Sobre concordância nominal em crianças com Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem * Telma Branco1, Miriam Moreira1 & Ana Castro1 2 1 Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal 2 Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa Abstract A study aiming at assessing nominal agreement skills of SLI children speaking European Portuguese was conducted with 8 SLI children, aged 4 to 8 years old, in a picture-selection comprehension task and in an elicited production task using nouns and pseudo-nouns. The results show that SLI children are globally, not only in production but also in comprehension, below their peers of the same age, in spite of the patterns of performance being not homogeneous within the SLI group. Correlation between the type of SLI and the skills on nominal agreement may be the answer for this heterogeneous behaviour. Keywords: Nominal Agreement, Gender, Number, Specific Language Impairment. Palavras-chave: Concordância nominal, Género, Número, Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem. 1. Introdução As crianças com Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem (PEDL) apresentam dificuldades em aspetos específicos da linguagem relativamente aos seus pares com desenvolvimento típico, e estes podem centrar-se na componente lexical, fonológica, morfo-sintática ou pragmática. Estas dificuldades têm sido explicadas tanto por lacunas no conhecimento gramatical, atribuídas a uma maturação tardia ou uma deficiente representação da linguagem, como por limitações em processos especificamente linguísticos ou mais gerais, cognitivos ou linguístico-cognitivos, como memória de trabalho e velocidade de processamento de informação (Schwartz, 2008). No contexto clínico, independentemente das causas subjacentes a esta perturbação da linguagem, tem-se procurado identificar marcadores clínicos, mais ou menos linguísticos, que permitam caracterizar o desempenho dos sujeitos e contribuir para um diagnóstico de PEDL. Textos Seleccionados, XXVI Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa, APL, 2011, pp. 111-124 * Este estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Portugal) através dos Projectos “Técnicas Experimentais na Compreensão da Aquisição do Português Europeu” (POCI/LIN/57377/2004) e “Dependências Sintácticas dos 3 aos 10” (PTDC/CLE-LIN/099802/2008). Agradece-se às crianças, pais e educadores do Agrupamento Vertical de Escolas de Alcochete, do Colégio O Pequeno Polegar, e do Externato O pinguim, assim como às terapeutas da fala Telma Pereira, Bruna Costa e Andreia de Melo. XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Em particular, no que se refere a aspetos morfo-sintáticos, vários estudos reportam que as crianças com PEDL apresentam, entre outras, dificuldades com a estrutura funcional e categorias funcionais, sendo essas dificuldades tanto maiores quanto mais “rica” é a morfologia flexional - veja-se referências em Jakubowicz (2006) e Schwartz (2008). Diferentes estudos apontam para dificuldades na utilização de morfemas gramaticais (Roulet, 2007), mais na morfologia nominal do que na verbal, e nas línguas românicas, comparativamente com o inglês (Bottari et al., 2001), tanto em tarefas de produção como de compreensão (van Der Lely, Rosen & McClellead, 1998). No que respeita especificamente a aspetos que envolvem a concordância nominal, vários estudos para línguas que não o português europeu (PE) mostram que as crianças com PEDL apresentam dificuldades mais evidentes do que os seus pares sem patologia (Silveira, 2002, 2006, para o português brasileiro; Restrepo & Gutiérrez-Clellen, 2001, para o espanhol); em tarefas de produção e quando são utilizados pseudo-nomes (Haeusler, 2005, e Silveira, 2002, 2006, para o português brasileiro). As crianças com PEDL também omitem mais artigos do que substituem (Leonard, 1995, para o inglês; Leonard et al., 1993, Bortolini, Caselli & Leonard, 1997, Bortolini et al., 2002, para o italiano; Roulet, 2007, para o francês; Bosch & Serra, 1997, Restrepo & GutiérrezClellen, 2001, Bedore & Leonard, 2001 e Anderson & Souto, 2005, para o espanhol; Ewijk & Avrutin, 2010, para o holandês); e parecem apresentar mais erros de concordância em género do que em número (Restrepo & Gutiérrez-Clellen, 2001), apesar de os resultados de alguns estudos não serem conclusivos (Bortolini, Caselli & Leonard, 1997; Leonard et al., 1993). No género, em particular, as crianças com PEDL apresentam mais dificuldades com o feminino (Bosch & Serra, 1997; Roulet-Amiot & Jakubowicz, 2006), especialmente nos adjetivos e quanto mais elementos contiver o sintagma nominal (Roulet-Amiot & Jakubowicz, 2007, para o francês). A incongruência entre o marcador de classe no nome, correlacionado com género, e o género expresso pelo artigo definido, assim como a sua forma morfo-fonológica parece ser também um fator de dificuldade (Roulet, 2007, para o francês). Quanto ao número, estas crianças apresentam mais dificuldades com o plural (Bedore & Leonard, 2001; Leonard et al., 1993; Rice & Oetting, 1993). Para o português europeu, uma língua com morfologia flexional “rica”, não há ainda estudos sobre concordância nominal em crianças com PEDL. Contudo, estudos com crianças com desenvolvimento típico mostram que estas, aos 2 anos, já revelam perceção da categoria plural, processam a informação de número e género a partir de D, e processam concordância; não apresentam grandes dificuldades na produção de número e género, em pseudo-nomes, embora haja um efeito de género feminino e da “incongruência” de marcas de género entre artigo e marcador de classe no nome (Castro, 2007; Castro & Ferrari-Neto, 2007; Corrêa, Augusto & Castro, 2010, entre 112 SOBRE CONCORDÂNCIA NOMINAL EM CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO ESPECÍFICA DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM outros). Há também omissão de artigos nas primeiras produções, até por volta dos 3 anos (Freitas & Miguel, 1998; Soares, 1998; Corrêa, 2005; Castro, 2007; Corrêa, Augusto & Castro, 2010). Sabe-se assim que as crianças com desenvolvimento típico revelam uma precoce sensibilidade às propriedades fónicas e distribucionais das marcas flexionais, e interpretam os traços gramaticais que estas veiculam, ainda que as omitam ou dêem “erros” nas suas primeiras produções. A interpretação dos traços gramaticais veiculados pelas marcas flexionais implica o processamento de concordância interna ao sintagma nominal, sendo D o elemento essencial para a interpretação. O objetivo deste estudo é verificar se, no português europeu (PE), as crianças com PEDL apresentam mais alterações ao nível da concordância nominal, comparativamente a crianças com desenvolvimento típico de linguagem, tal como se verifica noutras línguas em que a morfologia flexional é “rica”, contribuindo para a identificação de marcadores clínicos de PEDL. Considerando todos estes aspetos, as questões de investigação deste estudo são: (i) As crianças com PEDL apresentam mais alterações ao nível da concordância nominal que os seus pares com desenvolvimento típico de linguagem? (ii) As crianças com PEDL apresentam mais erros de concordância nominal na produção ou na compreensão, em género ou em número, em nomes ou pseudo-nomes? (iii) As crianças com PEDL omitem o determinante no sintagma nominal, em nomes e pseudo-nomes, mais que os seus pares com desenvolvimento típico de linguagem? As hipóteses são de que o desempenho das crianças portuguesas com PEDL é na generalidade pior do que nas crianças com desenvolvimento típico; a proporção de erros de concordância nominal é maior na produção que na compreensão; a proporção de erros de concordância nominal é maior em pseudo-nomes que em nomes; a omissão do determinante é mais frequente do que nas crianças com desenvolvimento típico e maior em pseudo-nomes que em nomes. 2. Método 2.1. Participantes A amostra foi constituída por dois grupos de crianças, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 4 e os 8 anos, falantes monolingues de PE e residentes na região do Vale do Tejo. Todas as crianças frequentavam o jardim de infância ou o primeiro ciclo do ensino básico, consoante a idade 1. 1 Todas as crianças do grupo experimental estavam no ano escolar correspondente à sua idade, à exceção de uma, (PEDL7), que estava numa turma de 2º ano, embora esteja ao nível do 1º ano. 113 XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Do grupo experimental faziam parte 8 crianças, 7♂ e 1♀ 2, com diagnóstico, efetuado por um terapeuta da fala, ou suspeita de Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem (PEDL) 3, e com avaliação psicológica que assegurasse um desempenho não-verbal adequado à faixa etária. Constituíram-se, assim, como critérios de exclusão para o grupo experimental todos os que excluem o diagnóstico de PEDL: défices sensoriais; défices cognitivos; problemas neurológicos e psicopatológicos; problemas emocionais e comportamentais; e estimulação ambiental inadequada - Schwartz (2008), entre outros. O grupo de controlo foi constituído por 50 crianças, 18♂ e 32♀ (10 crianças por faixa etária), com rastreio de linguagem indicador de desenvolvimento típico da linguagem (com um percentil ≥ 50) 4, e sem história familiar de distúrbios de linguagem, cognitivos ou emocionais. Foi assegurado que todos os participantes, do grupo experimental e do grupo de controlo, produziam codas em final de palavra, descartando, assim, a possibilidade da articulação influenciar a produção da marca de plural -s. 2.2. Desenho experimental Os participantes foram sujeitos a dois tipos de tarefa: (i) uma de seleção de imagens com pseudo-nomes de objetos inventados (compreensão), adaptada de Corrêa, Augusto & Castro (2010); e (ii) outra de produção elicitada com nomes e pseudo-nomes, adaptada de Silveira (2006). Da tarefa de compreensão faziam parte 36 itens (pseudonomes) e da tarefa de produção 72 itens (nomes e pseudo-nomes aleatorizados), segundo as condições definidas, que são mostradas na Tabela 1. Tabela 1 – Condições em estudo Condição Condição 1 Condição 2 Condição 3 Condição 4 masculino singular masculino plural feminino singular feminino plural Congruente Incongruente Neutro -o -os -a -as -a -as -o -os -e -es -e -es 2 A distribuição não uniforme por géneros espelha a maior incidência desta patologia de linguagem em crianças do género masculino - Schwartz (2008), entre outros. 3 A tipologia de PEDL usada na maioria dos diagnósticos é a proposta por Allen & Rapin (1983): (i) apraxia ou dispraxia do discurso; (ii) défice de programação fonológica; (iii) surdez verbal ou agnosia auditiva; (iv) défice fonológico-sintático; (v) défice sintático-lexical; e (vi) défice semântico-pragmático. No entanto, a tipologia de Friedmann & Novogrodsky (2008) é também usada. Esta tipologia pressupõe uma modularização das áreas da linguagem: Sintaxe, Fonologia, Léxico e Pragmática e define os défices linguísticos de acordo com isso. Uma das crianças do grupo experimental tem um diagnóstico de PEDL fonológica. 4 A todas as crianças do grupo de controlo foi aplicado um dos seguintes testes de rastreio da linguagem: Teste de Avaliação da Linguagem na Criança – TALC (Sua Kay & Tavares, 2008), a crianças de idade pré-escolar; e Grelha de Observação da Linguagem - Nível Escolar (Sua Kay & Santos, 2003) a crianças de idade escolar. 114 SOBRE CONCORDÂNCIA NOMINAL EM CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO ESPECÍFICA DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM As condições combinam os diferentes valores que as variáveis género e número podem ter e consideram ainda (in)congruência entre o determinante e o valor de género do nome 5. As variáveis independentes (intra-sujeitos) foram: (i) tipo de prova (compreensão e produção); (ii) tipo de nome (nome e pseudo-nome); (iii) género (masculino e feminino); e (iv) número (singular e plural). As variáveis dependentes foram: (i) número de respostas com manutenção dos valores de género e número do determinante, e (ii) taxa de omissão do determinante, na tarefa de produção apenas. Os dados foram recolhidos mediante a apresentação às crianças de diapositivos de Power Point© com recurso a um computador portátil HP Pavilion DV2000 Special Edition em dois momentos distintos. No primeiro momento, foi apresentada a tarefa de compreensão e 36 itens da tarefa de produção, sendo os restantes 36 itens desta última tarefa apresentados num segundo momento. Na tarefa de compreensão, foi dito às crianças que iriam ver uns desenhos novos, que eles não conheciam, com uns nomes esquisitos, e teriam de adivinhar qual seria qual. A pergunta era: “Onde está o bapo?”, sendo apresentado o diapositivo (Figura 1) com o alvo e três distratores (em género e número). Figura 1 – Exemplo de diapositivo da prova de compreensão (com resposta-alvo assinalada) A tarefa de produção contemplava os mesmos desenhos desconhecidos e alguns conhecidos, e o diapositivo era introduzido com a frase: “Aqui está um carro e um dedo”. Seguidamente, uma das imagens desaparecia (a que correspondia ao alvo) e a criança era questionada: “Qual foi o que desapareceu?”. A criança deveria responder com um sintagma nominal completo, composto por um artigo definido e um nome: “O 5 Na conceção do estudo, e como tal na preparação do instrumento de recolha de dados, considerou-se congruência de nome como uma variável. Contudo, essa variável não será aqui analisada. 115 XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA carro”. No caso de alvos de mais que um objeto (plurais) foi utilizada a instrução: “Aqui estão algumas denhas e algumas bafes.” 3. Resultados Os resultados dos desempenhos de cada uma das crianças com PEDL, nas tarefas de compreensão e produção, distinguindo nomes e pseudo-nomes, são os apresentados na Tabela 2. Nesta tabela, podem ver-se também os desempenhos médios do respetivo grupo de controlo, da mesma faixa etária das crianças do grupo experimental. Tabela 2 – Respostas com manutenção da concordância nominal (compreensão e produção) do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em compreensão e produção de nomes e pseudo-nomes (%) TIPO DE PEDL COMPREENSÃO PRODUÇÃO NOMES PSEUDO-NOMES 61% 47% 36% DPF 42% 78% 64% PEDL2 GC 4;0 67% 91% 76% FS 39% 92% 69% PEDL3 FS 47% 42% 28% PEDL4 GC 5;0 73% 96% 84% F 92% 83% 75% PEDL5 FS 81% 81% 78% PEDL6 GC 6;0 91% 87% 77% SP 33% 28% 19% PEDL7 GC 7;0 88% 83% 69% SP 86% 89% 72% PEDL8 GC 8;0 98% 80% 62% Legenda: Tipo de PEDL: FS = Fonológico-sintática; DPF= Défice de Programação Fonológica; F = Fonológica; SP = Semântico-pragmática PEDL1 FS Nas crianças com PEDL, o desempenho é pior do que nas crianças com desenvolvimento típico, com exceção de 3 sujeitos, os PEDL5, 6 e 8, que apresentaram um desempenho igual ou melhor que os seus pares com desenvolvimento típico. Por outro lado, não há efeito geral de desenvolvimento no grupo de controle – só parcial na compreensão (H(4) = 22.364, p=.000), nos grupos dos 5 e 6 anos (U = 16.5, p=.009) 6. No Gráfico 1 mostram-se os resultados das tarefas de produção e compreensão do grupo experimental, considerando apenas pseudo-nomes, e comparando com o grupo de controlo. 6 A análise estatística foi realizada com recurso ao software SPSS 17.0 e os testes usados foram os testes nãoparamétricos Kruskal Wallis e Mann-Whitney. 116 SOBRE CONCORDÂNCIA NOMINAL EM CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO ESPECÍFICA DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Gráfico 1 – Respostas com manutenção da concordância nominal (compreensão e produção) do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em compreensão e produção de pseudo-nomes (n=36) Os resultados da Tabela 2 e do Gráfico 1 mostram que, tanto no grupo experimental como no grupo de controlo, a proporção de erros de concordância nominal se distribui equilibradamente por produção e compreensão: nas crianças mais novas a tendência é para mais erros na compreensão; nas crianças mais velhas a tendência inverte-se, embora os valores sejam bastante próximos. No Gráfico 2, podem ver-se os resultados da tarefa de produção, comparando os desempenhos do grupo experimental e do grupo de controlo, para nomes e pseudonomes. Gráfico 2 – Respostas com manutenção da concordância nominal do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em produção de nomes e pseudo-nomes (n=36) 117 XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Observa-se, no grupo experimental, que a proporção de erros de concordância nominal é maior nos pseudo-nomes do que nos nomes, tal como as crianças com desenvolvimento típico, mas os valores são muito aproximados. Os resultados em função das variáveis género e número mostram-se nos Gráficos 3, 4 e 5, em que se comparam os desempenhos do grupo experimental com os do grupo de controlo, por tarefa, respetivamente: compreensão, produção de nomes e produção de pseudo-nomes. Gráfico 3 – Respostas com manutenção de género e número do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em compreensão (n=36) Na tarefa de compreensão, os desempenhos do grupo de controlo são equilibrados em género e número. Já no grupo experimental, os PEDL3, 4 e 7 têm um desempenho que se distancia dos seus pares e apresentam uma assimetria nos resultados das duas categorias: os primeiros dois têm melhor desempenho em número; o terceiro em género. Gráfico 4 – Respostas com manutenção de género e número do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em produção de nomes (n=36) 118 SOBRE CONCORDÂNCIA NOMINAL EM CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO ESPECÍFICA DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Gráfico 5 – Respostas com manutenção de género e número do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) em produção de pseudo-nomes (n=36) Na tarefa de produção de nomes, mantêm-se o equilíbrio entre género e número nos desempenhos do grupo de controlo. Embora com resultados mais baixos que os do grupo de controlo, o grupo experimental comporta-se também de forma semelhante relativamente a estas variáveis. Finalmente, na tarefa de produção de pseudo-nomes, mantém-se o equilíbrio entre género e número nos desempenhos do grupo de controlo, exceto nas crianças de 5 anos, em que existe maior proporção de erros de número. No grupo experimental, há novamente 3 crianças com desempenhos abaixo dos seus pares, mas a proporção de erros de concordância nominal em género e número é equilibrada. Na Tabela 3, apresentam-se os resultados relativos às respostas com omissão de determinante na tarefa de produção. 119 XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Tabela 3 – Respostas com omissão de determinantes com nomes e pseudo-nomes no GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) (%) TIPO DE PEDL PRODUÇÃO NOMES PSEUDO-NOMES PEDL1 FS PEDL2 DPF 22% 3% 6% 3% 47% 3% 6% 8% 12% 69% 17% 11% 19% GC 4;0 PEDL3 FS PEDL4 FS GC 5;0 PEDL5 F PEDL6 FS GC 6;0 PEDL7 SP GC 7;0 PEDL8 SP GC 8;0 36% 3% 8% 3% 44% 4% 11% 8% 19% 81% 28% 19% 36% Nas crianças com PEDL, observa-se variação nas taxas de omissão de determinantes: os PEDL1, 4 e 7 omitem mais determinantes que os seus pares com desenvolvimento típico, enquanto os restantes têm taxas de omissão de determinantes equivalentes ou melhores que os seus pares. Verifica-se também que no grupo de controlo, a taxa de omissão de determinantes é muito baixa nas crianças mais novas (5 e 6 anos) e aumenta, inesperadamente, nas crianças de 6, 7 e 8 anos. A comparação em função de tipo de nome – nome e pseudo-nome – mostra-nos que no grupo de controlo, os pseudo-nomes têm taxas de omissão de determinante mais altas nas crianças de idade escolar; as crianças de idade pré-escolar têm um desempenho equilibrado. No grupo experimental, alguns sujeitos têm desempenhos equilibrados entre nomes e pseudo-nomes; outros têm pior desempenho nos pseudo-nomes. 4. Discussão Neste estudo, o desempenho das crianças com PEDL revela alguma heterogeneidade, tanto no que diz respeito ao modo de expressão mais afetado (compreensão ou produção) como à categoria gramatical mais afetada (género ou número). Quanto ao modo de expressão, os resultados não são conclusivos, uma vez que há variabilidade nos desempenhos individuais no grupo experimental. Contudo, observa-se 120 SOBRE CONCORDÂNCIA NOMINAL EM CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO ESPECÍFICA DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM um desempenho pior com pseudo-nomes, como observado para o português brasileiro por Haeusler (2005) e Silveira (2006). Já para a categoria gramatical mais afetada, nestes resultados não se vislumbra um padrão definido. Enquanto na tarefa de compreensão há crianças com pior desempenho em género e crianças com pior desempenho em número, na tarefa de produção os desempenhos são similares entre uma e outra categoria. Assim, também aqui não se pode afirmar que os erros afetam mais uma ou outra categoria (Bortolini, Caselli & Leonard, 1997; Leonard et al., 1993). No que respeita à omissão de determinantes, observa-se novamente variação individual no grupo experimental. Se alguns PEDL apresentam claramente desempenhos abaixo dos pares, outros têm desempenhos tão bons ou melhores. Quando comparados com os seus pares, observou-se que algumas crianças com PEDL não se distinguem do padrão de desempenho típico, da mesma idade cronológica. No entanto, uma análise da distribuição percentílica dos sujeitos com PEDL relativamente ao grupo de controlo, mostrada na Tabela 4, posiciona-os, no global, abaixo do percentil 25. Só os PEDL5 e 8 estão melhor posicionados, não ultrapassando, no entanto, o percentil 50. Tabela 4 – Percentis do GC e GE em compreensão e produção (de nomes e pseudo-nomes) calculados pelas respostas com manutenção de género e número do GE (PEDL) e GC (com desenvolvimento típico) TIPO DE PEDL PEDL1 FS PEDL2 DPF GC 4;0 PEDL3 FS PEDL4 FS GC 5;0 PEDL5 F PEDL6 FS GC 6;0 PEDL7 SP GC 7;0 PEDL8 GC 8;0 SP COMPREENSÃO PRODUÇÃO TOTAL NOMES PSEUDO-NOMES <5 <25 >25 <25 <5 <25 >25 <25 >25 >10 >25 <50 <50 <25 >25 <50 10 <5 <50 <50 <50 <50 >10 <50 >50 <50 <50 <25 <50 >10 25 <50 <25 <25 <25 <5 >25 >10 >25 >10 <25 <50 <5 <5 <50 <50 >25 <50 >10 >25 <50 <50 O facto de com este estudo não se encontrar um padrão típico unificador do desempenho das crianças com PEDL, relativamente à concordância nominal, pode ser explicado por estarem incluídas nesta amostra crianças diagnosticadas com diferentes tipos de PEDL. 121 XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA O reduzido número de participantes no grupo experimental invialibiliza para já o estabelecimento da correlação entre diagnóstico e desempenho nestas tarefas. Contudo, com um alargamento da amostra em estudos subsequentes a correlação deve, certamente, ser explorada. Por outro lado, podemos considerar que a concordância nominal pode não ser um marcador clínico de PEDL. Relativamente à omissão de determinantes, também houve um comportamento heterogéneo da parte das crianças do grupo experimental. No entanto, e tendo em conta que houve uma grande omissão de determinantes nas crianças do grupo de controlo dos 6 aos 8 anos, estes resultados são inconclusivos. O desempenho das crianças mais velhas do grupo de controlo não corresponderá a um comportamento típico mas, eventualmente, a um efeito do tipo de tarefa, em que as crianças, estando mais focadas na memorização do pseudo-nome, novo para elas, podem ter adotado uma estratégia de nomeação nesta tarefa. Esse viés deverá ser eliminado em futuros estudos. 5. Conclusões Este estudo exploratório pretendeu descrever os desempenhos de um conjunto de crianças portuguesas diagnosticadas com PEDL em tarefas que envolvem concordância nominal em género e número e produção de determinantes, no sentido de os identificar como potencial marcador clínico para esta patologia. Observou-se que os desempenhos das crianças com PEDL, ainda que não correspondendo a um padrão unificado, são piores que os dos seus pares, da mesma idade, com desenvolvimento típico da linguagem. Fica em aberto a questão de estas construções poderem ser um marcador fiável de PEDL em geral, ou de PEDL gramatical em particular. Um alargamento da amostra bem como a correlação com outros marcadores clínicos, de natureza mais ou menos linguística, poderá contribuir para a resposta a esta questão. Referências Anderson, R. T. & S. M. Souto (2005) The use of articles by monolingual Puerto Rican Spanish-speaking children with specific language impairment. 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