Cooperativismo no agronegócio: uma maneira de reduzir a pobreza no distrito de Luanda do município de Serra Talhada Janaína Nara Beserra da Silva1, Jorge da Silva Correia Neto2. Introdução O agronegócio é um complexo modelo que compreende todos os elos de uma determinada cadeia produtiva de montante a jusante, isto é, desde a fabricação dos insumos até o consumo do produto final. E é justamente a partir deste modelo que o Brasil tem se fortalecido economicamente, sendo o agronegócio responsável por um terço do Produto Interno Bruto (PIB) [1]; [2]. Deparamos-nos com um multifacetado leque de possíveis empreendimentos na área, que geram novos empregos, reduzindo a pobreza e minimizando de certa forma o inchaço urbano vivenciado atualmente. Uma dessas infinitas facetas que vem ganhando significativa importância é o Agronegócio Cooperativo, modelo este que norteará esta pesquisa. Mas como é caracterizada uma cooperativa? Segundo a Organização das Cooperativas do Brasil, as cooperativas são associações autônomas de pessoas que se unem voluntariamente para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida [3]. Via de regra uma cooperativa deve seguir sete princípios gerais que são: adesão voluntária e livre; gestão democrática e livre; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação, formação e informação; intercooperação e interesse pela comunidade [4]. O modelo cooperativista muito contribui para a boa gestão do agronegócio de pequenos produtores. O Brasil, mesmo tendo evoluído seu modelo agrícola, ou seja, mesmo estando crescendo quantitativamente, deixa muito a desejar em relação à questão agrária, que é a questão relativa à distribuição da renda, da terra, enfim das variáveis qualitativas. O que se pode perceber é que o agronegócio é um bom investimento, que gera riqueza no país, mas de forma desigual, pois a grande maioria das terras, dos meios de produção, capital e infinitos outros fatores estão nas mãos dos grandes latifundiários [5], onde o pequeno produtor isolado entre grandes latifúndios acaba sendo sufocado. Uma alternativa que vem dando certo no intuito de reverter esse quadro é a criação de cooperativas. Existem muitos empecilhos ainda, mas com bons exemplos de que essa missão não é impossível, o que tem feito cada vez mais grupos de produtores unirem-se em cooperativas na tentativa de fugir dos diversos riscos e entraves que sofreriam se estivessem atuando sozinhos no mercado. As cooperativas têm sua raiz na bagagem cultural dos imigrantes italianos e alemães, que tinham esta ideologia de associativismo e a trouxeram para o Brasil [3]. A integração vertical é um meio de comercialização extremo que nem toda agroindústria é capaz de implantar devido ao seu alto custo. Com a integração vertical é possível ter o controle de cada elo que compõe a cadeia produtiva de montante a jusante, o que confere ao produto maior qualidade e confiabilidade. Um ponto forte das cooperativas é a prática da verticalização, pois como se trata de diversos cooperados que dividem custos e lucros, o custo para implantação desse tipo de comercialização não se torna muito alto. Esse é um exemplo nítido do lema cooperativo “a união faz a força”: juntos os produtores são capazes de implantar um meio de produção de custo alto que garante uma maior confiabilidade e qualidade do produto, fazendo com que o consumidor o prefira, sem sentir um forte abalo no caixa. Tendo avaliado o modelo cooperativista de agronegócio, suas potencialidades e fraquezas, surge a indagação sobre o que levou os pequenos produtores de leite do distrito de Luanda, do município de Serra Talhada a se unirem e criarem a Cooperativa Leite Luanda, e que medidas e estratégias estão sendo usadas para sua sustentação no mercado. Material e métodos Devido ao fato da transitividade característica do conhecimento científico, o método utilizado na pesquisa será o hipotético – dedutivo, já que os resultados obtidos poderão ser falseados com o passar dos tempos, em decorrência de diversos fatores como ambiente, estrutura, novas tecnologias, etc. Em resposta ao questionamento norteador desta pesquisa, foram realizadas duas entrevistas com os idealizadores da cooperativa do Leite Luanda: uma com o Sr. Luciano Duque de Godoy Sousa, coordenador do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Serra Talhada [9] e outra com o gestor da Cooperativa do Leite Luanda, Sr. Marcelo Chell Mourato de Sousa [10]. ________________ 1. Aluna de graduação do curso de Bacharelado em Ciências Econômicas da Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Serra Talhada. E-mail: [email protected] 2. Professor Assistente da Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Serra Talhada. Graduado e Mestre em Administração pela UFPE. E-mail: [email protected] 1 O objetivo era conhecer e avaliar o funcionamento desta, investigar a razão de seu surgimento e averiguar as mudanças ocorridas após a implantação da Cooperativa no mercado em que atua. Resultados e Discussões Desde o ano de 1997 os pequenos produtores do distrito de Luanda, do município de Serra Talhada-PE, têm tentado obter melhores resultados para seus negócios através do viés cooperativista. A primeira tentativa foi a de os produtores locais produzirem e comercializarem milho e feijão, e em determinados momentos do ano estes pequenos produtores dedicavam-se à comercialização do leite, prática esta muito rudimentar, sem informação, sem planejamento, sem muita produtividade e conseqüentemente com baixa lucratividade, o que fez fracassar esta primeira tentativa [9]. A região conta com potencialidade agropecuária, sendo a cadeia produtiva do leite uma alternativa de um negócio ousado, com riscos, mas também com maiores chances de sucesso no mercado, de redução da pobreza e de geração de trabalho. Ora, sendo Serra Talhada uma cidade localizada no Sertão Pernambucano, de clima semi-árido, onde a produção agrícola depende substancialmente das chuvas que são irregulares, o produtor de milho e feijão vivia à mercê da sorte com o mínimo para sua própria subsistência. Percebendo isto, em 2005 o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável diagnosticou que a solução para o distrito de Luanda era investir na cadeia produtiva do leite, aproveitar a vocação já inserida na comunidade e transformá-la em negócio promissor [9]. Mesmo havendo as dificuldades climáticas, estas poderiam ser sanadas mais facilmente. Bastava apenas que os produtores acreditassem e investissem na criação da atual Cooperativa do Leite Luanda, e eles acreditaram! Foram feitas diversas parcerias com órgãos e entidades para o financiamento e a capacitação dos produtores, para que estes conhecessem as técnicas de manejo, pastagem, rações apropriadas, etc. Passados dois anos de planejamento, capacitações, formação da estrutura operacional e física, finalmente, em 2007, a Usina de Luanda começou a funcionar. As cooperativas possuem peculiaridades que a distinguem das empresas comuns. Uma delas é que via de regra o grupo de pessoas responsável pela administração das cooperativas é formada pelos próprios cooperados: nada melhor que ter como gestor uma pessoa que sabe intimamente as dificuldades do negócio. Dessa forma foi formado e escolhido democraticamente dentre os cooperados o gestor da agroindústria, seguindo fielmente o principio da gestão democrática e livre [4]. Uma das causas do fracasso da primeira cooperativa foi o fato de não ter existido a “educação, formação e informação” (quinto principio cooperativista), onde os produtores não tinham planejamento, produziam aleatoriamente e se viam castigados pela figura do atravessador que impunha o preço para o leite ao seu bel prazer. Nos dias atuais a Cooperativa do Leite Luanda conta com aproximadamente noventa cooperados dos distritos de Luanda, Santa Rita e Jardim, produzindo em média três mil litros de leite por dia [10]. O caso de Luanda é um exemplo real de uma cooperativa de estruturação singular, pois ela é responsável por receber e resfriar o leite de seus associados, comercializando o leite pasteurizado [6]. Contando com um mercado local já consolidado, fornecer o leite produzido para entidades sociais, para o comércio e ainda abastecer outras agroindústrias de derivados do leite ficou mais fácil. Poucas são as regiões brasileiras que praticam a cultura cooperativista, mas felizmente, mesmo existindo poucas cooperativas no Brasil, estas vêm tomando relevância e maturidade, sendo concorrentes potenciais de multinacionais. Não é preciso que a cooperativa tenha tecnologia de ponta, mas que dentro de suas limitações invista, inove, renove, administre bem seus custos e assim tenha potencial para concorrer em pé de igualdade com as demais empresas do mercado. E é dessa forma que o Leite Luanda vem se destacando no mercado local e regional, oferecendo um produto de qualidade, que incentiva e aquece a economia local, com menores preços e conquistando uma clientela exigente, outrora cliente de indústrias multinacionais da região vizinha. “(...) as cooperativas do agronegócio estão atingindo maturidade e sustentabilidade num ambiente concorrencial de acirrada competitividade, principalmente com as multinacionais de alimentos, imprimindo melhoria e treinamento intensivo no aprimoramento de sua capacidade gerencial e tecnológica e na formação e capacitação de seus funcionários e associados. A cooperativa do agronegócio é o motor da interiorização do desenvolvimento. Quer comprovar? Visite uma” [8]. O Leite Luanda conseguiu se fortalecer no mercado local e fez com que os produtores cooperados ganhassem poder de barganha na compra dos insumos que antes eram comprados em menor quantidade devido ao preço elevado. Outro fator que também foi transformado com o surgimento da cooperativa, talvez o mais importante sob a ótica socioeconômica, foi a geração de emprego e a diminuição da pobreza que assolava aquele pequeno distrito da zona rural de Serra Talhada [8], oferecendo às pessoas de lá formação, emprego e renda, transformando o cenário econômico, oferecendo trabalho e não assistencialismo. Agradecimentos Agradeço a Deus, por me conceder inteligência o suficiente para executar com responsabilidade meus compromissos. Agradeço a ele também a orientação e a fortaleza que me concedeu. Sou grata também ao professor Jorge Correia pelo apoio e orientação no desenvolvimento da pesquisa e escrita do trabalho, e às pessoas que se disponibilizaram a me ajudar na pesquisa. Aos senhores Luciano Duque e Marcelo Chell, pelas informações cedidas. 2 Sou enormemente grata a Rafael pelo apoio e ajuda. Enfim, a todos que direta ou indiretamente influenciaram e auxiliaram na realização dessa pesquisa: a todos meus sinceros agradecimentos. Referências [1] [2] [3] [4] BATALHA, M. O. & SILVA, A. L. Gerenciamento de sistemas agroindustriais: definições, especificidades e correntes metodológicas. In: GEPAI – Grupos de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. Gestão Agroindustrial, 3ª ed, vol 1. – São Paulo: Atlas, 2007. NEVES, M. F. & CONEJERO, M. A. Cenário Econômico da produção de Alimentos, Fibras e Bioenergia. In: GEPAI – Grupos de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. Gestão Agroindustrial, 3ª ed, vol 1. – São Paulo: Atlas, 2007. ZAMBIER, M. A. & GRZESZCZESZYN, G. Cooperativas: Características, Gestão e Relevância Socioeconômica para o Brasil. Universidade Estadual do Centro-oeste do Paraná – UNICENTRO, [Paraná]: ____. Disponível em: <http://www.ead.fea.usp.br/Semead/9semead/resultado_semea d/trabalhosPDF/107.pdf>. PORTAL DO AGRONEGÓCIO. Publicação mostra evolução do cooperativismo no Brasil. Portal do Agronegócio. [S.I.]: 2007. Disponível em: <http://www.portaldoagronegocio.com.br/index.php?p=texto&&id T=966>. [5] PAULILLO, L. F. Sobre o desenvolvimento da agricultura brasileira: concepções clássicas e recentes. In: GEPAI – Grupos de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. Gestão Agroindustrial, 3ª ed, vol 1. – São Paulo: Atlas, 2007. [6] BIALOSKORSKI NETO, S. Agronegócio Cooperativo. In: GEPAI – Grupos de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. Gestão Agroindustrial, 3ª ed, vol 1. – São Paulo: Atlas, 2007. [7] NEVES, E. M. O crescimento sustentável no agronegócio brasileiro. Valor Econômico, São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.londrinatecnopolis.org.br/novo_portal/noticias/shown ews.asp?codNoticia=1825>. [8] NEVES, E. M. Agronegócio, cooperativas e distribuição de renda. Valor Econômico, São Paulo, 2005. Disponível em: <http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=2248 43>. [9] SOUSA, L. D. G. Coordenador do Conselho de Desenvolvimento Rural Sustentável de Serra Talhada. Entrevista concedida em: abr/2008. [10] SOUSA, M. C. M. Gestor da Cooperativa do Leite Luanda. Entrevista concedida em: abr/2008. 3