
O modelo da teoria de Princípios & Parâmetros (P&P) ............................................. 23
1.3.2
O Programa Minimalista (PM) ................................................................................... 24
1.4
Mudança e Variação linguística na GG ....................................................................... 26
Capítulo 2 – Línguas em contato
2.1
A República do Paraguai ............................................................................................. 29
2.2
Línguas em contato: Uma discussão ........................................................................... 32
2.3
Bilinguismo ................................................................................................................. 35
2.4
Bilinguismo no Paraguai (PY) ..................................................................................... 36
2.5
Contato Espanhol/Guarani ......................................................................................... 38
Capítulo 3 – Os clíticos
3.1
O pronome clítico........................................................................................................ 40
3.2
O sistema pronominal ................................................................................................. 42
3.3
O sistema pronominal do espanhol paraguaio ............................................................ 44
3.4
Os pronomes clíticos de terceira pessoa ..................................................................... 45
3.5
Estratégias de retomada do objeto direto anafórico .................................................... 46
3.6
Apagamento do objeto direto ...................................................................................... 47
3.7
Tipos de objeto nulo .................................................................................................... 50
3.8
Estratégias de retomada do clítico acusativo descritas para o EPA ............................ 51
Capítulo 4 – Metodologia
Capítulo 5 – Descrição e análise dos dados
5.1.
Estratégias de retomada: rodada geral ........................................................................ 61
5.2.
Rodada específica: estratégias de retomada ................................................................ 64
5.3.
Tipo Verbal.................................................................................................................. 65
14
5.4.
Sujeito na oração que contém ODA............................................................................. 69
5.5.
Distância do antecedente ............................................................................................ 72
5.6.
Traço semântico do antecedente ................................................................................. 75
5.7.
Referência do antecedente .......................................................................................... 77
5.8.
Posição do antecedente ............................................................................................... 81
Capítulo 6 – Considerações Finais
Referências bilbiográficas
Anexos
15
0. Introdução
Esta dissertação faz um estudo das estratégias de retomada do objeto direto
no espanhol paraguaio. O Paraguai vivencia uma situação de contato linguístico
entre o espanhol e a língua guarani, bem peculiar, pois a língua guarani tem status
de co-oficial, ao contrário das outras línguas indígenas em situação de contato com
o espanhol na América Latina.
Cabe ressaltar que cada situação de contato é única e produz fenômenos de
naturezas diferentes. Logo, só a situação de contato não seria a única causa do
fenômeno, causa essa externa à língua, mas também parece haver uma causa
interna implicando no apagamento. Para observação preliminar da realização do
fenômeno proposto para estudo, foi utilizada uma amostra do corpus, coletado e
compilado especificamente para a dissertação. Os dados foram codificados
segundo as variáveis dependente e independente pré-estabelecidas de acordo com
as hipóteses suscitadas pelo estudo. Posteriormente, os dados foram processados
pelo programa de análise estatística multifatorial Goldvarb X. A partir dos dados
levantados até o momento, há indícios de que um dos traços distintivos da
variedade paraguaia, no que diz respeito às possibilidades de retomada do objeto
direto [-animado] – não humano –, é o caráter [+morfológico] e [–sintático] que o
clítico assume nesta variedade do espanhol.
O interesse por este tema justifica-se pela necessidade de apresentar o
estado atual do fenômeno linguístico de uma variedade do espanhol, bem como
analisar a variação e descrever os contextos de ocorrência de omissão do objeto
direto no EPA com a intenção de contribuir para estudos linguísticos em língua
espanhola. Este estudo pretende observar e descrever o comportamento do clítico
de 3ª pessoa a partir dos contextos e condições sintáticas das retomadas do objeto
direto no espanhol do Paraguai.
O trabalho se justifica pelo fato de que uma das estratégias de retomada
disponível na variedade paraguaia do espanhol, o apagamento do clítico em função
16
anafórica, não está disponível em outras variedades do espanhol. No entanto, tal
estratégia aproxima a variedade Paraguai do português brasileiro.
As perguntas norteadoras deste estudo foram qual o status gramatical do
clítico na variante paraguaia da língua espanhola? E qual possibilidade do
apagamento do clítico de acusativo estar ligado às propriedades da sentença?
Algumas das hipóteses levantadas para entender a natureza deste clítico –
que pode ser retomado pelas estratégia de retomada pelo clítico, estratégia de
retomada por SN e estratégia de retomada por apagamento –já haviam sido
propostas para o português brasileiro, como por exemplo: a hipótese da distância
do antecedente, a hipótese de referencialidade do antecedente, animacidade do
antecedente, oração na qual o antecedente está incluído. Mas também há hipóteses
como o tipo verbal e definitude que não haviam sido testadas ainda no fenômeno
em português.
O agrupamento das hipóteses para o estudo das estratégias de retomada do
objeto direto do espanhol paraguaio foi também uma inovação. A partir destas
hipóteses levantadas foi possível verificar a natureza [+morfológica] e [-sintática]
do clítico de acusativo na variedade paraguaia do espanhol e assim apontar uma
possível causa interna à língua para o comportamento diferenciado das estratégias
de retomada na variedade paraguaia do espanhol.
Para o desenvolvimento do tema, esta dissertação está organizada em 6
capítulos mais as considerações finais e anexos.
No capítulo 1, se apresenta uma breve descrição da teoria gerativa a partir
de suas questões fundadoras, bem como, noções importantes a esta dissertação
dentro dos modelos do quadro gerativo utilizados. No capítulo 2, se discute acerca
de línguas em contato, bilinguismo e a situação social da língua no Paraguai, para
que se possa entender o fenômeno da variação linguística em uma situação de
contato. No capítulo 3, se apresentam discussões relativas ao status do clítico e
uma sistematização dos pronomes no espanhol geral e no espanhol paraguaio. No
capítulo 4, se apresenta todo o percurso metodológico empreendido desde
programas computacionais utilizados aos testes aplicados e o corpus utilizado. No
capítulo 5, se faz a descrição do corpus e sua análise. E por fim, se apresentam as
17
considerações finais acerca do trabalho e dos resultados obtidos. Além dos anexos
relevantes para a dissertação.
18
1. A Gramática Gerativa e a
Variação Linguística
1.1
A Gramática Gerativa (GG): uma teoria mentalista
O presente trabalho toma por base a Gramática Gerativa, mais
especificamente o modelo de Princípios & Parâmetros (P&P) em sua versão
atualizada, o Programa Minimalista (PM). Cada uma das propriedades comuns
que devem ser encontradas em todas as línguas humanas, com base na hipótese de
que todas as línguas são produto de uma faculdade de linguagem uniforme e
específica da espécie humana, são chamados de universais linguísticos. A proposta
dos universais linguísticos que remonta à Grécia antiga vai ao encontro da
proposta gerativista da Gramática Universal (GU).
O programa da GG está calcado na “natureza mentalista”. O mentalismo
surge com a Escola bloomfieldiana e diz respeito à atitude dos linguistas que
definiam as unidades linguísticas e as regras de combinação por sua significação,
sendo esta definida empiricamente e de maneira intuitiva. Skinner, representante
do mentalismo behaviorista, ocupava-se da qualidade do estímulo e da resposta
produzida, e não da mente que recebia o estímulo e produzia uma resposta. Já para
Chomsky e a linguística gerativa, o foco está na mente – o oposto dos estudos
behavioristas. Logo, estudar a linguagem com a perspectiva gerativista é estudar
as propriedades mentais da faculdade da linguagem.
O programa da GG propõe o desenvolvimento das quatro (04) questões
abaixo apresentadas:
1Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de
uma determinada língua particular, por exemplo, do Português? O que
é que existe na mente deste falante que lhe permite falar/compreender
19
expressões do Português e ter intuições de natureza fonológica,
sintática e semântica sobre a sua língua?
2- Como é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente
do falante? Que tipos de conhecimentos é necessário pressupor que a
criança traz, a priori, para o processo de aquisição de uma língua
particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua mente?
3- Como é que o sistema de conhecimentos adquiridos é utilizado pelo
falante em situações discursivas concretas?
4- Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que servem de
base ao sistema de conhecimentos linguísticos?
(Chomsky, 1986)
Podemos relacionar as perguntas feitas por Chomsky – que servem
como base dos pressupostos teóricos da gramática gerativa – aos seguintes
campos: conhecimento, aquisição, uso e cérebro (órgão físico). A primeira
pergunta diz respeito ao conhecimento e envolve questionamentos antigos
como o problema de Descartes1. Já a segunda pergunta diz respeito à
aquisição da linguagem e nos remete ao problema de Platão2. A terceira
questão diz respeito ao uso da língua, à interação. A quarta e última questão
é a menos abordada até o momento, pois não trata mais da mente, mas do
sistema físico/biológico do cérebro.
A fase inicial dos estudos da GG teve maior foco na pergunta 1 e nos
desdobramentos da mesma, tendo assim, um teor mais descritivo nos
estudos, pois se queria descrever diferentes sistemas linguísticos. O aparato
descritivo era muito rico, mas o explicativo nem tanto. As explicações dadas
O problema de Descartes: A criatividade da linguagem
(a) os falantes têm a capacidade de produzir e entender um número potencialmente infinito de expressões
novas;
(b) suas produções linguísticas não correspondem de maneira uniforme aos estímulos, isto é, não existe uma
correlação unívoca entre o que o falante diz e suas circunstâncias externas ou internas; e
(c) o que os falantes dizem é, em geral, coerente e apropriado à situação, às circunstâncias em que se produz o ato
de fala. (Chomsky, 1986)
1
2 O problema de Platão: problema lógico da aquisição da linguagem
Como é possível que os seres humanos cujos contatos com o mundo são breves, pessoais e limitados, sejam
capazes de saber tanto quanto sabem. Exemplo: o conceito de triângulo perfeito.
Como é possível que uma criança que aprende a sua língua materna chegue a um conhecimento linguístico
extremamente estruturado a partir de experiências linguísticas confusas, limitadas e inexistentes? (Chomsky, 1986)
20
eram localizadas, ou seja, eram explicações para determinada língua e não
para todas.
Em um segundo momento, os estudos de gramática gerativa
caminharam no sentido de unificar as explicações e esvaziar esse aparato
descritivo. Com isso, foi se deslocando o estudo da pergunta 1 para a
pergunta 2.
A pergunta 2 tem centralidade, pois ao explicar os fatos – e não
simplesmente descrevê-los – ela tem um apelo científico maior do que as outras
perguntas. Através desta pergunta, explica-se a Gramática Universal e não só se
descreve um sistema linguístico puro e simplesmente. Esta segunda pergunta
proposta pelo o programa permite à GG uma adequação do ponto de vista
explicativo, não apenas do ponto de vista descritivo. Aplicando a teoria ao objeto
de estudo em questão, diferentes realizações de retomadas do objeto direto, uma
possível explicação teórica para as diferentes realizações seria através da
composicionalidade dos traços do clítico de objeto direto.
A partir do exposto fica evidenciado que o modelo teórico gerativista dá
conta de embasar estudos de fenômenos como os das línguas em contato, pois não
só pode descrevê-lo, mas também explicá-lo, apoiando-se na segunda questão
proposta por Chomsky para o desenvolvimento do programa gerativista.
1.2
Noções centrais da teoria gerativa
A Gramática Universal (GU) é a teoria das propriedades da forma das
gramáticas das línguas naturais e/ou dos princípios que regem a constituição das
mesmas, concebida como um modelo formal do estado inicial da aquisição da
linguagem entendido como um programa biológico específico da espécie humana
que garante a criação/aquisição de línguas naturais. (cf. Corrêa, 2006)
A Faculdade da Linguagem, noção base da gramática gerativa, é a
capacidade inata que interage com a experiência linguística para produzir o
conhecimento linguístico dos indivíduos, ou seja, a linguagem é uma propriedade
do código genético, um objeto interno aos seres humanos como membros da
espécie, uma capacidade inata ao ser. A faculdade da linguagem é um dos módulos
21
da mente/cérebro, que, por sua vez, é composta por outro módulo, como a sintaxe
que também é modular. Ser modular não significa que existam módulos físicos. Ser
modular significa que existem princípios que são específicos para aquele tipo de
conhecimento.
Os conceitos de Língua-I e de Língua-E
são importantes para o entendimento da
competição de gramáticas, abordada mais a
frente, pois é a partir delas que se dá a variação
na Gramática Gerativa, noção base para o
entendimento do fenômeno abordado nesta
dissertação.
Na concepção de língua da gramática
Figura 1 - Esquema módulo faculdade da
linguagem
gerativa, as línguas são objetos internos,
individuais e intencionais. Ou seja, são objetos internos à mente dos
indivíduos/falantes, propriedade na mente/cérebro e não são sucessões físicas ou
práticas sociais externas. A gramática de um falante (a Língua-I) é um mecanismo
finito que gera potencialmente um número infinito de enunciados; e não um
conjunto de enunciados ou de atos de fala.
Uma Língua-I é uma das opções permitidas pela GU, sem distinções de
maneira sociológica; é uma série finita de operações de unidades linguísticas para
derivar as expressões infinitas possíveis em uma língua.
A Língua-E é um conjunto de enunciados ou atos de fala, um epifenômeno,
um produto subsidiário da gramática mental dos falantes e não teria sequer
existência no mundo real. É a linguagem como prática social cuja função
primordial é a comunicação.
1.3
Momentos da teoria
Para exemplificar a teoria, Chomsky faz uso da metáfora segunda a qual um
marciano, ao chegar à Terra, deduziria que todos os terráqueos falam uma mesma
22
língua considerando que as línguas se diferenciam pelos parâmetros, que são
particulares, mas todas são estruturadas pelos mesmos princípios, que são
imutáveis. Essa metáfora é compatível com a hipótese universalista, segundo a
qual as línguas seguem princípios fixos e inatos, modificam-se através dos
parâmetros e a estruturação sintática das línguas é mais parecida que diferente
uma das outras.
O conhecimento gramatical dos indivíduos se caracteriza pela interação das
propriedades (categoriais, de subcategorização, de seleção semântica etc.) que as
unidades léxicas projetam na sintaxe com princípios que impõem restrições de
boa formação sobre as representações linguísticas.
Na aquisição da linguagem, a criança, como parte da sua dotação genética,
conheceria de antemão certos princípios universais que regulam a combinação de
palavras. A criança se limita a aprender as unidades lexicais e a eleger, a partir de
um reduzido número de dados linguísticos, um dos valores de cada um dos
parâmetros (ou opções abertas) da GU.
1.3.1
O modelo da teoria de Princípios & Parâmetros (P&P)
Um dos modelos da gramática gerativa é o da Teoria de Princípios e
Parâmetros. Seu objetivo é buscar uma solução para o problema lógico da
aquisição da linguagem e a solução que se propõe segue uma lógica naturalista:
eliminar redundâncias e descobrir princípios, simplificar os primitivos e os
mecanismos da teoria linguística.
Nesse modelo, o léxico, é visto como sendo independente do sistema
computacional. Ele coloca à disposição da sintaxe, por exemplo, um verbo ou os
traços referentes ao verbo, informa que esse verbo tem um n argumentos3. Tal
função faz parte da grade temática ou semântica do verbo posto à disposição pelo
léxico. A grade temática diz respeito aos papéis temáticos ou semânticos dos
predicados.
3
No léxico estão definidas a quantidade de argumentos (de 0 a 3) que um verbo pode selecionar, a
natureza desses argumentos (se interno ou externo), e as restrições semânticas e categoriais do verbo.
23
O léxico, nesse momento da teoria, é entendido como um armazém de itens
lexicais, entradas lexicais que contêm informações minimamente de natureza
fonética, sintática, semântica. As entradas lexicais teriam também informações de
natureza idiossincráticas, do tipo “óculos” (só existe no plural).
1.3.2 O Programa Minimalista (PM)
O Programa Minimalista (PM) (Chomsky, 1995) é uma reformulação da
Teoria de Princípios e Parâmetros, conservando a concepção de princípios e
parâmetros e da GU. O PM atualiza o conceito do modelo anterior para um modelo
de língua que é tido como um sistema cognitivo, que suporta as restrições
impostas por outros sistemas atuantes no desempenho linguístico.
São mantidas as ideias da Teoria de Princípios e Parâmetros sobre a
aquisição da linguagem e sobre a maneira de caracterizar o conhecimento
gramatical dos indivíduos, mas se formularam duas perguntas, que obrigam a
repensar boa parte das propostas anteriores:
(a) Até que ponto a linguagem enquanto sistema computacional que entra
em contato com outros sistemas da mente está bem desenhada?
(b) Até que ponto podemos dar conta das propriedades das gramáticas
mentais e da faculdade da linguagem utilizando o mínimo aparato descritivo e
teórico possível?
Existem dois princípios no PM: o de Interpretação Plena e o de Economia. O
Princípio da Interpretação Plena garante que toda a informação relevante para que a
interpretação sintática esteja visível nos níveis de interface do sistema cognitivo
da língua e que toda informação sintática não relevante para a interpretação seja
eliminada no curso da derivação linguística. O Princípio da Economia considera que
as línguas humanas operam de modo tal que os custos computacionais são
minimizados, e, assim, o sistema computacional opera com um custo mínimo.
Neste modelo, a linguagem é composta pelo sistema computacional e pelo
léxico, sendo ele responsável pelo provimento dos itens que serão utilizados nas
24
computações sintáticas. As informações de ordem fonéticas, semânticas e
sintáticas dos itens lexicais apresentam traços que não são redundantes, estando
de acordo com o princípio da economia.
[os traços] indicam o tipo de informação que é tomada como
gramaticalmente relevante na língua. Essa importância é
sinalizada na interface fônica em termos de padrões regulares
correspondentes à informação morfofonológica e à informação
pertinente à ordem dos constituintes. Regularidade na interface
fônica implica relevância gramatical de distinções semânticas
(como número, pessoa, tempo etc.) ou expressão de funções
sintáticas (Caso) (cf. Corrêa, 2006).
A identidade de cada língua é de responsabilidade dos traços formais do
léxico (tais como gênero, número, pessoa, QU-, caso e outros), que podem ser
classificados quanto à sua interpretabilidade (conteúdo semântico) e quanto à sua
natureza intrínseca ou opcional: os traços interpretáveis podem ser intrínsecos –
aqueles que aparecem armazenados na entrada lexical (ou determinados por
propriedades explicitamente listadas no léxico); ou opcionais – aqueles
adicionados no momento da seleção dos itens para compor a numeração.
No PM, o conteúdo dos parâmetros se restringe às propriedades
morfológicas dos itens pertencentes às categorias funcionais do léxico. A proposta
é a de que o sistema computacional da linguagem humana é universal e invariável.
A distinção entre línguas, neste momento da teoria, está minimizada aos
traços (aqui entendidos como propriedades de um elemento linguístico, que o
caracterizam), que têm uma função considerável na manifestação visível e na
variação linguística. Diferentemente do modelo anterior, em que a diferença estava
nos parâmetros que eram particulares a cada língua. Dentro da visão de que todas
as línguas possuem propriedades comuns, o universalismo é visto no PM por meio
dos traços semanticamente interpretáveis que são gerais. Ao compararmos duas
línguas como o português do Brasil (doravante PB) e o espanhol dentro do PM, os
traços seriam comuns para as duas e poderia haver uma diferença na realização
morfológica desses traços. Esta diferença morfológica na realização dos traços que
25
distingue uma língua de outra, português do espanhol, por exemplo, talvez
também esteja disponível e seja capaz de diferenciar variedades de uma mesma
língua como o espanhol paraguaio e o espanhol peninsular, ao mesmo tempo em
que aproxima o espanhol paraguaio do português brasileiro.
1.4
Mudança e Variação linguística na GG
Na visão gerativista, existem duas gramáticas, uma social e outra biológica
– a gramática social corresponderia à Língua-E (produção linguística externa) e a
biológica, à Lingua-I (sistema interno). Sendo assim, o indivíduo, quando no
momento da aquisição, recebe os dados primários da gramática social da geração
anterior, que é reflexo da sua gramática biológica.
Sob a perspectiva da gramática gerativa atual, a mudança linguística é
estreitamente condicionada pelo requerimento de que todas as línguas
se adaptam a especificações da faculdade humana da linguagem; mas a
mudança linguística, assim como o fato cru da diversidade estrutural
das línguas do mundo, marca um limite para a especificação biológica
da linguagem. (KROCH, 2003:1)
A mudança linguística, a partir do quadro da GG, se dá sempre por meio da
aquisição da linguagem, ou seja, a mudança acontece no processo de transmissão
de uma geração a outra, ocorrendo mudança das regras sintáticas.
A mudança linguística é por definição uma falha4 na transmissão de
traços linguísticos através do tempo. Tais falhas, em princípio, podem
ocorrer entre grupos de falantes nativos adultos, que, por alguma razão,
substituem um traço por outro no uso da língua, como acontece quando
novas palavras são cunhadas e substituem velhas; porém, no caso de
traços sintáticos e gramaticais, tal inovação por adultos monolíngues
quase não é atestada. Por outro lado, as falhas na transmissão parecem
ocorrer no curso da aquisição da linguagem; isto é, elas são falhas no
aprendizado. Uma vez que, numa instância de mudança sintática, o
traço que os aprendizes falham em adquirir pode em princípio ser
aprendido, tendo sido parte da gramática da língua num passado
4
Entende-se por falha uma alteração de input recebida por uma geração que pode vir a desencadear
nas próximas gerações uma mudança de parâmetros.
26
imediato, a causa da falha deve recair em alguma mudança, talvez sutil,
no tipo de evidência disponível para o aprendiz ou em alguma
diferença, por exemplo, na sua idade durante o processo de aquisição,
como no caso da mudança induzida através da aquisição de segunda
língua por adultos em situação de contato linguístico. (KROCH,
2003:2)
As situações de contato, dentro desta abordagem, são vistas como um
constituidoras de “fatores potencialmente perturbadores das condições
necessárias para a emergência de uma gramática particular” (Paixão de Sousa,
2005), pois emergem novas gramáticas reestruturadas que se devem aos limites
estabelecidos pela GU e os dados primários disponíveis (input) durante o processo
de aquisição da linguagem de uma geração.
A situação de contato linguístico dentro do modelo gerativista não é tratada
como causa de empréstimos ou substratos linguísticos ou marcas linguísticas
diferenciadas que as línguas em questão possam apresentar, e sim como uma
inovação linguística na reestruturação de uma nova gramática individual.
Cabe salientar que neste modelo de concepção de língua a mudança não é
gradual, diferentemente da proposta da sociolinguística, pois a gramática não se
altera ao longo dos anos. A mudança é abrupta, já que se dá no momento da
aquisição e não está restrita a uma determinada comunidade, pois a gramática é
uma entidade real, biológica, representada na mente/cérebro do indivíduo adulto,
ou seja, experiências diferentes podem fazer surgirem gramáticas diferentes em
indivíduos diferentes.
Contudo, a reestruturação sintática na gramática de um maior número de
indivíduos tende a reforçar as inovações desta nova gramática e, assim, acaba
ocorrendo uma competição de gramáticas.
Tal
competição se dá através da coexistência entre uma gramática
inovadora
(reestruturada sintaticamente) a gramática conservadora, que não
deixa de
ser
expressa
de
um
dia
para
o
outro.
Nesta dissertação, a noção de competição de gramáticas se torna
fundamental, pois o objeto de estudo é o fenômeno das diferentes estratégias de
27
retomada do objeto direto na variedade linguística do espanhol do Paraguai, língua
que está em situação de contato com o guarani.
Ao que parece, no espanhol paraguaio ocorre uma competição de
gramáticas, pois parte dos falantes já fazem uso de estratégias de retomada
diferentes das previstas para o espanhol de outras variedades, que se devem ao
input diferenciado que receberam da Língua-E da geração anterior. E assim
configuram sua gramática interna durante o período de aquisição de forma
diferente da língua-I da geração que forneceu o input a esta geração.
28
2. Línguas em contato
A noção de línguas em contato é fundamental para pode identificar e definir
a situação linguística paraguaia e então proceder com as análises. Duas ou mais
línguas estão em contato quando convivem no mesmo espaço geográfico e são
usadas pelos mesmos indivíduos alternadamente
2.1
A República do Paraguai
O Paraguai está localizado na América Latina, mais especificamente na
América do Sul, limitado ao Sul e Sudeste pela Argentina, ao Leste pelo Brasil e ao
Noroeste pela Bolívia. Não tem costa marítima, mas é dividido pelo Rio Paraguai.
Tem como capital a cidade de Assunção.
Informação Geral:
 Independência: 15 de maio de 1811
 Capital: Asunción (fundada em 1537 por Juan de Salazar y Espinoza)
 População: 6.669.086 habitantes (2007)5
 Superfície: 406.752 km2
 Idiomas Oficias: Castellano e Guarani
 Moeda: Guarani
O Paraguai se diferencia dos demais países da América Latina que possuem
parte da população indígena no que tangencia o idioma oficial, ou seja, é o único
país que tem como língua oficial uma língua indígena, no caso o Guarani – que foi
5
http://www.tsje.gov.py/informacion-sobre-paraguay.php
29
reconhecido na constituição de 1967 e como pode ser visto no Censo Nacional de
Población y Viviendas 2002 (Tabela 1 – versão oficial atualizada), é a língua mais usada
no país, seguida pela língua espanhola, denominada no censo por castellano. Como
terceiro idioma mais falado no Paraguai, tem-se o português, com 4,24% dos
falantes – embora a porcentagem corresponda a aproximadamente 10% do total de
falantes de espanhol, é um número significativo comparado às outras línguas
faladas no país.
DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO SEGUNDO O IDIOMA
Indivíduos
%
Guaraní
3.946.904
51,35%
Castellano
3.170.812
41,25%
Portugués
326.496
4,24%
Inglés
91.573
1,19%
Alemán
59.166
0,76%
Outras línguas indígenas6
59.125
0,76%
Orientais e Eslavas7
12.198
0,15%
Francés
8.650
0,11%
Italiano
5.071
0,06%
Idiomas
Total8
7.685.749
Tabela 1 – Distribuição linguística no PY – Censo 2002
Segundo o Censo Nacional de Población y Viviendas de 28 de agosto de 2002,
Assunção (a capital) conta com 512.112 habitantes dos 5.163.198 habitantes do país,
concentrando 10% da população total em seu centro urbano.
6
Aché ñe’e, Angaité, Ava-guaraní ñe’e, Ayoreo, Enlhet norte, Enxet Sur, Guaraní ocorrênciasidental ñe’e,
Maká, Manjui, Maskoy, Mbya ñe’e, Nivaclé, Ñandeva ñe’e, Pai ñe’e, Sanapaná, Toba, Toba-qom,
Tomárâho, Ybytoso.
7
Japonês, Coreano, Chinês e Árabe.
8
O número total é superior ao da população, pois se havia contabilizado mais de um idioma por pessoa
quando foi o caso.
30
31
Figura 2- Mapa do Paraguai
2.2
Línguas em contato: Uma discussão
O contato linguístico não ocorre em um espaço físico e sim no indivíduo
usuário das línguas que estão em contato – neste caso específico o espanhol e o
guarani jesuítico –, ou seja, o lugar do contato é o indivíduo (cf. Appel &
Muysken). As situações de línguas em contato estão intimamente ligadas a
fenômenos como: diglossia, bilinguismo (multilinguismo), processos de
pidnização e criolização, convergência, substituição e manutenção de línguas.
O conceito de línguas em contato, assim como o de bilinguismo, é muito
amplo. Para este trabalho, o conceito que mais se adequa à pesquisa é o proposto
por Moreno Fernández (1998), que estabelece como situação de contato
linguístico quando duas ou mais línguas quaisquer estabelecem uma situação
qualquer.
Esta situação social da língua é uma das mais favoráveis à mudança
linguística, que pode se dar devido aos empréstimos linguísticos de todas as
naturezas, ou pelo fenômeno de interferência9, ou ainda pela transferência
linguística10. Tal fenômeno pode ser brevemente definido por diferenças ou desvios
da norma linguística monolíngue que corresponde a estruturas existentes na
língua de contato. A diferenciação entre interferência ou transferência linguística
se dá segundo a estabilidade do fenômeno: se estiver mais estável, denota uma
transferência; e menos estável, uma interferência linguística da língua em contato
(cf. APPEL & MUYSKEN, 1996).
O fenômeno do contato entre línguas é algo previsível e são inumeráveis os
casos de coexistência de línguas. No ano de 1976, Uribe Villegas constatou que as
comunidades multilíngues eram majoritárias, havia algo em torno de cinco mil
(5.000) línguas e aproximadamente 140 Estados Nacionais. Portanto, as
9
‘Aqueles desvios de normas de qualquer língua que ocorrem na fala de bilíngues, como resultado de seu
conhecimento com mais de uma língua, isto é, como resultado de línguas em contato, será referido como
fenômenos de interferência’ (WEINRICH, 1953-1974, p.1).
10
A transferência positiva decorria das semelhanças entre a língua materna e a língua estrangeira e
facilitava a aprendizagem. Por sua vez, a transferência negativa ou interferência resultava das diferenças
entre as duas línguas e causava erros e dificuldades na aprendizagem de línguas.
32
comunidades seriam majoritariamente multilíngues, sendo assim, em um único
Estado coexistem centenas de línguas.
A América Latina, em especial o Paraguai e o Peru, são áreas de línguas em
contato. Esta situação de contato linguístico acontece desde a colonização, se
pensarmos no contato com as línguas neolatinas. Tanto no Paraguai quanto no
Peru, o contato linguístico é múltiplo, de acordo com as diversas línguas indígenas
que podem ser encontradas nos dois países. Contudo, focaremos na situação de
contato linguístico existente no Paraguai, que se dá entre a variante do espanhol
com a variante do Guarani jesuítico ou clássico, pois também há no Paraguai uma
terceira língua resultante do contato das duas últimas: o Jopara, uma língua
coloquial com marcas e estruturas linguísticas do guarani e do espanhol paraguaio.
É importante salientar que, embora existam diversas formas de contato
linguístico não só na América Latina, como na América do Norte, Europa e demais
continentes (e consequentemente não só com línguas neolatinas, mas também
anglo-saxônicas, entre outras), cada situação de contato é única e distinta das
demais. Por conseguinte, os fenômenos linguísticos produzidos também serão de
naturezas diferentes. Se tomarmos o Paraguai e o Peru como exemplos, não
poderíamos dizer que o fenômeno do apagamento do clítico de objeto direto
apresentado nos dois países seja da mesma natureza, pois as línguas de contato,
embora indígenas, são de famílias diferentes e o modo que se dá o contato também.
Em 1953, se inicia o estudo das línguas em contato pela sociolinguística com
o lançamento do Livro Languages in contact de Weinrich, que é a base dos estudos
modernos das línguas em contato. Contudo, na América Latina, os estudos
começam a ter tradição somente a partir de Lenz (1983), que estudou o espanhol
chileno e a influência do araucano (Mapuche).
Em muitos países, há casos de coexistência de duas ou mais línguas, ou seja,
vive-se em uma situação de plurilinguíssimo ou multilinguismo11. Quase não
"A finalidade consiste, ao contrário, em desenvolver um repertório linguístico, no qual todas as
capacidades linguísticas encontrem lugar" (QCER, p. 6). Plurilinguismo vs multilinguismo
Segundo QCER, o conceito de plurilinguismo se distingue de multilinguismo no seguinte modo: • o
multilinguismo consiste no conhecimento de um certo número de línguas ou na coexistência de diversas
línguas em uma determinada sociedade; • o plurilinguismo enfatiza a integração, uma vez que
"conhecimento e experiências linguísticas contribuem para a formação da competência comunicativa, na
qual as línguas estabelecem relações recíprocas e interagem" (QCER, p. 5).
11
33
existem países que sejam completamente monolíngues, pois fatores como redes
sociais e econômicas acabam difundindo outras línguas num contexto
anteriormente monolíngue.
O multilinguismo põe diferentes línguas em contato e devido a essa convivência se pode observar alguns conflitos linguísticos, a produção de interferências linguísticas, a substituição de um idioma por outro e até a aparição de
novas línguas/dialetos. Um exemplo de nova língua é o Jopara, já referido
anteriormente, que tem estruturas sintáticas e lexicais tanto do espanhol quanto
do Guarani jesuítico falado no Paraguai.
O contato entre línguas é a consequência do contato entre sociedades e isso
faz com que surjam vários fenômenos linguísticos. Pode-se destacar como mais
importantes os seguintes: bilinguismo, diglossia, línguas francas, empréstimos,
mudanças de código.
Resumidamente, os fenômenos que podem surgir do contato entre línguas
e sociedades seriam: bilinguismo – a prática de usar alternativamente duas
línguas; diglossia12 – situação de bilinguismo ou bidialetalismo em que há
diferença de status sociopolítico entre as duas línguas ou dialetos; empréstimos13
(borrowing); interferências linguísticas – léxicas, morfossintáticas e fonéticas;
aparição de línguas francas14 (pidgins e crioulos) e mudança de código.
Conforme Silva-Corvalán (1989), há vários tipos de bilinguismo: social,
grupal ou individual. O bilinguismo social ou de sociedade é aquele que existe
quando grupos numerosos de indivíduos falam duas línguas, já o de grupo ou elite
está restrito a um pequeno grupo de indivíduos que estão ligados por relação de
trabalho ou familiares. Um indivíduo bilíngue é aquele que tem certa competência
Segundo Fishman, diglossia é um conceito que descreve uma comunidade bilíngue na qual existe uma
alta porcentagem de indivíduos bilíngues que dominam as duas línguas em coexistência, embora ambas
estejam diferenciadas funcionalmente em términos de variedade alta e variedade baixa.
12
13Incorporação
ao léxico de uma língua de um termo pertencente a outra língua [Dá-se por diferentes
processos, tais como a reprodução do termo sem alteração de pronúncia e/ou grafia (know-how), ou com
adaptação fonológica e ortográfica (garçom, futebol).]
14Diz-se
de língua não vernácula de populações heterogêneas, que serve como segunda língua para fins
principalmente comerciais.
34
linguística no uso das duas línguas, contudo tal competência não precisa ser
necessariamente igual à competência de um falante da modalidade padrão das
línguas em questão.
2.3
Bilinguismo
As diferentes entradas em um dicionário não especializado, o senso comum,
servem para problematizar não só a definição de bilinguismo/multilinguismo, mas
também para identificar a partir de qual visão de bilinguismo estamos partindo.
O termo bilinguismo possui várias acepções no dicionário sob a rubrica da
sociolinguística, como: “coexistência de dois sistemas linguísticos diferentes
(língua, dialeto, falar etc.) numa coletividade, usados alternativamente pelos
falantes segundo exigências do meio em que vivem, ou de situações específicas” ou
“uso concomitante de duas línguas por um falante, ou grupo, com igual fluência ou
com a proeminência de uma delas” (Houaiss, 2003) ou “existência de duas línguas
num país com status de língua oficial” (Houaiss, 2003) ou ainda “ensino, oficial ou
não, de uma língua estrangeira, além da língua materna” (Houaiss, 2003).
Embora toda situação de contado seja diferente e específica, a dinâmica
envolvida difere a cada caso, pois leva em consideração as línguas em contato, seu
usos, a composição da sociedade envolvida, entre outros. A situação linguística do
Paraguai, no entanto, parece constituir um caso bem mais específico, porque além
de contemplar em seu fenômeno linguístico todas as acepções citadas sobre o
bilinguismo, o contato é entre uma língua aculturante (espanhol, língua do
colonizador) e uma língua aculturada (guarani, língua dos colonizados), que, ao
contrário das outras línguas indígenas da América Latina, preservou seu léxico,
mas mudou a ordem dos seus constituintes, assemelhando a ordem dos
constituintes do espanhol (SVO).
Além disso, o guarani teve sua prática incentivada e não foi relegado ao
segundo plano. É a única língua indígena com o status de língua oficial e tem seu
ensino e divulgação garantidos por políticas linguísticas.
35
2.4
Bilinguismo no Paraguai (PY)
O Paraguai apresenta uma situação de pluriculturalismo e multilinguismo
em seu território. Nele convivem distintas línguas e culturas ameríndias com a
língua espanhola, assim como acontece em tantos outros países da América Latina.
O que torna o Paraguai distinto dos demais é o fato de haver a uma ampla
população bilíngue (espanhol e guarani). O bilinguismo foi oficializado, no
Paraguai, pela Constituição de 1967 e reafirmado na Constituição de 1992,
elevando o Guarani a língua cooficial do país.
Históricamente, sólo desde finales del siglo XVIII se puede hablar de
Paraguay como una nación con un núcleo de bilingüismo. Melià (1992)
considera Paraguay, antes de esta fecha, no pude considerarse como una
nación bilingüe sino preferentemente monolingüe en lengua indígena
donde el guaraní seria la lengua de comunicación, pero también la
lengua de uso cotidiano y habitual tanto de la población indígena como
no indígena. (Palacios, 2000, p.02)
Os dados publicados no Censo Nacional de população e moradias dos anos
de 1950, 1962, 1982, 1992 e 2002 permitem descrever a situação linguística da
população paraguaia. Sua divisão linguística, que pode ser conferida no quadro
abaixo, obedece à seguinte divisão:
1) falantes bilíngues de guarani e espanhol;
2) falantes monolíngues de guarani;
3) falantes monolíngues de espanhol;
4) falantes de outras línguas.
HISTÓRICO DA DISTRIBUIÇÃO LINGUÍSTICA DA POPULAÇÃO DO PARAGUAI
ANO
1950
1962
1982
1992
LÍNGUA
Falantes
%
Falantes
%
Falantes
%
Falantes
%
633.151
57%
761.137
50.6%
1.247.742
48.6%
1.736.342
49.6%
GUARANI
414.032
37.3%
648.884
43.1%
1.029.786
40.1%
1.345.513
38.4%
ESPANHOL
48.474
4.4%
61.570
4.1%
166.441
6.5%
227.204
6.5%
GUARANIESPANHOL
36
OUTRAS
LÍNGUAS
TOTAL
15.155
1.4%
33.165
2.2%
121.881
4.8%
194.591
5.6%
1.110.812
100%
1.504.756
100%
2.565.850
100%
3.503.650
100%
Tabela 2 – Distribuição linguística da população paraguaia
(Fonte: Censo paraguaio, 1992)
Como se pode observar na tabela acima, manteve-se relativamente estável
o bilinguismo paraguaio e o guarani possui vigência plena. Ao contrário de outros
países, não há indicadores de um processo de substituição linguística em
detrimento do espanhol. Contudo, na terceira tabela, em que estão representadas
as predileções de línguas faladas em casa, há uma mudança em relação à zona
urbana: a língua guarani é utilizada por 42,9% frente a 54,7% de utilização da
língua espanhola. Todavia, permanece na zona rural uma predileção pelo guarani
(82,7%). Cabe lembrar que o Paraguai, na última década, se transformou em um
país mais urbano – esta população é de 659.174 habitantes, enquanto a população
rural é de 458.224 habitantes.
IDIOMA FAMILIAR15
Língua
País
Zona Urbana
Zona Rural
GUARANI
661.589
59,2 %
282.677
42,9 %
378.912
82,7 %
ESPANHOL
398.741
35,7 %
360.310
54,7 %
38.431
8,4 %
OUTRO
56.858
5,1 %
16.058
2,4 %
40.800
8,9 %
TOTAL
1.117.398
100%
659.174
100%
458.224
100%
Tabela 3 – Distribuição linguística familiar da população paraguaia
(Fonte: Censo paraguaio, 1992)
Há diferentes tipos de bilinguismo predominantes nas zonas rurais e
urbanas. O bilinguismo16 rural paraguaio parece ser do tipo subordinado e a
Segundo o Censo de 2002.
Melià (1992, apud Palacios, 2000) aponta que a competência linguística bilíngue nas zonas rurais é
adquirida mediante a escolarização, mas que só será completada si houver outros processos socioculturais
de relação do indivíduo com meios urbanos como a leitura de jornais ou exigências de um emprego.
15
16
37
competência linguística destes indivíduos, incipiente. Já nas áreas urbanas, o tipo
de bilinguismo predominante é o coordenado ou simétrico.
Atendiendo al tipo de bilingüismo social, la sociedad paraguaya se ha
considerado habitualmente como modelo de bilingüismo con diglosia
estable, con el español como variante alta y con el guaraní como
variante baja, socialmente subordinada en función de criterios como
prestigio, tradición literaria, adquisición, estandarización y
estabilidad. (Palacios, 2000, p.36)
O Paraguai vive uma situação diglóssica não conflitiva, baseada na divisão
de funções e situações comunicativas, uma situação estável social e
comunicativamente. Rubin (1974: 121-122 apud Palacios, 2000) considera o
espanhol a língua que os falantes escolhem para os ‘assuntos de educação, religião,
governo e cultura superior’, já o guarani é empregado para ‘assuntos de intimidade
ou solidariedade primária do grupo’.
2.5
Contato Espanhol/Guarani
PAR BILÍNGUE
POPULAÇÃO
%
GUARANÍ Y CASTELLANO
2.655.423
81,2%
CASTELLANO Y PORTUGUÉS
264.706
8,0%
GUARANÍ Y PORTUGUÉS
196.716
6,0%
CASTELLANO E INGLÉS
90.390
2,7%
CASTELLANO Y ALEMÁN
41.980
1,3%
GUARANÍ Y ALEMÁN
10.749
0,3%
NO HABLA
8.582
0,26%
NO INFORMÓ IDIOMA
992
0,03%
TOTAL
3.269.538
Tabela 4 – Distribuição da população em situação de bilinguismo no Paraguai – Censo 2002
38
A tabela acima mostra uma legitimação da situação de bilíngue paraguaia e
a dificuldade de caracterizar o falante monolíngue. Outro dado relevante é que dos
3 pares bilíngues mais comuns, o português faz parte de dois e é a 3ª língua mais
falada no país.
No espanhol paraguaio, constata-se que, além de empréstimos e
interferências de ordem fonéticas e morfológicas, também há influências sintáticas
da língua guarani, como, por exemplo, a simplificação generalizada 17 do sistema
pronominal átono de terceira pessoa – reestruturação que obedece a um processo
de convergência linguística entre o espanhol e o guarani (a língua indígena carece
de marcas morfológicas de gênero, número ou caso e de um sistema pronominal
átono). O resultado dessa simplificação é o uso generalizado de um único pronome
le para objeto direto e indireto sem distinção de gênero e número.
Tal simplificação pronominal não supõe uma mudança estigmatizada e se
generaliza entre a população urbana de nível médio e médio-alto, diferentemente
da simplificação do sistema pronominal átono que ocorre em algumas áreas
peruanas, equatorianas, mexicanas ou guatemaltecas.
17
Uso de uma única partícula como pronome, não fazendo diferença de caso, pessoa e número.
39
3. Os Clíticos
Os pronomes, especialmente os clíticos, não têm uma definição consensual
nos diversos quadros teóricos existentes. Uma das possíveis conceituações para os
pronomes, dentro da GG, é a proposta de Cardinaletti (1994) e Cardinaletti e
Starke (1999), que propõem um modelo tripartido para os pronomes e os dividem
em pronomes fortes, pronomes fracos e clíticos. Mas, antes que se apresente o
modelo tripartido, cabe apresentar as configurações das categorias existentes de
pronomes.
3.1 O pronome clítico
A proposta de Cardinaletti e Starke (1999), postula que há nas línguas
naturais distintas classes de pronomes que possuem configurações internas
distintas. E estas classes podem ser divididas em duas categorias de pronomes: os
que se comportam como DPs18 plenos e os que expressam propriedades sintáticas
especiais.
A categoria dos pronomes que têm comportamento de pronome pleno são
pronomes fortes e seu DP abriga a categoria lexical e há movimento de N (nome)
para D(determinante). Na categoria que incorpora os clíticos, as projeções são
somente funcionais. A diferença das duas categorias está na estrutura interna, pois
os pronomes são gerados em N e projetam um NP. Já os clíticos são “adjungidos”
em D e projetam um DP, não havendo projeção nominal. Por este motivo, não coocorrem com determinantes.
18
Núcleo funcional que abriga o NP (nome)
40
Abaixo se pode ver as representações19 em árvore dos pronomes fortes e dos
clíticos:
Figura 3 - Projeção dos pronomes
Segundo Cardinaletti e Starke (1999), o sistema pronominal pode ser visto
como um modelo tripartido em que cada parte dessa divisão tem características
específicas para cada classe de pronome.
Figura 4 - Modelo tripartido dos clíticos - Cardinaletti e Starke (1999)
Esse modelo tripartido e gradativo considera que um pronome forte é
hierarquicamente superior ao pronome fraco que por sua vez é superior ao clítico.
No que tange às deficiências das classes, pode se dizer que as deficiências são
herdadas de uma classe a outra e acrescida, às deficiências da própria classe.
Dentro desta hipótese temos os pronomes fortes como [+sintáticos] e os
clíticos como [-sintáticos]. Na escala de gradação, um elemento passa de concreto
a abstrato, sintático a morfológico. Sendo assim, ao classificar as classes de
pronomes propostas por Cardinaletti e Starke (1999), dentro da escala de gradação
pode-se interpretar este clítico, em oposição ao pronome forte, como possuidor do
traço [+morfológico] e o pronome forte continua com o traço [+sintático]. O clítico
19
Retirados de Souza, 2011.
41
com traço [+morfológico] pode vir a ser interpretado como morfema verbal de
concordância.
A interpretação deste clítico como [+morfológico] favorece a explicação da
causa interna à língua para mudanças linguísticas tanto na variedade espanhola do
Paraguai, quanto em outras variedades da língua espanhola – em que foi
constatada – a possibilidade de uso da estratégia de retomada por apagamento.
Trabalhos como os de Palacios (1998a, 1998b 2000), Granda entre outros
afirmam que as causas são externas, pois estes autores não encontraram
motivações sintáticas para o uso da estratégia de retomada por apagamento. De
fato, a motivação não parece ser sintática, mas sim morfológica/semântica. Pois
por ser um clítico com traço morfológico, este passa a se adjungir ao verbo como
um morfema e ao ser aplicado o princípio da economia linguística – uma vez, que
também ocorre o fenômeno linguístico do leísmo – a concordância se enfraquece e
isto favorece o apagamento deste clítico de objeto direto na variedade espanhola
do Paraguai.
3.2 O sistema pronominal
O espanhol, assim como o PB, dispõe de um sistema pronominal dividido
em formas tônicas e átonas (clíticos) em suas formas de singular e plural das três
pessoas discursivas. Contudo, o sistema de pronomes do PB é fraco e tende ao
apagamento dos clíticos, ao contrário do espanhol que possui um sistema vigoroso
de clíticos e que só licencia o apagamento em alguns contextos restritos. O
português do Brasil licencia o apagamento em todos os contextos, como os não
recuperáveis pelo contexto imediato ou referente [+humano]. Como pode ser
verificado nos seguintes exemplos:
- Você viu o médico?
- Não vi.
A divisão do sistema pronominal espanhol pode ser vista nas tabelas 20
abaixo:
20
As tabelas foram confeccionadas para este trabalho.
42
Quadro de pronomes pessoais tônicos no espanhol
Pronomes Sujeito
1ª Singular
Yo como
2ª singular
Tú comes/Usted come*
3ª singular
Él/Ella come
1ª Plural
Nosotros comemos
2ª Plural
Vosotros coméis/ Ustedes comen*
3ª plural
Ellos/as comen
Pronomes Objeto
1ª Singular
(prep) mí conmigo
2ª singular
(prep) ti contigo
3ª Singular
(prep) consigo
*Segunda pessoa gramatical/ terceira do discurso
Tabela 5 – Pronomes tônicos do espanhol
Quadro de clíticos pronominais do espanhol
Clíticos
Acusativo
Dativo
me (a mí)
te (a tí)
Pronominais
lo (a él)
le/se (a él)
la (a ella)
le/se (a ella)
nos (a nosotros)
vos ( a vosotros)
los (a ellos)
les (a ellos)
las (a ellas)
les (a ellas)
Me
Te
Anáfora
Se
Nos
Os
Se
Tabela 6 – Pronomes átonos do espanhol
43
Na língua espanhola, os pronomes clíticos podem aparecer antecedendo o
verbo (próclise) ou pospostos a ele (ênclise) e estabelecem uma relação de
adjacência estrita: somente outro clítico pode intervir entre eles.
a. No te lo vendo
b. *Te lo no vendo
A colocação dos clíticos pode variar conforme as propriedades da flexão
verbal ao qual se adjungem. No espanhol, o pronome aparece proclítico com as
formas finitas dos verbos, enquanto que a ênclise se registra com infinitivos,
gerúndios e imperativos. Já os particípios não admitem clíticos.
Os pronomes átonos, ao contrário dos pronomes tônicos, podem referir-se
tanto a seres humanos quanto a não humanos ou inanimados. É importante
salientar que pronomes tônicos e clíticos não estão em distribuição complementar
no espanhol peninsular; ambas as formas podem coexistir na mesma sentença.
3.3 O sistema pronominal do espanhol paraguaio
O leísmo21 é um fenômeno linguístico em que se verifica o uso de le(s) na
função de complemento direto, na posição de lo (para masculino singular ou
neutro), los (para masculino plural) e la(s) (para feminino), que são as formas às
que etimologicamente correspondem exercer essa função.
O espanhol do Paraguai (EP) tem adotado a forma le(s), tanto para o
pronome complemento direto, como para o indireto de pessoa. Provavelmente isso
se deve a uma herança do espanhol do século XVI, quando o pronome le, pronome
21
Los pronombres le, les proceden, respectivamente, de las formas latinas de dativo illi, illis. El dativo (…) se
expresaba el complemento indirecto. Por ello, la norma culta del español estándar establece el uso de estas
formas para ejercer dicha función, independientemente del género del sustantivo al que se refiere el pronombre.
Debido a su extensión entre hablantes cultos y escritores de prestigio, se admite el uso de le en lugar de lo en
función de complemento directo cuando el referente es una persona de sexo masculino. Sin embargo, el uso de
les por los cuando el referente es plural, aunque no carece de ejemplos literarios, no está tan extendido como
cuando el referente es singular, por lo que se desaconseja en el habla culta. El leísmo no se admite de ningún
modo en la norma culta cuando el referente es inanimado: El libro que me prestaste LE leí de un tirón; Los informes
me LES mandas cuando puedas. Y tampoco se admite, en general, cuando el referente es una mujer: LE consideran
estúpida, aunque existen algunos casos en que el leísmo femenino de persona no se considera incorrecto.
(DICCIONÁRIO PANHISPÁNICO DE DUDAS – El Leísmo, 2005).
44
complemento direto, teve seu uso generalizado tanto para pessoas como para
coisas sobretudo entre os escritores espanhóis.
Germán de Granda (1978) estabeleceu que o leísmo paraguaio mantém
relação direta com os fatores sociolinguísticos, como socioleto 22 e registro23.
Socioletos mais baixos demonstram o leísmo tanto no registro oral quanto no
escrito, os socioletos medianos y altos demonstram o leísmo em registro oral,
preferencialmente em fala não formal.
Não há publicações recentes sobre o espanhol paraguaio, contudo está em
curso o projeto AVAKOTEPA24, que pretende mapear o espanhol e o guarani
falado no Paraguai e a criação de um corpus para trabalhos futuros.
3.4 Os pronomes clíticos de terceira pessoa
Como já foi dito anteriormente, tanto na modalidade escrita, quanto na
modalidade falada da língua espanhola peninsular, o uso dos pronomes clíticos é
produtivo. Em contrapartida, no português brasileiro, a frequência de uso é baixa
nas duas modalidades da língua, aparecendo numa frequência maior na
modalidade escrita culta, porém menor que na língua espanhola25. Essa baixa
frequência de utilização dos clíticos de objeto direto também foi observada por
Palacios (1998, 2000 e 2001) no espanhol paraguaio.
A necessidade da retomada através do clítico na língua espanhola não é
exigência da gramática normativa (pois a frequência de uso é alta até mesmo na
fala de pessoas com baixa escolaridade), mas uma exigência da gramática da
22
Cada uma das variedades de uma língua usada pelos grupos de indivíduos que, tendo características sociais
em comum (p.ex., a profissão, os passatempos, a geração etc.), usam termos técnicos, ou gírias, ou fraseados
que os distinguem dos demais falantes na sua comunidade; dialeto social, variante diastrática (HOUAISS, 2004).
23 Variante linguística condicionada pelo grau de formalidade existente na situação em que se dá o ato da fala,
ou da finalidade, no ato da escrita; estilo, linguagem [Na língua falada podem distinguir-se, em grau decrescente
de formalidade, os registros oratório, formal, coloquial tenso, coloquial distenso e familiar, e na linguagem
escrita, literário, formal, informal, pessoal; algumas pessoas usam uma classificação simplificada e falam, tanto
para a língua falada como para a escrita, em registro formal e registro informal.] (HOUAISS, 2004).
24
El principal objetivo del proyecto AVAKOTEPA es recopilar un corpus oral y textual de referencia del guaraní
hablado en el Paraguay que sirva de base empírica para investigaciones de índole lingüística, y que den a conocer,
con mayor amplitud, algunos rasgos y aspectos representativos de la cultura guaranítica.
25
Conforme Santos, 2011.
45
língua, já que o não uso do clítico gera sentenças agramaticais (cf. Fanjul 1999,
p.139).
O português brasileiro tem apresentado uma substituição progressiva da
estratégia de retomada por pronome clítico pela retomada pela forma lexical e pela
categoria vazia. Esta substituição pode ser atribuída ao enfraquecimento da
concordância na variedade brasileira, diferenciando-a, assim, do português
europeu (PE) e também de outras línguas românicas como o espanhol
(peninsular). (cf. Galves, Duarte, Cyrino, 2006)
Pode-se dizer que o espanhol paraguaio apresenta características mais
próximas, no que tange à distribuição de clíticos de objeto direto, ao português
brasileiro do que ao próprio espanhol peninsular. Talvez isso se deva à
configuração dos traços (semânticos, sintáticos e morfológicos) desta variedade
da língua, o que reforça a ideia dos universais linguísticos, isto é, que as línguas são
mais semelhantes que diferentes. As diferenças existentes se devem aos traços que
podem ser marcados ou não [+ ou -], mas que estariam presentes em todas as
línguas.
3.5 Estratégias de retomada do objeto direto anafórico
Nas línguas românicas, a primeira estratégia de retomada do objeto direto
seria a pronominalização que consiste em substituir um sintagma nominal por um
pronome. Tais pronomes podem ser de natureza clítica, demonstrativa ou lexical.
A gramática normativa recomenda o uso do pronome clítico para a retomada,
porém a língua licencia o uso de outras formas nominais.
Exemplos:
- Você viu o médico?
- Não o vi. (clítico)
-Não vi ele. (lexical)
A segunda estratégia seria a retomada por um sintagma nominal – lexemas
com núcleo idêntico ao do SN antecedente, com ou sem mudança de determinante
–; expressões sinônimas ou quase sinônimas; nomes genéricos.
46
-Não vi o médico. (SN)
-Não vi o doutor. (SN)
Ainda há a possibilidade de retomada pela categoria vazia, doravante objeto
nulo (ON), possibilidade esta que é licenciada na variante espanhola peninsular
em contextos no quais o referente é um objeto [-definido ou determinado] e pode
ser recuperado mediante o contexto.
-Não vi [ø]. (apagamento)
3.6 Apagamento do objeto direto
O apagamento do objeto caracteriza-se pela supressão do complemento
direto (CD) de um verbo transitivo quando ele pode recuperar as informações em
um contexto imediato. Esta supressão implica a ausência de um SN ou um
pronome átono, como em espanhol padrão, que executa a função CD. Este
fenômeno é chamado comumente de "construções de objeto nulo”.
As construções de objeto nulo, entretanto, ocorrem seguindo alguns
contextos sintático-semânticos. Primeiramente, se observa a questão da
animacidade, pois os estudos prévios (Palacios, 1998 e 2001) que discorrem sobre
o Espanhol Paraguaio relatam que o apagamento do objeto direto é recorrente
quando o antecedente possui traço [- humano] – embora haja ocorrência da elipse
também com antecedente de traços [+ humano] –, por isso o motivo do critério
semântico de animacidade ser relevante para o estudo.
A noção de animacidade é uma noção semântica que envolve um conjunto
de elementos agrupados por apresentarem a característica de serem animados; o
que é diferente do traço humano. O conjunto dos elementos que são animados
inclui, além dos seres humanos, os demais seres que, assim como a espécie humana,
apresentam algum tipo de vida.
De acordo com a abordagem minimalista, os traços semânticos de
animacidade e especificidade do antecedente estão relacionados
47
a pontos distintos na derivação, sendo, no entanto, interpretados
em Forma Lógica. O traço de animacidade é intrínseco ao item
lexical, já entrando com ele na derivação de uma sentença, ou seja,
se tivermos como antecedente o DP menino ou o DP formiga,
mesmo não sabendo, a priori, se são específicos e/ou definidos,
saberemos que são antecedentes com traço semântico
[+animado]. Por outro lado, o traço de especificidade é derivado
sintaticamente, já que, dependendo da estrutura sintática, o
antecedente será específico ou não, um antecedente será
específico ou não a depender do contexto que envolve esse
elemento (contexto sintático, além do semântico-pragmático).
(CASAGRANDE, 2007 p 30)
Ademais, os estudos mais recentes do PB (Cyrino, Kato e Duarte, 2006)
sobre o objeto direto com sua análise apoiada no Programa Minimalista (PM)
revelam a importância dos traços semânticos animacidade [+/-a], definitude [+/d] e especificidade [+/-e] para uma análise mais completa dos dados.
Shwenter & Silva (2002), primeiramente, destacam o fato de que os clíticos
acusativos de 1ª e 2ª pessoas são obrigatoriamente interpretados como referentes
a antecedentes humanos e específicos, fato que faz com que a sua omissão torne a
sentença agramatical, diferentemente do clítico acusativo de 3ª pessoa que, pode
ser realizado pela estratégia de retomada nula ou pela estratégia de retomada por
pronome lexical.
Exemplos26:
(a) Eu não sabia que você foi ao cinema também. Você *(me) viu lá?
(b) Eu não sabia que você foi ao cinema também. Eu não *(te) vi lá?
Para a construção com o apagamento do objeto e a estratégia de retomada
por pronome lexical, os traços mais relevantes são: animacidade, especificidade e
definitude (esta última não sendo tão relevante para a marcação de objeto direto
anafórico no PB, mas sim em outras línguas).
O objeto direto com os traços [+a, +e] não pode ser nulo, deve ser realizado
como um pronome, no caso ele. Já referentes que sejam [-a] e/ou [-e] podem ser
26
Retirados de Shwenter & Silva, 2002.
48
retomados pelo objeto nulo. Dessa forma, os autores concluem que é a conjunção
de animacidade e especificidade que governa a ocorrência do objeto nulo e do
pronome em PB.
Numa comparação com outras línguas, levando em conta a teoria
da diferencial object marking, os autores mostram que em espanhol,
por exemplo, existe uma marca morfológica que define o objeto
direto (acusativo). Eles afirmam que, segundo Haspelmath
(2001), há algumas condições às quais a marcação de objeto está
sujeita; uma dessas condições é a que temos em espanhol: “(...) in
Spanish for direct objects: the high degree of individuation of the
object or its high position on the animacy/definiteness hierarchy
strongly favors overt accusative case marking” (Shwenter &
Silva, 2002: 10)
Objetos diretos que em espanhol não são marcados pela marca morfológica
de acusativo a27, ainda que não sejam inteiramente nulos, como em PB, formam
uma classe semântico-pragmática com aqueles objetos que geralmente são nulos
em PB, como nos exemplos (c) e (d). Já nos exemplos (e) e (f), a marca morfológica
de acusativo a é licenciada pela interação entre os traços de animacidade e
especificidade.
Como exemplos28 temos:
(c) Ayer vi ø/*a tu libro.
[-anim, +spec]
(d) Quiero entrevistarø/?*a una persona que sepa catalán
[-anim, -spec]
(e) Ayer vi *ø/a tu hermana.
[+anim, +spec]
(f) Quiero entrevistar *ø/a una persona que sabe catalán.
[+anim, +spec]
27
A marcação diferencial de caso é um fenômeno linguístico que consiste no acréscimo de uma marca
morfológica no objeto direto de algumas línguas, no espanhol esta marca morfológica é o a e esta
marcação é sensível aos traços de animacidade, definitude e especificidade.
28
Retirados de Shwenter & Silva, 2002.
49
Algumas variedades do espanhol nas quais o objeto nulo ocorre mostram
distribuição desse nulo bastante semelhante ao PB. Choi (2000) verificou que nas
amostras de tanto falantes bilíngues, quanto falantes monolíngues do Paraguai
houve mais de 90% de ocorrências de objetos nulos com referente de traço [pessoa] e raramente objetos nulos com referente de traço [+pessoa].
A partir da observação translinguística do fenômeno da marcação de objeto
direto, Shwenter & Silva afirmam que a distribuição tanto de objetos diretos
anafóricos nulos, quanto de pronominais é igualmente atingida por animacidade e
especificidade, efeitos que também estão presentes em línguas de DOM
(differential object marking):
In our view, then, the phenomena considered under the rubric of
DOM – normally restricted to the variable case marking of direct
objects as found in languages like Spanish – ought to be
expanded to include the differential formal expression that
anaphoric DOs take in languages like Brazilian Portuguese.
(Shwenter & Silva, 2003: 15)
3.7 Tipos de objeto nulo
Segundo Huang (1984), o objeto nulo tem uma interpretação específica
definida, análoga a de um pronome lexical, podendo ser chamado de objeto nulo
referencial.
Raposo (1992) descreveu que há dois tipos de objeto nulo: o objeto nulo
opcional e o objeto nulo discursivamente identificado. A transitividade verbal está
associada à possibilidade de omissão. Verbos como beber, comer e estudar, que são
atividades biológicas, permitem o objeto nulo.
Os estudos vistos - Granda (1978, 1992, 1996), Córvalan (1993,1994),
Palacios (1998a, 1998b 2000, 2001 e 2005) - até então não apresentaram restrições
sintáticas quanto ao uso do objeto nulo, mas restrições discursivas.
Tampoco parecen existir restricciones temporales o aspectuales;
encontramos elisión de objeto con el verbo en presente; con el
verbo en pasado: cuando el verbo lleva aspecto perfectivo, pero
50
también si aparece en imperfectivo; tanto en formas flexionadas
como no flexionadas. La semántica del verbo tampoco condiciona
la elisión del pronombre, ya este fenómeno se muestra con verbos
de conocimiento; de percepción, de habla; o de movimiento.
(Palacios, 1998b, p.136)
No PB, o objeto nulo está associado ao enfraquecimento da concordância e
consequentemente ao processo de perda dos clíticos acusativos de 3ª pessoa. Em
substituição aos clíticos acusativos perdidos, o PB apresenta a possibilidade
inclusive de retomada por pronomes retos (ele/ela), os quais não são possíveis no
português europeu e tão pouco no espanhol peninsular.
Não há estudos descritivos sobre o espanhol paraguaio que indiquem as
possíveis causas internas de mudança nos parâmetros da língua, mas acredita-se
que sejam causas semelhantes às do português do Brasil.
Nesta dissertação, defende-se que uma das causas para as diferentes
estratégias de retomada do objeto direto do espanhol paraguaio se deva a uma
motivação interna, uma nova configuração da gramática interna do falante, que
altera a binaridade dos traços de número e concordância – critérios morfológicos
– e licencia a estratégia de retomada com a categoria vazia.
3.8 Estratégias de retomada do clítico acusativo descritas para o EPA
Segundo autores como Granda (1978, 1992, 1996), Córvalan (1993,1994),
Palacios (1998a, 1998b, 2000, 2001) e Choi (2000), o EPA também utiliza como
estratégia de retomada a não realização do clítico de objeto direto de 3ª pessoa [humano]. Como pode ser visto em alguns exemplos extraídos de Palacios29
(1998b):
27a. Normalmente el gasto _paga
29
Os exemplos 27(a, b, c, d e e) são referente a amostra de língua oral, coleta por Palacios para o trabalho
em questão e os exemplos 28(a, b, c, d, e, f, g, h e i) são de língua escrita de estudantes universitários
Paraguaios. Não há maiores informações sobre a amostra.
51
27b. Fue cuando empecé a conocer españoles y qué empresa era de españoles y dónde era,
antes no _sabía.
27c. Él pensaba comercializar con la energía vendiendo-a otros países que no tienen
energía
27 d. Las casas no aguantan 1...f Aguantan dos o tres años y luego ya al abandonar _con
los fuertes vientos [...J se pudren todo
27e. El vestido de novia a lo mejor _compra el novio, _compra la novia
28a. ¿Cómo hizo él para sentarse a la mesa de ella? Aquella parte no _había visto
28b. ¿Por qué no podía tener un poco de plata si la mamó quería darle (por 'dársela')
28c. Si Claudia nos _contaba a los hermanos, ya teníamos que intervenir
28d. Todos le pueden decir que -vieron
28e. Maliciaba la desgracia, _sentía.
28f. Los quebracheros tenían que meterse por el monte y elegir un palo. Cuando
_encontraban, se ponían a hachear hasta que_echaban ['derribaban'] y entonces tenían
que volver a la administración para decir dónde estaba su tronco.
28g. Antes no teníamos policía ni tampoco_necesitábamos Cuando comenzamos a
necesitar_ya no servía.
28h. Tuvo la mala idea de contar_le a la directora ['contárselo']
28i. El tronco había que arrastrar_ hasta la picada
Os exemplos acima apresentam alguns dos possíveis contextos para o
apagamento do clítico de objeto direto na variedade paraguaia, que a diferencia da
variedade peninsular, como por exemplo, orações transitivas com referentes
[+definidos o determinados].
Como afirma Palacios (1998b):
En definitiva, estamos ante un caso de convergencia lingüística
de las estructuras morfosintácticas pronominales del guaraní y
del español y no ante un caso de calco sintáctico. El concepto de
convergencia de lenguas en contacto lo entiendo, siguiendo a
Gumperz y Wilson (1971) y matizado por Germán de
Granda(1994), como un conjunto de procesos paralelos que
52
desembocan en el desarrollo de estructuras gramaticales
comunes en las lenguas en contacto, lo que supone la eliminación
o ampliación de restricciones gramaticales de un fenómeno
lingüístico, la activación de un fenómeno que conlleva un
aumento de su frecuencia de uso o la adición o eliminación de
algún elemento de un paradigma lingüístico. (p. 140)
As conclusões de Palacios (1998a) são fundamentadas por conclusões de
Germán de Granda (1994 apud Palacios 1998a) El español paraguayo -continúaomite por lo general el pronombre personal objeto de cosa, en una estructura
claramente isomórfica respecto a la existente en guaraní". (p.327).
Os estudos, anteriormente mencionados, que abordam o fenômeno do
apagamento do clítico de objeto direto no espanhol paraguaio defendem a
transferência linguística, ou seja, o apagamento se deve ao fato do guarani – língua
em situação de contato com o espanhol – não ter uma partícula semelhante ao
clítico do espanhol e tal característica ser transferida ao espanhol. Além disso,
alguns estudos não analisam dados e outros estudos não explicitam o corpus
utilizado.
53
4.
Metodologia
A metodologia está baseada na associação da Teoria da Variação e Mudança
(WLH, 1968) com os pressupostos da GG (1986), amplamente difundida como
Sociolinguística Paramétrica ou Variação Paramétrica, em uma versão atualizada,
o Programa Minimalista (Chomsky, 1999) – que entre outras coisas apresenta uma
atualização da noção de parâmetro.
A análise oferecida pela variação paramétrica se ocupa do tratamento
estatístico de dados para que se possa sistematizar a variação/mudança
encontrada. Para isso, trabalha-se com variáveis estatísticas. São elas: as variáveis
dependentes e as variáveis independentes.
Variável é um conjunto de variantes que, por sua vez, são os diferentes
modos de realização de uma mesma forma linguística. Entendemos por variável
dependente duas ou mais possibilidades de realização de um fenômeno; no caso
do estudo do apagamento do clítico de objeto direto, temos uma variável binária,
pois ele pode ou não ocorrer. Já as variáveis independentes são constituídas de
grupos de fatores linguísticos ou extralinguísticos que podem influenciar o
comportamento da variável dependente. Ainda considerando o apagamento do
clítico de objeto direto, a variável independente Distância em relação à primeira menção
tem como grupo de fatores o número de retomadas de um objeto direto do corpus.
A variável dependente desta pesquisa é a retomada do objeto direto
anafórico, que possui seis variantes: Retomada por clítico, Retomada por SN
anafórico30, Outros – pronome lexical, pronome demonstrativo, pronome
indefinido – e Retomada por objeto direto anafórico nulo.
Como variáveis independentes, foram estabelecidos alguns grupos de
fatores que abarcam a natureza morfológica, sintática e semântica do fenômeno
em questão. Tais grupos foram adaptados de Soledade (2011), que criou seu grupo
(i) lexemas com núcleos idênticos ao do SN antecedente, com ou sem mudança de determinante; (ii)
expressões sinônimas ou quase sinônimas; (iii) nomes genéricos (coisa, trambolho, fato...)
30
54
de fatores de acordo com os estudos prévios sobre os clíticos do português do
Brasil. Seu objetivo era estudar a realização do objeto direto anafórico em peças de autores
brasileiros dos séculos XIX e XX. No presente estudo, o objetivo é estudar a realização
do objeto direto anafórico na variante paraguaia do espanhol em corpora oral e
escrito, como descrito anteriormente.
A versão adaptada do grupo de fatores utilizada nesta dissertação está
composta por treze (13) grupos de fatores linguísticos. São eles:
a) Forma do verbo;
a. Simples
b. Perífrases (Va+infinitivo, Va+gerúndio e Va+particípio)
c. Formas nominais
b) Tipo Verbal (Vendler, 1967);
a. Estado
b. Atividade
c. Processo culminado
d. Culminação
c) Transitividade verbal;
a. Transitivos
b. Bitransitivos
d) Tipo sintático da oração;
a. Raiz (matriz/simples/1ª em coordenação)
b. Completivas
c. Relativas
d. Adjuntas
e. Coordenadas (2ª coordenada)
e) Função do antecedente;
a. Objeto
55
b. Sujeito
c. Adjunto
d. Complemento nominal
e. Predicativo
f. Tópico estrutura/discurso
f) Posição do antecedente;
a. Argumental
b. Não argumental (tópico discursivo ou tópico estrutural)
g) Distância em relação à primeira menção;
a. 1ª referência (após a 1ª menção)
b. 2ª referência
c. 3ª referência
d. 4ª referência
e. 5ª referência ou posterior
h) Sujeito na oração que contém o ODA;
a. Sintagma nominal
b. Pronome pleno
c. Pronome nulo
i) Traço semântico do antecedente;
a. [+ animado]
b. [- animado]
c. [+ humano]
d. antecedente “sentencial” ou demonstrativo neutro
a. [- humano]
j) Referencialidade do antecedente;
a. [+específico/+referencial]
56
b. [-específico/+referencial]
c. SN´s indefinidos/genéricos
d. [-referencial] (oração)
k) Forma/especificidade do antecedente;
a. Nomes contáveis no plural com determinante
b. Nomes contáveis no plural sem determinante
c. Nomes contáveis no singular com determinante
d. Nomes contáveis no singular sem determinante
e. Nomes não contáveis com determinante
f. Nomes não contáveis sem determinante
l) Definitude;
a. [+definido]
b. [-definido]
m) Direção de cliticização;
a. Anteposto ao verbo
b. Posposto ao verbo
E por cinco (05) variáveis independentes extralinguísticas. São elas:
a) Sexo;
a. Feminino
b. Masculino
c. Não se aplica
b) Faixa etária;
a. Faixa I
b. Faixa II
c. Faixa III
57
c) Escolaridade;
a. Nível fundamental
b. Nível médio
c. Nível Superior
d) Tipo de teste;
a. reescrita
b. história das imagens
c. oral
d. julgamento de gramaticalidade
e) Identificação do informante.
Tais grupos totalizam dezenove (19) grupos de fatores a serem codificados
para a análise sociolinguística quantitativa do corpus.
Para a análise da variante paraguaia do espanhol, foi constituído um corpus
representativo da fala paraguaia. Para tanto, foram aplicados testes de
compreensão e produção escrita, além de dados coletados a partir de entrevista
oral. Nesta pesquisa, foram aplicados dois (02) tipos de testes: de compreensão e
de produção escrita – obtidos de maneira online e presencial.
Os testes online têm as mesmas configurações dos testes aplicados
presencialmente a fim de manter a homogeneidade da pesquisa. Os testes online
estão disponíveis no endereço https://sites.google.com/site/testeling/. Foi
empregada a tecnologia de formulários online, nos quais as respostas, os
resultados dos testes, são atualizados diretamente em uma tabela compatível com
o programa Excel da suíte Microsoft Office com a identificação do informante.
O teste de produção escrita foi adaptado de Sebold (2005), que tinha como
objetivo analisar as estratégias de retomada dos objetos diretos e indiretos de
falantes de PB aprendizes de ELE na produção oral. A adaptação consiste na
escolha da imagem utilizada. Para dar conta das variáveis extralinguísticas, os
58
informantes foram submetidos a um questionário sociocultural antes da
realização dos testes linguísticos.
O teste de compreensão consistia em dois (02) textos retirados da internet
com lacunas-alvo e distratoras para que o informante as completasse como
julgasse necessário. O teste de produção escrita contava com duas imagens de seis
quadros cada uma e o informante deveria escrever sobre a história que se
desenrolava nos quadros.
Os testes31 foram aplicados a 22 informantes universitários – 4 online e 18
presenciais32 –, falantes de espanhol, que nasceram e vivem em Assunção. Esta
região foi escolhida por estar afastada das fronteiras brasileiras e também por ser
a capital e, portanto, concentrar um maior número de indivíduos com diferentes
níveis de escolaridade e faixas etárias.
Em um estudo piloto feito previamente ao ingresso no mestrado, também
foi aplicado um teste de reescrita composto por dois fragmentos que os
informantes deveriam reescrever evitando as repetições, além de um teste de
produção escrita, que é idêntico ao aplicado durante o mestrado.
O corpus foi codificado de acordo com as hipóteses levantadas para pesquisa
e também pelo grupo de fatores previamente estabelecido. Posteriormente, a
codificação dos dados foi submetida ao programa computacional de análise
estatística multifatorial Goldvarb X (Sankoff, Tagliamonte e Smith, 2005) para que
se obtevesse uma análise quantitativa do corpus.
31
A amostra analisada neste trabalho foi a escrita, porque as mudanças quando chegam a atingir a escrita
já foram consolidadas na fala.
32
A distribuição irregular dos informantes nas modalidade online e presencial foi devida à falta de
informantes dentro do perfil estabelecido, as duas amostras foram contabilizadas juntas, pois seguiam os
mesmos parâmetros.
59
Figura 6 – Tela central e janela de especificação dos fatores do Goldvarb X
O programa Goldvarb X é uma atualização do pacote VARBRUL, que é uma
ferramenta metodológica utilizada na Sociolinguística Variacionista para cálculos
estatísticos auxiliares na análise de fenômenos linguísticos variáveis.
A partir da interpretação dos resultados levantados através da análise
estatística fornecida pelo Goldvarb e os dados obtidos, pretende-se verificar quais
traços diferenciam a variante paraguaia no que diz respeito ao apagamento do
clítico de objeto direto.
60
5.
Descrição e análise dos
dados
Nesta seção, serão apresentados os dados estatísticos, a interpretação e a
discussão dos resultados, a partir dos cruzamentos e peso relativo das variáveis
independentes estudadas.
Inicialmente, foi realizada uma rodada geral preliminar com os 19 grupos
(variáveis dependente e independentes) e após esta rodada foram descartadas
algumas variáveis independentes que não se mostraram relevantes, segundo a
visão da pesquisadora. Os grupos descartados foram: Forma verbal e
Forma/especificidade do antecedente. Também foram feitas amalgamações 33 de
fatores para que se pudesse obter no final o peso relativo das variáveis.
Obteve-se 45 ocorrências de objeto direto anafórico, na modalidade teste
online, distribuídas entre dois informantes, um do sexo masculino e outro do sexo
feminino, ambos de nível superior e faixa etária jovem.
5.1. Estratégias de retomada: rodada geral
Primeiramente, será visto o grupo denominado variável dependente, que é
composto por quatro estratégias possíveis na recuperação do objeto direto
anafórico, são elas: por clítico, por sintagma nominal (SN), por apagamento e por
outros pronomes (pronomes indefinido, lexical e demonstrativo). A estratégia de
retomada prevista para o espanhol é a retomada por clítico, mas não é a única. Sua
omissão é reconhecida quando o referente pode ser recuperado pelo contexto. A
seguir, veremos o gráfico 1 e a tabela 7 com a distribuição geral do ODA no
espanhol do Paraguai.
33
Junção de fatores a fim de eliminar Knockout gerados nas rodadas.
61
Distribuição geral das realizações do ODA no
espanhol do Paraguai
Outros pronomes
7%
Clítico
42%
Apagamento
27%
SN
24%
Gráfico 1 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio
Como se pode observar no gráfico, a retomada pelo clítico, apesar de ocupar
a 1ª posição com 42% de preferência, indica uma variação na predileção e
distribuição das estratégias de retomada no espanhol paraguaio, pois as outras
estratégias – SN, Apagamento e outros pronomes – somadas ultrapassam o
percentual de ocorrências de retomadas por clíticos. A 2ª posição é ocupada pela
estratégia do apagamento com um percentual de aproximadamente 27% das
ocorrências, seguida pela estratégia de retomada por SN que tem o percentual de
aproximadamente 24%. E por último, a estratégia de retomada por pronomes
outros – lexical, demonstrativo e indefinido – que obteve percentual de
aproximadamente 7%.
Observando os resultados preliminares da distribuição das estratégias de
retomada do objeto direto no espanhol paraguaio, nota-se uma configuração
diferenciada da língua se comparada a outras variedades como o espanhol
peninsular ou mesmo o espanhol peruano, o qual também se encontra em uma
situação de contato linguístico com uma língua indígena, mas tem uma
distribuição das estratégias de retomada diferente do espanhol paraguaio.
62
Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
Outros
42.2%
24.4%
26.7%
6.7%
(19/45)
(11/45)
(12/45)
(3/45)
Tabela 7 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio
Após observar os dados obtidos sobre a distribuição das estratégias do
ODA, podemos chegar a algumas conclusões: a língua espanhola no Paraguai
apresenta possibilidades de retomada por clítico, permitindo inclusive a retomada
por SN, não prevista, e um alto número de retomadas com apagamento do clítico.
Tal evidência pode sugerir que essa disponibilidade aproxima essa variedade de
outras do espanhol (peruana, guatemalteca) assim como do português do Brasil.
já que duas estratégias, não previstas ou previstas com limitações, somadas
ultrapassam 50% das ocorrências verificadas no corpus. Apresentam-se, a seguir,
exemplos das estratégias de retomadas encontradas.
Retomada por clítico
a) Todo el equipo estaba de acuerdo. Os dijeron que había un problema y que había que
resolverlo.
O sintagma un problema foi retomado pela estratégia de retomada por clítico,
neste caso, não fez uso do leísmo.
63
Retomada por SN
b) Así que les recomiendo: ¡cuenten sus historias y divulguen sus historias!”
O sintagma sus historias foi retomado por repetição do mesmo SN.
Retomada pela categoria vazia
c) Federico la llevo a cenar y se olvidaron de unas rosas que Federico llevó a
princesa... ella emocionada [ø] dejó sobre el banco.
O sintagma unas rosas não foi retomado, ou seja, foi utilizada a categoria
vazia.
Retomada por outros pronomes
a) Les cuento mi experiencia porque creo que es una manera de mostrarles que no todo
en internet está mal y que no todos mienten y les digo esto porque, además de mi
historia, sé que hay muchas otras que también resultaron (o resultarán) en grandes
amistades o casamientos.
A oração foi retomada por um pronome demonstrativo.
5.2. Rodada específica: estratégias de retomada
Para poder obter o peso relativo de cada fator analisado, é necessário não
haver na rodada gerada pelo Goldvarb X nenhum single group34 ou knockout35. A fim
34
Single Group é a ocorrência de grupo simples, ou seja, um grupo de variáveis que não apresentou pelo
menos um valor binário na análise.
35
Knockout é quando ocorre zero em alguma das variantes analisadas.
64
de eliminar esses problemas, a estratégia “outros” foi retirada na rodada posterior
e assim foram obtidos os seguintes valores:
Estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio
Tipo de
Estratégia
Percentual
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
45.2%
26.2%
28.6%
(19/42)
(11/42)
(12/42)
Tabela 8 – Distribuição das estratégias de retomada do objeto direto no espanhol
paraguaio
Nesta nova configuração, ternária, de variantes possíveis no espanhol do
Paraguai, a variável esperada como mais produtiva, a retomada por clítico, é
superada em aproximadamente 55% das ocorrências (embora continue ocupando
a 1ª posição), seguida da estratégia de retomada por apagamento, que tem um
percentual de 28,6%, muito próximo da estratégia de retomada por SN que
apresenta um percentual de 26.2% – mais da metade de ocorrências de retomada
por clítico e somente 2.4 pontos percentuais abaixo da 2ª estratégia mais utilizada,
o apagamento.
5.3. Tipo Verbal
Esta variável dependente verifica o tipo verbal encontrado nas orações em
que ocorrem as retomadas do objeto direto. O grupo de fatores é composto pelas
categorias propostas pela a classificação de Vendler (1967). Vendler propõe quatro
categorias de verbos:
1. Atividades (activities): aqueles que denotam eventos que ocorrem durante
um tempo sem, entretanto, precisar terminar num ponto determinado.
65
Ex361: A mãe cozinhará à noite
2. Processos culminados (accomplishments): aqueles que denotam processos
nos quais existe um ponto final lógico.
Ex2: A mãe cozinhará um suflê à noite.
3. Culminações (achievements): aqueles que denotam eventos que ocorrem em
um único momento no tempo.
Ex3: O cachorro morreu.
4. Estados (states): aqueles que denotam não ações que não se desenvolvem no
tempo.
Ex4: Minha mãe sabe cozinhar
Tipo Verbal
Culminação
17%
Estado
7%
Atividade
21%
Processo
Culminado
55%
Gráfico 2 – Distribuição dos tipos verbais na oração que contém o ODA
O Tipo Verbal com maior frequência na amostra foi o tipo verbal processo
culminado com 54.8% (23/42) das ocorrências. Os tipos verbais atividade,
culminação e estado tiveram, respectivamente, as seguintes frequências: 21.4%
(9/42), 16.7% (7/42) e 7.1% (3/42).
36
Os exemplos que ilustram a classificação do tipo verbal de Vendler (1967) foram retirados de Sebold
(2009).
66
Tipo verbal x Estratégia de retomada
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
100%
-
-
33.3%
33.3%
33.3%
(3/9)
(3/9)
(3/9)
Processo
56.5%
17.4%
26.1%
culminado
(13/23)
(4/23)
(6/23)
42.9%
57.1%
0%
(3/7)
(4/7)
(0/7)
Estado
Atividade
Culminação
(3/3)
Tabela 9 – Distribuição dos tipos verbais na oração que contém o ODA
Com o tipo verbal processo ocorrem as três estratégias de retomada, sendo
favorecedor da estratégia de retomada por clítico, isto é, 56.5% (13/23) das
ocorrências, que representa mais que o dobro da segunda estratégia favorecida,
apagamento, com 26.1%(6/23) das ocorrências. A estratégia de retomada por SN
ocorreu em 17.4% (4/23) dos casos na amostra.
Já o tipo verbal atividade favoreceu igualmente todas as estratégias, teve
uma frequência de 33.3% (3/9) em cada estratégia e foi o segundo tipo verbal mais
utilizado. Devido à frequência das ocorrências apresentadas, pode-se dizer que o
tipo verbal atividade é neutro, pois não favoreceu e nem desfavoreceu nenhuma
das três estratégias de retomada, seja por clítico, SN ou apagamento.
Os verbos de culminação desfavoreceram a estratégia de retomada por
apagamento, não havendo nenhuma ocorrência com este tipo de verbo. A
estratégia favorecida foi a de retomada por SN, 57.1% (4/7). Já a retomada por
clítico ocorre em 42.9% (3/7) das orações com o tipo verbal culminação.
O tipo verbal menos usado foi o de estado, 7.1% (3/42), que só ocorreu em
orações cuja estratégia de retomada foi a do apagamento.
Os resultados obtidos no grupo de fatores tipo verbal refutam a hipótese de
67
que a as estratégias de retomadas apresentadas pela variedade paraguaia do
espanhol estejam ligadas ao tipo verbal da oração.
Como pode ser visto no exemplo:
Sin poder alcanzar[ø - el sombrero], puesto que la tormenta cada vez más se está haciendo
más dura...
Neste exemplo, a estratégia selecionada foi a retomada por apagamento,
que ocorreu com o tipo verbal processo culminado.
Há uma distribuição satisfatória das estratégias entre os tipos verbais. Essa
pode ser mais uma evidencia de que as restrições não são sintáticas, conforme
indica Palacios (1998b), mas sim restrições derivadas de traços morfológicos.
68
5.4. Sujeito na oração que contém ODA
Esta variável dependente verifica o tipo de realização do sujeito na oração
que contém o objeto direto anafórico (ODA), composto pelos seguintes fatores:
SN, pronome pleno e pronome nulo.
Só foram encontrados resultados para os fatores SN e pronome nulo. Era
esperado que não houvesse ocorrência de pronome pleno já que o espanhol é uma
língua de não preenchimento da posição de sujeito por pronome.
Realização do sujeito
SN
26%
Não preenchido
74%
Gráfico 3 – Distribuição das realizações do sujeito na oração que contém o ODA
Sujeito na oração que contém o ODA
Tipo de
Realização
SN
Não
preenchido
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
18.2%
36.4%
45.5%
26.3%
(2/42)
(4/42)
(5/42)
(11/42)
54.8%
22.6%
22.6%
73.8%
(17/42)
(7/42)
(7/42)
(31/42)
Tabela 10 – Distribuição das realizações do sujeito na oração que contém o ODA
69
O tipo de realização preferencial na amostra foi o não preenchimento da
posição de sujeito por um pronome com 73.8% das ocorrências. Tendo sido
encontrado o mesmo número de ocorrências, 22.6% (7/42) nos dois diferentes
tipos de estratégia que concorrem com o clítico (apagamento e SN). Somadas estas
ocorrências, encontramos um valor abaixo dos 50%, mas bem próximo e que não
deve ser ignorado, pois evidencia uma possível mudança na reorganização dos
parâmetros da gramática interna na variedade paraguaia da língua espanhola
(45.8% das ocorrências).
A variável não esperada, neste caso, o preenchimento da posição de sujeito
por um SN com – 11/42 ocorrências – 26.3% foi o tipo de realização preferencial
nas ocorrências em que se selecionava a estratégia de apagamento (45.5%),
seguido pela estratégia de retomada por SN (36.4%) e por último a estratégia de
retomada por clíticos com 18.2% – 02/42 ocorrências – das ocorrências da variável
por tipo de realização de sujeito por SN.
Observe-se o seguinte fragmento:
"[Lo] conocí a mi marido en la internet. Cuando hablamos por primera vez él me dijo que
estaba solo y que buscaba una persona con quien tener compromisos serios. Siempre cuando
chateábamos me decía que estaba interesado en una persona para formalizar algo, aunque él me
dijera que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo[ø] mil veces.
Ao analisar o fragmento acima, onde se encontram as retomadas por
apagamento, evidenciamos o sujeito nulo. O padrão apresentado na variante
paraguaia se assemelha ao padrão apresentado no PB, já que os fatores são
inversamente proporcionais. Ou seja, quanto maior a retomada por clítico, maior
também é a ocorrência de não preenchimento do sujeito; assim como quanto maior
a ocorrência de sujeito preenchido por SN, duas ocorrências de sujeitos
preenchido, destacado no exemplo, maior é a ocorrência de retomadas pelo
apagamento.
Outra particularidade encontrada na variante paraguaia foram as
retomadas por SN’s, que dentro deste grupo tiveram comportamento semelhante
às retomadas por apagamento. Foram encontradas ocorrências de retomadas por
SN em orações cujo sujeito fosse não preenchido.
70
Tarallo (1993), em análise de um corpus diacrônico, assinala a preferência
por sujeitos plenos e objetos nulos como característica da gramática do PB em
oposição à gramática do PE, que demonstra preferência pelos sujeitos nulos e
objetos diretos lexicalizados.
Partindo das conclusões assinaladas por Tarallo (1993), pode-se dizer que
as características da variedade paraguaia são diferentes em relação às
características da variedade peninsular, por exemplo, assemelhando-se às
características do PB. Embora não realize as estratégias de retomada com o sujeito
preenchido por um pronome, característica que mantém semelhança com a
variante peninsular do espanhol, a diferença entre as variedades do espanhol
reside na frequência das ocorrências. Isto é, o traço de clítico [+morfológico] está
disponível tanto para o português brasileiro, quanto para o espanhol paraguaio. Já
o traço [+sintático] está disponível para o português europeu e o espanhol
peninsular. O fato de ter o traço de clítico [+morfológico], implica em ter também
o traço [-sintático], que estão distribuídos em oposição.
Segundo Galves (1998), as duas gramáticas (PB e PE) aceitam tanto o
sujeito nulo, quanto o objeto nulo, entretanto a frequência com que ambos
ocorrem nas duas variedades difere consideravelmente. Deste modo, a análise
deste fator pode revelar uma relação entre esses dois fatos linguísticos
pertencentes a parâmetros diferentes da língua.
71
5.5. Distância do antecedente
Esta variável dependente verifica a hipótese já atestada para o PB por
Duarte (1986) de que quanto maior a distância do referente, maior seria a
probabilidade de ocorrer a estratégia de retomada por apagamento. Foram
contabilizadas até a 6 ª menção (5ª menção após o referente), pois dada a dimensão
das amostras e no tipo de teste aplicado, não seria possível realizar muitas
retomadas.
5ª menção
3%
4ª menção
12%
Distância
6ª menção
2%
3ª menção
19%
2ª menção
64%
Gráfico 4 – Distribuição das retomadas de acordo com a distância do antecedente
A distância com maior frequência na amostra foi a retomada após a 1ª
menção com 64.3% (27/42) das ocorrências. As 2ª menção, 3ª menção, 4ª menção
e 5ª menção tiveram, respectivamente, as seguintes frequências: 19% (8/42), 11.9%
(5/42), 2.4% (1/42) e 2.4% (1/42), como é possível visualizar na tabela apresentada
a seguir:
72
Distribuição das retomadas de acordo com a distância do
antecedente
Distância
1ª menção
2ª
menção
3ª
menção
4ª
menção
5ª
menção
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
40.7%
22.2%
37%
64.3%
(11/42)
(6/42)
(10/42)
(27/42)
50%
37.5%
12.5%
19%
(4/42)
(3/42)
(1/42)
(8/42)
60%
20%
20%
11.9%
(3/42)
(1/42)
(1/42)
(5/42)
0%
100%
0%
2.4%
(0/42)
(1/42)
(0/42)
(1/42)
100%
0%
0%
2.4%
(1/42)
(0/42)
(0/42)
(1/42)
Tabela 11 – Distribuição das retomadas de acordo com a distância do antecedente
Na 1ª menção, ocorreram as três estratégias de retomada - retomada por
clítico, retomada por SN e retomada por apagamento - sendo favorecedor da
estratégia de retomada por clítico, 40.7% (11/42) das ocorrências, que é bem
próxima à segunda estratégia favorecida, apagamento, com 37%(10/42) das
ocorrências. A estratégia de retomada por SN ocorreu em 22.2% (6/42) dos casos
na amostra.
Na 2ª menção, também ocorreram as três estratégias de retomada, sendo
favorecedor da estratégia de retomada por clítico, 50% (4/42) das ocorrências,
seguida pela segunda estratégia favorecida, SN, com 37.5%(3/42) das ocorrências.
A estratégia de retomada por apagamento ocorreu em 12.5% (1/42) dos casos na
amostra.
Na 3ª menção, também ocorreram as três estratégias de retomada, sendo
favorecedor da estratégia de retomada por clítico, 60% (3/42) das ocorrências,
seguida por empate das estratégias de retomada por clítico e SN, as duas com 20
% (1/42) cada uma delas.
73
As 4ª e 5ª menções só ocorreram com um estratégia, respectivamente,
retomada por SN e retomada por clítico 100%(1/42).
Um fato relevante para análise é o tipo de corpus utilizado na pesquisa, nesta
dissertação, mais especificamente, o teste de produção a partir das imagens. Este
teste não favoreceu uma retomada exaustiva do referente e, por isso, não se pode
refutar totalmente a hipótese da distância, segundo a qual só ocorreriam
estratégias de retomada diferentes do pronome clítico após a 1 a menção do
antecedente.
Os resultados obtidos apontam para a interpretação segundo a quanto
maior for a distância do antecedente, maior a probabilidade da eleição das
estratégias de retomada por objeto nulo ou sintagma nominal. Contudo foram
encontradas retomadas por objeto nulo já na 1a menção após o referente, sendo esta
a menção com maior ocorrência desta estratégia de retomada. A estratégia de
retomada por objeto nulo também foi encontrada nas 2a e 3a menções, mas não foi
encontrada na 4a e 5a menção após o referente.
Há ocorrências da estratégia de retomadas por clítico em quase todas as
menções após o referente, menos na 4a menção. Tais ocorrências evidenciam que
o clítico na variedade paraguaia no espanhol continua presente tanto na
modalidade escrita, quanto na modalidade falada, mas á não é a única estratégia de
retomada utilizada.
"[Lo] conocí a mi marido en la internet. Cuando hablamos por primera vez él me dijo que
estaba solo y que buscaba una persona con quien tener compromisos serios. Siempre cuando
chateábamos me decía que estaba interesado en una persona para formalizar algo, aunque el me
dijera que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo[ø] mil veces. les
cuento mi experiencia porque creo es una manera de mostrarles que no todo en internet esta mal
y que no todos mienten y les digo que además de mi historia se que hay muchas otras que también
resultaron en grandes amistades o casamientos. así que les recomiendo: cuenten sus historias y
divúlguenlas
O trecho acima é parte do teste de reescrita e evidencia as poucas retomadas
possibilitadas pelo teste e mostra a 1ª menção depois do referente tanto retomada
por clítico quanto por apagamento.
74
5.6. Traço semântico do antecedente
O controle da variável dependente traço semântico do antecedente teve por
objetivo verificar a animacidade do referente, a fim de mapear com quais traços de
animacidade ocorrem as estratégias de retomada por clítico, retomada por SN e
retomada por apagamento.
Traço semântico do antecedente
Sentencial
31%
[-animado]
55%
[+humano]
14%
Gráfico 5 – Distribuição das retomadas de acordo com o traço de animacidade
O fator [-animado], cujo grupo engloba referentes não humanos e não vivos,
foi de 55% (23/42) das ocorrências. Seguido do fator sentencial ou demonstrativo
neutro com 31% (13/42) das ocorrências, embora este fator não tenha sido o
preferencial, favoreceu a ocorrência das três estratégias de retomadas por clítico,
SN e apagamento.
O fator [+humano] que não é correspondente ao clítico de 3ª pessoa, e sim
de 1ª pessoa, só foi categorizado pois apresentou apagamento e se tornou
interessante para a pesquisa. Tal fator corrobora a ideia de que o apagamento de
clíticos na variedade paraguaia do espanhol está disponível não somente para
contextos não licenciados no espanhol peninsular, mas também para clíticos de 1ª
pessoa que não são licenciados.
75
Distribuição das retomadas de acordo com o traço de animacidade
Animacidade
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
16.7%
0%
85.3%
14.3%
(1/42)
(0/42)
(5/42)
(6/42)
ou
30.8%
15.4%
53.8%
31%
demosntrativo
(4/42)
(2/42)
(7/42)
(13/42)
60.9%
39.1%
0%
54.8%
(14/42)
(9/42)
(0/42)
(23/42)
[+humano]37
Sentencial
neutro
[-animado]
Tabela 12 – Distribuição das retomadas de acordo com o
traço semântico de animacidade
No fator [-animado], a estratégia preferencial de retomada do objeto
acusativo foi a retomada por apagamento com 53.8% (7/42). Seguida pela
estratégia de retomada por clítico com 30.8% (4/42). E por fim a pela estratégia de
retomada por SN com 15.4% (2/42).
No fator [-animado], só ocorreram 2 estratégias de retomada: por clítico e
por SN, sendo a retomada por clítico a preferencial com 60.9%(14/42) e a retomada
por SN com 39.1%(9/42).
Os resultados obtidos apresentam uma predileção pelo fator sentencial ou
demonstrativo neutro para a ocorrência da estratégia de retomada por
apagamento. Como podemos ver no exemplo:
(…)que mil veces que buscaba alguien para tener compromisos repitiendo [ø] mil
veces.(…).
O referente humano em questão é um clítico de 1ª pessoa, sujeito, só foi contabilizado pois resultou
interessante, já que só houve uma retomada por clítico, contra 5 retomadas por apagamento. É referente ao
exemplo "[ø] conocí a mi marido en la internet.”
37
76
Já a estratégia de retomada por clítico ocorreu com todos os fatores, como
era esperado, pois a estratégia de retomada por clítico é tida como preferencial pela
norma padrão.
Como podemos ver no exemplo:
(...)cuenten sus historias y divulguenlas.
5.7. Referência do antecedente
Esta variável dependente junto com anterior compõe os fatores semânticos
necessários para identificar o tipo do antecedente. Pois a partir da
composicionalidade destes traços – animacidade e referencialidade – pode se
verificar se de fato não há restrições semânticas para a ocorrência da estratégia de
retomada por apagamento.
Referencialidade do antecedente
[-referencial]
29%
SN´s indefinidos/
genéricos
2%
[+específico/
+referencial]
40%
[-específico/
+referencial]
29%
Gráfico 6 – Distribuição das retomadas de acordo com a referencialidade
Foram
estabelecidos
4
fatores
para
esta
variável,
são
eles:
[+específico/+referencial], [-referencial] (oração), [-específico/+referencial] e SN’s
indefinidos/genéricos.
77
O fator com maior ocorrência foi o [+específico/+referencial] com 40.5%
(17/42). Seguido dos fatores [-referencial] (oração) e [-específico/+referencial]
com respectivamente 28.6% (12/42) das ocorrências, mas com distribuição interna
diferente. Por último o fator SN’s indefinidos/genéricos.
Distribuição das retomadas de acordo com a referencialidade
Clítico
Referencialidade
Sintagma
Nominal
Apagamento
35.3%
35.3%
29.4%
40.5%
(6/42)
(6/42)
(5/42)
(17/42)
33.3%
16.7%
50%
28.6%
(4/42)
(2/42)
(6/42)
(12/42)
75%
25%
0%
28.6%
(9/42)
(3/42)
(0/42)
(12/42)
SN´s
0%
0%
100%
2.4%
indefinidos/genéricos
(0/42)
(0/42)
(1/42)
(1/42)
[+específico/+referencial]
[-referencial] (oração)
[-específico/+referencial]
Tabela 13 – Distribuição das retomadas de acordo com o
traço semântico de animacidade
A distribuição das estratégias de retomadas pelos fatores foi a seguinte:
Com o fator de maior ocorrência, [+específico/+referencial], a estratégia de
retomada preferencial foi a retomada por clítico e SN com 35.3% (6/42) e com
diferença de menos de 10 pontos percentuais, a estratégia de retomada por
apagamento com ocorrência de 29.4%(5/42).
O fator [-referencial] (oração), favoreceu a retomada por apagamento com
50 % (6/42) das ocorrências, a segunda estratégia favorecida foi a retomada por
clítico com 33.3%(4/42) e por último a estratégia de retomada por SN com 16.7%
(2/42) das ocorrências. O 3º fator mais relevante foi o [-específico/+referencial], no
qual só houve retomadas por clítico e por SN, sendo a retomada por clítico a favorecida
com 75%(9/42) das ocorrências, contra 25% (3/42) das ocorrências de retomada por SN.
78
Só houve uma ocorrência com o fator SN’s indefinidos/genéricos e foi com a
estratégia de retomada por apagamento.
Exemplos:
Retomada por Clítico
(…)cuenten sus historias y divúlguenlas . (…) ([+específico/+referencial])
Retomada por SN
Finalmente, consegue el sombrero empapado(...)([+específico/+referencial])
Os resultados obtidos na variante traço semântico de animacidade vão de
encontro à escala de referencialidade proposta para o PB, já que os resultados
apresentam uma escala de referencialidade oposta à apresentada e defendida por
Duarte, Kato, Cyrino e Berlinck (2006). Sendo assim, pode-se assumir que as
línguas estão num contínuo e neste caso, o Espanhol peninsular e o português
europeu estão do lado mais conservador, o espanhol paraguaio e peruano estariam
no meio do processo, já o PB no lado mais inovador.
Apresenta-se abaixo a representação da escala de referencialidade:
Não-argumento
[- específico]
[-referencial]
Proposição
[-humano]
[+humano]
[+ específico]
[+referencial]
Figura 7 – Escala de referencialidade de Kato, Duarte, Cyrino & Berlinck, (2006)
O estudo, da escala de referencialidade, propõe, a partir dessa
generalização, a seguinte hipótese, hipótese do mapeamento implicacionalque
propõe que:
79
a. quanto mais referencial, maior a possibilidade de um pronome não-nulo.
b. uma variante nula em um ponto específico da escala implica uma variante
nula à sua esquerda, na hierarquia referencial.
80
5.8. Posição do antecedente
A variável dependente posição do antecedente teve como hipótese que
quando o fator for argumental haverá maior frequência da estratégia de retomada
por clítico
Posição do antecedente
Não argumental
29%
Argumental
71%
Gráfico 7 – Posição argumental na oração que contém o ODA
Só há dois fatores neste grupo, argumental e não argumental. A posição com
maior frequência, 71% das ocorrências foi a posição argumental, contra 29% das
ocorrências da posição não –argumental.
Posição argumental na oração que contém o ODA
Tipo de
Realização
Clítico
Sintagma
Nominal
Apagamento
Não
16.7%
16.7%
66.7%
28.6%
argumental
(2/42)
(2/42)
(8/42)
(12/42)
56.7%
30%
13.3%
71.4%
(17/42)
(9/42)
(4/42)
(30/42)
Argumental
Tabela 14 – Posição argumental na oração que contém o ODA
81
Todos os fatores proporcionaram todas as estratégias de retomada. Sendo a
posição argumental favorecedora da retomada por clítico com 56.7% (17/42) das
ocorrências, seguida da retomada por SN com 30% (9/42) das ocorrências e por
último a estratégia de retomada por apagamento com 13.33% (4/42) das
ocorrências. Na posição não–argumental, a estratégia favorecida foi a de retomada
por apagamento com 66.7% (8/42) das ocorrências, seguida igualmente pelas
estratégias de retomada por clítico e por SN 16.7%(2/42) das ocorrências
respectivamente.
Os resultados obtidos indicam que a posição não habitual, isto é, favorece
à estratégia de retomada por apagamento, devido ao fato de não ser a posição
original, bem como o enfraquecimento dos traços de concordância, a posição nãoargumental acaba por favorecer a retomada por apagamento. A retomada por SN
apresenta-se como uma estratégia intermediária, aparece nas duas possíveis
posições, argumental e não-argumental, mas com uma ocorrência não muito
expressiva.
Abaixo pode se ver exemplos das retomadas nas diferentes posições do
antecedente:
Retomada por Clítico
El hombre corre para alcanzarlo, pero no lo consigue. (argumental)
Retomada por SN
(...) Finalmente, consigue el sombrero empapado(...) (argumental)
El se incorpora y saluda a la mujer, entregándole el ramo que había traído, y luego se
sientan juntos en el banco. (não-argumental)
82
6. Considerações finais
Este estudo teve como objetivo levantar as condições sintáticas dos
contextos
de
omissão
do
objeto
direto
no
espanhol
paraguaio
e
descrever/explicitar a natureza do objeto direto pronominal no EPA a fim de
tentar depreender a natureza do pronome que é apagado com base no modelo
teórico da gramática gerativa.
Para isso foi necessário levantar algumas hipóteses, que ao início foram
propostas para o PB, pois não havia hipóteses sintáticas, morfológicas ou
semânticas disponíveis para as diferentes estratégias de retomada do objeto direto
na variedade paraguaia. Os estudos anteriores, detinham-se somente no substrato
guarani como causa única para a estratégia de retomada por apagamento, por
exemplo.
Depois do levantamento das hipóteses e formado o grupo de fatores para a
análise, foi possível testar algumas hipóteses como a hipótese da distância do
antecedente, a hipótese de referencialidade do antecedente, a animacidade do
antecedente, a oração na qual o antecedente estava incluído, o tipo verbal, a
definitude e o sujeito da oração.
Partindo destas hipóteses foi possível responder às perguntas norteadoras
do estudo que foram: qual o status gramatical do clítico na variante paraguaia da
língua espanhola? qual a possibilidade do apagamento do clítico de acusativo está
ligado às propriedades da sentença? A explicação para a seleção de tal estratégia
podia ser a natureza [+morfológica] e [-sintática] do clítico de acusativo na
variedade paraguaia do espanhol que pode apontar a causa interna à língua para o
comportamento diferenciado das estratégias de retomada na variedade paraguaia
do espanhol.
Antes as diferentes estratégias de retomadas eram atribuídas somente os
substrato linguístico do guarani. Pois o Paraguai vivencia uma situação de contato
83
linguístico com a língua guarani, cuja situação de contato linguístico é bem
peculiar, pois a língua guarani tem status de co-oficial, ao contrário das outras
línguas indígenas em situação de contato com o espanhol na América Latina que
são relegadas ao segundo plano.
Após observar os dados obtidos sobre a distribuição das estratégias do
ODA se pode chegar a algumas conclusões: A língua espanhola no Paraguai
apresenta uma possibilidade multivariada de retomada, permitindo a retomada
por SN, não prevista, e um alto número de retomadas com apagamento do clítico.
Sugerindo que a língua esteja num continuum do processo de mudança, já que duas
estratégias, não prevista ou prevista com limitações, somadas ultrapassam 50%
das ocorrências verificadas no corpus.
Partindo das conclusões assinaladas por Tarallo (1993), pode se dizer que
as características da variante paraguaia são diferentes em relação às características
da variedade peninsular, por exemplo, assemelhando-se às características do PB.
Embora não apareçam as estratégias de retomada com o sujeito preenchido por um
pronome (característica que mantém semelhança com a variedade peninsular do
espanhol), a diferença entre as variedades do espanhol reside na frequência das
ocorrências.
O comportamento diferente do esperado para a língua espanhola na
variedade do Paraguai com a refutação das hipóteses tipo de estratégia, distância
do antecedente, por exemplo, ajuda a corroborar a ideia do universalismo
linguístico e assumir que as línguas estão em um contínuo e, neste caso, evolutivo.
O Espanhol peninsular e o português europeu estão do lado mais conservador, o
espanhol paraguaio e peruano estariam no meio do processo, já o PB, no lado mais
inovador. Pois admitem estratégias de retomada por apagamento, assim como
retomada por SN.
Cabe salientar que a amostra analisada não era tão extensa, mas confirma e
vai ao encontro dos trabalhos anteriores sobre a variedade do espanhol do
Paraguai. A forma de análise empregada permitiu ver e descrever alguns
comportamentos da variedade linguística em questão que antes não haviam sido
tratados.
84
Uma das conclusões que se pode chegar a respeito da configuração da
variedade paraguaia do espanhol é o preenchimento da posição de sujeito, mesmo
não sendo o foco do estudo foram dados levantados que chamaram a atenção, pois
ajuda na descrição desta variedade linguística, que apresenta características bem
particulares.
Outra conclusão importante a que se pode chegar neste estudo foi a
natureza do clítico da variedade do espanhol paraguaio, que tem traço
[+morfológico] e [-sintático]. Sendo assim na interface morfossemântica
possibilita o apagamento do clítico na retomada do objeto direto, pois devido ao
enfraquecimento da concordância o clítico interpretado como um morfema pode
ser apagado, já que outras marcas na oração, na qual está incluído, já oferecem a
interpretação necessária.
Partindo desta assunção pode se dizer que a variedade do espanhol
paraguaio está mais próxima do português brasileiro com a qual compartilha
traços linguísticos e se diferencia da variedade peninsular do espanhol e do
português europeu. Fato que vai ao encontro da teoria dos universais linguísticos,
segundo a qual as línguas são mais parecidas que diferentes.
Espera-se com este estudo contribuir para a descrição linguística da
variedade espanhola do Paraguai apresentando o estado atual do fenômeno
linguístico das diferentes estratégias de retomada do objeto direto, através da
análise da variação e descrição dos contextos de ocorrência de omissão do objeto
direto na variedade espanhola do Paraguai.
85
7. Referências Bibliográficas
ALEZA IZQUIERDO, Milagros y ENGUITA UTRILLA, José María (coords.): La
lengua española en América: normas y usos actuales, Universitat de València, Valencia,
2010. Con la colaboración de Marta ALBELDA MARCO, Antonio BRIZ GÓMEZ,
Miguel CALDERÓN CAMPOS, Eduardo ESPAÑA PALOP, Alejandro FAJARDO
AGUIRRE, Félix FERNÁNDEZ DE CASTRO, David GIMÉNEZ FOLQUÉS,
Rosario NAVARRO GALA y Antonio TORRES TORRES. ISBN: 978-84-6940302-0. En línea: <http://www.uv.es/aleza>.
APPEL, René.; MUYSKEN, Pieter. Bilinguismo y Contacto de Lenguas. Barcelona:Ariel,
1996
CARAVEDO, Rocío, Pronombres objeto en el español andino. Anuario de Lingüística
Hispánica XII–XIII (1996-97), pp. 545–567
______________, Rocío: “Espacio geográfico y modalidades lingüísticas en el español
del Perú”. En HERNÁNDEZ ALONSO, C. (ed.): Historia y presente del español de
América. Valladolid: Junta de Castilla y León, Pabecal, 1992, pp. 719–741.
CERRÓN-PALOMINO, Rodolfo. Castellano andino. Lima: Fondo Editorial de la
Pontifica Universidad Católica del Perú, 2003
CYRINO, S. M. L. O objeto nulo no Português do Brasil: um estudo sintático-diacrônico.
Tese de Doutorado, UNICAMP, 1994.
CHOI, Jinny K. [-Person] direct object drop: the genetic cause of a syntactic feature in
Paraguayan Spanish. Hispania 83, pp.531-43, 2000.
______________, Jinny K. Languages in contact: a morphosyntactic analysis of Paraguayan
Spanish from a historical and sociolinguistic perspective. Washington, D.C.: Georgetown
University dissertation, 1998.
CHOMSKY, N. El Programa Minimalista. Madrid: Alianza Editorial, 1999 (1995).
CORRÊA, L. M. S. (2006) Conciliando processamento lingüístico e teoria de
língua no estudo da aquisição da linguagem: habilidades discriminatórias de
bebês, categorias funcionais e a disponibilidade de um sistema computacional
lingüístico. In : Corrêa, L.M.S. (org.). Aquisição da Linguagem e Problemas do
Desenvolvimento Lingüístico. Rio de Janeiro: Editora da PUC-RJ, p. 21-78.
86
DUARTE, M. E. L. Clítico acusativo, pronome lexical e categoria vazia no
português do Brasil. In: TARALLO, F. (org.). Fotografias sociolinguísticas. Campinas:
UNICAMP/Pontes, p. 19 – 33, 1989.
ESCOBAR, Ana María. Contacto social y lingüístico. El español en contacto con el Quechua
en el Perú. [Lima:] Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Católica del Perú,
2000.
GALVES, C. C. Ensaios sobre as gramáticas do português. Campinas: UNICAMP, 2001.
HARRIS, Alice C. Cross-Linguistic Perspectives on Syntact Change. In: Joseph,
Brian & Janda, Richard D. (eds.) The Handbook of Historical Linguistics. Oxford:
Blackwell, pp. 529-551, 2006.
Kato, M.; S. Duarte, M.E.; Cyrino, S. & Berlinck, R. (2006) “Português brasileiro
no fim do século XIX e na virada do milênio” In Suzana Cardoso, Jacyra Mota e
Rosa Virgínia Matto e Silva (orgs.) Quinhentos anos de história lingüística no
Brasil. Salvador, Empresa Gráfica da Bahia/Funcultura/Governo da Bahia. Pp. 413438. ISBN: 85-232-0260-9
KROCH, Anthony. Syntactic Change. In: Baltin, Mark and Collins, Chris (eds).
The Handbook of Contemporary Syntactic Theory. Blackwell, 2001.
LABOV, Willian. Principles of Linguistic Change Internal Factors. Oxford: Blackwell,
pp. 1-111 (cap. 1-4), 1994.
LICERAS, J. M. La adquisición de las lenguas segundas y la gramática universal. Madrid:
Síntesis, 1996.
LIGHTFOOT, David. Grammatical Approaches to Syntatic Change. In: Joseph,
Brian & Janda, Richard D. (eds.) The Handbook of Historical Linguistics. Oxford:
Blackwell, pp. 493-508, 2006.
______________, David. Syntactic change. In: Linguistics: The Cambridge Survey,
vol. 1. Linguistic Theory: foundations, 1988.
______________, David. How to set parameters: Arguments from language change.
Cambridge, MA: MIT Press, 1991.
______________, David. The development of language: Acquisition, change and evolution.
Oxford: Blackwell, 1999.
______________, David. The language lottery: Toward a biology of grammars. Cambridge,
MA: MIT Press, 1982.
PAIXÃO DE SOUSA, M.C. Contato Lingüístico e Mudança Sintática, III Escola de
Verão em Lingüística Formal da América do Sul: EVeLin 2006, 16 a 21 de janeiro,
2006.
87
PALACIOS ALCAINE, Azucena (1998) “Santa Cruz Pachacuti y la falsa
pronominalización del español andino”, en Lexis. XXII. Lima, 119 – 146.
______________, Azucena (1998), “"Variación sintáctica en el sistema pronominal del
español paraguayo", Anuario de Lingüística Hispánica, XIV, 451-74.
______________, Azucena. “El español y las lenguas amerindias. Bilingüismo y
contacto de lenguas”, en Teodosio Fernández, Azucena Palacios y Enrique Pato
(eds.), El Indigenismo americano I, UAM, pp. 71-98, 2001.
______________, Azucena. “El sistema pronominal del español Paraguayo: un caso de
contacto de lenguas”, en J. Calvo (ed.): Contacto de lenguas en América: el español en el
candelero, Frankfurt-Madrid, Vervuert-Iberoamericana, 2000.
______________, Azucena. “Variación sintáctica en el sistema pronominal del español
paraguayo", Anuario de Lingüística Hispánica, XIV, pp.451-74, 1998.
PINTZUK, Suzan. “Variacionist Approches to Syntatic Change”. In: Joseph, Brian
& Janda, Richard D. (eds.) The Handbook of Historical Linguistics. Oxford: Blackwell,
pp. 509-282006.
ROBERTS, Ian. Comparative and historical syntax in the principles and
parameters approach. In. Roberts. Diachronic Syntax. Oxford: OUP, 2007.
SANKOFF, David, SALI Tagliamonte, Eric Smith. (2005). Goldvarb X: A variable
rule application for Macintosh and Windows. Department of Linguistics,
University of Toronto.
SANTOS, Priscila Gomes. Monografia do curso Contribuições Linguísticas. 2011 ms.
______________, Priscila Gomes. Monografia do curso de Sintaxe do Espanhol. 2010 ms.
SCHWENTER, S. A.; SILVA, G. Overt vs. null direct objects in spoken Brazilian
Portuguese: a semantic/pragmatic account. In.: Hispania 85, 2002.
SEBOLD, Maria Mercedes Riveiro Quintans. Retomada do objeto no espanhol e no
português do Brasil e o aprendizado de espanhol L2 por falantes brasileiros. Tese de
doutorado em Linguística, Rio de Janeiro, Faculdade de Letras/ UFRJ, 2005.
SOLEDADE, Carolina de La Vega. A Realização do objeto direto anafórico em peças de
autores brasileiros dos séculos XIX e XX: dados empíricos para observação da mudança.
Dissertação de Mestrado em Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Faculdade de
Letras / UFRJ, 2011.
WEINRICH, U.; LABOV, W.; HERZOG, M. Fundamentos empíricos para uma teoria
da mudança linguística. Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial.
2006 (1968).
88
89
8. Anexos
A. Imagens para a produção escrita
B. Codificação
C. Termo de consentimento livre e esclarecido
D. Cuestionario socio-cultural
90
A.
Imagens para a produção escrita
91
92
B.
Codificação
VARIÁVEL DEPENDENTE
1. TIPO DE ESTRATÉGIA
c
clítico
s
SN
l
pronome lexical
d
pronome demonstrativo
n
nulo
o
pronome indefinido
i
amalgamados
VARIÁVEIS INDEPENDENTES
Linguísticas
2. MODO VERBAL
I
indicativo
S
subjuntivo/imperativo
R
infinitivo simples
D
gerúndio simples
P
perífrases
Va+infinitivo
Va+gerúndio
Va+particípio
N
formas nominais
3. TIPO VERBAL
e
estado
a
atividade
p
processo culminado
c
culminação
4. TRANSITIVIDADE VERBAL E ESTRUTURA PROJETADA PELO VERBO
1
V+OD (SN) (Verbos transitivos)
2
V+OD (SN)+ Obl/Compl. Circunst. (Verbos transitivos de três lugares)
3
V+OD + OI (Verbos ditransitivos)
4
V+OD (SN)+ Predicativo do objeto (Verbos transitivos predicativos)
5
V+OD [Suacc + Vinf]
6
Vcópula+Predicativo do sujeito (Verbos copulativos)
7
V+OD (S)
8
V+OD + Obl(S)
1
transitivos
2
bitransitivos
5. TIPO SINTÁTICO DA ORAÇÃO EM QUE OCORRE O ODA
93
a
b
c
d
e
f
g
b
Raiz (matriz/simples/1ª em coordenação)
Completiva de verbo (função de sujeito)
Completiva de verbo (função de objeto)
Completiva de nome
Relativa
Adjunta
Coordenada (2ª coordenada)
completivas
6. FUNÇÃO DO ANTECEDENTE
o
Objeto
s
Sujeito
a
Adjunto
c
Complemento nominal
p
Predicativo
t
Tópico estrutura/discursivo
7. POSIÇÃO DO ANTECEDENTE
a
argumental (mesma sentença ou sentenças paralelas)
t
Não argumental (tópico discursivo ou tópico estrutural)
8. DISTÂNCIA EM RELAÇÃO À PRIMEIRA MENÇÃO
1
1ª referência (após a 1ª menção)
2
2ª referência
3
3ª referência
4
4ª referência
5
5ª referência ou posterior
6
9. SUJEITO NA ORAÇÃO QUE CONTÉM ODA
s
SN
p
Pronome pleno
n
Pronome nulo
10. TRAÇO SEMÂNTICO DO ANTECEDENTE
a
[+ animado]
i
[- animado]
h
[+ humano]
s
antecedente “sentencial” ou demonstrativo neutro
p
[- humano]
11. REFERENCIALIDADE DO ANTECEDENTE
e
[+específico/+referencial]
r
[-específico/+referencial]
g
SN´s indefinidos/genéricos
94
o
[-referencial] (oração)
12. FORMA/ESPECIFICIDADE DO ANTECEDENTE
1
Nomes contáveis no plural com determinante
2
Nomes contáveis no plural sem determinante
3
Nomes contáveis no singular com determinante
4
Nomes contáveis no singular sem determinante
5
Nomes não contáveis com determinante
6
Nomes não contáveis com determinante
13. DEFINITUDE
d
[+definido]
n
[-definido]
14. POSIÇÃO DO CLÍTICO
a
anteposto ao verbo
p
posposto ao verbo
m
intermediário ao verbo
/
não se aplica
Socioculturais
15. SEXO
f
feminino
m
masculino
/
não se aplica
16. ESCOLARIDADE
1
superior
2
média
3
básica
/
não se aplica
17. FAIXA ETÁRIA
a
20 até 35 anos
b
36 até 55 anos
c
56 em diante
/
não se aplica
Controle da pesquisa
18. TIPO DE TESTE
R
reescrita
I
história das imagens
95
O
J
E
oral
julgamento de gramaticalidade
entrevista outrem
19. IDENTIFICAÇÃO DO INFORMANTE
a
informante 1
b
informante 2
96
C. Termo de consentimento livre e esclarecido
CONSENTIMIENTO INFORMADO
Estimado participante
Soy estudiante de maestría del Programa de Letras Neolatinas do curso de
Lengua Española de la UFRJ. Como parte de los requisitos del (Programa/curso)
se llevará a cabo una investigación. La misma trata sobre Las características de la
variante paraguaya de lengua española.
El objetivo del estudio es investigar Las características propias del español
paraguayo. Esta investigación es requisito para obtener mi Bachillerato en
Educación. Usted ha sido seleccionado para participar en esta investigación la cual
consiste en contestar un cuestionario o preguntas que le tomará aproximadamente
65 minutos. Usted puede contestar solamente las preguntas que así desee.
La información obtenida a través de este estudio será mantenida bajo estricta
confidencialidad y su nombre no será utilizado. Usted tiene el derecho de retirar el
consentimiento para la participación en cualquier momento. El estudio no conlleva
ningún riesgo ni recibe ningún beneficio. No recibirá compensación por participar.
Los resultados grupales estarán disponibles en internet si así desea solicitarlos. Si
tiene alguna pregunta sobre esta investigación, se puede comunicar conmigo al
número +552173261467 o con mi director(a) de investigación Drª. Mª Mercedes
Riveiro Quintans Sebold al +552126170991.
Preguntas o dudas sobre los derechos como participante en este estudio, pueden
ser dirigidas a la Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Programa de Letras Neolatinas, AC/ Coordenador do Programa, Avenida Horácio
de Macedo, nº 2151 – Cidade Universitária – Rio de Janeiro/RJ – CEP 21941-917
– Brasil.
Priscila Gomes Santos
Investigadora principal
He leído el procedimiento descrito arriba. La investigadora me ha explicado el
estudio y ha contestado mis preguntas. Voluntariamente doy mi consentimiento
97
para participar en el estudio de Priscila Gomes Santos sobre Las características de
la variante paraguaya de lengua española. He recibido copia de este
procedimiento.
________________________________________________
Firma del participante
_______________________
Fecha
98
D.
Cuestionario socio-cultural
99
100
Download

Priscila Gomes Santos - Faculdade de Letras