O CORPO EM SEU SILÊNCIO VAZIO FALA, GRITA E CHORA
Glória Carvalho Barros1
Ao nos depararmos com um paciente deprimido, observamos que o corpo
literalmente fala numa demonstração gritante da sua dor – a expressão facial parece
congelada, o olhar revela uma tristeza sem fim, o corpo desvitalizado e sem brilho
carrega todo o peso do mundo. Sua linguagem comunica que, do ponto de vista
psíquico, o tempo está fechado, o mundo cinzento sujeito a tempestades e, no aspecto
somático, vê-se uma paralisia, imobilização e rigidez de variadas formas.
No inicio de vida, a mãe suplementa, recobre e apresenta o mundo ao bebê em
pequenas doses. Tudo passa pelo corpo. É através desta experiência pessoal, da relação
do bebê com outros corpos, que se processa o alojamento da psique no soma. Todos os
estímulos provenientes dos cuidados maternos ou sua falta ficam registrados no corpo.
Na visão de Winnicott2 (1993), a partir dos cuidados corporais, o bebê vivencia a
experiência da ilusão, através do holding oferecido pela mãe, experiência esta
fundamental para o alojamento da psique no soma e fortalecimento do ego. Para ele,
quando uma mãe, tornou mecânico a sua relação com o bebê, coloca, a si própria e ao
bebê, numa situação de risco, esta situação tende a truncar as relações entre corpo, afeto
e linguagem, dificultando a emergência do sentido enquanto significação compartilhada.
A necessidade orgânica é saciável, ao atingir determinado equilíbrio físico-químico
cessa, mas se existe algo além da necessidade, o desejo pode se tornar inesgotável.
Os bebês, quando separados das mães, costumam ficar prostrados, retraídos, se
transformando em bebês chorões. O choro pela perda do objeto é um chamado numa
tentativa de recuperá-lo. Se a privação materna for prolongada, cessa a atividade autoerógena e ele fica num marasmo profundo. Na falta do objeto libidinal, as pulsões ficam
privadas de seu alcance, e, seguindo o destino da pulsão agressiva, o bebê transforma o
rechaço em agressão contra si próprio, o único objeto que lhe resta. Se há perda da
esperança de recuperar o objeto, desaparece motivação para a atividade, surge inibição
psicomotora ou estupor melancólico com total imobilidade do indivíduo.
1
Médica, Psicanalista, Especialização em Psicologia Clínica/Psicanálise, Medicina Psicossomática,
Psicoterapia Somática/Biossíntese, Membro do EPSI- Espaço Psicanalítico e do Círculo Psicanalítico de
Pernambuco.
2
WINNICOTT, Donald W. Textos Selecionados: da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1993.
1
John Bowlby3 (2002) diz que o bebê, com a perda do objeto, passa por uma série
de fases denominadas de: protesto, desesperança e retraimento. Ele parece agudamente
perturbado por ter perdido a mãe e procura reconquistá-la com seus limitados recursos chorará, sacudirá os braços, virará para os lados, se volta ansiosamente buscando a mãe
perdida. Após a fase de protesto vem a de desesperança e, ao final, a do desapego.
Estes aspectos descritos apontam para a origem dos sintomas somáticos que
observamos nos pacientes com quadros depressivos e melancólicos. Encontramos
inibição psicomotora, falta de tônus muscular, paralisia e, com freqüência, inquietação
demonstrando ansiedade pelo desalojamento da psique no soma e, nos casos mais
graves, um total distanciamento do seu próprio corpo. No adulto, a inibição por perda de
objeto provoca uma ausência de motivação dele aproximar-se de todos os demais
objetos, pois seus desejos se fixam e giram em torno do objeto perdido. A
impossibilidade de passar a outro desejo é a característica essencial para que se produza
a inibição. Após algum tempo, o bebê consegue construir recordações das situações, de
forma que a experiência da mãe, sustentando a situação, se torna parte do self e é
assimilada ao ego, tornando-se a mãe cada vez menos necessária. Winnicott afirma que:
A mãe sustenta a situação, fazendo-o repetidamente, em um período
crítico da vida do bebê. A técnica da mãe permite que o amor e ódio
coexistentes no bebê sejam separados, inter-relacionados e
gradualmente controlados de dentro, de uma forma saudável. Se tudo
ocorreu bem, a posição depressiva é alcançada e estabelecida, (...)
como uma evidência de crescimento pessoal que se fortalece
gradualmente, crescimento este que depende de uma provisão
ambiental sensível e contínua. Para que um bebê alcance a posição
depressiva é necessário que ele tenha se estabelecido como uma
pessoa total e se relacione com pessoas totais. (1993, p.438, 439).
Continuando, ele diz que se no desenvolvimento de um bebê, podemos
assumir que o sentido de totalidade é um fato para aquele bebê, também podemos
assumir que o bebê está vivendo dentro de seu corpo. Quando a “mãe-ambiente”
não pôde oferecer as condições ideais para pôr em marcha uma relação saudável
do bebê com o mundo, vários processos são desencadeados:
Se os fenômenos internos causam problemas, a criança (ou o adulto)
amortece todo o mundo interno, funcionando num nível baixo de
vitalidade. O humor é a depressão. Esta é a primeira vez que, na
minha descrição liguei de forma inerente o termo depressão ao
conceito de posição depressiva. As depressões que encontramos
clinicamente na psiquiatria geralmente não são do tipo relacionado à
“posição depressiva”. Associam-se mais à despersonalização, ou a
3
BOWLBY, John. Cuidados Maternos e Saúde Mental. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
2
desesperança com relação às relações objetais; ou a sensação de
futilidade resultante de um falso self. (1993, p.449, 450).
Para Winnicott, se a posição depressiva foi atingida e completamente
estabelecida em um indivíduo, a reação à perda será dor e tristeza. Na sua visão:
Quando há algum fracasso na posição depressiva, o resultado da
perda é a depressão. O luto significa que o objeto perdido foi
magicamente introjetado e lá fica sujeito ao ódio. Incidentalmente, o
equilíbrio de forças do mundo interno é perturbado por isso, de
forma que os elementos persecutórios ficam aumentados e as forças
benignas ou mantenedoras enfraquecidas. Esta é uma situação
perigosa e o mecanismo de defesa de um amortecimento global
produz humor depressivo. A depressão é um mecanismo curativo; é
como se ela cobrisse o campo de batalha com um nevoa, permitindo
que as coisas se separem vagarosamente, dando tempo para que as
defesas possíveis sejam acionadas e que ocorra uma perlaboração,
de forma que eventualmente aconteça uma recuperação espontânea.
(1993, p.454, 455).
Maria Helena Fernandes4 (1999) ressalta que no início da vida do bebê são as
sensações corporais que ocupam o primeiro plano. Para ela as sensações desprazerosas
demandarão atenção e cuidado da mãe que prontamente responde após interpretar a
linguagem do bebê. Na sua visão:
O trabalho de escuta e interpretação só é possível quando existe um
investimento da mãe no corpo da criança. Esse investimento supõe que ela é
capaz de experimentar um prazer ao ter contato com o corpo da criança e ao
nomear para ela as partes, as funções e as sensações desse corpo (...) e que é
capaz de transformar esse corpo de sensações em um corpo falado (1999)
Muitas são as experiências vividas, experiências estas que passam a constituir o
soma, a psique, a mente, a personalidade do novo ser. Este desenvolvimento é gradual e
constante. Maria Helena Fernandes (1999) analisa ainda outros aspectos importantes:
Na falta de um investimento necessário, a experiência do corpo ficaria ligada
à necessidade, privada da descoberta desse corpo de prazer - num primeiro
momento objeto do investimento libidinal da mãe e, num segundo tempo,
objeto do investimento libidinal do próprio sujeito. (1999)
Para a autora, nos pacientes em que se evidencia uma ausência de percepção dos
sinais somáticos, a experiência do corpo parece ancorada no registro da necessidade,
4
FERNANDES, Maria Helena. A Hipocondria do Sonho e o Silêncio dos Órgãos: O Corpo na Clinica
Psicanalítica. Percurso, n°23, 2° semestre de 1999.
3
num tempo anterior ao auto-erotismo. O do silêncio dos órgãos denuncia uma falência
da erogeneidade e, por conseqüência da autopercepção.
Winnicott (1993) pontua que o meio ambiente perfeito é aquele que se adapta
ativamente às necessidades da psique-soma recém-formada. Um meio ambiente é mau
quando não consegue se adaptar, tornando-se uma invasão que não pode ser
compensada, à qual a psique-soma do bebê precisa reagir perturbando a sua
continuidade da existência. No seu entender, gradualmente, os aspectos da psique e do
soma que a pessoa em crescimento possui, envolvem-se em um processo de interrelação mútua. Num estádio posterior, o corpo vivo, com seus limites, tendo um interior
e um exterior, é sentido pelo individuo como formando o cerne do self imaginativo.
Estas teorizações trazem mais uma luz para a nossa compreensão das questões
do corpo e do processo depressivo. Analisaremos um caso clínico de uma paciente
acompanhada por nós por 12 anos. Ao longo de todo o acompanhamento, ela mostrava
um exuberante quadro clínico manifestando sintomas de múltiplas formas e
intensidades, exigindo sempre uma tradução. Quando a mente calava, seu corpo falava,
exibindo rica linguagem própria e particular requerendo de nós um olhar, uma escuta e
um cuidar para que ela pudesse transformar os sintomas e ressignificar o seu viver.
O Retrato de uma Dor: Reflexões Clínicas
Maria, 48 anos, fisioterapeuta, terceira filha de uma família com cinco
irmãos, três filhas, vem ao consultório apresentando quadro fóbico-ansioso e
depressivo. Não saía só de casa, vindo para a sessão sempre acompanhada do marido e
seu bebê de quatro meses por temer ser assaltada ou estuprada quando sozinha. No
início, o processo girava em torno do bebê, as duas filhas e, a partir daí, ela começa a
relatar sua história. Após um longo período, surgiram dados marcantes e bastante
esclarecedores do quadro. Relata falta de apoio, rejeição e incompreensão da família
desde os cinco anos após viver um abuso sexual (esposo da tia). Ficou paralisada, sua
alegria desapareceu. Culpa, dor e tristeza passaram a fazer parte do seu cotidiano.
A violência vivida por Maria não pôde ser expressa e, ao tentar falar das suas
aflições e medos, era estimulada a esquecer. Ela calou, foi impossível traduzir em
palavras a invasão sofrida, ficando no corpo o registro dessas vivências, encapsuladas
num circuito defensivo denunciado pelos sintomas que exigiam uma permanente
tradução. Com esta postura de evitação e negação a família criou um estado de angústia,
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instalando-se um vazio, manifestando cedo uma depressão que afetou o brincar. Seu
processo de desenvolvimento emocional não pôde se concretizar.
Winnicott (1993) levanta que devemos reconhecer o sintoma como um sinal de
socorro e assim, se justifica uma investigação completa da história do desenvolvimento
emocional no início de vida do sujeito. Na análise de Maria, percebíamos que certas
manifestações sintomáticas continham afetos importantes e desvendá-los seria decisivo
para uma melhor elaboração do quadro. Era significativo compreender e, de certa
maneira, “ouvir” o corpo, fazer uma tradução deles para uma possível transformação.
Era exuberante a linguagem deste corpo marcado pela dor das vivências das faltas, dos
silenciosos vazios, das invasões, do abandono, necessitando todo um cuidado para que
ela não se abandonasse na imobilizadora tristeza depressiva. No seu relato, mesmo antes
do abuso, não havia afetividade da mãe, e mesmo quando adoecia não recebia nenhuma
atenção dela. Ela era vaidosa, não se dedicava a casa, e os irmãos eram os privilegiados.
Percebíamos a fragilidade e o desamparo de Maria e víamos a necessidade de
descongelar as situações iniciais de “fracasso ambiental” para a retomada do seu
desenvolvimento. Isto só seria possível se não se repetissem as antigas falhas
ambientais. Teríamos de cuidar do manejo, requerendo muita disponibilidade. O setting,
cultivando um holding, possibilitou a construção de novos vínculos, resgatou a
confiança, ela tinha agora outros recursos para enfrentar o mundo.
Encontramos em Winnicott (1993) suporte para o manejo nas situações clínicas,
possibilitando uma adaptação nossa às necessidades de Maria, além de entendermos
que, às vezes, o trabalho analítico precisava ficar suspenso. Para este autor o manejo é
um elemento importante, facilitador de mudanças psíquicas e as formas especiais de
conduzir o setting, é como uma metáfora dos cuidados maternos sendo o manuseio o
principal recurso com pacientes regredidos. O paciente busca no terapeuta as funções de
que necessita e se o terapeuta compreende a situação, temos um momento mutativo.
No relato de Maria, a mãe nunca lhe acompanhou nas diversas consultas
médicas que precisou fazer incumbindo sempre outras pessoas para esta tarefa, por isso
Maria sentia-se desprezada, não compreendida e abandonada por ela. Acreditava que a
família tinha vergonha por ela ter problemas de saúde, “doença de louco” como dizia a
mãe que lhe instigava para reagir, não se entregar, não ser fraca.
Até os cinco anos era uma criança alegre e expansiva. Voltando a este tempo da
infância se descortinam cenas trágicas e terríveis da violação sofrida. O mundo
escureceu, sua alegria desapareceu e por mais que lavasse a mão não conseguia limpá5
la. Recolheu-se num canto quieta, ao chegar em casa contou o ocorrido aos pais. Um
frio silêncio se instalou; não foi acolhida, além de pairar “um ar de acusação”.
Na adolescência os conflitos se acirraram. Tinha muitos complexos, não gostava
de seu corpo, as mamas eram muito volumosas e os irmãos gozavam dela. Tinha
ímpetos de cortar as mamas ou queria arrancar a mão por senti-la sempre suja. Temia os
pensamentos, percebia que poderia se ferir nos momentos de maior desespero. Aos
dezesseis anos, teve um grande amor e ao começar o namoro sentiu-se estranha, não
sabia o que fazer resolvendo acabar. Arrependeu-se, quis voltar atrás, mas ele não a
aceitou. Ficou muito deprimida, era mais uma rejeição vivida.
O pai adoeceu, necessitando ficar um longo tempo fora para se tratar,
acompanhado da mãe. A situação era péssima e, para piorar, logo após o retorno do pai,
perdeu o irmão, que lhe apoiava e defendia na família, num acidente. Seu desespero foi
grande, a depressão agravou, procurou o psiquiatra pela primeira vez sendo medicada.
A família evangélica dizia para ela ir a igreja, pois sua depressão era coisa do diabo.Por
medo da dependência dos remédios parou a medicação após pequena melhora. Fez o
curso superior sem estudar muito, assim não sentia confiança para exercer a profissão.
Começou a namorar o marido na faculdade. A proximidade do casamento e do
final de curso lhe deixaram num estado de forte ansiedade e angústia vindo intensa
insônia. Nova crise de depressão se instalou mais profunda que a anterior. Nas vésperas
de casar se desesperou, mas apesar do psiquiatra dizer que ela não estava em condições
para casar, a mãe não mudou de opinião. Casou deprimida, e, por sugestão das cunhadas
que moravam em São Paulo, buscou um psiquiatra lá, sendo sugerido iniciar uma
psicoterapia. Descobriu que solicitaram um laudo para anular o casamento. Separou-se.
De São Paulo voltou para a casa dos pais, mas já não tinha mais um lugar.
Passou a ocupar o pequeno quarto de empregada, nos fundos da casa. Ficava se
balançando numa rede, tinha apenas um rádio de pilha como companhia, com suas luzes
vermelhas que subiam e desciam semelhante a sua vida; era um pequeno fio de luz que
aquecia a alma, iluminava o caminho. Sonhava ser compreendida e embalada pela mãe.
Após um ano, reataram a relação. Iniciou a terapia num momento de piora da
depressão focando seu desamparo, os medos e a insegurança. Relata: “foi aí que
comecei a trabalhar o estrago que o abuso sofrido provocou na minha vida”. Era como
este fato estivesse adormecido, só manifestando os sintomas sem uma aparente causa.
Como bem coloca Winnicott (1993) quando ocorre uma vivência de privação ou
invasão numa fase inicial do desenvolvimento, observam-se repercussões tanto
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somáticas quanto psíquicas que acarretam distúrbios de várias ordens. Era evidente que
mesmo antes do trauma vivido, Maria não havia recebido uma provisão ambiental
satisfatória de forma a se estruturar. Inicialmente pensávamos que o quadro depressivo
de Maria seria reativo ao trauma, mas com o desenrolar da análise apareceram sintomas
com um grau de distorção na autopercepção e às vezes os sintomas beiravam a psicose.
Estes aspectos nos levavam a pensar que antes do trauma ela havia vivido situações de
privação daí a riqueza dos sintomas somáticos, psíquicos e/ou somatopsíquicos
mostrando de forma clara um desalojamento da psique no soma.
Numa sessão, Maria volta ao tempo de jardim da infância; foi um árduo e
sofrido percurso. Solicitou papel para desenhar. Veio, inicialmente, a imagem da mãe
despertando muita raiva e revolta. Nos desenhos usou as cores preta e vermelha.
Retratou a mãe, o caminho da escola, o tio contornado de preto, depois pintou a figura
dele na cor marrom, dizendo “escolhi estas cores por melhor representar a sujeira dele”.
Sentiu necessidade de pintar todos os desenhos de preto, de um lado e do outro do
papel. Cada traço vinha com um turbilhão de xingamentos contra o tio, apareceu tristeza
e o lamento pela falta de apoio. Picou tudo em pedaços bem pequenos e, não satisfeita,
pediu para queimá-los. As cinzas foram jogadas na privada saindo um enorme peso. A
relação com a mãe foi focada exaustivamente. Quanto choro aflorou e assim, o silêncio,
as dores e o ranger de dentes puderam ser transformados em palavras, gestos e lágrimas.
Percebíamos que o ambiente físico/emocional que lhe era oferecido precisava
despertar confiança e isto era fundamental para fazê-la acreditar que tinha um lugar no
mundo onde poderia ser acolhida. O abuso sofrido ia e vinha ao longo de muitos anos
do processo sendo trabalhado intensamente até se esgotar. Depois de uma calmaria, o
tema voltava a bailar novamente com toda força. Tempo, paciência e tolerância eram
vitais,pois Maria caminhava muito lentamente nas suas elaborações. Percebíamos que
os sintomas de Maria mostravam um turbilhão de excessos pulsionais aprisionados no
corpo. Ela vivia num mundo de conflitos, manifestando muitos sintomas; o peito a
explodir os excessos, sufocava com opressão, a cabeça esquentava, doía de tanta tensão
com pensamentos persistentes fervilhando a lhe torturar, os olhos ardiam, queimavam,
doíam intensamente. O corpo ora queimava, ora explodia de angustia, ora ficava num
vazio ou sufocava. As pernas lhe incomodavam muito, as sentia finas, sem força, como
se fossem sumir. Vinha uma grande impaciência necessitando se movimentar sem parar
andava pela casa estalando os dedos das mãos e pés até sentir dor. Para dormir tinha um
verdadeiro ritual: agasalhava os pés com meias, protegia os olhos para não entrar luz.
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Analisando a relação psique-soma com as psicopatologias, Winnicott (1993) diz
que o colapso das defesas leva ao surgimento da ansiedade manifesta em diversos
comportamentos. A doença psicossomática surge em decorrência de uma fragilidade ou
um rompimento da relação psique-soma sendo caracterizada por múltiplos splittigs,
múltiplas rupturas, encerrando, na sintomatologia uma insistência na integração da
psique com o soma, mantida como defesa contra a ameaça da perda da união
psicossomática ou alguma forma de despersonalização. Acreditamos que estas questões
acima levantadas estão no âmago dos sintomas manifestados por Maria. Os sintomas
somáticos sempre surgiam em Maria mostrando dores por todo o corpo expressando
cada emoção vivida de mil formas. Eram verdadeiros espasmos que denunciavam o
contínuo estado de tensão em que ela se encontrava. As emoções localizavam-se com
excessiva facilidade num órgão do corpo que entrava em espasmos.
As teorizações de Winnicott (1993) nos esclarecem melhor os sintomas dos
pacientes depressivos. Ele diz que no processo de integração o desenvolvimento do ego
reforça o funcionamento corporal, influenciando o tônus muscular, a coordenação
motora e a adaptação a modificações. Uma falha neste processo resulta numa incerteza
desta morada, não ocorrendo então o alojamento da psique no soma. Encontramos falta
de tônus muscular, inibição psicomotora, paralisia e, com freqüência, uma inquietação
demonstrando ansiedade pelo desalojamento da psique no soma e, nos casos mais
graves, um total distanciamento do seu próprio corpo.
A baixa capacidade de simbolização da paciente associada à paralisia
estagnadora e ao excesso de excitações, exigiam continuamente uma sucessão de
tradução dos sintomas. Sem tradução, era impossível dar um passo para sair da paralisia
e do impasse. Novas transcrições eram vitais para mudar o seu modo de viver.
Maria percebeu que já havia saído da paralisia em que tinha ficado desde os
cinco anos de idade e também descobriu que hoje ela dispunha de outros recursos para
enfrentar o que a vida lhe trouxesse. Era tempo de calmaria, há quatro anos não mais
retornou ao trauma. Todo o ódio elaborado foi apaziguado, deixou marcas profundas.
Muitas “ligações telefônicas” abriram novos caminhos nas suas noites de angústias mil
e ela dizia: “vejo agora que sou uma pessoa importante e merecedora de atenção,
carinho e cuidado”. Por morar numa cidade distante foi estabelecida a possibilidade de
fazermos sessões por telefone, nas urgências. Ela precisava de um espaço “físicopsíquico” lhe oferecendo o holding que necessitava.
Winnicott aponta a importância da mãe como espelho na constituição psíquica
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do sujeito ressaltando que, no sujeito depressivo, o fracasso do ambiente faz com que a
ausência não seja simbolizada e o indivíduo passa a ter dificuldade de presentificar
internamente o ausente. Percebíamos claramente que, para Maria, ser olhada e olhar
para a analista lhe possibilitou internalizar um objeto bom adquirindo mais segurança. A
partir de então, gradativamente seus olhos olharam o mundo enxergando novos
caminhos e novas formas de lidar com as dificuldades. Seus olhos já não doíam como
antes; ela precisou do olhar da analista para resgatar a autoconfiança, e, assim, este
espelho pôde oferecer condições de renarcisá-la. Faltou o olhar da mãe nas situações
vividas na sua infância.
Maria observou um armador de rede no consultório e solicitou fazer sessões
deitada numa rede, queria voltar ao antigo tempo no seu quarto. Seu desejo foi satisfeito
e o divã transformado embalou profundas lembranças, e assim pôde ela concretizar um
antigo sonho, “ser embalada nas dores e tristezas”. Vivenciou ser cuidada nas suas
necessidades, limites e possibilidades, fazendo-a “acreditar ser merecedora de carinho,
atenção e amor”. O riso saía mais livre e frouxo, descobriu o prazer de gargalhar. “Era
possível resgatar, a partir daí, a alegria perdida na infância”.
A relação com o marido foi difícil desde o início, sentia-se infeliz junto dele.
Resolve começar a mostrar a sua realidade de casamento para todos, pois ninguém
acreditava que o marido agisse mal. Dia-a-dia se distanciava mais dele, despertando o
desejo de separação. Avançou nas suas elaborações até ver que precisava separar-se. A
família continuava sem lhe apoiar, dizia que era melhor permanecer como estava. A
família não lhe apoiou, os conflitos se acirraram e, diante da sua fragilidade e das
pressões, entrou em colapso, surgindo grave crise depressiva com pensamentos
angustiantes despertando forte desejo de suicídio. Veio inclusive um intenso desejo de
matar o marido, eram pensamentos obsessivos a lhe martelar na cabeça lhe fazendo-a
temer agir por impulsos, era como se alguém falasse no ouvido, ficando confusa e
desesperada. Necessitou iniciar um tratamento psiquiátrico concomitante. Foi forte a
resistência aos medicamentos, precisamos trabalhá-la. Muitos conflitos lhe rondavam, o
medo da dependência dos remédios lhe fez escrever “A crônica dos comprimidos”.
“Cada comprimido representava o que faltou ou ainda faltava na sua vida. O
comprimido azul representava o pai com suas ausências e falta de atitude, o comprimido
rosa, os irmãos que não conseguiam lhe apoiar e lhe condenavam, o comprimido branco
representava a mãe que lhe faltou nas horas de maior sofrimento e aflição e finalmente o
comprimido verde lhe trazia a esperança de transformação de seu sofrimento”. Esses
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escritos lhe ajudaram a superar os medos dos remédios passando a aceitá-los como um
mal necessário dando outro colorido a sua vida. Até então vivia a vida em preto-ebranco e sem sorrisos, era vital resgatar a alegria e o colorido da vida. Conscientizou-se
que necessitava de apoio psiquiátrico constante.
Ao analisar toda a história de vida de Maria acreditamos que no seu inicio de
vida ela não teve uma mãe suficientemente boa, não recebendo o suporte necessário
para seu desenvolvimento, além disso, foi um ambiente invasivo onde ela não pôde
reagir às intrusões sofridas. A situação traumática associada à falta de suporte da família
lhe desorganizou e as perdas vividas provocaram agravamento do quadro. Houve
necessidade para ela, numa certa medida, de ter uma experiência com alguém capaz de
acompanhá-la na sua caminhada. Assim ela ficou bloqueada, por um longo tempo, até
que seu processo conseguiu fazê-la caminhar.
Entender seu mecanismo de funcionamento exigia muito de nós requerendo
muita disponibilidade nossa. Constantemente, havia necessidade de tradução dos seus
sintomas, e era aí, neste espaço de transição, entre os traços manifestados e sua
significação revelada, que emergia a sua energia pulsional.
Víamos como a transferência vivida no caso apresentado foi mediadora de novas
possibilidades na vida de Maria criando outros caminhos para o afeto antes aprisionado
na angústia. É fundamental a disponibilidade e acolhida do analista para dar conta da
densa transferência nele depositada. Devemos cuidar da contratransferência, pois a
paralisia manifestada pode mobilizar um movimento em nós como tentativa de saída
para a estagnação instalada. Não podemos ter pressa nas nossas interpretações e a
delicadeza do acolhimento poderá trazer um bálsamo para as dores destes pacientes.
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