Ensaios e Ciência: Ciências Biológicas, Agrárias e da Saúde ISSN: 1415-6938 [email protected] Universidade Anhanguera Brasil Maragno Vieira, Gogliardo Adequação bioclimática da arquitetura de Mato Grosso do Sul Ensaios e Ciência: Ciências Biológicas, Agrárias e da Saúde, vol. 6, núm. 3, 2002, pp. 13-37 Universidade Anhanguera Campo Grande, Brasil Disponible en: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=26060302 Cómo citar el artículo Número completo Más información del artículo Página de la revista en redalyc.org Sistema de Información Científica Red de Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal Proyecto académico sin fines de lucro, desarrollado bajo la iniciativa de acceso abierto ADEQUAÇÃO BIOCLIMÁTICA DA ARQUITETURA DE MATO GROSSO DO SUL Gogliardo Vieira Maragno Coordenador da Pesquisa Colaboraram com a pesquisa os professores José Alberto Ventura Couto e Gutemberg Weingartner. Curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal. e-mail [email protected] RESUMO Este trabalho objetivou pesquisar a adequação bioclimática da arquitetura a partir do estudo de caso específico das cidades de Mato Grosso do Sul. Partiu-se da premissa de que a abordagem bioclimática na arquitetura permite que as edificações possam relacionar-se com o meio ambiente em maior harmonia além de proporcionar conforto ambiental e preservação de energia. Esta abordagem se dá através da aplicação consciente de soluções projetuais e de materiais construtivos adequados às características climáticas locais utilizando recursos geralmente renováveis como o sol, o vento e a vegetação. Desta maneira é possível propiciar o desejado conforto aos usuários, além de contribuir para a redução do consumo de energia e a preservação da natureza. A pesquisa constata que em muitas situações a abordagem bioclimática não é empregada por indisponibilidade de dados climáticos organizados que permitam uma aplicação direta, como subsídio de projeto, por parte dos arquitetos e urbanistas. Ao sistematizar as informações climáticas, bem como as estratégias adequadas de projeto, ilustradas com exemplos positivos e negativos da arquitetura praticada em oito cidades de Mato Grosso do Sul, a pesquisa disponibiliza um importante instrumento auxiliar de projeto à profissionais, estudantes e pesquisadores da área na busca da qualidade do ambiente construído. PALAVRAS CHAVE Arquitetura, arquitetura bioclimática, Mato Grosso do Sul. 14 ABSTRACT The aim of this study is to research the bioclimatic suitability of architecture as shown by the specific case-study of some towns in Mato Grosso do Sul. The underlying idea is that the bio-climatic approach to architecture allows that buildings have a more harmonious relationship with their environment at the same time that provides environmental well-being and energy conservation. This approach takes place by consciously applying design solutions and building materials which are suitable to the local climatic characteristics using renewable resources, in general, such as the sun, the wind and the vegetation. Therefore it becomes feasible to offer valuable well-being for the users besides contributing for the reduction of energy consumption and to nature conservation. The study comes to the conclusion that in many situations the bio-climatic approach is not employed due to unavailability of organized climatic data that would allow for their direct application on design on the part of architects and urban planners. The systematization of the climatic information carried out by this study, as well as the suitable design strategies offered, together with the illustrations given by positive and negative examples in the architecture as practiced in eight towns in Mato Grosso do Sul, make available to professionals, students and researchers in the field an important design tool in their search for quality of the built environment. KEY-WORDS Architecture, bio-climatic architecture, Mato Grosso do Sul. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 1 INTRODUÇÃO Há milhares de anos o homem observa a natureza e compreende que a vida e a energia procedem do Sol, que atua diretamente na constituição dos climas. Acredita-se que Sócrates (470-399 a.C.) tenha sido o primeiro filósofo a descrever alguns princípios fundamentais relacionando o clima às edificações: Nas casas com orientação Sul, os raios de sol penetram nos pórticos durante o inverno, mas no verão o movimento do sol está diretamente sobre nossas cabeças e nossos telhados, produzindo sombra. Se é assim, esta é a melhor maneira: podemos fazer construções mais altas no Sul, para captar o sol no inverno, e mais baixas no lado Norte, para excluir os ventos frios. Vitrúvio (1999), na primeira parte de seu tratado De Architectura Libri Decem defende que a boa arquitetura está sempre apoiada em três atributos: firmitas, utilitas et venustas1 , e defende que o lugar escolhido para edificar uma construção ou uma cidade deve ser salubre e voltado para regiões do céu nem muito quentes nem muito frias. Alberti (1986), já no início de sua obra De re aedificatoria2, demonstra preocupações semelhantes evidenciadas no próprio título do segundo capítulo: Da Região, do Clima do Ar, do Sol e dos Ventos, onde trata das regiões satisfatórias para se construirem edifícios em relação às influências do clima sobre as pessoas e os edifícios. Estes exemplos distanciados entre si e de nossos dias por centenas ou milhares de anos confirmam que a análise do clima e suas relações com a arquitetura não são preocupações recentes. A arquitetura tem procurado ao longo da história desenvolver meios de controle ambiental que possam oferecer abrigo e conforto aos homens, e o clima de cada lugar tem sido fator determinante na definição das concepções arquitetônicas, dos materiais, das técnicas construtivas e das instalações prediais. Conhecer o clima de um lugar e saber relacioná-lo à prática projetual constituí cada vez mais um diferencial da boa arquitetura. Gonzales et al. (1986) observam que ao reconhecer a importância do 1 Solidez, utilidade e beleza. 2 Leon Batista Alberti: Manuscrito de 1452, publicado pela primeira vez em1485. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 15 ambiente, e particularmente do clima, na solução física dos lugares que serão habitados pelo homem pode-se mais eficazmente alcançar a organização dos espaços, de maneira que reúnam características específicas para satisfazer os diferentes tipos de necessidades humanas e entre elas a do bem-estar térmico. Entre o final do século XIX e início do século XX, os notáveis avanços tecnológicos levaram gerações de arquitetos a acreditar que a solução dos problemas ambientais dar-se-ia preferencialmente com a utilização de máquinas e equipamentos movidos a algum tipo de energia disponível e, portanto, o condicionamento ambiental deixava de ser assunto dos arquitetos e sua solução dar-se-ia posteriormente, sob a responsabilidade de outros profissionais. Na década de 70, as crises do petróleo despertaram a consciência de que as fontes de energia utilizadas no condicionamento artificial não eram inesgotáveis vindo a contribuir para uma revalorização da arquitetura integrada ao clima atenta às questões ambientais. Contraditoriamente, esta retomada ocorreu com maior ênfase nos países mais desenvolvidos, com maior acesso à energia. Assim, as pesquisas voltadas para os seus climas, normalmente frios ou temperados, foram mais intensas do que as voltadas para os climas tropicais, que predominam nos países não desenvolvidos. Atualmente, esses países também têm despendido seus esforços, entre eles o Brasil. A escassez na oferta de energia elétrica durante o ano 2001 em nosso país e a incerteza sobre a disponibilidade de energia no futuro próximo acarretaram uma atenção ainda maior para o tema, estimulando a busca por soluções que favoreçam a redução do consumo de energia. Paralelamente, as exigências em relação ao conforto ambiental por parte da população são crescentes. A alternativa que se apresenta no campo da arquitetura e urbanismo é a do bioclimatismo, ou seja, uma arquitetura que busca contrapor-se à utilização da tecnologia de forma arbitrária e exagerada com desconhecimento ou descaso quanto às características climáticas do lugar e seus efeitos sobre as edificações. Postura que leva quase sempre a uma arquitetura imprópria para o homem e altamente consumidora de energia. Atualmente o que se procura é o estabelecimento de critérios e estratégias de projeto acessíveis a todos e que proporcionem uma arquitetura que se 16 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 identifique com o lugar e, portanto, seja muito mais eficiente, tanto do ponto de vista do bem-estar térmico quanto do uso de energia. Neste sentido, a avaliação das condições climáticas é necessária ao estabelecimento de análises comparativas entre as condições ambientais existentes e as necessidades dos indivíduos para a realização de suas atividades cotidianas. Neste trabalho, buscou-se, por meio da abordagem bioclimática, iniciar uma sistematização de dados climáticos para definição de critérios gerais recomendados à arquitetura nas diferentes regiões de Mato Grosso do Sul. 2 O CONFORTO TÉRMICO A ASHARAE3 define conforto térmico como um estado de espírito que reflete satisfação com o ambiente térmico que envolve a pessoa (apud GOULART; LAMBERTS; FIRMINO, 1994). Há um projeto de norma técnica em análise no Comitê Brasileiro de Construção Civil da ABNT4 , desde 1998, sobre o desempenho térmico de edificações onde conforto térmico é definido como” [...] a satisfação psicofisiológica de um indivíduo com as condições térmicas do ambiente”. Xavier (1999) especifica que o conforto térmico pode ser estudado sob dois pontos de vistas fundamentais: o pessoal e o ambiental sendo que, em relação ao pessoal, Fanger (1972) o define como “[...] sendo uma condição da mente que expressa satisfação com o ambiente térmico”. Esta sua definição pode ser encontrada tanto em textos sobre o assunto, quanto como referência em muitas normas técnicas em todo o mundo, inclusive as da ASHRAE. Alguns autores, como Rohles (apud XAVIER, 1999), advertem que é necessário analisar conjuntamente a temperatura do corpo e as sensações relatadas pelas pessoas, ou seja, a condição do corpo e a condição da mente. Sob o ponto de vista ambiental, o conforto é definido como “[...] o estado térmico para determinado ambiente, com relação às suas variáveis físicas, quando um menor número de pessoas estejam insatisfeitas com o mesmo” (FANGER, 1972). 3 American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers 4 Projeto 02:135.07:1998 da Associação Brasileira de Normas Técnicas Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 17 As condições do ambiente atuam sobre os fatores de conforto de um indivíduo e influenciam sua apreciação sobre o mesmo, sendo que, o mesmo espaço pode apresentar respostas muito diferentes conforme as condições especiais dos usuários. Serra e Coch (1995), classificam estas condições em três grupos descritos a seguir: a) condições biológica/fisiológicas: hereditariedade, sexo, idade etc.; b) condições sociológicas: tipo de atividade, educação ambiente familiar, moda, tipo de alimentação etc.; c) 3 condições psicológicas: variáveis para cada usuário. A ARQUITETURA BIOCLIMÁTICA A arquitetura é considerada bioclimática quando está baseada na correta aplicação de elementos arquitetônicos e tecnologias construtivas em relação às características climáticas, visando otimizar o conforto dos ocupantes e o consumo de menos energia. O termo bioclimático foi cunhado por Victor Olgyay em suas pesquisas desenvolvidas com seu irmão Aladar no MIT e publicadas no início da Década de 50 (OLGYAY; OLGYAY, 1957; OLGYAY, 1998). Izard e Guyot (1980) estabelecem como boa arquitetura bioclimática “[...] aquela que permite que um edifício se beneficie de ambientes interiores próximos ao conforto para uma margem de variação das condições exteriores bastante amplos, sem o recurso do condicionamento de ar artificial.” Para Watson e Labs (apud ANDRADE, 1996) o projeto bioclimático é aquele cuja fonte ou recurso encontra-se no microclima de seu sítio, onde deverá ser implantado e apresenta um fluxo natural de energia ao redor da edificação criado por meio de uma total integração do sol, vento, precipitação e o resultado das temperaturas do ar e da terra. Bogo et al. (1994) descrevem o bioclimatismo como o princípio de concepção em arquitetura que pretende utilizar, por meio da própria arquitetura, os elementos favoráveis do clima com o objetivo de satisfazer as exigências de bem-estar higrotérmico. 18 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 4 ÍNDICES DE CONFORTO TÉRMICO E CARTAS BIOCLIMÁTICAS O ponto de partida para o estabelecimento das condições de conforto térmico será a definição de variáveis e parâmetros que possam estabelecer condições adequadas em relação ao comportamento térmico do ser humano diante do ambiente térmico. Nesse aspecto, os diferentes índices de conforto procuram englobar o efeito conjunto destas variáveis através de diferentes abordagens e metodologias. A aplicação destes índices permite que se estabeleçam zonas de conforto térmico delimitadas graficamente sobre nomogramas ou cartas e diagramas que limitam os parâmetros físicos e as definem. As cartas bioclimáticas, por sua vez, são elaboradas a partir das zonas de conforto térmico e proporcionam de maneira integrada informações sobre comportamento climático do entorno e previsão de estratégias para a correção desse comportamento quando fora da zona correspondente ao conforto térmico. Bogo et al. (1994) analisaram as aplicações de diversas cartas bioclimáticas e concluíram que a de Givoni revista em 1992 (GIVONI, 1998) era a mais adequada para países em desenvolvimento, como o Brasil. Baseados nesta conclusão, Lamberts, Dutra e Pereira (1997) empregaram-na nos estudos sobre eficiência energética e, especialmente, no programa computacional ANALISYSBIO 3.0. que permite, a partir de dados climáticos locais, a construção de cartas bioclimáticas com as estratégias passivas e ativas recomendadas aos projetos de arquitetura. Pelo exposto, ressaltamos que as cartas bioclimáticas facilitam as análises das características climáticas de um clima local conhecido sob o ponto de vista do conforto humano especificando diretrizes de projeto para maximizar o conforto interior de edifícios não condicionados mecanicamente. No presente trabalho seguimos as recomendações dos autores acima citados utilizando a carta de Givoni. 5 ESTRATÉGIAS ARQUITETÔNICAS PARA O CONFORTO TÉRMICO Um dos principais objetivos do condicionamento térmico natural é a adequação do edifício às solicitações do meio externo para satisfazer da melhor maneira possível as exigências térmicas das pessoas que o utilizam (RIVERO, Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 19 1985). Inúmeras soluções de projeto arquitetônico afetam o condicionamento interno do edifício. Podemos citar quatro formas de interação entre o edifício e o ambiente que são afetadas diretamente por estas soluções: a) efetiva exposição solar dos elementos opacos e transparentes dos envoltórios; b) efetivo ganho de calor solar dos edifícios; c) razão entre o ganho e a perda de calor do ar ambiente; d) potencial de ventilação natural e refrigeração passiva do edifício. As variáveis de projeto de maior relevância que interferem nas interações acima são: a) forma do edifício; b) orientação e condições de sombreamento das aberturas; c) orientação e cor dos fechamentos opacos; d) dimensão e localização das aberturas em relação às condições de ventilação; e) ventilação interna considerando-se seu efeito na temperatura interna do edifício; f) características térmicas dos materiais quanto aos ganhos e perdas de calor; g) revestimento da área de entorno do edifício e paisagismo (GIVONI, 1998). Algumas dessas variáveis podem agir combinadamente intensificando o efeito desejado, enquanto outras podem agir em oposição determinando uma avaliação cuidadosa por parte dos arquitetos visando escolher aquelas que apresentem o melhor resultado final. 6 CLASSIFICAÇÕES CLIMÁTICAS E CLIMA EM MATO GROSSO DO SUL Considerando-se que o clima de uma localidade é a síntese de todos os 20 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 elementos climáticos em uma combinação específica determinada pela interação de todos os agentes e fatores envolvidos nos processos climáticos, suas classificações surgem da necessidade de sintetizar e agrupar elementos climáticos similares em tipos específicos de climas a partir dos quais as regiões climáticas são mapeadas. Segundo Ayoade (1998), a classificação climática, apesar de conveniente, constitui um exercício extremamente difícil, tendo em vista que todas elas são artificiais, já que os limites são impostos pelos pesquisadores e são, quase sempre, subjetivos. Os elementos mais freqüentes usados na caracterização dos climas são temperatura e precipitação pluvial utilizando-se, com freqüência, apenas seus valores médios. Dentre as inúmeras abordagens utilizadas para a classificação dos climas existem duas fundamentais: a genética e a genérica (ou empírica), descritas abaixo. a) Classificações Genéticas – são baseadas nos controles climáticos, ou seja, nos fatores que determinam ou causam os diferentes climas. b) Classificações Genéricas ou Empíricas – são baseadas nos próprios elementos climáticos observados ou em seus efeitos sobre a vegetação ou o homem. Constituem, na realidade, classificações biometereológicas quanto à natureza, sendo chamadas de bioclimáticas na arquitetura por se basearem no conforto fisiológico humano, nos tipos de construção para a conservação deste conforto em níveis satisfatórios ou nos requisitos de vestuário. Mato Grosso do Sul está localizado entre as latitudes 17o e 24oS na região Centro-Oeste do Brasil junto com Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal. Sua extensão territorial corresponde a 18% da Região Centro-Oeste e 4,19% do Brasil, com 358.158,7 km². Vinte e cinco por cento deste total correspondem ao Pantanal sul-mato-grossense, com 89.318 km². O Estado é dividido em duas grandes bacias hidrográficas: a do Rio Paraná - constituída basicamente de chapadões, planaltos e vales - e a do Rio Paraguai, constituída de patamares, depressões e depressões interpatamares, formando o Pantanal nas regiões chaquenha e pantaneira. No estudo de seu clima, pesquisamos diferentes formas de classificações que podem lhe ser atribuídas. Na classificação de Gorou e Bernardes (apud HERTZ, 1998) o território Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 21 de Mato Grosso do Sul é alcançado por dois tipos de clima: a) o tropical úmido com estação seca e chuvas de verão, correspondendo praticamente à área do Pantanal e, b) o tropical úmido de altitude, no restante do Estado. Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (1990) o Estado de Mato Grosso do Sul compreende o clima Tropical Brasil Central subdividido da seguinte forma: a) quente, úmido com 3 meses secos no Pantanal e limites norte/ nordeste; b) subquente, úmido com 1 a 2 meses secos na faixa central e leste, e; c- subquente, úmido com 3 meses secos nas regiões sul e sudoeste. Na classificação de KÖPPEN, adotada em grande número de publicações e que leva em consideração o relevo, regime de chuvas e temperatura, encontramos dez diferentes tipos de clima no Brasil, dois deles presentes em Mato Grosso do Sul: a) Aw, com temperaturas elevadas com chuva no verão e seca no inverno e; b) Cfa, com temperatura moderada, chuvas bem distribuídas e verão quente. Compreendem respectivamente as regiões norte e sul do Estado. A classificação proposta por STRAHLER (apud LAMBERTS; DUTRA; PEREIRA, 1997) vem sendo mais largamente utilizada no Brasil e baseia-se na origem, natureza e movimentação das massas de ar. Nela o País é dividido em seis regiões básicas, duas delas presentes em Mato Grosso do Sul: tropical e tropical de altitude. Porém, será no Atlas Multirreferencial de Mato Grosso do Sul (SECRETARIA DE PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO GERAL DE MS, 1990), que poderemos encontrar uma análise mais detalhada do clima no Estado. Nele se pode observar a variação mesoclimática com as seguintes divisões: a) Úmido – com índice efetivo de umidade com valores anuais variando de 40 a 60. A precipitação pluviométrica anual varia entre 1750 e 2000mm, com excedente hídrico de 1200 a 1400mm durante 7 a 8 meses e deficiência hídrica de 200 a 350mm durante 3 meses. b) Úmido a Subúmido – com índice efetivo de umidade com valores anuais variando de 20 a 40. A precipitação pluviométrica anual varia entre 1500 e 1750mm, com excedente hídrico de 800 a 1200mm durante 5 a 6 meses e deficiência hídrica de 350 a 500mm durante 4 meses. 22 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 c) Subúmido – com índice efetivo de umidade com valores anuais variando de 0 a 20. A precipitação pluviométrica anual varia entre 1200 e 1500mm, com excedente hídrico de 400 a 800mm durante 3 a 4 meses e deficiência hídrica de 500 a 650mm durante 5 meses. d) Subúmido a Semi-Árido – com índice efetivo de umidade com valores anuais variando de –20 a 0. A precipitação pluviométrica anual varia entre 800 e 1200mm, com excedente hídrico de 100 a 400mm durante 2 meses e deficiência hídrica de 650 a 750mm durante 6 meses. Zavatini (apud DIAS; MERCANTE; LAURINO, 2001), afirma que Mato Grosso do Sul situa-se em uma área de transição climática sofrendo a atuação de diferentes massas de ar. O Estado situa-se em uma zona de encontro de diversas massas que atuam no território brasileiro sendo cortado por uma Faixa Zonal Divisória, preconizada por Monteiro (1991). Para Zavantini (apud DIAS; MERCANTE; LAURINO, 2001) os dois tipos de climas presentes no território de Mato Grosso do Sul são: a) Climas Tropicais Alternadamente Secos e Úmidos: a.1) com destacada atuação da Massa Tropical Atlântica, abrangendo o nordeste do Estado de Sonora até Brasilândia; a.2) com participação efetiva da Massa Tropical Continental e esporádica da Massa Equatorial Continental, abrangendo a região central do Pantanal (praticamente todo o município de Corumbá), o vale do Coxim e Alto Taquari e os municípios entre esta região e Campo Grande. b) Climas Subtropicais Úmidos: b.1) com predominância da Massa Polar Atlântica e participação efetiva da Massa Tropical Continental, abrangendo a região sudoeste - extremo sul do Pantanal, os médios vales do Aquidauana e Miranda e o Planalto da Bodoquena; b.2) com atuação equilibrada das Massas Tropical Atlântica e Polar Atlântica, abrangendo as regiões centro-sul e sudeste do Estado. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 23 Figura 1 - Mapa de MS com a Classificação Climática de Base Genética proposta por Zavatini Fonte: Dias, Mercante e Laurino(2001) Finalmente, o projeto de norma brasileira sobre desempenho térmico de edificações propõe a divisão do território brasileiro em oito zonas relativamente homogêneas quanto ao clima (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1998)5 . Para o estabelecimento destas oito zonas o território brasileiro foi dividido em 6500 células caracterizadas por sua posição geográfica e por três de suas variáveis climáticas: médias mensais das temperaturas máximas, médias mensais das temperaturas mínimas e médias mensais das umidades relativas do ar. Deste total de células, em 330 delas pode-se contar com dados das Normais Climatológicas fornecidas pelo Instituto Nacional de Metereologia (1992). Para todas as demais células, utilizou-se o método de interpolação para estimar o seu clima. Desta forma, nove cidades de Mato Grosso do Sul foram listadas e 5 Desde 1998 e até a conclusão desta pesquisa o presente projeto ainda encontrava-se em análise pelo Comitê Brasileiro de Construção Civil e não havia ainda sido aprovado. 24 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 classificadas em quatro diferentes zonas: Dourados e Ponta Porã na Zona Bioclimática 3; Aquidauana e Ivinhema na Zona 5; Campo Grande, Coxim, Paranaíba e Três Lagoas na Zona 6, e Corumbá na Zona 8. 7 ADEQUAÇÃO BIOCLIMÁTICA EM MATO GROSSO DO SUL Os dados do clima têm maior utilidade quando comparados com valores padrões ou normais estabelecidos por períodos estandardizados similares para todos os países (INSTITUTO NACIONAL DE METEREOLOGIA, 1992). Para que sejam considerados como “normais climatológicas”, segundo o padrão internacional aceito, é preciso que os dados refiram-se a períodos padronizados de trinta anos. Assim o Instituto Nacional de Meteorologia − INMET − normalizou dados de 209 estações meteorológicas distribuídas em todo o território nacional do período de 1961 a 1990. São dados referentes a nove parâmetros meteorológicos e valores extremos de temperatura e precipitação de duzentas e nove estações meteorológicas pertencentes ao Departamento Nacional de Meteorologia do Ministério da Agricultura e Reforma Agrária. Deste total oito estações estão localizadas em cidades de Mato Grosso do Sul – Campo Grande, Corumbá, Coxim, Dourados, Ivinhema, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas. Destas somente Campo Grande, Ponta Porã e Três Lagoas possuem dados do período completo, enquanto as demais possuem dados a partir do início da década de 70, porém, todas elas, com mais de 15 anos de amostragem. Ao buscarmos identificar as exigências de adequação ambiental para definir as estratégias projetuais na arquitetura de Mato Grosso do Sul com suas peculiaridades e nuances ao enfoque bioclimático, utilizamos a seguinte metodologia: a) levantar os dados das variáveis climáticas disponíveis para as cidades do Estado; b) identificar as características comuns de clima nas diversas regiões procurando estabelecer regiões bioclimaticamente homogêneas; c) levantar e apontar as estratégias adequadas para cada tipo de clima; d) demonstrar e ilustrar as estratégias recomendadas para aplicações em projetos; Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 25 e) comparar as estratégias recomendadas com a arquitetura atualmente praticada no Estado, por meio de exemplos - positivos e negativos - quanto à adequação; f) diagnosticar a situação atual da arquitetura do Estado em relação ao bioclimatismo oferecendo alternativas para seu aperfeiçoamento. Foram estudadas as características geográficas (latitude, longitude e altitude), população, mapa de localização, classificações climáticas; normais e gráficos climáticos, carta bioclimática, estratégias bioclimáticas de projeto, ilustrações com exemplos da arquitetura atual para cada uma das oito cidades. Para aquelas que não dispunham de Normais a pesquisa apontou uma aproximação para cada uma das oito já citadas consideradas então como pólos bioclimáticos. Nesta aproximação foi estudada especialmente a classificação climática de base genética proposta por Zavantini (apud DIAS; MERCANTE; LAURINO, 2001), complementada com uma análise das demais características geográficas presentes. Esta divisão aproximada por suas características mesmo não apresentando elevada precisão pode a partir de agora servir como um instrumento auxiliar na definição das estratégias bioclimáticas para cada município de Mato Grosso do Sul até que todos eles possam dispor de dados próprios. As estratégias bioclimáticas foram extraídas das seguintes fontes: programa Analysis Bio (LAMBERTS; DUTRA; PEREIRA, 1997), projeto de norma técnica sobre o desempenho térmico das edificações (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1998) e Acondicionamiento Bioclimático (BINELLI, 1995). 26 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 Figura 2 - Regiões Bioclimáticas Atribuídas em Mato Grosso do Sul 8 ESTRATÉGIAS BIOCLIMÁTICAS DO “ANALYSIS BIO” O programa Analysis Bio foi desenvolvido por pesquisadores do LabEEE - Laboratório de Eficiência Energética em Edificações da Universidade Federal de Santa Catarina (LAMBERTS et al., [199-]). Seu objetivo é propiciar uma análise rápida das estratégias bioclimáticas visando uma melhor adaptação das edificações ao clima local, através da avaliação de dados climáticos plotados sobre uma carta bioclimática. Conforme mencionado anteriormente, o Programa utiliza a carta revista por Givoni com limites máximos de conforto expandidos, tendo em vista a aclimatação dos habitantes de países em desenvolvimento e de clima quente. O método utilizado é apropriado para projetos residenciais e para o caso de edificações de comércio e serviço há limitações, pois não são considerados os aumentos de geração de calor internos a partir dos equipamentos e dos ocupantes. Ao método de Givoni foi combinado o de Watson e Labs (apud ANDRADE, 1996) pelo tipo de dados climáticos indicados. O programa utiliza dois tipos de dados climáticos: a) Test Reference Year (TRY) – com informações climáticas para as 8.760 horas do ano e; b) Normais Climatológicas (1961 - 1990) - com valores médios mensais das principais variáveis climáticas. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 27 Os resultados obtidos através dos dados TRY são mais detalhados e exatos que aqueles obtidos através das Normais, porém são poucas as cidades brasileiras que dispõem de valores horários das variáveis climáticas (aproximadamente 16). São utilizados os dados das Normais quando não se dispõem de dados horários para o local desejado, porém, por empregar valores médios de temperatura e umidade, os resultados são menos precisos do que a análise utilizando-se dados horários TRY. 9 ESTRATÉGIAS BIOCLIMÁTICAS SEGUNDO O PROJETO DE NORMA DE DESEMPENHO TÉRMICO DAS EDIFICAÇÕES Esta norma, ainda em fase de anteprojeto, além de propor a divisão do território brasileiro em oito zonas relativamente homogêneas quanto ao clima (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1998) estabelece um conjunto de recomendações e estratégias construtivas destinadas às habitações unifamiliares de interesse social. Na definição das zonas bioclimáticas foram, da mesma forma que no Analysis Bio, utilizados dados TRY e Normais. As recomendações referem-se a questões como: tamanho das aberturas em relação às áreas de piso, sombreamento das aberturas e valores de transmitância térmica, atraso térmico e fator de calor solar para as paredes e coberturas. A base utilizada também é a carta de Givoni com zonas e estratégias semelhantes: A. Zona de aquecimento artificial (calefação); B. Zona de aquecimento solar da edificação; C. Zona de massa térmica para aquecimento; D. Zona de Conforto Térmico (baixa umidade); E. Zona de Conforto Térmico; F. Zona de desumidificação (renovação do ar); G + H. Zona de resfriamento evaporativo; H + I. Zona de massa térmica de refrigeração; I + J. Zona de ventilação; K. Zona de refrigeração artificial. 10 ANÁLISES BIOCLIMÁTICAS PROPOSTAS POR BINELLI Binelli (1994) em sua obra Acondicinonamento Bioclimático, ao analisar os bioclimas presentes no território mexicano, define estratégias a partir da seguinte metodologia: a) relação e descrição sumária dos requerimentos de cada bioclima; b) 28 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 seleção dos fatores climáticos; c) determinação das variáveis de condicionamento do edifício ao bioclima; d) proposição de variáveis de projeto arquitetônico. A principal diferença em relação aos demais métodos é que o autor apresenta uma espécie de catálogo gráfico com a demonstração das estratégias projetuais recomendadas facilitando sua consulta e utilização no processo de elaboração de projetos. Figura 3 - Exemplos de Recomendações Gráficas: ventilação cruzada passando pelos ocupantes e seguindo o eixo eólico, para todo o Estado Fonte: Adaptação do material de Binelli (1994). 11 CONCLUSÕES Ao denominarmos esta pesquisa de Adequação Bioclimática da Arquitetura de Mato Grosso do Sul , procuramos deixar evidente, não pretendíamos tratar especificamente do bioclimatismo, como uma disciplina autônoma, mas sim da arquitetura. Tanto da arquitetura que efetivamente vem sendo praticada, quanto daquela que deveria estar sendo realizada no Estado. Da boa arquitetura em suma, já que desde a antiguidade reconhece-se que a boa arquitetura é a que atende aos princípios adotados pelo bioclimatismo e que respondem com eficiência sua premissa básica: oferecer abrigo ao homem. Ruiz-Larrea (1998), em suas reflexões sobre a arquitetura bioclimática lembra que nós, homens, e a natureza que habitamos compartilhamos leis e estruturas comuns que nos fazem, na realidade, ser a mesma coisa. Assim, ao buscarmos uma adequação bioclimática da arquitetura estaremos na verdade buscando a reconciliação da forma, da matéria e da energia que em algum momento do século XX durante o auge do Movimento Moderno estiveram dissociados. Além desta abordagem há questões pragmáticas. Segundo Lamberts, Dutra e Pereira (1997), 42% da energia consumida no Brasil é utilizada nas Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 29 edificações. Boa parte tem sido gasta nos equipamentos eletroeletrônicos que fazem parte de nosso dia-a-dia, porém uma parcela considerável é consumida em iluminação, aquecimento ou refrigeração de ambientes. Sem dúvida, uma boa parte deste consumo poderia ser reduzido através de um maior cuidado dos arquitetos quanto às questões projetuais relacionadas ao clima e suas relações com o conforto e a preservação de energia. Neste aspecto, Mato Grosso do Sul, pela sua localização latitudinal caracteriza-se como uma região de transição entre os climas quentes das latitudes baixas e os climas mesotérmicos de tipo temperado das latitudes médias (NIMER apud QUADRO et al., 1996); foi o que se pode constatar, ao analisarmos as características climáticas das diferentes regiões do Estado que propomos dividirem quatro grupos: a) Região oeste, compreendendo o Pantanal e incluindo Corumbá. b) Região centro-norte, incluindo Campo Grande localizada exatamente sobre a linha divisória, Coxim, e Ivinhema (esta mais a sudeste). c) Região nordeste, incluindo Paranaíba e Três Lagoas. d) Região sul, incluindo Dourados e Ponta Porã. Há certa homogeneidade climática entre as regiões em relação a algumas variáveis como a temperatura, elevada em todas elas podendo, no entanto, serem destacados alguns aspectos diferenciadores: menor umidade e pluviosidade na região nordeste e inverno com temperaturas mais baixas na região sul, porém mantendo as temperaturas elevadas no restante do ano. Estas características genéricas determinam as seguintes estratégias gerais para projeto em todo o Estado: a) Necessidade de sombreamento das paredes, coberturas e principalmente as aberturas, praticamente todo o ano e em todas as regiões, excetuando-se a região sul durante os meses mais frios quando há necessidade de aquecimento passivo. 30 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 Figura 4 - Residências: Campo Grande com sombreamento ano todo e, Dourados somente no verão b) Utilização prioritária da ventilação cruzada como uma das principais estratégias, excetuando-se os períodos em que a temperatura externa é superior a interna (mais comum na região nordeste), e os dias, mas principalmente as noites frias de inverno em quase todas as regiões. c) Utilização da massa térmica na cobertura e paredes da edificação proporcionando amortecimento e atraso em relação ao calor do ambiente externo. Figura 5 - Edificação popular em Campo Grande com massa térmica insuficiente compensada pelo aproveitamento da sombra da árvore d) Utilização do resfriamento evaporativo através da ventilação proveniente de superfícies de água e áreas densamente arborizadas no período quente das estações secas. Além destas estratégias gerais a pesquisa apresenta as cartas bioclimáticas de cada região, seus dados climáticos sistematizados e principalmente as estratégias de projeto específicas, estas em forma gráfica que poderá constituir uma cartilha auxiliar a estudantes e arquitetos. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 31 Ao levantarmos a arquitetura praticada por arquitetos e não arquitetos no Estado, seja a denominada erudita ou a espontânea, verificamos que, muitas vezes, as soluções adequadas são ignoradas ou desprezadas. Ao tentarmos encontrar os motivos para essa atitude, apoiamo-nos em Tombazis (1995), que aponta algumas razões para que muitos arquitetos, inclusive os mais prestigiosos, não tenham a abordagem bioclimática como um importante, mas logicamente não exclusivo, parâmetro em seu trabalho. A primeira razão seria a formação acadêmica dos próprios arquitetos que durante um período não oferecia aos estudantes contato com os princípios e filosofia da abordagem bioclimática, ou se o fazia, o mesmo se dava de maneira isolada, através de especialistas, como um conhecimento paralelo, afastado dos estúdios de projeto. Outra seria o temor e a falta de interesse dos arquitetos para tudo o que seja mais matemático aliado à falta de conhecimentos básicos das leis da física. A presença destes conhecimentos nas questões bioclimáticas as tornam mais difícil de serem compreendidas e incorporadas a seu pensamento cotidiano. A terceira razão seria que arquitetos adoram ter total liberdade na criação formal de seus projetos. Tudo o que possa limitar esta liberdade é evitado a todo custo. Porém, ainda segundo Tombazis (1995), ocorre justamente o contrário na materialização do jogo de volumes, referido no passado por Le Corbusier, pois quanto maiores os limites, maiores as chances de alcançar resultados mais criativos, e além disto, se o que importa é unicamente a forma exterior, então o resultado é uma escultura, e não arquitetura. A última razão por ele apontada é que os arquitetos são treinados para exercitar essencialmente seus olhos. Pouco, ou quase nada, são exercitados dos outros sentidos. Destas razões, muitas delas, no todo ou em parte, podem ser aplicadas aos arquitetos de Mato Grosso do Sul por dedicarem ainda insuficiente atenção às questões referentes à adequação bioclimática. A partir da pesquisa desenvolvida, podemos listar as seguintes razões para a inadequação específica de grande parte da arquitetura do Estado: a) desconhecimento das técnicas e princípios básicos do bioclimatismo; b) apelo exagerado a modismos e modelos exógenos como, por exemplo, os grandes painéis envidraçados, sem observar os cuidados necessários de proteção e sombreamento; 32 Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 c) desconhecimento das características térmicas e desempenho dos materiais de construção usuais; d) desconhecimento das características e dados climáticos reconhecidamente de difícil acesso ou mesmo, algumas vezes, inacessíveis; e) crença de que o resfriamento ou aquecimento artificial pode, ou deve, solucionar os problemas ambientais, prescindindo de maiores preocupações; f) temor de que soluções bioclimáticas possam elevar o custo da obra; g) insegurança e dúvidas a respeito da real eficácia das soluções; h) ausência de normas específicas sobre o assunto; i) descaso com a utilização posterior da edificação e o nível de satisfação dos usuários; j) supervalorização das soluções funcionalistas ou formalistas em detrimento das questões ambientais. Considerando a elevada temperatura presente quase todo o ano, a observação destes motivos pode levar à compreensão das causas das principais soluções inadequadas e equivocadas encontradas na pesquisa, que seriam: a) superexposição à radiação solar, seja por orientação inadequada das aberturas, por ausência de protetores solares, protetores mal projetados ou dimensionados ou uso exagerado de superfícies envidraçadas; b) subaproveitamento das soluções de ventilação natural, por bloqueio do vento causado por elementos externos (muros, outras edificações, etc.), escolha inadequada das esquadrias (abertura para ventilação correspondente à parcela muito reduzida em relação à abertura para iluminação), estabelecimento de uma única abertura (se não há entrada, não poderá haver saída do ar), entre outras; c) escolha de materiais de cobertura ou fechamento inadequados ou sem os cuidados complementares necessários (ausência de Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 13-37, dez. 2002 33 isolamento térmico adequado, baixa inércia térmica, ausência de ventilação dos áticos). Figura 6 - Igreja em Corumbá com soluções regionais: massa térmica adequada obtida pela utilização de parede dupla de carandá, palmeira típica do Pantanal, com recheio de argamassa. Por outro lado podemos constatar que o avanço na utilização da abordagem bioclimática tem sido significativo, com soluções exemplares presentes em quase todas as regiões e servindo como fator de indução pela cobrança por parte da sociedade em geral para com os arquitetos. Quanto mais desenvolvida uma sociedade, maior é o nível de exigência em relação ao conforto, especialmente o ambiental. Com a nova consciência da necessidade de preservação da natureza, e também da energia − que custa cada vez mais e está sujeita a racionamento − e, em última análise, ainda contribui para os desequilíbrios ambientais, a sociedade cobra soluções bioclimáticas dos arquitetos, e estes, por sua vez, cada vez mais encontram eco as suas soluções que se, eventualmente, possam significar um custo maior de instalação ou construção, representam a médio ou longo prazo uma economia considerável de recursos. Figura 7 - Hotel em 4 pavimentos em Ponta Porã: cobertura com telha cerâmica e paredes 34 envidraçadas inclinadas permitindo a incidência solar apenas durante o inverno. Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n.3, p. 13-37, dez. 2002 As recomendações finais que se fazem é a de encontrar formas de organizar os dados climáticos sistematizando-os e tornando-os acessíveis aos arquitetos e demais profissionais do Estado, pois como alerta Rivero (1985), os arquitetos não tem a obrigação de possuir os conhecimentos técnicos especializados para efetuar uma análise profunda sobre os aspectos climáticos, isto cabe a outros profissionais, mas ele deve estar corretamente informado sobre os problemas do condicionamento térmico e de como utilizar corretamente os dados climáticos. Além disto, evidencia-se que é preciso ampliar significativamente a divulgação das soluções bioclimáticas, suas técnicas, seu custo e suas vantagens não somente entre arquitetos mas na sociedade, para que ela possa conhecê-la e exigi-la como um direito. E, finalmente, é preciso enfatizar a aprofundar ainda mais este assunto nos cursos de arquitetura e urbanismo pois, como afirmou Koenisberger (1979): “Projetar e construir unicamente sobre a base de seus pressentimentos é irresponsabilidade, pois transfere os riscos aos clientes e usuários que terão que pagar, ou sofrer, quando a conjectura estiver equivocada”. REFERÊNCIAS ALBERTI, L. B. The Ten Books of Architecture. New York:: Dover, 1986. Tradução de Da re aedificatoria. ANDRADE, S. F. Estudos de Estratégias Bioclimáticas no Clima de Florianópolis. Dissertação (Mestrado em engenharia) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina, 1996. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Desempenho Térmico de Edificações. Rio de Janeiro, 1998. Projeto 02:135.07. AYOADE, J. O. Introdução à Climatologia para os Trópicos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. BINELLI, D. K. Acondicionamento Bioclimático. 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