FACULDADES UNIDAS DO NORTE DE MINAS Núcleo Governador Valadares IMPORTÂNCIA DA DIABETES NO PLANEJAMENTO DE IMPLANTES DENTÁRIOS FÁBIO LUIZ ARAÚJO BARBOSA Governador Valadares-MG Outubro/ 2012 FÁBIO LUIZ ARAÚJO BARBOSA IMPORTÂNCIA DA DIABETES NO PLANEJAMENTO DE IMPLANTES DENTÁRIOS Monografia apresentada a Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE), como parte das exigências do Programa de Especialização em Implantodontia. Orientador: Prof. Ms. Johnver Saraiva Purysko Governador Valadares-MG Outubro/ 2012 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, por mais uma etapa cumprida em minha vida. A minha esposa pelo apoio, carinho e compreensão. Aos colegas pela companhia e troca de experiências obtidas. Ao corpo docente por nos ensinar da maneira mais simples e competente o que sabem. RESUMO O Diabete Mellitus (DM) é uma síndrome decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade desta de exercer adequadamente seus efeitos. Estudos indicam que o DM tem uma tendência a prejudicar o osso ao redor dos implantes já osseointegrados e a insulina é capaz de manter a estabilidade da osseointegração. Contudo, avaliando que pacientes diabéticos estão mais propensos a complicações de cicatrização, o objetivo deste estudo é discutir a eficácia e as controvérsias quanto às contra indicações da implantodontia em pacientes com diagnóstico clínico de DM além de verificar formas de controle dos implantes e osseointegração. Conclui-se que existe uma forte influência entre o DM e o estado de saúde bucal de seus portadores. Porém, não há uma contra indicação absoluta para a colocação de implantes dentários. Palavras-chave: Diabetes Mellitus; Osseointegração; Implantes Dentários. ABSTRACT The Diabetes Mellitus (DM) is a syndrome resulting from lack of insulin and/or the inability of insulin to properly exercise its effects. Studies indicate that diabetes has a tendency to damage the bone around the implants already osseointegrated and insulin is able to maintain a stable osseointegration. However, considering that diabetics are more prone to healing complications, the aim of this study is to discuss the controversies regarding the efficacy and contraindications of the implant a patient with clinical diagnosis of DM, and to identify ways to control implants and osseointegration. It can be concluded that there is a strong influence between the DM and the oral health status of their bearers. But it is not an absolute contraindication for dental implant placement. Keywords: Diabetes Mellitus; Osseointegration; Dental Implants. LISTA DE ABREVIATURAS AINES Antiinflamatórios Não-Esteroidais CBD Consenso Brasileiro sobre Diabetes DM Diabetes Mellitus NPH Insulina de Ação Intermediária OMS Organização Mundial de Saúde SBD Sociedade Brasileira de Diabetes SRD Subtração Radiográfica Digital Ti Titânio TIGO Teste de Tolerância a Glicose Oral SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 07 2 REVISÃO DE LITERATURA ................................................................................. 09 2.1 Diabetes Mellitus ............................................................................................. 09 2.1.1 Classificação ............................................................................................. 09 2.1.2 Diagnóstico ............................................................................................... 10 2.1.3 Manifestações clínicas .............................................................................. 11 2.1.4 Manifestações bucais .............................................................................. 122 2.1.5 Conduta..................................................................................................... 14 2.2 Implantes dentários ......................................................................................... 15 2.2.1 Conceito .................................................................................................... 15 2.2.2 Osseointegração ....................................................................................... 16 2.2.3 Preparo pré-operatório .............................................................................. 20 2.2.4 Avaliação da osseointegração .................................................................. 21 3 DISCUSSÃO .......................................................................................................... 23 4 CONCLUSÕES ...................................................................................................... 27 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 28 7 1 INTRODUÇÃO Segundo o Consenso Brasileiro sobre Diabetes (2002), o DM é uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade da insulina de exercer adequadamente seus efeitos. Caracteriza-se por hiperglicemia crônica, frequentemente acompanhada de dislipidemia (níveis elevados ou anormais de lipídios e/ou lipoproteínas no sangue), hipertensão arterial e disfunção endotelial. Em seu estudo, Souza et al. (2003) verificou uma tendência de maior prevalência de DM em pessoas com baixo grau de instrução, e aumento de 2,1% na faixa de 18-29 anos, para 18,3% nos pacientes acima de 70 anos de idade (p<0,001). O DM influencia todos os períodos do tratamento com implantes, desde o pré ao pós-operatório. Sendo assim, Sousa et al. (2003) preconizam que haja na fase inicial a avaliação glicêmica, a aferição da pressão arterial, exames clínicos e complementares necessários antes dos procedimentos invasivos. Vale ressaltar que o paciente diabético apresenta alterações fisiológicas que diminuem a capacidade imunológica e a resposta inflamatória, aumentando a susceptibilidade às infecções (ALVES et al. 2006). De acordo com Aguiar et al. (2009) o uso de implantes osseointegrados tem se tornado nos últimos anos um método difundido, considerando-se uma alternativa eficaz na substituição dos dentes perdidos. Para os autores cresce a exigência do cirurgião-dentista especialista em Implantodontia um específico conhecimento sobre as possibilidades de sucesso desta terapia e a melhor maneira de se executar o procedimento cirúrgico e a manutenção dos implantes. O DM é considerado um sério problema de saúde pública no Brasil e no mundo, em função, tanto do crescente número de pessoas atingidas quanto pela complexidade que constitui o processo de viver com essa doença. No Brasil, há aproximadamente 5 a 8 milhões de portadores, tratando-se, desta forma, de um assunto com destaque na atualidade (DANTAS et al. 2010). Dantas et al. (2010) destacam que há aumento da incidência e prevalência, alcançando proporções epidêmicas. Estão associados ainda a complicações que comprometem a produtividade, a qualidade de vida e a sobrevida dos indivíduos. Yarid et al. (2010) ressaltam ainda a responsabilidade do profissional quanto aos glicosímetros no atendimento direcionado ao paciente diabético, para verificação 8 dos níveis de glicose, possibilitando melhor controle, assim como conhecer as medicações antidiabetogêncicas e seus efeitos farmacodinâmicos. Moraes (2010), através de estudos experimentais em animais verificou que o DM pode interferir negativamente na cicatrização óssea ao redor de implantes, devido à ocorrência de uma formação óssea reduzida e lenta e menor contato entre o osso e o implante; o osso neoformado apresenta-se imaturo e menos organizado. Por outro lado, estudos clínicos demonstraram taxas de sucesso moderadas de implantes em pacientes diabéticos com níveis de glicose controlados (MARTINS et al. 2011). De acordo com Pereirinha (2011), por ser uma patologia sistêmica com alterações na cicatrização e alterações fisiológicas o DM diminuem a capacidade imunológica, podendo assim aumentar a susceptibilidade a infecções e afetar a osseointegração dos implantes dentários. Estudos indicam que medidas de prevenção do DM são eficazes em reduzir o impacto desfavorável sobre a morbimortalidade destes pacientes, evitando complicações e principalmente em razão direta proporcionar um estilo de vida saudável (AMORIM et al. 2012). No período pós-cirurgia, ocorre imediata modificação das proteínas de cicatrização na formação do coágulo sanguíneo. Durante a fase da osseointegração há diminuição de células osteoclásticas e osteoblásticas minimizando a capacidade de formação da matriz e de mineralização desta. Na manutenção da osseointegração, a diabetes altera a homeostasia óssea diminuindo a capacidade de renovação óssea (MELLADO-VALLERO et al. 2007). Contudo, avaliando que pacientes diabéticos estão mais propensos a complicações de cicatrização, o objetivo deste estudo é discutir a importância do DM no planejamento de implantes dentários em paciente com diagnóstico clínico desta patologia, além de verificar formas de controle dos implantes e osseointegração. 9 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Diabetes Mellitus A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o Diabetes Mellitus como uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou incapacidade da insulina exercer adequadamente suas ações, caracterizada pela hipoglicemia crônica e alterações no metabolismo dos carboidratos, lipídeos e proteínas. Os sintomas característicos são: polidipsia, poliúria, borramento da visão e perda de peso. Segundo Fernandes et al. (2010) esta produção diminuída ou alterada de insulina pelo pâncreas e as consequentes modificações no metabolismo de proteínas, gorduras, sais minerais e principalmente da glicose irá se associar a múltiplas manifestações clínicas. Segundo Carvalho (2002), as manifestações bucais observadas no paciente com DM, embora não específicas dessa doença, têm sua incidência ou progressão favorecida pelo descontrole glicêmico. 2.1.1 Classificação O Consenso Brasileiro de Diabetes (2002, p.6), baseando-se na etiologia do DM e esclarece que: O DM tipo 1resulta primeiramente da destruição das células beta do pâncreas e tem tendência a cetoacidose. Inclui casos decorrentes de doenças autoimune e aqueles nos quais a causa da destruição das células beta não é conhecida; O DM tipo 2 resulta, em geral, de graus variáveis de resistência à insulina e deficiência relativa de secreção de insulina. A maioria dos pacientes tem excesso de peso e a cetoacidose ocorre apenas em situações especiais, como em infecções graves; DM gestacional é a diminuição da tolerância à glicose, de magnitude variável, diagnosticada pela primeira vez na gestação, podendo ou não persistir após o parto; 10 “Outros” tipos são decorrentes de defeitos genéticos associados com outras doenças ou com uso de fármacos diabetogênicos. De acordo com a American Diabetes Association (2004), o DM é classificado em dois tipos principais: o tipo 1 – associado à absoluta deficiência de insulina pancreática, e o tipo 2 – deficiência parcial de insulina que afeta principalmente indivíduos obesos; uma vez que a obesidade confere resistência à ação periférica da insulina. 2.1.2 Diagnóstico Bandeira (2003) relata que há disfunções nos leucócitos, com anormalidades na aderência, quimiotaxia, fagocitose e destruição intracelular. Há diminuição, também, da ativação espontânea e da resposta neutrófila, quando comparados aos pacientes controles não diabéticos. Segundo Fiorellini et al. (2005), pessoas que apresentam sintomas clássicos como: poliúria, polidpsia, polifagia, emagrecimento, entre outras não apresentam dificuldades em seu diagnóstico, pois são característicos das condições de uma dosagem de glicose elevada no sangue. O autor ainda cita que quando os sintomas clínicos não são evidentes e existe a suspeita, faz se necessária uma investigação laboratorial para a confirmação do diagnóstico. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) (2011) determinou novos padrões para cuidados de pessoas com diabetes. Sendo assim, os seguintes critérios foram revalidados para fins diagnósticos: A1C ≥ 6,5%; glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL; glicemia pós-prandial de 2 horas ≥ 200 mg/dL durante teste oral de tolerância à glicose, com a utilização de uma carga de 75 g de glicose em água; glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL, na presença de sintomas clássicos de hiperglicemia. As taxas normais de glicose no sangue em jejum são de 70 a 110 mg/dl, considerando-se alterada quando os valores forem de 110 a 125 mg/dl (GIL et al. 2008). Para os autores é necessário realizar o exame em duas ocasiões distintas 11 para a confirmação parcial. Neste caso, recomenda-se o Teste de Tolerância a Glicose Oral (TIGO) para a confirmação de diabetes (FERNANDES et al. 2010). O diagnóstico de diabetes se dará quando os valores de glicemia forem iguais ou maiores que 126 mg/dl, também em duas ocasiões distintas (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2010). 2.1.3 Manifestações clínicas Existem alterações fisiológicas que diminuem a capacidade imunológica e a resposta inflamatória dos pacientes com DM, aumentando a susceptibilidade às infecções. O controle glicêmico está envolvido na patogênese dessas alterações (FERNANDES et al. 2010). A crise hiperglicêmica (aumento da taxa de glicose na corrente sanguínea) pode ocorrer durante o atendimento odontológico desse paciente, sendo geralmente limitada aos insulino-dependentes (BANDEIRA, 2003). A elevação prolongada da glicose sanguínea pode causar uma acidose metabólica e se não tratado, pode levar ao coma. A crise de hipoglicemia (diminuição da taxa de glicose na corrente sanguínea) é o mais comum problema médico encontrado em consultório, afirma Amorim et al. (2011), ao classificar os sinais e sintomas como: taquicardia, palpitação, sudorese, tremor, náuseas e fome. Ainda nesse contexto, Amorim et al. (2011) afirma que a piora do controle glicêmico leva à inflamação e ruptura das placas ateromatosas. Ocorrem, ainda, distúrbios no processo de cicatrização, aterosclerose cerebrovascular, cardiovascular e de vasos periféricos. Quanto às alterações vasculares do diabético, pode-se afirmar que: A diminuição da insulina e a hiperglicemia elevam os níveis de lipídeos potencialmente aterogênicos; Ocorre glicosilação de apoproteínas responsáveis pela captação desses lipídeos, que permanecem na circulação; Aumenta a glicosilação do colágeno da parede dos vasos; 12 2.1.4 Manifestações bucais Carvalho (2002), em sua revisão sobre alterações orais em pacientes diabéticos, afirma que a severidade das manifestações orais e o aumento da sua frequência, está relacionada com a descompensação do diabetes. De acordo com Vasconcelos et al. (2008), as manifestações clínicas e a sintomatologia bucal dos pacientes diabéticos podem variar desde um estágio mínimo até um mais grave e dependem do tipo de alteração hiperglicêmica existente, de um controle do tratamento e do tempo decorrido do descobrimento da doença. Os distúrbios da cavidade bucal mais frequente nos diabéticos são: xerostomia, hiposalivação, síndrome de ardência bucal, glossodinia, distúrbios da gustação, infecções, ulcerações na mucosa bucal, hipocalcificação do esmalte, perda precoce de dentes, dificuldade de cicatrização, doença periodontal, hálito cetônico e líquen plano (SOUZA et al., 2003; KITAMURA, 2009). Yarid et al. (2010) citam, além dessas, o aumento da glândula parótida e de Candidose e discute que distúrbios periodontais são os mais frequentes em paciente com DM devido à resistência reduzida à infecção, que uma vez instalada, torna-se mais grave neste tipo de enfermo. Manfro et al. (2010) indicam ainda que a diabetes interfere em todos os períodos do tratamento com implantes. O DM leva a um aumento da acidez do meio bucal, aumento da viscosidade e diminuição do fluxo salivar, os quais são fatores de risco para a cárie. A xerostomia (sensação de boca seca que, geralmente, mas não necessariamente, está associada com a diminuição da quantidade de saliva) é relatada por 10 a 30% dos diabéticos. Acomete 40 a 60% dos portadores de DM, apresentando como consequências mais comuns: secura, atrofia e feridas na mucosa bucal, mucosites, úlceras e descamações, assim como infecções bacterianas oportunistas e fúngicas, inflamação e a despapilação da língua. Esta disfunção da glândula salivar ocasiona dificuldades de mastigação, de ingestão 13 alimentar e alteração no paladar que podem contribuir para o prejuízo nutricional (ALVES et al., 2006). A hipossalivação, segundo Vernillo (2003), pode causar glossodinia, úlceras, queilites, língua fissurada, lesões cariosas e dificuldade de retenção das próteses, com trauma dos tecidos moles, o que predispõe a infecções. Ela tende a se agravar em fases de descontrole metabólico, pelo fato de a desidratação aumentar os gradientes osmóticos dos vasos sanguíneos em relação às glândulas salivares, limitando a secreção de saliva. A Síndrome da Ardência Bucal envolve dor ou sensação de ardência que podem ser intensas. Normalmente não se identificam lesões. A causa da síndrome de ardência bucal não é clara, mas pode estar relacionada à disfunção da glândula salivar, candidíase, ou alterações neurológicas como depressão (YARID et al. 2010). Segundo Alves et al. (2006) o portador de DM pode apresentar alteração da microbiota bucal com tendência à candidíase e queilite angular. Com menos frequência, há a ocorrência de tumefação da glândula parótida, abscessos recorrentes, hipoplasias e hipocalcificação dentária. 2.1.5 Conduta Como o DM é uma doença sistêmica que tem influência em todo o organismo inclusive na cavidade bucal, o papel docirurgião dentista se torna fundamental tanto no conhecimento da patologia e suas manifestações bucais quanto na identificação dos sinais e sintomas desta doença (Aguiar et al. 2009). Segundo Pereirinha (2011), vale ressaltar que frequentemente estes são os primeiros profissionais a identificar e atribuir pacientes como diabéticos ou prédiabéticos. Pacientes que apresentam história positiva devem ser encaminhados a um laboratório de análise clínica ou ao médico, para uma avaliação adicional, antes de ser iniciado o tratamento odontológico. O paciente que sabe ser portador de Diabetes deve informar: a classificação (tipo), a terapia que está sendo utilizada, o nível de controle metabólico e a presença de complicações secundárias da doença. O mesmo deve ser questionado especificamente sobre a duração da doença, a ocorrência de hipoglicemias, a 14 história de hospitalizações e modificações no regime terapêutico (AGUIAR et al. 2009). Aguiar et al. (2009) defendem que as dosagens e o tempo de administração da medicação devem ser determinados, pois uma variedade de medicações pode alterar o controle de glicemia, pela interferência na ação da insulina ou no metabolismo dos carboidratos. Segundo os autores, a ação hipoglicemiante das sulfoniuréias pode ser potencializada pelas drogas de alto teor de proteínas como os salicilatos, dicumerol, bloquedados ß-adrenérgicos, inibidores de monoamina oxidase, sulfonamidas e inibidores da enzima convertora da angiotensina. A epinefrina, os corticosteróides, os tiazídicos, os contraceptivos bucais e os bloqueadores dos canais de cálcio podem causar hiperglicemia. Os antibióticos, analgésicos ou antiinflamatórios de escolha são os metabolizados pelo fígado. Os antiinflamatórios não-esteroidais (AINES) devem ser usados com cautela, porque podem promover retenção de sódio e água e provocar sangramento gástrico. Estudos indicam que as consultas de pacientes portadores de DM devem ser curtas e no início da manhã, uma vez que os níveis endógenos de corticosteróides neste período são geralmente altos, portanto os procedimentos estressantes podem ser mais bem tolerados. No caso de uma consulta demorada, especialmente se esta se prolongar pelo tempo da refeição normal, deve-se interromper o atendimento para uma refeição rápida. Ressalta-se que o paciente deve manter a sua dieta e terapêutica normais antes da consulta (PERERINHA, 2011). Para Dantas (2010), o cirurgião dentista deverá também medir a concentração plasmática de glicose do paciente, não executando nenhum procedimento se os níveis forem inferiores a 70 mg/Dl. No caso de um choque glicêmico no consultório, situação em que a glicemia no sangue cai abaixo de 45 mg/dL, o profissional deverá reconhecer os sintomas e agir o quanto antes. Em relação ao uso de anestésicos locais, Sakakura et al. (2005) definem que a lidocaína não é a melhor escolha, por ser considerado um anestésico de curta duração. Os anestésicos de longa duração também não são de melhor escolha, porque têm influência no miocárdio, sendo os mais indicados aqueles cujos componentes contenham prilocaína e felipressina. 15 2.2 Implantes dentários 2.2.1 Conceito O desenvolvimento dos implantes dentais revolucionou as possibilidades de reabilitação para pacientes parcial ou totalmente edêntulos fornecendo uma solução confiável e segura para a substituição de dentes perdidos (DANTAS, 2010). Parenti Filho et al. (2007) definiu que os insucessos representam cerca de 5 a 10% dos trabalhos realizados, e nestes casos ainda se poderá realizar uma nova implantação com elevada taxa de sucesso. O sucesso dos implantes dentários está diretamente relacionado com o princípio de osseointegração, definido por Branemark et al. (1969), como o contato direto entre osso e implante em função, sem interposição de qualquer outro tecido. Entretanto, o bom senso e a capacidade do profissional em usar todas as informações disponíveis e a colaboração do paciente, em seguir corretamente as indicações pós-cirurgia, tais como: alimentação adequada,informações sobre alterações locais e de saúde geral, comparecimento às consultas programadas e uma higiene oral adequada também influenciam o resultado final. Em sentido amplo, um tratamento odontológico com implantes osseointegrados será bem sucedido se os objetivos propostos no planejamento e expectativas do paciente dentro do possível forem alcançados. Entretanto complicações com implantes nem sempre determinam o fracasso do tratamento (DANTAS, 2010). A cicatrização óssea ao redor de implantes dentais é dependente de uma série de fatores. O tempo tem sido descrito como um fator importante, uma vez que se observa um crescimento progressivo do osso entre as espiras do implante e um aumento da porcentagem de tecido ósseo em contato direto com a sua superfície (MORAES, 2010). Pereirinha (2011) defende que testes biomecânicos têm comprovado este fenômeno, já que a força necessária para desrosquear o implante aumenta gradualmente com o passar do tempo. Outro aspecto fundamental para o sucesso 16 dos implantes dentais é a avaliação das condições de saúde geral e bucal do paciente, as quais têm sido extensivamente estudadas. Estima-se que de 3 a 4% dos pacientes adultos que se submetem a tratamento odontológico são diabéticos, por se tratar de uma patologia associada às sequelas sistêmicas adversas, como alterações da cicatrização da ferida e, alterações fisiológicas que diminuem a capacidade imunológica, potencializando a susceptibilidade às infecções, podem afetar a osseointegração de implantes dentários (SOUSA et al., 2003; MORAES, 2010). Bastos et al. (2010) após uma análise prospectiva de 225 implantes dentais instalados em 45 pacientes com diabetes Tipo 2 compensado, observaram uma taxa de sobrevida de 97,2% para o grupo com diabetes e 98,8% para o grupo controle. Fiorellini et al. (2005) observaram taxa de sucesso geral de 86% em 40 pacientes portadores de diabetes (tipo 1 e 2) compensado, após tempo médio de quatro anos de carga funcional. Barbosa et al. (2009) afirmam que o reconhecimento de alguma situação de risco permite optar pela indicação ou contra indicação do tratamento. Se os fatores forem minimizados a porcentagem de sucesso da terapia está aumentada. Diante da falta de evidência científica relevante, Fiorellini et al. (2005) afirmam a necessidade de novos estudos, preferencialmente ensaios clínicos, com objetivo de definir um consenso em relação a terapia com pacientes portadores de Diabetes Mellitus e elucidar fatores que possam interferir no processo de osseointegração. 2.2.2 Osseointegração A osseointegração define-se como uma união estável e funcional entre o osso e uma superfície de titânio (Ti), com formação de um tecido ósseo ao redor do implante sem crescimento de tecido fibroso na interface osso-implante (PEREIRINHA, 2011). Este fenômeno ocorre após a inserção de um implante dentro do osso e migração de células ósseas para a superfície deste metal. Fernandes et al. (2010), 17 ressaltam que a técnica de osseointegração apresenta resultados previsíveis, reproduzíveis e estáveis ao longo do tempo, com níveis de sucesso próximos dos 90%, considerando todos os tipos de tratamento com os implantes osseointegrados. Contudo, apesar do alto percentual de sucesso, todo profissional poderá enfrentar algum fracasso inevitável, em torno de 5% a 10%, e diante dessas situações deverá estar preparado a elucidar seu paciente sobre a probabilidade de fracasso, eventuais complicações e métodos que permitem minimizá-los. O processo inicia-se com uma resposta inflamatória após a inserção óssea do implante. As células precursoras mesenquimais, pré-osteoblastos e osteoblastos migram para a superfície do implante através do coágulo que se forma, o que resulta na formação de fibrilas colagéneas de tecido osteóide (QUIAN et al. 2009). Quian et al. (2009) cita que após alguns dias, começa a formar-se osso tecidular que desenvolve osso trabecular reparativo entre osso/implante.Finalmente, este osso trabecular sofre remodelação e origina osso lamelar característico, que resulta numa interface mineralizada. Albrektsson et al.(1986) propuseram um índice de sucesso no qual é analisada a mobilidade dos implantes individualmente; ausência de radiolucidez periimplantar; ausência de sinais e sintomas persistentes ou irreversíveis como dor, desconforto, alterações sensoriais ou infecção atribuída ao implante; perda da crista óssea marginal menor que 0,2mm por ano e 1mm apos o primeiro ano do implante em função. Portanto, para avaliação dos implantes é imprescindível à realização do exame radiográfico nas consultas de retorno do paciente, sendo de extrema importância para a Implantodontia determinar métodos eficientes e sensíveis para detecção de alterações ósseas. Segundo Moraes (2010) através de estudos experimentais é possível utilizar métodos eficazes para acompanhar o processo de osseointegração. Um parâmetro utilizado para avaliação é a mensuração do torque necessário para remover o implante que está supostamente osseointegrado. Este teste consiste na adaptação de um torquímetro ao implante para mensurar a força mínimanecessária para remover o implante do leito ósseo, ou seja, a resistência da osseointegração. Assim, esse método tem sido utilizado para avaliar o comportamento de diferentes superfícies, bem como os efeitos das alterações sistêmicas na osseointegração. 18 Gerritsen et al. (2000) estudaram o efeito do DM sobre a resposta tecidual da epiderme e do tecido ósseo em implantes transepiteliais ancorados no tecido ósseo de coelhos. Foram utilizadas 28 fêmeas que foram divididos em dois grupos com 16 animais cada. O DM foi induzido através da administração de aloxana monohidratada (100mg/Kg) na veia lateral da orelha. Após a injeção, os animais receberam glicose a 5% para beber durante as primeiras 24 horas com a finalidade de prevenir a hipoglicemia. A confirmação do diabetes ocorreu no terceiro dia após a administração de aloxana em 12 animais, sendo que todos eles permaneceram diabéticos por todo o experimento. Foram inseridos 48 implantes na diáfase das tíbias esquerda e direita próxima ao ângulo do joelho. Cada animal recebeu dois implantes de titânio (Ti) e dois implantes com superfície tratada com fosfato de cálcio. Os coelhos foram radiografados no momento da cirurgia e após 12 semanas. Inspeção clínica do tecido periimplantar foi realizada na 4ª, 8ª e 12ª semanas após a cirurgia. Os animais foram sacrificados 20 semanas após a instalação dos implantes e as tíbias preparadas para análise histológica. A análise no microscópio óptico mostrou não haver diferenças em relação ao tecido mole entre os animais diabéticos e controle. Na região cortical, o osso estava em íntimo contato com o implante em ambos os grupos. No controle, os implantes com superfície de fosfato de cálcio mostraram um maior crescimento da cortical óssea para a região medular, porém este fato não foi observado no grupo diabético. A densidade óssea foi estatisticamente menor nos animais diabéticos para ambos os tipos de implantes. Dantas et al. (2010) definem que para se alcançar índice de sucesso é necessário, além de um amplo conhecimento na área, uma anamnese criteriosa do estado de saúde do paciente, seguir criteriosamente algumas regras antes, durante e após processo cirúrgico. Ao colher todas as informações possíveis do paciente e realizar um adequado estudo para traçar um planejamento adequado, tanto na parte cirúrgica quanto na protética, torna-se o prognóstico do tratamento mais confiável. Para Bastos et al. (2010), o tratamento de reabilitação dentária com implantes osseointegraveis é possível em pacientes com diabetes com adequado quadro metabólico e cuidados com antibioticoterapia, aspectos que devem ser rigorosamente avaliados pelo cirurgião dentista e endocrinologista responsável pelo paciente. 19 Além disso, há pesquisadores utilizando programas de análise radiográfica, como a Subtração Radiográfica Digital (SRD), para avaliar a densidade óssea ao redor de implantes A SRD consiste na detecção de pequenas alterações ósseas e estudos em implantodontia têm apresentado resultados significativos na avaliação do efeito de fármacos na osseointegração e preservação do tratamento da periimplantite (MORAES, 2010). O indivíduo com DM descompensado pode diminuir o índice de osso ao redor dos implantes. Ocorre diminuição de cálcio no sangue, aumento de cálcio e fosfato na urina e produção diminuída do colágeno. O estado de hiperglicemia aumenta a secreção de um hormônio da paratireóide, o qual estimula os osteoclastos Sendo assim, a secreção do hormônio do crescimento é diminuída quando a concentração da insulina sérica é baixa. Os autores concluíram que os indivíduos portadores dessa doença apresentam contra-indicação relativa ao tratamento com implantes (TAKESHITA et al. 1997 apud Sakakura et al. 2005). Margonar (2005) apresentou um estudo com objetivo de avaliar, por meio de parâmetros histométricos, a influência da doença e da insulinoterapia sobre a osseointegração. O autor pode concluir que o DM influenciou negativamente a osseointegração de implantes colocados em tíbias de coelhos e a insulinoterapia não alterou este efeito. Olson et al. (2000) avaliaram o sucesso de implantes de forma de raiz, de dois estágios (três diferentes sistemas de implante) colocados na sínfise mandibular de 89 pacientes diabéticos do sexo masculino, com idade média de 62.7 anos (variação de 40 a 78 anos). Os implantes foram encobertos aproximadamente quatro meses após a colocação, sendo restaurados com a overdenture que foi mantida em exames de coleção de dados nos acompanhamentos programados durante os 60 meses depois da carga. Dezesseis dos 178 implantes falharam. Métodos de tabela de sobrevivência calcularam aproximadamente 88% de sobrevida de implantes, desde a colocação da prótese até o fim do acompanhamento (60 meses). Nenhum implante falhou no período entre a colocação cirúrgica e o descobrimento, cinco falharam no ato do descobrimento, sete falharam depois da descoberta e antes da colocação da prótese, e 4 falharam depois da prótese instalada. Os autores concluíram que a colocação de implante endósseo na sínfise mandibular de pacientes diabéticos do tipo 2 é um procedimento previsível e que a duração da 20 diabetes pode ser associada à falha de implante, sendo que, implantes mais compridos experimentam menos falhas. Tabela 1. Possíveis fatores de risco para o paciente diabético com implantes Possíveis fatores de risco para o paciente diabético com implantes • Tipo de diabetes • Idade de início da diabetes • Níveis elevados de glicose no sangue • Regulação do controle glicêmico • Aumento dos níveis de HgA1c • Perda dentária devido a periodontite • Cicatrização deficiente das feridas • Edentulismo extenso • O tabagismo é um co-fator para a falha de um implante Adaptada de Fiorellini et al. (2005). 2.2.3 Preparo pré-operatório Estudos indicam que a grande dificuldade encontrada para a realização do procedimento cirúrgico está nos casos em que o paciente não sabe que é portador de diabetes. Para Manfro et al. (2010), nestas situações o profissional deve estar atento aos principais sinais e sintomas que façam suspeitar de diabetes como a sede excessiva, prurido valvar, mictória, ganho ou perda de peso sem motivo aparente, alterações visuais e dores nos membros inferiores. A solicitação de exames laboratoriais é rotina no período pré-cirúrgico. Exames básicos para qualquer cirurgia, como hemograma, coagulograma e glicemia são essenciais para se diagnosticar alterações significativas que contra indiquem a cirurgia de implantes (MARTINS et al. 2011). Para a cirurgia de um paciente diabético algumas situações deverão ser observadas. O procedimento deverá ser realizado de forma rápida; portanto, a colocação de muitos implantes deverá ser realizada em mais de um tempo cirúrgico. É necessário que seja executado pela manhã, após uma ingestão de uma boa 21 alimentação no café da manhã, para que durante a cirurgia apresente bom nível de glicose, evitando assim riscos de hipoglicemia; pacientes que fazem uso de insulina devem realizar a aplicação antes da cirurgia. O mesmo ocorre com pacientes que fazem controle com hipoglicemiantes orais que deverão fazer uso da dose habitual (MANFRO et al. 2010). O cirurgião deverá estar atento durante todo o procedimento quanto aos sinais de hipoglicemia, mantendo contato verbal permanente com o paciente. O profissional deverá estar preparado para o tratamento deste quadro (MARTINS et al. 2011). Lourenço (2003) citado por Martins et al. (2011) agrupou dados referentes a contra indicações da terapia com implantes. Com bases nos resultados, o autor concluiu que o paciente diabético insulino-dependente é um contra indicado absoluto ao tratamento com implantes osseointegrados. 2.2.4 Avaliação da osseointegração Segundo Gerritsen et al. (2000), O DM pode induzir mudanças na formação do osso, tais como: aumento do tempo da mineralização do osteóide; alterações na síntese protéica; inibição da formação da matriz de colágeno; reduzido volume ósseo; diminuição do número de osteoblastos; metabolismo ósseo acelerado; redução da produção da osteocalcina. Estudos demonstram que a menor quantidade de osso formada sobre os implantes faz com que o período de osseointegração, principalmente em regiões de osso tipos 3 e 4, seja maior que o habitual, bem como a utilização de carga imediata deverá ser evitada (MANFRO et al. 2010). Ao avaliar a formação óssea em implantes dentários de ratos não diabéticos, diabéticos não controlados e controlados com insulina, Moraeset al. (2010) identificou que o diabetes provocou alterações histopatológicas e estruturais na osseointegração de implantes no fêmur de ratos diabéticos. A terapia com insulina permitiu uma melhora no padrão da osseointegração dos implantes, porém não sendo possível igualar os resultados aos obtidos no grupo controle. 22 23 3 DISCUSSÃO Gerritsen et al. (2000) em seu estudo verificou que o diabetes não influenciou negativamente a osseointegração quando os implantes foram instalados em osso cortical. Esse fato se deve a uma boa estabilidade primária obtida nesse tipo de osso. Assim, os autores sugeriram que a instalação de implantes em diabéticos não é uma contra indicação quando existe uma ótima ancoragem em osso cortical. Tendo em vista as inúmeras particularidades do paciente diabético, a literatura, de um modo geral, tem apontado que as dificuldades apresentadas pelo grupo para a obtenção de um bom controle metabólico estão relacionadas à sua adesão a um plano alimentar, ao incremento da atividade física e ao seguimento da terapêutica medicamentosa (CARVALHO, 2002). Estudos demonstram a existência de teorias em que a hiperglicemia ou a presença dos produtos finais da glicosilação, levam a um estado de persistente ativação dos polimorfonucleares, o que induz a ativação espontânea de cadeia oxidativa e liberação de mieloperoxidase, elastase e outros componentes dos grânulos neutrofílicos, causando danos em duas vias (BANDEIRA, 2003). Sousa et al. (2003) relataram que dentre as alterações orais ocorridas em pacientes diabéticos estão: a hipoplasia, a hipocalcificação do esmalte, diminuição do fluxo e aumento da acidez e da viscosidade salivar, que são fatores de risco para cárie; sendo contra indicados os implantes osseointegrados, pois, a síntese de colágeno está prejudicada, principalmente em pacientes com diabetes tipo 1 e descompensados do tipo 2. Sakakura et al. (2005) relataram os resultados do tratamento com implantes em 782 pacientes, sendo que 25 destes (3,2%) apresentavam diabetes antes do tratamento com implantes (136 fixações). Evidenciaram 96,3% de sucesso no período de osseointegração e de 94,1% após um ano da cirurgia, com poucos relatos de complicações. Concluíram que os pacientes diabéticos podem receber tratamento com implantes em todos os casos de reabilitação, inclusive em áreas enxertadas, não apresentando grau de insucesso superior ao da população normal, desde que o nível de glicose no plasma esteja normal ou próximo do padrão, em relatos comprovados por exames complementares. 24 Para Fiorellini et al. (2005), o número de indivíduos com diabetes continuará a aumentar à medida que a população envelhece. Em seu estudo verificou o efeito do DM e implantes dentais tem sido estudado nos anos recentes, pois a doença pode prejudicar a qualidade óssea. Os resultados desta investigação indicam que o diabetes tem uma tendência a prejudicar o osso ao redor dos implantes já osseointegrados e a insulina são capazes de manter a estabilidade da osseointegração. Mellado-Vallero et al. (2007), verificaram que há poucas evidências que a instalação de implantes em um paciente com Diabetes Mellitus controlado é um fator de risco maior que na população em geral. Entretanto, o Instituto Nacional de Saúde Declaração de Conferência de Consenso de Desenvolvimento em Implantes Dentários (1998) apud Mellado-Vallero et al. (2007) determinou que nenhum paciente diabético sem controle glicêmico rigoroso deve ser considerado paciente para cirurgia de implantes. Portanto, o DM é classificado como uma contra indicação relativa para o tratamento com implantes. De acordo com Vasconcellos et al. (2008) os insucessos de implantes em pacientes diabéticos estão, quase sempre, relacionados a pessoas que desconheciam o problema e o implantodontista não teve sua atenção voltada para o detalhe, provavelmente por falta de exames de sangue pré-operatórios ou por pacientes que, na época dos exames, mantinham-na controlada e por motivos alheios à vontade ou desatenção, descompensaram durante o período da osseointegração. Um paciente com diabetes de início tardio, controle rigoroso da dieta, que não apresente perda dentária em decorrência do desenvolvimento da doença periodontal, necessitando, por exemplo, da instalação de um único implante, apresentará menor risco de insucesso (AGUIAR et al. 2009). Jawed e Romanos (2009) destacaram os benefícios da manutenção dos níveis glicêmicos sobre o osso alveolar e a osseointegração dos implantes dentais. Seus achados demonstraram sete estudos que a diabetes afeta negativamente a osseointegração dos implantes dentais e onze estudos relacionaram o sucesso da osseointegração a um ótimo controle das taxas glicêmicas. Para os autores, os indivíduos com diabetes bem controlada têm taxas de sucesso para implantes dentais semelhantes aos indivíduos sem diabetes. Apesar dos implantes dentais 25 permanecerem contra indicados em pessoas sem um controle glicêmico adequado, alguns trabalhos avaliados não encontraram diferenças nas taxas de sucesso dos implantes dentais, o que abre uma possibilidade para outros fatores influenciarem na osseointegração que ainda não conhecemos. As manifestações bucais em pacientes diabéticos dependem da gravidade da doença, isto é, da sua descompensação. Manfro et al. (2010) foi o primeiro a descrever a associação entre as alterações bucais e o diabetes onde descreveu que a manutenção da saúde dos tecidos periodontais contribui para um melhor controle metabólico, reduzindo as necessidades de insulina e os níveis de hemoglobina glicosilada. Yarid et al. (2010) ressaltam que o diagnóstico, tratamento e controle dos pacientes portadores de DM requerem um conhecimento detalhado do processo da patologia. Contudo, nota-se a falta de informação dos profissionais quanto à forma mais adequada de lidar com este tipo de paciente. Diante disso, ao investigar a história clínica do paciente, o cirurgião dentista deve incluir perguntas que remetam para a tríade sintomática do DM, assim como para a perda de peso e os níveis recentes de glicose. Moraes (2010) relatou em seu experimento que os implantes dentários osseointegrados em ratos diabéticos controlados mantém o contato osso-implante ao longo de um período de 4 meses. No entanto, o contato parece diminuir com o tempo em ratos diabéticos não controlados. Manfro et al. (2010) relatam que para manter os níveis ósseos no padrão de normalidade, acredita-se que a manutenção dos níveis de glicose devem ser mantidos por todo tempo. Por esta razão deve-se diminuir o tempo de controle e instituir os exames de glicemia e hemoglobina glicada como parte deste controle. Resultado semelhante ao de Sakakura et al. (2005) onde afirma que os implantes dentários osseointegrados constituem uma alternativa de tratamento viável para pacientes diabéticos, desde que o controle glicêmico esteja próximo ao normal e a área receptora apresente boa quantidade e qualidade óssea. Segundo Dantas et al. (2010) existem várias alterações sistêmicas que podem contra indicar esta cirurgia, dentre estas alterações as mais significativas são: pacientes com histórico de infarto, insuficiência cardíaca, valvulopatias, câncer desenvolvido, hemofilia, anemia, osteoporose, diabetes e AIDS. O DM é importante 26 fator de risco para o desenvolvimento de lesões e influencia no processo cicatricial, agravando o estado geral do paciente e contribuindo para a cronicidade dessas feridas, alterando os padrões de morbidade desses indivíduos. A literatura relata uma porcentagem de sucesso de 92.7% a 94.5% em diabéticos tipo 2 com controle glicêmico adequado. Contrariamente, um paciente diabético juvenil, insulino-dependente, com perda de múltiplos dentes, devido à doença periodontal, apresentará um alto risco de insucesso (MORAES, et al. 2010). Vale ressaltar que além dos exames complementares, deve ser protocolo para cirurgias de colocação de implantes osseointegrados execução de exames radiográficos panorâmicos e periapicais, pois são a partir destes exames que se descobrem quaisquer alterações ósseas significativas que poderiam contra indicar a colocação dos implantes (PEREIRINHA, 2011). Não foram encontrados trabalhos na literatura que comprovem cientificamente contra indicações para a colocação de implantes dentais em pacientes com alterações sistêmicas. No entanto, como diversas alterações sistêmicas podem influenciar na progressão da doença periodontal, fatores como fumo, discrasias sanguíneas, osteoporose, radioterapia, alterações psicológicas, alcoolismo e DM não controlada, vêm sendo apontadas como contra indicações relativas, podendo resultar em uma taxa de sucesso reduzida na reabilitação com implantes dentários. 27 4 CONCLUSÕES Diante do exposto, pode-se concluir que existe uma forte influência entre o DM e o estado de saúde bucal de seus portadores e que sua coexistência pode levar a um aumento das taxas de falhas dos implantes. Porém, não é uma contra indicação absoluta para a colocação de implantes dentários. Acredita-se que a grande dificuldade não seja a osseointegração, mas sim manter os níveis de perda óssea compatíveis com a normalidade. Por serem mais susceptíveis a infecções, difícil cicatrização e metabolismo mais lento, os níveis de perda óssea Peri-implantares podem estar aumentados, possibilitando a instalação de Peri-implantites. Dessa forma, é importante que o cirurgião dentista atue no diagnóstico dessas manifestações bucais e haja de forma preventiva e em consonância com os outros profissionais da área de saúde buscando o controle da doença. 28 REFERÊNCIAS AGUIAR, D.G.A.; CARVALHO, G.B.; RODRIGUES, M.J.; BEZERRA, J.G.; BANDEIRA, F. Atendimento odontológico ao paciente diabético tipo 1.Odontologia Clín. Científica, Recife, v.8, n.1, p.13-19, jan/mar., 2009. ALBREKTSSON, T.; ZARB, G.S.; ORTHINGTO, M.D.W.; ERIKSSON, D.D.S. The Long-Term efficacy of currently used dental implants: a review and proposed criteria of success.JOMI, CD-ROM©, 1997. Quintessence Pub. Co.; v.1, n.1, p.11-25, 1986. ALVES, C.; BRANDÃO, M.; ANDION, J.; MENEZES, R.; CARVALHO, F. 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