X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 INTRODUÇÃO DO PENSAMENTO ALGÉBRICO Leandra Gonçalves dos Santos PM Vitória PM Cariacica [email protected] Vânia Maria Santos-Wagner Universidade Federal do Espírito Santo - UFES [email protected] Resumo: Neste artigo refletimos sobre uma investigação de mestrado de cunho qualitativo (SANTOS, 2007). Os estudos de Coxford e Shulte (1988/1995), Usiskin (1988/1995), Kieran (1992) e Bittencourt (1993) nos auxiliariam no desenvolvimento de nosso trabalho. Examinamos na pesquisa de campo, durante sete meses, a influência dos livros didáticos na concepção algébrica e nas ações pedagógicas de três professores que atuavam em turmas de 5ª à 7ª séries do ensino fundamental. Estudamos também a introdução do pensamento algébrico em coleções de livros didáticos de matemática usados por estes professores. O exame de duas coleções de livros didáticos, entrevistas e diálogos com os autores das coleções, observações das aulas de três professores, questionários e entrevistas semi-estruturadas com professores e seus alunos formaram o corpo de informações desta pesquisa. Da análise de dados evidenciaram-se alguns aspectos de como os docentes pesquisados concebem a álgebra, seu ensino, suas crenças e concepções algébricas e de como estas estão impregnadas de mitos, conjecturas e preconceitos devido à formação acadêmica que tiveram e à forma simplificada como a álgebra lhes foi apresentada. As ações pedagógicas desses professores refletem um currículo prescrito e/ou influenciado pelo livro didático. Palavras-chave: Pensamento algébrico; Álgebra; Livro didático; Matemática; Currículo. INTRODUÇÃO Desenvolvemos, em 2007, uma pesquisa de campo em duas escolas públicas uma de Vitória e outra de Cariacica. A investigação focalizou a introdução do pensamento algébrico nos livros didáticos [LD] e a influência que a abordagem e o discurso de seus autores causam no ensino e aprendizagem de álgebra em sala de aula. Os sujeitos participantes da pesquisa foram: três professores de matemática de 5ª a 7ª séries (dois de Vitória e um de Cariacica), alguns de seus alunos e os autores de duas coleções de livros didáticos adotados por estes professores. A análise de conteúdo e discurso dos autores: Imenes e Lellis (2006); Andrini e Vasconcelos (2002) nos fizeram perceber que a Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 1 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 problemática das dificuldades de alunos e professores no campo algébrico perpassa pelo campo sócio-cultural em que está inserida a escola. Notamos ainda que muitas vezes o ensino de matemática, e em particular de álgebra, se encontram desassociados da realidade de alunos e professores. Isto se dá devido ao distanciamento da educação algébrica e do fazer matemática comparando-as com as políticas educacionais (COXFORD; SHULTE, 1995; LINS; GIMENEZ, 1997; BRASIL [Parâmetros Curriculares Nacionais, PCN], 1998). As dificuldades encontradas no ensino e aprendizagem de álgebra perpassam a forma como ela é tratada pelos LD e o modo como é abordada em sala de aula pelo professor (KIERAN, 1992). Alguns LD ainda trazem a álgebra de maneira simplificada e não dão o suporte necessário ao trabalho do professor em sua prática pedagógica. Além do mais, muitos professores trabalham o conteúdo desassociado da realidade social e lógica do aluno, enfatizando a memorização, os “macetes” e as regras. Percebemos também que, algumas vezes, o conteúdo de matemática é apresentado de forma tradicional e rigorosa em LD e em aulas de matemática, cobrando-se dos estudantes excessivamente memorização e rigor em situações de avaliação (SANTOS, 1997). Ou seja, ainda continuamos utilizando a disciplina de matemática para filtrar, selecionar e decidir que estudantes podem seguir estudando matemática. Parece que continuamos, ainda no início do século XXI, como já afirmava Kline (1976), acreditando na memorização de processos, procedimentos e provas em aulas de matemática como fornecedores de evidências de aprendizagem. Para prosseguirmos convidando o leitor a nos acompanhar nas reflexões sobre a investigação desenvolvida e trazermos nosso exame para as questões sócio-culturais que envolvem o ensino de álgebra, organizamos o texto em três partes. Inicialmente abordamos o que tem sido discutido na literatura sobre os LD, sobre a álgebra e o pensamento algébrico. Posteriormente comentamos em linhas gerais sobre os procedimentos metodológicos de coleta e análise de dados. Finalizamos comentando alguns dos resultados da pesquisa e propondo questionamentos relativos aos direitos fundamentais para qualquer cidadão ter acesso ao saber matemático. ENQUADRAMENTO TEÓRICO Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 2 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Bittencourt (1993) nos informa que ocorreram diversas mudanças, desde 1938, quando o Ministério da Educação, através da Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD), estabeleceu condições para a produção, importação e utilização do livro didático no Brasil. Segundo a autora o livro passou por algumas transformações que, de certa forma, influenciaram o ensino e aprendizagem na escola e fora dela. A partir de 1938 iniciou-se um processo efetivo de exigências político-ideológicas para produção e divulgação de manuais didáticos no Brasil. No período de 1938 a 1994 as políticas educacionais no Brasil passaram por modificações consideráveis, contextualizadas conforme a vigência dos governos políticos e de seus regimes. Por exemplo, no governo republicano a meta principal do governo foi a alfabetização como condição prioritária para a população, para que esta pudesse participar da vida política da nação, conforme Bittencourt (1993, p. 37). Em 1994 foram instituídos pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) critérios para avaliação dos manuais didáticos produzidos e utilizados no Brasil. O critério de avaliação do MEC, em nosso entendimento, não deixou de perpassar a lógica de uniformizar o conhecimento nas escolas públicas brasileiras, tal como nos governos anteriores, e a lógica da política assistencialista. Acreditamos que, para a visão de muitos políticos, ainda é mais viável existir no Brasil esta política do que procurar encontrar outros caminhos para sanar a situação socioeconômica das classes menos favorecidas do país. A álgebra tem lugar significativo no currículo escolar atual do Brasil, principalmente na grade curricular do ensino fundamental de quinta a oitava séries (atualmente do sexto ao nono ano escolar). D`Ambrosio (1996), Silva (2000) e Morin (2004), ao discutirem a questão do currículo escolar, enfatizam a necessidade de um ensino que forme o cidadão. Ou seja, um ensino valorizando as necessidades dos alunos, a relação dialógica docente-discente, a adoção de uma educação como produção de conhecimentos e a relevância de produzir e validar conhecimentos na prática educativa. Mas apesar dos vários debates em torno do currículo de matemática e das diversas pesquisas sobre o assunto, muitos LD disponíveis no mercado ainda trazem basicamente técnicas e algoritmos com seqüências de exercícios. Ainda encontra-se, em alguns manuais didáticos, o perfil do currículo tradicional e mecanicista. E, infelizmente, essas características são observadas como incutidas em ações pedagógicas de professores em diversas escolas, visto que o LD continua sendo um dos principais instrumentos utilizado em sala de aula. Kieran Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 3 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 (1992) ao revisar estudos sobre o ensino e aprendizagem de álgebra nos Estados Unidos e Canadá já comentava sobre isto dizendo que os alunos experimentam dificuldades com a álgebra que é ensinada em sala de aula por seus professores e os professores ensinam a álgebra que é apresentada nos livros-texto. [...] Presentemente, o conteúdo da maioria dos livros-texto de álgebra não incorpora uma perspectiva procedimental-estrutural de aprendizagem de matemática pelos alunos, nem parece refletir como a álgebra evoluiu historicamente (p. 413). A álgebra tem sido um dos campos da matemática responsáveis pelas dificuldades que os alunos têm em aprender a disciplina. Quando os alunos chegam no 2º ciclo do ensino fundamental, onde a introdução do pensamento algébrico é iniciada, eles não compreendem e não conseguem manipular adequadamente os símbolos. Mesmo sendo um dos objetivos do estudo da álgebra, ir além da manipulação de símbolos, a maioria dos alunos tem dificuldade ao lidar e ao procurar fazer relações com eles. Percebemos que muitos alunos não tiveram a preparação para a introdução da álgebra nessas séries. Estavam habituados a lidar com a manipulação de números e estabelecerem relações matemáticas somente com números (LINS; GIMENEZ, 1997). Por isso, quando os alunos chegam à quinta série e se deparam com generalizações na matemática ou até com a manipulação de letras no lugar de números, alguns deles não compreendem e passam a agir com atitudes negativas frente à matemática. A compreensão do desenvolvimento da matemática, particularmente da álgebra, é permeado por várias vertentes. Uma delas discute o processo histórico sobre o simbolismo algébrico na aprendizagem da álgebra. Bekken (1994) indica que a aprendizagem em matemática pode ser melhorada se for explorada toda a etapa histórica dos assuntos que fazem parte da problemática na aprendizagem. Uma das dificuldades apontadas por Bekken (1994) é a dificuldade do aluno em entender ou contextualizar os símbolos. Para ajudar a compreender as dificuldades no ensino da matemática, no ensino da álgebra é preciso estudar a história dos símbolos algébricos ou da Simbologia na Álgebra (p. 7). O autor percebe a relevância de se entender os estágios da Álgebra: (1) pré-simbólico, antes de 1600 A.D., (2) simbólico-numérico 1600 – 1800, (3) simbólico-abstrato após 1800. A linguagem dos símbolos está caracterizada, pelos historiadores em três fases que devem ser consideradas em nossos estudos: a retórica, a sincopada e a simbólica. Além disso, para o desenvolvimento do pensamento algébrico consideramos seus principais elementos em nossa análise de dados: a introdução de símbolos; sublinhar a importância da relação Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 4 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 entre os símbolos e não o conteúdo –, abstração em vez de intuição; a diferença entre receita e fórmula (BEKKEN, 1994, p. 86). Usiskin (1988/1995) fala sobre quatro concepções de álgebra como: aritmética generalizada, estudo de procedimentos para resolver certos tipos de problemas, estudo de relações entre grandezas e estudo das estruturas matemáticas (p. 25). Interessa-nos analisar e comparar em quais séries e como está sendo evidenciada ou não as propostas de ensino da álgebra nos livros didáticos de matemática, como por exemplo, as de Usiskin nos livros didáticos de matemática. Segundo Lins & Gimenez (1997) a educação algébrica necessita passar por uma reformulação para que ocorra produção de significados no ensino. Percebemos no LD que os alunos têm dificuldade em entender a linguagem matemática produzida pelo livro e, isso, acaba por gerar uma dificuldade em produzir significados desses objetos de estudos da álgebra. A deficiência na linguagem gera a possibilidade de deficiência no conhecimento algébrico. Ponte (2005) comenta que algumas das dificuldades encontradas na aprendizagem de álgebra ocorrem, pois trata-se de questões que envolvem dependências funcionais entre variáveis, padrões e regularidades e aspectos matemáticos da mudança, e que surgem numa variedade de representações, simbólicas, algébricas, gráficas, tabulares e geométricas (p. 38). Destacando ainda que algumas das dificuldades dos alunos são na transição da aritmética para álgebra. Dificuldades em usar letras para representarem variáveis e incógnitas, traduzir informação da linguagem natural para a linguagem algébrica e compreender as mudanças de significados, na aritmética e na álgebra (PONTE, 2005, p. 39). Além de analisar e comparar as propostas de ensino e abordagem da introdução à álgebra nos livros didáticos, percebemos a possibilidade de investigar com os autores a partir de que série eles introduzem a álgebra no LD e em que atividades eles acham que desenvolvem o pensamento algébrico do aluno. Com isto, concordamos com o posicionamento do autor de que é necessário repensar a abordagem do currículo da álgebra, entendendo a álgebra de uma forma ampla e multifacetada, valorizando o pensamento algébrico (PONTE, 2005, p. 40-41). A relevância do desenvolvimento do pensamento algébrico do aluno seria uma das justificativas para estudo da álgebra, como é apontado por Pontes (2005, p. 37), pois possibilita estruturar as capacidades cognitivas e manipulativas do aluno ao lidar com os entes matemáticos. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 5 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Como já mencionado, nós realizamos uma investigação de cunho qualitativo envolvendo duas escolas municipais, três professores, seus alunos, e os autores de duas coleções de livros didáticos. As observações de sala de aula, as conversas informais com os professores e outros profissionais de educação das duas escolas, os documentos obtidos (pautas, cadernos de alunos, listas de exercícios e avaliações), os questionários, entrevistas, E-mails e conversas com os autores dos livros didáticos nos possibilitaram coletar dados e informações em nosso estudo. Seguimos procedimentos sistemáticos de transcrição, organização e interpretação dos dados e informações obtidas sempre relendo os autores que nos auxiliaram a contextualizar e implementar a pesquisa. Além disso, esta forma sistemática de organizar e interpretar informações nos auxiliou a buscar compreender as visões e concepções de álgebra de professores e autores. E ainda procurar compreender as influências que identificávamos em aulas. Após termos completado as análises, referentes ao que foi observado em sala de aulas e sobre o que os professores nos falaram em diversos pontos do estudo, ocorreram momentos de retorno e de confirmação de nossas interpretações com os sujeitos. Procedimentos semelhantes aconteceram com respeito aos dados obtidos pelas mensagens de E-mail e conversas com os autores dos livros didáticos. Para analisar as coleções de livros didáticos de Imenes e Lellis (2006) e de Andrini e Vasconcellos (2002) iniciamos examinando pelo índice ou sumário do livro. Procuramos identificar os assuntos que podiam servir para introduzir a álgebra. Em seguida identificamos, nos conteúdos, quais deles que deixava implícita ou explícita a introdução do pensamento algébrico. Após isso partimos para uma análise mais profunda desses assuntos, dialogando sempre com os autores mencionados no enquadramento teórico. A análise foi feita procurando responder às seguintes indagações: 1) O autor insere conceitos algébricos de forma implícita ou explícita? 2) O autor articula a álgebra, a aritmética e geometria? Como é feita essa articulação? 3) A introdução do pensamento algébrico - a linguagem, noções e argumentações do autor – possibilitam orientar o aluno (mostrar as utilidades da álgebra, suas aplicações e desenvolver a cognição do aluno)? 4) No LD há uma relação entre os conhecimentos algébricos e os de outras áreas de conhecimento, de maneira a preparar o aluno para utilizar a álgebra na vida escolar? 5) No manual pedagógico (livro do professor) os autores explicitam suas concepções de álgebra? Na análise das entrevistas via E-mails com os dois autores de livro didático de matemática, procuramos verificar se o autor: Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 6 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 i Evidencia suas concepções algébricas para a abordagem da álgebra na escola; ii Discursa de forma a evidenciar suas concepções em relação ao desenvolvimento do pensamento algébrico; iii Valoriza em sua narrativa o estímulo ao desenvolvimento da capacidade do aluno em analisar, argumentar e generalizar; iv Contribui para o desenvolvimento do pensamento algébrico no cotidiano escolar do aluno. Para procurar identificar e compreender algumas concepções dos professores, nós fomos interpretar as informações provenientes de questionários, conversas informais, entrevistas semi-estruturadas e aulas observadas. O questionário do professor teve questões sobre o(s) livro(s) didático(s) adotado(s) pela escola/professor e sobre a abordagem da álgebra nesse(s) livro(s). Nas análises dos dados coletados através de questionários e entrevistas com os três professores nós tentamos identificar os seguintes itens: A. B. C. D. A opinião/concepção sobre a linguagem algébrica utilizada pelos livros; Como professores e alunos definem a álgebra; A “visão algébrica” do professor diante da abordagem do livro didático. Até que ponto a abordagem do livro didático e o discurso do autor interferem no ensino da álgebra pelo professor em sala de aula; E. Se há propostas que ajudam o desenvolvimento do pensamento algébrico sem que aluno e professor sejam dependentes do livro, de forma que estes o utilizem como um instrumento de trabalho dentre outros. Algumas evidências puderam ser apontadas a partir da análise de dados, tais como as formas como os professores concebem a álgebra e seu ensino, e as formas como abordam este conteúdo. Percebemos que as crenças e concepções algébricas dos professores estão impregnadas de alguns mitos, conjecturas e preconceitos devido à formação acadêmica que tiveram e à forma simplificada como a álgebra lhes foi apresentada. As ações pedagógicas desses profissionais refletem um currículo prescrito e/ou influenciado pelo livro didático. Os procedimentos metodológicos até então expostos pretendem fornecer ao leitor uma panorâmica do que realizamos em nosso estudo (Ver SANTOS, 2007). Por isso, optamos em iniciar a seguir um dos desdobramentos da pesquisa priorizando a discussão relativa ao ensino de álgebra e os direitos de informação a estes conhecimentos na educação básica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 7 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Diante disso, percebe-se que o LD de matemática influenciou e ainda influencia o trabalho pedagógico dos professores. Percebemos que há a necessidade de investigações cuidadosas acerca de como os professores interpretam e apresentam os conteúdos de álgebra inseridos nos LD em suas aulas de matemática (COXFORD; SHULTE, 1995; KIERAN, 1992; PINTO, 1999). Em nosso estudo, realizado em 2007, constatamos que isto ainda persiste por uma série de motivos. Nos diálogos com os professores participantes da pesquisa percebemos que eles possuíam muitas de nossas inquietações sobre a educação algébrica. Inquietações estas que tinham perpassado a formação estudantil de ensino fundamental e médio e a formação acadêmica universitária para nos tornarmos professores de matemática. Percebemos que estas inquietações influenciavam as ações e decisões pedagógicas. Por exemplo, alguns aspectos que achamos relevantes destacar nas falas dos professores são: - a importância de se trabalhar com os alunos a resolução de problema; - na maioria das vezes, somos acostumados à mecanização e a receitas prontas, fato que ocorre na maioria das graduações de ciências exatas. Com isso, achamos que aprendemos certo e propagamos tal metodologia, como se fosse a melhor. Percebemos que a maturação do profissional em sua prática, se este não for um “acomodado” na profissão, o fará buscar caminhos e metodologias diversificadas não se contentando apenas com o que aprendeu na graduação; - nós educadores temos que perceber em uma atividade algébrica que cada aluno contextualiza um problema segundo sua visão cotidiana e, a partir daí, forma um modelo/algoritmo próprio para resolução do seu problema. Esses tipos de atividades em sala de aula geram bastante participação e discussão em sala de aula, gerando uma assimilação melhor do conteúdo. Comprovamos em nossa pesquisa que há um grande obstáculo entre aprender e ensinar matemática, contribuindo para a sedimentação das concepções dos professores, conforme Pinto (1999) já havia comprovado em seu estudo. No entanto, notamos também que uma postura crítica do professor, sabedor de suas limitações, tem sido buscar em suas ações pedagógicas formas de explorar metodologias mais eficazes para o ensino da matemática. Em relação à álgebra, as limitações por causa da formação do professor são diversas e estas fazem com que o docente, mesmo com postura crítica, se conforme em utilizar o LD como um dos recursos mais confiáveis para o ensino e aprendizagem. Observamos que havia um discurso comum dos profissionais das duas unidades de ensino, mesmo pertencentes a órgãos públicos diferentes. A semelhança ocorreu na discussão do Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 8 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 currículo das disciplinas visando à aprendizagem de fato com a valorização do cotidiano do aluno e das diversidades que se encontram no espaço escolar. Por um período, vivenciamos conversas dos professores sobre a vida cotidiana e a violência nos bairros, onde as escolas estão inseridas e, percebemos como esses aspectos interferiam no rendimento escolar na visão desses professores. Com a universalidade do saber e da escola, bem como as validações de políticas públicas educacionais de inclusão, temos que perceber a universalidade tomando cuidado para não cairmos na armadilha de elaborarmos discursos discriminatórios formando escolas onde sejam todos negros, ou todos brancos, ou todos índios, ou todos ciganos, etc. Espero que nesse ensaio tenhamos iniciado um debate em relação ao ensino da matemática, procurando destacar que esta não é neutra, como já foi considerado no passado. Lembramos ainda que este conhecimento está se desenvolvendo e construindo por homens e mulheres ao longo dos tempos. Devemos estar conscientes de que necessitamos ter acesso a uma educação matemática básica para todos os alunos e segundo os aportes legais todos têm direitos a esse saber e devem ter acesso a estas informações. Aportes legais provenientes das diretrizes e regulamentos curriculares das secretarias municipais e estaduais, documentos como Constituição Federal de 1988, LDB de 1996, PCN (1998), Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2007) e outros documentos de políticas públicas educacionais determinam isto. E que a escola pode e deve oportunizar a universalidade desse saber matemático e em questão saber algébrico, sem restringir e sem excluir, tornando o conhecimento aberto e amplo para professores e alunos que queiram enveredar-se por ele. Concluímos que, atualmente, a matemática permeia todo o contexto sociocultural de nossa sociedade e a escola precisa adequar-se a essa nova perspectiva legal. Ter um olhar sobre as influências do contexto sócio-histórico-econômico da escola nos permitiu observar e fazer alguns questionamentos. Esperamos estar finalizando este texto iniciando um diálogo com os leitores sobre algumas indagações, que têm nos provocado reflexões, tais como pensar em investigar:- sobre os “limites” impostos na formação do professor. Ou seja, até que ponto os professores foram respeitados em seus direitos de aprender álgebra construindo significados que possam ser utilizados apropriadamente em diferentes momentos de seus estudos de matemática e posteriormente em seus procedimentos de ensino e de avaliação? Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Comunicação Científica 9 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 - De que forma a concepção algébrica e a educação algébrica destes professores vão perpetuando a problemática de aprendizagem de seus alunos de ensino fundamental? - Que papel o estudo de álgebra e a educação algébrica têm na formação matemática de um professor? - Como os futuros professores e professoras de matemática foram e vão se apropriando dos significados e das concepções sobre álgebra presente em livros estudados nos cursos universitários? - Como nos apropriarmos das considerações da educação em direitos humanos para a educação matemática, onde consideramos a educação e a educação matemática como práticas sociais? REFERÊNCIAS ANDRINI, A.; VASCONCELOS, M. J. Novo Praticando matemática – manual do professor (Coleção atualizada), 5ª à 7ª série. São Paulo: Editora do Brasil, 2002. 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