Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 A cobertura jornalística da renúncia do Papa Bento XVI no Jornal Nacional e Jornal da Record1 Maurício TEÓFILO2 Ana L. M. QUEZADO3 Universidade de Fortaleza, Fortaleza, CE RESUMO A pesquisa tem como proposta apresentar algumas evidências que mostram as diferentes abordagens entre o Jornal Nacional e o Jornal da Record sobre a renúncia do Papa Bento XVI. Observando as edições do dia em que aconteceu o anúncio feito por Joseph Ratzinger, temos a pretensão de investigar e mostrar as possíveis diferenças entre os telejornais das duas emissoras na cobertura de um único fato. Abordamos também a trajetória da Igreja Católica no Brasil e as transformações que aconteceram nas últimas décadas. Utilizando operadores do modo de endereçamento visualizamos a identidade de cada noticiário, fazemos as análises e mostramos como cada veículo retratou a renúncia do líder católico. PALAVRAS-CHAVE: Bento XVI; Jornal Nacional; Jornal da Record; Telejornalismo. INTRODUÇÃO Todos os dias, as emissoras produzem seus telejornais de cobertura nacional mostrando os fatos mais importantes que aconteceram no Brasil e no mundo. Na manhã do dia 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciava que deixaria o cargo mais importante da Igreja Católica que tem no Brasil 123.280.172 adeptos, segundo o último Censo feito pelo IBGE em 2010. A partir daquele momento, a Rede Globo e a Rede Record começavam a mobilizar seus repórteres para uma cobertura histórica. Segundo Guimarães; Ferreira; Sousa (2013), a última vez que um Papa renunciou foi há quase 600 anos, quando Gregório XII anunciou sua saída da Santa Sé. Todos estavam surpresos e a população brasileira esperava uma ampla cobertura do fato nos telejornais. É importante ressaltar que a saída de Joseph Ratzinger não repercutiu somente na esfera religiosa, mas também no campo político. Por todas essas questões, a presente pesquisa tem como objetivo investigar e analisar a edição do Jornal Nacional e do Jornal 1 Trabalho apresentado no IJ 1 – Jornalismo do XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste realizado de 2 a 4 de junho de 2015. 2 Graduado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza, email: [email protected] 3 Orientadora do trabalho. Professora do Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, email: [email protected] 1 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 da Record, para descobrir possíveis diferenças na forma de abordar o tema. Cada emissora tem seus interesses comerciais, políticos, e os telejornais seguem uma linha editorial definida por cada empresa. Escolhemos o Jornal Nacional (JN) e o Jornal da Record (JR), por serem os dois principais telejornais brasileiros e com a maior representatividade junto à população, a partir dos índices de audiência. Os dois noticiários citados no artigo são exibidos de segunda a sábado, quase na mesma faixa de horário. Momento em que boa parte da classe trabalhadora já se encontra em seu domicílio. Não podemos esquecer que os dois veículos têm diretores e bases religiosas diferentes. A Rede Record tem como proprietário o Bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Já a Rede Globo é presidida por Roberto Irineu Marinho, filho de Roberto Marinho. Será que existe uma grande diferença na abordagem de um mesmo assunto entre os dois principais telejornais do Brasil? Fizemos um estudo de caso exploratório para identificar a forma de abordagem da renúncia do Papa. Essa é a primeira parte para uma investigação mais profunda, ao mesmo tempo também utilizamos os recursos bibliográficos. O estudo de caso é muito frequente na pesquisa social, devido à sua relativa simplicidade e economia, já que pode ser realizado por único investigador, ou por um grupo pequeno e não requer a aplicação de técnicas de massa para coleta de dados, como ocorre nos levantamentos. A maior utilidade do estudo de caso é verificada nas pesquisas exploratórias. Por sua flexibilidade, é recomendável nas fases de uma investigação sobre temas complexos, para a construção de hipóteses ou reformulação do problema. Também se aplica com pertinência nas situações em que o objeto de estudo já é suficientemente conhecido a ponto de ser enquadrado em determinado tipo ideal (GIL, 2002, p. 140). O primeiro passo foi analisar as duas edições e fazer a cronometragem de todos os tempos. Após o cálculo do tempo total das matérias, analisamos o formato do telejornal, a forma em que foram feitas as reportagens do dia e como foi organizada a ordem para a exibição. Nosso foco era descobrir de onde elas foram feitas e qual o formato. O texto da “cabeça” da reportagem também foi analisado, mas o tempo não foi computado. O principal objetivo foi mostrar o tempo que cada emissora destinou para o assunto e como elas prepararam a cobertura. Vale lembrar que o anúncio aconteceu às 11h30 no horário local (Cidade do Vaticano) e às 08h30 no horário brasileiro de verão. As equipes dos dois telejornais tiveram quase o dia inteiro para pensarem, organizarem e executarem suas tarefas. 2 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 Durante o processo exploratório decidimos contabilizar também o tempo das entradas ao vivo e de que forma o repórter participou do noticiário. Podemos destacar também que foram feitas transcrições das “escaladas” e “cabeças” das principais reportagens de cada telejornal. METODOLOGIA A forma de fazer televisão, inspirada inicialmente no rádio e no teatro, foi aprimorada e se modificou com o passar dos anos. Analisar um veículo de comunicação tão complexo é um grande desafio, pela sua heterogeneidade e instantaneidade. Para Machado (2000), antes de analisar, é preciso primeiro entender o conceito de televisão. (...) o que o analista efetivamente viu na televisão, que conjunto de experiências audiovisuais ele conhece, qual é a sua “cultura” televisual. (...) Para falar de televisão é preciso definir o corpus, ou seja, o conjunto de experiências que definem o que estamos justamente chamando de televisão. (MACHADO, 2000, p. 19 e 20). Diferente do jornal impresso e do noticiário no rádio, os programas jornalísticos da TV utilizam a imagem e o áudio. A junção dessas duas narrativas forma uma grande mensagem que é aberta para intepretações. [...] o gênero notícia televisiva expõe duas narrativas paralelas: a narrativa visual, que se coloca como um documento do que realmente aconteceu, assim demonstrando a pretensão da objetividade, e a narrativa falada que contribui com informação complementar, ainda que permaneça relativamente distinta, sem comprometer o status da narrativa visual como pura informação. Para a audiência, essa convenção de gênero contribui para a potencial heterogeneidade da experiência com o jornalismo. Qualquer que seja sua justificação econômica ou organizacional, a convenção resulta numa estrutura de mensagem que é relativamente aberta a um leque de interpretações (JENSEN, 1986, p. 65). Nesta pesquisa, utilizamos o método exploratório para fazer a busca e a catalogação dos telejornais e adotamos o modo de endereçamento para realizar as análises. “O conceito de modo de endereçamento surge na análise fílmica, especialmente aquela vinculada à screen theory4 e tem sido, desde os anos 80, adaptado para interpretação do modo como os programas televisivos constroem sua relação com os telespectadores” (GOMES, 2004). 4 O termo ''screen-theory" é largamente empregado para denominara produção de Screen durante a década de 70. Quando grafado em minúsculas, o composto institui uma tensão polissêmica entre o nome da revista e o significado do substantivo screen (tela), em alusão à fundação teórica da screen-theory na teoria francesa do dispositivo. 3 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 É importante ressaltar também que “o modo de endereçamento não é um momento visual ou falado, mas uma estruturação – que se desenvolve ao longo do tempo – das relações entre o filme e os seus espectadores” (ELLSWORTH, 2001, p. 17). Durante a pesquisa, escolhemos o “contexto comunicativo” como operador do modo de endereçamento para investigar os noticiários. Desenvolvido por Gomes (2004), o “contexto comunicativo” é a identidade que o telejornal utiliza para se comunicar com o seu público. Através do operador, podemos observar as escolhas técnicas, cenário, postura dos âncoras e a forma que o programa jornalístico se organiza para se aproximar do telespectador. O PÚBLICO RELIGIOSO NO BRASIL A Igreja Católica é umas das instituições religiosas mais antigas do mundo que está em plena atividade. A história dela se confunde com a própria trajetória da humanidade em vários aspectos e, no Brasil, o catolicismo está profundamente enraizado com a formação do País. A Igreja teve forte influência na construção da cultura e das crenças do povo brasileiro. A instituição também esteve presente em momentos importantes e decisivos da história do País, desde a chegada dos primeiros colonizadores, influenciando nas revoltas e revoluções do Estado e nos dias atuais, ainda tem um forte prestígio. Muitas cidades brasileiras nasceram e foram se desenvolvendo em volta de um forte ou de uma paróquia da Igreja Católica. Toda essa estrutura foi criada ainda no período em que os portugueses chegaram ao Brasil e os jesuítas colaboraram para o desenvolvimento e fortalecimento da religião no País. Os Jesuítas foram os primeiros a lançar uma ponte entre os europeus e os indígenas. Construíram as primeiras escolas e ajudaram à organização dos primeiros hospitais. Os Beneditinos, os Carmelitas, os Franciscanos semearam mosteiros pelo litoral e mesmo no interior, onde o trabalho nas minas não deixava muita mão-de-obra disponível para o serviço de Deus. Por todo o lado onde os portugueses chegaram ao longo dos dois primeiros séculos, elevaram-se igrejas e capelas, muitas delas cobertas de ouro, cheias de obras de arte. (ALVES, 1979, p. 17). O catolicismo desembarcou em terras brasileiras junto com os exploradores e missionários portugueses. Na época, a igreja era subordinada e sustentada pelo Estado, que organizava toda a estrutura. 4 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 Até então, o catolicismo era a religião oficial do regime monárquico e a Igreja, praticamente, estava subordinada ao Estado em virtude do caráter regalista da legislação civil. Durante aquele período, houve alguns conflitos muito sérios entre as autoridades civis e religiosas; por vezes, o Estado intervinha na nomeação dos bispos e até tomava medidas contra a Igreja, como o fechamento dos noviciados das ordens religiosas por muitos anos e a prisão de dois bispos que tentavam livrar as irmandades da influência maçônica. (AZEVEDO, 2002, p. 32). A igreja só se desvinculou do Estado quando o Brasil virou República e se tornou um Estado secular, com liberdade religiosa. Mesmo o Brasil sendo um Estado laico, o calendário oficial do país está cheio de feriados e dias em homenagem aos santos da igreja católica. De acordo com o último censo do IBGE (2010), existem 123 milhões de católicos no Brasil, representando 64,6% da população. Diante desses números, o tema “religião” é pauta recorrente nos telejornais do Brasil, ainda com predominância de assuntos ligados ao catolicismo. Se formos analisar dentro das chamadas “Variáveis de Noticiabilidade”, de Mauro Wolf, os fatos relacionados à religião tem inúmeras razões para virar notícia: impacto sobre a nação, número de pessoas envolvidas, dentre outras. Para Wolf (1999), tais movimentos começam a constituir notícia, a ultrapassar o limiar da noticiabilidade, quando se considera que se tornaram suficientemente significativos e relevantes para irem ao encontro do interesse do público. JORNAL NACIONAL O Jornal Nacional é um dos programas mais antigos da Rede Globo, surgiu em 1969. A primeira edição foi ancorada por Hilton Gomes e Cid Moreira (MEMÓRIA GLOBO, 2004). No dia 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI tinha anunciado no começo da manhã, no horário de Brasília, que deixaria o cargo. Dezenas de profissionais da Rede Globo começavam a preparar a edição considerada especial e histórica para o JN. No seu horário habitual, o Jornal Nacional entrou no ar com sua tradicional escalada, que desperta a curiosidade e chama atenção do público. Com seu arranjo musical inconfundível, o tema de abertura do JN é o mesmo desde a primeira edição em 1969. Com o passar dos anos, sofreu poucas modificações e se tornou ainda mais 5 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 rápido, passando a ideia de agilidade. O anúncio de Joseph Ratzinger ganhou destaque na escalada da edição analisada, conforme está descrito abaixo. TABELA 1 Escalada do Jornal Nacional Jornal Nacional – 11/02/2013 Alexandre Garcia - ONZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E TREZE./ Heraldo Pereira - O PAPA SURPREENDE O PLANETA./ Alexandre Garcia - BENTO DEZESSEIS ANUNCIA QUE VAI RENUNCIAR O CARGO NO DIA VINTE OITO DE FEVEREIRO./ Heraldo Pereira - PRESTES A COMPLETAR OITENTA E SEIS ANOS EXPLICA QUE A RENÚNCIA É PELA IDADE AVANÇADA./ Alexandre Garcia - POR NÃO TER MAIS FORÇA PARA EXERCER A FUNÇÃO./ Heraldo Pereira - FORAM SETE ANOS E DEZ MESES A FRENTE DA IGREJA CATÓLICA./ Alexandre Garcia - NOSSOS REPÓRTERES TRAZEM OS MOMENTOS MAIS IMPORTANTES DO SEU PONTIFICADO./ Heraldo Pereira - A VIAGEM AO BRASIL EM DOIS MIL E SETE./ Alexandre Garcia - A REPERCUSSÃO EM TODO MUNDO./ Heraldo Pereira - E COMO SERÁ O PROCESSO DE SUCESSÃO./ Alexandre Garcia - VEJA TAMBÉM!/ Heraldo Pereira - A SEGUNDA DE CARNAVAL PELO BRASIL./ Alexandre Garcia - A PRIMEIRA NOITE DO GRUPO ESPECIAL DO CARNAVAL DO RIO./ LUXO, TECNOLOGIA E MUITA FANTASIA TOMAM A MARQUÊS DE SAPUCAÍ./ Heraldo Pereira - AGORA NO JORNAL NACIONAL.// Além do anúncio da renúncia do Papa, as notícias do carnaval brasileiro também entraram nas manchetes do JN. A escalada do noticiário é feita no plano fechado, enquadrando apenas um âncora por vez, no sistema de ping pong e sempre é gravada antes do telejornal começar. Isso acontece porque a escalada é a parte mais dinâmica do telejornal e, com isso, o risco de alguma coisa “sair do controle” é menor. A principal função da escalada é despertar e manter a atenção e o interesse do telespectador do início ao final do noticiário. Além das manchetes, como recurso para dar ritmo ao programa, a escalada pode conter também teasers, intervenções de um repórter sob a forma de um texto breve em que se busca incitar a curiosidade do telespectador por uma determinada matéria que vai ser divulgada no telejornal. (REZENDE, 2000, p. 147). Depois da escalada, a vinheta do Jornal Nacional aparece rapidamente deixando sua marca e informando que o telejornal já está no ar. No plano aberto, podemos observar ao fundo e abaixo, a redação da emissora. Também visualizamos um mapamúndi no fundo e acima dos apresentadores que passa a ideia de que o noticiário está 6 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 interligado e presente em todas as regiões. A câmera vai se aproximando, os apresentadores dão o tradicional “boa noite” e prontamente a informação é repassada para o público. Alexandre Garcia começa e, logo depois, Heraldo Pereira encerra a primeira “cabeça” que chama, já na abertura do jornal, o correspondente Marcos Losekann, direto da Cidade do Vaticano. Alexandre Garcia – “O Papa Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar que deixará a liderança da Igreja Católica no fim do mês, renunciando ao papado. Aos 85 anos, ele alegou falta de forças”. Heraldo Pereira – “A última renúncia de um papa foi há quase 600 anos. Os enviados especiais, Marcos Losekann e Sérgio Gilz, já estão na cidade do Vaticano e é pra lá que nós vamos ao vivo. Muito boa noite, Losekann”. Mostrando a agilidade do JN, o correspondente que foi enviado especialmente para cobrir os acontecimentos no Vaticano, ancorou boa parte do Jornal Nacional, já que a correspondente oficial da Rede Globo na Itália, Ilze Scamparini, estava de férias no Brasil. O repórter começa a sua participação informando ao telespectador como foi difícil chegar ao Vaticano. Marcos Losekann – “Boa noite, Heraldo, Alexandre. Boa noite a todos. Não foi fácil chegar hoje aqui ao Vaticano. Foi uma viagem de duas horas e meia em um jatinho de Londres até Roma, nos últimos dez minutos foram debaixo de uma tempestade. Uma das piores, segundo os romanos, dos últimos dez anos. Muitos raios, trovões, turbulências. Quase o piloto precisou arremeter, pra pousar sabe Deus onde. Mas nós conseguimos chegar, estava muito congestionado o trânsito. Estamos aqui agora, acompanhando tudo o que está acontecendo. [...]”. Enviar o repórter ao local da notícia passa a ideia de que o Jornal Nacional está presente onde o fato acontece. Seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. “As entradas valorizam o potencial do jornal em estar no local dos acontecimentos. Essa pode ser uma das estratégias acionadas pelo programa para atingir, [...] os referenciais jornalísticos de agilidade, atualidade, rapidez e prontidão” (GOMES, 2007). No final da sua fala, Marcos Losekann chama a primeira reportagem sobre a renúncia do Papa Bento XVI. O objetivo da reportagem é contar como aconteceu o anúncio que deixou todos sem reposta. Na sequência, depois de exibir a primeira matéria, os âncoras informam ao telespectador que a correspondente Ilze Scamparini foi surpreendida com a notícia da renúncia durante suas férias. 7 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 Alexandre Garcia – “A renúncia do Papa pegou a correspondente em Roma e no Vaticano, Ilze Scamparini em férias no Brasil. Ela acompanhou de perto os quase oito anos em que Bento XVI comandou a Igreja Católica”. Heraldo Pereira – “Antes de embarcar de volta para a Itália, a Ilze separou os momentos importantes desse pontificado”. JORNAL DA RECORD O Jornal da Record é o principal telejornal da Rede Record e é definido no texto institucional de divulgação, disponível no site do programa, como "confiável, ágil, moderno, grandes reportagens e séries especiais. Uma equipe competente, dedicada e afinada. Assim é o Jornal da Record".5 Além de apresentar as notícias que ganharam repercussão, o JR tem a proposta de toda semana apresentar uma série de reportagem com matérias especiais sobre assuntos variados de interesse dos brasileiros. Na edição que estamos analisando, o telejornal exibiu uma matéria especial sobre o Chile, da série O País dos Vulcões. O noticiário começou sem escalada. No dia 11 de fevereiro de 2013, o jornalístico começou de uma forma bem dinâmica. Após tocar muito rapidamente a trilha sonora de abertura, que por sinal, é sua marca registrada e passa a ideia de agilidade e força para o público, o JR entrou no ar com uma nota coberta sobre a renúncia do Papa. Em um plano aberto, os apresentadores deram as boas vindas aos telespectadores com o cordial “boa noite” e exibiram a nota gravada por Celso Freitas que fazia uma rápida retrospectiva sobre a trajetória de Bento XVI e, logo depois, informaram para o público que o telejornal ainda iria mostrar outros detalhes sobre o fato durante aquela edição. Foi assim que começou o Jornal da Record no dia em que o líder da igreja católica anunciou que deixaria o cargo. A primeira reportagem exibida naquela noite foi sobre uma jovem que foi dar à luz e saiu do hospital sem a criança. De acordo com os médicos, a gravidez era psicológica. A matéria exibe documentos médicos e vídeos pessoais da mulher na época da possível gravidez. A reportagem tem um tom de denúncia e mostra a repórter na entrada da delegacia de polícia que vai investigar o caso. O fato aconteceu no município de Mauá, Região Metropolitana de São Paulo, no dia 26/12/2012, mas só agora estava sendo divulgado no telejornal. 5 Disponível em: http://noticias.r7.com/jornal-da-record/conheca-a-equipe-que-faz-o-jornal-da-record-03032015 8 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 O Jornal da Record continua abordando assuntos relacionados à saúde e exibe na sequência uma reportagem sobre a falta de médicos nos hospitais públicos do Rio de Janeiro e tem como personagem principal da matéria um jovem que ficou nove horas esperando pelo neurocirurgião. O repórter não se limita ao caso específico e mostra a situação de outros pacientes que estão nas portas das unidades de saúde à espera de um atendimento médico. A matéria do repórter Sylvestre Serrano ainda resgata um caso do ano de 2012 que conta a história de uma criança de 10 anos que faleceu depois de ser vítima de uma bala perdida e ter esperado por mais de oito horas para ser atendida. Passagem do repórter Sylvestre Serrano - A falta de profissionais na área de saúde é um problema crônico nos hospitais públicos do Rio e que nos feriados prolongados se agrava. Nessas horas, as escalas de trabalho não refletem o que acontece dentro dos plantões das emergências. A equipe de reportagem entrou em algumas unidades de saúde do Rio de Janeiro e fez questão de mostrar a situação dos pacientes. Enquanto esperam os médicos, muitos pacientes se contorcem com dores. Já outros não conseguem nem respirar. O JR colheu várias entrevistas para humanizar o relato e mostrar que o problema da saúde pública no Brasil atinge diversas pessoas, principalmente as mais carentes. Para Medina (2003), a humanização do relato coloca o repórter mais próximo do outro. Uma sensibilidade diferenciada que se manifesta através do gesto, do olhar, da atitude corporal. Um repórter que se debruça sobre o entrevistado para sentir quem o outro, como se estivesse contemplando, especulando uma obra de arte da natureza, com respeito, curiosidade (ainda que a fonte de informação represente uma ideologia totalmente contrária à do repórter), por certo, esses fluidos positivos de uma percepção aberta chegarão, por complexos sinais, à percepção do entrevistado. Nunca é demais salientar que o diálogo se dá sobretudo no nível da sensibilidade. (MEDINA, 2003, p. 30-31). Dando prosseguimento, o Jornal da Record conta a história de uma argentina que estava grávida de sete meses e foi morta pelo marido em Belo Horizonte. Reconstituindo o fato e mostrando as fotos da vítima, a reportagem consegue fazer um resgate do caso sem ouvir nenhuma fonte. O VT é constituído apenas de “offs” e “passagem”. Quando a repórter aparece em cena, ela faz questão de enfatizar os momentos mais fortes do crime. Ela faz o papel da testemunha, como se estivesse presenciado a cena e conta com riqueza de detalhes o caso para o telespectador. Para Machado (2000), o jornalista faz o papel de porta-voz dos acontecimentos. 9 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 A menos que nós próprios sejamos os protagonistas, os eventos surgem para nós, espectadores, mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que reportam, aqueles que contam o que viram), porta-vozes, testemunhas oculares e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para construir „versões‟ do que acontece. [...] No telejornal só existem mediações; os próprios enunciados de repórteres e protagonistas aparecem como mediações inevitáveis e como a condição sine qua non6 do relato telejornalístico. (MACHADO, 2000, p. 102). Na reportagem do Jornal da Record, a repórter trabalha como mediadora, reconstruindo os acontecimentos. Ao ressaltar a intervenção dos repórteres e dos protagonistas como a de um grupo de pessoas que fala a respeito de coisas que viu, que sabe ou nas quais está envolvido, telejornal acaba por transformar a apresentação pessoal no próprio modo de constituição de sua estrutura significante (MACHADO, 2000, p. 106). Na sequência, o Jornal da Record exibe o primeiro VT sobre a renúncia do Papa Bento XVI. O jornalista Mauro Tagliaferri foi o repórter que ficou responsável por fazer a principal reportagem sobre o tema. Na época do acontecimento, Tagliaferri era corresponde da Record em Portugal e com a ajuda de imagens de arquivo fez uma retrospectiva sobre o pontificado de Joseph Ratzinger. Logo depois da matéria, os âncoras do telejornal chamam o repórter Mauro Tagliaferri que entra ao vivo e fala direto de Lisboa. O objetivo do link era para esclarecer como aconteceria o processo de sucessão de Bento XVI e quando isso iria efetivamente ocorrer. Depois do primeiro ao vivo, um segundo VT sobre o tema é chamado pelo apresentador Celso Freitas. Desta vez, a reportagem é de Heloisa Villela e mostra como foi a repercussão do fato pelo mundo. A jornalista é correspondente da Rede Record nos Estados Unidos. ANÁLISE DOS TELEJORNAIS Começamos a analisar o Jornal nacional na escalada de abertura que tem como “função despertar e manter a atenção e o interesse do telespectador do início ao final do noticiário” (Rezende, 2000), podemos observar que a notícia foi tratada com muito destaque pelo noticiário. É possível visualizar a presença de palavras bem enfáticas nas manchetes do Jornal Nacional, como: “O Papa surpreende o Planeta”. A escalada do JN faz um breve resumo sobre a renúncia de Bento XVI e tenta fazer uma retrospectiva 6 Sine qua non ou conditio sine qua non é uma expressão que originou-se do termo legal em latim que pode ser traduzido como “sem a/o qual não pode ser”. 10 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 da história de Ratzinger. Observe: “Os nossos repórteres trazem os momentos mais marcantes de seu pontificado. A viagem ao Brasil em dois mil e sete”. Logo após a escalada, o noticiário da Rede Globo começou com uma entrada ao vivo feita pelo repórter Marcos Losekann, direto da Cidade do Vaticano. Já o Jornal da Record não exibiu escalada, o telejornal começou com uma nota coberta de vinte segundos sobre a renúncia. Na sequência, a primeira reportagem exibida no JR não fazia referência ao tema desta pesquisa. TABELA 2 Comparativo de reportagens entre os telejornais JORNAL NACIONAL JORNAL DA RECORD VT Renúncia Papa VT Jovem Grávida VT Momentos Papa VT Falta Médico VT Sucessão Papa VT Morte Argentina VT Repercussão Papa VT Renúncia Papa VT Brasil Papa VT Repercussão Papa VT Juventude Papa VT Morte Boate VT Europa Papa VT Morte Transatlântico VT Carnaval Rio VT Especial Chile VT Polêmica Papa VT Ataque Florianópolis VT Carnaval Recife VT Carnaval Rio VT Violência Salvador VT Acidente Carro VT Especial Estradas Analisamos e cronometramos o tempo das entradas ao vivo do repórter Mauro Tagliaferri no Jornal da Record, direto da sede da emissora em Lisboa. O jornalista comentou e detalhou o processo de sucessão de Bento XVI. Sua única participação ao vivo dentro do JR contabilizou pouco mais de dois minutos. O Jornal Nacional quis fazer uma edição histórica do fato e ancorou boa parte do telejornal direto da Cidade do Vaticano com o jornalista Losekann. Direto da Itália, o jornalista entrou ao vivo seis vezes durante o JN. Sua participação se tornou ainda mais marcante no segundo bloco do noticiário da Rede Globo, quando Marcos Losekann 11 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 anunciou todas as reportagens direto da Praça de São Pedro. Com entradas curtas, a intervenção do repórter dentro do noticiário contabilizou mais de três minutos. TABELA 3 Tempo de entradas ao vivo Número de entradas ao vivo Tempo total de todas as entradas ao vivo Jornal Nacional 6 Jornal da Record 1 03‟32‟‟ 02‟02‟‟ A Rede Globo dedicou uma grande parte do seu principal telejornal a renúncia do Papa Bento XVI. O Jornal Nacional exibiu matérias sobre Joseph Ratzinger nos seus dois primeiros blocos. Já a Rede Record preferiu fazer seu telejornal de forma diferente, além de não exibir a tradicional escalada, o JR abriu a edição com uma rápida nota coberta informando a decisão Ratzinger e só voltou a noticiar e aprofundar o assunto, depois de exibir três reportagens sobre um possível erro médico, falta de médicos e a morte de uma estrangeira, respectivamente. Na tabela seguinte, podemos observar que o Jornal Nacional exibiu mais que o dobro de reportagens sobre o tema (Renúncia do Papa) e dedicou quase três vezes mais tempo na exibição das matérias do que o Jornal da Record. TABELA 4 Tempo das reportagens Número de matérias Tempo total Jornal Nacional 7 14‟44‟‟ Jornal da Record 3 05‟20‟‟ O telejornal da Rede Record ponderou e colocou no ar apenas três matérias, já o JN veiculou sete reportagens feitas nas principais capitais do mundo: Cidade do Vaticano, Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Paris, Nova York e encerrou com mais uma matéria no Rio que falava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). A cobertura do Jornal Nacional fica ainda mais evidente quando contabilizamos todos os tempos: reportagens e entradas ao vivo. No total, o Jornal Nacional dedicou mais de dezoito minutos da sua edição para a renúncia do Papa Bento XVI. Já o Jornal 12 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 da Record destinou pouco mais de sete minutos da edição do dia 11 de Fevereiro de 2013 para informar sobre a decisão de Joseph Ratzinger. TABELA 5 Tempo total Tempo total das reportagens Tempo total das entradas ao vivo Tempo total destinado ao tema7 Jornal Nacional Jornal da Record 14‟44‟‟ 05‟20‟‟ 03‟32‟‟ 02‟02‟‟ 18’16’’ 07’22’’ CONSIDERAÇÕES “Como será que os dois principais telejornais do país abordaram a renúncia do Papa?”, essa foi a pergunta inicial para a concretização deste trabalho. Além de noticiários importantes, os dois programas jornalísticos analisados são concorrentes e seguem linhas editoriais definidas pelas empresas que pertencem. No primeiro momento realizamos a catalogação do Jornal Nacional e Jornal da Record e depois, começamos a fazer a cronometragem do tempo de cada reportagem. Nesta etapa observamos que a nossa hipótese inicial de desarmonia na cobertura do caso entre o JN e o JR começou a ficar mais evidente. O Jornal da Record informou ao telespectador da renúncia de Joseph Ratzinger na abertura com uma nota coberta, mas preferiu abordar assuntos nacionais no primeiro bloco. O telejornal exibiu três matérias com um tom de denúncia e ainda exibiu o quadro “JR de Olho” com flagrantes de câmeras de circuito interno antes de exibir a primeira reportagem sobre o Papa Bento XVI, ou seja, o noticiário não colocou o assunto em um lugar de destaque na edição daquela noite. O Jornal Nacional parece que tenta seguir sua vocação inicial de mostrar os fatos mais importantes do dia de uma forma mais contextualizada, contribuindo para enfatizar o tema. Foi importante utilizar o “contexto comunicativo” como operador do modo de endereçamento para observarmos que o Jornal da Record possui alguns ingredientes de programas policiais, mas com um estilo bem mais refinado para o horário nobre. Em 7 Não foi contabilizado o tempo das cabeças das reportagens e nem o tempo de escalada/passagens de bloco e de possíveis chamadas dentro do telejornal e grade de programação. 13 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 todos os blocos do noticiário, é possível encontrar matérias de investigação, denúncia, violência, acidentes e flagrantes. O JR também tem o gênero opinativo no seu formato. Conseguimos observar claramente os comentários dos apresentadores depois da exibição de alguns VT‟s. As intervenções funcionam como um diálogo entre o casal, possivelmente, de forma improvisada por partes dos âncoras. No levantamento empírico, visualizamos que o Jornal Nacional destinou mais da metade do telejornal para a cobertura da renúncia do Papa Bento XVI. Na tentativa de segurar a audiência e prender o público, em todos os blocos, o JN abordou o caso com entradas ao vivo e com matérias sobre Joseph Ratzinger. Já o Jornal da Record não enfatizou tão fortemente a renúncia do Papa e a edição daquele dia permaneceu no formato de um dia tradicional, sem muitas novidades. A ordem das matérias apresentadas mostra como o telejornal da Rede Record é pensando e organizado diariamente. A análise da edição do dia 11 de fevereiro de 2013 dos dois noticiários mostra que embora exista uma frequente coincidência nos temas das matérias que são exibidas pelo JN e JR é possível avaliar que cada um traz sua visão e sua linha editorial bem definida e acabam se distanciando de se parecerem iguais. A pesquisa é o passo inicial para outros estudos na área do telejornalismo. É fundamental a análise de outros operadores do modo de endereçamento e de mais edições do Jornal Nacional e Jornal da Record. REFERÊNCIAS ALVES, Marcio Moreira. A igreja e a política no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979. AZEVEDO, Thales de. O catolicismo no Brasil : um campo para a pesquisa social. Salvador: Edufba, 2002. ELLSWORTH, Elizabeth. “Modos de Endereçamento: uma coisa de cinema; uma coisa de educação também.” In Silva, Tomaz Tadeu da (Org.). Nunca fomos humanos – nos rastros do sujeito, Belo Horizonte, Autêntica, 2001. IBGE. Censo 2010. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_religiao_deficie ncia/default_caracteristicas_religiao_deficiencia.shtm>. Acesso em: 14 mar. 2015. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. 7. reimpressão – São Paulo: Atlas, 2006. 14 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015 GOMES, Itania Maria Mota. Quem o Jornal do SBT pensa que somos? Modo de endereçamento no telejornalismo show, Porto Alegre, Revista da Famecos, nº25, dezembro de 2004. GUIMARÃES, Maria João; FERREIRA, Victor; SOUSA, Hugo Daniel. Papa Bento XVI renuncia a 28 de Fevereiro: "Sinto o peso do cargo". Público, Lisboa, 2013. JENSEN, Klaus-Bruhn. Making sense of the news: towards a theory and an empirical model of reception for the study of mass communication. Aarhus/Dennmark: Aarhus University Press, 1986. MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2000. MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente. Narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus, 2003. MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: A Notícia Faz História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2004. RECORD. Conheça a equipe que faz o Jornal da Record. Disponível em: <http://noticias.r7.com/jornal-da-record/conheca-a-equipe-que-faz-o-jornal-da-record03032015>. Acesso em: 17 mar. 2015. REZENDE, Guilherme Jorge de. Telejornalismo no Brasil: um perfil editorial. São Paulo, Sammus, 2000. 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