poemas negros jorge de lima 1 Prefácio gilberto freyre Ilustrações lasar segall Comentário vera d’horta Posfácio vagner camilo 9 prefácio gilberto freyre 19 20 22 24 30 34 36 38 40 41 42 43 45 47 49 51 52 54 61 63 66 68 Nordeste Diabo brasileiro Bicho encantado Essa negra fulô Banguê Mês de maio História O medo Democracia Retreta do vinte Quichimbi sereia negra Zefa lavadeira Benedito Calunga Ladeira da Gamboa Passarinho cantando Exu comeu tarubá Ancila negra Bahia de Todos os Santos O banho das negras Cachimbo do sertão Obambá é batizado Poema de encantação 69 70 72 74 78 82 84 88 91 92 95 97 101 104 107 108 109 Rei é Oxalá, Rainha é Iemanjá Foi mudando, mudando Janaína A noite desabou sobre o cais Floriano, Padre Cícero, Lampião Quando ele vem Xangô Comidas Calabar Inverno Pra donde que você me leva Madorna de Iaiá Pai João Santa Rita Durão Joaquina Maluca Maria Diamba Olá! Negro 113 115 125 sobre esta edição comentário vera d’horta Os desenhos de Lasar Segall para Poemas negros posfácio vagner camilo Jorge de Lima no contexto da poesia negra americana prefácio à primeira edição (1947)* Gilberto Freyre * Transcrito posteriormente em O Jornal, Rio de Janeiro, 22/11/1953, sob o título “Jorge de Lima e os seus Poemas negros”. 9 Já uma vez me afoitei a sugerir essa ideia: a necessidade de reconhecer-se um movimento distintamente nordestino de renovação das letras, das artes, da cultura brasileira – movimento dos nossos dias que, tendo se confundido com a expansão do muito mais opulento “modernismo” paulista-carioca, teve, entretanto, condições próprias – “ecológicas”, poderia dizer-se com algum pedantismo – de formação, aparecimento e vida. Desse “movimento do Nordeste” pode-se acrescentar que foi uma espécie de parente pobre, capaz de dar ao rico valores já quase despercebidos de outras partes do Brasil e necessitados apenas dos novos estímulos vindos do Sul e do estrangeiro para se integrarem no conjunto de riqueza circulante e viva constituída por elementos genuinamente brasileiros, essenciais ao desenvolvimento da nossa cultura em expressão honesta do nosso éthos, da nossa história e da nossa paisagem e em instrumento de nossas aspirações e tendências sociais como povo tanto quanto possível autônomo e criador. Dentre aqueles valores, nenhum mais cheio de substância particularmente brasileira, ao mesmo tempo que humana em 10 gilberto freyre sua essência, que as tradições amadurecidas, nas terras de massapé do Nordeste à sombra das casas-grandes, das igrejas, dos sobrados, das senzalas, dos mocambos, das palhoças, das mangueiras, dos coqueiros, dos cajueiros desta região; e resultado do contato de europeus com índios e, principalmente, com africanos. Com malungos, mucamas, babás, cunhãs, columins. Contato democratizante dos brancos e degradante dos pretos. Foi esse principalmente o mundo em que Jorge de Lima, em 1922-23, poeta já precocemente feito, mas de modo nenhum estratificado em cinzelador milnovecentista de sonetos elegantes recolhidos com avidez pelos pedagogos organizadores de antologias, tornou-se, sob novos estímulos vindos do Sul, da Europa e dos Estados Unidos, o grande poeta, o poeta por excelência. O poeta d’“O mundo do menino impossível”. Opoeta de “Essa negra Fulô”. O poeta de uma série de poemas que reunidos aos de outros brasileiros do passado e de hoje talvez deem ao Brasil o primeiro lugar na produção de uma literatura poética que, intencionalmente ou não, leva sem nenhum rancor nem ranger de dentes o cristianismo para o campo específico das relações fraternais dos brancos com os povos de cor. Daí me parecer que precisamente nessa zona de expressão literária e ética é que o Brasil merece receber um desses dias o Prêmio Nobel, pela mão de algum dos seus poetas ou romancistas. Pois não nos faltam hoje romancistas e poetas novos que encarnam com esplendor tendência já tão brasileira e socialmente significativa como nenhuma outra para o futuro do resto da América: para o futuro de todos os 11 prefácio países na fase atual de desejo de democratização inteira, e não apenas política, das relações entre os homens e entre os povos. Há quem fale em “gulodice de pitoresco” para procurar diminuir, com essa generalização de desprezo, aqueles artistas e escritores do Nordeste que, não sendo de origem rigorosamente popular nem principalmente ameríndia ou africana, têm se dedicado ao estudo, à interpretação e até à expressão dos complexos mais característicos da região, ferindo nessa interpretação a nota de revolta contra os últimos preconceitos de cor confundidos com os de classe que mantêm na miséria tantos descendentes brasileiros de africanos. Entre tais “gulosos de pitoresco” estaria Jorge de Lima: sua poesia afro-nordestina; poesia que não é a de um indivíduo pessoalmente oprimido pela condição de descendente de africano ou de escravo – a única que para os inimigos do “pitoresco” justificaria uma poesia, uma literatura, uma música, ou uma pintura brasileira, voltada com simpatia para o negro, o índio ou o mestiço. O curioso é que semelhante crítica, sonora mas prejudicada por intenções que não devem ser no caso as principais, vem quase sempre de indivíduos menos autorizados para fazê-la, tal a sua proeza de experiência genuinamente brasileira; pois são cosmopolitas pouco sensíveis aos característicos mais profundos da vida, do passado e da paisagem das nossas várias regiões; geômetras que desconhecem as intimidades de nossa paisagem humana. Experiência brasileira não falta a Jorge de Lima: ele é bem do Nordeste. Não lhe falta o contato com a realidade 12 gilberto freyre afro-nordestina. E há poemas seus em que os nossos olhos, os nossos ouvidos, o nosso olfato, o nosso paladar se juntam para saborear gostos e cheiros de carne de mulata, de massapé, de resina, de moqueca, de maresia, de sargaço; para sentir cores e formas regionais que dão presença e vida, e não apenas encanto literário, às sugestões das palavras: que parecem lhes dar outras condições de vida além da tecnicamente literária. Esse poeta alagoano, em quem hoje a América inteira sente um poeta largamente seu pela cordialidade crioula e pelo lirismo cristão, franciscano, fraternal, dispõe de recursos, de técnica, dos quais poderia viver vida fácil de glória literária, admirado e festejado por seus feitos e talentos de artífice; alheio às raízes regionais de sua experiência de homem por muito tempo menino e às necessidades e aspirações de gente cuja pobreza conheceu pequeno e mesmo depois de grande; médico de província, cuja miséria observou, cujo sofrimento sentiu com o poder da empatia que o anima com relação à sua gente, do mesmo modo que sentiu suas alegrias, suas esperanças, seus deleites doentios de comedores de barro, seus medos das almas do outro mundo. De tudo isso lhe ficou uma base de terra, de natureza e, ao mesmo tempo, de fé no sobrenatural, para defendê-lo da arte literária só de composição e de efeitos verbais e estéticos – na qual às vezes se extremou na mocidade – e fixá-lo naquela literatura que Van Wyck Brooks chama “primária” no sentido bom de “básica”, de presa à terra e aos outros homens – ao comum dos homens –, e incapaz de dissolver-se na “secundária” dos esotéricos, dos cosmopolitas, dos estetas de coterie. Estetas aos quais tudo o 13 prefácio que é popular, regional, folclórico repugna ou dá a ideia de simples “pitoresco”; de estreito “regionalismo” ou “nacionalismo”; de “folclorismo” ou “africanismo” apenas curioso. Aliás, falar-se com relação ao Brasil de “africanismo” como expressão à parte da vida brasileira é revelar desconhecimento da simbiose Brasil-África. James Weldon Johnson, a propósito da poesia afro-americana, fala no poder do descendente de africano onde quer que se fixe, em grande ou pequeno número, revelar-se “transfusivo”; identificar-se com o que os antigos chamavam “gênio do lugar”. Assim, o negroide Pushkin teria se tornado o intérprete de tendências particularmente russas; outro negroide, Dumas, o intérprete de coisas de um passado particularmente francês; Coleridge-Taylor, também negroide, o intérprete, em música, de característicos intimamente britânicos ou ingleses. Em nenhum país, porém, o descendente de africano tornou-se tão da terra como no Brasil. Aqui sangue africano e seiva americana cedo se confundiriam na transfusão, a ponto de haver observadores argutos – desde Bates e Wallace a Waldo Frank – a quem os descendentes de africanos dão a impressão de mais filhos da terra do que os indígenas; de mais harmonizados com a natureza do Norte do Brasil do que os próprios caboclos entristecidos pelos grandes dias de sol como se ainda não se tivessem acostumado ao calor da terra tropical. Das expressões populares ou das tradições regionais da vida brasileira impregnadas de África de que Jorge de Lima se tornou o maior intérprete poético na língua portuguesa, 14 gilberto freyre quem ousará dizer que, em vez de virem do centro da cultura mais harmoniosa e caracteristicamente nossa, vêm daquelas margens remotas da cultura de um povo onde vida e paisagem humanas adquirem o tristonho de curiosidades etnográficas? Ou de indecisões sociológicas que constituem os fenômenos de “marginalidade” incaracterística? No Sul dos Estados Unidos o descendente de africanos é figura à parte da literatura como da vida nacional. Mas não no Norte do Brasil – embora também aqui existam preconceitos de cor confundidos com os de classe. Existem, mas sem força para distanciar decisivamente os descendentes de africanos dos de europeus, a ponto dos primeiros só se exprimirem em folclores, excluídos sistematicamente do banquete literário. Gonçalves Dias tinha sangue de negro e, entretanto, é pela sua palavra de “Canção do exílio” que todo brasileiro, mesmo o mais rigorosamente branco e erudito, se exprime e ainda hoje, quando longe do Brasil dói-lhe a saudade das palmeiras tropicais, dos cajueiros caboclos, dos canaviais dos velhos engenhos do Norte. Em Jorge de Lima o verbo fez-se carne neste sentido: no de sua poesia afro-nordestina ser realmente a expressão carnal do Brasil mais adoçado pela influência do africano. Jorge de Lima não nos fala dos seus irmãos, descendentes de escravos, com resguardos profiláticos de poeta arrogantemente branco, erudito, acadêmico, a explorar o pitoresco do assunto com olhos distantes de turista ou de curioso. De modo nenhum. Seu verbo se faz carne: carne mestiça. Seu verbo de poeta se torna carnalmente mestiço quando fala de “democracia”, de 15 prefácio “comidas”, de “Nosso Senhor do Bonfim”, embora a metade aristocrática desse nordestino total, de corpo colorido por jenipapo e marcado por catapora, não esqueça que a “bisavó dançou uma valsa com D. Pedro ii”, nem que “o avô teve banguê”. É essa totalidade de experiência, essa variedade de passado, sem o domínio exclusivo de uma tradição étnica, social ou de cultura sobre as outras, que dá a poetas brasileiros como Jorge de Lima, Simões Lopes Neto, Castro Alves, Gonçalves Dias, José Lins do Rego, Jorge Amado, Jaime Ovale, Ascenso Ferreira, Mário de Andrade, Cícero Dias, tremenda superioridade sobre os norte-americanos em exprimir sem revolta acre nem violência o que há de africano em nossa vida e em nosso caráter. O que há de africano se confunde, se mistura quase fraternalmente, com o que existe de europeu e de indígena. Na experiência plebeia do brasileiro total se estende à aristocracia, sem que a aristocracia seja invariavelmente a europeia. Não há felizmente no Brasil uma “poesia africana” como aquela, nos Estados Unidos, de que falam James Weldon Johnson e outros críticos: poesia crispada quase sempre em atitude de defesa ou de agressão; poesia quase sempre em dialeto meio cômico para os brancos, para os ouvidos dos brancos, mesmo quando mais amargos ou tristes os assuntos. O que há no Brasil é uma zona de poesia mais colorida pela influência do africano: um africano já muito dissolvido em brasileiro. Uma zona a que estão ligados, pela sua formação regional, alguns dos nossos escritores e poetas mais rigorosa- 16 gilberto freyre mente brancos e aristocráticos: os pernambucanos Joaquim Nabuco e Manuel Bandeira, por exemplo. O que mostra que não é o sangue que aguça sozinho nos poetas ou escritores a sensibilidade a assuntos com os quais eles podem identificar-se só pelo poder de empatia, só por transfusão de cultura. Ao contrário: o sangue às vezes faz que os mestiços se afastem dos assuntos africanos com excessos felinos de dissimulação e pudor. O caso de Machado de Assis. Jorge de Lima, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, enriquece o brasileiro das áreas menos coloridas pela influência africana, com a expressão poética de sua experiência de nordestino de banguê nascido e criado perto dos últimos “pombais negros” de que falou Nabuco. Ao mesmo tempo ele põe o estrangeiro que se aproxima da poesia brasileira em contato com uma das nossas maiores riquezas: a interpenetração de culturas, entre nós tão livre, ao lado do cruzamento de raças. Dois processos através dos quais o Brasil vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente democráticas e cristãs do nosso tempo. poemas negros nordeste 19 poemas negros Nordeste, terra de São Sol! Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor, que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos para os comer. São Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor! Pajeú! Pajeú! Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos, com o sangue de mil meninos, amém! D. Sebastião ressuscitou! S. Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor. Terra de Deus! Terra de minha bisavó que dançou uma valsa com D. Pedro ii. São Tomé passou por aqui? Tranca a porta, gente, Cabeleira aí vem! Sertão! Pedra Bonita! Tragam uma virgem para D. Lampião! diabo brasileiro 20 jorge de lima Enxofre, botija, galinha preta! Credo em cruz, capeta, pé-de-pato! Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está? Credo, capeta, pé-de-pato! Diabo brasileiro quero saber quando dá a dezena do carneiro? Enxofre, botija, galinha preta! Credo em cruz, capeta, pé-de-pato! Capeta, dente-de-ouro, tome galinha preta, quero dormir com a Zefa! Capeta, bode preto, quero dormir com a Zefa! Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta! Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário me case logo com a Zefa! Capeta tome galinha preta! Capeta, diabo brasileiro, quando dá a centena do macaco? Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato, dente-de-ouro, cheiro de enxofre, tome galinha preta! Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho, › quero comprar gravata, botina de bico fino, terno de casimira pra quando a Zefa me ver! Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta! poemas negros Capeta, tome galinha preta, que eu quero saber embolada, quero saber martelo, quero ser um cantador, capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor! Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa. Por Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato! Tome galinha preta! 21 Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro, quero capa de borracha, punho engomado, camisa, bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato, tome galinha preta! Quero saber suas partes, suas sabedorias, quero saber mandingas, capeta, pé-de-pato, tome galinha preta, que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija, que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro! bicho encantado 22 jorge de lima Este bicho é encantado: não tem barriga, não tem tripas, não tem bofes, não é maribondo, não é mangangá, não é caranguejeira. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me levar. Só tem olhos, só tem sombra. Babau! Não é jimbo, não é muçum, não é sariema. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me afogar. Este bicho é encantado: não quer de-comer, não quer munguzá, não quer caruru, › 23 não quer quigombô. Só quer te comer. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me esconder. Babau! poemas negros Fonte fleischmann Papel pólen soft 70 g/m2 Impressão geográfica