CC 23 – História das Ciências e da Tecnologia na Bahia: Cidades, Instituições e Personagens Coordenador: André Luis Mattedi Dias A UNIVERSIDADE E A MODERNIZAÇÃO CONSERVADORA NA BAHIA: EDGARD SANTOS E OS INSTITUTOS CIENTÍFICOS André Luís Mattedi Dias Professor Assistente, Doutor Universidade Estadual de Feira de Santana [email protected] Edgard do Rego Santos nasceu em Salvador em 1894, filho de uma família aristocrática baiana. Foi sobrinho-neto do senador estadual Araújo Santos, sobrinho de Pedro Joaquim dos Santos, magistrado do Supremo Tribunal Federal, e filho do bacharel João Pedro dos Santos, bem sucedido político da Primeira República, que foi chefe da polícia do governo Severino Vieira (1900-1904), secretário da fazenda do governo José Marcelino (1904-1908) e deputado federal na legislatura iniciada em 1906. Durante o predomínio da oligarquia seabrista, a partir de 1912, João Pedro dos Santos foi afastado dos cargos públicos e políticos, mas foi reeleito deputado federal em 1924, quando J. J. Seabra perdeu o poder estadual para as oligarquias calmonista e mangabeirista, cumprindo mandatos sucessivos até o golpe de 1930.i Com essas referências familiares, Edgard Santos viveu toda sua juventude na capital baiana, acompanhando de perto as acirradas disputas políticas dos grupos oligárquicos ao longo da Primeira Repúblicaii. Depois de formado pela Faculdade de Medicina da Bahia (FAMED) em 1917, passou quatro anos em São Paulo, onde trabalhou sob orientação do seu tio, o cirurgião Antônio Luiz do Rego. Casou-se com Carmem Figueira em 1922 e seguiu para a Europa, onde permaneceu até o final de 1923, quando retornou a Salvador, onde fixou residência, abriu um consultório e iniciou sua carreira de cirurgião. Em 1925, aproximadamente um ano depois da retomada da carreira política de João Pedro dos Santos, Edgard Santos teve o seu primeiro contato direto e pessoal com o jogo da política oligárquica na Bahia. Em agosto, foi dispensado doze dias depois da sua primeira nomeação interina para catedrático da FAMED, devido às manobras dos seus adversários. Nova nomeação interina ocorreu em março de 1926, em processo que envolveu o ministro da justiça. Finalmente, o concurso que o efetivou na cátedra de cirurgia ocorreu em 1927, numa disputa em que aliados e adversários defenderam e atacaram a sua candidatura.iii Quatro anos mais tarde, em 1932, João Pedro dos Santos e Edgard Santos voltaram a envolver-se diretamente no jogo político. João Pedro foi um dos poucos políticos da Primeira República a aderir imediatamente ao interventor Juracy Magalhães, sendo nomeado secretário do interior e da justiçaiv. Já Edgard Santos foi nomeado diretor da assistência pública de saúde, o serviço estadual de pronto-socorro da capital. Em 1936, ainda ocupava esse cargo e dirigia a construção do novo hospital de pronto-socorro, quando foi nomeado por Getúlio Vargas para a diretoria da FAMED.v Dessa forma, Edgard Santos conheceu desde cedo e bem de perto as regras do jogo político da época, no qual dominavam os grupos oligárquicos, que ocupavam os espaços públicos e dividiam seus territórios em zonas de influência, no qual as decisões sempre eram tomadas de acordo com os interesses dos chefes e em atenção às reivindicações dos seus correligionários. Um modelo análogo dominava também o ambiente acadêmico, onde os catedráticos exerciam o poder nas suas áreas de conhecimento, tal como os chefes oligárquicos faziam nos seus territórios políticos. Nas disputas pelas posições e pelos cargos, organizavam-se para defender os seus aliados e amigos, seus discípulos, filhos, parentes ou afilhados. vi Edgard Santos enfrentou com sucesso esse tipo de relação de poder ao longo de toda sua carreira, tendo ocupado por vinte e cinco anos ininterruptos dois dos principais cargos federais na Bahia, primeiro como diretor da FAMED, de 1936 até 1946, depois como reitor fundador da Universidade da Bahia (UBa), de 1946 até 1961, num período muito conturbado, de grandes oscilações nas esferas políticas federal e local. Portanto, esse foi um jogo que Edgard Santos soube jogar, aliás, mais do que isso, ele foi um dos melhores nesse jogo. A UBa foi fundada em 1946, pela reunião de uma série de faculdades e escolas de formação profissional superiorvii. Durante a gestão do seu primeiro reitor, Edgard Santos, que durou até 1961, a UBa participou destacadamente de um período muito dinâmico da história baiana, quando movimentos políticos, econômicos, artísticos e científicos produziram profundas repercussões no Estado. Teve muita influência nesse período a Concentração Autonomista da Bahia, uma duradoura facção política baiana. Em 1932, diversos grupos oligárquicos locais, afastadas do poder pelo golpe tenentista, empunharam a bandeira da recuperação da autonomia política do Estado e aglutinaram-se na oposição ao governo de Getúlio Vargas. Desarticulada pelo Estado 2 Novo em 1937, a Concentração alcançou o poder político local em 1947, quando seu mais proeminente líder, Octávio Mangabeira, venceu as eleições, assumiu o governo e começou a implantar uma série de projetos de modernização conservadora.viii Um desses projetos tinha como finalidade introduzir o planejamento científico no direcionamento das ações governamentais baianas. Ainda no governo Mangabeira (1947-1951), Anísio Teixeira, secretário da educação e saúde, criou em 1951 a Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia, cujo objetivo era dar embasamento científico às políticas públicas de desenvolvimento. A Fundação financiou o convênio Estado da Bahia−Columbia University, que contou com importante participação da UBaix, já que seu coordenador, Thales de Azevedo, além de ser secretário e presidente da Fundação, também era catedrático de antropologia da Faculdade de Filosofia da UBa (FF). x Além da militância política, os integrantes da Concentração Autonomista também tiveram marcada atuação no ambiente intelectual baiano. Dentre eles, destacou-se um grupo de historiadores − à frente Luiz Viana Filho e Wanderley de Araújo Pinho, inicialmente ligados à Faculdade Livre de Direito da Bahia (FLDB), posteriormente à FF e à UBaxi − que se dedicou a reconstruir a memória histórica regional, produzindo uma narrativa do passado que fez a apologia das tradições baianas e respaldou o discurso reivindicatório autonomista.xii A essa movimentação no plano político, encabeçada pelos autonomistas até o final dos anos 50xiii, correspondeu uma movimentação semelhante no plano econômico, pois alguns poucos e grandes grupos exportadores, bancários e industriais articulavam desde o final da II Guerra um projeto de desenvolvimento regional que previa a implantação na Bahia das atividades de exploração e refino de petróleo, das indústrias de transformação e da petroquímica. Segundo Antônio Sérgio Guimarães, instituições como a Associação Comercial da Bahia e o Banco da Bahia colaboraram decisivamente na elaboração de uma série de estudos sobre a situação econômica e financeira do Estado, fundamentando a retórica de um discurso regionalista que defendia a implantação daquele projeto junto aos poderes constituídos. Ele destacou a liderança intelectual do advogado e político Clemente Mariani, que também foi professor da FLDB e da UBa, e tinha boas relações com os autonomistasxiv. Mariani assumiu a presidência do Banco da Bahia em 1943 e os seus relatórios anuais constituíramse num primeiro momento nas principais fontes de informações para aqueles estudos. xv Edgard Santos mantinha uma relação de entendimento e cordialidade com Clemente Mariani desde os anos 30, quando ambos colaboraram com o interventor e governador Juracy Magalhães. Essa relação teve repercussões favoráveis para a UBa quando Clemente Mariani foi Ministro da Educação e Saúde do governo Eurico G. Dutra (1947-1950). Por exemplo, as obras do Hospital das Clínicas da Universidade foram concluídas com recursos do Ministério e a solenidade de inauguração, em 1949, contou com a presença do próprio Presidente da República.xvi A partir de 1955, a Comissão de Planejamento Econômico (CPE), criada por Rômulo Almeida, Secretário da Fazenda do governo Antônio Balbino (1955-1958), juntou-se ao Banco da Bahia na articulação do projeto de modernização conservadora da economia baianaxvii. Alguns anos depois, a CPE constituiu-se no núcleo da pós-graduação em economia da FACEB, implantada graças a um convênio firmado entre a Universidade e o governo do Estado, com o objetivo de realizar estudos para a elaboração de planos para o desenvolvimento sócio−econômico regional. Tudo isso sob a liderança científica de Rômulo Almeida, que era professor da FACEB.xviii Esses projetos de desenvolvimento regional começaram a ser implantados na Bahia pelos governos estadual e federal ao final dos anos 40, quando teve início um novo processo de industrialização que culminou com a integração da economia do Estado ao processo de crescimento monopolista do capital industrial que ocorria centralizado na região sudeste do paísxix, encerrando o longo período de decadência e estagnação econômica iniciado ainda no século XIXxx. Nesse período foram feitos alguns investimentos estatais em infra-estrutura (e.g., BR 116−Rio−Bahia, Hidroelétrica de Paulo Afonso), mas, os marcos decisivos para essas mudanças foram a localização de reservas petrolíferas no Recôncavo baiano, o inicio das atividades de prospecção e extração do óleo, a instalação da Refinaria Nacional de Petróleo em Mataripe em 1950 e a fundação da PETROBRAS em 1953xxi. Esses investimentos, por sua vez, induziram uma série de outras atividades, tanto na área industrial, quanto nas áreas comerciais e culturais. Por exemplo, pouco tempo depois da fundação dessa empresa estatal, Edgard Santos administrou a implantação de um curso de especialização em geologia do petróleo, para o qual a UBa cedeu imóveis e instalações e a PETROBRAS contratou em regime de tempo integral professores especialistas estrangeiros e comprou novos equipamentos. O sucesso dessa iniciativa fez com que as duas instituições se articulassem em novos projetos. Um deles foi a Escola de Geologia (EG), cujo curso de graduação foi implantado em 1957.xxii Em suma, durante a gestão do reitor Edgard Santos, desde o seu início, a UBa esteve na vanguarda daqueles movimentos que buscavam redirecionar os rumos políticos e econômicos da Bahia. Na sua freqüente interlocução ou interação com lideranças políticas, intelectuais e científicas, como Clemente Mariani, Rômulo Almeida, Thales de Azevedo, Anísio Teixeira, Luiz Viana Filho e tantos outros, Edgard Santos atuou muitas vezes em favor da realização de uma série de empreendimentos fundamentais para a elaboração, defesa e implantação do referido projeto regionalista de modernização conservadora. Todavia, esse não é o aspecto da gestão de Edgard Santos que vem recebendo maior destaque pelos historiadores que enfocam a trajetória da Universidade naquele período. Na maioria dos casos, a valorização e o desenvolvimento das artes, da música, do teatro, da dança e das letras tem sido destacada como a principal caraterística da administração universitária 3 que ele desenvolveu ao longo dos seus sucessivos mandatosxxiii. Mesmo considerando que esse destaque, sob certos aspectos, é justo, argumento que ainda não foi possível localizar de forma minimamente precisa os seus projetos científicos-literários-artísticos no movimento cultural mais geral de modernização conservadora que teve lugar na Bahia naquele período e do qual a UBa, sob a liderança do próprio, participou de forma destacada. Na minha opinião, ainda falta encontrar o lugar das manifestações artísticas patrocinadas pelos reitor Edgard Santos na obra polifônica entoada pelos diversos grupos de atores baianos do período, que tinham em comum a reverência a um mesmo conjunto inicial de motivos temáticos − a autonomia, o desenvolvimento, a democracia, o liberalismo e o progresso da Bahia, mas se afastavam em arranjos dissonantes, em harmonias incompatíveis, tão logo suas lideranças entravam em disputa pelos papeis protagonistas e ensaiavam seus solos entrechocantes. Possivelmente pela falta de referências mais precisas na própria história da Bahia, por referenciar-se genericamente apenas nos projetos "democratizantes e desenvolvimentistas" oriundos da esfera federal, que atingiram seu ponto máximo no governo JK, esses autores normalmente apresentam Edgard Santos como paladino da modernidade e do progresso, que teve que se defrontar contra grupos reacionárias locais, que não foram convenientemente identificados, cujas idéias e projetos não foram apresentadas. Ora, a defesa da modernidade, isto é, da reformulação, da mudança dos princípios fundadores nos vários setores da produção cultural, da negação e da ruptura com uma cultura precedentexxiv, não era privilégio de Edgard Santos e dos seus correligionários. Outras lideranças e outros grupos também disputaram contra ele a primazia de empunhar essa bandeira e de conduzi-la na direção que julgavam mais apropriada ou conveniente, conforme as concepções que lhes eram próprias. Mas, durante muito tempo, o reitor e o grupo que liderava foram os vencedores, e os vencidos, como de costume, não têm lugar privilegiado na história. Embora não concorde com a interpretação que posiciona Edgard Santos como paladino da modernização cultural baiana, não posso negar que, de fato, no final dos anos 50 e início dos 60, quando se concretizaram as principais iniciativas de Edgard Santos nas artes, como também nas demais áreasxxv, o seu trabalho na direção da Universidade foi duramente questionado pelos seus adversários, e muitos deles alegavam que tais atividades constituíam-se num desvio das funções da universidade e que os recursos dispensados para aqueles fins deveriam ser redirecionados para o atendimento das necessidades convencionais da instituição. Ou seja, os adversários de Edgard Santos, principalmente aqueles localizados nas unidades de maior prestígio, não admitiam a transferência de recursos e poder para setores emergentes, que teriam sido, de um forma ou de outra, privilegiados pelo reitor. Mas, na minha opinião, para muitos dos seus adversários a questão não era conceitual, mas pragmática. Isto é, como tentarei mostrar adiante na minha análise sobre o IMF, a questão primordial para muitos adversários de Edgard Santos não estava em adotar ou não a modernidade, o desenvolvimento ou o progresso, mas estava na disputa por quem iria administrá-la, por quem teria o poder, por quem teria os recursos que estavam sendo viabilizados para a sua implantação. Esse processo atingiu o seu limite máximo em meados de 1961, quando Edgard Santos foi mais uma vez escolhido pelo Conselho Universitário para encabeçar a lista dos candidatos dentre os quais o presidente Jânio Quadros deveria escolher um para nomear Reitor. Mas, frustrando as expectativas de Edgard Santos e dos seus correligionários, o presidente nomeou Albérico Fraga, o segundo nome da lista. A Comissão Supervisora do Plano dos Institutos (COSUPI), órgão vinculado ao Ministério da Educação e Cultura, começou a funcionar em fevereiro de 1958 com o objetivo de implementar a política federal de criação de institutos especializados que centralizariam as atividades científicas das universidades nas suas respectivas áreas. Edgard Santos mostrou-se mais uma vez muito bem articulado com os círculos oficiais federais quando começou a trabalhar para fundação dos institutos básicos na UBa a partir daquele momentoxxvi. Dessa forma, ao mesmo tempo em que atenderia à política da COSUPI, utilizaria os recursos daí provenientes para atender aos interesses dos novos grupos científicos−acadêmicos que se formavam na universidade, atraindo-os para reforçar o seu grupo político e o seu derradeiro projeto acadêmico, e enfraquecendo as posições dos seus adversários, na medida em que estenderia seu raio de ação e poder para áreas científicas dominadas até então exclusivamente pelos catedráticos da Escola Politécnica (EP) e da FF. Edgard Santos, sabendo que sua aposentadoria compulsória chegaria em 1964, quando completaria setenta anos, ambicionava encerrar em grande estilo seu último mandato, deixando para a posteridade uma imagem identificada com as mais importantes e audaciosas contribuições para o ensino superior no Brasil. Esses eram, portanto, motivos bastante fortes para que Edgard Santos dedicasse um pouco da sua atenção para as ciências básicas, empreendendo uma série de ações para reorientar sua trajetória na Universidade. Para Roberto Santos, seu pai anteviu precocemente os rumos que a universidade brasileira iria tomar e estava preparando-se para dirigir a UBa para a vanguarda dos novos acontecimentos. Ele recordou os debates que tiveram sobre o projeto de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro para a universidade que seria implantada em Brasília. Lembrou-se também que o Reitor, identificando-se com essas propostas, desencadeou uma série de medidas preliminares para a implantação na universidade baiana dos novos institutos que abrigariam as atividades científicas básicas.xxvii Com efeito, aposentara-se recentemente Paulo Pedreira de Cerqueira, catedrático de física da FF e da EP, e seria necessário contratar um novo professor para substituí-lo. Em 1957, Rômulo Almeida apresentou o físico Ramiro Porto Alegre Muniz 4 para Edgard Santos, que o nomeou para ocupar o lugar vago na FF e a diretoria da EGxxviii. Ramiro registrou em um depoimento as suas lembranças do seu primeiro encontro com Isaías Alves, diretor da FF: O Isaías Alves era uma pessoa de muito prestígio, embora com idéias conservadoras, e não gostou quando eu fui contratado pelo reitor Edgard Santos, que telefonou para ele e avisou: − Vai chegar aí o Sr. Fulano de Tal, que eu contratei no Rio de Janeiro. Então, quando eu me apresentei, ele disse assim: − Você é aquele menino que o Reitor contratou lá no Sul? Então eu reagi e disse − O Senhor me respeite! Eu sou professor!! Começamos a conversar e a segunda coisa que ele me disse foi: − O Senhor foi contratado em tempo integral, mas não tenho serviço para o Senhor o dia inteiro. − Mas, quem define o meu serviço sou eu, sou eu o professor da matéria, o Senhor é o diretor, que deve cuidar da burocracia da Faculdade... Sem querer detratar Isaías, ele era apenas uma pessoa conservadora e antiga, com muitas outras qualidades, mas que não estava avaliando com clareza o significado das coisas. Ele não estava muito feliz. Edgard estava torcendo o braço dele para impor um candidato de fora. A reação dele foi contra isso. − Na verdade, eles queriam nomear Nolasco? [Pergunta do entrevistador] Não, isso aí foi depois. A Faculdade era um organismo vivo, tinha a participação de várias pessoas, de vários quadrantes, mas na área da física as pessoas eram da Escola Politécnica, embora a faculdade tivesse sua dinâmica própria, o que permitiu que eu fosse para lá, já que eu não era da tradição da engenharia. Eu me lembro que o curso de física geral e experimental era ministrado pelo professor Paulo Pedreira de Cerqueira e seu assistente era o Nolasco (...) Eles estavam lá porque eram engenheiros, eram da Escola Politécnica e naturalmente foram levados para serem professores da Faculdade de Filosofia. Na Politécnica eles eram os donos da física, quando começaram a aparecer outros donos na Faculdade de Filosofia, então surgiram os conflitos, as dificuldades. Quando eles quiseram nomear o Nolasco eu reclamei, fui falar com o diretor, o Magalhães Neto, ele pediu que eu fizesse uma carta, eu escrevi um documento na hora e propus que fosse nomeado o Álvaro da Silva Ramos, que era do Instituto de Tecnologia da Bahia, que já tinha feito uma especialização nos EUA, em espectroscopia, se não me engano. Eu achei que deveria pegar o Álvaro e botar lá, pois já que tinha a turma da Escola Politécnica, eu também tinha que formar a minha turma, trazendo pessoas. Então eu me aproximei muito do pessoal da matemática, pois eles tinham a mesma dificuldade que eu tinha, já que os donos da matemática também eram os professores da Escola Politécnica.xxix Não importava quem era Ramiro de Porto Alegre Muniz, qual era a sua formação profissional, seus méritos acadêmicos e sua experiência científica. Essas informações tinham pouca importância, pois, na hora de preencher uma vaga de professor, o fator mais importante era mesmo a procedência do candidato, isto é, quem o indicava, quem era o seu patrono, qual era o grupo ao qual ele estava filiado e a quem ele seguiria. Além disso, Ramiro era um estrangeiro e esse era um atributo por si só bastante desabonador.xxx Ao contratá-lo como professor de física da Faculdade, o reitor Edgard Santos invadiu o território dominado por Isaías Alves e rompeu com a hegemonia dos catedráticos da EP naquela área. Isso gerou um desequilíbrio no complicado quadro das disputas pelas posições acadêmicas: quando quiseram nomear o engenheiro Hamilton Nolasco, assistente de Paulo Pedreira de Cerqueira, Ramiro Porto Alegre reagiu e forçou a nomeação de Álvaro Ramos, também oriundo da EP. Mas, nesse caso, como ele admitiu, estava formando a sua própria equipe, estava identificando seus próprios aliados, dentre eles, as mulheres professoras assistentes de matemática da FF, que também reivindicavam um espaço onde pudessem atuar livres das constrições dos catedráticos da FF. 5 Destaco outro trecho do depoimento de Ramiro de Porto Alegre Muniz, no qual contou como foi convencido por Edgard Santos a aceitar o cargo de diretor da EG em 1957. Naquele momento, era crucial para o reitor ter pessoas de sua confiança ocupando posições que se tornariam estratégicas em pouco tempo: − Ramiro, eu preciso que você seja o Diretor da Escola de Geologia, para organizá-la a partir do zero, pois não existe nada, somente o papel, disse-me Edgard Santos. Então eu lhe respondi: − Olha, não dá, porque eu não sou geólogo, eu sou físico e não tenho conhecimentos de geologia para organizar uma escola. − Isso não é problema, pois você terá todo o assessoramento dos geólogos da PETROBRAS que estão em Salvador. Mas é necessário um professor da Universidade para coordenar todo processo. Mas como eu continuava resistindo à idéia, ele disse: − Se você não aceitar, eu terei que nomear quem eu não quero e se eu tiver que nomear quem eu não quero, ano que vem eu não renovarei o seu contrato.xxxi E por que razão Edgard Santos fez questão de nomear para lá um professor que considerava da sua mais estreita confiança? Porque sabia da importância estratégica que essa escola teria daquele momento em diante, por conta da sua posição nas relações da UBa com a PETROBRAS. Por razões análogas ele resolveu apoiar a aliança do próprio Ramiro Muniz com as professoras de matemática da FF, lideradas por Arlete Cerqueira Lima e Martha Dantas, por ocasião da fundação do IMF, três anos depois. Mas, esse foi outro caso, já discutido em outro trabalho.xxxii NOTAS i SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, v.1 (1894 a 1962). Salvador: EDUFBA, 1997, p. 11-13. Sobre a política da Primeira República na Bahia, veja SAMPAIO, Consuelo Novais. O poder legislativo da Bahia: Primeira República (1889-1930). Salvador: Assembléia Legislativa, UFBA, 1985; ______. Partidos políticos da Bahia na Primeira República: uma política de acomodação. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 1999; ______. Poder & representação: o Legislativo da Bahia na Segunda República, 1930-1937. Salvador: Assembléia Legislativa, 1992.; PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias, 1889-1943: a Bahia na Primeira República brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 10a. ed. revista e ampliada. Salvador: UFBA; São Paulo: UNESP, 2001. iii SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, p. 27-29. iv Ele teve uma atuação importante na Constituinte Estadual de 1934, quando elaborou o anteprojeto do governo que serviu de base ao trabalho constituinte. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia, p. 394 e 399. v SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, p. 36-37. vi Idem, p. 29. vii DEPARTAMENTO CULTURAL (UFBA). Documentos históricos. Salvador, 1971. viii Sobre a modernização conservadora na Bahia, ver GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. A formação e a crise da hegemonia burguesa na Bahia. Salvador, 1982. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais), Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia; sobre a Concentração Autonomista, ver SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e construção do discurso histórico na Bahia (1930-1949). Salvador: EDUFBA, 2000. ix Além desse, a Fundação também financiou outros projetos que tiveram a participação da UBa, como por exemplo, aqueles de pesquisa tecnológica desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Escola Politécnica. x Sobre a participação de alunos da Faculdade de Filosofia no projeto, ver AZEVEDO, Thales de. Desaparece o último dos pioneiros dos antropólogos brasileiros de formação médica. Entrevista a Marcos Chor Maio; Introdução de Josildeth Gomes Consorte. História, Ciências, Saúde: Manguinhos. Rio de Janeiro, p. 133-171, mar./jun. 1996; Sobre os seminários de antropologia nessa Faculdade, ver ARQUIVOS DA UNIVERSIDADE DA BAHIA (FACULDADE DE FILOSOFIA). Salvador, v. I-VII, 1952-1961. xi Foram bastante profícuas as relações do reitor Edgard Santos com os deputados federais autonomistas Luiz Viana Filho e Aloísio de Carvalho Filho, que defenderam os pleitos da Universidade na comissão de orçamento da Câmara. SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, p. 104. xii Veja SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição... xiii Juracy Magalhães, que governou de 1959 até 1962, foi o único governador do período que não pertenceu ou não foi ii 6 diretamente apoiado pela corrente autonomista. Cf. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. Ele foi o candidato preferido pelos autonomistas da UDN para a sucessão de Octávio Mangabeira. Idem, p. 464-465. xv GUIMARÃES, Antônio Sérgio A. A formação e a crise da hegemonia burguesa na Bahia. xvi SANTOS, Roberto F. Vidas paralelas, p. 82. xvii GUIMARÃES, Antônio Sérgio A. A formação e a crise da hegemonia burguesa na Bahia. xviii SANTOS, Roberto F. Vidas paralelas, p. 99-100. xix GUIMARÃES, Antônio Sérgio A. A formação e a crise da hegemonia burguesa na Bahia, p. 7-10. xx CRUZ, Rossine Cerqueira da. Bahia: exemplo de “desconcentração econômica concentrada". In: ______. A inserção de Feira de Santana (BA) nos processos de integração produtiva e de desconcentração econômica nacional. Campinas, 1999. Tese (Doutorado em Economia). Instituto de Economia, Universidade Estadual de Campinas. xxi A BAHIA e o petróleo. A TARDE. Salvador, 28/10/2001. Caderno 8, suplemento especial. xxii SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, p. 87-88; CARVALHO, Maria do Socorro Silva. Imagens de um tempo em movimento: cinema e cultura na Bahia nos anos JK (1956-1961). Salvador: EDUFBA, 1999, p. 129. xxiii PINHEIRO, Juçara B.M. Edgard Santos e a origem da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1994. Dissertação (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia; RISÉRIO, Antônio. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1995; CARVALHO, Maria do Socorro S. Imagens de um tempo em movimento; xxiv PINHEIRO, Juçara B.M. Edgard Santos e a origem da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, p. 87. xxv A Escola de Música foi fundada em 1954; as escolas de Dança e Teatro em 1956; a Escola de Geologia em 1957; o Instituto de Química em 1958; a Escola de Administração em 1959; em 1960 foi inaugurado o novo prédio da Escola Politécnica e o da Faculdade de Direito em 1961. xxvi A instalação do Instituto de Química da UBa resultou do convênio firmado com o COSUPI em junho de 1958. xxvii SANTOS, Roberto Figueira. Vidas paralelas, p. 139. xxviii Ramiro de Porto Alegre Muniz, gaúcho nascido em 1926, começou seu curso de física na Faculdade Nacional de Filosofia em 1949, mas transferiu-se para a Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1952, contemplado com uma bolsa do CNPq. Lá, concluiu a graduação e o mestrado, mas teve que retornar em 1956, quando iniciava o doutoramento, por causa da crise financeira que provocou o cancelamento da sua bolsa. No retorno ao Brasil, não conseguiu emprego na sua área profissional em nenhuma das instituições de ensino ou pesquisa existentes à época, razão pela qual foi trabalhar no Conselho de Desenvolvimento, um recém-inaugurado instituto de pesquisas econômicas, onde conheceu Rômulo Almeida. MUNIZ, Ramiro de Porto Alegre. Depoimento. Cadernos do IFUFBA. Salvador, ano I, p. 62-78, 1985. xxix MUNIZ, Ramiro de Porto Alegre. Entrevista. Rio de Janeiro, 06/07/2000. xxx MATTOSO, Kátia de Queirós. Bahia, século XIX: uma província no império, p. 9-12. xxxi MUNIZ, Ramiro de Porto Alegre. Entrevista. xxxii DIAS, André Luís Mattedi.. As fundadoras do Instituto de Matemática e Física da Universidade da Bahia. História, ciências, saúde − Manguinhos. Rio de Janeiro, v. VII, n. 3, p. 653-674, nov. 2000/fev. 2001; ______. Engenheiros, mulheres, matemáticos: interesses e disputas na profissionalização da matemática na Bahia (1896-1968). São Paulo, 2002. Tese (Doutorado em História Social), FFLCH, USP. xiv 7 A PRESENÇA DAS CIÊNCIAS NATURAIS NO INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DA BAHIA –FINAL DO SÉCULO XIX E INICIO DO SÉCULO XX. BRITO, Ana Clara Farias* Alguns questionamentos fundamentais sobre o conceito de ciência vêm ganhando espaço na historiografia recente. Problemas como a universalidade da ciência, sua difusão e seu modo de elaboração tem sido abordado com mais freqüência por muitos pesquisadores. Dentro da nova abordagem metodológica, destacamos o tema ciência e sociedade como um dos mais explorados. Os pesquisadores que abordam este tema compartilham da visão de ciência como construção social ou seja, atentam para a adoção e modificação dos modelos científicos “contextualizando-os em meio a fatores ideológicos políticos e econômicos que divergem a depender do período e da região onde foram utilizados”. (Dias e Santana-1999) Portanto, nessa perspectiva a ciência é analisada em sua dinâmica de produção onde será considerada “a atividade científica tal com foi praticada em uma certa região, submetidos a certos padrões por determinados indivíduos sem que seja necessário a utilização do mesmo padrão de análise para esses diferentes centros”. (Dias e Santana-1999) Neste sentido, os novos enfoques sobre ciência pretendem compreender os mecanismos de legitimação e difusão do conhecimento científico, sua função e relacionamento com os demais setores sociais” (Dantes,1995) O conceito universal de ciência retirou por muito tempo o mérito dos países da América Latina de produzir conhecimento cientifico, Fernando de Azevedo “um os pioneiros e mais significativos expoentes na historiografia das ciências no Brasil” (Figueirôa,1997),chegou a afirmar ser característica do país a antiga tendência colonial a literatura e ao subjetivismo sem o devido contrapeso da ciência. Olliver Derby por sua vez afirmava que a ciência praticada no Brasil não se caracterizava por envolver pesquisa. 8 No entanto os trabalhos realizados pelos historiadores das ciências atualmente, comprovam a existência de praticas científicas no Brasil desde o período colonial.Esta constatação feita por estudos mais recentes foi resultado da mudança do caráter metodológico pois os conceitos utilizados anteriormente eram elaborados nos grandes centros e desta maneira entendiam como ciência a “ elaboração de grandes teorias , a presença de grandes personagens e ainda o sucesso nas instituições”.Silvia Figuirôa afirma que estas seriam categorias analíticas para uma história dos vencedores o que deixava de lado a história cotidiana das ciências que constituía, na verdade a maior parte do processo. Citando Figueirôa mais uma vez, graças a este olhar universalizante sobre a ciência ainda hoje é perceptível uma desvalorização das atividades cientificas desenvolvidas no Brasil. Desta maneira, a atual discussão da historiografia das ciências no Brasil tratando do século XIX, vem se preocupando em analisar o trajeto das instituições onde eram efetivadas as práticas científica no país, estudos que foram negligenciados por muito tempo. Os anos que se seguem a 1870 até o presente século, são tomados como referência para o desencadeamento das atividades que resultaram na reformulação de Instituições preexistentes e na criação de novos espaços institucionais para a prática científica. Neste período aparecem entre outras Instituições o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), ambos de 1894, que se juntam aos já existentes Institutos Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB-1838) e Arqueológico e Geográfico de Pernambuco (IAGP-1862). Os Institutos Geográficos e Histórico criados com a função de construir uma identidade nacional ,serão percebidos também como espaço significativos para o desenvolvimento das praticas científica. A primeira Instituição criada em 1838 no Rio de Janeiro sob o título de Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) tinha como função definir o projeto de nação.Vivia-se no Império e para obter a manutenção da ordem seria preciso preservar a integridade territorial No entanto, este objetivo só seria alcançado com a criação de um passado comum a todos os brasileiros.Desta maneira, era defendida a centralização o que se refletia na própria concepção do IHGB como núcleo do saber e alicerce da nacionalidade.(Callari, 2001) Os objetivos da Instituição que consta no Estatuto seriam a de “coligir, metodizar, publicar ou arquivar os documentos para a história e geografia do Brasil.”Seus criadores , embora fossem definidos como 9 representantes de uma Instituição político-cultural apartada de debates políticos, eram membros da burocracia estatal e representavam também a elite pensante do país. Todavia os Institutos criados com a finalidade de produzir a imagem oficial do Brasil não se restringiram ao Rio de Janeiro foram sendo criadas gradativamente em diferentes localidades do país. Apesar de seguirem o modelo do Instituto brasileiro os outros Institutos procuravam exaltar a importância de sua região na construção da história do Brasil. Além de serem, em sua maioria, criados no período republicano e portanto não guardarem nenhum tipo de ligação mais estreita com a monarquia, fato que era peculiar ao IHGB. Desta maneira os Institutos regionais guardavam as particularidades do tempo e espaço onde foram produzidos. Sendo importante para nossa análise posterior destacar que os espaços institucionais são lugares de construção de conhecimento que permanecem em constante dialogo com a sociedade ,o Estado e Instituições estrangeiras, neste sentido; “apóia-se num conjunto articulado de valores particulares que normatizam e regulam o comportamento de seus praticantes” .(Figueirôa,1997) Percebendo toda a complexidade que constitui a organização institucional e observando a falta de uma analise mais específica sobre o Instituto Geográfico e Histórico criado na Bahia em 1894 (IGHB) com o intuito de escrever a história oficial do Brasil e principalmente da Bahia. Encontra-se em andamento uma pesquisa que visa perceber se esta Instituição foi também local propício para o desenvolvimento de práticas científicas. Neste sentido, o nosso objetivo neste trabalho é enfocar a presença das ciências naturais no IHGB, tentando perceber de que forma elas se fizeram presentes e a maneira como elas se desenvolveram no Instituto da Bahia. Isto será feito levando em consideração o envolvimento dessas ciências naturais com as teorias científicas mais gerais do período e as adaptações que conseqüentemente serão percebidas quando destacamos o contexto político, econômico e social da Bahia no final do século XIX. 10 O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia foi criada em um momento de crise econômica e política do Estado e seus fundadores, grande parte pertencente a elite baiana, viam na criação da Instituição a possibilidade de resgatar o prestígio daquela que teria sido a primeira capital do país. Trechos do Jornal de Noticias publicado na Revista do IGHB trazem a seguinte nota sobre a criação da Instituição: “Surprehendia realmente que a Bahia, cuja história é a história da nacionalidade brazilira, pela antiguidade se suas tradições, pelo numero de seus filhos estadistas, pela sua intervenção em todos os movimentos da vida nacional não contivesse ainda agremiação de tal espécie(...)” (Revista do IGHB; nº 1.In Jornal de Noticias publicado em 14 de Maio de 1894) Utilizamos como principal fonte de pesquisa a Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia que foi publicada desde o primeiro ano de fundação da Instituição (1894) se mostrando como expressão do pensamento dos criadores do IHGB a cerca de diversos assuntos como História da Bahia e do Brasil, Geografia Regional, Geologia, Arqueologia e Literatura Baiana, percebendo uma grande preocupação com a criação de biografias de pessoas consideradas importantes para a história da Bahia. Até o momento da pesquisa foram levantados artigos de 15 volumes da revista , que tinha edição trimestral, o que equivale aproximadamente a um período que vai de 1894 a 1898. Além da variedade de assuntos que mostra de que maneira os organizadores do IGHB pensavam a Bahia e o Brasil, foi possível perceber que a revista era utilizada como meio de comunicação das idéias do Instituto para toda a sociedade baiana e brasileira assim como para alguns Institutos internacionais. Os membros do Instituto acreditavam que através da divulgação feita pela imprensa as idéias do IGHB seriam difundidas mais rapidamente, com maior credibilidade , sem correr o risco de “ perderem-se no ar”.Deste modo, tratavam a revista como: “(...) o verbo do Instituto..Modesta e despretenciosa, planta ella (...)o seu marco em chão fecundíssimo da imprensa, com a mesma serena confiança do semeador nos orvalhos do ceu.” (Revista doIGHB,nº1,pg05) 11 0s dados levantados até o momento da pesquisa nos permite constatar que os fundadores do IGHB sofreram forte influencia dos ideais cientificistas presentes no final do século XIX, período de criação da instituição.Ao analisar a revista observamos, entre outras coisas, a publicação de um artigo intitulado de “Variedades” que se repete em alguns números da revista e traz no seu conteúdo noticias de curiosidades cientificas de todo o mundo . Damos com exemplo a publicação de um artigo que fala da existência de um “Homem de Cauda” encontrado na Conchin-China em 1890. Esta denominação se deu graças a “um prolongamento encontrado na coluna vertebral de um selvagem da região”xxxii. Podemos ainda citar com exemplo a descoberta da “Planta Elétrica” na América do Norte ou de um “Meteorito na Groelândia”xxxii Desta forma é perceptível que se preocupavam em abordar na sua Instituição assuntos ligados a História e Geografia regional, mais atentavam ainda para criação de espaços que proporcionasse entre outros estudos a investigação da química, botânica, geologia e arqueologia tanto regional quanto nacional. Por este motivo já na criação do Estatuto do IGHB é registrado a preocupação em; 6º “Organizar uma exposição de objetos e produtos da natureza, encontrados no solo do Estado, qualquer que seja o ramo de sciencia a que estejam filiados”. 7º “Organizar uma sessão do museu que deverá fornecer dados precisos sobre a fauna genuinamente baiana”.(Revista do IGHB, nº1, p37) Todo este interesse e preocupação com o desenvolvimento da ciência no espaço da Instituição não eram feitos de forma solta ou descontextualizada. O momento da criação do IGHB coincidia com o período em que se acreditava na ciência como sinônimo de progresso e através da constante troca de informações com Instituições científicas Internacionais como a Societé Geografica Comerciale de Bordaux,Societá Geographica Italiana,Societé de Geographie Comerciale de Paris,The Nacional Geografic Magazine,sociedae de Geographia de Lisboa entre outras, os baianos adquiriam “modelos” de organização da Instituição e desenvolvimento das praticas científicas. Seus fundadores achavam-se parte da renovação social que acompanhava o florescimento científico e, portanto compartilhavam das novas idéias capazes de transformar as Instituições o que levaria a Bahia a se igualar aos países europeus e conseqüentemente chegar ao tão esperado “desenvolvimento.” Consideramos de fundamental importância destacar que estes “modelos” vindos de Instituições Internacionais sofreram obviamente as adaptações e releituras feitas pelos sócios do Instituto baiano a partir do lugar e do período em que falam, e das experiências impares que vivenciaram. 12 Longe de ser definitivo, o trabalho que estamos realizando ainda encontra-se em seus passos iniciais.Nossas análises cobrem um período ainda muito pequeno para tecermos alguma consideração mais geral , o que temos até o momento são alguns aspectos de um estudo que se pretende mais amplo,desta forma ,muitas perguntas ainda estão sem respostas .Em todo caso iniciamos a caminhada que pretende desvendar alguns aspectos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia local de extrema importância na construção da história da Bahia que no entanto ainda é pouco analisado. 13 O CABULA: HISTÓRIA DO PROCESSO DE FORMAÇÃO DE UM BAIRRO POPULAR E ESTRATÉGICO DE SALVADOR Rosali Braga Fernandes Profª. Drª. da Universidade Estadual de Feira de Santana. [email protected] I. Introdução Inicialmente torna-se importante salientar que este artigo faz parte de uma pesquisa muito mais xxxii ampla onde, além de vasta investigação em referências bibliográficas, fontes cartográficas, dados censitários e documentação legislativa, realizamos também 34 entrevistas em profundidade, visando reconstituir e interpretar o processo de formação do Cabula, excelente exemplo de ocupação popular em Salvador e local estratégico com relação às vias de acesso. A palavra Cabulaxxxii tem sua origem no idioma Bantu, falado na região inserida nos atuais Congo-Angola. De acordo com Castroxxxii o termo significa mistério, culto (religioso), segredo, escondido e, provavelmente foi atribuída ao local em destaque em função da existência de inúmeros quilombos os quais, por sua vez, incrementavam o candomblé. Em realidade tanto os quilombos quanto o candomblé desempenharam papel fundamental no processo de formação desta área então semi-rural, que fazia parte da freguesia de Santo Antônio: ainda em 1807 se tem notícias do combate ao quilombo do Cabula; o primeiro registro baiano da palavra “candomblé” designando um local de culto africano foi em 1826, num documento policial, que se referia a um terreiro no Cabula.xxxii Pelo que podemos observar nas pesquisas realizadas sobre o bairro em destaque, por muito tempo o Cabula se constituiu numa localidade distante, com características rurais, situada nos arredores da cidade. Até pelo menos o início da década de 1940, o referido local estava constituído por importantes fazendas cuja principal produção era o que se considerava a melhor laranja do Estado. As “Laranjas do Cabula” eram famosas e identificavam já, pelo próprio nome, a qualidade do produto. Vale a pena salientar que nesta ocasião boa parte do que hoje chamamos de Miolo da cidade era, genericamente identificado com a denominação de Cabula. Somente depois, com o aumento populacional, foram sendo usadas nomenclaturas mais específicas. Entre a década de 1940 e inícios dos anos 50, sem que ninguém saiba precisar bem nem a data nem os motivos, houve uma praga que destruiu os laranjais. Este fato foi muito importante para a transformação do uso do solo no Cabula, contudo, além dele destaca-se paralelamente o processo de 14 expansão horizontal ocorrido em Salvador a partir da década de 50. A referida expansão horizontal teve diversas causas entre as quais salientamos: a evolução dos transportes, o desenvolvimento do centro urbano, a rigidez da estrutura da propriedade da terra na cidade e a forte especulação imobiliária. 1 II. DESENVOLVIMENTO . LIMITES E DADOS BÁSICOS DO CABULA Quando pretendemos trabalhar com a realidade dos bairros da cidade de Salvador nos deparamos com um sério problema: embora seus habitantes vivam a cidade segundo a lógica dos bairros, Salvador não possui uma delimitação geográfica dos mesmos em nenhum dos órgãos oficiais ou não oficias da cidade. Diante desta realidade, no momento em que nos propusemos a trabalhar um bairro específico tivemos que fazer o esforço prévio de delimitá-lo. Depois da nossa proposta de delimitação para o Cabula, não houve nenhum intento no sentido de estabelecer limites geográficos para qualquer bairro da cidade.xxxii Vale ressaltar que no presente trabalho nos ateremos a demonstrar e a atuar sobre o resultado final da delimitação, contudo, o processo detalhadamente descrito pode ser encontrado em pesquisa anterior.xxxii O Cabula que com cerca de 6 km2, possuía em 1980 aproximadamente 13.150 de habitantes residindo em 3.247 domicílios, passa a ter 37.132 habitantes em 1991 e 45.451 em 1996, enquanto os domicílios evoluem para 9.142 e 12.481 em 1991 e 1996, respectivamente. Como podemos observar, sua população residente cresce rapidamente, apresentando taxas sempre muito superiores às da cidade como um todo (Tabela 1), fato que demonstra a grande dinâmica constatada no bairro, além de caracterizá-lo como um dos grandes eixos de expansão da cidade em nossos dias. Vale ainda salientar que dita população se encontra distribuída em diferentes tipos de ocupação residencial como: conjuntos habitacionais de iniciativas distintas; loteamentos legais e ilegais; parcelamentos; invasões. TABELA 1 POPULAÇÃO E DOMICÍLIOS NO CABULA E EM SALVADOR. 1980 – 1991 – 1996 15 ANOS 1980 1991 1996 DADOS LOCAIS CABULA SALVADOR POPULAÇÃO 13.150 1.505.383 DOMICÍLIOS 3.247 300.950 HAB./DOM. 4,05 4,05 POPULAÇÃO 37.132 2.075.273 T. DE CRES. 80/91 9,90 2,96 POPULAÇÃO 9.142 488.144 HAB./DOM. 4,06 4,25 POPULAÇÃO 45.451 2.211.539 T. DE CRES.91/96 4,13 1,28 DOMICÍLIOS 12.481 559.787 HAB./DOM. 3,64 5,55 Fonte: Elaborada pela autora, de acordo com informações de tabelas e mapas da CONDER, nos anos de 1980, 1991 e 1996. Obs.: A taxa de crescimento é a Taxa Geométrica de Crescimento Anual, calculada para os períodos analisados. . História da evolução do Cabula Como dissemos inicialmente, a década de 40 e o início dos anos 50 marcam a mudança do Cabula. Contudo, por ainda possuir um ambiente rural com baixa densidade populacional, em 1943 ali se instala o 19º Batalhão de Caçadores (19 BC) que necessitava de espaço livre para realizar seus treinamentos militares. Foi a partir dos anos 50, ocasião da expansão horizontal da cidade, que o crescimento urbano se concretizou no Miolo. Dos anos 60 até os 70 as transformações no sistema de transporte fomentaram um grande impulso ao crescimento do Cabula, tanto com a construção da principal via do bairro, a Rua Silveira Martins (entre 1965 e 1966), como com a efetivação da Avenida Luiz Viana Filho, mais conhecida como Avenida Paralela (finais de 1960 e 1970). As referidas vias de acesso, somadas à localização da auto-estrada BR 324 (acesso Norte da cidade), situaram tanto o Cabula quanto toda a área do Miolo em posição estratégica. 16 Em função destas circunstâncias a década de 1970 foi marcada por um ritmo muito acelerado nas mudanças do bairro, destacando-se a implantação de grandes equipamentos como uma das marcas fundamentais do referido período. Foi nos tais anos 70 que ali foram construídos a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA), a Empresa Baiana de Água e Saneamento (EMBASA), a então Telecomunicações da Bahia (TELEBAHIA), o Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), o Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), e o Colégio Estadual Governador Roberto Santos. Ainda na mesma década temos que destacar a chegada de outro equipamento que, embora não seja público, também é muito representativo: a sede do Correio da Bahia. A densificação da ocupação a partir da década em destaque foi extremamente forte e os espaços verdes, até então muito comuns no Cabula, passaram a ser largamente substituídos por áreas densamente construídas. Em outras palavras, os anos 70 e os posteriores foram marcados por grandes alterações no que diz respeito à questão da moradia. As antigas fazendas haviam sido vendidas e/ou divididas em lotes menores e assim se vai transformando o Cabula, tanto através de ocupação legal como ilegal. Em termos das ocupações formais podemos afirmar que foram grandes os investimentos em conjuntos habitacionais, promovidos direta ou indiretamente pelo governo. Dos 34 conjuntos habitacionais existentes no Cabula, 10 foram construídos na década de 1970, 11 nos anos 80, 10 nos 1990 e 3 entre os anos 2000 e 2001. Ainda em termos de ocupações formais, além dos conjuntos também se estabelecem no bairro os chamados loteamentos legais, ou seja, divisões de grandes áreas, feitas segundo as normas e regras estabelecidas pela Prefeitura Municipal de Salvador. No que tange às ocupações informais, destacam-se: os loteamentos ilegais, que são áreas também consideráveis, divididas sem o respeito às normas estabelecidas para tal procedimento; os parcelamentos, subdivisões posteriores pelas quais costumam passar espaços menos valorizados, dentro dos loteamentos ilegais; e as invasões. Outra questão que chama a atenção no Cabula é o investimento sobre o setor educacional. Para começar, está localizado no bairro o núcleo central da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), desde 1979. O poder público também investiu muito no ensino de crianças e adolescentes, implantando 9 escolas no bairro. A iniciativa privada, por sua vez, construiu outros 20 estabelecimentos mas, embora das 29 escolas existentes no Cabula, 68,97% sejam particulares e apenas 31,03% públicas, dos 23.310 alunos matriculados en 1999, somente 25,95% (6.050), estão nas instituições privadas. O peso maior está nas 17 instituições do governo onde estudam 74,04% (17.260) dos alunos do Cabula. Vale ainda ressaltar que, em geral, as públicas chegaram antes e as particulares mais tarde. Podemos concluir que em conjunto (públicas e privadas), a presença de numerosas escolas marca o espaço do Cabula e é por isto que afirmamos que elas se constituem em importantes agentes atuantes na formação e na dinâmica do bairro em destaque. . O Cabula nos finais do século XX e no início do XXI Ainda na década de1980 se implanta no Cabula o Hospital Juliano Moreira (HJM) e em 1999 é construída no bairro uma agência da Caixa Econômica Federal (CEF). Além de todo este panorama, tanto em termos de equipamentos como das diversas categorias residenciais existentes no bairro em questão, constatamos também outros aspectos muito importantes que marcam o Cabula dos anos 1990. Ditos aspectos também correspondem aos novos rumos que podem surgir no processo de ocupação e de reorganização do bairro, em termos das tendências sociais, econômicas e políticas do futuro próximo. Estamos falando dos shoppings e da chegada da Telebahia Celular. Ao caminhar pelo bairro, com o objetivo de realizar a pesquisa de campo, notamos que desde nossa última investigação na área, havia aparecido uma série de 9 pequenos shoppings que marcam a paisagem do bairro. Todos eles foram construídos na década de 1990 e, com exceção do que está localizado dentro do maior conjunto habitacional do Cabula, o Doron, todos estão localizados nas ruas principais. Na entrevista realizada com o administrador de um dos shoppings, nos foi apontada uma questão muito significativa: para ele teria sido muito melhor que se tivesse construído um único e grande shopping, pois com uma só área de concentração, os resultados seriam melhores. Diante desta afirmação e comparando com os demais grandes shoppings de Salvador a conclusão é muito interessante: nos 9 shoppings do Cabula existem 352 lojas, valor apenas superado pelo maior shopping da cidade, o Shopping Center Iguatemi, que tem aproximadamente 530 lojas. Todos os demais shoppings da cidade dispõem de menos de 300 lojas. Os dados demonstram que nosso entrevistado tem razão e que uma promoção mais corajosa, com relação à construção de um grande shopping no Cabula poderia ser mais acertada. Outro importante agente que se fez presente no bairro a partir do ano 2000 foi a Telebahia Celular que mudou para a área da antiga sede da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA), localizada na Rua Silveira Martins. De acordo com entrevista realizada, dita área está bem situada e terá suas facilidades de acesso ainda melhoradas com o término das obras da Avenida Luís Eduardo Magalhães. O entrevistado considera a mudança benéfica destacando, entre as vantagens a grande área verde da nova sede, o amplo espaço para estacionamento dos veículos, a calma inerente a 18 um bairro popular. Para ele a presença da empresa vai incentivar a chegada de novos serviços, que objetivem atender à demanda de seus mais de 1.000 funcionários. Torna-se ainda importante salientar que, no presente momento duasxxxii grandes intervenções urbanas afetam diretamente o Cabula: a conclusão da construção da Avenida Luís Eduardo Magalhãesxxxii e o processo de implantação do Projeto Metrô de Salvador.xxxii A Avenida, construída na parte sul do Cabula, liga o Largo do Retiro, a BR 324 e a Avenida Paralela, além de estabelecer uma conexão entre as orlas atlântica e da baía. Se buscou aproveitar vales ainda não ocupados por habitações para diminuir os custos com expropriações e, no que diz respeito à área do 19 BC não houve polêmica porque a mesma tinha sido anteriormente doada pelo Governo do Estado da Bahia. Com relação ao metrô de Salvador, os grandes eixos de circulação e integração do empreendimento serão a BR 324 e a Avenida Paralela. Embora não haja previsão de passagem direta por sobre o Cabula, pela proximidade com as linhas podemos afirmar que o bairro será claramente afetado pela implantação do metrô. 1 III. RESULTADOS, CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS PARA O CABULA Como vimos, por muito tempo o Cabula foi uma localidade distante que apresentava características rurais. Até pelo menos o início da década de 1940, o referido local era constituído por importantes fazendas cuja principal produção era o que se considerava a melhor laranja do Estado. Quilombos e candomblés desempenharam papel fundamental no processo de formação desta área, que fazia parte da freguesia de Santo Antônio. Entre a década de 1940 e inícios dos anos 50, uma praga destruiu os laranjais, fato que paralelamente ao processo de expansão horizontal ocorrido em Salvador a partir da década de 50, foi crucial na transformação do uso do solo no Cabula. Dos anos 60 até os 70 as alterações no sistema de transporte fomentaram um forte impulso ao crescimento do Cabula. Nos anos 70 houve um ritmo muito acelerado nas mudanças no bairro, destacando-se a implantação de importantes equipamentos e o intenso incremento do setor da habitação. Nas décadas de 80 e 90 o Cabula seguiu crescendo a taxas superiores às de Salvador e hoje constitui-se num grande eixo de expansão da cidade. Como vimos, o Cabula é um excelente exemplo de ocupação de bairro popular em Salvador. Um lugar onde há de tudo, desde promoções públicas significativas, até ocupações residenciais de diversos tipos. O bairro, que tem suas raízes históricas em séculos passados, apresenta uma grande transformação nas 4 últimas décadas e é justo aí que se baseiam as suas características atuais. 19 Os estudos apontam que o processo de densificação seguirá, pois o Cabula continua sendo muito atraente para empresas públicas ou privadas dos mais variados portes. O grau de atratividade tende a se ampliar com o fim das obras da Avenida Luís Eduardo Magalhães e do metrô, que favorecerão o trânsito no local, suas conexões com as demais localidades soteropolitanas e com cidades circunvizinhas. Também no setor da habitação o Cabula continua demonstrando forte dinâmica, agora com investimentos destinados a extratos de renda mais alta. Todo este contexto de crescimento detectado nos dados, nas entrevistas realizadas e no panorama configurado nas décadas anteriores, aponta para um processo de ampliação da densificação do bairro. Reconhecendo a referida perspectiva, consideramos fundamental a implementação de planejamento e de ações estratégicas que, além de contemplarem as necessidades salientadas pela comunidade local, se preocupem com as questões ambientais do Cabula. Atuações deste tipo serão importantes tanto para a qualidade de vida no bairro como em toda a cidade. NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS