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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO
RIO GRANDE DO SUL
FERNANDA DA SILVA MORINI
UM OLHAR PARA O SOFRIMENTO DO TRABALHADOR NO CONTEXTO
ORGANIZACIONAL.
IJUI,
2012
1
FERNANDA DA SILVA MORINI
UM OLHAR PARA O SOFRIMENTO DO TRABALHADOR NO CONTEXTO
ORGANIZACIONAL
Trabalho
de
pesquisa
supervisionado,
apresentado como requisito parcial para
conclusão
do
curso
Psicólogo.
Orientadora: Tania Maria de Souza Borba
Ijuí
2012
de
formação
de
2
FERNANDA DA SILVA MORINI
UM OLHAR PARA O SOFRIMENTO DO TRABALHADOR NO CONTEXTO
ORGANIZACIONAL
Trabalho de Pesquisa Supervisionado, apresentado como requisito parcial para
conclusão do curso de formação de Psicólogo, pela Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
Data Aprovação:____/_____/_____
BANCA EXAMINADORA:
_________________________________________
Orientadora: Tânia Maria de Souza Borba
_________________________________________
Prof.: Gustavo Brum
Ijuí, janeiro de 2012
3
RESUMO
Como é visto atualmente o processo de estruturação do contexto organizacional,
vem sendo reformulado, com uma velocidade incrível. Por isso as pessoas que
estão no mercado de trabalho precisam obter um lugar neste novo contexto, onde é
indispensável que seguidamente estejam se adaptando e muitas vezes se
transformando conforme a necessidade de produção a qual são submetidas no local
de trabalho. Este antigamente era realizado coletivamente e com a concepção de
todos, com a reestruturação, a partir da utilização das máquinas e novas
tecnologias, onde o trabalho do trabalhador fica fragmentado, com mão-de-obra
mecanizada, na preocupação de atender as exigências, deixando o social e o
coletivo para segundo plano. Em visto disso, ocorreu um apagamento da figura e da
posição do sujeito nas relações de trabalho. O que antes era tido pelo sujeito como
possibilidade de idealização, havendo a implicação deste no processo produtivo,
com as mudanças passou a ser realizado por um trabalhador objeto, desta forma há
a possibilidade de existir desejo e subjetividade no trabalho?
Palavra-chave:
Organização, trabalho, sofrimento, objeto, subjetividade
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 5
1 As Raízes da Organização do Trabalho e de Possível Sofrimento do
Trabalhador ............................................................................................................... 9
2
As
Relações
Intersubjetivas
Estabelecidas
a
partir
do
contexto
Organizacional ........................................................................................................ 32
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 53
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 57
5
INTRODUÇÃO
O tema desta pesquisa se definiu durante o meu estágio supervisionado de
ênfase em Psicologia e Processos Organizacionais e do Trabalho I e II, na qual,
aconteceu na UNIGESTAR Assessoria em Psicologia Organizacional e do trabalho.
Principalmente ao haver a possibilidade em poder escrever um novo eixo de
trabalho para este estágio na qual se dominava Clínica do Trabalho. Foram muitos
estudos e muitas questões levantadas, por isso pensei ser uma ótima oportunidade
poder pesquisar com mais entusiasmo e mais tempo sobre o que circulava sobre o
sofrimento do trabalhador, de onde este sofrimento vinha, como acontecia, se esse
sofrimento só era causa da organização do trabalho, entre outras questões, que
espero poder discorrer neste momento.
Com o objetivo de compreender o conceito de sofrimento no trabalho a partir
de como os trabalhadores se inserem e se organizam no contexto laboral. Tentando
entender também como ocorrem as estratégias de defesa elaborada pelos
trabalhadores contra os efeitos desestabilizadores decorrentes de situações do
trabalho que podem desencadear um sofrimento. Principalmente do ponto de vista
das relações sociais, psicológicas e ainda psicodinâmicas do trabalho. Procurando
identificar as raízes do sofrimento no trabalho, compreendendo as relações do
trabalhador com esse sofrimento, e ainda em que circunstância o próprio contexto
organizacional se revela uma ameaça à saúde do próprio trabalhador.
Primeiramente, o presente estudo se dará a partir de um breve histórico sobre
a evolução do trabalho para então compreender melhor o que possivelmente
desencadeia o sofrimento, para então posteriormente apreender os sentidos de
trabalho e seus reflexos sobre a subjetividade do sujeito.
O trabalho pode não só causar sofrimento, mas também prazer, implicando
assim em uma contradição que é movimentada pela organização do trabalho, pela
estrutura do ambiente e ainda pela forma de como os indivíduos percebem o
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processo de realização de suas atividades, dos processos intersubjetivos e
interativos que se desenvolvem nos locais de trabalho.
Portanto, esta pesquisa possui importância significativa à medida que expõe,
dando maior embasamento no pensamento Dejouriano sobre o sofrimento no
trabalho; um tema tão presente e próximo da realidade de todos os trabalhadores e
da prática profissional do Psicólogo, tanto organizacional, como os que lidam
clinicamente com o sofrimento, insatisfação, mal-estar, até mesmo bem estar,
satisfação, prazer entre outros. O trabalho tem função fundamental para o individuo,
além da sobrevivência constitui uma ferramenta para a formação de uma identidade
do ser humano.
O primeiro capítulo é baseado no contexto histórico do trabalho e seus
desdobramentos. De que modo o trabalho foi se dando, pois era tido apenas para
satisfazer as necessidades de sobrevivência, onde o capital de troca era o produto
extraído da natureza e que o próprio homem produzia, e com o tempo foi
avançando, até desencadear a revolução industrial. A partir deste momento houve
várias mudanças tanto na organização do trabalho como para o trabalhador, além da
relação
do
trabalho
com
trabalhador.
Portanto,
poder
pensar
quais
as
consequências da demanda de trabalho até a contemporaneidade.
Em vista disso, com a inserção de novas tecnologias ocasionou a substituição
do trabalho humano pelas maquinas, afinal de contas estas vieram para acelerar a
produção e aumentar a lucratividade. Assim, não havendo tempo para o indivíduo
pensar na realização da sua atividade, era apenas tido para produzir um objeto, ou
seja, como uma mão-de-obra mecanizada, onde não tem lugar para o sujeito. O
homem desta forma foi submetido a se adaptar as novas necessidades do mundo
capitalista, onde é pago para fazer e não para pensar.
Esta foi uma das questões que mais causou interesse neste tema e o qual
pode estar diretamente ligado ao sofrimento do trabalhador, pois se o sujeito não
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pode aparecer, deve manter sempre a subjetividade “apagada”. Como poder
produzir/trabalhar desta maneira, como não causar mal-estar sobre o trabalho que
exerce?
Atualmente percebe-se que o ser humano precisa ser autônomo, capaz de
realizar o maior número de atividades no menor espaço de tempo possível. O
mercado se coloca em busca da produtividade, satisfação e lucratividade, cabendo
ao trabalhador responder essa demanda, caso contrário, o que coloca-se a sua
frente é a insegurança, o medo de perder o emprego e consequentemente, um
provável sofrimento.
Poder pensar que até as relações intersubjetivas de trabalho estão
diretamente ligadas à forma como a economia organiza-se. O sistema capitalista
visa como principal objetivo o lucro e nesta concepção, o que está em jogo é um
aproveitamento máximo, seja de mão-de-obra, seja de oportunidades em relação a
um consumidor/comprador ou até mesmo em relação à matéria prima.
Nesta perspectiva, cabe pensar de que forma o trabalhador se insere ou é
inserido neste contexto. Em meio ao apuro e pressão por excelentes resultados que
este sistema exige, temos uma grave conseqüência à saúde mental do trabalhador.
A partir disto, faz-se necessário entender até que ponto a enfermidade e o trabalho
repercutem um sobre o outro.
Enfim, trabalho não é um conceito ou termo que limita-se a uma única
observação. Pode ser explorado tanto em sua vertente histórica, quanto em sua
funcionalidade. No entanto, para analisar a historia do trabalho deve-se antes
concebe-la envolvida juntamente com a história da civilização, com suas vicissitudes
e seus períodos de desenvolvimento. Ocorre aqui, uma ligação entre pensar o
trabalho e pensar o homem enquanto sujeito do trabalho. Para tornar um pouco mais
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clara a ideia, deve-se conceber a historia das relações humanas do sujeito com o
trabalho.
Fazendo essa conexão, é possível esclarecer questões que parecem tão
vividas na atualidade, pois o trabalho hoje, já não é mais somente sinônimo de
retorno de “coisas boas”, mais do que nunca tem um contraponto, pois ocasiona
várias patologias, causando o sofrimento do trabalhador. Já não existe mais prazer
pelo trabalho, podemos pensar que quase só existe sofrimento no trabalho?
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1. As Raízes da Organização do Trabalho e de Possível Sofrimento do
Trabalhador
O trabalho constitui uma ferramenta para a formação de uma identidade do
ser humano. Não limita-se apenas para a criação de valores de troca, mas um estilo
de vida, uma posição na sociedade. A sociedade do trabalho (produtora de
mercadorias) é dependente dos fatores históricos, os quais influenciaram todos os
métodos e relações de trabalho.
A organização laboral delimita as forças produtivas dentro do mercado de
trabalho. As diversas faces do capitalismo, que determina o tipo de produção
vigente, controlam as forças de trabalho de acordo com as imposições do atual
momento. Por isso, cada época, o uso total de um modelo de gestão e o tipo de
organização do trabalho faz com que solidifiquem as organizações trabalhistas.
Mesmo nos primeiros passos do capitalismo, que através da mão de obra do
trabalhador tem por objetivo acumulação de riquezas, produção acelerada e através
desta força de trabalho percebe-se que a organização do trabalho é fortalecida como
amarras das forças produtivas, atuando em benefício a este modo de produção.
Com a modernização e ampliação do capitalismo um novo modelo de gestão
e organização do trabalho surge em oposição à administração tradicional. Este novo
modelo está pautado num sistema de iniciativa e incentivo, resultado de um novo
padrão tecnológico que buscava uma concentração técnica e financeira, segundo
ideias da teoria taylorista. A utilização deste modelo cria um conjunto de
mecanismos que apropria-se do saber dos operários e impõe sua hegemonia nas
relações de trabalho buscando maximizar a produção reduzindo a improdutividade e
os custos.
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A amplificação deste modelo vem com o fordismo. Este modelo faz uma
reformulação do projeto de administrar as particularidades de cada trabalhador. Na
produção em massa existe a necessidade de uma enorme quantidade de
trabalhadores (independente de sexo, idade e profissionalização) que em pouco
tempo tenha domínio da função que ira desempenhar. Durante a hegemonia deste
modelo, havia elevada oferta de empregos, uma vez que a produção em massa
gerava igualmente um consumo em massa. A própria organização do trabalho
ofereceria trabalho e renda para gerar um ciclo consumidor do mercado.
“Nós sabemos que essa repetição interminável da “copia” é o que tem
produzido a sociedade industrial. Tanto no bloco dos países socialistas como
no capitalista. Esta reprodução ad infinitum do mesmo objeto. Sabemos que,
curiosamente, essa multiplicação do objeto teve um efeito paradoxal: o objeto
parece carecer de valor. Passa a precipitar-se seu valor, mas, o curioso é que
para que ele venha a perder esse valor de fazer falta, ele tem que passar a
ser possuído em numero maiúsculo, pelo sujeito em questão”. (Jerusalisnky,
2000, p.40).
Desta maneira, além de se produzir em massa ocorre um outro problema
advindo da sociedade capitalista, mencionada pelo Jerusalisnky, que através da
produção em massa desses objetos e por ser de fácil acesso, este objeto perde logo
seu valor ao conseguir possuí-lo, como se fosse valioso quando não se tem mas, ao
adquiri-lo esse valor se perde.
Posteriormente ao modelo mencionado, a forma com que o trabalho está
sendo organizado, ultrapassa o campo social, político e cultural. São oferecidos para
a sociedade oportunidades de aprendizado tanto profissional como pessoal. A
sociedade nota o crescimento das fábricas e uma grande intervenção no lazer,
saúde e cultura dos trabalhadores.
Com a inserção das maquinas no processo produtivo gerou-se um grande
desconforto e mal-estar, muitos trabalhadores foram retirados dos seus lugares de
criação e desenvolvimento. Estes por sua vez tiveram que adaptar-se a este modo
11
de produção, no qual, poucos trabalhadores realizam o trabalho em um lugar onde
necessitava um número maior de mão-de-obra. Aquele espaço antes dado aos
operários tornou-se restrito a um contingente muito mais seleto, causando o
distanciamento e o declínio da função do sujeito no processo laboral. Este processo
passou a ser realizado como forma de apropriação, apenas do produto produzido,
não interessando a sua importância ou para quem está sendo elaborado.
A fuga do trabalho formal contribuiu para o esgotamento da organização do
trabalho. O ritmo elevado de produção, os salários baixos, a criação de novas
tecnologias e a exigência de um nível educacional elevado exigido por estas,
levaram a uma evasão dos trabalhadores dos seus postos de trabalho.
Um modelo japonês surge, impondo novas regras de produtividade. Este
modelo não mais interessa ao capitalismo. Ao invés da produção centralizada do
fordismo temos a flexibilização ou terceirização do toyotismo (just in time). Estas
transformações trazem inúmeras modificações ao setor produtivo, ao mercado e à
sociedade. Os trabalhadores devem ser polivalentes e possuir muita qualificação.
Além disso, devem “mostrar serviço” e dedicação para ter garantia de seu emprego.
Com a Revolução Industrial ocorreu um profundo impacto no processo
produtivo em nível econômico e social. Ao longo desse processo a máquina foi
superando o trabalho humano e uma nova geração de capital e trabalho se impôs.
Com a revolução os trabalhadores perderam o controle do processo produtivo, uma
vez que passaram a trabalhar para um patrão e assim, passaram a ser empregados
ou operários, perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro.
Como há indivíduos tanto naquela época e principalmente atualmente que
não se enquadram nestas expectativas do mercado de trabalho. Devendo estar
sempre qualificando-se, pois as mudanças são muito rápidas para melhor suprir
essa demanda de mercado. E mesmo tendo consciência disso, muitos indivíduos
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permanecem segregados ou ainda migrando de um emprego a outro, como se não
houvesse lugar. Não caberia a partir disso, pensar talvez em uma resposta a um
esgotamento da falta de atenção com subjetividade do sujeito? Como se estivessem
cansados/esgotados de tanto responder a toda esta demanda.
O filme “Tempos Modernos”1, de Charles Chaplin nos ajuda há compreender
um pouco como estes modos de produção agiam sobre os trabalhadores.
Primeiramente o filme faz uma crítica ao modo como os trabalhadores eram
tratados. Cargas horárias extensas, compromisso de produzir em grandes quantias,
condições subumanas de trabalho e baixos salários. A briga por mudanças sempre
foi uma constante desde os tempos da Revolução Industrial.
Outra relação que pode ser retirada da crítica feita por Chaplin, tem relação
com a exploração sofrida pelo trabalhador. Este trabalhava muito, mas a
remuneração não era o suficiente nem mesmo para adquirir aquele bem que
acabara de produzir. Esse filme retrata a década de 1930, mas podemos ver que o
mesmo ocorre nos dias de hoje, através da busca constante por inovações que
permitem maior produção em menos tempo. Tanto naquela época, como nos dias de
hoje há esta preocupação com as inovações. Antes a substituição do homem pela
máquina. Máquina esta que só funcionaria com mão de obra qualificada. Hoje a
qualificação não permite que alguém que não saiba manusear as novas tecnologias
(que pode ser comparado a saber ler e escrever) busque um espaço no mercado de
trabalho.
Conforme esse modelo capitalista em que a preocupação gira somente em
torno de melhores resultados atrelada à produtividade e lucratividade da
organização, podemos nos questionar sobre o lugar que é dado para o trabalhador,
ou quais as condições de trabalho dispostas aos trabalhadores; será que há lugar
1
Filme do cineaste Charles Chaplin do ano de 1936.
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para subjetividade destes?
E ainda, quais as consequências que poderão se
desencadear a partir disso?
Tal concepção é possível a partir do momento em que se tem contato com
trabalhadores em seu ambiente laboral. Esta experiência é importante, pois muito
houve-se falar que o trabalho é meio de valorizar o homem, de dar sentido a vida de
uma pessoa. No entanto, o que pode-se notar são pessoas que estão, em muitos
casos, sofrendo com a realidade de trabalhar para sobrevivência tanto dela como de
toda sua família. E desta forma não é possível proporcionar bem-estar. As pessoas
trabalham para poder viver e sobreviver em uma sociedade desigual, onde o ser é
substituído pelo ter, o que para todo sujeito neurótico precisa substituir o ser pelo ter,
ou seja, precisa deixar de ser o falo, para passar a desejar ter o falo, onde trabalhase para consumir e adquirir objetos, podendo neste caso, o trabalho ser gerador de
insatisfação e angústia que participam no feitil de determinado objeto, mas em
alguns casos não do seu consumo.
Ao pensar em uma visão sociológica a questão do trabalho é designada como
a relação do homem com a natureza e também através de relações técnicas de
produção. Desta forma o trabalho é tido como exploratório gerador de riquezas e
fatura. Onde foi inscrito através da história quando o homem passou a pensar em
sua própria subsistência para além da exploração dos recursos naturais, passando a
produzir através da transformação da natureza.
Com isso a identidade a partir trabalho refere-se também à consciência de
pertencer a algum grupo social, inclusive aquele de sua atividade exercida e da
carga afetiva que isto implica. Percebe-se que isso implica a questão do valor
subjetivo do trabalho. Cientes de que o discurso social referido é o discurso
capitalista, acompanhado dessa subversão do saber, situado agora do lado do
objeto.
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Portanto, a organização do trabalho é designada a partir das divisões do
trabalho, o conteúdo da tarefa, o sistema hierárquico, as modalidades de
comando/liderança, as relações de poder, entre outros. Pensado o termo
Organização na qual designa o ato organizador que é exercido nas instituições e,
também, refere-se às realidades sociais, sendo a organização social um conjunto
formado por cooperação, uma coletividade instituída com vistas a objetos definidos,
tais como a produção como em empresas industriais, a distribuição de bens e
empresas comerciais e a formação instituição educativa.
Essa divisão do grupo de trabalho causa ruptura no seu processo de trabalho,
ficando cada trabalhador com uma tarefa de efetuar somente uma determinada
ação. Sendo que sua tarefa já está pré-determinada, não precisando este pensar ou
conhecer todo seu processo para trabalhar, basta somente reproduzir, advindo da
concepção Taylorista., onde apenas apertar o parafuso e não participar de todo o
processo, assim pode-se pensar que este indivíduo não passa de um instrumento
para produção de um objeto. A partir disso será que estes trabalhadores sentem
prazer em somente produzir e executar a mesma ação? Onde fica a implicação
deste trabalhador, será que basta somente reproduzir? Será que a escolha
profissional e com ela todo um futuro de trabalho, não está também relacionada ao
desejo e identificação e será que são importantes ao ambiente organizacional?
As empresas desenvolvem uma estrutura formal de relacionamento entre os
membros, fixam objetivos e cobram resultados. Com isso as empresas são
caracterizadas por um lugar privilegiado de conflitos pessoais, profissionais, de
grupos, de interesses, ideologias e cultura própria. Somente escutar as pessoas ou
reconhecer um lado da moeda, não garante a resolução. Entender e trabalhar
questões da diversidade passa a ser fundamental para uma organização moderna
de trabalho.
“A cultura, nessa perspectiva, seria um conjunto de renúncias
consentidas pelo homem, a fim, de viver em comunidade e reformar
progressivamente as instituições sociais que se mostraram necessárias ao
15
trabalho intelectual e a construção da solidariedade humana” (ENRIQUEZ,
1983, p. 96).
A organização de trabalho definida como Empresa, caracterizada pela
produção e distribuição de bens e prestação de serviços, tendo o trabalhador como
indivíduo motor ou ainda como mero instrumento para viabilizar a produção do
objeto.
“Há diversas metáforas acerca deste lugar que o objeto passa a
ocupar e de como o ser humano passa a ser, ele mesmo, um mero
instrumento de produção desse objeto. Vai se deslocando de sua posição
subjetiva e passa a ser instrumento para produção desse objeto”.
(Jerusalinsky, 2000, p. 37,38).
Para ilustrar um pouco melhor dessa relação de mero instrumento para
viabilizar a produção do objeto, na qual não há a possibilidade de aparecer a
objetividade pode-se ver o filme: “A classe operária vai ao paraíso”2. Que a partir da
perspectiva de considerar a subjetividade no campo do trabalho, poderia considerar
o acidente que o personagem sofre rompendo com o gozo da entrega, de alienação,
conforme o texto do Contardo “Sedução Totalitária”, seria uma forma de enunciação
subjetiva? Então pensaria na importância do sintoma enquanto espaço subjetivo, se
não houver outro. Neste caso o sintoma enquanto pathos.
“(...) a anulação do individuo, a obediência cega a regulamentos que
fazem às vezes de lei e a construção de um mundo social fantasmagórico,
regido por “forças ou ordens” que emanam de Ninguém, porque são tidas
oriundas da tradição, da historia, da raça do costume ou simplesmente uma
versão abastardas de destino, que é o “não tem jeito”, sempre foi assim e
assim vai continuar sendo” (COSTA apud MARTINS, 2009, p. 54).
Calligaris (1991) em “A Sedução Totalitária” faz uma relação à alienação do
sujeito, pela paixão de ser instrumento, no momento em que este entrega-se ao
outro, de maneira que não possa aparecer um furo. O que há de sedutor é
2
Filme de Elio Petri do ano de 1971.
16
justamente por não haver o furo e consequentemente, não haver um sujeito, quando
o há, este desejante, não há entrada na alienação e por isso não está condicionado
a ser um mero instrumento.
Totalizante quando os indivíduos em grupo aceitam funcionar como
instrumentos, compartilhando de um mesmo saber, instituído pela organização do
trabalho e quando não há esse reconhecimento do saber compartilhado e não
aceitando funcionar como instrumento, não podendo fazer parte deste modelo
totalitário, deixam assim de serem alienados. Nesse sentido não podemos deixar de
nos questionar em como o sujeito obtém algum prazer nessa relação de alienação.
Segundo Calligaris (1991) “... efeito do interesse e da paixão humana em sair do
sofrimento neurótico banal, alienando a própria subjetividade, ou melhor, reduzindo
a própria subjetividade a uma instrumentalidade”. (p.111).
Segundo Calligaris (1991), a paixão da instrumentalidade é propiciada pela
montagem onde um sujeito transforma-se em instrumento de um saber que o leva a
praticar uma série de crueldades. O neurótico, através da paixão de ser instrumento
de um saber, pode ‘optar’ por reduzir a sua própria subjetividade a uma
instrumentalidade, para encontrar o alívio que a montagem promete. Ao abandonar
sua singularidade o sujeito tampona sua falta, sua castração.
A consequência é a transformação do sujeito em instrumento de um saber
assim estabelecido. Portanto o gozo não está em matar pessoas, sim em ser um
"funcionário exemplar". Calligaris refere-se ao julgamento de Nuremberg, do Albert
Speer, que primeiro foi arquiteto de Hittler e então ministro dos armamentos do
Reich, na qual, dirigiu a guerra por alguns anos, onde referia-se a questão de como
e porque, o nazismo prosperou e encontrou nele um adepto e cúmplice.
“Porque é bem ai que está o inaceitável: que, para conseguir uma
saída do sofrimento neurótico banal através de um semblante perverso, o
neurótico possa considerar que qualquer preço é bom. Em outras palavras,
que, para conseguir o alívio que oferece a obediência do funcionário
17
exemplar, ele esteja disposto a servir qualquer ordem”. (CALLIGARIS, 1991,
p.115)
O autor não atribui a paixão da instrumentalidade somente aos episódios do
totalitarismo, colocando-a como uma condição cotidiana e abrangente de saída da
neurose.
Devido à paixão pela instrumentalidade compartilhar de um saber comum,
uma tentação irresistível e muito cômoda, pois não é necessário pensar e sim
obedecer, seguir esse funcionamento. Esse individuo torna-se um ótimo funcionário,
no qual, apenas é o instrumento para chegar/obter o objeto o qual foi designado a
fazer. Afinal, não é pago para pensar e sim para fazer, estando disposto a servir
qualquer ordem, não só por este motivo, mas ainda pelo fato de hoje em dia haver
alto grau de rotatividade de trabalhadores. O individuo que utilizar menos tempo
para realizar sua tarefa com menos despesas, continua; caso contrário há centenas
de outros indivíduos querendo, ou melhor, necessitando preencher esta vaga, o que
não quer dizer que seja do seu desejo. Para CHEMAMA (1995), “Desejo é uma falta
inscrita na palavra e efeito da marca do significante sobre o ser falante. O desejo do
sujeito falante é o desejo do outro. Se constitui a partir dele, é uma falta articulada
na palavra e é a linguagem que o sujeito não poderia ignorar, sem prejuízo”. (p.42).
Sobre essa relação da paixão pela instrumentalidade surge a questão sobre a
alienação que diz respeito à inserção de cada um na Cultura, isto é, na linguagem.
Assim, quanto mais próximo da cultura se está, mais se aproxima da alienação,
quanto mais se é recoberto pelos significantes da linguagem. Por outro lado, quanto
mais se caminha em direção ao sujeito, onde a linguagem não alcança com tanta
eficácia, fica mais distante da cultura e assim fora da alienação. “Em outras
palavras, não acho suficiente pensar que o desenvolvimento técnico enquanto tal
seja alienante.” (CALLIGARIS, 1991, p. 109).
18
Quando o sujeito está sem identidade e precisa identificar-se a algo a
alienação vem no sentido de encobrir ou negligenciar o fato de que, o sujeito definese não apenas na cadeia significante, mas no nível das pulsões, em termos de seu
gozo em relação ao Outro.
“Mas para que o bando se torne uma sociedade, somente a
multiplicidade de Desejos de cada um dos membros do bando se apoiem –
ou possam se apoiar – nos Desejos dos Outros membros. Se a realidade
humana é uma realidade social a sociedade só é humana enquanto conjunto
de Desejos se desejando mutuamente enquanto tais”. (RUFFINO, p.4).
Pode-se identificar que na prática pouco escuta-se do funcionário, mesmo
aplicando pesquisas de satisfação, de clima etc. Afinal escutar é diferente de ouvir e
somente ouvir não garante. É preciso dar um valor, um lugar ao que se escutou.
Pois nesse sentido o trabalhador não passará de um mero instrumento para
viabilizar a produção de um objeto e principalmente sem reconhecimento de tal.
Contudo a realidade atual da maioria das empresas ainda está atrelada às
noções mecanicistas, onde a frase que as resume seria “você é pago para fazer e
não para pensar”. Trata-se de uma ideia justificável se buscarmos o cerne do
conceito de organização, onde, provém do grego “organon”, que significa ferramenta
ou instrumento, conceito surgido na época da Revolução Industrial, onde com o
advento das máquinas as pessoas não tiveram outra escolha, senão a adaptação.
Segundo algumas teorias capitalistas, como mencionado inicialmente à
contradição de capital e trabalho, “mais valia”, que vai assinalar a importância do
investimento em máquinas, equipamentos, chamado produtivo, por outro lado
possibilitará mais tarde a visão da compreensão do trabalho na sociedade
contemporânea através da articulação do labor, trabalho e ação, onde:
“O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do
corpo humano (...); o trabalho é a atividade que corresponde ao artificialismo
da existência humana, que produz um mundo “artificial” de coisas (...); a
19
ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a
mediação das coisas ou da matéria (...)” (ARENDT, 1989 , p.15).
Arendt refere-se ao labor, o trabalho pela sobrevivência e era restrito à casa,
onde o homem vivia “privado de”, submetido às necessidades da natureza. O
produto advindo do labor era perecível, como o alimento por exemplo.
O termo trabalho propõe ainda uma associação relacionada com o sofrimento
e a transformação da natureza através da atividade humana (do latim tripalium,
instrumento de tortura e instrumento agrícola de cultura de cereais). Desta forma
que para ter valor, para conseguir as coisas e merecê-las deve haver sofrimento.
Essa relação da transformação da natureza pode ser descrito no texto de
Rodolpho Ruffino, em que este faz uma análise sobre o texto “Kojève introdução à
leitura de Hegel”, Kojève discorre sobre a dialética do senhor e do escravo e sua
relação, onde o sujeito busca seu reconhecimento através do desejo. Essa cisão
entre sujeito/objeto indica o limite do saber que coloca-se nessa relação de luta
mortal, em que a morte do outro não pode se dar, pois se assim acontecer não
haverá a certeza subjetiva de si quanto tal. Uma vez que não haverá o outro para
armar à dialética.
Hegel, segundo Kojève (apud Rufino) onde dois homens lutam entre si. Um
deles, aceita arriscar sua vida no combate, o outro que não ousa arriscar a vida, é
vencido por desistir da luta. O vencedor por sua vez, não mata aquele que não
arriscou a sua vida e assim o transforma em escravo. Isso tudo para conservá-lo
cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Nesse luta, que Hegel
chamou de luta por puro prestígio, na qual o vencedor se tornará o senhor e o que
não se arriscou é o escravo, o "servus", aquele que, foi conservado.
20
“Deve abandonar seu desejo e satisfazer o desejo do outro: deve
“reconhece-lo” sem ser “reconhecido” por ele. Ora, o “reconhecer” assim, é o
“reconhecer” como seu Senhor e reconhecer-se e fazer-se reconhecer como
Escravo do Senhor. (RUFFINO, p. 5)
Essa relação consiste em o senhor ordenar o escravo, onde ele passa a
gozar do que resulta disso. Ordenando e esperando do escravo como, por exemplo,
seu alimento, onde é ele quem planta, cuida e colhe, para entregar pronto ao
senhor. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que
interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê dessa ligação o
reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, ao mesmo
tempo em que este se vê despojado dos frutos de seu trabalho, numa situação de
submissão absoluta.
“Todo esforço estando sendo feito pelo Escravo, o Senhor só tem que
gozar da coisa que o escravo preparou para ele, e nega-la, destruí-la,
consumindo-a... o Senhor tem sucesso ao chegar ao fim da coisa e
satisfazer-se no gozo é unicamente graças ao trabalho de um outro (de seu
escravo) que o senhor está liberto em face à natureza e, por conseguinte,
satisfeito de si mesmo”. (RUFFINO, p. 8)
Entretanto, essa situação vai transformar-se dialeticamente porque a posição
do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é, em função da existência
do escravo, que condiciona a sua. O senhor só o é, porque é reconhecido como tal
pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo.
Nesse sentido, pode-se pensar que ele é uma espécie de escravo de seu escravo.
“E é assim que, afinal, todo trabalho servil realiza não a vontade do
Senhor, mas aquela – inconsciente a principio – do Escravo que – finalmente
– obtém êxito lá onde o Senhor - necessariamente fracassa”. (RUFFINO, p.
11).
No entanto, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o
escravo de seu senhor, submetendo-se a isso pelo medo de morrer, vai encontrar
uma nova forma de liberdade. Entretanto o escravo incessantemente ocupado com o
trabalho aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma
certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho.
21
Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a
liberdade. Desse modo, o escravo, transformado pelas provações e pelo próprio
trabalho, ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo.
Então que de nada serve ao homem da grande Luta, matar seu adversário. Deve
sim suprimi-lo dialeticamente.
“Por um lado, o Senhor não é Senhor senão porque seu Desejo se
apoiou não em uma coisa mas num outro desejo, tendo assim sido um desejo
de reconhecimento... Senhor, é enquanto Senhor que deve desejar ser
reconhecido; mas não pode sê-lo como tal a não ser fazendo do Outro seu
escravo.” (RUFFINO, p.8).
Através da dialética de uma relação de disputa de reconhecimento, ilustrado
através do sujeito e o objeto. Utilizando do diálogo racional de duas consciências,
para chegar ao reconhecimento de si e para si, até chegar à liberdade. A dialética
do senhor e do escravo é um processo de constituição de liberdade, estabelecidas
nas relações de reconhecimento, que é a preservação de um e de outro, onde
reconhecer a si mesmo e ao outro é uma forma de ver nossos limites e dos outros,
que são elementos necessários para a liberdade.
“Só o escravo pode transcender o mundo dado (sujeitado ao senhor)
e não parecer. Só o Escravo pode transformar o Mundo que o forma e fixa na
servidão e criar um mundo formado por ele onde será livre”. (RUFFINO,
p.11).
Utiliza do desejo, como sendo consciência-de-si, nessa alteridade com o
objeto, tem também consciência do outro como consciência de si e buscará sua
satisfação nesse encontro com esse outro que, de certa forma, é si mesmo. Kojève
cunhará a expressão "o desejo é o desejo do outro". Nesse sentido, toda relação
humana é com o desejo do outro, na medida em que, negativamente, nos
constituímos nessa dialética.
“Desejar o desejo de um outro é, então , em ultima análise, desejar
que o valor que eu sou ou que eu represento seja valor desejado por esse
22
outro: quero que “reconheça” meu valor como sendo seu, quero que me
“reconheça” como um valor autônomo.” (RUFFINO, p. 5)
Retornando ao texto de Arendt a ação fazia parte da esfera pública chamada
polis e consistia em privilégio de alguns, os cidadãos. Tinha como significado a
dignificação do homem (virtudes) e era espaço do discurso caracterizado pela
atividade espontânea e ilimitada. Pois era a única atividade exercida entre os
homens que sem a mediação das coisas ou da matéria, cuja condição do homem é
a pluralidade. Pois o sujeito identifica-se através do seu discurso, assim conta quem
é através da sua realidade.
Com o advento da sociedade moderna a ação perdeu seu significado original
e passou a ser confundida com o conceito de trabalho da Antiguidade. Assim, a
ação perde o sentido ligado à virtude e identifica-se com a noção de ação como
atividade finalista (trabalho). A ação torna-se um fazer.
Antes considerado trabalho, o fabricar agora está relacionado à ideia de
domínio sobre as coisas, adquire o domínio sobre os homens numa relação
impositiva de uma vontade sobre outra vontade como meio para atingir os fins da
paz, segurança, bem-estar, conforto, etc.
O trabalho era considerado todas as atividades que resultassem em produtos
ou bens de consumo não perecíveis. Era uma atividade considerada como não fútil,
dominada pela relação meio e fim, sinônima de fabricação. O trabalho é o que
oportuniza a experiência de sentir-se vivo, já que sua ausência é associada à morte,
à exclusão e à segregação em uma sociedade pautada pelo valor produtivo. Passa
então, a ser uma forma de identificação e ao desligar-se do trabalho ocorre uma
nova busca de identidade para sentir-se útil por ser uma atividade realizada pelas
mãos, pois são referentes ao meio de produção de objetos destinados a ocupar um
lugar duradouro no mundo.
23
Arendt (1989) fala de quem somos através das decorrentes condições dada
ao homem ao longo do tempo e que ao mesmo tempo foi criada pelo homem. Sobre
o labor, trabalho e ação podem ser sinônimos ao mesmo que são diferenciadas pela
maneira como realizam-se, de acordo com o espaço que ocupam e principalmente,
pelo resultado final obtido através da realização destas.
Na Era Moderna o significado das coisas foi instrumentalizado. Surgiu com
ela o homo faber. A esfera pública, que na antiguidade era a esfera do homem
político, passa a ser a esfera do mercado e a troca de produtos passa a ser a
principal atividade política. Assim, os homens passaram a ser julgados não como
pessoas, mas como seres que agem, que falam e julgam como produtores, segundo
e seguindo a utilidade de seus produtos. O espaço de comunicação do homo faber
tornou-se alienante, excluindo o próprio homem, pois este passou a mostrar-se
através de seu produto. Mesmo que a condição do homo faber venha a ser a de
produzir em isolamento, o destino final dos seus objetos repercute na dimensão do
mundo dos homens.
Seguindo ainda na Era Moderna ocorreu à progressiva absorção da ideia de
trabalho (produtividade) pela ideia de labor (necessidade de sobrevivência),
despontando a sociedade de consumo onde o centro das coisas não é mais o
mundo construído pelo homem, mas a mera necessidade de sobrevivência. Então, o
homem voltado para sua própria sobrevivência não é capaz de dar sentido a outras
coisas e as pessoas tornam-se descartáveis. O homem é julgado pela função que
exerce no processo de trabalho e por sua produção social.
Arendt (1993) possibilita verificar que o trabalho, antes considerado como
durável e permanente no mundo, hoje assume a forma de labor e está diretamente
ligado à questão da necessidade, da sobrevivência atrelada ao consumo.
24
A subjetividade vai desaparecendo, há humanos robotizados ou robôs
humanizados, no texto “La fábrica del Mundo” (2005) aparece claramente este
sofrimento, esta falta da subjetividade, do valor simbólico do trabalhador. Segundo a
diretora Zhang Xuewen: “o negócio não é fácil, cada vez mais há competidores e
temos que adaptar continuamente o produto para atrair os clientes”, para ela um
salário de 75 euros por 10 ou 11 horas de trabalho diário e um dia de folga por mês
é normal, porque é assim em muitos lugares na China. Assim esse trabalhador não
tem escolha, ou trabalha a fim de suprir suas necessidades de sobrevivência, ou
então será demitido se não seguir a risca a forma de trabalho da empresa.
Tornando assim o individuo como robô, onde o trabalhador tenha função
automática, como se fosse afogado pelo processo vital da espécie e a única atitude
exigida e possível deste fosse o abandono de sua individualidade.
Fica explicito a organização do trabalho como um agente interventor do
quadro de emprego e desemprego. Todos os elementos históricos demonstram a
influência da organização do trabalho na sociedade, agindo na ideologia do setor
produtivo e, desta forma, no mercado de trabalho.
Anteriormente ter um emprego, trazia uma certa segurança, estabilidade e
hoje em dia isso praticamente não existe. Já a palavra desemprego ganha mais
conotação e perde-se muito, em termos de segurança. Segundo Freud em “O malestar na civilização” afirma que “O homem civilizado trocou uma parcela de suas
possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (Freud, 1929, p. 119).
Então as relações de trabalho pouco a pouco passaram a obter novas
descrições e definições. O homem responsável pelo processo de trabalho ainda tem,
a difícil tarefa e acompanhar essa reestruturação do processo laboral. O homem
25
trabalhador enquanto sujeito pertence a este processo possui a necessidade de
estar constantemente em adaptação.
Desde então, após a ocorrência da revolução outras mudanças acabaram por
ocorrer juntamente a partir da modernidade. A ascensão do capitalismo e da
globalização alterou completamente a maneira de viver das populações dos países
que industrializaram-se. As gerações anteriores a nossa renunciaram a felicidade
para ter segurança. Já as atuais gerações renunciam a segurança, em busca de um
pouco de felicidade. A atualidade nos coloca alienados frente a outros discursos e
com ideias diferentes do que seria a tão sonhada felicidade.
Percebemos uma movimentação também no fato de que a responsabilidade
pela condição humana tornou-se privada. Atualmente, as condições básicas, saúde,
educação, emprego, quase não são mais uma obrigação do estado. Mas o que
acaba acontecendo é estas (soluções) virem do âmbito particular, ou seja, cada um
cuida de si da maneira que pode/consegue. Sendo assim, aqueles que não
alcançarem
um
determinado
“sucesso”
particular/individual,
acabam
sendo
estigmatizados, sentindo na pele o mal-estar do mundo moderno.
Outra questão interessante de ser pensada é a fluidez dos vínculos que
parece ser uma marca da contemporaneidade, pois os empregos, por exemplo,
muitas vezes são temporários, circula-se muito pelo mercado de trabalho. Além
disso, toda a facilidade que as novas tecnologias colocam, faz com que o tempo e o
espaço diminuam muito, dando muito mais possibilidades de circular de um lugar
para outro em um pequeno espaço de tempo.
Também, pode-se dizer que as pessoas passaram de produtores para
consumidores, o que demonstra mais uma vez o quanto a sociedade atual se
configura de forma mais individualista. Isto, pois no âmbito da produção, a sociedade
combinava a busca de avanços mediante esforços coletivos, já o consumo é
26
inteiramente individual, o que de certa forma torna o mercado consumidor sedutor.
Quanto mais consumidores, mais a sociedade é segura e próspera; Mas traz
uma questão; os que podem satisfazer o desejo de consumir e os que desejam
consumir. Existindo e aumentando uma diferença entre ambos. Essa sedução do
mercado, ao mesmo tempo em que iguala, pois todos podem consumir, divide, já
que nem todos poderão consumir o que desejam. E quem fica de fora acaba sendo
excluído, marginalizado.
Isso nos dá uma ideia de como é o contexto onde os trabalhadores estão
inseridos. E pensando o trabalho como o maior organizador dos indivíduos, é
possível ter ideia do quão importante acaba sendo para que as pessoas consigam
suportar ou adoecer na sociedade moderna. Isto se coloca, pois o que nos da renda,
o que faz com que tenhamos a moeda de troca para entrar nessa sociedade
consumista é exatamente o trabalho. Organiza, sustenta e da condição aos
indivíduos ao mesmo tempo em que provoca o adoecimento, pois o sofrimento
acaba advindo da divergência entre o que se quer (desejo) e a realidade.
Uma questão que parece estar totalmente ligada ao trabalho e as
organizações parece ser a felicidade, pois muitas vezes observamos que as
pessoas tendem a buscar realizações através do trabalho, projetam neste,
expectativas e anseios do que acham que pode lhes ajudar a serem felizes. E isso,
como já foi mencionado, é uma forte influência da cultura, visto que na
contemporaneidade a realização profissional, a comodidade econômica traz fortes
questões à subjetividade do sujeito, ao que considera poder ser o “caminho de sua
felicidade” e o trabalho está fortemente ligado a isso. Pois a lógica atual se coloca no
empreendedor como capacidade de consumo e sucesso para obter a felicidade.
O sujeito organiza-se e sustenta-se através de seu trabalho. Existem casos,
onde através deste é possível expressar, dar vazão a agressividade (trabalhos
27
manuais, por exemplo), organizando e dando um sentido a isso, que de outra
maneira, pode ter dificuldades de encontrar expressão e encontrar-se, pode de
alguma forma prejudicar o sujeito em questão.
Hoje em dia o ser humano precisa ser autônomo, capaz de realizar o maior
numero de atividades no menor espaço de tempo possível. O mercado coloca-se em
busca da produtividade, satisfação e lucratividade, e cabe responder essa demanda,
caso contrário, o que coloca-se a sua frente é a insegurança, o medo de perder o
emprego e consequentemente um provável adoecimento.
Observamos é que às organizações cada vez mais são vistas na perspectiva
de metáfora das prisões psíquicas onde os seres humanos tem uma inclinação para
cair nas armadilhas criadas por eles mesmos, dando a entender que esta relação
contraditória é base do ser humano, criando as organizações para submeter-se a
elas.
Segundo Enriquez um homem que continua enfrentando um processo
civilizatório, sujeito que não existe fora do campo social e que este permanece
constantemente dividido entre seu próprio desejo (reconhecimento de seu desejo) e
a necessidade de identificar-se com o outro (desejo de reconhecimento). Em vista
disso ao referir-se a Freud, na qual, seu proposito ao tratar da fonte do sofrimento
começa a afirmar que sua origem está no social, ao pertencer à civilização.
Pensar no declínio do valor simbólico na contemporaneidade primeiramente é
necessário pensar nos acontecimentos e mudanças no decorrer de toda a história,
seria como estar aqui e ali, sem importar-se com tais mudanças e consequências,
principalmente ao que se referem à relação homem e trabalho não só na vida
pessoal como também diante da sociedade.
28
A relação que o homem tem com seu trabalho não ocorre igualmente como as
exigências deste trabalho lhe atingem. O homem diminuiu a sua liberdade de criação
e de realização diante do trabalho que exerce. A imposição existente sobre o
homem, construída pelas relações de trabalho, em tal perspectiva, introduzem
marcas no sujeito, as quais vão repercutir no seu funcionamento físico e psíquico.
Na história da humanidade, o elemento capaz de representar o valor tem sido
o trabalho, é o modo de representação de valor do sujeito no discurso. Nesse
sistema de valor, como sabe-se, até o fim do século passado era o homem e não a
mulher que prevalecia no sistema de representação de valor do intercâmbio social. A
revolução feminista, em concordância com a demanda industrial, produziu uma
modificação no sistema de distribuição de valor entre os sexos.
A mulher incorporou-se a este sistema de valor, mas também sofreu uma
sobrecarga, ou seja, não conseguiu desvencilhar-se da posição de mãe, dona de
casa, assim teve que assumir as duas posições – a de mãe e daquela que começou
a participar desse sistema de valor do trabalho, um sistema de valor desde o ponto
de vista da subjetividade, o qual se formaliza não da mesma maneira que ocorreu no
intercâmbio econômico, mas trata-se em última instância do valor fálico, pelo menos
desde o ponto de vista analítico.
O trabalho então encontra seu valor condicionado ao significado que terá
culturalmente, também pela relação da organização vigente (onde o sujeito trabalha)
e a sua subjetividade. O trabalho pode ser uma mera sobrevivência (ganha pão)
como a parte mais significativa da vida interior de um ser humano.
A sociedade dita às regras impõe situações às quais de alguma forma nos
amarram, pois a final de contas o processo civilizatório ocorreu a partir da renúncia à
pulsão e, principalmente, a seus aspectos agressivos e destrutivos, nossos mais
íntimos desejos acabam por serem reprimidos, ocultados, recalcados.
29
Acompanhando o crescimento das indústrias no decorrer dos anos, a
velocidade a qual tudo vai acontecendo, vejo o quanto essa possibilidade de
reconhecimento foi tornando-se cada vez menos presente para o trabalhador. Os
trabalhadores valem o quanto podem produzir, traçando visivelmente um caminho
de muita lucratividade à empresa, não importando se esse trabalhador está satisfeito
ou não com a forma de realizar o trabalho, o que importa é a empresa estar
satisfeita com os resultados, consequentemente um poder de capital cada vez
maior.
“A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do
trabalhador, à injunção do empregador contida da organização do trabalho.
Em geral a carga psíquica do trabalho aumenta quando a liberdade de
organização do trabalho diminui”. (DEJOURS, 1994, p. 28).
Ainda no texto de Jerusalinsky, aparece claramente à questão do sujeito e o
saber em relação ao objeto. Através do exemplo do relógio construído pelo relojoeiro
Nicolas Kadañ, o qual teve seus olhos furados para que não construísse outro
relógio igual, assim todo o saber de Kadañ passa a estar depositado no objeto. O
individuo acaba convivendo com esse sofrimento, com esse descaso, com o valor
simbólico de todo seu trabalho, da sua produtividade praticamente esquecido, sendo
privado de sua condição de sujeito do saber que possui, esse saber fica lançado do
lado do objeto. O valor do homem está no objeto, todo valor do trabalho fica
acoplado ao objeto. O valor parece voltado ao objeto, de forma que, segundo
Jerusalinsky (2000).
“Como nunca antes na História, hoje o sujeito fica numa total
dependência para estabelecer seu valor simbólico, de sua equivalência ao
objeto. Seja por possuí-lo, seja por fabricá-lo, seja por dominá-lo ou por
usufruí-lo, eis como o sujeito encontra seu valor” (p. 3).
Assim, sabendo que o valor do homem está no objeto, que ele mesmo cria,
consome e descarta numa sociedade pautada pelo fator produtivo. Muitas vezes
30
sequer tem acesso ao produto final de seu trabalho, mas é definido por seu valor.
A questão do valor é colocada também quando aparece a posição do amo e
do escravo, ou seja, o amo assume uma posição cada vez mais autônoma a
respeito do escravo e o escravo cada vez mais era um objeto e não mais um sujeito.
O sujeito não somente não enxerga sua própria posição no discurso social, mas
onde também, o Outro não tem chance alguma de vê-lo, o que pode-se observar no
discurso econômico atual, no qual toda a preocupação orienta-se para que a
economia caminhe bem, sem importar-se como andam os sujeitos por ela
implicados. Martins (2009) “a partir da posição do desejo é possível construir uma
visão clinica da relação psíquica do sujeito no trabalha: nesse contexto, a
organização do trabalho representa (decifra) a vontade de um outro”. (p.58)
Ao mesmo tempo em que o escravo produz gozo para o amo, o amo não dáse conta de que não é produção de seu gozo, onde o desejo de ambos só aparece a
partir do outro. Onde o amo goza com a produção do trabalho de seu escravo e o
escrevo só goza ao ver o amo gozar, um não existe sem o outro.
Enfim, trabalho não é um conceito ou termo que se limita a uma única
observação. Tanto pode ser explorado em sua vertente histórica quanto em sua
funcionalidade. No entanto para poder pensar a historia do trabalho deve-se antes
concebe-la envolvida juntamente com a historia da civilização, com suas vicissitudes
e seus períodos de desenvolvimento. Ocorre aqui, uma ligação entre pensar o
trabalho e pensar o homem enquanto sujeito do trabalho. Para tornar um pouco mais
clara a ideia, deve-se conceber, então a historia das relações humanas do sujeito
com o trabalho.
Nessas condições o individuo passa a ser, ele mesmo, mero instrumento de
produção desse objeto, na qual, vai se deslocando de sua posição subjetiva e passa
a ser instrumento para a produção desse objeto. O objeto em lugar de manter-se na
31
posição de causador do desejo constitui-se em máquina de sua satisfação, é um
lugar mais referido a ordem da falta.
Como é visível essa aceleração crescente das tecnologias e as mudanças
históricas do capitalismo surge então, a necessidade desse sujeito de migrar com
maior intensidade a fim de estudar, trabalhar em outro lugar, para não ficar fora do
circuito produtivo e sofrer uma perda de valor de seu trabalho, para que o sujeito
aprimore-se nas técnicas que lhe permitissem o domínio do objeto. Assim, o núcleo
familiar que até então era lugar de refúgio perde sua eficácia, porque a aceleração
migratória provoca sua dispersão.
Tornando-o assim vítima de forças econômicas que apresentam-se como
enigmáticas, sem perceber o quanto é feitor daquilo de que queixa-se. Portanto, o
trabalho pode assumir também ao considerar uma atividade especifica do homem e
que pode vir a se constituir como sujeito implicado pelo desejo ou manter-se na
posição de objeto. É este o ponto primordial, pois é o trabalho, em parte, que regula
e organiza as relações sociais.
32
2º
As
Relações
Intersubjetivas
Estabelecidas
a
partir
do
contexto
Organizacional.
A relação entre saúde e doença mental no trabalho surge a partir da segunda
metade do século XX. Consolidou-se no campo científico âmbito da psicologia
aplicada à área do trabalho. Com a trajetória da psicologia no campo da saúde
mental do trabalhador, começa a dar-se conta de que as condições e o meio
ambiente – ergonomia - do trabalho podem ser responsáveis, em muitos casos, pelo
aparecimento de mal-estar no trabalho, ou a partir deste.
A maneira como o sofrimento desencadeia-se vai ser diretamente dependente
do tipo de organização de trabalho. Por exemplo, o grau ou intensidade de
insatisfação ou medo de um funcionário submetido a um trabalho repetitivo será
diferente do observado em um funcionário de escritório. Modificando-se também de
acordo com as normas, regras, regimentos internos de cada empresa, bem como,
com o clima organizacional que influencia as relações interpessoais que predomina
na organização. Assim torna-se necessário ser cauteloso ao se fazer certas
generalizações, por isso que a observação cuidadosa do ambiente organizacional
com todas as suas especificidades faz-se tão relevante.
Os indivíduos, quando diante de uma situação de angústia e insatisfação
decorrente de seu trabalho, elaboram estratégias de defesa que acabam por tornar o
sofrimento um aspecto velado. Logo, o sofrimento disfarçado encontrará como meio
de eclodir uma sintomatologia, a qual as vezes apresenta-se com uma certa
estrutura própria a cada profissão ou ambiente de trabalho. Isso porque, a vida
psíquica perpassa pelo funcionamento de todo sistema corporal integrando-o, desta
forma manifestam-se as doenças psicossomáticas.
Ao longo do tempo, percebe-se, com efeito, que o homem vem buscando dar
sentido ao trabalho como um valor fundamental na sua formação como pessoa.
33
Podemos colocar o trabalho como um grande organizador social, pelo qual o sujeito
pode reconhecer-se e ao mesmo tempo sentir-se valorizado.
O ato de trabalhar ganhou valor como elemento de inclusão social e
consequentemente de definição da própria identidade como pessoa. Freud (1930)
“Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o individuo tão firmemente à
realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, lhe fornece
um lugar seguro numa parte da realidade na comunidade humana” (p.99).
Como forma de inserção social das pessoas e para uma formação de
identidade, o trabalho vem a ser um fator relevante. Para a psicanálise, é fato que,
quando o indivíduo é impelido pela organização a reprimir seus desejos, aparece o
sofrimento, que pode ser decorrente de diversos fatores, como as condições
precárias de trabalho e pressões impostas por essa organização.
Porém, nem
sempre o sofrimento é prejudicial à saúde física e mental do trabalhador, pelo
contrário, poderá representar um meio de o sujeito, através da sublimação3, conferir
uma nova significação ao trabalho, à medida que, quando levado à resolução de
problemas dentro da organização, o sujeito tem a chance de alcançar um
reconhecimento social de seu trabalho e tornar-se capaz de dominar suas angústias
e, consequentemente, controlar seu sofrimento, para seu equilíbrio mental.
Em vista disso, pelo trabalho ser um meio de sustentação simbólica do
sujeito, muitos ao perderem o seu emprego em decorrência de doenças ou outras
causas perdem também sua identidade. A nomeação dada na organização como,
por exemplo ‘a secretária’, ‘o bancário’, ‘o vendedor’, perde-se, então é necessário
encontrar outro traço que o identifique. Por isso a importância da escuta destes
trabalhadores, para que possam, a partir do outro, resignificarem sua sustentação
simbólica que muitas vezes se encontra até mesmo na doença.
3
O termo sublimação ocorre através processo psíquico inconsciente sem relação com a sexualidade, que
encontra seu elemento na força da pulsão sexual, a qual tem a capacidade de substituir um objeto sexual por
outro objetivo não sexual. Visando sempre objetos socialmente valorizados, sem perder sua intensidade. Então
é quando o sujeito se permite fazer uma escolha, produzir em forma de satisfação, se não há escolha não há
sublimação.
34
Para Martins (2009) a perspectiva da psicodinâmica do trabalho em relação à
identificação o homem está dividido entre o corporal e uma inscrição com o social,
na qual residem suas esperanças de realização. Onde luta contra o impulso que
exige satisfação (corpo) e, por outro lado contra os determinismos sociais que lhe
são atribuídos. Fazendo do homem um ser incompleto, que se dedica a procura de
realização da sua identidade, e que só encontrará saída para os impulsos que
estejam de acordo com a inserção no social na qual ele mesmo possa construir sua
própria historia, sua biografia.
“O sofrimento está sempre impelindo o sujeito ao mundo – e também
ao trabalho – na busca de condições de satisfação, auto-realização e
identidade, fazendo-o construir eroticamente laços sociais constitutivos da
intersubjetividade”. (MARTINS, 2009 p. 71).
A constituição da identidade dá-se através das relações estabelecidas entre
os homens e entre estes e seu meio. O trabalho, por sua vez, é uma dimensão
importante neste processo, pois cumpre muitas funções na vida do sujeito, é meio
de sobrevivência, de realizações, de adoecimento, de construção de identidade.
“Processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma
prioridade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente,
segundo o modelo deste outro. A personalidade constitui-se diferencia-se por
uma seria de identificações. (LAPLANCHE e PONTALIS, 2004, p.226)
Esta definição da importância do trabalho e de sua função na vida de uma
pessoa. No processo de identificação é este que resulta da constituição do sujeito
ainda enquanto criança, e, quando adulto. Portanto, o trabalho é crucial para a
formação da personalidade e do sujeito. Pois organiza, ordena e estrutura o sujeito.
Através do trabalho o sujeito organiza toda a sua rotina e consequentemente sua
vida.
35
Nas organizações isso fica bem evidente, na medida em que várias pessoas
estão inseridas nesse contexto, convivendo durante algumas horas do seu dia,
sentindo, pensando e agindo individual e coletivamente.
Certamente o que influencia o sentido do trabalho e as relações do sujeito
com a sua produção, são as constantes mudanças sociais e no trabalho. Estando
relacionado à boa produção do sujeito na organização, é que o trabalho continua
sendo promotor de saúde e sofrimento.
Atualmente o trabalhador está inserido em uma conjuntura laboral cujas
estruturas são perpassadas pela angustia e pelo medo, tudo isso desembocando em
uma vivência de sofrimento, pois a atual organização do trabalho impõe condições
de controle gerando ambientes ergonomicamente inadequados, instabilidade pela
escassez de oferta de emprego, busca constante de alta produtividade.
Frente ao sofrimento, Dejours aponta que o sujeito devido a preocupação
social, passa a fazer uma associação sobre a doença relacionada à passividade, na
qual, podemos pensar esse modo como forma pejorativa. Pois fica implícito que o
trabalhador que apresenta algum sofrimento sente-se envergonhado e tem a
tendência de esconder esse estado, principalmente quando é desconhecida ou trata
de algo psíquico, portanto invisível, pois não aparece no corpo e ao alcançar o corpo
é porque já atingiu a um estágio mais elevado de doença, ou a um acidente de
trabalho, muitas vezes grave.
O sofrimento que é vivenciado, mas não reconhecido, traz mais prejuízos
para o sujeito, pois a função dos mecanismos de defesa é aliviar o sofrimento e isto
finda em não permitir sua visibilidade tornado-o mais difícil de ser solucionado.
36
O trabalhador ao assumir o seu sofrimento por alguma doença leva-o a
destinar uma atenção maior a sua saúde que implica na maioria das vezes em
gastos extras, tratamento, exames, medicamentos, consultas e assim faltas ao
trabalho. Nesse sentido, estar nesse estado requer tratar da saúde e assim implica
em prejudicar o trabalho consequentemente sua produtividade. Ao indivíduo cabe
aquilo que é essencial o capital financeiro, isso é o que Dejours chama de “ideologia
da vergonha”, onde o corpo deve padecer em silêncio até o limite em que o sujeito
não suportar mais.
“A angústia contra a qual é dirigida a ideologia da vergonha não é a
do sofrimento, da doença ou da morte; a angustia que ele ataca é, através da
doença, a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho.
Esta observação é importante na medida em que não a encontramos em
nenhuma outra classe social, nem mesmo no proletariado”. (DEJOURS,
1992, p.34).
Mesmo que o sofrimento possa ter origem na organização do trabalho e que
este deve ter interesse pela saúde do seu trabalhador; desta forma será que é só de
responsabilidade da organização a saúde do trabalhador? Pois há a implicação do
trabalhador ao que diz respeito ao seu sofrimento, pois ao negar o sofrimento a
doença se agrava, sendo uma forma de velar o sofrimento. Assim fica clara a
ocorrência da ideologia da vergonha.
Tendo esta como função primordial a fuga da conscientização da doença,
Dejours propõe algumas características dessa ideologia:
“Em primeiro lugar, a ideologia defensiva funcional tem por objetivo
mascarar, contar e ocultar uma ansiedade particularmente grave. Em
segundo lugar é a nível da ideologia defensiva enquanto mecanismo de
defesa elaborado por um grupo social particular, que devemos procurar um
especificidade. (...) A especificidade da ideologia defensiva da vergonha,
resulta, por um lado, da natureza da ansiedade a conter e, por outro lado, da
população que participa da sua elaboração. Em terceiro lugar, o que
caracteriza uma ideologia defensiva é o fato de ela ser dirigida não contra a
angustia proveniente de conflitos intra-psíquicos de natureza mental, e sim
ser destinada a lutar contra o um perigo e um risco reais. Em quarto lugar a
ideologia defensiva, para ser operatória deve obter a participação de todos os
interessado. Aquele que não contribui ou não partilha do conteúdo de
ideologia é, cedo ou tarde excluído. (...) Em quinto lugar, uma ideologia
37
defensiva, para ser funcional, deve ser funcional, deve ser dotada de uma
certa coerência. (...) em sexto lugar, a ideologia defensiva tem sempre um
caráter vital, fundamental, necessário. Tão inevitável quanto a própria
realidade, a ideologia defensiva torna-se obrigatória. Ele substitui os
mecanismos de defesas individuais.
Esta observação é de grande
importância clinica na medida em que é a partir dela que se pode
compreender porque os indivíduos isolados de seu grupo social se encontra
brutalmente desprovido de defesas à realidade a que ele é confrontado.
(DEJOURS, 1992, p. 35/36)
Neste momento é possível deparar-se com a responsabilidade do trabalhador
com sua própria saúde e os mecanismos usados para agravar a situação e
aumentar seu sofrimento no trabalho, afinal de contas ele mesmo o homem, cria as
organizações para submeter-se a elas. Ao mesmo tempo visando encontrar
mecanismos de soluções momentâneas. Não se quer desta maneira isentar a
organização do trabalho, pelo sofrimento do trabalhador, pois a organização opera
em busca pela produtividade desmedida, influenciando diretamente na saúde do
mesmo. A discussão do sofrimento permeia fundamentalmente a responsabilidade
da organização como causa de muitos males ao trabalhador.
Frente a várias situações de trabalho, os indivíduos reagem de formas
diferentes, pois cada um chega à organização com sua história pessoal, suas
próprias vivências e experiências. Então ao entrar numa instituição pode confrontarse com questões que geram conflito, tanto nele, como também nas relações com os
demais que não partilharam das mesmas vivências.
Tanto o individuo como a organização tem ideais diferentes, o indivíduo pode
ir em busca de prazer, porém, com a exigência que o mercado impõem, isso pode
transformar-se em sofrimento, por não levar em consideração a subjetividade do
sujeito.
É fundamental para o trabalhador uma boa relação nas diferentes áreas da
vida humana e esta relação depende dos suportes afetivos e sociais que os
indivíduos recebem durante seu percurso profissional. O suporte afetivo provém do
38
relacionamento com pessoas com as quais é possível compartilhar preocupações,
amarguras e esperanças, de modo que sua presença possa trazer sentimentos de
segurança, conforto e confiança. O suporte social aplica-se ao quadro de relações
gerais que estabelecem-se, naturalmente, entre colegas de trabalho e os demais.
Na existência de fragilidades nos relacionamentos, provocada até então pela
falta dos suportes afetivo e sociais que aparece em grande parte no sofrimento
humano; o reflexo dessa situação não fica restrito à vida privada, estendendo-se ao
campo das relações de trabalho. O trabalhador, ao sentir-se sem alternativa para
compartilhar suas dificuldades, anseios e preocupações, têm aumentado sua tensão
emocional, o que pode levar ao surgimento do sofrimento ocupacional.
Freud em seus estudos, mais especificamente no texto “Mal-estar na
Civilização”, começa a falar sobre as psicopatologias, relacionadas às relações do
sujeito. Para ele a atividade do homem busca duas direções: a busca da ausência
de sofrimento e desprazer e de experiência intensa de prazer.
O prazer relaciona-se à satisfação de necessidades representadas pelo
sujeito, já o sofrimento caracteriza-se por sensações desagradáveis provenientes da
não satisfação destas. Freud diz que o sofrimento ameaça o sujeito na direção do
corpo, do mundo externo e com os outros. Provém da relação que este estabelece
com a realidade.
Pode-se dizer que o trabalho como parte do mundo exterior e envolvido
também com o corpo do trabalhador pode representar tanto uma fonte de prazer
como de sofrimento, dependendo do que é oferecido ao sujeito, levando em
consideração a satisfação ou não dos seus desejos.
39
Em O Mal-Estar na Civilização (1930) Freud aponta que todo sofrimento nada
mais é do que sensação, só existe na medida em que se sente e só sentimos em
consequência de certos mecanismos pelos quais nosso organismo está regulado.
Com efeito, o trabalhador é regulado pela organização e seus pares, assim observase a realidade do sofrer, no corpo, na alma, direcionando a fragilidade ao
adoecimento.
[...] Não é possível, dentro dos limites de um levantamento sucinto,
examinar adequadamente a significação do trabalho para a economia da
libido. Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão
firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este,
pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na
comunidade humana [...] (FREUD, 1930, p. 87-88).
Para Dejours (1994), o sofrimento presente no contexto organizacional
vincula-se a dados relativos à história singular de cada indivíduo e aos aspectos
referentes à sua situação atual, possuindo então uma dimensão temporal que
implica em processos construídos pelo próprio trabalhador no âmbito de sua
atividade. No momento em que a organização do trabalho torna-se autoritária,
ocorre um bloqueio da energia pulsional, que acumula-se no aparelho psíquico do
indivíduo, gerando desta forma, sentimentos de tensão e desprazer intensos.
“A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do
trabalhador, à injunção do empregador contida da organização do trabalho.
Em geral a carga psíquica do trabalho aumenta quando a liberdade de
organização do trabalho diminui”. (DEJOURS, 1994, p. 28)
Buscar o prazer e ficar longe do desprazer são desejos constantes no
trabalhador, porém como as organizações exigem muito e oferecem condições
contrárias as que satisfaria o sujeito, estas relações entre homem/trabalho acabam
gerando desprazer, trazendo com isso sofrimento, que aparecem então em
sintomas. O trabalho transforma-se em necessidade de sobrevivência e não mais
como fonte de prazer.
40
A Psicopatologia do Trabalho centra-se, não mais na direção das doenças
mentais, mas nas estratégias elaboradas pelos trabalhadores para enfrentarem,
mentalmente, a situação de trabalho, e assim elaborarem estratégias psíquicas
defensivas quanto aos trabalhos desestabilizadores. Os indivíduos quando diante de
uma situação de angústia e insatisfação decorrente de seu trabalho, elaboram
estratégias de defesa que acabam por tornar o sofrimento um aspecto velado. Logo,
o sofrimento disfarçado encontrará como meio de eclodir uma sintomatologia, a qual
às vezes apresenta-se com certa estrutura própria a cada profissão ou ambiente de
trabalho. Isso porque, a vida psíquica perpassa pelo funcionamento de todo o
sistema
corporal
integrando-o,
desta
forma
manifestam-se
as
doenças
psicossomáticas.
O sofrimento vivenciado por alguns indivíduos no ambiente de trabalho pode
ser decorrente da incompatibilidade entre a história individual do sujeito, perpassada
por sonhos, desejos, necessidades, projetos, esperanças e uma organização de
trabalho que não considera o indivíduo na sua totalidade. Nesses casos o sofrimento
é desencadeado quando o homem percebe-se impossibilitado de empreender
modificações no ambiente ou na atividade que realiza.
“Sobre o ambiente laboral, (...) quando o rearranjo da organização do
trabalho não é mais possível, quando a relação do trabalhador com a
organização do trabalho é bloqueada, o sofrimento começa: a energia
pulsional que não acha descarga no exercício do trabalho se acumula no
aparelho psíquico, ocasionando um sentimento de desprazer e tensão.
(DEJOURS, 1992)”.
De acordo com Soraya Rodrigues Martins no livro “Clinica do Trabalho”: O
que faz uma pessoa atravessar o limite do razoável durante o exercício da sua
atividade profissional? O que leva uma pessoa a trabalhar até a exaustão? O que
acontece com essa pessoa que parece esquecer-se completamente dos seus
limites, tornando-se indiferente aos sinais evidentes no seu corpo: dor, dor e mais
dor?
41
A Clínica do Trabalho ocupa-se da saúde integral do trabalhador,
especialmente a saúde mental, a qual representa a preocupação com a qualidade
de vida no trabalho, com a identificação de fatores que sejam fontes de tensão,
estresse, adoecimento. Uma abordagem preocupada com a dinâmica do trabalho,
que se refere às raízes do sofrimento psíquico a partir da organização do mesmo.
No ambiente de trabalho o sujeito, dependendo da função que exerce, poderá
desenvolver diversos conflitivas, daí o resgate da importância das condições de
trabalho, das políticas e fatores culturais das organizações, como favorecedores de
um ambiente que pode gerar uma qualidade de vida, tendo a palavra como
mediadora no que tange as relações trabalho/trabalhador e/ou organização.
Segundo Martins (2009), com o estudo da ergonomia e psicodinâmica do
trabalho a organização é contraditória, onde a técnica pode tanto configurar-se como
ordem e/ou desordem. “Nas organizações as leis, as normas e regulamentações
podem formar um corpo de tamanha complexidade chegando a impossibilitar a
execução do trabalho, levando, muitas vezes, as prescrições concebidas para
organizar o trabalho a potencializar a desorganização, gerando mais angustia e
sofrimento”. (p.65).
Uma das maneiras de trabalhar o sofrimento nas organizações é proporcionar
o espaço de fala. É por meio desse espaço que o trabalhador consegue conhecer o
seu verdadeiro trabalho, que antes estava parcialmente escondido pelo sofrimento e
as defesas contra o sofrimento. Onde este trabalhador possa através da clinica do
trabalho reelaborar as suas atividades realizadas e dar, se necessário uma nova
visão ao que faz. Dejours 1993, “O espaço de palavra não é necessário apenas para
as arbitragens, ele é o lugar onde se desenrola o processo de reconhecimento e da
filiação.” (p.169).
A noção de sofrimento é fundamental para Dejours, implica antes de tudo, um
estado de luta do sujeito contra as forças que o estão empurrando em direção à
42
doença mental. E ainda outra base da teoria de Dejours é o papel da organização do
trabalho, pois é aí que na organização do trabalho que devem ser procuradas estas
forças.
Com o crescimento do interesse pelas perturbações psíquicas decorridas do
trabalho. Na década de 80 muda-se a perspectiva de trabalho, pois passam a
acreditar que as patologias são desencadeadas pelas relações de trabalho, incluindo
além das relações pessoais, a questão do ambiente, condições físicas e psíquicas,
organização da instituição, divisão de tarefas, entre outros.
Atualmente as investigações acerca das psicopatologias do trabalho
desenvolvem ações no sentido de entender como os trabalhadores relacionam-se
com seu trabalho e tudo que o envolvem, quais as estratégias usadas para enfrentar
situações difíceis que podem desencadear sofrimento ao trabalhador.
Podemos situar que o confronto entre o sujeito e a organização se dá: pelo
encontro do que é parte do registro simbólico do sujeito e o que é registro da
realidade, ou seja, pelo o que é produzido pelo sujeito, o que ele imagina que
acontecerá e o que se apresenta na realidade, o que é produzido pela situação de
trabalho. Mas também pode-se pensar em outro ponto, o encontro entre o registro
da história do sujeito, suas vivências e o registro social e histórico das relações de
trabalho.
O sujeito desta forma aliena-se, por não darem um lugar onde possa
posicionar-se, questionar, tomar frente das decisões, pois quase sempre o sujeito só
recebe ordens sem poder indagá-las. Fazendo com que este seja impedido de
expressar aquilo que é do seu desejo, sendo este visto como empecilho no
funcionamento da produção de trabalho. O trabalho humano na atualidade é um
lugar que exige o desconhecimento de falhas e é intolerante quanto ao que se refere
ao sujeito.
43
O mercado hoje não apresenta garantias ou validades e os sujeitos precisam
estar
constantemente
reinventando
para
acompanhar
o
ritmo
da
contemporaneidade. As coisas mudam muito rápido, inclusive o lugar que está
sendo hoje ocupado por um indivíduo amanhã pode ser de outro, isso devido ao alto
grau de produtividade aliado a diminuição do tempo.
Como dito anteriormente não pode haver falhas, procura-se a eliminação dos
erros, produtos e serviços de ótima qualidade, onde a castração deve ser
tamponada. Mas não é assim que o humano consegue lidar, este possui limites,
afinal não é uma maquina, apesar de utilizar-se dessa mão-de-obra como se fosse
mecanizada, sem singularidade, ao falharem, ocorrem acidentes de trabalhos ou
ainda o que está ocorrendo em excesso são os atestados médicos por algum
sofrimento, que na maioria dos casos advindo do trabalho. Martins (2009) “... no
centro do processo de banalização do mal está o sofrimento articulado às
estratégias defensivas. Para negar o que sente, o sujeito desenvolve a intolerância
para com o sofrimento alheio”. (p. 84).
O sofrimento tanto psíquico quanto orgânico do trabalho é o resultado das
pressões psíquicas dele mesmo, nos moldes taylorista, onde há a separação entre
concepção de trabalho e execução das atividades realizadas.
Pelo fato de o trabalhador não conseguir pensar sua atividade, este impõe a
aceleração de seu ritmo de trabalho, aumentando ainda mais sua capacidade de
não pensar. Essa situação promove no trabalhador a fadiga e a paralização do seu
funcionamento psíquico tornando alienado e mecanizado.
O ato de não pensar faz com que o trabalhador procure manter-se ocupado o
tempo todo, seja com atividades domésticas ou com outra jornada de trabalho,
dessa maneira o sujeito acha uma maneira de se defender, de modo a anestesiar
44
sua subjetividade. Uma atividade onde o sujeito não pode aparecer ou quando
aparece ocorre algum acidente como na construção civil, pois estão lidando com o
risco de morte eminente, por isso armam estratégias de defesa para que não se
deem conta deste risco, onde não param para pensar sobre o trabalho que realizam
pois se isso acontece estes não suportariam estar ali.
A saúde dos trabalhadores, pautadas no sofrimento somente torna-se
preocupação para as empresas quando há uma interferência na produtividade e na
eficácia da mesma. Por isso, com frequência buscam saídas para acabar com o
sofrimento.
Segundo Dejours (1992) essa tentativa é absurda, já que o os trabalhadores
não hesitam em enfrentar os problemas existentes no trabalho. No qual, o
sofrimento nessas condições, adquire um sentido para sua existência, onde a cada
nova descoberta que o trabalhador fizer, o sofrimento se afastará temporariamente,
e quando ele ressurgir o trabalhador deverá experimentar outras formas de combate
ao sofrimento.
Por isso podemos pensar que a subjetividade do sujeito é algo que precisa
estar o tempo todo reorganizando-se, reinventando-se, para que o sofrimento não
tome conta do indivíduo e possa conviver de maneira saudável, ao mesmo tempo
em que esse sofrimento possa ser utilizado em benefício da própria saúde do
trabalhador e da sua produtividade.
Para compreender melhor a origem do sofrimento subjetivo a partir de
Dejours (1992), é o que se problematiza na relação do sujeito com o objeto. Onde
ele diz que: “o sofrimento começa quando a evolução desta relação é bloqueada”.
(p.49). Na qual o sentido do trabalho passa pela condição simbólica da relação do
trabalhador com seu trabalho representado no objeto. Essa representação no objeto
será determinada no sofrimento e no prazer do trabalho.
45
Ao modo que o objeto que o trabalhador produz diz respeito a sua própria
historia e subjetividade, a partir de investimento direcionado a essa produção, na
medida em que o objeto diz respeito ao seu trabalho e ao sentido que o sujeito lhe
destina. “A significação em relação ao Objeto põe em questão a vida passada e
presente do sujeito, sua vida intima e sua historia pessoal. De maneira que, para
cada trabalhador, esta dialética do Objeto é específica e única.” (DEJOURS, 1992,
p. 50).
Portanto o trabalho não representa somente as questões objetivas como
salario, manutenção das necessidades de sobrevivência, mas também representa
um caráter simbólico que trata da relação psíquica do sujeito com o objeto que
produz. Considera-se ainda a representatividade do trabalho na formação da
subjetividade e os impactos dessa produção em nível de reconhecimento social.
Para melhor esclarecer essa relação do sujeito com o objeto Dejours (1992) afirma:
“O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto: ao mesmo
tempo que a atividade de trabalho comporta uma significação narcísica, ela
pode suportar investimentos simbólicos e matérias destinados a um outro,
isto é, ao Objeto”. (p.50)
Isso quer dizer que o trabalho, implica em produzir algo e ao trabalhador dar
um significado a essa produção, dando algum sentido aquilo que produziu.
Ao evidenciar a relação do homem com seu trabalho e principalmente dar
sentido simbólico ao objeto produzido pelo mesmo é possível observar também o
que ocorre quando algo dessa relação se problematiza quando essa relação fica
mecanizada. Nesse momento aparece a insatisfação como ponto nodal ao
sofrimento, quando há falta de caráter humano na produção pela repetição
mecanizada que tira o sentido do fazer, alienando e fazendo sofrer.
46
“O sofrimento começa quando a relação homem-organização, do
trabalho está bloqueada; quando o trabalhador usou o máximo das suas
faculdade intelectuais, psicoafetivas, de aprendizagem e adaptação. Quando
um trabalhador usou de tudo de que dispunha de saber e de poder na
organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar de tarefa, isto é,
quando foram esgotadas os meios de defesa contra as exigências físicas. (...)
A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir
marca o começo do sofrimento.” (DEJOURS, 1992, p. 52).
Dejours faz uma distinção entre insatisfação como fadiga e cansaço pela
carga de trabalha, insatisfação advinda da ergonomia do trabalho (pelas suas
condições ambientais) e uma possível insatisfação de ordem mental e não física
ligada ao prazer e necessidade. Por isso a necessidade não somente de
compreender, mas o fundamental de investigar o sofrimento, através da escuta dos
próprios funcionários.
Então referente ao sofrimento e a insatisfação pode-se dizer que a
insatisfação com o trabalho trata do significado do trabalho e do conteúdo simbólico
depositado nele, e ainda a relação do sujeito com sua tarefa.
Dejours ainda traz mais uma forma de sofrimento, o medo, na qual este
também causa sofrimento e desenvolve mecanismos de defesa, frente aos riscos
reais e definidos implicitamente, por um grupo este medo do risco que é real, mas
fica implícito afinal não pode aparecer, atinge desta forma a saúde mental dos
trabalhadores.
“Justificado pelos fatos, esse medo é parte integrante da carga de
trabalho. O medo, seja proveniente de ritmos de trabalho ou de riscos
originários das más condições de trabalho destrói a saúde mental dos
trabalhadores de modo progressivo e inelutável, como o carvão que asfixia os
pulmões do mineiro com silicone. (DEJOURS, 1992, p. 74).
Como se já não fosse suficiente estas causas de sofrimento, ainda existem
as organizações que através de sua gestão dificultam as relações de trabalho, seja
ainda pelo sistema taylorista ou por ações que contribuem para o afastamento da
47
equipe, como por exemplo, a rigidez nos setores, a centralização do poder,
autoritarismo ou pela interferência das relações pessoais nas decisões. Aumentando
assim a competitividade interna entre os funcionários, sem falar em competição
externa entre empresas e outros profissionais da mesma área e a cobrança
excessiva entre os próprios funcionários, muitos vezes mediada pelos gestores, para
aumento de produção e assim lucratividade.
Em vista disso se o sofrimento é inevitável é preciso erigir estratégias de
como lidar com o sofrimento no trabalho, como por exemplo, o mecanismo de
defesa. “Mesmo intenso, o sofrimento é razoável bem controlado pelas estratégias
defensivas, para impedir que se transforme em patologia”. (DEJOURS, 1992, p.
120).
Contudo, há casos em que o trabalho é favorável ao equilíbrio mental e a
saúde corporal, uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura
mental do indivíduo é possível, para tanto é necessário que algumas condições ou
pelo menos uma delas, seja realizada. Estas consistem em que as exigências
(intelectuais, motoras, psicossensoriais) da tarefa estejam de acordo com as
necessidades do trabalhador, onde o exercício da tarefa proporcione prazer; outro
aspecto diz respeito ao conteúdo do trabalho enquanto fonte de satisfação
sublimatória (situação, diga-se de passagem, muito rara e só encontrada em
situações privilegiadas) onde o trabalhador pode modificar a organização do seu
trabalho de acordo com seus desejos e necessidades, ou seja, sendo o trabalhador
responsável pelo conteúdo, ritmo de trabalho, modo operatório. Dejours 1992
ressalta que, essas características aqui mencionadas não eximem que, em algum
momento, o trabalho não venha a apresentar um conteúdo de sofrimento, mas o
prazer do trabalho permite uma melhor defesa e estruturação física e psíquica, pelo
menos a priori.
Mas estes fatores, não condizem com a maioria dos casos propiciados pelas
relações de trabalho, isso porque a divisão crescente do trabalho (sistema
48
Taylorista) compromete as possibilidades de realização pessoal diante da atividade
laboral e diminui a escolha e a livre estruturação da tarefa. A organização do
trabalho cada vez mais autoritária, rígida e parcelizante despersonaliza o trabalhador
e abole da atividade de trabalho a identidade, o que impossibilita uma manifestação
mais autêntica da subjetividade, destituindo o trabalho de significado pessoal.
Segundo a psicanalise o sujeito, investe fundamentalmente no seu processo
de socialização e como integrante de um grupo social, estando marcado pela pulsão
de vida e pulsão de morte. Na qual Freud (1920) em “Além do princípio do prazer”
propõe nesta questão que o investimento pulsional deve ser entendido a partir
desses dois investimentos, sendo o principio de prazer regido pela pulsão de morte
(original pulsão de conservação). Na qual possui a finalidade de baixar as tensões e
proporcionar prazer imediato às necessidades do ser humano. Esta refere-se ao
impulso de voltar um estado sem tensão, a inércia, por isso é considerada uma
pulsão de morte. Uma vez que a pulsão de vida (original pulsão sexual) marca o
principio da realidade, permitindo que o sujeito esteja sempre atrás de algo que lhe
falta.
“Trabalha contra a morte da substancia viva e têm êxito em
conseguir para ela o que só podemos encarar como uma imortalidade
potencial, ainda que isso possa significar nada mais do que um alongamento
da estrada da morte”. (FREUD, 1920, p. 51).
Considerada como pulsão de vida, na medida em que opera contra a pulsão
anterior, prolongando os investimentos, achando novas saídas para aqueles que
possam ser satisfeitos. No entanto elas alteram-se, uma vez que a primeira pode ser
compreendida como finalidade de preservar o ego, promovendo assim a repetição,
passando do princípio de prazer, onde o objetivo é baixar o nível de tensões, para a
compulsão a repetição, dentro do princípio da realidade.
Desta forma faz-nos pensar como estes mecanismos subjetivos operam na
organização e assim no grupo de trabalho considerando que não é possível neste
49
modelo manter o caráter narcisista e individual da busca de prazer, pois em uma
organização o trabalho na maioria das vezes é fragmentado, pelos setores. Há no
trabalho a subjetividade, ora explicita e ora latente, mas que certamente adapta-se
aos mecanismos deste meio.
É notável que a organização do trabalho implique nas relações de grupo e os
mecanismos que essa interação envolve. Com isso, é possível compreender melhor
a formação de grupo e a passagem do campo individual para a formação subjetiva a
partir das relações sociais fundamentais do individuo.
Portanto ao falar das pessoas de uma instituição, estão falando de um grupo
e não separadamente destas, na qual, apresenta influências mútuas e um conjunto
de normas e regras construídas e definidas de comum acordo que influenciam a
interação dos membros e criam objetivos comuns. O que não se pode esquecer que
essas regras, normas, na sua maioria são explícitas, possíveis de se ler, digamos
em um regulamento, mas as implícitas, como os mecanismos de defesa.
Desta maneira o grupo proporciona o apagamento de muitas diferenças
particulares e da subjetividade em prol da coletividade, permitindo ao indivíduo agir
de forma diferente de como agiria individualmente. Quando o indivíduo iguala-se ao
outro do grupo diminui assim a necessidade de rivalizar, evitando o conflito com os
membros com os quais então assim identifica-se.
A identificação permite a adaptação dos interesses inconscientes e da
coletividade, através da condição de ver-se no outro por algumas características
próximas. Assim Freud (1921) apreende o mecanismo que provoca a ligação entre
os homens, a saber, o objetivo de preservar o sujeito, pois para satisfazer o
narcisismo, para continuarmos investindo no próprio ego é necessário o outro.
50
É preciso que o indivíduo deixe de lado ideal do ego e seu egoísmo narcísico
da primeira infância e o substitua pelo ideal do grupo, na medida em que modifica
seu narcisismo autossuficiente para a descoberta do objeto externo, ou seja, pela
possibilidade de identificar-se e buscar satisfação na coletividade.
Ao falar de grupo não há como não deixar de falar de líder. Segundo Freud
citando o mito antigo da horda primitiva, retoma o assassinato do pai e a rivalidade
dos irmãos para destacar a necessidade de um líder aceito pelo grupo. Onde os
irmãos matam o pai e a função deste é simbolizada pela necessidade de ter alguém
que assuma o amor e o ódio dos membros do grupo. Assim ao invés dos irmãos
rivalizarem até a morte eles optam por colocar alguém no lugar do pai, ou seja,
percebem a impossibilidade de um grupo existir sem um líder.
Desta forma o líder apresenta a capacidade de comandar e influenciar.
Nestes moldes líder não é um cargo instituído, mas uma autoridade subjetiva, que
influencia os demais membros a partir da capacidade destes em identificarem-se
com o mesmo. E esta identificação acontece através das questões subjetivas de
cada indivíduo e dos ideais pessoais, bem como da percepção daquilo que o líder
pode contribuir para que o grupo possa atingir seus objetivos.
Neste intuito, a relação do grupo na organização pode ser limitador ou
organizador do trabalho, dependendo do líder e daquilo que a organização demanda
ao grupo.
As ideologias coletivas de defesa são uma forma do grupo enfrentar a
realidade a partir da sua subjetividade e das demandas do grupo que está inserido,
ou seja, uma visão própria da realidade de trabalho com o objetivo de evitar o medo.
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Segundo Dejours (1992) elas funcionam a partir de uma logica rigorosa
representada por um sistema de proibições de comportamentos, ignorando e
silenciando sobre aquilo que produz medo, contam também com a valorização do
discurso heroico e consequentemente de permissão ao desafio do perigo, quebras
de segurança coletivas e ludicidade. Portanto, nota-se que esse sistema permite
uma forma mais amena de lidar com o medo e de relacionar-se com o grupo
interagindo de forma integrada, mas não elimina o risco. Pelo contrário, ao mesmo
tempo em que defende o trabalhador do medo, aumenta os perigos a sua saúde.
Em vista disso, a organização dos grupos interfere diretamente no
andamento, estrutura e produtividade da organização. Um falta de integração na
percepção do grupo ou até mesmo nos mecanismos rígidos de defesa poderiam de
alguma forma prejudicar o crescimento e desenvolvimentos da organização. Neste
intuito investiga-se como os trabalhadores se organizam frente às especificidades do
trabalho. Do que se defendem e como percebem as situações de sofrimento e até
mesmo prazer no trabalho.
E ainda a preocupação com a saúde integral aponta a completa discordância
da origem teórica do sistema Taylorista que concebe o seu mecanismo de controle
de tempo e movimento a adaptar o homem-macaco ao trabalho.
“Taylor estava errado. O que parece correto do ponto de vista da
produtividade é falso do ponto de vista da economia do corpo. Pois o operário
é o efetivamente o mais indicado para saber o que é compatível com sua
saúde. Mesmo se o seu modo operatório não é sempre o mais eficaz do
ponto de vista do rendimento em geral, o estudo do trabalho artesanal mostra
que, via de regra, o poerario consegue encontrar o melhor rendimento de que
é capaz respeitando seu equilíbrio fisiológico e que, desta forma, ele leva em
conta não somente o presente mas também o futuro.” (DEJOURS, 1992, p.
42).
Então pode-se dizer que nos tempos em que o homem produzia para si ou
para o seu povo, o trabalho era formador de identidade? Ou ainda, o trabalho
através da exploração e de seu envolvimento com o trabalho, poderia produzir
52
significação e prazer em seu trabalho? Dentro de visão psicológica, uma pessoa que
realiza um determinado trabalho ou que faz parte de determinada empresa, produz
assim sua identidade. Desta forma esta empresa, ou a sua profissão lhe possibilitará
um lugar no social, um reconhecimento, uma espécie produção de significação
social.
Portanto existe algo de recíproco entre o trabalho e aquele que o produz uma
relação de troca, em que o trabalho estabelece um lugar ao sujeito, mas, para isso
acontecer este também deve fazer certo investimento. Uma forma de garantia, onde
possa explicitar e imprimir sobre ele parte de sua individualidade e subjetividade.
Neste sentido o trabalho faz parte da vida e do cotidiano do sujeito, estabelecendo
neste a sua marca, uma significação e vice-versa. Também a escolha do sujeito por
um determinado setor de trabalho, de acordo com as suas peculiaridades, poderá
determinar posteriormente a sua realização e produtividade.
Então com pode ser visto o trabalho é produção não só de sofrimento, mas de
significação, ou seja, não se pode conceber o trabalho ou processo deste sem antes
interrogar-se a respeito da sua própria utilização ou sem ter razão social para isso.
Como já visto o trabalho é também uma forma de produzir identidade, e isto significa
dizer estabelecer traços mais ou menos contínuos, onde o trabalhador poderá
reconhecer-se e fazer-se reconhecer no social. Este reconhecimento capaz de ser
produzido pelo trabalho é o que estabelece a noção de pertencimento a um grupo,
ou seja, o trabalhador não está sozinho é pertencente a um grupo social, e ali
reconhecido e recebe seu valor. E desta forma uma saída a uma tentativa de bemestar a partir da vida privada ligada as relações de trabalho.
53
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após todo estudo e pesquisa realizada de trabalho de conclusão de curso,
fica o sentimento de se ter avançado um pouco mais a cerca da inserção do homem
no ambiente de trabalho e nas relações sociais advindo desta inserção. Além disso,
um pouco mais foi desenvolvido a respeito do prazer e do sofrimento, que a relação
e o processo de trabalho podem originar.
A implicação do trabalhador ao processo de trabalho não só pode ser
decorrente de alienação e insatisfação. Em alguns casos há a possibilidade de haver
um sujeito, este desejante, onde, é possível haver satisfação, proporcionando prazer
no seu fazer. Por isso uma das maneiras de trabalhar o sofrimento nas organizações
é proporcionar o espaço de fala. É por meio desse espaço que o trabalhador
consegue conhecer e reconhecer o seu verdadeiro trabalho, que antes estava
parcialmente escondido pelo sofrimento e as defesas contra o sofrimento. Onde este
trabalhador possa através da clínica do trabalho reelaborar as atividades realizadas
por ele, e dar se necessário uma nova visão e/ou elaboração ao que faz.
Até porque neste estudo também ouve uma preocupação sobre um melhor
entendimento da psicologia dentro das organizações, bem como a saúde do
trabalhador, pondo em choque a estrutura organizacional do trabalho.
Pensar que saúde mental em uma organização, é quando o indivíduo é visto
como sujeito podendo reconhecer e expressar seus próprios afetos gerados no
âmbito de trabalho, e principalmente a significação que ele atribui ao seu trabalho
evitando assim possíveis adoecimentos decorrentes do mesmo.
Em vista do contexto organizacional, levando em conta que não se deve
eliminar o sofrimento, justamente por este fazer parte do trabalho, mas sim tentar
54
compreender como tal sofrimento é produzido na relação de trabalho possibilitando
sua elaboração por parte do trabalhador.
Pois mercado hoje não apresenta garantias de segurança, onde, os sujeitos
precisam estar constantemente se reinventando para acompanhar o ritmo da
contemporaneidade. As coisas mudam muito rápido, inclusive o lugar que o
individuo hoje ocupa pode ser de outro amanhã, devido ao alto grau de rotatividade
e maior produtividade aliado à diminuição do tempo.
Pelo fato de o trabalhador não conseguir pensar sua atividade, devido a
aceleração de seu ritmo de trabalho, aumentando ainda mais sua capacidade de
não pensar e assim não criar. Essa situação promove no trabalhador a fadiga e a
paralização do seu funcionamento psíquico, de forma a acomodar.
Para permanecer no ato de não pensar o trabalhador procure manter-se
ocupado o tempo todo, é dessa maneira que o sujeito se defende, de modo a
anestesiar sua subjetividade, ou até mesmo de colocá-la em evidência quando
ocorre um acidente no seu espaço laboral. Entrando aí as estratégias de defesa
para que não se deem conta deste risco, onde não param para pensar sobre o
trabalho que realizam, se não, muitos talvez não estariam ali.
Como foi visto o trabalho não representa somente as questões objetivas como
salário e manutenção das necessidades de sobrevivência, mas muito mais que isso,
representa um caráter simbólico que trata da relação psíquica do sujeito com o
objeto que produz. Considera-se ainda a representatividade do trabalho na formação
da subjetividade e os impactos dessa produção à nível de reconhecimento social.
As representações subjetivas implicam também dar um significado/sentido ao
que produz, essas representações são fundamentais a saúde do trabalhador, se não
55
houverem, o individuo se torna um mero instrumento de produzir tarefas, préestabelecidas ou melhor instrumento para viabilizar a produção do objeto.
Como possibilidade de equilíbrio a cerca do sofrimento e a insatisfação é
preciso dar significado ao trabalho e do conteúdo simbólico depositado nele, e ainda
a relação do sujeito com sua tarefa, podendo descarregar toda sua carga psíquica
que desempenha, aguçando cada vez mais sua capacidade de criação e autonomia.
Notou-se que a organização do trabalho implica nas relações de grupo e os
mecanismos que essa interação envolve. Com isso, é possível compreender melhor
a formação de grupo e a passagem do campo individual para a formação subjetiva a
partir das relações sociais fundamentais do individuo, que o levam a poder obter um
lugar no mercado de trabalho e nas relações de trabalho.
Em vista disso, compreende-se que a organização dos grupos interferem
diretamente no andamento, na estrutura e produtividade da organização. Uma falta
de integração no grupo podem prejudicar o crescimento e desenvolvimentos da
organização. Nesta perspectiva foi possível investigar como os trabalhadores se
organizam frente às especificidades do trabalho e como percebem as situações de
sofrimento e até mesmo prazer no trabalho.
Como não era meu intuito somente achar respostas, mas levantar mais
questões e hipóteses sobre o trabalhador e suas relações advindas do contexto
organizacional do trabalho; então, uma questão que ficou seria de que é somente a
organização do trabalho que produz sofrimento ou há uma espécie de jogo entre o
trabalhador e o trabalho, para que ele permaneça nesse sintoma, ou na repetição de
sofrimento e insatisfação?
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Então o trabalho é um influenciador no projeto de vida, na afetividade e a vida
psíquica do sujeito, por isso deve ser enfatizada a presença de um psicólogo nas
organizações como um profissional que vai lançar um olhar clínico de atenção à
singularidade de cada trabalhador, para assim, tais organizações obterem sujeitos
mais realizados através das suas atividades produtivas.
Afinal de contas são várias as possibilidades de o sujeito se reorganizar
quanto a qualquer questão que lhe faça sofrer, ou proporcione prazer. Pois não é
nada fácil de poder chegar a definir qual ambiente de trabalho, ou, um lugar onde o
trabalhador possa produzir acerca dos seus desejos e de suas realizações tanto
privada como no social.
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Revista espanhola El País “La Fábrica del Mundo” © EDIÇÕES PAÍS SL - Miguel
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http://www.espacosocialista.org/node/39 acesso em 03 de novembro de 2011
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=181 acesso em 07 de
novembro de 2011
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FERNANDA DA SILVA MORINI UM OLHAR PARA O SOFRIMENTO