O CORPO EM SEU SILÊNCIO VAZIO FALA, GRITA E CHORA Glória Carvalho Barros1 Ao nos depararmos com um paciente deprimido, observamos que o corpo literalmente fala numa demonstração gritante da sua dor – a expressão facial parece congelada, o olhar revela uma tristeza sem fim, o corpo desvitalizado e sem brilho carrega todo o peso do mundo. Sua linguagem comunica que, do ponto de vista psíquico, o tempo está fechado, o mundo cinzento sujeito a tempestades e, no aspecto somático, vê-se uma paralisia, imobilização e rigidez de variadas formas. No inicio de vida, a mãe suplementa, recobre e apresenta o mundo ao bebê em pequenas doses. Tudo passa pelo corpo. É através desta experiência pessoal, da relação do bebê com outros corpos, que se processa o alojamento da psique no soma. Todos os estímulos provenientes dos cuidados maternos ou sua falta ficam registrados no corpo. Na visão de Winnicott2 (1993), a partir dos cuidados corporais, o bebê vivencia a experiência da ilusão, através do holding oferecido pela mãe, experiência esta fundamental para o alojamento da psique no soma e fortalecimento do ego. Para ele, quando uma mãe, tornou mecânico a sua relação com o bebê, coloca, a si própria e ao bebê, numa situação de risco, esta situação tende a truncar as relações entre corpo, afeto e linguagem, dificultando a emergência do sentido enquanto significação compartilhada. A necessidade orgânica é saciável, ao atingir determinado equilíbrio físico-químico cessa, mas se existe algo além da necessidade, o desejo pode se tornar inesgotável. Os bebês, quando separados das mães, costumam ficar prostrados, retraídos, se transformando em bebês chorões. O choro pela perda do objeto é um chamado numa tentativa de recuperá-lo. Se a privação materna for prolongada, cessa a atividade autoerógena e ele fica num marasmo profundo. Na falta do objeto libidinal, as pulsões ficam privadas de seu alcance, e, seguindo o destino da pulsão agressiva, o bebê transforma o rechaço em agressão contra si próprio, o único objeto que lhe resta. Se há perda da esperança de recuperar o objeto, desaparece motivação para a atividade, surge inibição psicomotora ou estupor melancólico com total imobilidade do indivíduo. 1 Médica, Psicanalista, Especialização em Psicologia Clínica/Psicanálise, Medicina Psicossomática, Psicoterapia Somática/Biossíntese, Membro do EPSI- Espaço Psicanalítico e do Círculo Psicanalítico de Pernambuco. 2 WINNICOTT, Donald W. Textos Selecionados: da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. 1 John Bowlby3 (2002) diz que o bebê, com a perda do objeto, passa por uma série de fases denominadas de: protesto, desesperança e retraimento. Ele parece agudamente perturbado por ter perdido a mãe e procura reconquistá-la com seus limitados recursos chorará, sacudirá os braços, virará para os lados, se volta ansiosamente buscando a mãe perdida. Após a fase de protesto vem a de desesperança e, ao final, a do desapego. Estes aspectos descritos apontam para a origem dos sintomas somáticos que observamos nos pacientes com quadros depressivos e melancólicos. Encontramos inibição psicomotora, falta de tônus muscular, paralisia e, com freqüência, inquietação demonstrando ansiedade pelo desalojamento da psique no soma e, nos casos mais graves, um total distanciamento do seu próprio corpo. No adulto, a inibição por perda de objeto provoca uma ausência de motivação dele aproximar-se de todos os demais objetos, pois seus desejos se fixam e giram em torno do objeto perdido. A impossibilidade de passar a outro desejo é a característica essencial para que se produza a inibição. Após algum tempo, o bebê consegue construir recordações das situações, de forma que a experiência da mãe, sustentando a situação, se torna parte do self e é assimilada ao ego, tornando-se a mãe cada vez menos necessária. Winnicott afirma que: A mãe sustenta a situação, fazendo-o repetidamente, em um período crítico da vida do bebê. A técnica da mãe permite que o amor e ódio coexistentes no bebê sejam separados, inter-relacionados e gradualmente controlados de dentro, de uma forma saudável. Se tudo ocorreu bem, a posição depressiva é alcançada e estabelecida, (...) como uma evidência de crescimento pessoal que se fortalece gradualmente, crescimento este que depende de uma provisão ambiental sensível e contínua. Para que um bebê alcance a posição depressiva é necessário que ele tenha se estabelecido como uma pessoa total e se relacione com pessoas totais. (1993, p.438, 439). Continuando, ele diz que se no desenvolvimento de um bebê, podemos assumir que o sentido de totalidade é um fato para aquele bebê, também podemos assumir que o bebê está vivendo dentro de seu corpo. Quando a “mãe-ambiente” não pôde oferecer as condições ideais para pôr em marcha uma relação saudável do bebê com o mundo, vários processos são desencadeados: Se os fenômenos internos causam problemas, a criança (ou o adulto) amortece todo o mundo interno, funcionando num nível baixo de vitalidade. O humor é a depressão. Esta é a primeira vez que, na minha descrição liguei de forma inerente o termo depressão ao conceito de posição depressiva. As depressões que encontramos clinicamente na psiquiatria geralmente não são do tipo relacionado à “posição depressiva”. Associam-se mais à despersonalização, ou a 3 BOWLBY, John. Cuidados Maternos e Saúde Mental. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 2 desesperança com relação às relações objetais; ou a sensação de futilidade resultante de um falso self. (1993, p.449, 450). Para Winnicott, se a posição depressiva foi atingida e completamente estabelecida em um indivíduo, a reação à perda será dor e tristeza. Na sua visão: Quando há algum fracasso na posição depressiva, o resultado da perda é a depressão. O luto significa que o objeto perdido foi magicamente introjetado e lá fica sujeito ao ódio. Incidentalmente, o equilíbrio de forças do mundo interno é perturbado por isso, de forma que os elementos persecutórios ficam aumentados e as forças benignas ou mantenedoras enfraquecidas. Esta é uma situação perigosa e o mecanismo de defesa de um amortecimento global produz humor depressivo. A depressão é um mecanismo curativo; é como se ela cobrisse o campo de batalha com um nevoa, permitindo que as coisas se separem vagarosamente, dando tempo para que as defesas possíveis sejam acionadas e que ocorra uma perlaboração, de forma que eventualmente aconteça uma recuperação espontânea. (1993, p.454, 455). Maria Helena Fernandes4 (1999) ressalta que no início da vida do bebê são as sensações corporais que ocupam o primeiro plano. Para ela as sensações desprazerosas demandarão atenção e cuidado da mãe que prontamente responde após interpretar a linguagem do bebê. Na sua visão: O trabalho de escuta e interpretação só é possível quando existe um investimento da mãe no corpo da criança. Esse investimento supõe que ela é capaz de experimentar um prazer ao ter contato com o corpo da criança e ao nomear para ela as partes, as funções e as sensações desse corpo (...) e que é capaz de transformar esse corpo de sensações em um corpo falado (1999) Muitas são as experiências vividas, experiências estas que passam a constituir o soma, a psique, a mente, a personalidade do novo ser. Este desenvolvimento é gradual e constante. Maria Helena Fernandes (1999) analisa ainda outros aspectos importantes: Na falta de um investimento necessário, a experiência do corpo ficaria ligada à necessidade, privada da descoberta desse corpo de prazer - num primeiro momento objeto do investimento libidinal da mãe e, num segundo tempo, objeto do investimento libidinal do próprio sujeito. (1999) Para a autora, nos pacientes em que se evidencia uma ausência de percepção dos sinais somáticos, a experiência do corpo parece ancorada no registro da necessidade, 4 FERNANDES, Maria Helena. A Hipocondria do Sonho e o Silêncio dos Órgãos: O Corpo na Clinica Psicanalítica. Percurso, n°23, 2° semestre de 1999. 3 num tempo anterior ao auto-erotismo. O do silêncio dos órgãos denuncia uma falência da erogeneidade e, por conseqüência da autopercepção. Winnicott (1993) pontua que o meio ambiente perfeito é aquele que se adapta ativamente às necessidades da psique-soma recém-formada. Um meio ambiente é mau quando não consegue se adaptar, tornando-se uma invasão que não pode ser compensada, à qual a psique-soma do bebê precisa reagir perturbando a sua continuidade da existência. No seu entender, gradualmente, os aspectos da psique e do soma que a pessoa em crescimento possui, envolvem-se em um processo de interrelação mútua. Num estádio posterior, o corpo vivo, com seus limites, tendo um interior e um exterior, é sentido pelo individuo como formando o cerne do self imaginativo. Estas teorizações trazem mais uma luz para a nossa compreensão das questões do corpo e do processo depressivo. Analisaremos um caso clínico de uma paciente acompanhada por nós por 12 anos. Ao longo de todo o acompanhamento, ela mostrava um exuberante quadro clínico manifestando sintomas de múltiplas formas e intensidades, exigindo sempre uma tradução. Quando a mente calava, seu corpo falava, exibindo rica linguagem própria e particular requerendo de nós um olhar, uma escuta e um cuidar para que ela pudesse transformar os sintomas e ressignificar o seu viver. O Retrato de uma Dor: Reflexões Clínicas Maria, 48 anos, fisioterapeuta, terceira filha de uma família com cinco irmãos, três filhas, vem ao consultório apresentando quadro fóbico-ansioso e depressivo. Não saía só de casa, vindo para a sessão sempre acompanhada do marido e seu bebê de quatro meses por temer ser assaltada ou estuprada quando sozinha. No início, o processo girava em torno do bebê, as duas filhas e, a partir daí, ela começa a relatar sua história. Após um longo período, surgiram dados marcantes e bastante esclarecedores do quadro. Relata falta de apoio, rejeição e incompreensão da família desde os cinco anos após viver um abuso sexual (esposo da tia). Ficou paralisada, sua alegria desapareceu. Culpa, dor e tristeza passaram a fazer parte do seu cotidiano. A violência vivida por Maria não pôde ser expressa e, ao tentar falar das suas aflições e medos, era estimulada a esquecer. Ela calou, foi impossível traduzir em palavras a invasão sofrida, ficando no corpo o registro dessas vivências, encapsuladas num circuito defensivo denunciado pelos sintomas que exigiam uma permanente tradução. Com esta postura de evitação e negação a família criou um estado de angústia, 4 instalando-se um vazio, manifestando cedo uma depressão que afetou o brincar. Seu processo de desenvolvimento emocional não pôde se concretizar. Winnicott (1993) levanta que devemos reconhecer o sintoma como um sinal de socorro e assim, se justifica uma investigação completa da história do desenvolvimento emocional no início de vida do sujeito. Na análise de Maria, percebíamos que certas manifestações sintomáticas continham afetos importantes e desvendá-los seria decisivo para uma melhor elaboração do quadro. Era significativo compreender e, de certa maneira, “ouvir” o corpo, fazer uma tradução deles para uma possível transformação. Era exuberante a linguagem deste corpo marcado pela dor das vivências das faltas, dos silenciosos vazios, das invasões, do abandono, necessitando todo um cuidado para que ela não se abandonasse na imobilizadora tristeza depressiva. No seu relato, mesmo antes do abuso, não havia afetividade da mãe, e mesmo quando adoecia não recebia nenhuma atenção dela. Ela era vaidosa, não se dedicava a casa, e os irmãos eram os privilegiados. Percebíamos a fragilidade e o desamparo de Maria e víamos a necessidade de descongelar as situações iniciais de “fracasso ambiental” para a retomada do seu desenvolvimento. Isto só seria possível se não se repetissem as antigas falhas ambientais. Teríamos de cuidar do manejo, requerendo muita disponibilidade. O setting, cultivando um holding, possibilitou a construção de novos vínculos, resgatou a confiança, ela tinha agora outros recursos para enfrentar o mundo. Encontramos em Winnicott (1993) suporte para o manejo nas situações clínicas, possibilitando uma adaptação nossa às necessidades de Maria, além de entendermos que, às vezes, o trabalho analítico precisava ficar suspenso. Para este autor o manejo é um elemento importante, facilitador de mudanças psíquicas e as formas especiais de conduzir o setting, é como uma metáfora dos cuidados maternos sendo o manuseio o principal recurso com pacientes regredidos. O paciente busca no terapeuta as funções de que necessita e se o terapeuta compreende a situação, temos um momento mutativo. No relato de Maria, a mãe nunca lhe acompanhou nas diversas consultas médicas que precisou fazer incumbindo sempre outras pessoas para esta tarefa, por isso Maria sentia-se desprezada, não compreendida e abandonada por ela. Acreditava que a família tinha vergonha por ela ter problemas de saúde, “doença de louco” como dizia a mãe que lhe instigava para reagir, não se entregar, não ser fraca. Até os cinco anos era uma criança alegre e expansiva. Voltando a este tempo da infância se descortinam cenas trágicas e terríveis da violação sofrida. O mundo escureceu, sua alegria desapareceu e por mais que lavasse a mão não conseguia limpá5 la. Recolheu-se num canto quieta, ao chegar em casa contou o ocorrido aos pais. Um frio silêncio se instalou; não foi acolhida, além de pairar “um ar de acusação”. Na adolescência os conflitos se acirraram. Tinha muitos complexos, não gostava de seu corpo, as mamas eram muito volumosas e os irmãos gozavam dela. Tinha ímpetos de cortar as mamas ou queria arrancar a mão por senti-la sempre suja. Temia os pensamentos, percebia que poderia se ferir nos momentos de maior desespero. Aos dezesseis anos, teve um grande amor e ao começar o namoro sentiu-se estranha, não sabia o que fazer resolvendo acabar. Arrependeu-se, quis voltar atrás, mas ele não a aceitou. Ficou muito deprimida, era mais uma rejeição vivida. O pai adoeceu, necessitando ficar um longo tempo fora para se tratar, acompanhado da mãe. A situação era péssima e, para piorar, logo após o retorno do pai, perdeu o irmão, que lhe apoiava e defendia na família, num acidente. Seu desespero foi grande, a depressão agravou, procurou o psiquiatra pela primeira vez sendo medicada. A família evangélica dizia para ela ir a igreja, pois sua depressão era coisa do diabo.Por medo da dependência dos remédios parou a medicação após pequena melhora. Fez o curso superior sem estudar muito, assim não sentia confiança para exercer a profissão. Começou a namorar o marido na faculdade. A proximidade do casamento e do final de curso lhe deixaram num estado de forte ansiedade e angústia vindo intensa insônia. Nova crise de depressão se instalou mais profunda que a anterior. Nas vésperas de casar se desesperou, mas apesar do psiquiatra dizer que ela não estava em condições para casar, a mãe não mudou de opinião. Casou deprimida, e, por sugestão das cunhadas que moravam em São Paulo, buscou um psiquiatra lá, sendo sugerido iniciar uma psicoterapia. Descobriu que solicitaram um laudo para anular o casamento. Separou-se. De São Paulo voltou para a casa dos pais, mas já não tinha mais um lugar. Passou a ocupar o pequeno quarto de empregada, nos fundos da casa. Ficava se balançando numa rede, tinha apenas um rádio de pilha como companhia, com suas luzes vermelhas que subiam e desciam semelhante a sua vida; era um pequeno fio de luz que aquecia a alma, iluminava o caminho. Sonhava ser compreendida e embalada pela mãe. Após um ano, reataram a relação. Iniciou a terapia num momento de piora da depressão focando seu desamparo, os medos e a insegurança. Relata: “foi aí que comecei a trabalhar o estrago que o abuso sofrido provocou na minha vida”. Era como este fato estivesse adormecido, só manifestando os sintomas sem uma aparente causa. Como bem coloca Winnicott (1993) quando ocorre uma vivência de privação ou invasão numa fase inicial do desenvolvimento, observam-se repercussões tanto 6 somáticas quanto psíquicas que acarretam distúrbios de várias ordens. Era evidente que mesmo antes do trauma vivido, Maria não havia recebido uma provisão ambiental satisfatória de forma a se estruturar. Inicialmente pensávamos que o quadro depressivo de Maria seria reativo ao trauma, mas com o desenrolar da análise apareceram sintomas com um grau de distorção na autopercepção e às vezes os sintomas beiravam a psicose. Estes aspectos nos levavam a pensar que antes do trauma ela havia vivido situações de privação daí a riqueza dos sintomas somáticos, psíquicos e/ou somatopsíquicos mostrando de forma clara um desalojamento da psique no soma. Numa sessão, Maria volta ao tempo de jardim da infância; foi um árduo e sofrido percurso. Solicitou papel para desenhar. Veio, inicialmente, a imagem da mãe despertando muita raiva e revolta. Nos desenhos usou as cores preta e vermelha. Retratou a mãe, o caminho da escola, o tio contornado de preto, depois pintou a figura dele na cor marrom, dizendo “escolhi estas cores por melhor representar a sujeira dele”. Sentiu necessidade de pintar todos os desenhos de preto, de um lado e do outro do papel. Cada traço vinha com um turbilhão de xingamentos contra o tio, apareceu tristeza e o lamento pela falta de apoio. Picou tudo em pedaços bem pequenos e, não satisfeita, pediu para queimá-los. As cinzas foram jogadas na privada saindo um enorme peso. A relação com a mãe foi focada exaustivamente. Quanto choro aflorou e assim, o silêncio, as dores e o ranger de dentes puderam ser transformados em palavras, gestos e lágrimas. Percebíamos que o ambiente físico/emocional que lhe era oferecido precisava despertar confiança e isto era fundamental para fazê-la acreditar que tinha um lugar no mundo onde poderia ser acolhida. O abuso sofrido ia e vinha ao longo de muitos anos do processo sendo trabalhado intensamente até se esgotar. Depois de uma calmaria, o tema voltava a bailar novamente com toda força. Tempo, paciência e tolerância eram vitais,pois Maria caminhava muito lentamente nas suas elaborações. Percebíamos que os sintomas de Maria mostravam um turbilhão de excessos pulsionais aprisionados no corpo. Ela vivia num mundo de conflitos, manifestando muitos sintomas; o peito a explodir os excessos, sufocava com opressão, a cabeça esquentava, doía de tanta tensão com pensamentos persistentes fervilhando a lhe torturar, os olhos ardiam, queimavam, doíam intensamente. O corpo ora queimava, ora explodia de angustia, ora ficava num vazio ou sufocava. As pernas lhe incomodavam muito, as sentia finas, sem força, como se fossem sumir. Vinha uma grande impaciência necessitando se movimentar sem parar andava pela casa estalando os dedos das mãos e pés até sentir dor. Para dormir tinha um verdadeiro ritual: agasalhava os pés com meias, protegia os olhos para não entrar luz. 7 Analisando a relação psique-soma com as psicopatologias, Winnicott (1993) diz que o colapso das defesas leva ao surgimento da ansiedade manifesta em diversos comportamentos. A doença psicossomática surge em decorrência de uma fragilidade ou um rompimento da relação psique-soma sendo caracterizada por múltiplos splittigs, múltiplas rupturas, encerrando, na sintomatologia uma insistência na integração da psique com o soma, mantida como defesa contra a ameaça da perda da união psicossomática ou alguma forma de despersonalização. Acreditamos que estas questões acima levantadas estão no âmago dos sintomas manifestados por Maria. Os sintomas somáticos sempre surgiam em Maria mostrando dores por todo o corpo expressando cada emoção vivida de mil formas. Eram verdadeiros espasmos que denunciavam o contínuo estado de tensão em que ela se encontrava. As emoções localizavam-se com excessiva facilidade num órgão do corpo que entrava em espasmos. As teorizações de Winnicott (1993) nos esclarecem melhor os sintomas dos pacientes depressivos. Ele diz que no processo de integração o desenvolvimento do ego reforça o funcionamento corporal, influenciando o tônus muscular, a coordenação motora e a adaptação a modificações. Uma falha neste processo resulta numa incerteza desta morada, não ocorrendo então o alojamento da psique no soma. Encontramos falta de tônus muscular, inibição psicomotora, paralisia e, com freqüência, uma inquietação demonstrando ansiedade pelo desalojamento da psique no soma e, nos casos mais graves, um total distanciamento do seu próprio corpo. A baixa capacidade de simbolização da paciente associada à paralisia estagnadora e ao excesso de excitações, exigiam continuamente uma sucessão de tradução dos sintomas. Sem tradução, era impossível dar um passo para sair da paralisia e do impasse. Novas transcrições eram vitais para mudar o seu modo de viver. Maria percebeu que já havia saído da paralisia em que tinha ficado desde os cinco anos de idade e também descobriu que hoje ela dispunha de outros recursos para enfrentar o que a vida lhe trouxesse. Era tempo de calmaria, há quatro anos não mais retornou ao trauma. Todo o ódio elaborado foi apaziguado, deixou marcas profundas. Muitas “ligações telefônicas” abriram novos caminhos nas suas noites de angústias mil e ela dizia: “vejo agora que sou uma pessoa importante e merecedora de atenção, carinho e cuidado”. Por morar numa cidade distante foi estabelecida a possibilidade de fazermos sessões por telefone, nas urgências. Ela precisava de um espaço “físicopsíquico” lhe oferecendo o holding que necessitava. Winnicott aponta a importância da mãe como espelho na constituição psíquica 8 do sujeito ressaltando que, no sujeito depressivo, o fracasso do ambiente faz com que a ausência não seja simbolizada e o indivíduo passa a ter dificuldade de presentificar internamente o ausente. Percebíamos claramente que, para Maria, ser olhada e olhar para a analista lhe possibilitou internalizar um objeto bom adquirindo mais segurança. A partir de então, gradativamente seus olhos olharam o mundo enxergando novos caminhos e novas formas de lidar com as dificuldades. Seus olhos já não doíam como antes; ela precisou do olhar da analista para resgatar a autoconfiança, e, assim, este espelho pôde oferecer condições de renarcisá-la. Faltou o olhar da mãe nas situações vividas na sua infância. Maria observou um armador de rede no consultório e solicitou fazer sessões deitada numa rede, queria voltar ao antigo tempo no seu quarto. Seu desejo foi satisfeito e o divã transformado embalou profundas lembranças, e assim pôde ela concretizar um antigo sonho, “ser embalada nas dores e tristezas”. Vivenciou ser cuidada nas suas necessidades, limites e possibilidades, fazendo-a “acreditar ser merecedora de carinho, atenção e amor”. O riso saía mais livre e frouxo, descobriu o prazer de gargalhar. “Era possível resgatar, a partir daí, a alegria perdida na infância”. A relação com o marido foi difícil desde o início, sentia-se infeliz junto dele. Resolve começar a mostrar a sua realidade de casamento para todos, pois ninguém acreditava que o marido agisse mal. Dia-a-dia se distanciava mais dele, despertando o desejo de separação. Avançou nas suas elaborações até ver que precisava separar-se. A família continuava sem lhe apoiar, dizia que era melhor permanecer como estava. A família não lhe apoiou, os conflitos se acirraram e, diante da sua fragilidade e das pressões, entrou em colapso, surgindo grave crise depressiva com pensamentos angustiantes despertando forte desejo de suicídio. Veio inclusive um intenso desejo de matar o marido, eram pensamentos obsessivos a lhe martelar na cabeça lhe fazendo-a temer agir por impulsos, era como se alguém falasse no ouvido, ficando confusa e desesperada. Necessitou iniciar um tratamento psiquiátrico concomitante. Foi forte a resistência aos medicamentos, precisamos trabalhá-la. Muitos conflitos lhe rondavam, o medo da dependência dos remédios lhe fez escrever “A crônica dos comprimidos”. “Cada comprimido representava o que faltou ou ainda faltava na sua vida. O comprimido azul representava o pai com suas ausências e falta de atitude, o comprimido rosa, os irmãos que não conseguiam lhe apoiar e lhe condenavam, o comprimido branco representava a mãe que lhe faltou nas horas de maior sofrimento e aflição e finalmente o comprimido verde lhe trazia a esperança de transformação de seu sofrimento”. Esses 9 escritos lhe ajudaram a superar os medos dos remédios passando a aceitá-los como um mal necessário dando outro colorido a sua vida. Até então vivia a vida em preto-ebranco e sem sorrisos, era vital resgatar a alegria e o colorido da vida. Conscientizou-se que necessitava de apoio psiquiátrico constante. Ao analisar toda a história de vida de Maria acreditamos que no seu inicio de vida ela não teve uma mãe suficientemente boa, não recebendo o suporte necessário para seu desenvolvimento, além disso, foi um ambiente invasivo onde ela não pôde reagir às intrusões sofridas. A situação traumática associada à falta de suporte da família lhe desorganizou e as perdas vividas provocaram agravamento do quadro. Houve necessidade para ela, numa certa medida, de ter uma experiência com alguém capaz de acompanhá-la na sua caminhada. Assim ela ficou bloqueada, por um longo tempo, até que seu processo conseguiu fazê-la caminhar. Entender seu mecanismo de funcionamento exigia muito de nós requerendo muita disponibilidade nossa. Constantemente, havia necessidade de tradução dos seus sintomas, e era aí, neste espaço de transição, entre os traços manifestados e sua significação revelada, que emergia a sua energia pulsional. Víamos como a transferência vivida no caso apresentado foi mediadora de novas possibilidades na vida de Maria criando outros caminhos para o afeto antes aprisionado na angústia. É fundamental a disponibilidade e acolhida do analista para dar conta da densa transferência nele depositada. Devemos cuidar da contratransferência, pois a paralisia manifestada pode mobilizar um movimento em nós como tentativa de saída para a estagnação instalada. Não podemos ter pressa nas nossas interpretações e a delicadeza do acolhimento poderá trazer um bálsamo para as dores destes pacientes. 10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOUN, Paul-Laurent. Lecciones Psicoanalíticas sobre Cuerpo y Síntoma. Ediciones Nueva Visión SAIC. Buenos Aires, República Argentina. 1998. AULAGNIER, Piera. Nascimento de um corpo, origem de uma história. Buenos Aires: Paidós, 1991. BASTOS, Liana A. M. Eu-corpando. O ego e o corpo em Freud. São Paulo: Escuta, 1998. BOWLBY, John. Cuidados Maternos e Saúde Mental. São PauloMartins Fontes, 2002. CARVALHO, Ana Cecília. Depressão: Doença do Corpo e da Alma. São Paulo. Psychê, n.1, Unimarco Editora, 1997. DELOUYA, Daniel. Depressão – Clínica Psicanalítica. São Paulo. Casa do Psicólogo, 2005. FÉDIDA, Pierre. Depressão. São Paulo. Escuta, 1999. FERNANDES, Maria Helena. 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