Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015
A cobertura jornalística da renúncia do Papa Bento XVI no Jornal Nacional e
Jornal da Record1
Maurício TEÓFILO2
Ana L. M. QUEZADO3
Universidade de Fortaleza, Fortaleza, CE
RESUMO
A pesquisa tem como proposta apresentar algumas evidências que mostram as
diferentes abordagens entre o Jornal Nacional e o Jornal da Record sobre a renúncia do
Papa Bento XVI. Observando as edições do dia em que aconteceu o anúncio feito por
Joseph Ratzinger, temos a pretensão de investigar e mostrar as possíveis diferenças
entre os telejornais das duas emissoras na cobertura de um único fato. Abordamos
também a trajetória da Igreja Católica no Brasil e as transformações que aconteceram
nas últimas décadas. Utilizando operadores do modo de endereçamento visualizamos a
identidade de cada noticiário, fazemos as análises e mostramos como cada veículo
retratou a renúncia do líder católico.
PALAVRAS-CHAVE: Bento XVI; Jornal Nacional; Jornal da Record; Telejornalismo.
INTRODUÇÃO
Todos os dias, as emissoras produzem seus telejornais de cobertura nacional
mostrando os fatos mais importantes que aconteceram no Brasil e no mundo. Na manhã
do dia 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciava que deixaria o cargo mais
importante da Igreja Católica que tem no Brasil 123.280.172 adeptos, segundo o último
Censo feito pelo IBGE em 2010. A partir daquele momento, a Rede Globo e a Rede
Record começavam a mobilizar seus repórteres para uma cobertura histórica. Segundo
Guimarães; Ferreira; Sousa (2013), a última vez que um Papa renunciou foi há quase
600 anos, quando Gregório XII anunciou sua saída da Santa Sé. Todos estavam
surpresos e a população brasileira esperava uma ampla cobertura do fato nos telejornais.
É importante ressaltar que a saída de Joseph Ratzinger não repercutiu somente
na esfera religiosa, mas também no campo político. Por todas essas questões, a presente
pesquisa tem como objetivo investigar e analisar a edição do Jornal Nacional e do Jornal
1
Trabalho apresentado no IJ 1 – Jornalismo do XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste
realizado de 2 a 4 de junho de 2015.
2
Graduado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza, email: [email protected]
3
Orientadora do trabalho. Professora do Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, email:
[email protected]
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da Record, para descobrir possíveis diferenças na forma de abordar o tema. Cada
emissora tem seus interesses comerciais, políticos, e os telejornais seguem uma linha
editorial definida por cada empresa.
Escolhemos o Jornal Nacional (JN) e o Jornal da Record (JR), por serem os dois
principais telejornais brasileiros e com a maior representatividade junto à população, a
partir dos índices de audiência. Os dois noticiários citados no artigo são exibidos de
segunda a sábado, quase na mesma faixa de horário. Momento em que boa parte da
classe trabalhadora já se encontra em seu domicílio.
Não podemos esquecer que os dois veículos têm diretores e bases religiosas
diferentes. A Rede Record tem como proprietário o Bispo Edir Macedo, fundador da
Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Já a Rede Globo é presidida por Roberto
Irineu Marinho, filho de Roberto Marinho.
Será que existe uma grande diferença na abordagem de um mesmo assunto entre
os dois principais telejornais do Brasil? Fizemos um estudo de caso exploratório para
identificar a forma de abordagem da renúncia do Papa. Essa é a primeira parte para uma
investigação mais profunda, ao mesmo tempo também utilizamos os recursos
bibliográficos.
O estudo de caso é muito frequente na pesquisa social, devido à sua relativa
simplicidade e economia, já que pode ser realizado por único investigador, ou
por um grupo pequeno e não requer a aplicação de técnicas de massa para coleta
de dados, como ocorre nos levantamentos. A maior utilidade do estudo de caso
é verificada nas pesquisas exploratórias. Por sua flexibilidade, é recomendável
nas fases de uma investigação sobre temas complexos, para a construção de
hipóteses ou reformulação do problema. Também se aplica com pertinência nas
situações em que o objeto de estudo já é suficientemente conhecido a ponto de
ser enquadrado em determinado tipo ideal (GIL, 2002, p. 140).
O primeiro passo foi analisar as duas edições e fazer a cronometragem de todos
os tempos. Após o cálculo do tempo total das matérias, analisamos o formato do
telejornal, a forma em que foram feitas as reportagens do dia e como foi organizada a
ordem para a exibição. Nosso foco era descobrir de onde elas foram feitas e qual o
formato. O texto da “cabeça” da reportagem também foi analisado, mas o tempo não foi
computado. O principal objetivo foi mostrar o tempo que cada emissora destinou para o
assunto e como elas prepararam a cobertura. Vale lembrar que o anúncio aconteceu às
11h30 no horário local (Cidade do Vaticano) e às 08h30 no horário brasileiro de verão.
As equipes dos dois telejornais tiveram quase o dia inteiro para pensarem, organizarem
e executarem suas tarefas.
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Durante o processo exploratório decidimos contabilizar também o tempo das
entradas ao vivo e de que forma o repórter participou do noticiário. Podemos destacar
também que foram feitas transcrições das “escaladas” e “cabeças” das principais
reportagens de cada telejornal.
METODOLOGIA
A forma de fazer televisão, inspirada inicialmente no rádio e no teatro, foi
aprimorada e se modificou com o passar dos anos. Analisar um veículo de comunicação
tão complexo é um grande desafio, pela sua heterogeneidade e instantaneidade. Para
Machado (2000), antes de analisar, é preciso primeiro entender o conceito de televisão.
(...) o que o analista efetivamente viu na televisão, que conjunto de experiências
audiovisuais ele conhece, qual é a sua “cultura” televisual. (...) Para falar de
televisão é preciso definir o corpus, ou seja, o conjunto de experiências que
definem o que estamos justamente chamando de televisão. (MACHADO, 2000,
p. 19 e 20).
Diferente do jornal impresso e do noticiário no rádio, os programas jornalísticos
da TV utilizam a imagem e o áudio. A junção dessas duas narrativas forma uma grande
mensagem que é aberta para intepretações.
[...] o gênero notícia televisiva expõe duas narrativas paralelas: a narrativa
visual, que se coloca como um documento do que realmente aconteceu, assim
demonstrando a pretensão da objetividade, e a narrativa falada que contribui
com informação complementar, ainda que permaneça relativamente distinta,
sem comprometer o status da narrativa visual como pura informação. Para a
audiência, essa convenção de gênero contribui para a potencial heterogeneidade
da experiência com o jornalismo. Qualquer que seja sua justificação econômica
ou organizacional, a convenção resulta numa estrutura de mensagem que é
relativamente aberta a um leque de interpretações (JENSEN, 1986, p. 65).
Nesta pesquisa, utilizamos o método exploratório para fazer a busca e a
catalogação dos telejornais e adotamos o modo de endereçamento para realizar as
análises. “O conceito de modo de endereçamento surge na análise fílmica,
especialmente aquela vinculada à screen theory4 e tem sido, desde os anos 80, adaptado
para interpretação do modo como os programas televisivos constroem sua relação com
os telespectadores” (GOMES, 2004).
4
O termo ''screen-theory" é largamente empregado para denominara produção de Screen durante a década de 70.
Quando grafado em minúsculas, o composto institui uma tensão polissêmica entre o nome da revista e o significado
do substantivo screen (tela), em alusão à fundação teórica da screen-theory na teoria francesa do dispositivo.
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É importante ressaltar também que “o modo de endereçamento não é um
momento visual ou falado, mas uma estruturação – que se desenvolve ao longo do
tempo – das relações entre o filme e os seus espectadores” (ELLSWORTH, 2001, p.
17).
Durante a pesquisa, escolhemos o “contexto comunicativo” como operador do
modo de endereçamento para investigar os noticiários. Desenvolvido por Gomes (2004),
o “contexto comunicativo” é a identidade que o telejornal utiliza para se comunicar com
o seu público. Através do operador, podemos observar as escolhas técnicas, cenário,
postura dos âncoras e a forma que o programa jornalístico se organiza para se aproximar
do telespectador.
O PÚBLICO RELIGIOSO NO BRASIL
A Igreja Católica é umas das instituições religiosas mais antigas do mundo que
está em plena atividade. A história dela se confunde com a própria trajetória da
humanidade em vários aspectos e, no Brasil, o catolicismo está profundamente
enraizado com a formação do País. A Igreja teve forte influência na construção da
cultura e das crenças do povo brasileiro. A instituição também esteve presente em
momentos importantes e decisivos da história do País, desde a chegada dos primeiros
colonizadores, influenciando nas revoltas e revoluções do Estado e nos dias atuais,
ainda tem um forte prestígio.
Muitas cidades brasileiras nasceram e foram se desenvolvendo em volta de um
forte ou de uma paróquia da Igreja Católica. Toda essa estrutura foi criada ainda no
período em que os portugueses chegaram ao Brasil e os jesuítas colaboraram para o
desenvolvimento e fortalecimento da religião no País.
Os Jesuítas foram os primeiros a lançar uma ponte entre os europeus e os
indígenas. Construíram as primeiras escolas e ajudaram à organização dos
primeiros hospitais. Os Beneditinos, os Carmelitas, os Franciscanos semearam
mosteiros pelo litoral e mesmo no interior, onde o trabalho nas minas não
deixava muita mão-de-obra disponível para o serviço de Deus. Por todo o lado
onde os portugueses chegaram ao longo dos dois primeiros séculos, elevaram-se
igrejas e capelas, muitas delas cobertas de ouro, cheias de obras de arte.
(ALVES, 1979, p. 17).
O catolicismo desembarcou em terras brasileiras junto com os exploradores e
missionários portugueses. Na época, a igreja era subordinada e sustentada pelo Estado,
que organizava toda a estrutura.
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Até então, o catolicismo era a religião oficial do regime monárquico e a Igreja,
praticamente, estava subordinada ao Estado em virtude do caráter regalista da
legislação civil. Durante aquele período, houve alguns conflitos muito sérios
entre as autoridades civis e religiosas; por vezes, o Estado intervinha na
nomeação dos bispos e até tomava medidas contra a Igreja, como o fechamento
dos noviciados das ordens religiosas por muitos anos e a prisão de dois bispos
que tentavam livrar as irmandades da influência maçônica. (AZEVEDO, 2002,
p. 32).
A igreja só se desvinculou do Estado quando o Brasil virou República e se
tornou um Estado secular, com liberdade religiosa. Mesmo o Brasil sendo um Estado
laico, o calendário oficial do país está cheio de feriados e dias em homenagem aos
santos da igreja católica.
De acordo com o último censo do IBGE (2010), existem 123 milhões de
católicos no Brasil, representando 64,6% da população.
Diante desses números, o tema “religião” é pauta recorrente nos telejornais do
Brasil, ainda com predominância de assuntos ligados ao catolicismo. Se formos analisar
dentro das chamadas “Variáveis de Noticiabilidade”, de Mauro Wolf, os fatos
relacionados à religião tem inúmeras razões para virar notícia: impacto sobre a nação,
número de pessoas envolvidas, dentre outras. Para Wolf (1999), tais movimentos
começam a constituir notícia, a ultrapassar o limiar da noticiabilidade, quando se
considera que se tornaram suficientemente significativos e relevantes para irem ao
encontro do interesse do público.
JORNAL NACIONAL
O Jornal Nacional é um dos programas mais antigos da Rede Globo, surgiu em
1969. A primeira edição foi ancorada por Hilton Gomes e Cid Moreira (MEMÓRIA
GLOBO, 2004).
No dia 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI tinha anunciado no começo
da manhã, no horário de Brasília, que deixaria o cargo. Dezenas de profissionais da
Rede Globo começavam a preparar a edição considerada especial e histórica para o JN.
No seu horário habitual, o Jornal Nacional entrou no ar com sua tradicional
escalada, que desperta a curiosidade e chama atenção do público. Com seu arranjo
musical inconfundível, o tema de abertura do JN é o mesmo desde a primeira edição em
1969. Com o passar dos anos, sofreu poucas modificações e se tornou ainda mais
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rápido, passando a ideia de agilidade. O anúncio de Joseph Ratzinger ganhou destaque
na escalada da edição analisada, conforme está descrito abaixo.
TABELA 1
Escalada do Jornal Nacional
Jornal Nacional – 11/02/2013
Alexandre Garcia - ONZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E TREZE./
Heraldo Pereira - O PAPA SURPREENDE O PLANETA./
Alexandre Garcia - BENTO DEZESSEIS ANUNCIA QUE VAI RENUNCIAR O CARGO
NO DIA VINTE OITO DE FEVEREIRO./
Heraldo Pereira - PRESTES A COMPLETAR OITENTA E SEIS ANOS EXPLICA QUE A
RENÚNCIA É PELA IDADE AVANÇADA./
Alexandre Garcia - POR NÃO TER MAIS FORÇA PARA EXERCER A FUNÇÃO./
Heraldo Pereira - FORAM SETE ANOS E DEZ MESES A FRENTE DA IGREJA
CATÓLICA./
Alexandre Garcia - NOSSOS REPÓRTERES TRAZEM OS MOMENTOS MAIS
IMPORTANTES DO SEU PONTIFICADO./
Heraldo Pereira - A VIAGEM AO BRASIL EM DOIS MIL E SETE./
Alexandre Garcia - A REPERCUSSÃO EM TODO MUNDO./
Heraldo Pereira - E COMO SERÁ O PROCESSO DE SUCESSÃO./
Alexandre Garcia - VEJA TAMBÉM!/
Heraldo Pereira - A SEGUNDA DE CARNAVAL PELO BRASIL./
Alexandre Garcia - A PRIMEIRA NOITE DO GRUPO ESPECIAL DO CARNAVAL DO
RIO./ LUXO, TECNOLOGIA E MUITA FANTASIA TOMAM A MARQUÊS DE
SAPUCAÍ./
Heraldo Pereira - AGORA NO JORNAL NACIONAL.//
Além do anúncio da renúncia do Papa, as notícias do carnaval brasileiro também
entraram nas manchetes do JN. A escalada do noticiário é feita no plano fechado,
enquadrando apenas um âncora por vez, no sistema de ping pong e sempre é gravada
antes do telejornal começar. Isso acontece porque a escalada é a parte mais dinâmica do
telejornal e, com isso, o risco de alguma coisa “sair do controle” é menor.
A principal função da escalada é despertar e manter a atenção e o interesse do
telespectador do início ao final do noticiário. Além das manchetes, como
recurso para dar ritmo ao programa, a escalada pode conter também teasers,
intervenções de um repórter sob a forma de um texto breve em que se busca
incitar a curiosidade do telespectador por uma determinada matéria que vai ser
divulgada no telejornal. (REZENDE, 2000, p. 147).
Depois da escalada, a vinheta do Jornal Nacional aparece rapidamente deixando
sua marca e informando que o telejornal já está no ar. No plano aberto, podemos
observar ao fundo e abaixo, a redação da emissora. Também visualizamos um mapamúndi no fundo e acima dos apresentadores que passa a ideia de que o noticiário está
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interligado e presente em todas as regiões. A câmera vai se aproximando, os
apresentadores dão o tradicional “boa noite” e prontamente a informação é repassada
para o público. Alexandre Garcia começa e, logo depois, Heraldo Pereira encerra a
primeira “cabeça” que chama, já na abertura do jornal, o correspondente Marcos
Losekann, direto da Cidade do Vaticano.
Alexandre Garcia – “O Papa Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar que
deixará a liderança da Igreja Católica no fim do mês, renunciando ao papado.
Aos 85 anos, ele alegou falta de forças”.
Heraldo Pereira – “A última renúncia de um papa foi há quase 600 anos. Os
enviados especiais, Marcos Losekann e Sérgio Gilz, já estão na cidade do
Vaticano e é pra lá que nós vamos ao vivo. Muito boa noite, Losekann”.
Mostrando a agilidade do JN, o correspondente que foi enviado especialmente
para cobrir os acontecimentos no Vaticano, ancorou boa parte do Jornal Nacional, já
que a correspondente oficial da Rede Globo na Itália, Ilze Scamparini, estava de férias
no Brasil. O repórter começa a sua participação informando ao telespectador como foi
difícil chegar ao Vaticano.
Marcos Losekann – “Boa noite, Heraldo, Alexandre. Boa noite a todos. Não
foi fácil chegar hoje aqui ao Vaticano. Foi uma viagem de duas horas e meia em
um jatinho de Londres até Roma, nos últimos dez minutos foram debaixo de
uma tempestade. Uma das piores, segundo os romanos, dos últimos dez anos.
Muitos raios, trovões, turbulências. Quase o piloto precisou arremeter, pra
pousar sabe Deus onde. Mas nós conseguimos chegar, estava muito
congestionado o trânsito. Estamos aqui agora, acompanhando tudo o que está
acontecendo. [...]”.
Enviar o repórter ao local da notícia passa a ideia de que o Jornal Nacional está
presente onde o fato acontece. Seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. “As
entradas valorizam o potencial do jornal em estar no local dos acontecimentos. Essa
pode ser uma das estratégias acionadas pelo programa para atingir, [...] os referenciais
jornalísticos de agilidade, atualidade, rapidez e prontidão” (GOMES, 2007).
No final da sua fala, Marcos Losekann chama a primeira reportagem sobre a
renúncia do Papa Bento XVI. O objetivo da reportagem é contar como aconteceu o
anúncio que deixou todos sem reposta. Na sequência, depois de exibir a primeira
matéria, os âncoras informam ao telespectador que a correspondente Ilze Scamparini foi
surpreendida com a notícia da renúncia durante suas férias.
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Alexandre Garcia – “A renúncia do Papa pegou a correspondente em Roma e
no Vaticano, Ilze Scamparini em férias no Brasil. Ela acompanhou de perto os
quase oito anos em que Bento XVI comandou a Igreja Católica”.
Heraldo Pereira – “Antes de embarcar de volta para a Itália, a Ilze separou os
momentos importantes desse pontificado”.
JORNAL DA RECORD
O Jornal da Record é o principal telejornal da Rede Record e é definido no texto
institucional de divulgação, disponível no site do programa, como "confiável, ágil,
moderno, grandes reportagens e séries especiais. Uma equipe competente, dedicada e
afinada. Assim é o Jornal da Record".5
Além de apresentar as notícias que ganharam repercussão, o JR tem a proposta
de toda semana apresentar uma série de reportagem com matérias especiais sobre
assuntos variados de interesse dos brasileiros. Na edição que estamos analisando, o
telejornal exibiu uma matéria especial sobre o Chile, da série O País dos Vulcões. O
noticiário começou sem escalada.
No dia 11 de fevereiro de 2013, o jornalístico começou de uma forma bem
dinâmica. Após tocar muito rapidamente a trilha sonora de abertura, que por sinal, é sua
marca registrada e passa a ideia de agilidade e força para o público, o JR entrou no ar
com uma nota coberta sobre a renúncia do Papa.
Em um plano aberto, os apresentadores deram as boas vindas aos telespectadores
com o cordial “boa noite” e exibiram a nota gravada por Celso Freitas que fazia uma
rápida retrospectiva sobre a trajetória de Bento XVI e, logo depois, informaram para o
público que o telejornal ainda iria mostrar outros detalhes sobre o fato durante aquela
edição. Foi assim que começou o Jornal da Record no dia em que o líder da igreja
católica anunciou que deixaria o cargo.
A primeira reportagem exibida naquela noite foi sobre uma jovem que foi dar à
luz e saiu do hospital sem a criança. De acordo com os médicos, a gravidez era
psicológica. A matéria exibe documentos médicos e vídeos pessoais da mulher na época
da possível gravidez. A reportagem tem um tom de denúncia e mostra a repórter na
entrada da delegacia de polícia que vai investigar o caso. O fato aconteceu no município
de Mauá, Região Metropolitana de São Paulo, no dia 26/12/2012, mas só agora estava
sendo divulgado no telejornal.
5
Disponível em: http://noticias.r7.com/jornal-da-record/conheca-a-equipe-que-faz-o-jornal-da-record-03032015
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O Jornal da Record continua abordando assuntos relacionados à saúde e exibe na
sequência uma reportagem sobre a falta de médicos nos hospitais públicos do Rio de
Janeiro e tem como personagem principal da matéria um jovem que ficou nove horas
esperando pelo neurocirurgião. O repórter não se limita ao caso específico e mostra a
situação de outros pacientes que estão nas portas das unidades de saúde à espera de um
atendimento médico. A matéria do repórter Sylvestre Serrano ainda resgata um caso do
ano de 2012 que conta a história de uma criança de 10 anos que faleceu depois de ser
vítima de uma bala perdida e ter esperado por mais de oito horas para ser atendida.
Passagem do repórter Sylvestre Serrano - A falta de profissionais na área de
saúde é um problema crônico nos hospitais públicos do Rio e que nos feriados
prolongados se agrava. Nessas horas, as escalas de trabalho não refletem o que
acontece dentro dos plantões das emergências.
A equipe de reportagem entrou em algumas unidades de saúde do Rio de Janeiro
e fez questão de mostrar a situação dos pacientes. Enquanto esperam os médicos, muitos
pacientes se contorcem com dores. Já outros não conseguem nem respirar. O JR colheu
várias entrevistas para humanizar o relato e mostrar que o problema da saúde pública no
Brasil atinge diversas pessoas, principalmente as mais carentes. Para Medina (2003), a
humanização do relato coloca o repórter mais próximo do outro.
Uma sensibilidade diferenciada que se manifesta através do gesto, do olhar, da
atitude corporal. Um repórter que se debruça sobre o entrevistado para sentir
quem o outro, como se estivesse contemplando, especulando uma obra de arte
da natureza, com respeito, curiosidade (ainda que a fonte de informação
represente uma ideologia totalmente contrária à do repórter), por certo, esses
fluidos positivos de uma percepção aberta chegarão, por complexos sinais, à
percepção do entrevistado. Nunca é demais salientar que o diálogo se dá
sobretudo no nível da sensibilidade. (MEDINA, 2003, p. 30-31).
Dando prosseguimento, o Jornal da Record conta a história de uma argentina que
estava grávida de sete meses e foi morta pelo marido em Belo Horizonte.
Reconstituindo o fato e mostrando as fotos da vítima, a reportagem consegue fazer um
resgate do caso sem ouvir nenhuma fonte. O VT é constituído apenas de “offs” e
“passagem”.
Quando a repórter aparece em cena, ela faz questão de enfatizar os momentos
mais fortes do crime. Ela faz o papel da testemunha, como se estivesse presenciado a
cena e conta com riqueza de detalhes o caso para o telespectador. Para Machado (2000),
o jornalista faz o papel de porta-voz dos acontecimentos.
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A menos que nós próprios sejamos os protagonistas, os eventos surgem para
nós, espectadores, mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que
reportam, aqueles que contam o que viram), porta-vozes, testemunhas oculares
e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para
construir „versões‟ do que acontece. [...] No telejornal só existem mediações; os
próprios enunciados de repórteres e protagonistas aparecem como mediações
inevitáveis e como a condição sine qua non6 do relato telejornalístico.
(MACHADO, 2000, p. 102).
Na reportagem do Jornal da Record, a repórter trabalha como mediadora,
reconstruindo os acontecimentos.
Ao ressaltar a intervenção dos repórteres e dos protagonistas como a de um
grupo de pessoas que fala a respeito de coisas que viu, que sabe ou nas quais
está envolvido, telejornal acaba por transformar a apresentação pessoal no
próprio modo de constituição de sua estrutura significante (MACHADO, 2000,
p. 106).
Na sequência, o Jornal da Record exibe o primeiro VT sobre a renúncia do Papa
Bento XVI. O jornalista Mauro Tagliaferri foi o repórter que ficou responsável por fazer
a principal reportagem sobre o tema. Na época do acontecimento, Tagliaferri era
corresponde da Record em Portugal e com a ajuda de imagens de arquivo fez uma
retrospectiva sobre o pontificado de Joseph Ratzinger.
Logo depois da matéria, os âncoras do telejornal chamam o repórter Mauro
Tagliaferri que entra ao vivo e fala direto de Lisboa. O objetivo do link era para
esclarecer como aconteceria o processo de sucessão de Bento XVI e quando isso iria
efetivamente ocorrer. Depois do primeiro ao vivo, um segundo VT sobre o tema é
chamado pelo apresentador Celso Freitas. Desta vez, a reportagem é de Heloisa Villela
e mostra como foi a repercussão do fato pelo mundo. A jornalista é correspondente da
Rede Record nos Estados Unidos.
ANÁLISE DOS TELEJORNAIS
Começamos a analisar o Jornal nacional na escalada de abertura que tem como
“função despertar e manter a atenção e o interesse do telespectador do início ao final do
noticiário” (Rezende, 2000), podemos observar que a notícia foi tratada com muito
destaque pelo noticiário. É possível visualizar a presença de palavras bem enfáticas nas
manchetes do Jornal Nacional, como: “O Papa surpreende o Planeta”. A escalada do
JN faz um breve resumo sobre a renúncia de Bento XVI e tenta fazer uma retrospectiva
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Sine qua non ou conditio sine qua non é uma expressão que originou-se do termo legal em latim que pode ser
traduzido como “sem a/o qual não pode ser”.
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da história de Ratzinger. Observe: “Os nossos repórteres trazem os momentos mais
marcantes de seu pontificado. A viagem ao Brasil em dois mil e sete”.
Logo após a escalada, o noticiário da Rede Globo começou com uma entrada ao
vivo feita pelo repórter Marcos Losekann, direto da Cidade do Vaticano.
Já o Jornal da Record não exibiu escalada, o telejornal começou com uma nota
coberta de vinte segundos sobre a renúncia. Na sequência, a primeira reportagem
exibida no JR não fazia referência ao tema desta pesquisa.
TABELA 2
Comparativo de reportagens entre os telejornais
JORNAL NACIONAL
JORNAL DA RECORD
VT Renúncia Papa
VT Jovem Grávida
VT Momentos Papa
VT Falta Médico
VT Sucessão Papa
VT Morte Argentina
VT Repercussão Papa
VT Renúncia Papa
VT Brasil Papa
VT Repercussão Papa
VT Juventude Papa
VT Morte Boate
VT Europa Papa
VT Morte Transatlântico
VT Carnaval Rio
VT Especial Chile
VT Polêmica Papa
VT Ataque Florianópolis
VT Carnaval Recife
VT Carnaval Rio
VT Violência Salvador
VT Acidente Carro
VT Especial Estradas
Analisamos e cronometramos o tempo das entradas ao vivo do repórter Mauro
Tagliaferri no Jornal da Record, direto da sede da emissora em Lisboa. O jornalista
comentou e detalhou o processo de sucessão de Bento XVI. Sua única participação ao
vivo dentro do JR contabilizou pouco mais de dois minutos.
O Jornal Nacional quis fazer uma edição histórica do fato e ancorou boa parte do
telejornal direto da Cidade do Vaticano com o jornalista Losekann. Direto da Itália, o
jornalista entrou ao vivo seis vezes durante o JN. Sua participação se tornou ainda mais
marcante no segundo bloco do noticiário da Rede Globo, quando Marcos Losekann
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anunciou todas as reportagens direto da Praça de São Pedro. Com entradas curtas, a
intervenção do repórter dentro do noticiário contabilizou mais de três minutos.
TABELA 3
Tempo de entradas ao vivo
Número de entradas ao vivo
Tempo total de todas as
entradas ao vivo
Jornal Nacional
6
Jornal da Record
1
03‟32‟‟
02‟02‟‟
A Rede Globo dedicou uma grande parte do seu principal telejornal a renúncia
do Papa Bento XVI. O Jornal Nacional exibiu matérias sobre Joseph Ratzinger nos seus
dois primeiros blocos.
Já a Rede Record preferiu fazer seu telejornal de forma diferente, além de não
exibir a tradicional escalada, o JR abriu a edição com uma rápida nota coberta
informando a decisão Ratzinger e só voltou a noticiar e aprofundar o assunto, depois de
exibir três reportagens sobre um possível erro médico, falta de médicos e a morte de
uma estrangeira, respectivamente.
Na tabela seguinte, podemos observar que o Jornal Nacional exibiu mais que o
dobro de reportagens sobre o tema (Renúncia do Papa) e dedicou quase três vezes mais
tempo na exibição das matérias do que o Jornal da Record.
TABELA 4
Tempo das reportagens
Número de matérias
Tempo total
Jornal Nacional
7
14‟44‟‟
Jornal da Record
3
05‟20‟‟
O telejornal da Rede Record ponderou e colocou no ar apenas três matérias, já o
JN veiculou sete reportagens feitas nas principais capitais do mundo: Cidade do
Vaticano, Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Paris, Nova York e encerrou com mais
uma matéria no Rio que falava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
A cobertura do Jornal Nacional fica ainda mais evidente quando contabilizamos
todos os tempos: reportagens e entradas ao vivo. No total, o Jornal Nacional dedicou
mais de dezoito minutos da sua edição para a renúncia do Papa Bento XVI. Já o Jornal
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da Record destinou pouco mais de sete minutos da edição do dia 11 de Fevereiro de
2013 para informar sobre a decisão de Joseph Ratzinger.
TABELA 5
Tempo total
Tempo total das
reportagens
Tempo total das entradas
ao vivo
Tempo total destinado ao
tema7
Jornal Nacional
Jornal da Record
14‟44‟‟
05‟20‟‟
03‟32‟‟
02‟02‟‟
18’16’’
07’22’’
CONSIDERAÇÕES
“Como será que os dois principais telejornais do país abordaram a renúncia do
Papa?”, essa foi a pergunta inicial para a concretização deste trabalho. Além de
noticiários importantes, os dois programas jornalísticos analisados são concorrentes e
seguem linhas editoriais definidas pelas empresas que pertencem.
No primeiro momento realizamos a catalogação do Jornal Nacional e Jornal da
Record e depois, começamos a fazer a cronometragem do tempo de cada reportagem.
Nesta etapa observamos que a nossa hipótese inicial de desarmonia na cobertura do caso
entre o JN e o JR começou a ficar mais evidente.
O Jornal da Record informou ao telespectador da renúncia de Joseph Ratzinger
na abertura com uma nota coberta, mas preferiu abordar assuntos nacionais no primeiro
bloco. O telejornal exibiu três matérias com um tom de denúncia e ainda exibiu o
quadro “JR de Olho” com flagrantes de câmeras de circuito interno antes de exibir a
primeira reportagem sobre o Papa Bento XVI, ou seja, o noticiário não colocou o
assunto em um lugar de destaque na edição daquela noite.
O Jornal Nacional parece que tenta seguir sua vocação inicial de mostrar os fatos
mais importantes do dia de uma forma mais contextualizada, contribuindo para enfatizar
o tema.
Foi importante utilizar o “contexto comunicativo” como operador do modo de
endereçamento para observarmos que o Jornal da Record possui alguns ingredientes de
programas policiais, mas com um estilo bem mais refinado para o horário nobre. Em
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Não foi contabilizado o tempo das cabeças das reportagens e nem o tempo de escalada/passagens de bloco e de
possíveis chamadas dentro do telejornal e grade de programação.
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todos os blocos do noticiário, é possível encontrar matérias de investigação, denúncia,
violência, acidentes e flagrantes.
O JR também tem o gênero opinativo no seu formato. Conseguimos observar
claramente os comentários dos apresentadores depois da exibição de alguns VT‟s. As
intervenções funcionam como um diálogo entre o casal, possivelmente, de forma
improvisada por partes dos âncoras.
No levantamento empírico, visualizamos que o Jornal Nacional destinou mais da
metade do telejornal para a cobertura da renúncia do Papa Bento XVI. Na tentativa de
segurar a audiência e prender o público, em todos os blocos, o JN abordou o caso com
entradas ao vivo e com matérias sobre Joseph Ratzinger.
Já o Jornal da Record não enfatizou tão fortemente a renúncia do Papa e a edição
daquele dia permaneceu no formato de um dia tradicional, sem muitas novidades. A
ordem das matérias apresentadas mostra como o telejornal da Rede Record é pensando e
organizado diariamente.
A análise da edição do dia 11 de fevereiro de 2013 dos dois noticiários mostra
que embora exista uma frequente coincidência nos temas das matérias que são exibidas
pelo JN e JR é possível avaliar que cada um traz sua visão e sua linha editorial bem
definida e acabam se distanciando de se parecerem iguais.
A pesquisa é o passo inicial para outros estudos na área do telejornalismo. É
fundamental a análise de outros operadores do modo de endereçamento e de mais
edições do Jornal Nacional e Jornal da Record.
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