Re vi st a d e Li n g uí st i c a e T e oria Lit erá ria • I SS N 2 17 6 - 6 80 0
Leituras femininas, protagonistas de Machado
Female readings, Machado’s protagonists
André Luis Mitidieri*; Josimare Francisco dos Santos**
*Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), ** Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
Resumo: O presente artigo aborda representações de práticas de leituras femininas e a
formação do leitorado oitocentista brasileiro, percebendo que as personagens
ficcionais, encontradas em romances de folhetins, podem ser entendidas como
estratégias para aprimorar o gosto pela leitura literária entre as mulheres burguesas do
século XIX brasileiro. Por intermédio da fortuna crítica dos “romances de leitoras”
escritos por Machado de Assis, é possível notar que os romancistas aproveitavam os
espaços de veiculação oferecidos pelos jornais como meios de alcançar novos perfis
de leitores, mais especificamente, o público leitor feminino. No entanto, a crítica
literária brasileira apenas destaca fatos como esses a partir do momento em que a
história e a historiografia literária abarcam passam a dedicar espaço à leitura e em que
a teoria literária acolhe a estética da recepção e as teorias do efeito. A pesquisa
fundamenta-se em estudos sobre a leitura feminina no Brasil do século XIX e em
trabalhos críticos sobre narrativas romanescas de Machado de Assis, principalmente,
A mão e a luva e Iaiá Garcia, bem como nas reflexões de Antonio Cândido (2000),
Hélio de Seixas Guimarães (2004a; 2004b), John Gledson (2006), José Guilherme
Merquior (1977), Márcia Abreu (2003), Roberto Schwarz (2000) e Suzan Pravaz
(1981).
Palavras-chave: Formação do público leitor. Leitura feminina. Machado de Assis.
Romance brasileiro oitocentista.
Abstract: This paper discusses representations of female reading practices as well as
the process of formation Brazilian nineteenth-century readership, realizing that the
fictional characters found in feuilletons novels can be understood as strategies to
develop the taste for literary reading among bourgeois women during the quoted
period. Through critical fortune of “women readers’ novels” written by Machado de
Assis, it is possible to notice that this novelist took advantage of the space offered by
newspapers as means of reaching new readers profiles, more specifically, the female
readership. However, the Brazilian literary criticism just highlights facts like these
when history and literary historiography starts to dedicate more space to the reading
and when literary theory embraces the "Aesthetics of reception" and the "Theory of
äesthetic effect" . The research is based on studies about women reading in Brazilian
nineteenth-century and on critical works concerning to Machado de Assis’ novelistic
narratives, mainly A mão e a luva and Iaiá Garcia, as well as on the reflections of
Antonio Candido (2000), Helio de Seixas Guimarães (2004a; 2004b), John Gledson
(2006), José Guilherme Merquior (1977), Marcia Abreu (2003), Roberto Schwarz
(2000) and Suzan Pravaz (1981).
Keywords: Reader’s formation. Female reading. Machado de Assis. Nineteenthcentury Brazilian novel.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
318
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
Introdução
Ler e escrever constituem práticas associadas ao poder e utilizadas como
forma de dominação, em relações que passam por várias instituições sociais. O
controle de leituras através da igreja, por exemplo, é decisivo para a construção da
literatura brasileira, pois “a religião foi desde logo reputada elemento indispensável à
reforma literária, não apenas por imitação aos modelos franceses, mas porque,
opondo-se ao temário pagão dos neoclássicos, representava algo oposto ao passado
colonial” (CANDIDO, 2000, p. 16-17). A igreja católica, ao longo dos séculos XVII
e XVIII, deu um incentivo, ainda que mínimo, a hábitos de leitura por parte das
mulheres, mas apenas aos livros “sagrados acessíveis”, que visavam à educação
familiar e à manutenção dos bons costumes. Porém, não permitia que elas
escrevessem, pois a escrita era considerada uma forma de liberdade de expressão
inadequada, principalmente, no Oitocentos brasileiro, em que imperava o poder
patriarcal, a voz masculinista de comando e obediência.
Na passagem do século XVIII para o XIX, a leitura passou de “intensiva”
para “extensiva”, tornando-se atividade realizada não apenas por obrigação, mas
também por prazer. O público começava a ter acesso ao impresso, através dos
jornais, fossem notícias recortadas, fossem fascículos completos, lidos num banco de
uma praça, no bonde ou em casa, fossem ainda livros, importados ou não. O leitor
atrelava-se a leituras às quais estava habituado; no caso dos homens, com finalidades
de instrução e relacionadas a uma carreira profissional: direito, matemática e
economia. A partir da explosão da Revolução Francesa, em 1789, mudanças no setor
econômico e tecnológico, permitiram a expansão do sistema de ensino, dando
oportunidade para a inserção do impresso nas escolas. Essa disseminação de novas
ideias acabou renovando o papel das artes, letras e ciências na condição de
“civilizar” o homem. O civilismo, então, passou a ser influenciado diretamente pelo
domínio das práticas de leitura e escrita. O almejo de transformar o homem através
do conhecimento racional, pela educação e humanização, foi bem aceito pelos
românticos como fundamentos primordiais para um mundo melhor.
No entanto, o racionalismo iluminista não obteve os resultados esperados.
Muitos filósofos iluministas, como Rousseau, defendiam o retorno do homem ao seu
estado natural, não corrompido pelos vícios da sociedade. O filósofo empreendeu
severa crítica à educação vigente como uma forma de domesticação do homem:
A educação primeira é a que mais importa, e essa primeira
educação cabe incontestavelmente às mulheres: se o Autor da
natureza tivesse querido que pertencesse aos homens, ter-lhes-ia
dado leite para alimentarem as crianças. Falarei portanto às
mulheres, de preferência, em vossos tratados de educação; pois
além de terem a possibilidade de para isso atentar mais de perto
que os homens, e de nisso influir cada vez mais, o êxito as
interessa também muito mais, porquanto em sua maioria as
viúvas se acham quase à mercê de seus filhos e que então
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
319
precisam sentir, em bem ou mal, o resultado da maneira pela
qual os educaram. As leis, sempre tão preocupadas com os bens
e tão pouco com as pessoas por terem como objetivo a paz e não
a virtude, não outorgam suficiente autoridade às mães.
(ROUSSEAU, 1995, p. 9-10, nota 1).
Vale ressaltar que o Romantismo europeu surgiu na Inglaterra e na
Alemanha e, posteriormente, teria na França um de seus principais núcleos difusores.
A ideologia romântica valorizava o caráter nacional, as emoções e o sentimentos,
como sabido. Românticos ingleses, alemães e franceses, além de defenderem a
liberdade de expressão, também atribuíram valor à experiência individual e à
imaginação como base para a expressão artística. Ao mesmo tempo, o romance e o
jornal desempenhavam função de destaque no estabelecimento da consciência
nacional, como alerta Benedict Anderson (1989), elencando outros fatores
importantes, tais como a diversidade linguística do ser humano, o desenvolvimento
da imprensa e do capitalismo, para se compreender a nação como uma representação
coletiva, capaz de unir conceitos, símbolos e outras elaborações comunas àqueles
que compartilhavam uma língua, um território, uma tradição cultural.
Compreendidas dessa maneira, novas nações, como Alemanha e Itália,
formavam-se numa época em que o ideário do Iluminismo e da Revolução Francesa
dava novo rumo à política e à economia mundial, promovendo uma relação
sistemática entre escritor, obra literária e público: “a literatura foi considerada
parcela de um esforço construtivo mais amplo, denotando um intuito de contribuir
para a grandeza da nação” (CÂNDIDO, 2000, p. 12). Ainda que não se apresentasse
de forma tão acentuada e sólida quanto na Europa, esse processo pode ser observado
na colônia portuguesa que, como campo propício à divulgação das novas ideias
europeias, enfrentava um recente processo de urbanização, desde a vinda da corte
para o Rio de Janeiro.
Em sua obra sobre O perfil do leitor colonial, Jorge de Sousa Araújo (1999)
nos diz que, no século XVIII,
Não existe entre nós, ainda, o leitor que se evidencie
intelectualmente, debatendo sua cultura com os demais numa
sociedade de signo crescente, avaliando ou questionado seu
devir social, estimulado pelas várias camadas da leitura de obras
representativas. Os documentos de que dispomos indicam um
leitor apenas refletido a partir das áreas diretamente oriundas de
um interesse específico de ampliação de status acadêmico ou
profissional. Os livros permanecem na predominância de obras
de devoção, mas já vão aparecendo, em número considerável,
os clássicos latinos, as gramáticas e dicionários, Ciência
naturais e Filosofia. Há pouca coisa de literatura portuguesa
ainda (Camões quase exclusivamente e mais exclusivamente Os
Lusíadas) e de brasileira (os moralistas do século e os poetas
mineiros). Cervantes e Calderón pontuam na literatura
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
320
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
hispânica. Nada de literatura inglesa ou alemã. E muitos livros
franceses, de Filosofia e Literatura. (ARAÚJO, 1999, p. 61-62).
Aproximado o final do século XIX, a temática romântica daria o tom às
representações ficcionais produzidas em solo pátrio, no qual o espaço urbano
passava a conquistar um lugar ao sol. Foi nessa época, aproximadamente, que a
mulher passou a ter histórias de amor como leitura predileta, textos que sublinhavam
a emoção, a irracionalidade e a sensibilidade como características naturais ao dito
“sexo frágil”. A leitura feminina não deixaria de trafegar pelo espaço privilegiado
dos periódicos, onde se publicavam, e obtinham sucesso de recepção, as traduções de
folhetins franceses, logo seguidas das produções nacionais nesse gênero. Por isso,
Nelson Werneck Sodré (1995) salienta a importância de traçar um esboço da
sociedade brasileira oitocentista a fim de percebermos a necessidade de uma
literatura nacional atrelada às perspectivas românticas.
Convém recordar que o gênero romanesco, além de prenunciar o
entrelaçamento com as conquistas científicas, atenderia aos anseios de modificações
que estavam ocorrendo: o declínio monárquico e os novos valores sociais e culturais.
Simultaneamente, os impressos dependiam da aceitação e da “educação” do leitor
para circularem na sociedade brasileira, dentro da qual, a tutela às leituras das
mulheres se faria acompanhar de um considerável incremento do público leitor
feminino. Os leitores da década de 1870 já haviam aprovado com sucesso os
romances nativos de José de Alencar; era a hora certa para assistir ao nascimento de
outro romancista: Joaquim Maria Machado de Assis.
Como seu antecessor, Machado de Assis contempla o universo feminino em
toda a sua produção romanesca. O conjunto de sua ficção inaugural, composta por
Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia, oferece indicações de que o
escritor carioca não ignorava o fato de encontrar nas mulheres um destino certo para
suas produções literárias. Tal consciência parece orientar o desenvolvimento dos
textos em grifo, nos quais a presença representativa das leitoras e o apelo a elas se
fariam cada vez maiores, segundo nos mostra a crítica literária brasileira, e mais
ainda, quando viu ou quando pôde de fato ver o agravamento de tais marcas.
1 Breve história da leitura feminina no Brasil
Até meados do século XIX, havia pouquíssimas fontes que serviam de base
para ensino e prática de leitura no Brasil. Dentre elas, podemos citar as
autobiografias, os manuscritos (cartas e documentos de cartório), a Constituição
Imperial, de 1827, o Código Criminal e a Bíblia como manuais de leitura:
Nos séculos XVI e XVII o que havia eram autores ocasionais,
ou circunscritos à sua região, produzindo obras que na maioria
absoluta não foram impressas, inclusive porque o Brasil só teve
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
321
licença para possuir tipografias depois de 1808. Algumas dessas
produções foram editadas em Portugal, mas outras de grande
importância conheceram apenas a difusão oral ou manuscrita,
atingindo círculos restritos e só no século XIX chegaram ao
livro. (CÂNDIDO, 1999, p. 20).
Somente a partir das mudanças sociopolíticas, decorrentes da transição da
Colônia pra o Império, é que as obras literárias passaram a circular na sociedade. A
chegada da família real, em 1808, propiciou a expansão da imprensa, vista como um
dos veículos fundamentais para a transmissão de informações, atualização de novos
conceitos e, por que não dizer, como uma fonte de instrução. Segundo Roberto
Schwarz (2000, p. 35), “o romance existiu no Brasil, antes de haver romancistas
brasileiros. Quando apareceram, foi natural que estes seguissem os modelos, bons e
ruins, que a Europa já havia estabelecido em nossos hábitos de leitura.” Assim, é
constante o aparecimento de referências ao famoso Saint-Clair das Ilhas nas
narrativas de muitos romancistas brasileiros. Isso porque, historicamente, o empenho
da maioria dos escritores e críticos brasileiros girava em torno de se estabelecer uma
tradição e um estilo literário tipicamente nacionais.
Percebemos tal objetivo quando José de Alencar (1977), no prefácio a
Sonhos d'ouro, descreve o percurso literário nacional e se esforça para alcançar essa
tradição. Sua obra traça uma espécie de painel da vida brasileira, que deixa
transparecer com nitidez o projeto de literatura nacional por ele defendido. Para uma
literatura ainda em formação, era mais válido ressaltar particularidades locais e trazer
à tona os aspectos positivos da nacionalidade do que discutir os problemas do país.
Acontecimentos como a chegada da família real, os processos de independência e o
desejo de se alcançar uma identidade nacional permitiram que, aos poucos, os
romances circulassem na sociedade oitocentista brasileira, mesmo que escassos e
com algumas traduções incompletas. Mais acessíveis, porque editados em jornais, os
folhetins ainda tinham a vantagem de permitir tanto leituras individuais quanto
coletivas, propiciando momentos de intimidade e diversão.
A leitura coletiva é referida por José de Alencar em Como e por que sou
romancista?, quando relata:
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro,
lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa
biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao
rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os
soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas
lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei
em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações
de minha mãe e suas amigas. (ALENCAR, 1990, p. 58).
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
322
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
Nesse relato, notamos a reinvenção da leitura através do uso de modulações,
gestos e teatralidade, a ponto de as “mulheres” lamentarem as desgraças
ficcionalizadas. À época, “o comércio dos livros era, como ainda hoje, artigo de
luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras literárias tinham menor circulação”
(ALENCAR, 1990, p. 59). Nesse sentido, os estudos de Marisa Lajolo e Regina
Zilberman (1996) apontam dois perfis marcantes na formação de um leitorado
especifico: o primeiro é um público coletivo e anônimo, tanto leitor quanto receptor,
tendo práticas culturais marcadas pela oralidade, como por exemplo, as leituras
coletivas, com a eleição de uma pessoa a fim de ler em voz alta para determinado
grupo. A propósito, Alfredo Bosi (2007, p. 50) diz que “a burguesia oitocentista,
grande e pequena, europeia e brasileira, ratificou o que lhe parecesse signo de
status”. Esse fator acabou contribuindo para a criação de escolas e a disseminação
das obras literárias, pois se tornou costume tomar livros de empréstimo e lê-los em
grupo.
O segundo perfil, apresentado por Lajolo e Zilberman (1996, p. 9) destaca o
leitor habilitado, considerado ideal para receber determinada obra literária, capaz de
se inserir no texto e, ao mesmo tempo, distanciar-se dele, refletindo, deduzindo,
tirando as próprias conclusões sobre o que era lido. No Oitocentos brasileiro, “a
questão da instrução pública no Brasil é ainda relevante, em termos das dificuldades
de extensão e adequação, pela natureza social dessas dificuldades e pela política de
implantação pedagógica” (ARAÚJO, 1999, p. 169). Essa política proibia a leitura de
livros considerados impróprios para uso das escolas.
Apesar disso, a evolução da imprensa periódica consistiu num dos principais
veículos para formar o gosto e “educar” o leitor oitocentista brasileiro. Diferentes
camadas sociais habilitavam-se, em nosso país, ao consumo de bens culturais
impressos, destacando-se o público feminino, até então, excluído das práticas
culturais letradas. A aceitação do romance entre as mulheres brasileiras auxilia a
comprovar que a introjeção do leitor (ou leitora) no texto era uma das estratégias
mais comuns para formação de público, segundo Lajolo e Zilberman (1996, p. 116117).
A partir desse período, a literatura passou a contar com a possibilidade do
público feminino. Até o século XIX e durante seu transcurso, a mulher era
tipicamente doméstica, ou seja, o “centro aglutinador, princípio originário e
destinatário final das atividades que se organizavam no território que governava: sua
família” (PRAVAZ, 1981, p. 56). A leitora oitocentista tinha de ser constantemente
conduzida, o que incluía a escolha de suas leituras, o espaço e a forma por meio das
quais se realizariam. Apesar disso, desde a evolução da imprensa periódica,
diferentes camadas sociais habilitaram-se ao consumo de bens culturais impressos,
destacando-se a feminização do público leitor de romances, o que parece “confirmar
os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e sua inteligência” (LYONS,
1999, p. 171).
Ao mesmo tempo em que a temática amorosa revelava-se como elemento
essencial para a construção desse público, alguns modelos de leitura traziam
conselhos sobre como ser boa mãe, boa esposa e dona de casa, referendando as
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
323
regras e os tabus vigentes. Com o desenvolvimento das cidades e da vida burguesa,
“a mulher de elite passou a marcar presença em cafés, bailes, teatros e certos
acontecimentos da vida social” (D’INCAO, 2000, p. 228), animando tais reuniões
através da leitura coletiva, debatendo “histórias de amor” comuns ao público
feminino.
Sobre o assunto, Lajolo e Zilberman (1996) afirmam que “só existe o leitor,
enquanto papel de materialidade histórica, e a leitura, enquanto prática coletiva, em
sociedades de recorte burguês, onde se verifica no todo ou em parte uma economia
capitalista” (p. 16). A distinção entre as leituras masculinas e femininas é assim
referida por Patrícia Pina (2002, p. 33):
de um lado, os homens, com preocupações graves e com uma
formação intelectual mais consistente; de outro, as mulheres
restritas a afazeres cotidianos, domésticos, sem grande
consciência da realidade extra-muros de casa. As expectativas
do primeiro grupo estariam, provavelmente, ligadas aos
números com os quais conviviam desde a infância, enquanto as
do segundo estariam voltadas para a costura do dia a dia, para as
peripécias familiares e/ou amorosas, para os comentários e as
confissões entre vizinhas, primas, enfim, seriam perspectivas de
confirmação de um contexto dito e vivido.
Na sociedade patriarcal, a educação feminina era limitada e suficiente para
cuidar da casa, do marido e dos filhos. Conforme relatos de viajantes pelo Brasil de
1865, seguindo os costumes portugueses, “os quais perduraram até os tempos
republicanos, as mulheres não precisavam de muita instrução, apenas o suficiente
para agradar socialmente” (ALMEIDA, 2007, p. 73). Somente algumas moças da
elite conseguiam aulas particulares e em suas próprias casas, com professoras
contratadas pelos pais. Mesmo assim, essa educação tinha como objetivo o serviço
doméstico, a costura, a música e as habilidades manuais. Trabalhar era a função do
homem, racional e provedor. Por isso, uma das poucas profissões femininas era a de
professora. As demais profissões, como a de costureira, seriam mal vistas e
encaradas como trabalho de mulheres frívolas, desprovidas de moral. Para preservar
a mulher de uma “situação humilhante”, fazia-se “preciso, portanto, educá-las na
religião e na doutrina cristãs e não deixar que influências desagregadoras as
desviassem de sua rota” (AUAD, 1999, p. 457).
Era necessário tutelar as leituras femininas, pois “os textos cristãos propõem
modelos positivos de virtude por meio da narração de vidas de santos e de fatos
bíblicos nos quais se pode conhecer a trajetória de homens e mulheres que não
pecam, que cumprem os mandamentos, que temem a Deus” (ABREU, 2003, p. 270).
O leitor perceberia a posição ocupada por cada homem ou mulher, citados no texto
religioso, como exemplo a ser imitado. Uma vez que os romances geralmente
traziam representações de cenas cotidianas, não eram vistos com bons olhos, pois
mostravam pessoas que erravam; que, fracas diante do vício, atentavam à moral
cristã. Segundo a igreja, essas narrativas colocariam os leitores em contato com o
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
324
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
pecado, razão pela qual, a tutela feminina, por parte dos homens e do clero, também
fazia parte de uma estratégia político-social que excluía as mulheres do universo
letrado e exclusivamente masculino. Apesar disso, era no convento que a moças
tinham acesso às obras literárias consideradas proibidas e, com isso, iam aos poucos
encontrando formas de fugir da opressão, aventurando-se no mundo da leitura. Entre
a religião e o imaginário, a oração e a poesia, surgiam os primeiros caminhos para a
escrita feminina (Cf. PERROT, 2007, p. 31).
Não é de se admirar que a reforma na educação tivesse influências
religiosas; a igreja cumpria assim, um duplo papel: disseminar a fé a um grupo
cativo e instruir os meninos para o futuro (Cf. LAJOLO; ZILBERMAN, 1996, p.
237). A supervisão familiar também contava na tutela às leituras femininas, pois as
mulheres, emotivas, poderiam se envolver facilmente com aquilo que liam, inserir-se
nas narrativas, identificando-se com determinadas personagens, internalizando suas
leituras, comparando-as com as vidas sem graça que viviam. De acordo com suas
necessidades, algumas delas chegavam mesmo a reproduzir os textos de sua
preferência, recortando-os, reestruturando frases, acrescentando ou subtraindo o que
lhes convinha. Leituras a elas permitidas deveriam refletir o comportamento
desejável e atribuído às religiosas que seguiam os bons costumes e as regras de
moral.
Seguindo esse raciocínio, os romances adequados ao público feminino
contemplavam love stories bem sucedidas, aptas o suficiente para seduzirem suas
leitoras cativas que, entre abismos e reencontros dos casais protagonistas, “às vezes
descobriam alimento insuspeitado para o pensamento” (MANGUEL; SOARES,
1997, p. 256-257). Associados àquilo que posteriormente seria catalogado como
“amor romântico”, livros como esses ocupavam o tempo ocioso; elas “de algum
modo, devem ter encontrado estímulos intelectuais nesse mingau: nas labutas,
perigos e agonias dos casais amorosos, as mulheres às vezes descobriam alimento
insuspeitado para o pensamento” (MANGUEL; SOARES, 1997, p. 257).
Tratava-se de textos que longe estariam de despertar nas mulheres qualquer
desejo de participação ativa na vida política e econômica do país. Mesmo
consideradas leituras simples e amenas, nelas se encontrava certo “estímulo
intelectual”, além de alguma contribuição a suas formações: “frente a essa rede
intrincada de sentidos, o leitor forja outros, novos, desarticulando para tal os
sistemas de força que se cristalizam no real do mundo e da cena social” (BIRMAN,
1994, p. 111). Mesmo com tantas restrições, foi por meio da leitura, panorâmica ou
não, que as mulheres tiveram oportunidades de pensar, criticar sua posição no
universo social, respondendo a provocações implícitas em suas leituras.
Enquanto isso, a crítica literária no Brasil era exercida nos jornais que, além
de instrumentos de informação, convertiam-se em importantes meios de
entretenimento. Divulgado nos periódicos, o romance de folhetim foi bem aceito
pelos leitores e, principalmente, dirigido à leitura feminina, já que, em tese, se
enquadrava perfeitamente a esse público, devido a sua edição seriada e à
possibilidade de ser lido nos intervalos entre os trabalhos domésticos, os cuidados
com a família e os deveres religiosos. Na Europa ou no Brasil, o romance
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
325
folhetinesco ampliava o público leitor de jornais e, ao mesmo tempo, o público leitor
de literatura.
Publicados em livros ou como folhetins na imprensa diária, a maioria dos
escassos romances encontrados no Brasil oitocentista se compunha por traduções
provenientes de Portugal e da França. No período colonial, o país não apresentava
uma estrutura possível para a circulação de livros devido à inexistência da imprensa
e da constante censura, mesmo depois da abertura dos portos. Além disso, a
quantidade insuficiente de escolas, o alto preço dos livros e a ideia que a leitura era
privilégio da burguesia jogaram forte papel contra o aumento do público leitor.
Avançado o século XIX, os ficcionistas brasileiros passaram a direcionar suas obras
literárias às mulheres. Boa parte deles apresentava as personagens femininas como
instruídas, capazes de pensar e refletir, com o intuito de mascarar a ignorância e a
opressão sofridas nos mundos sociais que lhes serviam de referência:
Os romancistas legitimam formas e regras vigentes, mas,
simultaneamente, arriscam-se a romper com certos padrões ao
oferecer ao destinatário – sobretudo pertencente ao sexo
feminino – um horizonte mais largo de experiência cultural e
ética. Mesmo com tais ressalvas, no entanto, os escritores
confirmam a ideologia patriarcal. (LAJOLO; ZILBERMAN,
1996, p. 256).
Com as transformações sociais ocorridas no Brasil, as mulheres vieram a
frequentar locais públicos, ampliando, de certo modo, seus horizontes culturais. Os
debates e argumentações sobre fatos publicados nos jornais e histórias folhetinescas
foram se inserindo, aos poucos, em cafés e salões da época. Os encontros ofereciam,
a “algumas sinhás-moças e até velhotas capazes de leitura” (LAJOLO;
ZILBERMAN, 1996, p. 75) oportunidades de exporem umas às outras suas opiniões
sobre um dado romance. Leituras consideradas “ideais” para as burguesas da época
eram os romances da vida interior, as revistas de moda e os artigos sobre
ornamentação do lar, com objetivos de divertir. A mulher participava como ouvinte
ou leitora, mas de nenhuma forma como produtora de cultura, sendo excluída “por
preconceito, pela religião, pelos limites do papel que deveria desempenhar na
sociedade burguesa” (MUZART, 1999, p. 25).
Para definir e diferenciar o dever de cada um na sociedade, os jornais do
século XIX traziam temas divididos conforme o sexo de seus leitores. Como um dos
principais veículos de publicação dos folhetins e de exercício da crítica literária, os
periódicos contribuíram para que a mulher se tornasse alvo de leituras “simples” e
“delicadas”, como o romance Paulo e Virgínia, do escritor francês Bernardin de
Saint-Pierre. No convívio social, os homens geralmente, liam em voz alta para um
grupo de senhoras, mas quando realizadas na mesma maneira pelas mulheres, tais
atividades cumpriam a função de estreitar a intimidade entre os membros de suas
respectivas famílias. As leituras femininas silenciosas, feitas no quarto ou perto de
uma janela, eram escolhidas antecipadamente por irmãos e maridos, pais e padres.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
326
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
Entre elas, a ficção folhetinesca se constituía no modo mais prático de
inserir exemplares de romances no Brasil e a maneira inicial por meio da qual o
gênero se disseminou entre seus leitores no século XIX. Nessa época, um
significativo aumento do número de mulheres leitoras contribuiu positivamente ao
processo de produção e consumo das narrativas romanescas. Por isso, é comum
encontrarmos cenas de leituras, de leitura feminina e de representações de leitoras
nas obras literárias dos mais renomados escritores da sociedade oitocentista nacional,
como José de Alencar e Machado de Assis.
2 A crítica literária e o romance machadiano de leitoras
Durante a segunda metade do século XIX, a luta de alguns escritores e
críticos brasileiros consistia em tentar estabelecer uma tradição e um estilo literário
tipicamente nacionais. Nesse contexto histórico, José de Alencar se destacou e suas
obras foram reconhecidas por parte de seus contemporâneos como um esforço
enérgico nesse sentido. Machado de Assis também buscou estabelecer padrões
pátrios de criação artística para o teatro e o romance. Sua estreia como romancista,
no cenário da literatura nacional, rendeu vários comentários da crítica
contemporânea a ele. Na coletânea organizada por Ubiratan Machado (2003),
Machado de Assis: roteiro da consagração, que reúne pequenos artigos e resenhas
que apareceram em jornais e revistas da época a respeito das obras literárias
machadianas, o autor considera:
A boa aceitação popular levou o escritor a selecionar alguns
trabalhos, reunidos em Contos fluminenses, sua estreia na prosa
de ficção […]. A cada trabalho, Machado aprimorava a técnica
do conto e aumentava sua ambição em relação à prosa de
ficção. A evolução natural conduzia ao romance, gênero
atraente, de possibilidades bem mais amplas do que o conto. O
resultado dessa busca de novos horizontes foi Ressurreição,
publicado em 1872. (p. 13).
Esse romance teve uma avaliação positiva por parte dos críticos brasileiros
oitocentistas, como o poeta e romancista Carlos Ferreira, que afirmava a seu
respeito: “não é uma simples narrativa, é alguma coisa que deve primeiro que tudo
falar a alma, e deixar nela uma impressão profunda da verdade da tese que se propôs
desenvolver” (MACHADO, 2003, p. 84). Após o surgimento dessa obra literária, o
escritor fluminense destacava, em “Instinto de nacionalidade”, já não ser mais
possível uma literatura nacional com base na cor local:
Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura
nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe
oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
327
absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor
antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do
seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos
no tempo e no espaço. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 804).
No mesmo ensaio, Machado propôs mudar o foco central da representação
da literatura brasileira de sua época: da cultura indígena e sua mitificação para a
sociedade urbana. Isso era o que ele parecia vir tentando em suas peças teatrais, na
poesia, no conto e no romance. Entretanto, as apreciações à produção do ficcionista
nesse gênero somente teriam mais peso na década de 1880, com a “tríade formada
por Romero, Araripe e Veríssimo que respondeu à obra machadiana de maneira mais
variada e sistemática e a cujas críticas o escritor também reagiu, ativamente ou pelo
silêncio eloquente” (GUIMARÃES, 2004b).
Já no livro intitulado Os leitores de Machado de Assis: o romance
machadiano e o público de literatura no século XIX, Hélio de Seixas Guimarães
(2004a) busca demarcar a figura do leitor na produção ficcional do escritor carioca,
durante um tempo em que a maioria da população era analfabeta:
É possível traçar relações entre a percepção que Machado de
Assis tinha do seu público, expressa na produção crítica, na
correspondência e, em certa medida, na crônica, e a relação
entre os narradores e as figurações do leitor nos romances. Dito
de outra forma: as mudanças da percepção e da expectativa do
escritor em relação ao seu público teriam implicações no modo
como os narradores se dirigem aos seus interlocutores nos
romances. (p. 27-8).
Ainda falando sobre as críticas reunidas na coletânea de Ubiratan Machado,
percebemos que, com Sílvio Romero e José Veríssimo, os escritos de Machado de
Assis passaram a ter um tratamento amplo. Araripe Jr. também marcou seu espaço,
buscando as evocações do ethos nacional nas obras romanescas machadianas. De
acordo com Regina Zilberman, os mencionados intelectuais contribuíram de forma
positiva para a profissionalização da crítica, cuja institucionalização dependeu da
mudança da concepção sobre a atividade crítica, classificada
como fazer científico, fundados em princípios e fiel a uma
metodologia […]. Além disso, dependeu também das mudanças
das condições de trabalho intelectual, experimentadas desde a
década de 70 [1870] e que tomam feição crescentemente
moderna após a Proclamação da República. (ZILBERMAN,
1989, p. 89).
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
328
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
Nas obras literárias Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena
(1876) e Iaiá Garcia (1878), Machado de Assis já criava personagens que
ambicionam mudar de classe social, ainda que isso lhes custasse sacrifícios,
diferentemente dos romances românticos em que as personagens geralmente se
comportavam de acordo com aquilo que lhes ditava o coração. Em Ressurreição, o
autor pretendia extrair o núcleo da ação a partir de elementos do drama
shakespeariano, marcando o espaço de suas leituras, como esclarece na advertência
ao leitor:
minha ideia ao escrever este livro, foi por em ação aquele
pensamento de Shakespeare: Our doubts are traitors,
And make us lose the good oft might win,
By fearing to atempt.
Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de dois
caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do
livro. (MACHADO DE ASSIS, 1959, p. 9).
Assim, os primeiros romances de Machado oscilavam entre as instituições e
a intimidade, entre a literatura do passado e um projeto literário para o futuro, sendo
que esse, algumas vezes, não deixou de recorrer aos padrões de seu tempo. Nessas
narrativas, encontramos cerimônias e convenções que se materializam na família e
no casamento por interesse, em finais típicos para os romances da época: ascensão
social por meio do matrimônio e punição através da morte ou do isolamento.
Desenvolvendo essa temática, a narrativa ficcional A mão e a luva foi
considerada pela crítica oitocentista um retrocesso quando confrontada a
Ressurreição, pois retomava características do romance de costumes. Além disso, os
traços de sua personagem Guiomar assemelham-se aos apresentados pelas
personagens de Feuillet1 (Cf. MACHADO, 2003, p. 97). No que tange ao público
leitor feminino, o cônego Caetano destaca o respeito à moral. Sua crítica nos remete
ao modelo e às intenções da escrita voltada para o publico feminino: lazer e
educação. Ele compara essa obra literária às do escritor inglês William Thackeray,
romances que “os pais podem dar às filhas sem prévia leitura” (Ibid, p. 98).
Em relação a Helena, mais uma vez, a crítica destacava as leituras implícitas
no tecido romanesco: Castellar, Dumas Filho, Feuillet, Feydeon e Goethe. Sua
personagem central é uma das primeiras protagonistas dos romances machadianos
que cultiva explícita e conscientemente a qualidade de dissimular como instrumento
para atingir objetivos pessoais. Da mesma forma que A mão e a luva, esse foi um dos
romances consideradas como apto a dispensar de prévia tutela: “as donzelas podem
lê-lo sem embaraços inconfessáveis” (MACHADO, 2003, p. 111). Tais romances,
assim como Iaiá Garcia, que lhes sucede, através de suas personagens dissimuladas,
1
Octave Feuillet: escritor francês. É autor de obras teatrais, como Montjoie (1856) e do romance O
senhor de Camors (1867), que descreve o “falso moralismo” da alta sociedade.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
329
mostram a capacidade de ocultação das motivações reais de uma ação para atingir
um fim pretendido. Sobre o último deles, José Veríssimo afirmava ser talvez o mais
romanesco dentre aqueles escritos pelo autor.
Após sua morte, Machado só voltou a ganhar estudos relevantes por volta
dos anos de 1930. Ao longo do século XX, entre os estudiosos que se debruçaram
sobre seus romances, destacamos primeiramente Augusto Meyer (1935), Lúcia
Miguel-Pereira (1936), Eugênio Gomes (1958) e Barreto Filho (2002). Nas análises
de Miguel-Pereira, vemos os tipos femininos das personagens machadianas
“copiados da galeria dos manequins românticos: a mundana faceira, a virgem
sentimental, a beleza tentadora e fria, que desperta paixões sem as compartilhar,
todas caprichosas, orgulhosas, misteriosas” (MIGUEL-PEREIRA, 1936, p. 103). A
biógrafa e crítica tentou relacionar as personagens machadianas a certos aspectos da
vida do escritor. Assim, a personagem Guiomar, de A mão e a luva, por exemplo,
consegue ascensão social através do casamento com um homem rico.
Esse tipo de visão fez com que os primeiros romances do escritor carioca
ficassem à margem, sendo literariamente considerados como obras literárias menores
em relação àquelas que ele produziria a partir da década de 1880. Todavia, Augusto
Meyer retoma os estudos de Miguel-Pereira e, no apanhado biográfico que realiza,
aprofunda sugestões para a interpretação da obra do autor que, indo além do
Machado “inofensivo”, chamam atenção para seu tom mais “agressivo”. Meyer
afirma que Machado se desvinculava aos poucos da concepção romântica, o que
ficaria evidente em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Assim, deixaria de
lado a visão subjetiva e parcial da realidade, passando a representar ficcionalmente
os problemas psicológicos e sociais de sua época através de personagens frias. Por
seu turno, ao escrever sobre principais obras literárias machadianas (com maior
atenção a Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro), Eugênio Gomes
(1958) considera que são governadas pela ideia central de inspiração em escritores
ingleses. Entre as influências recebidas de Charles Dickens e William Shakespeare, o
crítico ainda as aproxima dos romances de Lawrence Sterne e William Thackeray,
no que se referem à narrativa póstuma, às reticências e, no que aqui importa, às
digressões textuais e aos diálogos constantes com o leitor.
Assim como Gomes, José Barreto Filho (2004) também aborda semelhanças
entre a ficção inglesa e os romances machadianos, percebendo nesses o trágico,
através da capacidade de desvendamento das camadas mais profundas da sociedade
de sua época: as mazelas sociais, a troca de favores, a manipulação, a ambição e o
poder. Além disso, afirma que Machado não se deteve na reprodução servil daquilo
que os realistas e naturalistas chamavam de real ou natural, mas propôs analisar a
vida e a sociedade num âmbito psicológico e crítico. O crítico salienta que o
interesse do escritor fluminense pelo romance psicológico, encontrado em
Ressurreição, seria deixado de lado nos romances A mão e a luva, Helena e Iaiá
Garcia, nos quais se percebem “a influência do ambiente, o esforço para julgar o
impulso de penetração psicológica, e substituí-lo pelo jogo das situações romanescas,
desenrolando-se no belo quadro social do segundo reinado” (p. 98).
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
330
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
Astrojildo Pereira (1991, p. 14) argumenta que o escritor fluminense estava
em meio a uma época de transição, do patriarcalismo para a burguesia, da monarquia
para a república, caracterizada pela “ascensão histórica de uma nova classe
dirigente”. Ele cita a análise de Nelson Werneck Sodré (1995), o qual afirmava que a
ficção machadiana em sua fase “madura” já estava presente em sua fase “inicial”,
porém, com menos intensidade. Segundo Pereira, as representações ficcionais dos
bacharéis, das mocinhas casadoiras, das relações de favor e da sociedade da época
caminhavam para mostrar o lugar de cada um em seu mundo real. Ao estudar o
mesmo universo, Raymundo Faoro (1988) sublinha aspectos como a herança sob a
forma do patrimônio invulnerável à crítica e ao escárnio e o casamento como meio
de se alcançar a ascensão social:
a herança é a chave dos cabedais do chamado capitalista,
herança presente ou futura. Herdeiros foram Brás Cubas,
Bentinho (D. Casmurro), Félix (Ressurreição), Jorge (A mão e
a luva), ou outro Jorge (Iaiá Garcia), Estácio (Helena), Rubião
(Quincas Borba) e muitos, de menos envergadura. O traço
comum dessa legião de filhos e sobrinhos aquinhoados pela
morte virá do horror ao trabalho; todos cultivam o bom e
elegante ócio. (p. 209).
O intelectual demonstra que a ficção do escritor carioca estava interessada
no homem, no seu destino individual, psicologicamente abordado entre Iaiá Garcia e
Memórias póstumas. Nesse último, seria possível perceber a mudança, radical e
qualitativa do “Bruxo do Cosme Velho”: “Era o parto de um novo Machado, uma
conversão às avessas. Há conversões de várias naturezas; do ponto de vista canônico,
a de Machado só pode ser interpretada como o avesso de uma conversão edificante,
uma crise de sentido reversivo” (FAORO, 1988, p. 440).
José Guilherme Merquior (1977) sugere que o afastamento das produções
românticas, nas quais o amor vence tudo, foi fundamental para que as obras
machadianas se dedicassem à crítica da sociedade de sua época, uma vez que, “não
havendo valores estáveis, a literatura, no seu papel de interpretação da vida por meio
da palavra, passou a procurá-los: dai ter ela assumido uma visão problematizadora”
(p. 154). Esse crítico afirma que, mesmo encontrando traços característicos da
maturidade literária nos primeiros romances de Machado, foi só a partir de 1880,
com Memórias póstumas, que o autor atingiu o patamar de figura central de nossa
literatura.
Segundo Antonio Candido (1999), Machado ficcionalizava a compreensão
da condição humana e, por isso, se mantinha independente em relação aos modismos
internacionais. Assim, “as sucessivas gerações de leitores e críticos brasileiros foram
encontrando níveis diferentes em Machado de Assis, estimando-o por motivos
diversos e vendo nele um grande escritor devido à qualidade por vezes contraditória”
(p. 18). O escritor seria também um espectador que compreendeu as estruturas
sociais de sua época, utilizando uma técnica que
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
331
consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da
maneira mais cândida (como os ironistas do século XVIII); ou
em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos
fatos e a sua anormalidade essencial; ou em sugerir, sob
aparência do contrário, que o ato excepcional é normal, e o
anormal seria o ato corriqueiro. Aí está o motivo da sua
modernidade, apesar de seu arcaísmo de superfície.
(CANDIDO, 1999, p. 23).
Ao concordar com Antonio Cândido quanto às marcas ficcionais
representativas do percurso econômico, político e social do século XIX brasileiro
impressas na ficção machadiana, Roberto Schwarz (2000) afirma que Ressurreição,
A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia “são quatro romances enjoativos e abafados,
como o exigem os mitos do casamento, da pureza, do pai, da tradição, da família, a
cuja autoridade respeitosa se submetem” (p. 87). No entanto, A mão e a luva, não
apresenta traços tão rígidos de conformismo, pois “são os cálculos e a maleabilidade
da moça [Guiomar] a razão de ser do romance” (Ibid., p. 88). Ela não se conforma
em casar-se com quem a baronesa deseja, mas com o pretendente que encara como
ideal para alcançar seu objetivo de ascensão social. Por sua vez, Alfredo Bosi (2002)
aponta os traços psicológicos das personagens de Ressurreição, onde não existem
assimetrias marcadas de classe social capazes de produzir diferenças significativas
de comportamento, fato que ocorreria em A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. Para
o estudioso, tais assimetrias não só mostram situações de dependência, mas ratificam
o simbolismo do patriarcalismo extenso da burguesia escravista do Segundo
Reinado.
Os romances machadianos abordam assuntos comuns, relacionados ao
cotidiano empírico dos leitores da época, como os costumes locais, a leitura, tanto
individual quanto coletiva, as ambições e o favor. Nesse sentido, John Gledson
(1998) observa que Machado “estava muito ciente de que escrevia para um público
majoritariamente feminino” (p. 45) e que “não apenas escreveu muito para elas; ele
foi seu espírito orientador; ao menos em seu aspecto literário. O esforço de produzir
uma literatura que estimulasse as mulheres brasileiras é um dos traços menos
conhecidos da carreira desse suposto retraído” (Ibid., p. 19). Tal aspecto é percebido
quando nos deparamos em suas obras romanescas com as personagens femininas
representativas das leitoras da época, consumidoras do folhetim diário e do romance.
Das narrativas machadianas ora citadas, apenas Ressurreição foi diretamente
publicada em volume único, sem antes circular em folhetim (Cf. GUIMARÃES,
2004a, p. 126). Como visto, por meio desse gênero e dos romances europeus
adaptados, ocorreu a formação do leitorado feminino burguês do Oitocentos
brasileiro. Mesmo considerada uma atividade sem muita importância, a leitura
possibilitou às mulheres certa capacidade de se voltarem a si mesmas, aos próprios
pensamentos e emoções. Feita de maneira silenciosa, permitia que refletissem,
revissem conceitos, criassem, pensassem, analisassem a sociedade na qual viviam.
Não podemos ignorar as distinções entre leituras femininas e masculinas, visto que
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
332
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
as mulheres liam para ocupar o tempo ocioso e os homens o faziam para sua
instrução (Cf. PRIORE, 1997, p. 409).
Ciente dessas diferenças, Machado de Assis, por intermédio de seu narrador,
utilizava-se de dispositivos sutis que permitem uma aproximação e, ao mesmo
tempo, uma identificação entre leitor (leitora)/narrador/personagem. Os mesmos
dispositivos serviam também como ferramentas para educar as leitoras, permitindo
deixar de lado o diálogo oral, dando prioridade à cultura impressa. Por isso, podemos
dizer que o autor tinha também em vista o leitor “ideal” para sua obra: interessado na
diversão e no preenchimento do tempo ocioso proporcionado pelo livro, numa época
em que possuir bens culturais significava ter “poder” intelectual e aquisitivo. Nesse
tempo, os romancistas aproveitavam o espaço do jornal como meio destinado a
informar e alcançar novos perfis de leitores.
Em Ressurreição, percebemos seu esforço em propor novos hábitos de
leitura, pois no Brasil do século XIX, os leitores ainda estavam muito acostumados
aos romances populares europeus, ao estilo de Henri Murger, Octave Feuillet, Pérez
Escrich etc. Com A mão e a luva, houve retrocesso aparente dessa proposta, uma vez
que, para os críticos, a narrativa é um romance de costumes. Já Helena e Iaiá Garcia
se vinculam esteticamente à maneira romântica, embora comportem traços do
romance realista, do moralismo setecentista, dos gêneros orientados para o “sériocômico”, apontando as características que marcariam obras literárias machadianas
consideradas mais “maduras”, tais como Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e
Jacó e Memorial de Aires.
Iaiá Garcia aborda o mundo urbano, "defende a ambição de mudar de classe
social e a procura de um novo status, ainda que à custa de sacrifícios no plano
afetivo” (BOSI, 2003, p. 177). A sociedade que passava a se organizar em torno da
cidade brasileira, como salienta José Guilherme Merquior (1977), tornou-se um
espaço importante para a difusão dos ideais franceses, propiciando o surgimento das
academias, e deu oportunidade para organizar sistematicamente a produção literária
brasileira até então inexistente. Tanto esse romance quanto A mão e a luva
constituem representações ficcionais destinadas a conduzir, envolver o leitor e situálo no texto. Os textos em grifo trazem referências a um importante momento da
história brasileira oitocentista e, neles, o narrador machadiano se vale da figura da
leitora para abordar temas relacionados à recente burguesia nacional, como o
casamento por interesse, a manutenção do patriarcalismo e as relações sociais.
O leitor brasileiro da década em que Machado começou a publicar seus
romances estava “acostumado a histórias de forte apelo sentimental e carregadas de
cor local, das quais Sonhos d’ouro, de Alencar, publicada no mesmo ano de 1872,
serve de paradigma” (GUIMARÃES, 2004a, p. 125). O escritor fluminense tinha a
intenção de propor mudanças referentes aos hábitos de leitura de seu tempo, segundo
notamos já em Ressurreição, romance no qual se verificam diversos indícios de que
buscava se afastar do território ceifado pelas leituras românticas, passando a abordar
o favor, a manipulação e o paternalismo. Quando o ficcionista escreveu A mão e a
luva, continuou com sua intenção de mudança, mas retrocedeu no enfoque das
personagens porque, na narrativa, os elementos apareceram distorcidos ironicamente,
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
333
fazendo com que o leitor se identificasse com determinada personagem, corrigindo-a
pelo riso ou pelo deboche.
Conforme Guimarães (2004a), “diante desse novo universo, a postura do
narrador aparece bastante alterada. Ele não se coloca mais em constante oposição ao
seu interlocutor, mas passa a narrativa buscando sua cumplicidade e tentando
entabular acordos” (p. 139). De tal maneira, Machado utilizou uma forma diferente
daquela que vemos em Ressurreição, ou seja, não interferiu com tanta força e
desenvoltura no texto, mas permitiu que o leitor de certo modo se sentisse à vontade
para “enganar-se” com a trama proposta pelo narrador: “[...] em Helena e Iaiá
Garcia o apelo à atenção do leitor se faz de modo mais velado e indireto, por meio
de tramas turbulentas, cheias de reviravoltas, e também da exacerbação da
intensidade emocional dos dramas centrais” (GUIMARÃES, 2004a, p. 149).
Nessas narrativas machadianas, assim como nas antecedentes, as cenas e
representações de leituras retomam ficcionalmente acontecimentos que iam fazendo
parte do cotidiano oitocentista brasileiro. Valendo-se de dispositivos relacionados à
necessidade de estimular e “educar” os leitores para a recepção dos textos
produzidos na época, o escritor brasileiro entra em consonância com aspectos da
teoria do efeito, desenvolvida por Wolfgang Iser (1996) praticamente ao final do
século XX. Do grupo de textos ora estudados, é em A mão e a luva, Helena e Iaiá
Garcia, os “romances de leitoras”, que mais aparecem cenas de leituras e onde mais
transparecem questões relacionadas à leitura feminina. Como o público leitor da
época representada, as personagens femininas de Machado revelam-se notórias
consumidoras do folhetim diário e do gênero romanesco.
Considerações finais
Por intermédio da crítica literária acerca dos romances escritos por Machado
de Assis antes da década de 1880, observamos o esforço do ficcionista em propor
novos hábitos de leitura no Brasil do século XIX, quando foram destinadas, ao
público feminino, leituras simples, geralmente, histórias de heróis e mocinhos com
finais felizes. Além disso, fazia-se comum a representação ficcional de eventos
femininos cotidianos, a exemplo das leituras realizadas no jardim ou no quarto, bem
como a leitura coletiva previamente tutelada. À época, as pessoas estavam, de certo
modo, descobrindo o ato de ler e, melhor do que isso, era reproduzir o texto lido
àqueles que não tinham acesso ao impresso.
Através do folhetim e dos romances europeus adaptados, ocorreu a formação
do leitorado feminino burguês oitocentista no país. Mesmo considerada então como
uma atividade sem muita importância, a leitura possibilitou às mulheres certa
capacidade de se voltarem a si mesmas, aos próprios pensamentos e emoções. A
leitura silenciosa permitia que refletissem, revissem conceitos, criassem, pensassem,
analisassem a sociedade na qual viviam. O leitor brasileiro estava apegado a histórias
sentimentais, como as obras literárias do escritor cearense José de Alencar, e de um
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
334
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
leque de escritores estrangeiros de sucesso absoluto, tais como Enrique Pérez
Escrich, Henri Murger, Octave Feuillet, Paul de Koch e Ponson du Terrail.
O escritor fluminense desejava fugir à cor local, que assinalava a produção
de Alencar, e propor mudanças referentes aos hábitos de leitura de seu tempo. Em
sua narrativa romanesca Ressurreição, notamos diversos indícios de que buscava se
afastar do território ceifado pelas leituras românticas, passando a abordar a lógica do
favor, a manipulação e o paternalismo. Em A mão e a luva, Machado deu
continuidade a esse objetivo, mas retrocedeu no enfoque das personagens porque os
elementos aparecem distorcidos ironicamente, conduzindo o leitor a se identificar
com determinada personagem, de modo que a tônica passa a ser uma tentativa de
conciliação, mais afinada com os horizontes de expectativas dos leitores, melhor
dizendo, das leitoras da época, consumidoras de primeira mão dos folhetins
publicados nos jornais cariocas. O ficcionista utilizou uma forma diferente daquela
que vemos em Ressurreição, ou seja, não interferiu com tanta força e desenvoltura
no texto, mas permitiu que o leitor, de certo modo, se sentisse à vontade para “se
enganar” com a trama proposta pelo narrador, o que parece intensificar-se em
Helena e Iaiá Garcia.
No momento em que tais obras eram lançadas, a sociedade brasileira tinha
grande número de analfabetos e os romancistas passavam a ter consciência da
escassez de leitores e da necessidade de envolvê-los, desenvolvendo novos hábitos
de leitura e recepção de suas obras. O escritor carioca realizava seu trabalho literário
nesse tempo em que o índio idealizado e a cor local eram temáticas utilizadas para
assegurar a identidade nacional de nossa literatura. Em seu “Instinto de
nacionalidade”, deixou claro que, embora aqueles fossem elementos existentes na
cultura brasileira, não deveriam ser considerados como fonte exclusiva de inspiração
artística. Assim, voltou-se para a sociedade urbana, criando personagens com
características próximas de sua realidade: jovens estudantes, recém formados,
mocinhas casadoiras, agregados, funcionários públicos, matriarcas, enfim, figuras
presentes no cotidiano empírico dos leitores. Isso já se percebe em Ressurreição, A
mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia, portanto, bem antes do romance que é muitas
vezes considerado o marco inaugural de sua “fase madura” - Memórias póstumas de
Brás Cubas -, publicado como folhetim em 1880 e, como livro, no ano seguinte.
As representações de leitora e de práticas de leitura feminina presentes nos
romances ora destacados foram utilizadas como estratégias para a formação do gosto
pela leitura literária entre as mulheres burguesas do século XIX brasileiro. Os quatro
primeiros romances do Bruxo do Cosme Velho contemplam, pela via da ficção, as
regras e o comportamento social vigentes no contexto representado. Nas narrativas
em estudo, encontramos a frieza, a ambição, o orgulho e o conformismo que podiam
ser facilmente observados no mundo empírico, de maneira que a representação de
suas personagens, aproximando-se ao narrador e aos leitores, empíricos ou
implícitos, constitui importante ferramenta para conquistar recepção a seus textos
romanescos, a uma espécie de romance que não se encaixa de forma absoluta nem no
padrão romântico nem no realista-naturalista.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
335
As obras literárias que recebem destaque no presente artigo apresentam
traços do romantismo liberal, tendência literária em vigor no universo cultural
brasileiro da época, mas já trazem a elaboração realista da ordem social, por
exemplo, através da submissão oportunista da agregada Guiomar (A mão e a luva) e
da submissão contrariada de outra agregada, Estela (Iaiá Garcia), que rompe com a
dependência senhorial através do trabalho assalariado, assegurando sua liberdade. Os
romances em grifo, assim como Ressurreição e Helena, assinalam-se pelo
moralismo à la Voltaire e promovem a aproximação das diferenças, ao lado do
afastamento das semelhanças, além de provocarem o leitor através da ironia,
algumas vezes, explícita; em outras, implícita.
Machado parecia testar um novo tipo de escrita no Brasil, a qual envolve a
dissolução trágica (Ressurreição e Helena) e a integração cômica (A mão e a luva e
Iaiá Garcia), sem se desligar totalmente nem da tradição romântica nem da realista
ou da naturalista. Nesses romances, as heroínas tomam decisões para que possam ser
integradas a um mundo que não parece feito para elas. Isso nem sempre ocorre de
forma pacífica ou acontece sucedido do castigo e da punição, como é o caso de
Helena, protagonista do romance homônimo cuja ousadia é paga com a própria vida.
O escritor fluminense aproveitou as próprias leituras de escritores europeus tais
como Henry Fielding, Jonathan Swift, Lawrence Sterne, William Makepeace
Thackeray, na questão do humor, e de Johann Wolfgang von Goethe e William
Shakespeare ao incorporar elementos dramáticos. Seu narrador estabelece diálogos
com o leitor, introjetando-o na narrativa, forçando-o a preencher os vazios existentes
no texto, conduzindo-o à reflexão e à crítica, da forma apregoada por Wolfgang Iser
(1996).
Precisamos assim relembrar que, no século XIX, a leitura feminina era
considerada um perigo. Os romances de costumes tornavam-se ideais para as
mulheres, pois não exigiam reflexão profunda e serviam como meio de divertimento.
Machado propunha novos hábitos de leitura, inserindo em suas obras literárias
personagens leitores, divididos em dois grupos: os românticos e os perspicazes. Não
é à toa que o leitor ideal representado ficcionalmente seja Luís Garcia, de Iaiá
Garcia, um ser maduro e racional que lê, analisa e interage com o que é lido. Cabe
dizer que a história da formação do público leitor feminino foi uma conquista
oitocentista, mas a leitora que se pretendia formar era a mulher branca, aristocrática
e bela. Apesar disso, o livro e o jornal foram imprescindíveis para a circulação dos
romances nesse tempo.
Os folhetins tornaram possível alcançar maior número de leitores, tanto
homens quanto mulheres, mas principalmente essas, em processo de aquisição das
competências que antes não possuíam, apesar das estruturas óbvias de grande parte
dos textos a elas direcionados ou aprovados pela tutela masculina. É desse modo
que, nos parâmetros da teoria do efeito, o leitor compreende os significados
propostos e participa ativamente dos textos lidos. O ato de ler excede os limites
textuais e desencadeia um processo de transformação na subjetividade do leitor. De
acordo com Wolfgang Iser (1996), a leitura é um processo de comunicação, do qual
participam o autor, o texto e o leitor. O “leitor implícito”, por exemplo, incorpora e
segue as orientações que estão previamente instauradas no texto, sem descartar a
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
336
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
existência de uma camada subjetiva de percepção, uma reação individual, como se
nota nas protagonistas machadianas e também na própria recepção crítica que vêm
alcançando ao longo do tempo.
Embora representadas ficcionalmente, as personagens leitoras de Machado
de Assis permitem observar a ideia de uma leitora que não se confunde com a leitora
real, mas resulta da interação texto/leitora. Ocorre que, no mundo empírico, cada
leitor pode reagir de modo diferente a um mesmo texto: as normas e os valores se
modificam pela experiência da leitura, pois, ao interagir com a estrutura do texto
literário, o leitor não só sofre seus efeitos, mas age sobre eles, passando a ser visto
como importante ferramenta de compreensão e crítica. Assim, em A mão e a luva,
Helena e Iaiá Garcia, notamos entre cenas e representações de leitura a utilização de
“ganchos” textuais, prática comum a vários autores durante o período em vista. As
situações deixadas em aberto viriam a despertar o interesse do leitor em busca da
continuidade e do final das histórias, o que se esclareceria apenas nas páginas dos
jornais dos dias seguintes. Estratégias como essas passam a ser destacadas em
trabalhos de cunho crítico a partir do momento em que a teoria literária se abre, na
segunda metade do século XX, às relações entre o texto e o leitor, bem como às
possibilidades de comunicação surgidas através das negações, supressões e outros
dispositivos sublinhados pela estética da recepção, pelas teorias do efeito e pelas
histórias e representações de leituras.
Não é outra a postura da crítica literária brasileira em relação às obras
literárias de Machado que aqui denominamos “romances de leitoras”. Em torno
delas, a tímida crítica de primeira hora incrementou-se na primeira metade do século
XX para somente tornar-se pouco mais robusta a partir da segunda metade dessa
centúria, demonstrando que a recepção de uma obra literária também leva em conta
suas relações com os diversos horizontes de expectativa, inclusive, daquele leitor
que, por algum motivo, trava contato com determinados aportes teóricos. Nem tão
somente a teoria literária, mas também a história da literatura brasileira e a
historiografia literária, quando desviadas de uma hegemônica centralidade oferecida
ao sujeito produtor e a sua obra, permitem visualizar questões subterrâneas aos
estudos literários. É a isso que pretendemos sinalizar, através dos diálogos
estabelecidos pelo narrador machadiano com leitoras que, no interior das narrativas,
se afiguravam como modelos para mulheres de carne e osso, candidatas potenciais a
perceberem inúmeras relações entre o universo dos textos e seus pequenos
mundinhos.
Referências
ABREU, Márcia (Org.). “A leitura do romance”. In: _____. Os caminhos dos livros.
Campinas: Mercado de Letras; ALB; FAPESP, 2003. p. 265-342.
ALENCAR, José de. Como e porque sou romancista. Adapt. ortográfica de Carlos Aquino
Pereira. Campinas: Pontes, 1990.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
337
ALENCAR, José de. “Prefácio”. In: ______. Sonhos d'ouro. Rio de Janeiro: José Olympio,
1977. p. 165-166.
ALMEIDA, Jane Soares de. Ler as letras: por que educar meninas e mulheres? São
Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo; Campinas: Autores Associados,
2007.
ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.
ARAÚJO, Jorge de Souza. Perfil do leitor colonial. Salvador: EdUFBA; Ilhéus: Editora da
UESC, 1999.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Iaiá Garcia. São Paulo: Cultrix, 1960.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. A mão e a luva. Rio de Janeiro: Sedegra, 1960.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “Notícia da atual literatura brasileira Instinto de
nacionalidade”. In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Machado de Assis: obra completa. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 2004. v. 3. p. 801-809.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: Jackson, 1959.
AUAD, Sylvia Maria Von Atzingen Venturoli. Mulher: cinco séculos de desenvolvimento
na América. Belo Horizonte: Federação Internacional das Mulheres de Carreira Jurídica;
CREZING – Centro Universitário Newton Paiva, 1999.
BARRETO FILHO, José. “O romancista”. In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. v. 1. p. 97-114.
BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. 4. ed. São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2007.
CANDIDO, Antonio. Iniciação a literatura: resumo para principiantes. 3. ed. São Paulo:
Humanitas; FFLCH; EdUSP, 1999.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo
Horizonte: Itatiaia, 2000. 2 v. v. 2.
CANDIDO, Antonio. O romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas; FFLCH; EdUSP,
2002.
D’INCAO, Maria Ângela. “Mulher e família burguesa”. In: DEL PRIORE, Mary. História
das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto; EdUNESP, 1997. p. 223 -240.
FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 3. ed. Rio de Janeiro:
Globo, 1988.
GLEDSON, John. Machado de Assis: impostura e realismo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1998.
GOMES, Eugênio. Machado de Assis. Rio de Janeiro: São José, 1958.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
338
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e
o público de literatura no século 19. São Paulo: EdUSP, 2004a.
GUIMARÃES, Hélio de Seixas. “Romero, Araripe, Veríssimo e a recepção crítica do
romance machadiano”. Estudos Avançados, v. 18, n. 51, São Paulo, may/aug. 2004b.
Disponível
em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010340142004000200019>. Acesso em: 12 dez. 2011.
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34,
1996. 2v. v. 1.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo:
Ática, 1996.
LYONS, Martyn. “Os novos leitores no século XIX: mulheres, crianças, operários”. In:
MACHADO, Ubiratan (Org.). Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro:
EdUERJ, 2003.
MANGUEL, Alberto; SOARES, Pedro Maia. Uma história da leitura. São Paulo: Cia das
Letras, 1997.
MERQUIOR, José Guilherme. De Euclides a Anchieta: breve história da literatura
brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. Machado de Assis: estudo crítico e biográfico. São Paulo:
Nacional, 1936.
MUZART, Zahidé Lupinacci. “Pedantes e bas-bleus: a história de uma pesquisa”. In:
______ (Org). Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Editora Mulheres; Santa
Cruz do Sul; EDUNISC, 1999.
PEREIRA, Astrojildo. Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos. 2. ed. Belo
Horizonte: Oficina de livros, 1991.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução por Ângela M. S. Côrrea. São
Paulo: Contexto, 2007.
PINA, Patrícia Kátia da Costa. Literatura e jornalismo no Oitocentos brasileiro. Ilhéus:
EDITUS, 2002.
PRAVAZ, Suzan. Três estilos de mulher: a doméstica, a sensual, a combativa. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1981.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da educação. Tradução por Sérgio Milliet. 3. ed. Rio
de Janeiro : Bertrand Brasil, 1995. Tradução de: Émile; ou, De l’éducation.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios
do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.
SIMPÓSIO NACIONAL DE LEITURA, 1., 1994, Rio de. Janeiro, RJ: Proler, FBN, Centro
Banco do Brasil, 1994.
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
ANDRÉ L. MITIDIERI; JOSIMARE F. DOS SANTOS • Leituras femininas, protagonistas de Machado
339
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1995.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática,
1989.
Recebido em 15 de novembro de 2012.
ANDRÉ LUIS MITIDIERI
Doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Professor Adjunto do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras –
Mestrado em Linguagens e Representações – da Universidade Estadual de Santa Cruz
(UESC). Email: [email protected].
JOSIMARE FRANCISCO DOS SANTOS
Mestre em Letras – Mestrado em Linguagens e Representações – pela Universidade Estadual
de Santa Cruz (UESC). Email: [email protected].
Via Litterae • Anápolis • v. 4, n. 2 • p. 317-339 • jul./dez. 2012 • www2.unucseh.ueg.br/vialitterae
Download

Texto em PDF