João Vitor Rodrigues Gonçalves Gramática da Amizade: um estudo sobre Comunicação e a construção das emoções nas redes sociais online Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação Social da PUCRio como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação. Orientador: Profª. Cláudia da Silva Pereira Rio de Janeiro Março de 2012 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e do orientador. João Vitor Rodrigues Gonçalves Graduado em Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2005. Pós-graduação lato sensu em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas, em 2008. Coordenador de Relacionamento Digital na Infoglobo Comunicações, tendo como principais atividades a produção de conteúdo e o relacionamento com clientes nos sites de redes sociais. Agradecimentos A minha orientadora Professora Cláudia Pereira por acreditar nesta pesquisa e pelo seu trabalho bem planejado e organizado. A minha mãe pelo valor que sempre deu à educação de seus filhos, possibilitando que eu chegasse até aqui. Ao Rodrigo Cobra pelo apoio em todas as horas, a paciência e a compreensão durante os últimos dois anos, em especial os últimos meses, período dedicado à produção desta pesquisa. Ao Márcio Gonçalves, primo, que sempre se manteve como referência na família e colaborou nesta pesquisa com discussões e diversos livros. A Bianca Leite Dramali, pessoa que me impulsionou ao Mestrado e sempre me deu muita força para essa conquista. A Karine Karam, Isabella Cardoso e Simone Pinto pela força e pela motivação e por terem permitido que eu pudesse realizar o Mestrado conciliando-o com minha atividade profissional. Aos meus amigos, Cristiano Martins, Luciano do Valle e Marcel Souza por permanecerem ao meu lado mesmo nos momentos em que eu mais estive ausente durante os dois últimos anos. A Barbara Robichez Muller por reconhecer o valor dessa conquista e sempre me estimular a seguir em frente. A todos os amigos e familiares que sempre me estimularam e me apoiaram durante esses anos. Resumo Gonçalves, João Vitor Rodrigues. Gramática da amizade: um estudo sobre Comunicação e a construção das emoções nas redes sociais online. Rio de Janeiro, 2012, 100p. Dissertação de Mestrado. Departamento de Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Como emoção e sentimento, todos sabem o significado de uma amizade. De Aristóteles aos cientistas sociais, que buscam compreendê-la sob os aspectos da Antropologia das Emoções, a relação entre as pessoas unidas por esse sentimento não parece ter sido modificada ao longo dos séculos. Com a internet, a amizade recebeu o suporte de ferramentas de comunicação mediadas pelo computador, que permitiram aos amigos manter contato com mais frequência, trocar e compartilhar, bater papo. O Facebook, uma dessas ferramentas, é um site de rede social que conecta amigos. No espaço social de interação que vem se tornando esse site, os amigos reproduzem os códigos da relação existentes fora da rede social online. Quais são esses códigos e como eles são reproduzidos no online, como no offline, são os pontos sobre os quais esta pesquisa pretende avançar. Esses tais códigos compõem a gramática da amizade, analisada aqui a partir da comunicação mediada pelo computador, através do Facebook, e pelo contexto interacional pré-existente ao surgimento desse site de rede social. Palavras-chave Redes Sociais; Amizade; Antropologia das Emoções; Facebook. Abstract Gonçalves, João Vitor Rodrigues. Grammar of friendship: a study on Communication and the construction of emotion in online social networks. Rio de Janeiro, 2012, 100p. Dissertation. Departamento de Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. As emotion and feeling, everyone knows the meaning of friendship. From Aristoteles to social scientists, seeking to understand it under the aspects of the Anthropology of Emotions, the relationship between people united by this feeling seems to have not been modified over the centuries. With the internet, friendship received the support of tools for computer-mediated communication, allowing friends to stay in touch more often, exchanging and sharing, chatting. Facebook, one of these tools, is a social network site that connect friends. In the space of social interaction this site has became, friends reproduce the codes of the relationship existing outside the social network online. What are these codes and how they are played online, as offline: these are the points on which this research intends to move forward. These codes make up the grammar of friendship, analyzed here from computer mediated communication, through Facebook, and the interactional pre-existing context to the emergence of this social networking site. Keywords Social Networks; Friendship; Anthropology of Emotions; Facebook. Sumário Introdução 9 1. O indivíduo, a sociedade, a tecnologia e as emoções 17 1.1. Do indivíduo sociológico às emoções compartilhadas 17 1.2. Da tecnocultura à cibercultura 21 1.3. Comunicação e Cibercultura 25 1.4. A internet e a comunicação mediada pelo computador 28 1.5. O desenvolvimento dos estudos de redes sociais 29 1.5.1. Elementos das redes sociais 31 1.6. Abordagem relacional da interação e a antropologia das emoções 42 2. Facebook: metodologias aplicadas à interação em um site de rede social 47 2.1. Do que é feito um site de rede social 47 2.2. Metodologia da pesquisa 50 3. Antropologia das emoções e o Facebook 68 3.1. Interações e relações sociais mediadas pelo computador 69 3.2. A globalização e o sujeito individualista 73 3.3. Interações sociais e a expressão do sentimento 77 3.4. Expressão dos sentimentos e linguagem 80 3.5. Desvendando a relação de amizade no Facebook 84 3.5.1. Gramática da amizade 97 3.5.1.1. Amigos não se encaixam em categorias, são decorrentes de laços fortes 97 3.5.1.2. A reciprocidade nas trocas 98 3.5.1.3. Mais do que o número de amigos, quero saber de quem me interessa 99 4. Considerações finais 104 5. Referências Bibliográficas 107 Lista de figuras Figura 1 – Perfil de usuário no Facebook 32 Figura 2 – Interação entre usuários no Facebook 39 Figura 3 – Comentário que gerou respostas para o usuário 55 Figura 4 – Publicação no mural de uma amiga 55 Figura 5 – Lista “melhores amigos” e as pessoas incluídas nela 58 All the modern things Like cars and such Have always existed They've just been waiting in a mountain For the right moment Listening to the irritating noises Of dinosaurs and people Dabbling outside It's their turn now... Björk, The Modern Things Introdução Compartilhar. “Ter ou tomar parte em; participar de; compartir, partilhar 1”. À definição do dicionário poderia se acrescentar termos como “postar”, “publicar no mural” no Facebook 2. Depois da primeira experiência com o Orkut 3, o site de rede social surgido em 2004, quando os internautas então aprenderam como criar uma identidade através de um perfil na rede para buscar e encontrar outros usuários, trocar mensagens e demonstrar suas preferências e gostos em comunidades, compartilhar e curtir são os verbos que regulam a interação no site de rede social Facebook. Nascido no mesmo ano do Orkut, o Facebook já ultrapassou os oitocentos milhões de usuários em todo o mundo, conforme anúncio feito pelo fundador do site, Mark Zuckerberg, em evento 4 oficial da empresa em setembro de 2011, quando também anunciou recentes mudanças no layout do site. A princípio não muito diferente de seu antecessor, o Facebook vem se mantendo na preferência dos usuários como o site de relacionamentos para encontrar e manter listados os amigos próximos e distantes, colegas, parentes, conhecidos e novos contatos, entre outros. Redes sociais digitais não são um sinônimo de um dado momento da sociedade, dominada pela cultura digital. Tampouco estão relacionadas apenas ao desenvolvimento e à expansão da rede mundial de computadores, a internet 5. Watts (2009) explica redes como um conjunto de objetos de alguma forma conectados, que podem ser desde pessoas em uma rede de amigos ou em uma empresa até roteadores na internet ou neurônios no cérebro. Recuero (2009) atualiza o conceito de rede social definindo-a como um conjunto de atores e conexões. Os atores são pessoas, instituições ou grupos, representados pelos nós da rede. E as conexões são as interações ou laços sociais. Dessa forma, a rede se torna “uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores.” (Recuero, 2009, p.24). 1 Mini Aurélio Escolar Século XXI, 2001 www.facebook.com 3 www.orkut.com 4 O Facebook não revela oficialmente em seu site estatísticas com o número de usuários, porém nesse evento, seu fundador confirmou essa informação. Mais informações em f8 http://on.fb.me/s8bvZ4 5 Nesta pesquisa, internet será grafada com letra minúscula seguindo padrão e metodologia escolhidos por Fragoso et al. (2011, p.23), em que afirma que a utilização da letra maiúscula sugere ao termo tratar-se de nome próprio ou de lugar. 2 10 Aliados a essa metáfora de redes e às mudanças trazidas para a sociedade pelo advento da Comunicação Mediada pelo Computador (CMC) 6, que vem alterando “as formas de organização, identidade, conversação e mobilização social” (Recuero, 2009, p.16), encontram-se os sites de redes sociais na internet, como pode ser assim considerada “toda ferramenta que for utilizada de modo a permitir que se expressem as redes sociais suportadas por ela” (Recuero, 2009, p.102). Esses sites são “uma consequência da apropriação das ferramentas de comunicação mediada pelo computador pelos atores sociais”, segundo Recuero (2009, p.102). O Facebook é o que possui o maior número de usuários ativos desde o final de 2011. As ferramentas de que os atores participantes da comunicação mediada pelo computador apropriaram-se, como os sites de redes sociais, permitiram a eles que pudessem construir sua presença na rede através de dados como nomes, fotos, data e local de nascimento, cidade onde vivem, gostos musicais e mais informações, definindo assim uma identidade nesses sites. Além disso, possibilitaram interagir e comunicar-se com outros atores. Com isso, a partir da década de 90, conforme aponta Recuero, o estudo de redes sociais tem uma nova perspectiva, pois as indicações, ou rastros, deixados por eles na comunicação, interação e conversação com outros atores na rede de computadores “permitem o reconhecimento dos padrões de suas conexões e a visualização de suas redes sociais através desses rastros.” (Recuero, 2009, p.24). Dessa maneira, “é neste âmbito que a rede como metáfora estrutural para a compreensão dos grupos na Internet é utilizada através da perspectiva de rede social.” (Recuero, 2009, p.24) O estudo das redes sociais na Internet, assim, foca o problema de como as estruturas sociais surgem, de que tipo são, como são compostas através da comunicação mediada pelo computador e como essas interações mediadas são capazes de gerar fluxos de informações e trocas sociais que impactam essas estruturas. (RECUERO, 2009, p. 24) E foi diante dessa nova possibilidade de estudar as conexões entre os indivíduos através da perspectiva dos estudos de redes sociais, e frente ao fenômeno dos sites de redes sociais, que surgiu o interesse por investigar o objeto 6 “Originalmente, a CMC era definida como uma forma de comunicação eletrônica escrita, mas o termo passou a ser usado para se referir a um amplo âmbito de tecnologia que facilita tanto a comunicação humana quanto a partilha interativa de informação através de redes de computador.” (Braga, 2008, p.41) 11 desta pesquisa. Além de tornar-se mais uma das ferramentas apropriadas na comunicação mediada pelo computador, um espaço social de interação, e de ter um alcance significativo frente ao número de pessoas com acesso à internet no mundo 7, o Facebook chamou atenção para a necessidade da presente pesquisa, que parte da premissa de que ele está interferindo ou modificando códigos ou condutas de comportamento a partir da interação no seu ambiente digital. Segundo Braga (2008), no processo de interação social que ocorre no interior dos ambientes da internet, as estratégias são individuais e grupais, adquiridas por apropriação de regras já estabelecidas em outros contextos relacionais. Ali, os comportamentos serão moldados caso a caso, conforme “demandas situacionais, anteriores a uma codificação formal explícita ou mesmo tácita, que se consolidará com a sedimentação de uma cultura da atividade online” (Braga, 2008, p.16). No que se refere especificamente à amizade, nos sites de redes sociais ela é aquilo que estabelece a conexão entre os participantes. Bastaria encontrar e enviar um convite para ser adicionado à lista de amigos de outro usuário para que a amizade se estabeleça entre as duas partes. Depois do convite enviado e da solicitação de uma nova amizade aceita, os dois participantes passam a interagir mutuamente através de funcionalidades desse site que é o Facebook, como mensagens públicas, privadas, chat, conversas em grupos ou listas e até agendamento de eventos. Observando pessoas próximas constantemente se referindo aos acontecimentos dentro do Facebook, falando sobre como é encontrar e interagir, dentro desse site, com amigos cuja relação surgiu há pouco tempo até aqueles que se conhece desde a infância, os comentários positivos e negativos sobre o que as pessoas publicam e como eles refletem sobre todos os participantes que estão associados ao seu perfil, as discussões, os debates, as fotos e os vídeos compartilhados, enfim, sobre como tudo isso estava sendo incorporado ao dia-adia de muitos daqueles que me cercavam, surgiu o interesse nesta pesquisa. Comecei a perceber que, ao mesmo tempo em que as regras poderiam ser de um contexto relacional pré-existente, ainda assim muitas delas não estavam claras 7 São quase dois bilhões e meio de pessoas, segundo estudo de 2011 do ITU – International Telecomunication Union, disponível em http://www.itu.int/ITU-D/ict/facts/2011/material/ICTFactsFigures2011.pdf 12 para todos naquele novo ambiente de interação ou que tantas outras poderiam estar sendo criadas ou adaptadas. Escutei muitos amigos reclamando do comportamento dos outros no Facebook, o que provocava reações diversas, desde esconder todas as publicações de alguém “chato” ou “irritante” até a exclusão dessa pessoa da sua lista de amigos. E em alguns casos, as pessoas até debatiam sobre isso pessoalmente, depois do fato ocorrido no site. Da mesma forma, ouvi relatos emocionados de quem reencontrou, mesmo que somente através desse site, pessoas com quem não mantinham contato há anos ou que conseguiu, depois do Facebook, conversar com mais frequência com um amigo que mora distante, em outro país ou que se vê raramente. Em torno de todas essas questões, possibilidades, conexões, novos códigos, conflitos, vi a possibilidade de desenvolver uma pesquisa como esta, cujo foco estará sobre o sentimento da amizade dentro desse ambiente de interação que é o site de rede social Facebook. Com foco no sentimento da amizade e através da observação das interações dos atores no Facebook, esta pesquisa tende a contribuir tanto para os estudos da Comunicação Social quanto das Ciências Sociais, propiciando um instrumento teórico, intelectual e prático necessário à produção, desenvolvimento e multiplicação do conhecimento em ambas as áreas. Para a Comunicação Social, deverá somar aos diversos estudos sobre comunicação e interação mediada pelo computador, sobre a entrada dos sites de redes sociais no cenário da cibercultura e as trocas comunicacionais entre indivíduos, possíveis agora também através das ferramentas apropriadas por eles e trazidas pelos avanços da tecnologia. Abordando aspectos da Antropologia das Emoções, esta pesquisa também deverá contribuir para o diálogo entre Comunicação Social e Ciências Sociais, visto que a expressão dos sentimentos é parte das pesquisas desta última e pode ajudar a compreender as trocas interacionais nos ambientes da internet através dos códigos comuns que compõem o sentimento da amizade. Visto desta forma, a expressão dos sentimentos, ou uma “gramática dos sentimentos”, será observada nos contextos relacionais anteriores aos sites de redes sociais para buscar compreender comportamentos replicados nesses sites ou que estão em transformação e reciprocidade entre online e offline. 13 Dentro desse quadro de referência da realidade contemporânea é que se determina o objeto de estudo desta pesquisa: os códigos de expressão da amizade entre online e offline 8, sob a perspectiva de um site de rede social, o Facebook. Partindo do conceito de Mauss (1980) de que a expressão dos sentimentos é uma linguagem usada pelos indivíduos para comunicar as suas emoções aos outros e a si mesmo, através de um código comum, esta pesquisa levantará hipóteses sobre a constituição desse código através das ferramentas no ambiente em que a comunicação é mediada pelo computador, mais especificamente, neste caso, o Facebook. Quais são os códigos do contexto relacional da amizade, anteriores ao surgimento da comunicação mediada pelo computador, que estão sendo levados aos ambientes de um site de rede social, em que a amizade é tida como uma conexão sob a ótica dos estudos de redes sociais? Seriam os mesmos códigos ou é possível afirmar que há novas formas de expressar esse sentimento usando as ferramentas para a interação que se dá através do computador? Num site de rede social, esses códigos comuns na expressão de um sentimento, como descreveu Mauss, já são previamente conhecidos e compartilhados? Todas as pessoas que participam da interação nesse ambiente online estão de acordo com a maneira como esses códigos do offline estão sendo usados ou adaptados nesses sites de redes sociais? E o contrário, é possível afirmar que já existem códigos de expressão da amizade constituídos no online que estão sendo levados para o offline? Essas e outras hipóteses devem ser abordadas nesta pesquisa, que busca compreender a expressão de um sentimento, a amizade, e seus códigos partilhados pelos indivíduos no ambiente de um site de rede social, o Facebook. O objetivo desta pesquisa é partir da compreensão dos códigos de expressão da amizade, já conhecidos e que são comuns a todos, para encontrar o lugar deles nos ambientes de interação e comunicação mediada pelo computador. Como ferramenta apropriada desses ambientes e espaço de interação, o Facebook tornouse o site de rede social mais significativo para identificação de laços de amizade 8 Embora já muito comuns na linguagem dos estudos sobre internet e utilizados para opor as interações ocorridas no interior dos ambientes mediados pelo computador e fora deles, os termos online e offline serão usados a partir daqui para designar o que ocorre dentro dos ambientes da internet e fora dela, respectivamente. 14 nesse contexto. E como na maioria desses sites, nele a conexão é também chamada de “amizade”, o que possibilita investigar e localizar aqueles códigos nesse ambiente online. Além disso, outros objetivos desta pesquisa são: analisar referenciais teóricos sobre a amizade e a expressão desse sentimento; contextualizar e atualizar os estudos sobre redes sociais e sobre a comunicação mediada pelo computador; e estabelecer um diálogo entre os estudos da Comunicação Social, no âmbito das trocas comunicacionais, dentro do quadro da cibercultura, e das Ciências Sociais, no que se refere à expressão das emoções como objeto de estudo, contribuindo para refletir sobre como essa expressão está sendo moldada nos ambientes de interação online. Para Lopes (2005), seguindo uma noção ampla e não-tecnicista de método, este aparece como uma série de opções, seleções e eliminações que incidem sobre todas as operações metodológicas no interior da investigação: na definição do problema da pesquisa, na formulação de hipóteses, na teorização de conceitos e, o que é menos óbvio, na construção dos dados (LOPES 2005, p. 101) De acordo com a classificação feita por Gil (2002) em relação ao método a ser empregado, esta pesquisa tem um caráter exploratório quanto a seus objetivos, pois está voltada para a busca de referenciais para a constituição de hipóteses a respeito da expressão do sentimento amizade em um site de rede social. Esse tipo de pesquisa “procura conhecer as características de um fenômeno para procurar explicações das causas e consequências de dito fenômeno”. (Richardson, 1989, p.281). Quanto aos procedimentos técnicos, conforme Gil (2002), o método empregado será a pesquisa bibliográfica, pois aqui se pretende realizar um estudo sistematizado a partir de publicações – fontes primárias e secundárias – dentre livros, revistas e internet, cujo tema abordado e o conhecimento dos autores tenham relevância na contribuição da proposta desse projeto. Ainda em relação aos procedimentos utilizados, a pesquisa fará uso do método descritivo, que, de acordo com Thomas & Nelson (1996) procura determinar status, opiniões ou projeções futuras nas respostas obtidas. A sua valorização está baseada na premissa de que os problemas podem ser resolvidos e as práticas podem ser melhoradas através de descrição e análise de observações objetivas e diretas. As 15 técnicas utilizadas para obtenção de informações são bastante diversas, destacando-se os questionários, as entrevistas e as observações. No entanto, para Lopes, a Comunicação deve apoiar-se e desenvolver-se, visto que se trata de uma disciplina mais recente, a partir das Ciências Sociais tradicionais. As formas específicas de aproximação da realidade na Comunicação ainda estão sendo delimitadas, segundo a autora. “O amadurecimento metodológico no campo da Comunicação depende do desenvolvimento das análises de seus múltiplos níveis e dimensões, o que exige necessariamente uma variedade de metodologias” (Lopes, 2005, p.105). Os participantes da comunicação mediada pelo computador “conduzem suas atividades tendo como modelo recursos de várias práticas comunicacionais anteriores, sendo uma delas a escrita” (Braga, 2008, p.96). Logo, cada pesquisa deve reconhecer a necessidade de uma composição de técnicas, resultando num aparato metodológico específico. Por essas razões, esta pesquisa deverá combinar métodos das Ciências Sociais e privilegiará a etnografia, que, “parece constituir-se em um aporte promissor para o estudo empírico das atividades de CMC (...).” (Braga, 2008, p.96). Para Braga, “essas práticas sociais emergentes apresentam características peculiares, que demandam uma mediação considerável para com as regras tradicionais do método etnográfico”. (Braga, 2008, p.96) A descrição completa do método aplicado a esta pesquisa estará no segundo capítulo, em que serão apresentadas a abordagem etnográfica, o esquema da observação não-participante nesses ambientes online e os relatórios da pesquisa empírica que contou também com método qualitativo através de entrevistas em profundidade. No primeiro capítulo serão apresentadas as definições e a evolução do sujeito moderno, a caracterização da cibercultura, o surgimento da internet, da evolução dos estudos de redes sociais até os sites de redes sociais (SRS), passando por uma introdução à abordagem relacional da interação e aos estudos da Antropologia das Emoções. 16 No segundo capítulo, encontram-se a metodologia e uma reflexão a respeito da necessidade de combinação de métodos para pesquisas em Comunicação com foco em internet. Diante das novas perspectivas de pesquisas em ambientes de comunicação mediada pelo computador, como em sites de redes sociais, alguns pesquisadores acreditam que uma abordagem multimétodos pode ser mais eficaz para analisar e descrever cenários nessas condições. Ainda neste capítulo será apresentada a primeira parte de um dos métodos selecionados para observar a interação no Facebook e seus resultados. O terceiro capítulo aborda os reflexos da comunicação mediada pelo computador sobre as interações e as relações sociais. Há também um breve histórico sobre a amizade e suas configurações contemporâneas em um espaço de interação social como o Facebook. Por fim, são apresentados os resultados da pesquisa, uma indicação da gramática da amizade a partir dos códigos observados nesse site de rede social e as considerações finais. 17 1. O indivíduo, a sociedade, a tecnologia e as emoções Antes de chegar ao cenário contemporâneo da comunicação, mediada pelos computadores, para o âmbito desta pesquisa, se faz necessário compreender a evolução do indivíduo até seu estágio em uma era em que as relações também carregam características das trocas realizadas pelo conteúdo das interações em ambientes digitais. Da evolução da técnica às configurações da cibercultura, o indivíduo e a sociedade passaram por transformações psicológicas e sociais que modificam ainda o modo como as relações sociais se estabelecem entre as partes. Ao estudo das redes sociais e da interação mediada pelo computador, somase a esta pesquisa o campo da antropologia das emoções, permitindo identificar uma linguagem relacionada à expressão de sentimentos, como a amizade, objeto central dos objetivos deste trabalho. Dos contextos interacionais anteriores ao surgimento dos sites de redes sociais até o modo como as relações vão se moldando através deles, a amizade parece prevalecer sobre a tecnologia, abordagem que será mais explorada entre o segundo e o terceiro capítulos. Neste capítulo é possível encontrar uma retrospectiva, da modernidade à pós-modernidade, dos avanços da sociedade sobre o indivíduo, e vice-versa. Foi dentro desse quadro que nasceu o sujeito individual e a sociedade democrática. Nele também evoluíram os meios de comunicação, dos primeiros satélites à internet, que permitiu a conexão global entre os indivíduos de todas as partes do mundo e, consequentemente, possibilitou a comunicação e a interação entre eles. Interação essa que é feita de conteúdos diversos em sites de redes sociais como o Facebook. 1.1. Do indivíduo sociológico às emoções compartilhadas Está situada na transição da sociedade agrária para a industrial uma importante mudança na estrutura da organização social, trazida pelo surgimento do conceito moderno de Nação. No período anterior, as sociedades estavam divididas em camadas reforçadas hierarquicamente pelas classes dirigentes, formadas por uma minoria da população alfabetizada, que mantinha o controle sobre a grande maioria e reforçava a diferenciação cultural a fim de reduzir atritos 18 e a ambiguidade entre elas. Para Giddens (2002), são estabelecidos pela primeira vez na Europa, depois do feudalismo, instituições e modos de comportamento que viriam a impactar todo o mundo com mais força a partir do século XX, mas que desde então já podem ser caracterizados como parte do período de passagem para a modernidade. Esta se refere “às relações sociais implicadas no uso generalizado da força material e do maquinário nos processos de produção” (Giddens, 2002, p. 21). Ortiz (2007) afirma que, neste momento, a constituição de uma Nação traz consigo a existência de um ideal comum partilhado por todos, suportado pelo princípio da cidadania, amparado pelas revoluções políticas. Giddens reforça que o estado-nação é o oposto dos tipos tradicionais de ordem estabelecidos antes dele, pois “tem formas muito específicas de territorialidade e capacidade de vigilâncias, e monopoliza o controle efetivo sobre os meios da violência” (Giddens, 2002, p.22). Para este autor, mais importante do que o tamanho ou o caráter burocrático trazido pela organização dos estados-nações na modernidade, está a ascensão da organização, permitindo o “monitoramente reflexivo e o controle regular das relações sociais dentro de distâncias espaciais e temporais indeterminadas” (Ibid., p.22). Surge um sistema moderno de comunicação, onde a escola, a imprensa e os meios de transporte tiveram papel fundamental, já que antes os países eram formados por regiões que não se conectavam, entre as quais não havia comunicação. “A rede comunicativa (estradas de ferro, telégrafo, transportes, jornais etc) irá, pela primeira vez, articular este emaranhado de pontos, interligando-os entre si” (Ortiz, 2007, p.44). O que sucedeu a isto, segundo Ortiz, foi o advento da ordem industrial, no início do século XIX. Giddens ressalta ainda que em diversos aspectos fundamentais as instituições modernas são feitas de uma “‘descontinuidade’ com as culturas e os modos de vida pré-modernos” (Giddens, 2002, p.22). Para o autor, a modernidade é muito mais dinâmica, o ritmo da mudança social é mais veloz que nos sistemas anteriores, além de ser capaz de modificar práticas sociais e comportamentos preexistentes com maior amplitude e profundidade. O indivíduo se desprende de 19 uma estrutura de organização que o mantinha fixo rigidamente a um espaço e vislumbra a possibilidade de deslocamento, mobilidade, já que “a forma de organização industrial requer principalmente a rearticulação do tecido social.” (Ortiz, 2007, p.45). Para Ortiz, o sistema técnico dessas transformações permitiu um controle maior do espaço e do tempo pelos homens, o que favoreceu a organização racional de suas vidas, possibilitando inclusive que se desterritorializassem. “Nas sociedades modernas as relações sociais são deslocadas dos contextos territoriais de interação e se reestruturam por meio de extensões indefinidas de tempo-espaço”. (Ortiz, 2007, p.45). De acordo com Giddens, “em situações pré-modernas, tempo e espaço se conectavam através da situacionalidade do lugar” (Giddens, 2002 p.22), o oposto do que ocorre na modernidade e uma das justificativas para explicar seu caráter dinâmico e a separação de tempo e espaço. Ao mesmo passo em que a modernidade vai se configurando com um estilo de vida próprio, um modo de ser que rearticula a organização social, os indivíduos passam por duas importantes fases de construção de sua identidade a partir desse ponto. Hall descreve a transição do “sujeito do Iluminismo” para o “sujeito sociológico”. O primeiro estava baseado numa concepção de indivíduo “totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior” (Hall, 1999, p.10). Já o “sujeito sociológico”, foi aprendendo a lidar com a complexidade do mundo moderno e percebeu que seu núcleo interior é constituído da relação com outras pessoas, “que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos em que ele/ela habitava.” (Hall, 1999, p.10) Para o “sujeito sociológico”, que poderia ser o correspondente ao indivíduo vivendo na modernidade, seu núcleo interior ainda existe, o que Hall chama de “essência interior”, “eu real”, mas ele está constantemente em transformação, sendo modificado pela interação com diferentes “mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem” (Hall, 1999, p.11). Nesse sentido, a identidade do indivíduo passa a ser vista pela ligação entre interior e exterior, o pessoal e o público. A identidade teria, assim, o papel de posicionar o sujeito 20 frente à estrutura, tornando ambos reciprocamente conectados e com maior probabilidade de previsão de fenômenos derivados dessa relação. O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL, 1999, p.12). Simmel (1998) e Goffman (2008) aprofundaram a questão sociológica da interação a partir dessa nova perspectiva. Para o primeiro, uma sociedade se move a partir de diferentes motivações, interesses, fins, o que ele chama de “conteúdo”, e não somente com a parte individual de cada sujeito. Esta não seria unicamente capaz de constituir uma sociedade, visto que a reciprocidade na interação entre os indivíduos é responsável por essa construção, relação que o autor chamou de “forma”. Já Goffman preocupou-se com o modo como o “eu” era apresentado nas diferentes situações sociais e como são feitas as negociações nas situações de conflitos entre os diferentes papéis sociais, ou seja, a “influência recíproca dos indivíduos sobre as ações uns dos outros.” (Goffman, 2008, p.23). A questão da interação social será abordada ainda nesta pesquisa com mais profundidade nos capítulos que se seguem. Essas questões caracterizam o momento de transição da sociedade para a era moderna, apoiada pela industrialização, embora seja necessário reconhecer, como afirma Giddens, que essa não é sua única dimensão institucional. A segunda dimensão é o capitalismo, “sistema de produção de mercadorias que envolve tanto mercados competitivos de produtos quanto a mercantilização da força de trabalho” (Giddens, 2002, p.21). Mas o importante a ser ressaltado nesse ponto são as transformações estruturais na organização social que impactam diretamente as relações dos indivíduos com o meio e entre eles. Do “sujeito do Iluminismo” ao “sujeito sociológico”, tem-se uma mudança na posição do “eu”, antes individual e, em seguida, interacional. Para Hall, o individualismo da época moderna não é uma novidade, já que em eras pré-modernas as pessoas também tinham sua individualidade. A diferença, para o autor, está na forma como essa individualidade era vivida e conceituada. “As transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas” (Hall, 1999, p.25). 21 O nascimento do “indivíduo soberano” entre o Humanismo Renascentista do século XVI e o Iluminismo do século XVIII, representou uma ruptura importante com o passado. Alguns argumentam que ele foi o motor que colocou todo o sistema social da ‘modernidade’ em movimento. (HALL, 1999, p.25) As conseqüências desse período refletem ainda sobre o que viria a seguir, quando a identidade começa a ser mais descentralizada, caracterizando o que alguns autores concordam chamar de pós-modernidade. Nesta fase, o sujeito vê sua relação com os ambientes culturais em que habita desestabilizada; sua identidade, antes unificada e estável, está sendo modificada por conta de uma fragmentação, pois já não é mais composto de uma identidade, mas de várias delas, “algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas” (Hall, 1999, p.12). 1.2. Da tecnocultura à cibercultura Seguindo o curso da industrialização da sociedade, Lemos (2008) chama a atenção para a revolução industrial em andamento, anos mais tarde, a partir da segunda metade do século XIX, baseada na eletricidade, no petróleo, no motor a explosão e nas indústrias de síntese química. Crescimento demográfico, organização industrial, produção em larga escala e diversificação dos novos meios de transporte e de comunicação são os principais aspectos de configuração da modernidade, caracterizada pelo “mito do progresso pela realização tecnológica do destino humano.” (Lemos, 2008, p.47). Segundo o autor, o desenvolvimento tecnológico da sociedade passa por três grandes fases: “a fase da indiferença (até a Idade Média), a fase do conforto (Modernidade) e a fase da ubiqüidade (pós Modernidade)”. (Lemos, 2008, p.52) A primeira seria caracterizada “pela mistura entre arte, religião, ciência e mito” (Lemos, 2008, p.52), quando a vida social gira somente em torno do sagrado. A fase do conforto, durante a Modernidade, é quando a natureza perde seu caráter sagrado e passa a ser vista como passível de controle, exploração e transformação. Para o autor, a razão passa a dirigir o progresso das condições materiais, a ciência substitui a religião e a tecnologia coloca o homem no centro do universo para conduzir a administração racional do mundo. Associada ao fato da mobilidade social dos indivíduos, que vai se constituindo a partir da modernidade, está a questão do progresso feito pelo 22 homem sobre a técnica, quando passa a desenvolver máquinas, ferramentas e faz avançar o desenvolvimento de novas tecnologias através de invenções e inovações que vão dos transportes aos meios de comunicação. Para o autor, essas transformações estão associadas à relação entre o homem, a natureza e a sociedade e provam que “desde o surgimento das primeiras sociedades até as complexas cidades pós-industriais (...), a tecnologia ganhou significações e representações diversas em um movimento de vaivém com a vida social”. (Lemos, 2008, p.51). Com isso, cada época da História teria o que autor chama de uma “cultura técnica particular”. Esta está relacionada com aqueles três componentes – homem, natureza e sociedade – e à forma como o primeiro transforma, domina ou controla, dos artefatos aos ideais sociais, que passariam pela invenção do fogo, pela construção de cidades, pelo domínio da energia, pela construção de indústrias, pela conquista do espaço até as viagens ao núcleo da matéria e aos significados da constituição espaço-tempo. “A racionalidade científico-tecnológica torna-se instrumento de modernização da sociedade, sendo a racionalidade determinante para o modelo de desenvolvimento moderno” (Lemos, 2008, p.51). A cultura técnica, nesse momento, seria chamada de “tecnocultura”, caracterizada assim pois a “especificidade da técnica contemporânea estaria na constituição de um meio, de um sistema, de um reino isolado das outras esferas da cultura”. (Lemos, 2008, p.51) A última fase seria aquela a partir da mudança do paradigma eletricidade, petróleo, motor elétrico e química de síntese do final do século XIX, característico da modernidade, para o paradigma da energia nuclear, informática, engenharia genética, logo após a Segunda Guerra Mundial. “Este novo sistema técnico vai afetar a vida quotidiana de forma radical com a formação e planetarização da sociedade de consumo e do espetáculo” (Lemos, 2008, p.52), além de trazer conseqüências como a “poluição, desigualdades sociais, econômicas e políticas, caos urbano, violência, drogas etc”. (Lemos, 2008, p.52). 23 A fase da ubiqüidade pós-moderna, ou fase da comunicação e da informação digital, corresponde à conclusão da fase do conforto (a natureza é agora controlável) e ao surgimento da tecnologia digital, permitindo escapar do tempo linear e do espaço geográfico. Entram em jogo a telepresença, os mundos virtuais, o tempo instantâneo, a abolição do espaço físico, em suma, todos os poderes de transcendência e de controle simbólico do espaço e do tempo. (LEMOS, 2008, p.52) Para Lemos é a partir dessa última fase que passa a se caracterizar o cenário da cibercultura, aquela que seria a fase da onipresença, da simulação, onde os ideais modernos que visam a um futuro racionalista são enfraquecidos e substituídos pela ênfase no presente, “numa sociedade cada vez mais refratária às falas futuristas, cada vez mais submergida em jogos de linguagem”. (Lemos, 2008, p.52) A cibercultura é uma configuração sociotécnica de produção de pequenas catástrofes que se alimentam das fusões, impulsões e simbioses contemporâneas: o usuário interativo da cibercultura nasce do desaparecimento do social (Baudrillard) e da implosão do individualismo moderno. Homens e máquinas (nanotecnologias, próteses) tornam-se quase isomórficos, simbióticos, indiferenciados. O tribalismo, o presenteísmo e o hedonismo das comunidades virtuais abalam a rigidez das formas sociais modernas (partidos, classes, gênero). A cibercultura seria a inclusão de pequenas catástrofes em meio à infraestrutura tecnológica mundial. Tudo isso em tempo real, instantâneo. (LEMOS, 2008, p.75) Ao longo dessas fases, o indivíduo também passou por mais transformações. Aquela que interessa a esta pesquisa está relacionada ao reposicionamento do “eu” de cada sujeito, à descentralização e fragmentação das identidades. Esse processo produziu o sujeito pós-moderno, que, segundo Hall, é “conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’”. (Hall, 1999, p.13). Isso significa que ela está constantemente em transformação e varia conforme “as formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (Hall, 1999, p.13). Para esse autor, os ambientes culturais ao redor do indivíduo, “que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da cultura” (Hall, 1999, p.12), começam a entrar em colpaso por conta de mudanças estruturais e institucionais, muitas dessas relacionadas ao que Lemos (2008) citou quanto à configuração da cibercultura. O processo de identificação do sujeito com as identidades culturais ao seu redor está se tornando problemático, já que agora 24 ele passaria a assumir identidades diferentes em momentos diferentes, embora “unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (Hall, 1999, p.13). Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa’ do eu. (HALL, 1999, p.13) E é nesse sentido que caminha contemporaneamente a caracterização da identidade. Para Bauman (2001), antes havia códigos, padrões e regras que poderiam servir como orientação para o sujeito moderno. No que o autor chama de “modernidade líquida”, ou pós-modernidade como identificamos até agora nesta pesquisa, a falta daquela orientação está levando a sociedade a passar da “era de ‘grupos de referência’ predeterminados a uma outra de ‘comparação universal.’” (Bauman, 2001, p.14). Isso quer dizer que a construção das referências individuais relacionadas ao meio em que vive o sujeito não está previamente disponível, pois os padrões e configurações estão em constantes transformações a todo tempo. Com isso, caracterizam-se até aqui dois aspectos que interessam a esta pesquisa: a evolução da técnica historicamente, da tecnocultura à cibercultura; e as transformações do sujeito e de sua identidade, do individualismo ao complexo sistema de identidades diferentes dentro e fora dele, nos ambientes culturais que o cercam. Compreender alguns dos aspectos da cibercultura será importante para discutir o ambiente interacional que será analisado em profundidade nesta pesquisa. Além disso, a cibercultura também contribui para a multiplicação de identidades distintas dentro de um mesmo sujeito, como será discutido mais adiante. No que Hall chama de “modernidade tardia” e Bauman, de “modernidade líquida”, ou pós-modernidade, “as identidades são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ – isto é, identidades – para os indivíduos”. (Hall, 1999, p.17) A seguir serão aprofundadas questões relacionadas ao indivíduo de múltiplas identidades na pós-modernidade, num cenário de cibercultura, e como suas interações e, mais especificamente, no caso desta pesquisa, suas relações de amizade são estabelecidas nos ambientes online que surgiram nos últimos anos. 25 É importante ressaltar que o conceito de cibercultura ainda é motivo de alguma divergência a respeito de suas características, surgimento e constituição. Como aponta Felinto (2010), diversos estudos recentes fazem a ligação direta do conceito de cibercultura como derivado do surgimento da rede mundial de computadores e “pecam por seu excessivo foco na atualidade (perdendo de vista uma possível ‘pré-história da cibercultura’) ou por sua sobreposição das ideias de cibercultura e ciberespaço” (Felinto, 2010, p.41). Porém, segue o autor, a cibercultura tem na convergência de formas culturais e formas tecnológicas a característica que explicita seu grau máximo. As diferenças na abordagem e descrição histórica da cibercultura não fazem parte desta pesquisa, embora aqui se reconheça que existem graus mais profundos para se compreendê-la. Por este motivo, optou-se por descrevê-la a partir da ordem cronológica apontada por Lemos (2008), conforme mostrado acima. A caracterização do conceito feita pelo autor orienta esta pesquisa para o estágio contemporâneo da relação entre máquinas e indivíduos que permitirá aprofundar a análise das interações nos ambientes online, mas não se pretende aqui abordar as evidências históricas da cibercultura. 1.3. Comunicação e Cibercultura Antes de chegar à comunicação através das redes, com a conexão dos indivíduos através de computadores, as “Novas Tecnologias de Comunicação (NTC)” (Lemos, 2008, p.68), deram os primeiros sinais da evolução da técnica da comunicação através do telégrafo, do rádio, do telefone e do cinema, ainda no século XIX, quando o homem “amplia o desejo de agir à distância, da ubiqüidade” (Lemos, 2008, p.68). Já no século XX, em 1964, é lançado o primeiro satélite de comunicação que consegue cobrir todas as áreas do planeta. Mas a “grande novidade do século XX serão as novas tecnologias digitais e as redes telemáticas” (Lemos, 2008, p.68). Em 1975, a fusão das telecomunicações analógicas com a informática fez com que, através do computador, fosse possível publicar e trocar diversos formatos de mensagens, entre texto, áudio e até vídeos. É a partir do desenvolvimento das tecnologias de comunicação decorrentes desse fato que ocorre, gradativamente, a passagem dos 26 tradicionais meios de comunicação, a TV, o rádio, a imprensa, o cinema, para “formas individualizadas de produção, difusão e estoque da informação” (Lemos, op. cit.), como é possível observar nos dias de hoje. Lemos afirma que na fase seguinte em decorrência dessa evolução, a circulação de informações deixa de obedecer à hierarquia da árvore (um-todos) e passa à multiplicidade do rizoma (todos-todos). Essas etapas resumem a constituição do cenário contemporâneo, consolidando a fase em que se encontram indivíduos conectados através da rede de computadores. As novas tecnologias de informação devem ser consideradas em função da comunicação bidirecional entre grupos e indivíduos, escapando da difusão centralizada da informação massiva. Várias tecnologias comprovam a falência da centralidade dos media de massa: os videotextos, os BBSs, a rede mundial internet em todas as suas particularidades (web, WAP, chats, listas, newsgroups, muds...). Em todos estes novos media estão embutidas noções de interatividade e de descentralização da informação. (LEMOS, 2008, p.69) Trazida pela cibercultura, esse autor cita ainda mais uma importante transformação sobre a sociedade. Enquanto na Modernidade, prevalecia “a cultura do impresso”, cujos aspectos principais seriam a homogeneização e a padronização através da tipografia, considerada o instrumento do individualismo dentro da sociedade moderna, os computadores em rede e a comunicação entre eles e dos indivíduos através deles, “parecem ir na direção oposta àquela da cultura do impresso, estando mais próximos do tribalismo anterior à escrita e à imprensa”. (Lemos, 2008, p.71). O ciberespaço 9, tido como o espaço onde as informações são traduzidas “sob a forma de bits, imateriais, abstratas, lidas por uma meta-máquina” (Lemos, 2008, p.127), possui uma dinâmica social em que o desejo de conexão se realiza de forma planetária. O computador pessoal passa, dessa forma, de um instrumento “individual, desconectado, austero, feito para um indivíduo racional e objetivo” (Lemos, 2008, p.71) para um computador coletivo, conectado em rede. 9 O termo ciberespaço aparece quotidianamente na imprensa e nas discussões sobre as novas tecnologias da informação. Temos uma idéia do ciberespaço como o conjunto de redes de telecomunicações criadas com o processo digital de circulação das informações. O termos ciberespaço foi inventado pelo escritor cyberpunk de ficção científica William Gibson no seu monumental Neuromancer, de 1984. (LEMOS, 2008, p.127) 27 Para Lemos, essa é uma condição que ressalta o papel “retribalizante” da tecnologia que, agindo através do ciberespaço e combinada com as características da sociedade contemporânea, vai produzir a cibercultura. “Parece que a homogeneidade e o individualismo da cultura do impresso cede, pouco a pouco, lugar à conectividade e à retribalização da sociedade”. (Lemos, 2008, p.71) No centro dessas transformações que permitem a conexão dos computadores em rede e dos indivíduos através dessas máquinas, com elas e através delas com outros indivíduos, está a internet, que, para Lemos, criou “uma revolução sem precedentes na história da humanidade” (Lemos, 2008, p.116). Foi através da internet que se tornou possível trocar informações, sob diferentes formas, com o mundo inteiro. Também através da internet e das diversas plataformas digitais desenvolvidas nos últimos anos para comunicação entre os indivíduos foi que se estabeleceram as redes sociais online, como são chamados os sites com a finalidade de relacionamento ou sites de redes sociais, como Facebook e Orkut. Eles servem para estabelecer uma aproximação entre as pessoas em diferentes níveis, como amigos, conhecidos, colegas de trabalho etc. Dentro desses ambientes, as pessoas trocam e compartilham, das formas mais variadas, diferentes tipos de mensagens, conectados através de uma relação chamada amizade. Isto, porque as conexões que são realizadas entre os indivíduos ocorrem através de opções como “aceitar”, “adicionar”, “recusar” ou “excluir amigos”, que é como são chamados todos os contatos, ou melhor, todas as conexões que cada pessoa realiza nesses sites de redes sociais. No centro desta pesquisa estão as interações e a relação entre os indivíduos com o sentimento de amizade através desses ambientes digitais e online. E para melhor compreender como ocorrem esses relacionamentos e trocas interacionais, faz-se necessário, antes, descrever alguns termos e conceitos comuns na abordagem dos estudos sobre o tema, como CMC (Comunicação Mediada pelo Computador), o surgimento da internet e seus desdobramentos, além do início dos estudos sobre redes sociais e suas diferentes perspectivas. No entanto, o enfoque principal deste trabalho recai sobre o lugar em que o sentimento da amizade está sendo colocado nos sites de redes sociais frente às opções técnicas e digitais que elas oferecem para criar conexões com novos e antigos amigos. De quando se 28 conhecia um amigo face a face ao momento atual em que se adiciona ou recebe uma sugestão de amizade do site, até a escolha de “excluir um amigo” da sua rede de conexões online, passando por outras questões que envolvem a amizade, esta pesquisa estará voltada para analisar se e como as relações offline estão sendo levadas para os ambientes online, e se e como, ao contrário, os laços construídos através da internet podem influenciar o que está fora deste ambiente. 1.4. A internet e a comunicação mediada pelo computador Lemos (2008) explica que a idéia de unir computadores em rede é desenvolvida por Bob Taylor, diretor, em 1966, do DARPA, Departamento de Projetos de Pesquisa Avançada da Agência de Defesa Americana. Em 1969, um processador de mensagens é construído em um minicomputador, sendo este o primeiro ponto da então rede ARPANET. Em 1980, aquela rede é dividida em duas: ARPANET (científica) e MILNET (militar), permitindo com que ambas trocassem comunicações eletrônicas. A interconexão entre as duas foi chamada de internet, mas estava limitada a cientistas e militares. Braga (2008) apresenta as ideias conceituais para o desenvolvimento da internet, segundo um artigo de 1968, redigido e publicado pelos fundadores da ARPANET em que defendem: i) redes de comunicação são mais do que enviar e receber informação de um ponto a outro, os/as agentes são participantes ativos/as que têm papel central no processo comunicativo; ii) comunicação é um processo de reforço mútuo, que envolve criatividade; iii) o computador digital é um meio flexível, interativo que pode ser utilizado para a comunicação humana cooperativa; iv) a comunicação baseada em computadores exige enquadramento da situação. (BRAGA, 2008, p.43) Antes definida apenas como uma forma de comunicação eletrônica escrita, a CMC, Comunicação Mediada pelo Computador, ainda segundo a autora, “passou a se referir a um amplo âmbito de tecnologia que facilita tanto a comunicação humana quanto a partilha interativa de informações através de redes de computadores”. (Braga, 2008, p.42) Para compreender o papel da internet é importante observar a constatação de Braga, de que “as atividades online não se resumem à CMC e vice-versa” (Braga, 2008, p.41). A comunicação das pessoas através dos computadores pela rede 29 mundial que os conecta, a internet, é apenas uma das atividades realizadas por elas. É possível também realizar outras atividades das mais diversas, como transações comerciais, participação e discussão em fóruns, ouvir músicas de rádios de várias partes do mundo, assim como ler jornais, revistas e assistir a vídeos de qualquer lugar do planeta etc. Para a autora, a internet “reforça e estende redes sociais por interconectar indivíduos em um diálogo de proporções globais, altera a maneira como muitas pessoas trabalham, aprendem, jogam e se comunicam (...). (Ibid., p.41). Desde a introdução dessa tecnologia, a CMC tem desenvolvido várias modalidades que incluem e-mail, listas de discussão, chats, MUDs, instant messenger, livros de visitas, Orkut e a própria Web, cada uma delas a criar um ambiente social específico. As modalidades de CMC são atualizadas rapidamente. Em um período de desenvolvimento e estabelecimento de scripts, ferramentas, interfaces, programas são aprimorados e substituídos por outros mais avançados e condizentes com necessidades específicas identificadas pelo uso. (BRAGA, 2008, p.41) 1.5. O desenvolvimento dos estudos de redes sociais Já o estudo das redes sociais não é novidade no campo científico. Durante todo o século XX, a observação da evolução da sociedade a partir do conceito de rede foi um dos focos de mudança que permeou a Ciência. Antes disso, cientistas já haviam se preocupado em estudar detalhadamente os fenômenos, “na tentativa de compreender o todo, paradigma frequentemente referenciado como analíticocartesiano” (Recuero, 2009, p.17). No entanto, somente a partir do início do século passado é que começaram a despontar outros estudos que voltaram-se principalmente para a interação entre as partes nas redes sociais. A “Teoria Geral dos Sistemas”, desenvolvida por Ludwig Von Bertalanffy, nas décadas de 40 e 50, defendia que a perspectiva sistêmica estaria alinhada com a necessidade da Ciência de observar e compreender os fenômenos não mais independentes uns dos outros, mas como parte de uma totalidade. “Ou seja, para entender um fenômeno é necessário observar não apenas suas partes, mas suas partes em interação” (Recuero, 2009, p.17). Como a “Teoria Geral dos Sistemas”, diversos outros estudos buscavam sobrepor-se à observação da perspectiva analítico-cartesiana nessa mesma época. Tanto o surgimento da física quântica, na década de 20, com a análise das interações nos níveis subatômicos das 30 micropartículas que compunham os átomos, quanto a abordagem da Cibernética, ainda segundo Recuero, corroboraram, com seus resultados, para a necessidade de observar os fenômenos inseridos em uma totalidade em que a interação entre as partes é tão importante quanto o estudo do objeto em si apenas. Essa mudança, que foi sendo aceita aos poucos pela comunidade científica, permitiu que estudos mais antigos, como o caso dos estudos de redes iniciados por matemáticos, recebessem uma revisão sob a ótica da interação entre as partes. Nesse contexto, “a metáfora da rede foi usada pela primeira vez numa abordagem do matemático Leonard Euler” (Recuero, 2009, p.19). Em um artigo publicado em 1736, depois de analisar a estrutura de ligação entre as pontes da cidade prussiana de Königsberg, como muitas de sua época, localizada em meio a ilhas no centro do rio Pregolya, ele demonstrou que cruzar as sete pontes que ligavam a cidade sem jamais repetir um caminho era impossível; para entrar em uma determinada parte da cidade e sair sem passar pela mesma ponte, seria necessário que essa parte tivesse, pelo menos, duas pontes. Essa conclusão levou Euler a criar o primeiro teorema da “Teoria dos Grafos” (Recuero, op. cit.). Segundo Recuero, um grafo é a representação de uma rede, constituído de nós e arestas que conectam esses nós. Essa teoria é uma parte da matemática aplicada que se dedica a estudar as propriedades dos diferentes tipos de grafos, uma representação de rede que pode ser utilizada por diversos sistemas, como rotas de vôos de um aeroporto ou estradas de uma cidade, um conjunto de órgãos e suas interações, as ligações entre os neurônios, entre outros. Foi a partir de então que a teoria dos grafos e suas implicações receberam força dentro das Ciências Sociais e deram origem ao que é hoje conhecido como “Análise Estrutural de Redes Sociais” (Recuero, 2009, p.20). Na abordagem desse tipo de análise, os grupos de indivíduos estão conectados como rede social, sendo possível, a partir do teorema dos grafos, “extrair propriedades estruturais e funcionais da observação empírica” (Recuero, op. cit.) Na verdade, a abordagem de rede fornece ferramentas únicas para o estudo aspectos sociais do ciberespaço: permite estudar, por exemplo, a criação estruturas sociais; suas dinâmicas, tais como a criação de capital social e manutenção, a emergência da cooperação e da competição; as funções dos das sua das 31 estruturas e, mesmo, as diferenças entre os variados grupos e seu impacto nos indivíduos. (Recuero, 2009, p.21) Recuero aponta que os estudos de rede mereceram maior destaque nas Ciências Sociais a partir do final da década de 90 e início dos anos 2000, sendo identificado até em abordagens sobre agrupamentos sociais no ciberespaço. Para a autora, a construção empírica qualitativa e quantitativa, através da observação sistemática dos fenômenos, busca “verificar padrões e teorizar sobre os mesmos” (Recuero, 2009, p.22). “Estudar redes sociais, portanto, é estudar os padrões expressos no ciberespaço. É explorar uma metáfora estrutural para compreender elementos dinâmicos e de composição dos grupos sociais” (Recuero, op. cit.). 1.5.1. Elementos das redes sociais Recuero destaca que nas redes sociais existem elementos característicos que servem para que elas sejam percebidas e para que as informações a respeito delas sejam apreendidas. Um desses elementos são os atores, as pessoas envolvidas na rede que se analisa; o outro, as conexões. Os atores “atuam de forma a moldar as estruturas sociais através da interação e da constituição de laços sociais” (Recuero, 2009, p.25). Na comunicação mediada pelo computador, como nos sites de redes sociais, existe distanciamento físico entre os envolvidos na interação social, e os atores não são facilmente identificáveis, sendo, por isso, constituídos de maneira um pouco diferente. Neste caso, trabalha-se com “representações dos atores sociais ou construções identitárias do ciberespaço” (Recuero, op. cit.). Um perfil no Facebook, por exemplo, permite que o usuário informe dados como data de nascimento, instituições de ensino com entrada e saída em cada uma delas, cargos, atividades e períodos em cada uma das empresas em que trabalhou até uma descrição pessoal de como se vê, suas preferências musicais, gostos, partidos entre tantas outras informações. Além disso, o usuário pode criar diferentes álbuns de fotos, que estarão disponíveis para todos os seus amigos e demais participantes da rede conforme suas configurações de privacidade 10. São todos esses dados e informações em textos, fotos, músicas e até vídeos que definem e constroem a identidade de cada ator no site de rede social. Para esta pesquisa serão observadas 10 O Facebook permite ao usuário escolher quem dentro da sua lista de amigos e demais usuários fora dela podem ver o que ele publica, quais fotos ou álbuns, os comentários e outras interações no site. Isso é feito manualmente por cada usuário nas configurações de sua conta. 32 as informações que o Facebook oferece para constituição do perfil dos atores nessa rede. Veja a Figura 1 abaixo, que representa um perfil no Facebook e as informações disponibilizadas pelo usuário. Figura 1. Perfil de usuário no Facebook De acordo com Recuero, essas plataformas não são necessariamente o ator em si, e, sim, “representações dos atores sociais, espaços de interação, lugares de fala construídos pelos atores de forma a expressar elementos de sua personalidade ou individualidade.” (Recuero, 2009, p.25). Nessas páginas pessoais, também chamadas de perfil do usuário, em sites de redes sociais, é necessário considerar a 33 característica da expressão pessoal ou pessoalizada na internet, que faz com que aquele perfil na rede seja identificado como outra pessoa. Essa característica é fundamental para que o processo comunicativo seja estabelecido. “Aquele é um espaço do outro no ciberespaço. Esta percepção dá-se através da construção do site por meio de elementos identitários e de apresentação de si”. Trata-se de um processo permanente de construção e expressão de identidade por parte dos atores, que se apropriam dessas ferramentas para marcar a presença do “eu” no ciberespaço. “Essa individualização da expressão, de alguém “que fala” através desse espaço é que permite que as redes sociais sejam expressas na Internet” (Recuero, 2009, p.27). No Facebook, a construção dessa identidade se dá através das descrições pessoais que os atores fazem de si mesmo e das informações que disponibilizam para os demais, como músicas que ouviram, cantores, atores e artistas preferidos, filmes e vídeos a que já assistiram, lugares para onde viajaram, fotos de lugares visitados etc. A identidade vai se constituindo com cada parte dessas adicionada ao seu perfil pessoal e como ele é exibido para os amigos e todos os outros participantes da rede. Em alguns casos, como será visto nos próximos capítulos, quando a amizade começou e está restrita ao ambiente dessa rede social, tudo que os amigos sabem uns dos outros é o que está disponível dentre aquelas informações e o que costumam compartilhar em comentários, novas fotos, músicas, lugares visitados etc. Por outro lado, ao mesmo tempo em que se trata de um espaço privado, esses perfis nas redes sociais na internet também estão em um espaço público. De acordo com Recuero, essa intersecção entre o público e o privado passa a ser uma conseqüência direta do fenômeno globalizante, que exacerba o individualismo, como se fosse obrigatório ser “visto” para fazer parte do ciberespaço. “Talvez, mais do que ser visto, essa visibilidade seja um imperativo para a sociabilidade mediada pelo computador” (Recuero, 2009, p. 27). Bauman (2001), ao opor o público e o privado, trata do desaparecimento do cidadão que vem a ser substituído pelo indivíduo, sendo essa mais uma conseqüência da modernidade fluida. Enquanto o cidadão busca um espaço para o 34 coletivo, o indivíduo pensa apenas em satisfazer seus próprios interesses. Nesse sentido, o indivíduo ocupa o espaço público com suas preocupações, afirmando-as como legítimas para estarem nessa posição. O “público” é colonizado pelo “privado”; o “interesse público” é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissão de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor) (BAUMAN, 2001, p.46) Na modernidade fluida, todos os dias os indivíduos excursionam pelos espaços públicos, afirma Bauman, e dali veem reforçadas suas individualidades, certos de que, como ele, todos os demais levam a vida do mesmo modo, “dão seus próprios tropeços e sofrem suas (talvez transitórias) derrotas no processo” (Bauman, 2001, p.50). Segundo o autor, para esse indivíduo, o espaço público é como uma tela gigante em que se projetam as aflições privadas incessantemente, “sem deixarem de ser privadas ou adquirirem novas qualidades coletivas no processo da ampliação: o espaço público é onde se faz a confissão dos segredos e intimidades privadas” (Bauman, 2001, p.49). Esse é um ponto importante desta pesquisa, pois a questão entre público e privado é um tema delicado para os participantes dos sites de redes sociais. Estes facilitam a exposição privada através de diversos recursos, e muitos dos usuários ainda têm dúvidas sobre o que deve ou o que pode ser controlado nesses espaços públicos. Mas a exposição excessiva, compartilhar momentos íntimos e as divergências de opiniões entre os amigos sobre o que deve ou não ser mostrado ali também deve ser analisado dentro de um possível código da amizade nesse ambiente, visto que, como ainda não são comuns ou partilhados por todos da mesma maneira, podem gerar atritos entre os amigos conectados na rede. Por exemplo: o Facebook permite que uma foto seja mostrada para a rede, compartilhada por um usuário, indicando quem são as pessoas que estão nela através de um link para a página pessoal daqueles participantes que aparecem nela. Porém, durante a pesquisa de campo, foi destacado por alguns entrevistados que fotos antigas ou de momentos particulares em que são marcados – como se chama a indicação do amigo naquela foto – podem se tornar um problema, já que todos os amigos daquela pessoa marcada verão a mesma foto. E dependendo do que está sendo exposto na foto, aquilo pode causar, entre outras conseqüências, 35 constrangimento. E dessa insatisfação com o amigo que postou e marcou os demais na foto é que podem surgir conflitos tanto online, ainda na rede, ou offline, quando os usuários se encontram. Marcar amigos em fotos íntimas, ou em qualquer tipo de foto, expostas publicamente, pode interferir na relação entre dois amigos, uma conseqüência dessa interação mediada pelo computador, num site de rede social. Existiria um código para compreender essa dinâmica? Ou uma combinação de códigos ainda em definição? Para Recuero (2009), essa é a razão da importância de se compreender como os atores constroem esses espaços de expressão, pois é através dessas percepções que padrões de conexões são gerados. Nesta pesquisa serão levantadas hipóteses a respeito de como a linguagem e as características das conexões entre os participantes nas redes sociais online podem estar diretamente ligadas a alguns dos conhecidos códigos do sentimento amizade. Ao mesmo tempo um sentimento e um tipo de relação, como afirma Rezende, “concebida e praticada com significados, normas e valores culturalmente definidos” (Rezende, 2010, p.74), a amizade poderia estar recebendo influências das interações através das conexões nos sites de redes sociais ou sendo, em alguns aspectos, modificada por elas. O significado e o valor de um amigo, as práticas sociais que caracterizam a amizade, as formas de se comunicar, esses e outros elementos da relação podem estar sendo repetidos no online, como é hoje no offline, recebendo novos códigos por influência desse novo ambiente de interação, ou alguns deles sendo substituídos por novos significados por causa da interação mediada pelo computador, uma das hipóteses desta pesquisa. Não se trata aqui, porém, de comparar online e offline, mas de se buscar compreender de que forma as interações num ambiente de comunicação mediada por computadores estão ocupando um lugar na expressão da amizade. O outro elemento característico das redes sociais são as conexões, que são constituídas, de acordo com Recuero, pelos laços sociais que ligam os atores uns aos outros, a interação social entre eles. Para a autora, as conexões são tão importantes num estudo sobre redes sociais porque a variação delas é que provoca 36 alterações nas estruturas dos grupos de atores sociais. Na concepção da autora, as conexões são formadas por interação, relação e laços sociais. Nos estudos de redes sociais, a interação, “matéria-prima das relações e dos laços sociais” (Recuero, 2009, p.30), implica reciprocidade entre os envolvidos no contato e “compreende também as intenções e atuações de cada um”. Logo, estão diretamente relacionadas aos atores sociais, são parte das percepções, influências e motivações particulares a partir de tudo que os cercam. “A interação é, portanto, aquela ação que tem um reflexo comunicativo entre o indivíduo e seus pares, como reflexo social” (Recuero, 2009, p.31), atuando sobre o tipo de relação entre os envolvidos na interação. Estudar a interação social compreende, deste modo, estudar a comunicação entre os atores. Estudar as relações entre suas trocas de mensagens e o sentido das mesmas, estudar como as trocas sociais dependem, essencialmente, das trocas comunicativas. (Recuero, 2009, p.31) No ciberespaço, a interação sofre a influência da mediação pelo computador e das ferramentas de comunicação, que possuem particularidades a respeito dos processos de interação. Para Recuero, a primeira delas é que os “atores não se conhecem, nem há sinais da linguagem não verbal, nem da interpretação do contexto da interação, tudo é realizado através da mediação do computador” (Recuero, 2009, p.32). Além disso, as possibilidades de comunicação através das ferramentas utilizadas pelos atores, a multiplicidade delas e o fato de permitirem que a interação permaneça mesmo depois de o ator estar desconectado são fatores relevantes para a interação no ciberespaço, pois permitem, por exemplo, que se criem interações assíncronas. No Facebook, um texto escrito na página pessoal de qualquer usuário pode ser lido e comentado a todo tempo, e o histórico desses comentários nunca é excluído, a não ser que o proprietário da página opte por isso. As situações citadas acima poderiam descaracterizar o que para Goffman (2008) seria a interação, para quem ela deveria ocorrer a partir de alguns requisitos, dentre eles sinais que informam os emissores de que está havendo a recepção, de que está havendo a busca de um canal ou de que um canal está aberto. Alguns desses requisitos podem ser questionados na internet, mas são logo superados por um recurso do próprio Facebook e que também é uma ferramenta 37 de comunicação muito comum nos ambientes de mediação pelo computador: o bate-papo. Nele, os participantes conseguem saber quantos e quais de seus amigos estão online em um determinado momento, um sinal de que há um canal aberto com emissores aptos à interação. Além disso, para Braga, a interação online traz consigo algumas características particulares que merecem atenção, entre elas “o uso de atalhos lingüísticos, siglas, emoticons, imitação de sons com letras etc” (Braga, 2008, p.93), que serviriam como uma tentativa de simular expressões nãoverbais existentes em outros contextos. A interação social, no âmbito do ciberespaço, pode dar-se de forma síncrona ou assíncrona, segundo Reid (1991). Essa diferença remonta à diferença de construção temporal causada pela mediação, atuando na expectativa de resposta de uma mensagem. Uma comunicação síncrona é aquela que simula uma interação no tempo real. Deste modo, os agentes envolvidos têm uma expectativa de resposta imediata ou quase imediata, estão ambos presentes (on-line, através da mediação do computador) no mesmo momento temporal. (...) Já o email, ou um fórum, por exemplo, têm características mais assíncronas, pois a expectativa de resposta não é imediata. Espera-se que o ator, por não estar presente no momento temporal da interação, possa respondê-la depois. (Recuero, 2009, p. 32) Sobre essa divisão entre os tipos de interação social, Primo (2007) propõe outra tipologia para o estudo da interação mediada pelo computador, a partir de uma abordagem sistêmico-relacional. De acordo com a observação do relacionamento entre os participantes, lista dois tipos de interação: “mútua” e “reativa”. A interação mútua é aquela caracterizada por relações interdependentes e processos de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e cooperada do relacionamento, afetando-se mutuamente; já a interação reativa é limitada por relações determinísticas de estímulo e resposta (PRIMO, 2007, p.57). Numa discussão através de e-mail, numa conversa num chat e nos comentários das publicações no Facebook, os participantes agem uns sobre os outros, mutuamente, durante o processo, e o relacionamento que emerge entre eles vai sendo recriado a cada intercâmbio, negociado durante a interação. Já no caso de clicar num link ou jogar um game, chamadas então de interações “reativas”, essas são limitadas por certas determinações; significa que se a mesma ação fosse feita uma segunda vez, mesmo que por outro interagente, não causaria um efeito diferente. No caso de clicar em um link, por exemplo, o ator tem apenas a opção 38 de escolher entre clicar ou não, mas não conseguirá alterar o local para onde aquele link aponta. Recuero (2009) conclui que seria possível imaginar que a interação mediada pelo computador será sempre mútua, dialógica, mas demonstra a possibilidade de se encontrar em uma mesma ferramenta de comunicação na internet ambos os tipos de interação atuando sobre as relações, como será observado no site de rede social escolhido para observação nesta pesquisa, o Facebook. Ele tem, em grande parte, interações desse tipo, mútuas, com interferências dos indivíduos uns sobre os outros. Cada usuário com um perfil nessa rede social pode informar a seus contatos, também chamados de amigos, através de mensagens de texto, links, vídeos e fotos, desde o que está sentindo, onde está, o que está fazendo, com quem está, suas preferências – musicais, políticas, religiosas, sexuais, entre outras – uma opinião a respeito de qualquer assunto etc e essa mensagem ser comentada e até compartilhada por todos aqueles que estão conectados a sua rede. Essa interação acontece a todo instante e envolve tanto quem publicou a mensagem quanto quem está interagindo com ela, pois dos comentários feitos na mensagem vão sendo feitos mais comentários e as pessoas passam a debater sobre o que é dito ao longo do tempo, exatamente como é caracterizada uma interação mútua. Veja a seguir um exemplo de como ocorre essa interação. 39 Figura 2. Interação entre usuários no Facebook 40 Já a interação chamada por Primo de “reativa” será percebida quando analisada a maneira como os atores sociais criam as conexões de amizade no Facebook, clicando num botão (ou link) que permite aceitar ou recusar um amigo. Para Recuero (2009), embora estas interações não sejam mútuas, elas têm impacto social, já que deixam também seus reflexos nos dois lados da relação comunicativa. Se alguém aceita ser amigo de outra pessoa no Facebook, o primeiro reflexo no sistema é que ambos passam a ter mais uma conexão; no indivíduo, aceitar a amizade se reflete sobre o fato de que ambos os interagentes terão mais um amigo, que terá acesso a seus dados pessoais e com quem poderá trocar mensagens. O que há de similar entre as classificações feitas por Recuero (2009) e Primo (2007) é que, em ambos os casos, os rastros deixados pelos atores nas redes sociais servem para a investigação de suas conexões e estruturas de redes. Isso porque não são apagados e podem durar por tempo indeterminado, facilitando o trabalho do pesquisador no levantamento e descrição do comportamento deles através da interação mediada pelo computador, mostrando até mesmo de que forma mantêm e constroem os laços sociais no ciberespaço. Mas, além de a interação se configurar como a comunicação entre os atores e as trocas entre eles, ela também pode dar pistas do tipo de relação que possuem. A interação vai sendo construída quando, por exemplo, uma pessoa publica uma mensagem em sua página pessoal no Facebook, disponível para leitura por aqueles que estão ligados a sua conexão, e surgem ali comentários com opiniões diferentes, que vão sendo estendidos como numa conversa e que, num processo assíncrono, pode até ser prolongada por alguns dias. Desenvolve-se um diálogo, com retorno e opiniões diferentes, identificação dos atores, “interação com base na percepção dos demais atores e da discussão e também a negociação da interação, direcionamento e construção das conexões sociais” (Recuero, 2009, p.35). Por fim, Recuero destaca que a interação mediada pelo computador “é também geradora e mantenedora de relações complexas e de tipos de valores que constroem e mantêm as redes sociais na Internet” (Recuero, 2009, p.36) Para a autora, são as relações sociais geradas nesse caso que irão criar os laços sociais. 41 O objeto principal de análise em uma rede social seria a relação, segundo Recuero. Essa relação envolve uma grande quantidade e tipos diferentes de interações, desde aquelas capazes de construir ou acrescentar algo, até as relações conflituosas e as que podem diminuir a força do laço social. Além disso, a autora afirma que a idéia de relação social é independente do seu conteúdo, pois este se constitui do que é trocado nas mensagens entre dois indivíduos e auxilia a definir a relação. Mas o que é definido a partir dessa troca comunicacional seria a interação, que é importante não confundir com a relação, pois esta pode ter conteúdos variados. A relação mediada pelo computador, assim como a interação, pode ter características próprias e acrescentar aspectos importantes para a relação social, já que essa mediação está sujeita à limitações contextuais, como o distanciamento entre as pessoas envolvidas, o que pode alterar a forma através da qual a relação social passa a ser estabelecida. Recuero cita como conseqüências disso, por exemplo, a facilidade maior de iniciar e terminar relações, já que “não envolvem o ‘eu’ físico do ator”; a possibilidade de criar um novo sujeito no ciberespaço, já que “barreiras como sexualidade, cor, limitações físicas e outras não são imediatamente dadas a conhecer” (Recuero, 2009, p.37); a influência que a utilização da linguagem não-verbal nessas interações pode provocar nas relações. Desse modo, conclui a autora, o laço social é a efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos na interação. Ele é resultado da sedimentação das relações estabelecidas entre agentes. Laços são formas mais institucionalizadas de conexão entre atores, constituídos no tempo e através da interação social (RECUERO, 2009, p.38) Por fim, Recuero afirma ainda que o desenvolvimento tecnológico também proporcionou uma flexibilidade na manutenção de laços sociais, “uma vez que permitiu que eles fossem dispersos espacialmente.”(Recuero, 2009, p.44). Isso significa que a comunicação mediada pelo computador apresentou às pessoas maneiras de manter laços sociais fortes, através de ferramentas de comunicação, como Skype, Messenger, chats 11, e-mails, redes sociais, mesmo quando estão 11 Skype: é um software que permite comunicação pela internet através de conexões de voz sobre IP (VoiP); Messenger: é um programa de mensagens instantâneas criado pela Microsoft Corporation, que permite que um usuário da internet se relacione com outro que tenha o mesmo programa em tempo real, podendo ter uma lista de amigos "virtuais" e acompanhar quando eles 42 separadas por longas distâncias. “Esses novos espaços de interação acabaram provocando a desterritorialização dos laços” (Recuero, 2009, p.44). Definidas a interação e a relação, a seguir será apresentado como a expressão dos sentimentos, especificamente a amizade, se relaciona com esses conceitos e de que forma faz sentido analisar a combinação dessas partes para compreender os códigos, explícitos ou não, num site de rede social. 1.6. Abordagem relacional da interação e a antropologia das emoções Primo afirma que é comum observar a interação como simples transmissão de informações, igualando cognição e computador, comportamento humano e funcionamento informático. “Porém, interagir não é algo que alguém faz sozinho, em um vácuo. Comunicar não é sinônimo de transmitir. Aprender não é receber” (Primo, 2007, p.71). Interação é um processo no qual o sujeito se engaja, em que a relação dinâmica desenvolvida entre as partes tem como característica transformadora a recursividade. “E para que isso seja compreendido, é preciso observar o próprio conhecer como relação” (Primo, op. cit.). “Estudar a interação humana é reconhecer os interagentes como seres vivos pensantes e criativos na relação” (Primo, 2007, p.72), por isso é preciso levar em consideração também o conhecimento do indivíduo, que depende de seu contínuo aprendizado em relação ao meio em que vive. Sujeito e cultura estão sempre juntos, assim como os seus pares ou opositores, a política, crenças religiosas, ou a ausência delas, a linguagem, as instituições, entre outras instâncias. Para ilustrar que uma relação jamais tem sentido único, o autor traz o seguinte exemplo: “João não é amigo de Pedro sem Pedro ser amigo de João. A amizade só existe quando os dois têm amizade recíproca um para com o outro. Dessa maneira, a amizade não estaria nem no Pedro, nem no João, mas na relação que existe entre os dois” (Primo, 2007, p.86) entram e saem da rede; chats: um chat, que em português significa conversação, ou bate-papo é um neologismo para designar aplicações de conversação em tempo real. Esta definição inclui programas de IRC, conversação em sítio web ou mensageiros instantâneos. Fonte: Wikipedia: www.wikipedia.org 43 (...) Para se estudar a amizade entre duas pessoas, por exemplo, não basta querer estudá-las em separado, pois o relacionamento que as une é diferente da mera soma de suas características individuais. O relacionamento vai ganhando uma “forma”, configurando um “padrão” que se atualiza durante a interação e modifica seus participantes (Primo, 2007, p.80) Considerando que, sob o aspecto sistêmico-relacional, como abordado por Primo (2007), a análise das interações humanas precisa levar em conta as relações com o meio e que os conceitos de emoção implicam negociações sobre vários aspectos da vida social, de acordo com Rezende (2010), não se pode desprezar, para esta análise, a influência das emoções agindo diretamente sobre a interação. Dessa forma, segundo a autora, as emoções podem ser consideradas como o idioma que define e negocia a relação social entre as pessoas. Rezende afirma que, além disso, aqueles conceitos de emoção devem “ser vistos como elementos de práticas ideológicas locais” (Rezende, 2010, p.14). Mauss (1980) demonstra que a expressão dos sentimentos é ritualizada por momentos demarcados e que obedece a uma gramática; “que o indivíduo comunica aos outros aquilo que sente em um código comum, nesse movimento comunicando também a si mesmo suas emoções” (Rezende, 2010, p.48). Essa concepção de gramática, envolvida com o rito e a coletividade da expressão dos sentimentos, está, para Mauss, diretamente relacionada ao que Durkheim (1984), na concepção do seu projeto para a antropologia das emoções, denominou “fato social”. Este seria o que “existe fora das consciências individuais, sendo capaz de exercer uma ação coercitiva sobre a vontade individual” (Rezende, 2010, p.46). No entanto, o “fato social”, de natureza ritualizada e coletiva da expressão dos sentimentos, não impediria que eles fossem também espontâneos por serem vivenciados por quem os expressa. Rezende (2010) afirma que o estudo antropológico das emoções passou a enfatizar o elemento do contexto em que se manifestam os conceitos emotivos, buscando ir além das relativizações para analisar sob um ponto de vista pragmático as situações sociais específicas em que eles são expressos. E que a principal preocupação dessa abordagem é mostrar como o próprio significado varia dentro de um mesmo grupo social, dependendo das circunstâncias em que se manifestam e atentar para as conseqüências da expressão dos sentimentos nas 44 relações sociais e de poder. Para a autora, é a partir daquela perspectiva de Mauss que surge um modelo teórico para situar as emoções como objeto das Ciências Sociais e “da percepção ocidental moderna das emoções como provenientes do íntimo de cada um”, contrapondo a representação delas como algo “histórica, social e culturalmente configurado” (Rezende, 2010, p.49) A amizade, relacionada ao objeto de estudo desta pesquisa, e as demais emoções, segundo Rezende, “tornam-se parte de esquemas ou padrões de ação aprendidos em interação com o ambiente social e cultural, que são internalizados no início da infância e acionados de acordo com cada contexto” (Rezende, 2010, p.30). Ela explica que, desde cedo, se aprende como, quando e com quem expressar os sentimentos, como um aprendizado emocional, que, “por ser internalizado muito cedo, deixa de ser percebido como uma forma controlada de viver os sentimentos” (Rezende, 2010, p.31). Assim, as pessoas aprendem regras explícitas de emoções que devem ser manifestadas em algumas ocasiões conhecidas. Porém, quando essas regras não são evidentes, sentem-se à vontade para expressar-se com espontaneidade. Essa afirmação pode ser diretamente relacionada com os espaços nos sites de redes sociais, onde as pessoas ainda não compartilham de regras comuns, orientações, direções de comportamento e, por isso mesmo, fazem deles espaços de diferentes tipos de uso. A questão que pode aproximar ou afastar os amigos conectados nessa rede é a reciprocidade entre eles sobre o que é compartilhado. Enquanto em alguns casos, as trocas são aprovadas e retribuídas, em outros, podem provocar conflitos e interferir nas relações online e offline dos participantes. Trazendo a amizade para o contexto das trocas comunicacionais, ou seja, as interações nos sites de redes sociais, observa-se como a expressão dos sentimentos e as trocas entre as pessoas estão se constituindo com símbolos específicos dos ambientes de comunicação mediada pelo computador e, ao mesmo tempo, contribuindo para a manutenção dos laços existentes entre os indivíduos, ainda que eles estejam separados fisicamente, como descrito anteriormente. Para citar um exemplo, o Facebook destaca o dia do aniversário de seus usuários e lembra aos amigos conectados a eles para escrever uma mensagem de felicitações pela data. Trata-se ao mesmo tempo de um recurso de uma ferramenta que faz lembrar 45 o dia do aniversário de um amigo, assim como afasta a noção de tempo quando deixa disponível para que a qualquer instante você possa ir até a página pessoal do aniversariante e escrever-lhe uma mensagem, sem se preocupar em encontrar durante o dia um momento exato ou mais propício para falar com ele. A retribuição daquele que recebe a mensagem pode se dar através de outra opção da ferramenta chamada de “curtir”. Seria como um agradecimento do aniversariante à mensagem enviada pelo amigo. Também Mauss (1974) observou este fenômeno de reciprocidade entre dois indivíduos e identificou que a dádiva é o que os conecta nessa ocasião. Para ele, a constituição da vida social é formada por um constante dar e receber, obrigações organizadas de modo particular em cada caso, trocas concebidas e praticadas nos diferentes tempos e lugares. Para o antropólogo Mauss, a dádiva aproxima e torna os indivíduos semelhantes, seria um ato simultaneamente espontâneo e obrigatório. E não existiria a dádiva sem a expectativa de retribuição. Sob esses dois aspectos – uma gramática dos sentimentos e a reciprocidade na dádiva – é que essa pesquisa deve avançar e se constituir. Tanto a abordagem sistêmico-relacional da interação humana mediada pelo computador quanto o estudo antropológico das emoções irão nortear esta reflexão que busca compreender as relações de amizade entre os indivíduos a partir de um site de rede social. Em ambos os casos, o foco da análise está na interação entre as partes e destas com o meio e o contexto, considerando que esses últimos também podem interferir nos relacionamentos entre os indivíduos, ou seja, assim como sofrem a ação, podem também provocar uma ação ou reação. Serão abordados tanto os aspectos que valorizam os processos interativos mediados pelo computador em sua complexidade, quanto a existência de regras de expressão do sentimento da amizade, que afetam sua manifestação de acordo com os contextos sociais e as diferenças entre as sociedades. No caso específico desta pesquisa será tomado para estudo o contexto social brasileiro. Nos sites de redes sociais, as pessoas são percebidas por aquilo que expressam, e essa percepção é essencial para a interação humana, aponta Recuero (2009). Para isso usam palavras, constituídas como expressões de alguém, 46 legitimadas pelos grupos sociais, que também podem representar sentimentos, seja através de um comentário, uma imagem, uma música ou um link. Ali são expostos os gostos, as paixões e os ódios dos atores sociais. E ferramentas como o Facebook são apropriadas como formas de expressão do self, espaços do ator social, percebidas pelos demais como tal. Nos próximos capítulos, a reflexão se dará em torno da expressão dos sentimentos, especificamente no caso desta pesquisa, a amizade, a partir da estrutura de um site de redes sociais e das conexões entre os atores sociais na interação mediada pelo computador sob o aspecto sistêmico-relacional. O problema central desta pesquisa reside sobre a questão da linguagem citada por Mauss (1980) como uma gramática comum na expressão dos sentimentos: se essa linguagem é compreendida porque é comum a todos que dela compartilham, em um site de redes sociais, de que forma ela estaria se construindo e quais os códigos comuns observados nesses ambientes para a relação de amizade? Se, do contrário, esses códigos ainda não são conhecidos e são diferentes do ambiente offline, de que forma estão se constituindo e como deverão ser compreendidos? 47 2. Facebook: metodologias aplicadas à interação em um site de rede social No dia-a-dia, na linguagem mais informal usada para se referir ao Facebook, as pessoas o chamam de site de relacionamentos. Para a análise desta pesquisa, ele está enquadrado, dentro dos estudos de redes sociais, como Site de Rede Social (SRS). Mas, na verdade, o Facebook está se tornando aquilo que as pessoas fazem dele, é definido pelas conexões entre os participantes (amigos, contatos, parentes, colegas etc) e pelo que é compartilhado na rede, que fica visível para toda sua lista de “amigos”, como se você estivesse conversando com uma grande plateia. Ainda há muitas dúvidas sobre o que conversar nesse espaço: expor sentimentos, mostrar suas fotos, contar todos os seus passos em um dia, reclamar? Cada um dá ao Facebook o destino que mais lhe convém, mas a questão sobre a qual se coloca o foco desta análise é buscar compreender como isso tudo que pode ser compartilhado entre os participantes, “amigos”, tem relação direta com a amizade. 2.1. Do que é feito um site de rede social Nesta pesquisa, as interações em um site de rede social permitiram observar parte das hipóteses levantadas aqui. As redes sociais, como descritas no capítulo anterior, são compostas por atores e conexões. Na comunicação mediada pelo computador, os sites de redes sociais “(SRSs)” (Recuero, 2009, p.102) são ferramentas apropriadas pelos atores, sendo um deles o Facebook, utilizado para captar essas interações e permitir o avanço sobre os objetivos da pesquisa. Boyd & Ellison (2007 apud Recuero, 2009, p.102) definiram sites de redes sociais como sistemas que permitem: “i) a construção de uma persona através de um perfil ou página pessoal; ii) a interação através de comentários; iii) a exposição pública da rede social de cada ator” (Recuero, 2009, p.102). Nesse sentido, como outras ferramentas, os sites de redes sociais cumprem seu papel para a comunicação através do computador, mas, segundo as autoras, a diferença deles para as demais é “o modo como permitem a visibilidade e a articulação das redes sociais, a manutenção dos laços sociais estabelecidos no espaço off-line” (Recuero, 2009, p.103). Recuero destaca que é importante salientar que os sites de redes sociais não são necessariamente redes sociais, cumprem mais o papel de 48 suporte para as interações que constituem as redes sociais. “Eles podem apresentálas, auxiliar a percebê-las, mas é importante salientar que são, em si, apenas sistemas. São os atores sociais, que utilizam essas redes, que constituem essas redes.” (Recuero, 2009, p.103). Segundo a autora, os sites de redes sociais dividem-se entre “estruturados” e “apropriados”. Os primeiros são focados em expor e publicar a rede social dos atores, como o Facebook e o Orkut, por exemplo. Já os apropriados, não surgem com essa finalidade, mas em determinado momento podem ser utilizados dessa maneira, como fotologs e Twitter 12. No caso desta pesquisa, a observação das interações se deu sobre um site de rede social estruturado, “cujo foco principal está na exposição pública das redes conectadas aos atores, ou seja, cuja finalidade está relacionada à publicização dessas redes.” (Ibid., p.104) São sistemas onde há perfis e há espaços específicos para a publicização das conexões com os indivíduos. Em geral, esses sites são focados em ampliar e complexificar essas redes, mas apenas isso. O uso do site está voltado para esses elementos, e o surgimento dessas redes é conseqüência direta desse uso. (...) Toda a interação está, portanto, focada na publicização dessas redes. (Recuero, 2009, p.104). O Facebook nasceu como “thefacebook.com”, um sistema criado pelo americano Mark Zuckerberg, aluno de Harvard, em 2004. Seu objetivo inicial era atrair alunos que estavam saindo do ensino secundário (High School, nos Estados Unidos) e os que estavam entrando na universidade. Isso porque, nos Estados Unidos, essa é uma fase em que, geralmente, o estudante sai de casa e muda de cidade, o que pode significar também uma mudança em torno das suas relações sociais. O Facebook serviria como uma ferramenta para criar uma nova rede de contatos nesse momento da vida desses estudantes. O site começou disponível apenas para alunos de algumas escolas e colégios, sendo a primeira delas Harvard. Aos poucos, foi sendo aberto para escolas secundárias. Dados divulgados em janeiro de 2012 13 comprovam que o Facebook recebe 451 novos adeptos a cada minuto. Até esse mês, a quantidade total de usuários do 12 www.twitter.com 13 Facebook Continues its Global Dominance, Claiming the Lead in Brazil. Disponível em: http://blog.comscore.com/2012/01/facebook_brazil.html. Acesso em 07/02/2012 49 site chegou a oitocentos e quarenta e cinco milhões em todo o mundo, com exceção da China, onde o site é bloqueado pelo governo. A previsão é de que até agosto de 2012 o Facebook alcance a marca de um bilhão de usuários, ou seja, uma em cada sete pessoas da população mundial. Esses mesmos dados ainda mostram que nos Estados Unidos e na Índia, de todos os seus habitantes com acesso à internet, mais de 80% possuem uma conta ativa no Facebook. No Brasil, de cada 100 brasileiros conectados à internet, 75 deles estão nesse site de rede social. O país triplicou, em 2011, a quantidade de usuários nesse site, chegando a trinta e seis milhões de inscritos. Mais do que isso, o brasileiro que passava, em média, trinta e sente minutos dentro dele, agora passa até cinco horas por dia. Diante dessas estatísticas, Miller (2011) considera relevante avaliar os impactos das redes sociais sobre as pessoas. O autor quer buscar algumas respostas tentando compreender de que forma a vida delas vem sendo modificada pela experiência de uso do Facebook; como isso impacta as relações com as pessoas que realmente importam para cada um; como isso muda a maneira como vemos a nós mesmos e por que as pessoas estão aparentemente despreocupadas com a perda da privacidade em sites como esse. Ele acredita que há boas razões para ver o Facebook através de uma ótica antropológica. Para o autor, a primeira razão é que uma das definições desse campo das Ciências Sociais é a de que, enquanto outras disciplinas tratam as pessoas como indivíduos, a Antropologia sempre as tratou como parte de uma rede mais ampla de relacionamentos. Em seguida, ele explica que, antes da invenção da internet, para a Antropologia, os indivíduos já eram vistos como participantes de uma rede social. Portanto, uma inovação tecnológica como o Facebook, que permita conectá-los em rede, deve ser obviamente de grande interesse para um antropólogo. Miller destaca ainda que em uma das conferências realizadas para anunciar novidades sobre o site, em abril de 2010, Mark Zuckerberg afirmou: “estamos construindo uma internet em que o padrão é social” (Miller, 2011, p.X). Com isso, o autor considera que, frente às previsões de um século em que a participação em comunidades e as relações sociais estariam em declínio, as 50 previsões de Zuckerberg soam surpreendentes e particularmente relevantes para o futuro da antropologia. É com base nas mesmas expectativas de Miller que esta pesquisa avança sobre a interação e a relação social dos usuários do Facebook, que permitem vislumbrar, a cada dia, novas ou antigas formas de expressão dos sentimentos, como a amizade, objeto central desta análise. Sob a ótica antropológica e de métodos de pesquisa combinados, como a etnografia, a netnografia, a observação não-participante e as pesquisas em profundidade, serão apresentados alguns aspectos do comportamento dos indivíduos relacionados à amizade no ambiente de um site de rede social, onde a conexão entre dois atores é também chamada, como no Facebook, amizade. 2.2. Metodologia da pesquisa Entre os métodos de pesquisa para os ambientes em que a comunicação é mediada pelo computador, como os sites de redes sociais, aquele que mais aproximou adequação e eficácia a este caso foi o método etnográfico. Braga explica que a aplicação de técnicas de inspiração etnográfica, investindo em observação direta para coleta de dados e registros de diário de campo, seleção de informantes para aplicação de entrevistas abertas visa à construção de um relato acerca de uma situação comunicacional de âmbito microscópico, em que interessa a circunstancialidade, o ocorrido. (Braga, 2008, p.87) Fragoso et al. (2011) atestam que, desde o surgimento da internet e das comunidades virtuais que foram criadas em consequência da facilidade da comunicação em rede, alguns pesquisadores admitiram a utilização das técnicas de pesquisa etnográficas para estudar as culturas e as comunidades online, “fossem elas derivadas de grupos sociais já constituídos no offline e que, neste momento, migram e/ou transitam entre esses espaços ou mesmo formações sociais compostas apenas por relações sociais online.” (Fragoso et. al., 2011 p.171). As autoras explicam ainda que a adoção desse método para a investigação nos ambientes da comunicação mediada pelo computador não foi de consenso geral entre os pesquisadores, pois para uma parte deles, o que se constituíam características primárias do método, como deslocar-se, lidar com o estranhamento, 51 ‘ir a campo’, “tão decisivos na formação do olhar interpretativo pareciam ter se esvaído frente a uma possível dissolução espaço-temporal advinda das tecnologias de comunicação e informação.” (Fragoso et. al., 2011, p.171). Desta forma, é assumida nesta pesquisa a mesma perspectiva daquelas autoras para o uso do termo “etnografia” no estudo sobre internet ou nos objetos recortados a partir dela, como das ferramentas apropriadas pelos atores nos sites de redes sociais e suas interações. O conceito das técnicas desse método de pesquisa pode ser retomado “desde que tais diferenças em termos de coleta de dados e de observação sejam descritas e problematizadas em suas distintas fases, com indicações das variações entre os níveis online e offline.” (Fragoso et. al., p.178). O cuidado que deve ser tomado em relação às descrições que incidem sobre o desenho e planejamento do método da pesquisa, nas quais as diferenças entre online e offline devem ser mantidas estão relacionadas tanto em relação aos usos e apropriações de formas diferentes que são feitos pelos informantes, pelo recorte do objeto e o delineamento do campo, pela coleta de dados e mesmo pelos níveis de engajamento e relacionamento do pesquisador com a comunidade. As diferenças, sejam elas sutis ou intensas, entre uma entrevista realizada presencialmente e uma entrevista conduzida por e-mail ou ferramentas de conversação como o MSN ou Skype devem ser incluídas na narrativa etnográfica que será construída ao longo da pesquisa. O refinamento das análises sofrerá influências que podem ser significativas e, nesse sentido, devem ser respeitados os planos online e offline (Fragoso et al., 2011, p.178). No entanto, nesses ambientes, de acordo com Braga, a interação demanda dos participantes improvisação diante de situações desconhecidas e existe a possibilidade de códigos novos na interação com outros participantes. Para a autora, geralmente eles tentam adaptar modelos de outros contextos interacionais para experimentar ou, ao mesmo tempo, podem criar regras para relações em ambientes específicos. Por esse motivo, o pesquisador também precisa estar atento a essa particularidade para realizar combinações e adequações de métodos de investigação de materiais específicos. Além disso, no ambiente da internet, alerta a autora, ao se afastar das práticas comunicacionais vividas pelos indivíduos, um dos riscos que se corre na escolha desse método de pesquisa é “o de produzir uma teoria estipulativa que se baseia mais na potencialidade oferecida pela tecnologia 52 disponível na Internet como meio de comunicação do que em seus usos concretos.” (Braga, 2008, p.84). Por esses motivos, junto às aplicações pertinentes ao método etnográfico para esta pesquisa, também foram combinados alguns outros aportes metodológicos que serão justificados a seguir. Com a compreensão de como está estruturado, qual sua principal finalidade e como os atores agem dentro de um site de rede social, esta pesquisa seguiu em direção à observação não-participante no Facebook. O grande desafio de pesquisas como esta, que envolvem o ambiente da comunicação mediada pelo computador, é o modo peculiar de interação na internet, em que se faz necessário adaptar a técnica etnográfica, que “foi concebida e historicamente aplicada a grupos sociais em interação face a face com o/a etnógrafo/a, que fazia da sua experiência uma fonte de dados.” (Braga, 2008, p.87). Sendo assim, a questão que se colocou a partir daí foi: como realizar uma observação não-participante sob os métodos da etnografia? A direção a seguir a partir deste ponto baseou-se no método aplicado por Braga (2008) em sua pesquisa sobre as interações em blogs. Da necessidade de observar dentro desses novos espaços de interação na internet, surge a combinação entre métodos de pesquisa estabelecidos, como a etnografia, e novos, como a chamada observação não-participante, prática também denominada como lurking, cuja tradução literal é ficar à espreita. “(...) os ambientes interacionais da CMC caracterizam-se pela ausência física das/os visitantes, sendo possível tornarse invisível.” (Braga, 2008, p.88). A peculiaridade dessa prática permite ao pesquisador ver sem ser visto e não interferir na dinâmica da interação observada. E é essa participação no grupo, ainda que invisível, que irá viabilizar a apreensão de aspectos daquela cultura possibilitando a elaboração posterior de uma descrição densa, que demanda uma compreensão detalhada dos significados compartilhados por seus/suas participantes e da rede de significação em questão. (Braga, 2008, p.88) Para Braga, lurking é uma participação peculiar e está nessa especificidade o objeto central do questionamento acerca dessa prática metodológica. Para a 53 autora, visto que a condição que possibilita a realização do trabalho do etnógrafo é a imersão combinada à experiência efetiva da participação no ambiente pesquisado, o lurking torna-se peculiar na medida em que “em termos de presença/ausência, a informação acerca da presença do/a observador/a no setting não está disponível às/aos demais participantes.” (Braga, 2008, p.88) O método foi escolhido por ser, até o momento, o mais apropriado para este tipo de pesquisa, embora ainda haja divergências entre pesquisadores das Ciências Sociais sobre suas práticas e efetividade. Porém, com os resultados positivos em seu uso, obtidos por Braga (2008), a pesquisa avançou no Facebook sobre o primeiro nível de observação não-participante a partir da própria lista de amigos, ou conexões, deste pesquisador. Esse site de rede social já surgiu com a característica própria do lurking, permitindo observar não somente as interações dos amigos para com o pesquisador, como deles com seus amigos, sem ter sido percebido como um observador. O Facebook e alguns outros sites de rede sociais, diferentes do Orkut, não mostram quando um amigo visitou o perfil de outro amigo. Além de receber através da sua página pessoal as atualizações e publicações de todos os amigos, ainda é possível visitar as páginas pessoais, ou perfis, de cada um deles e até ler os comentários feitos pelos amigos deles, que não são necessariamente amigos em comum de quem está realizando aquela visita. Assim, a possibilidade de capturar os mais diversos tipos de interação foi se constituindo até chegar ao objeto de estudo desta pesquisa, a amizade, com seus códigos de interação num site de rede social. Como afirma Recuero, “uma relação sempre envolve uma quantidade grande de interações.” (Recuero, 2009, p.37). Neste ponto é necessário recuperar a descrição apresentada no capítulo anterior sobre um dos elementos que constituem as redes sociais: as conexões. Para Recuero (2009), elas são compostas de interação, relação e laços sociais. É importante localizar nesta parte da pesquisa essa categorização feita pela autora porque, na observação do Facebook, a distinção entre esses três elementos contribuiu de forma ímpar para localizar o objeto de estudo aqui proposto. 54 Quando um participante do Facebook publica em seu mural uma pergunta para sua rede de amigos, por exemplo, e recebe, nos comentários, diversas respostas, existem nessas ações diferentes interações, que podem ser dos amigos para com aquele que publicou até entre os amigos conhecidos ou não, mas que interagiram através dos comentários. Essas interações constituem a relação social. Por fim, o laço social vem a ser constituído das interações somadas às relações. Dessa forma, ficou mais evidente a análise dentro do Facebook das diversas interações e seus reflexos sobre as relações. Ou seja, a relação de amizade está dentro dessa perspectiva de laço social, aquela que conecta indivíduos por diferentes interações, sejam elas de contextos interacionais anteriores ou surgidos naquele meio online. Durante o tempo desta pesquisa, foram observados os principais recursos de interação através do Facebook. O primeiro e mais comum deles é a publicação no mural. O mural é como é chamado o espaço que existe em todos os perfis tanto para seu proprietário quanto para os amigos dele realizarem as publicações que serão expostas. O usuário pode usar seu mural para compartilhar algo que será visto por todos os seus amigos ou pode escrever diretamente no mural de qualquer um deles, o que poderia ser caracterizado como uma mensagem direta, não fosse o fato de que os amigos em comum de ambos também enxergam aquela mensagem. A publicação é o conteúdo do que é compartilhado entre os atores no Facebook e suas conexões. Trata-se de um espaço em que é possível compartilhar com todos, ou especificamente alguns amigos, mensagens em forma de texto, links, fotos e vídeos. É esse o espaço utilizado para se falar através do perfil do usuário do site dessa rede social. E é a partir dele que são gerados os comentários, em que os amigos opinam, concordam, criticam, elogiam, discutem sobre o que foi compartilhado. As imagens a seguir exemplificam essas situações: uma em que o usuário compartilha uma frase e recebe comentários dos amigos; e outra em que um amigo escreveu uma mensagem no mural da amiga e, em seguida, ambos interagiram pelos comentários. 55 Figura 3. Comentário que gerou respostas para o usuário Figura 4. Publicação no mural de uma amiga 56 Braga (2008) trata esses comentários como thread, que, além de ser uma das formas mais comuns de interação no Facebook, faz com que o conjunto deles, agrupados em uma mesma publicação a propósito de um assunto, possibilite uma análise da interação entre os amigos no Facebook, tornando-os uma “possibilidade metodológica muito interessante.” (Ibid., p.101). No conjunto desses comentários, é possível observar diálogos inteiros, trocas comunicacionais das mais variadas formas e até multimídia, com respostas levando para outros perfis, links e vídeos. A observação deles permite constatar que uma de suas finalidades parece ser o prolongamento do contato, das interações. A estipulação dos threads, a observação de sua duração, freqüência e conteúdos para a organização e exame desses dados em seu conjunto demonstram grande potencial analítico, uma vez que é no confronto entre posições manifestas ao longo dos threads que a realização social dos sentidos se realiza (...) visando a uma caracterização profunda das modalidades de interação ocorrentes neste ambiente. (Braga, 2008, p.101) Existe também um recurso que faz com que toda publicação possa ser curtida pelos seus amigos. O Facebook tem um recurso em que, clicando num botão chamado “Curtir”, representado pelo símbolo de um dedo polegar em sinal de aprovação, o amigo demonstra que gostou, está de acordo, aprovou aquilo que foi compartilhado. Mais recentemente esse recurso também vem sendo usado em sinal de agradecimento, como, por exemplo, quando alguém recebe felicitações de aniversário com uma mensagem no seu mural e o aniversariante agradece clicando nesse botão em sinal de retribuição. Ou quando, em outro caso, uma citação ou opinião a respeito de qualquer assunto tem valor ou algum significado para um amigo, este curte a publicação. De fato, os comentários dos participantes do Facebook nas publicações compartilhadas e observadas durante a análise foram um material enriquecedor para o avanço da pesquisa. Basicamente, o espaço aberto para que um usuário compartilhe qualquer tipo de conteúdo já traz em si os comentários como a parte principal e responsável pela interação entre todos. É neles que se realizam as diversas interações, sendo possível até, em alguns casos, que o desdobramento dessas interações permita que uma pessoa adicione um novo amigo depois das conversas nesses comentários. Eles podem se identificar por afinidades, gostos, lembranças, reencontro ou simplesmente se aproximarem depois de algum tempo 57 participando de uma dessas interações. E para provocar uma interação o conteúdo compartilhado pode ser dos mais variados tipos. Desde uma atualização ou informação sobre estado civil do usuário, lugar em que está visitando ou visitou, opiniões sobre qualquer tipo de assunto, vídeos, músicas, citações, fotos, álbuns, piadas entre tantos outros. No Facebook, com raríssimas exceções, tudo pode ser comentado e, mais recentemente, até re-compartilhado, quando uma publicação de um amigo agradou e os outros compartilham também com seus amigos. Por outro lado, para todo conteúdo publicado por um usuário do site é possível aplicar um filtro que permite falar somente com pessoas selecionadas. O Facebook possibilita que você selecione se o que está sendo publicado deve ser mostrado para todos os seus amigos, se deve excluir algum ou alguns deles que não verão sua publicação e permite também salvar como padrão a permissão e a exclusão de quem pode e de quem não pode ver suas publicações. Essa configuração pode ser refeita a cada nova publicação, ou seja, podem ser direcionados para aqueles com quem você quer falar. Caso não utilize a configuração padrão do site, que é para mostrar para todos os seus amigos, o usuário pode escolher que o conteúdo seja “público” (mesmo quem não é seu amigo pode ver no seu perfil), para toda a lista de “amigos”, “personalizado” (apenas para amigos selecionados um a um ou para excluir amigos individualmente também), para uma das listas automáticas ou criadas pelos usuários, ou ainda, publicar somente para determinado grupo. Além das publicações no mural, o Facebook também oferece outras formas de interação, entre bate-papo (chat), mensagens privadas, convites para eventos, criação de grupos públicos ou restritos para tratar de assuntos específicos ou apenas reunir pessoas com alguma característica em comum e classificação dos amigos em listas – melhores amigos, conhecidos, colegas de trabalho, colegas de escola, restritos. Essas listas são um dos recursos do site e separam automaticamente as pessoas com um mesmo tipo de dado no perfil. Por exemplo: agrupam na lista com o nome da universidade todos os seus amigos que estudaram nela no mesmo período em que você. Ou seja, é uma maneira simples de localizar e categorizar as pessoas. As listas também podem ser editadas, podem ser criadas por qualquer pessoa (nomeada e definida pelo próprio) e podem servir 58 para que o usuário selecione com quais pessoas ou grupos ele quer compartilhar qualquer publicação no mural. Quando o Facebook seleciona um dos seus amigos para uma lista, mas você não quer tê-lo nela, você pode excluí-lo da lista, trocar para outra ou simplesmente deixar no grupo geral de amigos. Duas dessas listas automáticas chamaram a atenção dos usuários: “melhores amigos” e “restritos”. Elas não são ativadas automaticamente, mas o usuário pode incluir os amigos que desejar em cada uma delas. No caso da lista “melhores amigos”, ela permite que uma publicação seja feita exclusivamente para esse grupo definido pelo usuário e também possibilita checar todas as atualizações e publicações desses amigos, sem que seja necessário ler todo o conteúdo compartilhado pelos demais, bastando para isso selecionar dentre as opções do lado esquerdo do site a lista assim nomeada. Figura 5. Lista “melhores amigos” e as pessoas incluídas nela A lista “restritos” literalmente restringe a visualização do que você publica para os amigos incluídos nela, que deixam de receber suas atualizações. Ela também não é ativada automaticamente, mas a partir do momento em que um amigo é incluído nela, todas as publicações sempre restringirão o conteúdo para ele e todos os demais na mesma lista. Nesse ponto já há uma pergunta a se fazer que diz respeito a uma das hipóteses da pesquisa: quem e por que deve ser incluído na lista “melhores amigos” e na lista “restritos”? Com que critérios os amigos são selecionados para cada uma delas? Existe na relação de amizade que antecede ao Facebook uma separação da mesma forma? Os desdobramentos dessas questões serão vistos ainda neste e no próximo capítulo. 59 Outros recursos de interação no Facebook são os aplicativos; as páginas de personalidades e empresas, que para receber conteúdo delas o usuário deve curtilas; as assinaturas, um recurso recente que permite receber publicações de outros participantes sem necessariamente adicioná-los como amigo, mas desde que o usuário permita que outros assinem seu perfil e que o conteúdo compartilhado seja público, ou seja, sem restrição de listas ou grupos. O Facebook também facilita a localização de contatos e amigos através do email do usuário. Existe a opção dentro do site para que seja feita uma busca na sua lista de contatos do email, em que, com sua permissão, o Facebook acessa sua conta de correio e localiza as pessoas com quem você já trocou mensagens. Caso qualquer uma delas participe do Facebook, ele mostra o perfil do usuário e sugere a amizade. Entre outros recursos, por fim, para citar mais um deles, existem também as sugestões de amigos feitas pelo Facebook com base nos perfis dos amigos que já fazem parte da sua lista. O site pode identificar no seu perfil e no perfil do seu amigo e dos amigos dele um dado comum, como, por exemplo, a empresa em que trabalham, e sugerir que você adicione aquele participante como amigo. É interessante notar em relação a esse último recurso citado, o da sugestão de amigos, que ao mesmo tempo em que é possível encontrar, por exemplo, um antigo colega de escola, que informou em seu perfil o nome do colégio em que você e ele estudaram e, por esse motivo, houve a sugestão da amizade, também existem sugestões de amizades que não são desejadas ou aprovadas pelos usuários. O que o site de rede social está fazendo é tentando, através de algoritmos 14, identificar perfis similares ou com dados ou preferências ou padrões de comportamento parecidos para que as pessoas aproximem-se, tornem-se amigos. Fora dos sites de redes sociais, as pessoas, antes de tornarem-se amigas, excluindo a possibilidade de um primeiro contato através de qualquer outra ferramenta de comunicação pela internet, encontram-se, são apresentadas umas às outras, conversam, identificam afinidades e diferenças e, por fim, ambos podem tomar a decisão de fazer daquele novo contato uma amizade. Será que os critérios 14 Um algoritmo é uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais pode ser executada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita. Um site de rede social como o Facebook usa algoritmos para localizar dados similares nos perfis de diferentes usuários. Com essas combinações, ele pode sugerir amizades, por exemplo. Fonte: Wikipedia, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Algoritmo 60 sugeridos pelo Facebook são adotados por seus participantes com base nos códigos de interação já conhecidos para o significado da amizade fora do ambiente online? Seriam eles capazes de criar novas amizades? Também essas questões serão elucidadas adiante. Frente aos diversos recursos deste site de rede social, para observar apropriadamente as interações nas relações de amizade, optou-se nesta pesquisa pelos comentários, pois eles permitem acompanhar a interação de forma muito similar a um diálogo, com a extensão da conversa sem tempo exato ou definido. Em alguns casos, os comentários surgem até mesmo depois de horas, dias depois desde que aquela conversa foi ativada. Isso permite ao pesquisador recorrer aos históricos de interações ao longo do tempo, buscando compreender o contexto da situação. No entanto, alguns parâmetros precisavam ser definidos para que a pesquisa pudesse ser realizada dentro de um espaço e um período, permitindo selecionar dados e analisar as situações e sem estender o universo da amostra para toda a rede de amigos de um ou mais usuários, o que inviabilizaria o acompanhamento de todas, ou grande parte das publicações e interações, tanto pelo número de amigos quanto pela quantidade de publicações e comentários realizados por eles diariamente. Para Fragoso et al. (2011, p.118), um estudo de redes sociais através de um site desse tipo requer primeiramente três delimitações: os atores, as conexões e os limites da rede. Nesta pesquisa, os atores serão os indivíduos representados por suas páginas pessoais, ou perfil, no Facebook, considerando que através delas expressa-se somente um ator, um indivíduo. Em outras situações, é possível que mais de um ator expresse-se através de um mesmo perfil, como num blog, num fotolog ou numa página coletiva no Facebook. “Os atores de uma rede social podem ser indivíduos, instituições e grupos. São representados pelos nós, os quais serão interconectados pelas arestas que o pesquisador decidir levar em conta” (Fragoso et al., 2011, p.119). Para as conexões, Fragoso et al. explicam que elas podem ser de qualquer tipo, “desde conexões formais (tais como subordinação em uma empresa, por exemplo) até conexões informais, como interações ou laços sociais.” 61 (Fragoso et. al., op.cit.). Quando existe um conjunto de laços específicos entre indivíduos, Wasserman e Faust (1994, apud Fragoso et al., 2011, p.119) os definem como relações sociais, que podem ser desde laços diplomáticos entre nações até a amizade entre duas ou mais pessoas, o caso específico do objeto desta pesquisa. Assim, as conexões, aqui, serão a relação social proporcionada pela amizade. Para definir os limites na rede social analisada, há duas opções: “rede inteira ou rede ego” (Fragoso et al., 2011, p.120). No caso da “rede ego”, escolhe-se um ator para iniciar o traçado da rede e, a partir dele, todos os nós e conexões vão sendo reconhecidos. Já na limitação pela “rede inteira”, a escolha pode ser por comunidades ou grupos com uma identificação entre seus participantes. Esse último é o caso desta pesquisa: a análise das interações será realizada dentro dos grupos espontâneos criados por indivíduos com um grau de amizade de médio a alto, ou seja, entre aqueles que se conhecem e existe uma relação de fato próxima, e que usam desse recurso do Facebook para manter contato, reavivar lembranças, compartilhar fotos principalmente antigas, marcar encontros, tentar preservar os laços da amizade, pelo menor que seja o contato através desse site de rede social. Frente à escolha dos grupos, alguns secretos e outros abertos, a questão que se colocou para esta pesquisa a seguir foi o grau de inserção do pesquisador na observação dentro deles. Para Fragoso et al. (2011, p. 192), “a partir da inserção do pesquisador no campo, mesmo que ele não se identifique e não seja um participante previamente inserido na cultura em questão, há uma transformação no objeto.” Diante disso e visando à preservação das interações espontâneas dos participantes, visto que um observador externo poderia constranger ou limitar as expressões dos indivíduos, optou-se em realizar o trabalho sob a técnica de lurking. Em três dos grupos observados, como a participação era livre e pública, o pesquisador foi incluído por um dos participantes, sem que isso fosse obrigatoriamente comunicado a todos eles, tampouco sobre o objetivo da entrada para a pesquisa. Nos outros dois grupos, a observação foi realizada em conjunto com um dos membros que, através do seu perfil e com sua autorização, permitiu ler e acompanhar todas as publicações de um determinado período. Isso foi realizado durante três meses, se agosto a outubro de 2011, e sempre com um 62 encontro agendado com esse membro que autorizou a observação dentro do grupo. Por esse motivo também foi uma escolha decorrente desse método manter o anonimato de todos os participantes dos grupos, não revelar a identidade, crenças, diferenças culturais ou abordar assuntos relacionados à intimidade deles. Manteve-se, assim, o foco sobre as interações mais do que sobre o conteúdo. Embora, uma relação social como a amizade possa ter conteúdos variados, como afirma Recuero (2009), o mais importante na observação não-participante era descrever as práticas sociais da amizade dentro do ambiente online, destacando como as interações cumprem ou colaboram para essa função. Para isso, foram selecionados cinco grupos pré-existentes em que a finalidade principal era reunir num único espaço amigos de diferentes ocasiões. O grupo 1 reúne ex-usuários de uma das primeiras ferramentas de comunicação dos ambientes mediados pelo computador, o MIRC 15, que servia como um chat. Para esta pesquisa, foi localizado no Rio de Janeiro um grupo de indivíduos que se conheceram através desse canal, que marcavam encontros presenciais naquela época e que se tornaram amigos desde então. De lá para cá, o MIRC foi substituído por outras ferramentas de comunicação mais simples e de fácil utilização, como os programas para troca de mensagem em tempo real, chamados de instant messengers. A relação entre aqueles amigos tentou se manter primeiro através dessas novas ferramentas de chat; em seguida, partiu para comunidades naquele que foi o primeiro e tornou-se o mais popular site de rede social no Brasil, a partir de 2005, o Orkut; por fim, muitos deles, depois de trocar o Orkut por novos sites de redes sociais, reencontraram-se no Facebook, e um deles tomou a iniciativa de incluir todos aqueles amigos conhecidos nesse grupo. Até o final do período de observação desta pesquisa, o grupo tinha 199 participantes, sendo que nem todos são da cidade ou estão no Rio de Janeiro. 15 MIRC é um cliente de IRC, shareware, para o sistema operacional Microsoft Windows, criado em 1995 e desenvolvido por Khaled Mardam-Bey com a finalidade principal de ser um programa chat utilizando o protocolo IRC, onde é possível conversar com milhões de pessoas de diferentes partes do mundo. Este era somente o seu uso, mas evoluiu para uma ferramenta totalmente configurável, que pode ser usada para muitas finalidades devido à sua linguagem de programação incorporada (mIRC Scripting). Fonte: Wikipedia, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/MIRC 63 Alguns se mudaram para outras cidades, grupos de demais usuários de MIRC de outros estados também foram incluídos nesse mesmo grupo, mas a característica mais marcante é que todos se reconhecem principalmente pelo apelido, ou nickname 16, que usavam naquela época. As interações através dos comentários são, em sua maioria, perguntando sobre o paradeiro de outros participantes, em fotos da época publicadas no grupo, a partir das lembranças das situações e dos encontros que aconteciam com freqüência e há sempre um convite para que o grupo volte a se reunir, para que todos compartilhem informações sobre onde estão, o que estão fazendo, com o que trabalham etc. O grupo 2 é a reunião de ex-alunos de diferentes anos que estudaram em um colégio carioca e que, aos poucos, foram reencontrando, no Facebook, os amigos de turma. Alguns deles, mesmo depois de concluir os estudos nesse colégio, mantiveram o contato através de telefone, cartas e encontros. Esses são, geralmente, aqueles cuja amizade nasceu na escola mas se manteve ao longo dos anos, com mais ou menos contato em algumas ocasiões, porém sempre interagindo. No grupo, os participantes encontram outros colegas de turma, informam sobre aqueles dos quais sabem a localização e com quem mantiveram a relação durante os anos depois da escola, compartilham fotos da época, relembram situações com professores, inspetores, outros colegas, em viagens, em provas etc. O grupo contava com 218 participantes, foram compartilhadas 198 fotos, entre junho e outubro de 2011, e houve, pelo menos atestado dentro grupo, um reencontro de parte dos amigos. Acontece que num grupo tão grande e com pessoas que estudaram em anos diferentes, assim que os amigos mais próximos se reencontram, vão sendo formados outros grupos menores, que conseguem realizar os encontros, trocar e interagir com mais freqüência. Muito similar ao anterior, o grupo 3 também é uma reunião de ex-alunos, mas nesse caso de algumas turmas que concluíram o ensino médio em 1992, em uma escola de educação tecnológica, no Rio de Janeiro. Grande parte deles 16 Nickname é sinônimo de alcunha. “Uma alcunha (no Brasil também se usa o termo apelido que, em Portugal, designa nome de família) é uma designação não-oficial criada através de um relacionamento interpessoal, geralmente informal, para identificar uma determinada pessoa, objeto ou lugar, de acordo com uma característica que se destaque positiva ou negativamente, de forma a atribuir-lhe um valor específico.” Fonte: Wikipedia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alcunha 64 conviveu junto durante os três anos de formação técnica na escola, mas outros já se conheciam antes disso e levaram a amizade também para dentro das salas de aula. A principal característica deste grupo é que ele é pequeno, tem sessenta e um participantes, e muitos dos amigos mantiveram a amizade depois da conclusão dos estudos. Isso fica nítido nas publicações, nos comentários e nas fotos de encontros recentes. O espaço no Facebook foi criado como uma opção para preservar os laços dessas amizades e manter ativa a interação e o contato entre todos eles. Ainda assim, a primeira regra quando qualquer novo participante é incluído é pedir para que ele apresente-se e informe se está solteiro ou casado, se tem filhos, a profissão e onde vive. Funciona quase como um rito para ser identificado e a partir dali, como eles mesmos dizem, estar devidamente situado no contexto. O grupo 4 tem treze membros, a amizade entre os participantes já dura dez anos ou mais, todos estudaram juntos por muito tempo ou ainda vivem próximos, moram no mesmo bairro ou até na mesma rua. As discussões são sobre assuntos corriqueiros, desde qualquer ação realizada durante o dia, notícias, próximos encontros nos finais de semana, os namoros, as brigas etc. Também compartilham algumas fotos, lembram situações passadas, discutem futebol, política, música, entre outros. O fato mais relevante que chamou atenção na observação é que existe uma regra definida desde a criação do grupo e que é apoiada por todos aqueles que são incluídos, é como se fosse uma condição para ser aceito: tudo que é escrito, compartilhado, as opiniões, as críticas, as fofocas, nada disso pode sair daquele ambiente, especialmente os segredos não podem ser jamais revelados para qualquer pessoa fora do grupo. E mais: namorados e namoradas não são considerados amigos e não devem ser incluídos no grupo. Por fim, o grupo 5 é composto por 33 amigos que se conheceram ao longo de anos, alguns desde os primeiros anos da escola, outros, mais recentemente, mas nenhuma amizade tem menos do que dois anos. É um grupo muito ativo na interação no Facebook, com diversas publicações que geram inúmeros comentários todos os dias. Qualquer situação é motivo para compartilhar ou publicar no grupo. Podem ser fotos do encontro de alguns deles que trabalham próximos e marcam para almoçar num dia da semana, comentários enquanto assistem aos programas da televisão, piadas e brincadeiras entre eles, convites 65 para encontros para assistir ou ir aos jogos de futebol, muitas publicações sobre os encontros freqüentes nos finais de semanas e todas as fotos decorrentes deles, entre tantos outros motivos para interagir no grupo. Neste grupo, foi possível perceber também que eles buscam levar a linguagem escrita para o mais próximo da informalidade, escrevem utilizando códigos e símbolos da comunicação típica da internet, como emoticons, palavras em maiúsculas para indicar que estão falando alto, e não se preocupam com o que está sendo dito dentro do grupo no Facebook, se é um palavrão, um xingamento, uma ofensa, qualquer coisa que não seria escrita por eles em seus perfis para os demais amigos. O que é publicado, geralmente, provoca um número grande de comentários que vai crescendo e se estendendo como num diálogo e que pode ser reativado a qualquer instante. Todos parecem gostar de opinar e de se mostrar presentes em qualquer publicação. Havia 221 fotos dentro do grupo, entre maio e outubro de 2011, e esse é o tipo de publicação que gera mais comentários porque é sempre de uma situação em que a maioria estava reunida e traz boas lembranças e motivos para interagir. Depois de reunidas as primeiras observações sobre os grupos, o material foi analisado de forma a buscar pontos comuns que pudessem sinalizar pistas sobre a relação de amizade entre seus participantes dentro desse espaço de interação digital. Embora distintos, com finalidades diversas e perfis de usuários diferentes, o foco para analisar a amizade deteve-se sobre a interação e a troca de conteúdos – a partir dos threads, ou comentários, sobre as mensagens de texto, fotos, vídeos e outros comentários – entre eles e como tudo o que é compartilhado impacta as conexões nessa rede, ou seja, os amigos. Com o intuito de aprofundar a investigação para esta pesquisa, o próximo passo foi combinar a observação dos comentários nos grupos com outras técnicas de metodologia de pesquisa que pudessem oferecer mais subsídios para a análise. Pela sua própria adaptabilidade, o método etnográfico pode ser combinado com outros métodos e técnicas para pesquisa. E para complementar esse método aplicado aqui, foi utilizada a pesquisa qualitativa através da seleção e entrevista em grupos de participantes do site de rede social Facebook. “A pesquisa 66 qualitativa visa uma compreensão aprofundada e holística dos fenômenos em estudo e, para tanto, os contextualiza e reconhece seu caráter dinâmico, notadamente na pesquisa social.” (Fragoso et al., 2011, p.67). A partir da observação e do comportamento dos usuários em relação ao tipo de conteúdo que compartilham, a frequência, a quantidade de interações através de comentários e a repercussão de alguns conteúdos compartilhados, foram selecionadas pessoas que, ao mesmo tempo, possuem um perfil no site, ou seja, são atores da rede social, e também utilizam o recurso ou fazem parte de qualquer tipo de grupo, aberto ou privado. Não necessariamente esses grupos dos quais os entrevistados fazem parte são os mesmos observados anteriormente. Nesta etapa da pesquisa, o objetivo das entrevistas era verificar o que se comprovaria através das declarações dos participantes em relação ao que fora observado anteriormente nos grupos no tocante à interação com amigos. “A combinação multimétodos reforça e desvela o caráter epistêmico da etnografia e está presente em estudos que priorizam objetos distintos da comunicação digital e operam em níveis macro, micro e mezzo.” (Fragoso et al., 2011, p.188). Para a autora e naquilo que concerne ao universo desta pesquisa, dos níveis descritos, o micro é aquele que vem recebendo maior relevância e atenção para pesquisas em internet. Isso porque ele diz respeito tanto à especificidade dos métodos e técnicas de pesquisa em relação aos possíveis objetos em internet quanto à crescente utilização dos próprios recursos, tecnologias e aplicativos na web, como ferramentas metodológicas. É justamente o caso desta pesquisa, que utilizou um site de rede social como ambiente a ser observado, mas também fez de seus recursos, como o encontro dos indivíduos em grupos, uma parte da metodologia aplicada à observação e análise. E para enriquecer esta análise descritiva recorreu-se à técnica qualitativa da pesquisa, já conhecida e comprovadamente eficaz aos objetivos propostos. Braga explica que a internet é um meio interativo que possibilita comunicação e feedback em dois sentidos. Isso quer dizer que, nesse ambiente de comunicação mediada pelo computador, as trocas de mensagens ocorrem entre os indivíduos “um-para-um, como no caso dos e-mails; um-para-muitos, como é o caso das webpages; muitos-para-um, no caso de navegação em busca de 67 informação e muitos-para-muitos, como no caso das listas de discussão.” (Braga, 2008, p.43). Um site de rede social, como o Facebook, incorpora parte de todas essas possibilidades de interação através de seus recursos. Por essas características, a internet, ainda segundo a autora, pode ser usada como suporte de comunicação humana ou de massa, o que a torna híbrida e faz com que os estudos a seu respeito precisem considerar aspectos de ambos os modos comunicativos. Para Braga, a disciplina da Comunicação tem separado a comunicação humana e de massa em áreas distintas, mas a internet se torna um desafio porque tem características dos dois tipos. Estudos pioneiros da CMC argumentavam que a eliminação da informação oral e visual e feedback direto faziam do computador um meio frio no qual as emoções e afetos estavam excluídos da interação. (...) Atualmente, é possível observar instâncias nas quais os níveis de afeto e emoção desenvolvidos nas relações via Internet podem ser similares ou mesmo ultrapassar aqueles estabelecidos em relações face a face ou mediadas por outros suportes técnicos. (...) Assim, uma característica central da CMC é a importância do feedback, sem o qual a comunicação por esta via está condenada a ser finalizada. Sem os recursos sociais disponíveis em contextos de presença física imediata, a CMC depende da troca interativa de mensagens. (Braga, 2008, p. 44) Pois é justamente com o interesse de observar o papel da emoção, representada pelo sentimento da amizade, na interação mediada pelo computador, neste caso, através do site de rede social Facebook, que esta pesquisa avança para o capítulo seguinte. Nele serão apresentados o desenvolvimento da pesquisa, a análise combinada da observação dos grupos com as entrevistas em profundidade, o levantamento bibliográfico sobre o tema e a conclusão. 68 3. A antropologia das emoções e o Facebook De que forma e onde começa uma amizade? Quem primeiro definiu essa relação? Sêga (2011) explica que nas sociedades pré-modernas a amizade era uma extensão da comunidade local e do parentesco, era institucionalizada e estava baseada na solidariedade de sangue ou nos companheiros de armas. Rezende (2002) aponta que na literatura das Ciências Sociais, o tema amizade muitas vezes teve sua validade questionada, em particular na Antropologia e na Sociologia. Já para a Filosofia, continua a autora, a amizade sempre teria ocupado um espaço essencial naquilo que deveria ser levado em conta para uma vida bem realizada. Rezende afirma que na filosofia de Aristóteles, “a amizade era mesmo essencial à ética, pois apenas as pessoas boas e virtuosas seriam amigas no sentido mais pleno do termo” (Rezende, 2002, p.18). É possível encontrar entre a obra de Aristóteles algumas passagens sobre a amizade: i) é amigo aquele que ama e é amado em retorno. As pessoas que julgam encontrarse nestas disposições reciprocamente julgam ser amigas; ii) estamos igualmente unidos pela amizade quando os bens e os males são comuns; iii) mostra-se verdadeiramente amigo o homem que quer para o ser amado aquilo que quer para si; iv) as espécies de amizade são: a camaradagem, a familiaridade, o parentesco e as ligações do mesmo gênero. O que produz a amizade é a benevolência, os serviços prestados sem que tenham sido solicitados e sem que posteriormente sejam publicados; nestas condições, tais serviços foram prestados apenas em atenção ao beneficiado, e não por outro motivo. (Aristóteles, 2000, p.126) Ao longo dos séculos, a amizade recebeu novas configurações em consequência das transformações por que passaram as sociedades. Algumas das mais relevantes delas foram trazidas pela modernidade, quando nasce o indivíduo que é deslocado para o centro das questões históricas e sociais, o ser para quem o individualismo prevaleceria sobre qualquer estrutura social. Para Rezende (2002), a partir do cristianismo, a amizade deixou de ser tratada como ideal ético até ser vista, a partir do século XVIII, como um sentimento natural, uma relação estritamente pessoal, de cunho afetivo e não condicionada a princípios sociais. Esse fato fez com que, durante muito tempo, a amizade fosse abordada como tema da psicologia, pois “seria por demais informal e emotiva para ter alguma importância estrutural ou funcionalidade para a sociedade, como era o 69 caso das relações de família e parentesco” (Rezende, 2002,19). Por esse motivo mesmo é que são raros materiais e estudos acerca do tema, inclusive porque até o final da década de 1950 ela foi tratada como assunto periférico na Antropologia, segundo atesta Rezende. Para esta, é somente a partir da década de 1990 que surgem estudos mais detalhados sobre a amizade. Eles foram divididos em dois grupos de acordo com seu recorte teórico-metodológico: Alguns partem de uma definição preestabelecida de amizade para mostrar como a relação é afetada por variáveis sociológicas como gênero, fase de vida, classe etc. Outros tomam-na como objeto de representações histórica e culturalmente elaboradas e, portanto, variadas. (Rezende, 2002, p.21) O trabalho em que é possível encontrar mais referências históricas sobre a amizade descreve como era essa relação entre os séculos XVIII e XIX e é de Anne Vincent-Buffault. Ela analisou diversos textos sobre o tema, desde obras com abordagens filosóficas, relações de civilidade, regras de comportamentos sociais até o engajamento político da amizade, confirmado no pensamento de Aristóteles. Para Vincent-Buffault (1996), os indivíduos buscam identificação entre si, e a amizade oferece os referenciais necessários para essa identificação, como nas relações sociais e na interação dentro dos aspectos da amizade que serão abordados nesta pesquisa. 3.1. Interações e relações sociais mediadas pelo computador Entre os indivíduos da era anterior à modernidade aos indivíduos contemporâneos, ocorreram significativas mudanças nas estruturas da ordem social na qual eles estavam inseridos, e até mesmo psicológicas, que gradativamente transformaram também as relações e a interação entre eles. Hall (1999) acredita que a grande mudança se deu entre o Humanismo Renascentista do século XVI e o Iluminismo do século XVIII, representando uma ruptura importante em relação ao passado, sendo esse o ponto crucial para colocar em ação todo o sistema social da modernidade. Nessa primeira fase, para o autor, ocorre o nascimento “do sujeito soberano”, conceptualizado a partir de importantes movimentos na sociedade: a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentista, que colocou o Homem no centro do universo; as 70 revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, científico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada. (Hall, 1999, p.26) No entanto, o autor acredita que, a partir do final do século XVIII, à medida que as sociedades iam se tornando mais complexas, também foram adquirindo uma forma mais coletiva e social. E seguindo essa vertente, surge então uma concepção mais social também do sujeito. Agora, ele está localizado dentro das estruturas que sustentam a sociedade moderna. Com isso, as antigas teorias clássicas liberais, baseadas no individualismo, viram-se diante da obrigação de se adaptar às estruturas do estado-nação para atender aos anseios das massas que fazem parte de uma democracia moderna. Dentro deste quadro, dois importantes eventos ainda contribuíram para designar esse sujeito moderno, que vai se acomodando dentro da estrutura social em transformação, sendo um deles o fato de que “o sujeito foi ‘biologizado’ – a razão tinha uma base na Natureza e a mente um ‘fundamento’ no desenvolvimento físico do cérebro humano” (Hall, 1999, p.30). Essa teria sido uma conseqüência do surgimento da Biologia Darwiniana 17. O segundo evento teria sido o surgimento das novas Ciências Sociais, que, para Hall, baseado no dualismo típico do pensamento cartesiano, institui a divisão entre a psicologia e a sociologia, quando a partir de então “o estudo do indivíduo e de seus processos mentais tornou-se o objeto de estudo especial e privilegiado da psicologia” (Hall, 1999, p.31). Esse último fato atesta as afirmações anteriores de Rezende (2002), citadas nesta pesquisa, sobre o espaço reservado aos estudos sobre a amizade nesse período e a razão pela qual não é simples encontrar referências sobre o tema, muitas vezes preterido pela Sociologia e pela própria Psicologia. Naquele momento, a Sociologia, segundo Hall, volta-se para a crítica do “‘individualismo racional’ do sujeito cartesiano” (Hall, 1999, p.31), que estaria inserido em processos de grupo e normas coletivas que prevaleciam sobre quaisquer contratos 17 “Charles Robert Darwin foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual. Esta teoria se desenvolveu no que é agora considerado o paradigma central para explicação de diversos fenômenos na Biologia”. Fonte: Wikipedia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin 71 individuais, estabelecendo que os indivíduos são formados subjetivamente através de relações sociais mais amplas, mas que ao mesmo tempo, inversamente, as estruturas e os processos sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos desempenham neles. “Essa ‘internalização do exterior no sujeito, e essa ‘externalização’ do interior, através da ação no mundo social, constituem a descrição sociológica primária do sujeito moderno (...)”. (Hall, op. cit.). Para Hall, a integração do indivíduo na sociedade sempre fora uma preocupação de longa data da Sociologia e esse era o momento propício para expansão e realização desse desejo. São desse período os primeiros estudos chamados interacionais, como os de Goffman, preocupados em entender como o “eu” do indivíduo se apresenta de acordo com as diferentes situações sociais, e como um possível conflito entre esses papéis é negociado. Para Goffman (2008), cada pessoa representa um papel, como num teatro, e esse papel, por sua vez, deve revelar um “eu” apropriado para cada ocasião e, ao mesmo tempo, esconder um self que, se revelado, poderia prejudicar o propósito do ator por trás de cada papel. Primo explica que a definição de relação social que se tornou um dos pilares da teoria sociológica é de Weber: “a situação em que duas ou mais pessoas estão empenhadas em uma conduta onde cada qual leva em conta o comportamento da outra de uma maneira significativa, estando portanto orientadas nestes termos” (Primo, 2007, p.76). Para este autor, o caráter social do contato entre os seres humanos se comprova somente quando a ação de um indivíduo é orientada para a de outro. Já Georg Simmel (1986 apud Primo 2007, p.76) analisa o fenômeno social a partir do pressuposto da interação, em que a sociedade só existe dentro de um quadro em que os indivíduos sempre reagem uns aos outros reciprocamente. Na interação, para Simmel, os indivíduos agem de acordo com um conteúdo – interesses e motivações – e uma forma, que está baseada na relação constituída na influência de uns sobre os outros. Tanto Weber, quanto Simmel e Goffman abordaram as relações sociais com ênfase no relacionamento mútuo, numa reciprocidade na interação. Esse conceito é importante e irá relacionar-se com parte desta pesquisa, pois é a partir da compreensão da interação sob o ponto de vista da reciprocidade que seguiremos 72 em direção à evolução do interacionismo nas relações mediadas pelo computador contemporaneamente, nesse caso especificamente a amizade. Tomada como parte de relações sociais e ao mesmo tempo um sentimento, sob o aspecto da antropologia das emoções, aqui, a amizade será analisada nesses ambientes através dessa perspectiva da interação, em que os indivíduos exercem influência uns sobre os outros e que a relação é constituída de forma recíproca, o que nos levará até a análise da expressão desse sentimento dentro do código comum de uma linguagem encontrada no ambiente de um site de rede social, o Facebook. A crítica de Primo para compreender os aspectos da interação nas condições em que ela é mediada pelo computador, dentro da Comunicação Social, se faz sobre estudos anteriores em que “o destaque atomístico e descontextualizado do comportamento individual” (Primo, 2007, p.74) que traz como conseqüência “a miopia do tecnicismo e o foco psicologizante que isola o indivíduo” se opõe à análise da inter-relação entre as partes durante o processo interativo, ou seja, aquele em que “passa-se a valorizar a totalidade sistêmica.” (Primo, op. cit.). Levando em consideração que esta pesquisa aborda a interação com foco na amizade dentro de um site de rede social, outra perspectiva que deve ser localizada dentro deste estudo também é a da análise da dinâmica entre as partes de forma sistêmica nos estudos de redes sociais. Recuero (2009) aponta que para entender um fenômeno nesses casos é necessário observar não apenas suas partes, mas suas partes em interação. Essa abordagem oferece ferramentas únicas para o estudo dos aspectos sociais do ciberespaço: permite estudar, por exemplo, a criação das estruturas sociais; suas dinâmicas, tais como a criação de capital social e sua manutenção, a emergência da cooperação e da competição; as funções das estruturas e, mesmo, as diferenças entre os variados grupos e seu impacto nos indivíduos. (Recuero, 2009, p.21) Dessa maneira, após localizar o indivíduo a partir do cenário da modernidade, as transformações provocadas sobre o “eu” e suas consequências dentro das relações sociais, partiremos para buscar compreender de que forma estão estruturadas as relações na contemporaneidade e como se configuram as interações através da comunicação mediada pelo computador. Sob os aspectos da interação recíproca e da análise sistêmica das partes que interagem, o foco desta pesquisa a partir daqui se coloca sobre a linguagem como elemento fundamental 73 da relação e como um código capaz de expressar sentimentos como a amizade. Esta será analisada em contextos relacionais anteriores ao surgimento dos sites de redes sociais na internet para tentar identificar de quais formas essa linguagem da amizade se constitui em um ambiente como o Facebook. O objetivo principal será demonstrar a dinâmica dessa relação expressa como um sentimento, sob a ótica da antropologia das emoções, através da estrutura de um site de rede social, e como este permite desenvolver tal linguagem através de códigos explícitos, ou não, em suas funcionalidades e características exploradas por seus usuários. Para embasar essa abordagem, antes, será necessário um breve histórico de como o indivíduo, seu “eu”, modificou-se entre os quadros da modernidade à pós-modernidade, a fim de buscar compreender como agora as relações podem ocorrer num contexto interacional de ambientes, onde ferramentas de comunicação, como os sites de redes sociais, são apropriadas para expressão desse mesmo “eu”, e como nessa expressão a amizade se realiza. 3.2. A globalização e o sujeito individualista Hall acredita que uma das principais características da ordem social na pósmodernidade é decorrente da globalização, um complexo de processos e forças de mudanças. Dentro da globalização estariam processos atuantes numa escala global, que desfazem as fronteiras nacionais para interconectar as comunidades e as organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, por sua vez, totalmente interconectado. Para o autor, essa compressão do espaçotempo provoca a “aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor, (...) que os eventos em um determinado lugar têm impacto imediato sobre pessoas e lugares a uma grande distância”. (Hall, 1999, p.69) Segundo o autor, a principal consequência da globalização sobre os indivíduos está na transformação que essas mudanças provocam sobre suas identidades, sobre o “eu”. Ele acredita que o tempo e o espaço são as coordenadas básicas de todo os sistemas de representação. “Todo meio de representação – escrita, pintura, desenho, fotografia, simbolização através da arte ou dos sistemas de telecomunicação – deve traduzir seu objeto em dimensões espaciais e temporais”. (Hall, 1999, p.70). Por esse motivo, a moldagem e remodelagem das 74 relações entre espaço e tempo na pós-modernidade provocam efeitos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas, visto que elas estão profundamente envolvidas no processo de representação, conclui Hall. É esta uma das primeiras características da sociedade pós-moderna que serão descritas a seguir. Sua relevância para esta pesquisa está diretamente relacionada ao fato de ser parte do cenário em que está inserido o indivíduo pós-moderno, que será analisado interagindo através de uma ferramenta de comunicação mediada pelo computador. Logo, é importante compreender de que são feitas essas partes em interação na análise que se seguirá. Giddens acredita que nesse mesmo período houve também a globalização da atividade social, impulsionada pela modernidade e que produziu um processo de desenvolvimento de laços genuinamente mundiais. “A globalização diz respeito à interseção entre presença e ausência, ao entrelaçamento de eventos e relações sociais ‘à distância’ com contextualidades locais” (Giddens, 20002, p.27). Somada ao aspecto anterior da pós-modernidade descrito, essa característica pode ser relacionada com a estrutura das relações, ou conexões, estabelecidas entre os indivíduos através de um site de rede social, por exemplo. Embora a descrição de Giddens aponte para algo muito maior, no sentido de relações globais que envolvem até mesmo nações, é possível enxergar essa mesma ideia dentro do micro ambiente que está sendo analisado nesta pesquisa através do Facebook. Neste site, a presença não necessariamente é física, como descreveu Goffman (2008) no seu modelo de interação face a face, mas pode ser percebida através da caracterização dos atores na rede social online com a apropriação que fazem do espaço para a constituição de um “eu”, com a construção de seus perfis e do que esses representam para as outras partes em interação. Ou seja, a globalização, como é vista tanto por Hall quanto por Giddens, poderia estar provocando desdobramentos nas formas de interação. Giddens também apresenta algumas circunstâncias da sociedade pósmoderna, ou da “alta modernidade”, com as quais os indivíduos precisam lidar diariamente e que influenciam diretamente sobre suas relações sociais. Para ele, essas circunstâncias são conseqüência da pluralidade de escolhas que se colocam diante dos indivíduos. A primeira delas é “viver numa ordem pós-tradicional” que 75 os confronta. “Agir num mundo de escolhas plurais, envolver-se com ele, é optar por alternativas, tendo em vista que os sinais estabelecidos pela tradição estão agora em branco” (Giddens, 2002, p.81). Em seguida, o autor traz a “pluralização de mundos de vida”, uma mudança em relação aos ambientes sociais em que circulam e convivem. Antes, vivia-se “dentro de um conjunto de ambientes comparáveis” (Giddens, op. cit.), que englobavam a família, os locais de lazer e de trabalho, entre outros. Agora, os ambientes nessa nova estrutura em que se encontra o indivíduo são muito mais diversos e segmentados. Dessa forma, é preciso tomar decisões, fazer escolhas o tempo inteiro, sendo elas cada vez mais plurais e diversas. E, ao mesmo tempo, perceber como parte dessas escolhas também está relacionada à circulação entre os segmentados ambientes que se constroem a partir de então. Outra circunstância relacionada pelo autor é o “impacto existencial da natureza contextual das crenças garantidas nas condições da modernidade” (Giddens, 2002, p.82). Isso significa que, ao contrário do que se possa esperar, a modernidade não opera em situações de certeza, mas sim, faz prevalecer a “dúvida metódica.” “(...) os sistemas abstratos que tanto penetram na vida cotidiana normalmente oferecem múltiplas possibilidades em vez de fornecer guias ou receitas fixas de ação.” (Giddens, op. cit.) Por fim, Giddens destaca a “prevalência da experiência transmitida através da mídia.” Para ele, a mídia tem dado aos indivíduos cada vez mais informações sobre performances que acontecem em lugares diferentes, distantes de onde eles estão, fazendo com que se tornem audiências que não estão “fisicamente presentes”. “Como resultado, a ligação tradicional entre ‘ambiente físico’ e ‘situação social’ foi solapada; situações sociais que vêm pela mídia constroem novas semelhanças – e diferenças – entre formas pré-constituídas de experiência social.” (Giddens, 2002, p.83). Essas também são duas circunstâncias que estão incluídas no desenvolvimento desta pesquisa, visto que, por exemplo, estar num site de rede social é uma escolha, dentro do qual você também faz escolhas, como aquelas entre aceitar a conexão com um novo amigo ou não, o que deve compartilhar, como retribuir o que recebe etc. Há ainda a questão de se deparar a todo instante com situações novas, para as quais nem sempre há referenciais que auxiliem sobre 76 como agir. Além disso, um site como o Facebook permite conexões com outras pessoas e organizações em qualquer parte do mundo, de quem você certamente irá receber informações, dados, notícias e com os quais irá se aproximar lendo, comentando, curtindo, compartilhando etc. E sobre essas quatro circunstâncias, para o embasamento desta pesquisa, será analisada ainda a dinâmica que justifica como elas estão ligadas à “forma” e ao “conteúdo” das relações sociais, sobretudo a amizade. Giddens credita também à pluralidade de escolhas as relações com os outros, “à transformação da intimidade”. (Giddens, 2002, p.85). Ele explica que os gregos não usavam uma palavra para designar “amigo” no sentido em que a palavra é conhecida hoje. Para eles, philos era a denominação para referir-se aos mais próximos e mais queridos, independente de serem parentes, afins ou de qualquer relação consangüínea. “A rede de philos de uma pessoa era basicamente dada pela posição social do indivíduo; havia pouco espaço para escolha espontânea.” (Giddens, 2002, p.85). Do contrário, nos sistemas da modernidade, continua o autor, é característico que os amigos sejam escolhidos voluntariamente dentre as diversas possibilidades que são oferecidas aos indivíduos. Ele explica que quando esses laços são livremente escolhidos, na “alta modernidade”, é possível considerar essa relação como o que ele chama de uma “pura relação”, aquela em que há elementos centrais envolvidos numa relação íntima e emocionalmente exigente, como é o caso da amizade. A moderna amizade expõe essa característica de maneira ainda mais clara. Um amigo é definido especificamente como alguém com quem se tem uma relação que não depende de nada mais que das recompensas que essa relação oferece. É possível tornar-se amigo de um colega, e a proximidade no trabalho ou o interesse compartilhado gerado pelo trabalho podem estimular a amizade – mas ela só será uma amizade se a ligação com a outra pessoa for valorizada em si mesma. (Giddens, 2002, p.87) Partindo desse aporte teórico para compreender o indivíduo, sua relação com e dentro da estrutura social pós-moderna, seguiremos para explorar a interação na amizade dentro do contexto da comunicação mediada pelo computador. Para isso, são apresentadas a seguir algumas hipóteses acerca desse particular tipo de interação, que, embora específica, tem sido a responsável pela 77 criação e até manutenção de laços sociais em muitas relações contemporâneas, incluindo a amizade. 3.3. Interações sociais e a expressão dos sentimentos Enquanto na primeira metade do século XX as preocupações tecnológicas do homem estavam em conquistar o espaço, na segunda metade, o homem preocupouse em conquistar o tempo. As novas tecnologias de comunicação buscam novas formas de relacionamento social enfrentando alguns desafios. Entre esses está o de manter a presença contínua da consciência crítica social, política e econômica face a tantas informações vindas de diferentes pontos de emissão. (Sêga, 2011, p.117). A ideia defendida pela autora corrobora com aquelas circunstâncias enumeradas por Giddens. De fato, as novas tecnologias de comunicação, apropriadas pelos indivíduos para promover a interação mediada pelo computador, requerem atenção sobre as questões da presença versus a ausência nas relações sociais. Essas ferramentas são capazes de emitir sinais de qualquer parte, a qualquer momento, e isso provocar, além da obrigatoriedade de escolhas – como aponta Giddens – a necessidade de se manter uma capacidade crítica e analítica sobre os desdobramentos que podem trazer o conteúdo emitido e o recepcionado. Sêga aponta que os meios técnicos de comunicação, como a televisão e o computador – “que vem acompanhado dos serviços de internet, permitindo o acesso e a distribuição das informações, além da comunicação entre as pessoas” (Sêga, 2011, p.119) – colaboram para a interação social. Na recepção e apropriação das formas simbólicas que se constituem através da internet, cada indivíduo coloca sobre o que recebe seus respectivos valores sociais, políticos, religiosos, econômicos, míticos e culturais, entre outros. Na internet, para Sêga, a comunicação ocorre da mesma maneira que nas formas tradicionais, ou seja, vai do emissor ao receptor, através de um canal, com um código, dentro de uma mensagem, inserida num contexto. Ela acredita que isso tenha permitido que os indivíduos conquistassem uma nova forma de estabelecer as relações sociais, pois os usuários da internet mostram-se predispostos a trocar informações e estabelecer comunicação no ciberespaço, que é em si o lugar da interação social nesses ambientes. 78 Por fim, Sêga ainda chama atenção para o fato de que as “relações sociais virtuais” são construídas sobre laços de intimidade com tanta naturalidade e espontaneidade que estão dispensando, muitas vezes, as etapas que ocorrem nas formas tradicionais de se relacionar. No Facebook, por exemplo, muitos usuários adicionam até desconhecidos como amigos e assim os consideram, sem que necessariamente tenha ocorrido, alguma vez, encontros face a face entre essas pessoas que levassem à intimidade e ao grau de envolvimento que comumente se percebe entre aqueles que se conhecem e se tornam amigos fora desse ambiente, nas relações offline. Para a autora, a emoção e o sentimento podem ser demonstrados através da linguagem verbal ou através de símbolos específicos da comunicação pela internet, como os emoticons 18. Nesse ponto, alcançamos um dos elementos principais desse capítulo: a linguagem. Mais especificamente, o uso da linguagem para comunicar e expressar sentimentos. Para Giddens, “virtualmente toda experiência humana é mediada – pela socialização e em particular pela aquisição da linguagem” (Giddens, 2002, p.28). O autor afirma ainda que linguagem e memória estão intrinsecamente ligadas para sustentar a lembrança individual e a institucionalização da experiência coletiva. Sêga considera a linguagem, verbal ou não verbal, o elemento mais importante da interação entre os indivíduos, à disposição de todas as pessoas e capaz de expressar “objetivações e intenções subjetivas” (Sêga, 2011, p.17). A autora acredita que as formas de linguagem humana existentes são “índices ou indicadores” que permitem a compreensão das ideias, atitudes e servem de base para a interação social. “São esses índices que fazem com que as pessoas compreendam a subjetividade do outro; que as aproxima ou afastam-nas desse outro.” (Sêga, op. cit.) Braga parte da perspectiva de que a linguagem é um sistema para comunicação, produto de educação e cognição. Para a autora, é possível afirmar que a estrutura da linguagem caracteriza o modo “como as pessoas organizam 18 Forma de comunicação paralinguística, um emoticon, palavra derivada da junção dos seguintes termos em inglês: emotion (emoção) + icon (ícone) (em alguns casos chamado smiley) é uma seqüência de caracteres tipográficos, tais como: :), ou ^-^ e :-); ou, também, uma imagem (usualmente, pequena), que traduz ou quer transmitir o estado psicológico, emotivo, de quem os emprega, por meio de ícones ilustrativos de uma expressão facial. Fonte: Wikipedia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Emoticon 79 informações e desenvolvem ideias, concluindo-se que a linguagem é, ao mesmo tempo, meio de comunicação e ferramenta informática (sistema de processamento de informação)” (Braga, 2008, p.36). Dessa maneira, segue a autora, cada nova forma de linguagem surgida é resultado da emergente necessidade de lidar com a quantidade de informações excedentes da forma anterior. “Nessa perspectiva, a Internet seria uma linguagem surgida para comportar o universo do computador e organizar, arquivar e distribuir toda informação gerada pela computação.” (Braga, 2008, p.37) Na perspectiva desta pesquisa interessa compreender a linguagem como expressão de um sentimento, a amizade. Para isso, partimos dos trabalhos de Marcel Mauss, para quem expressar sentimentos “é uma linguagem, em que o indivíduo comunica aos outros aquilo que sente em um código comum, nesse movimento comunicando também a si mesmo suas emoções.” (Rezende & Coelho, 2010, p.48). Nas Ciências Sociais, o termo “gramática” é bastante utilizado para designar e reunir esses códigos comuns da linguagem na expressão dos sentimentos. Por esse motivo, seguiremos adiante para identificar alguns desses códigos dentro do que pode estar contido na gramática da amizade. Em seguida, buscaremos a correlação desses mesmos códigos dentro da interação praticada através da internet, no Facebook. Nesse site de rede social, optou-se por observar a constituição dessa gramática da amizade através da linguagem nas trocas interacionais dos usuários. Como um dos “códigos” principais da interação no Facebook é compartilhar, nosso objetivo é situar a expressão da amizade através do “dar, receber e retribuir”, conceito descrito por Mauss como elemento principal das trocas que ocorrem entre os indivíduos em suas relações sociais: “que força há na coisa dada que faz com que o donatário a retribua?” (Mauss, 1974, 42). Ora, receber uma solicitação de amizade no Facebook e aceitá-la; enviar uma solicitação de amizade no Facebook e vê-la aceita; publicar, através de textos, vídeos, fotos e links, conteúdo que será compartilhado para uma rede de amigos disposta em uma lista no Facebook e ser retribuído com um “curti” ou um comentário; tudo isso são 80 formas de se relacionar e interagir com os amigos no Facebook e se enquadram dentro da dinâmica da dádiva descrita por Mauss. Portanto, qual o lugar da amizade na interação através de um site de rede social, cuja principal finalidade a que foi destinada essa ferramenta, apropriada no ambiente de comunicação mediada pelo computador, é encontrar e manter em um só lugar os amigos? Onde estão os códigos da gramática da amizade anteriores ao surgimento desse tipo de ferramenta dentro do Facebook? São novos códigos? E no sentido inverso, há alguma contribuição desse site de rede social sobre a amizade e a manutenção de seus laços que se relacionam com os códigos daquela gramática? Essas e algumas outras hipóteses serão avaliadas a seguir. Rezende & Coelho (2010) resumem a relação de amizade dentro do escopo de tudo que foi mencionado até aqui a respeito das relações sociais, da interação e da linguagem: é uma relação afetiva que contém algum grau de escolha individual, que, entretanto se dá dentro de um campo de possibilidades. Embora vivida como uma opção subjetiva, a amizade é concebida e praticada com significados, normas e valores culturalmente definidos. (Rezende & Coelho, 2010, p.74) 3.4. Expressão dos sentimentos e linguagem Rezende & Coelho relatam que na história das Ciências Sociais a presença do afeto ligado às emoções fez com que, durante muito tempo, elas fossem notadas como parte da dinâmica da vida social, não recebendo, por isso, atenção como objeto autônomo para estudos. As autoras creditam essa situação ao status dúbio das emoções: “embora se tornassem elementos da interação social, eram vistas como fatos ‘naturais’, realidades psicobiológicas que já eram dadas a priori e modificadas até certo ponto pela socialização em uma cultura específica.” (Rezende & Coelho, 2010, p.13). Os primeiros esforços na direção de tratar as emoções como elementos sociais, segundo essas autoras, foram feitos por Émile Durkheim e Georg Simmel. Em seus textos, ambos trataram as emoções como “estados subjetivos e não sociais”, porém, seguindo linhas distintas de investigação, eles mostraram que há 81 sentimentos que são produzidos socialmente nas relações sociais e que podem produzir “efeitos significativos para as interações e a coletividade de modo amplo.” (Rezende & Coelho, 2010, p.13). Mas essa ambivalência sobre o estudo das emoções prevaleceria ainda por muitas décadas, com autores explorando as regras e formas coletivas de expressão dos sentimentos tanto sob o ponto de vista de seu papel ou função social quanto com comparações entre padronizações culturais distintas das emoções. Somente na década de 1970 o estudo das emoções começou a ter seu escopo melhor definido através do desenvolvimento da abordagem interpretativa. Para Rezende & Coelho, a mudança se deu sobre a noção de cultura, definida até então através de padrões de comportamento habituais e tradicionais, mas que agora receberia uma redefinição através de “teias de significados, transmitidas por símbolos e interpretadas de maneira específica de sociedade para sociedade.” (Rezende & Coelho, 2010, p.14). Essa mudança desencadeou o surgimento de novos estudos acerca dos conceitos de pessoa e self, assim como das emoções, além de outros que buscavam a articulação entre “emoção e concepções de pessoa com as esferas da moralidade, da estrutura social e das relações de poder.” (Rezende & Coelho, op. cit.). Contudo, foi na década de 1980, ainda conforme essas autoras, a partir do momento em que se percebem as ideias de pessoa e de subjetividade como construções culturais, que os estudos antropológicos sobre as emoções, através de uma perspectiva relativista, passaram a tratar os sentimentos como “conceitos culturais que mediam e produzem a experiência afetiva.” (Rezende & Coelho, 2010, p.14) Completa esse quadro a proposição de Catherine Lutz (1988 apud Rezende 2010, p.14) de que os conceitos de emoção “implicam negociações sobre a definição da situação e sobre vários aspectos da vida social, devendo ser vistos como práticas ideológicas locais.” (Rezende & Coelho, op. cit.). É a partir de então que “as emoções passam a ser tomadas como um idioma que define e negocia as relações sociais entre uma pessoa e as outras.” (Rezende & Coelho, op. cit.). 82 Essas autoras acreditam que a tensão do par indivíduo-sociedade na definição do escopo dos estudos sobre as emoções foi mais bem resolvida por Mauss, que, dando continuidade ao trabalho de Durkheim, permitiu uma “exploração do modo como o obrigatório e o espontâneo entrelaçam-se na experiência emocional individual.” (Rezende & Coelho, 2010, p.44). É de 1895 a formulação de Durkheim de um projeto teórico-metodológico para a nova disciplina da sociologia em que determina como unidade de análise o “fato social”. “Este é definido como algo que ‘existe fora das consciências individuais’, sendo capaz de exercer uma ação coercitiva sobre a vontade individual.” (Rezende & Coelho, 2010, p.46). Isso significa que essa capacidade de coerção externa sobre o indivíduo atesta a natureza social de um fato, aquilo que é capaz de coagir a vontade individual. Para ele, as constituições, os códigos penais, a condenação pela opinião pública ou os costumes são exemplos dessa característica do fato social que se sobrepõe à consciência individual. No entanto, foi também um trabalho de Durkheim que, segundo Rezende & Coelho, sugeriu que o social poderia, ao mesmo tempo, ser uma condição externa – “fato social” – e interna do indivíduo. Discutindo ritos e crenças religiosas, ele chegou à definição do conceito de “efervescência”. “A ‘efervescência’ é um estado alterado da atividade psíquica individual, que somente se produz quando o sujeito está imerso em meio a uma coletividade, cuja marca é a intensidade.” (Rezende & Coelho, 2010, p.47). É neste ponto que, para as autoras, essa possibilidade advinda da “efervescência”, ao mesmo tempo em que atesta a coerção do fato social sobre o indivíduo, sugere que o social pode estar também dentro dele, visto que a existência de um fenômeno coletivo poderia ser capaz de alterar o estado de consciência individual. Porém, Rezende & Coelho creditam a Mauss um avanço sobre essa reflexão do par indivíduo-sociedade. Para as autoras, Mauss “mostra o caráter ritualizado da expressão dos sentimentos, que se acentua ou recua segundo momentos socialmente demarcados na sequência ritual, obedecendo, além disso, a uma estética comum.” (Rezende & Coelho, 2010, p.48). Com um estudo do ritual oral dos cultos funerários australianos, Mauss (1980) pretendia demonstrar que todos os tipos de expressões orais dos sentimentos não se ligavam a fenômenos 83 fisiológicos ou psicológicos, mas sim, a fenômenos sociais, não espontâneos, obrigatórios. Rezende & Coelho consideram que a conclusão de Mauss atesta que a natureza ritualizada e coletiva da expressão dos sentimentos é prova de seu caráter como “fato social”. No entanto, ao mesmo tempo em que essa expressão é algo externo ao indivíduo, isso não impossibilita a espontaneidade dos sentimentos, já que podem ser vivenciados por quem os expressa, concluem as autoras. E é nesse ponto que reside a questão central que buscamos até aqui para compreender a expressão da amizade. Como sentimento, uma relação, ela também tem sua linguagem característica. Compreendendo a amizade a partir dessa perspectiva, é possível analisar seus códigos e colocá-los em oposição ou linearidade com os símbolos da linguagem na interação através do site de rede social Facebook. Nesse site, a linguagem se constitui tanto pelos recursos técnicos à disposição dos usuários quanto pelos contextos específicos desse ambiente a que eles são apresentados, em que lidam com escolhas, compartilham para a rede social e comunicam aos amigos em suas listas. Em qualquer dessas etapas, para que códigos de amizade existam e se constituam em uma gramática desse sentimento, o mais importante é fazer com que eles sejam compreendidos da mesma forma por todos. (...) todas essas expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória dos sentimentos do indivíduo e do grupo são mais do que simples manifestações, são sinais, expressões compreendidas, em suma, uma linguagem. Estes gritos são como frases e palavras. É preciso dizê-las, mas se é preciso dizêlas é porque todo o grupo as compreende. A pessoa, portanto, faz mais do que manifestar os seus sentimentos, ela os manifesta a outrem, visto que é mister manifestar-lhos. Ela os manifesta a si mesma exprimindo-os aos outros e por conta dos outros. (Mauss, 1980, p.332) Em seu trabalho, Mauss (1980), abordando a questão do caráter coletivo da expressão dos sentimentos, analisa dados etnográficos que o levam a evidenciar a dimensão de linguagem dessa expressão, observando o ritual e a sincronização das demonstrações de pesar. No entanto, a abordagem de Mauss não deduz daí a natureza coercitiva do ritual que obrigaria o indivíduo a demonstrar aquilo que não sentiria, pois, segundo Coelho, para Mauss, o que muda é “‘a etiologia’ do sentimento, o qual, ao invés de provir espontaneamente do íntimo de cada 84 indivíduo, é gerado de ‘fora para dentro.’” (Coelho, 2006, p.54). Porém, afirma a autora, a conclusão de Mauss não faz com que seja menos verdadeiro o sentimento experimentado pelo sujeito numa ocasião como essa. É nesse sentido que a expressão dos sentimentos pode ser analisada sob o aspecto de uma linguagem, “que funcionaria como um movimento de mão-dupla, em que o indivíduo, ao demonstrar o que sente para os outros segundo um código compartilhado, neste movimento expressaria seus sentimentos também para si mesmo.” (Coelho, op. cit.). Mas é também na tensão entre obrigatório e espontâneo que reside o fio condutor das reflexões de Mauss sobre a dádiva. “Mauss afirma a existência de ‘duas verdades’ na dádiva: seu caráter ‘voluntário’, expresso na ‘teoria’, e a obrigação da retribuição, presente na ‘realidade da dádiva’” (Coelho, 2006, p.54). Compreender a dádiva é buscar o elemento dessa relação que faz com que aquilo que foi dado seja retribuído, segundo Mauss (1974, p.42). Para Coelho, o mesmo problema orienta os trabalhos de Mauss: “a tensão entre as dimensões obrigatória e espontânea da experiência individual, expressa na vivência das emoções e na oferta/recebimento de dádivas materiais.” (Coelho, 2006, p.55). Consideremos, assim, uma linguagem que expressa o sentimento da amizade observada no site de rede social Facebook e a experiência de dar, receber e retribuir através do compartilhamento de informações e conteúdos nesse site. É sobre essas duas orientações que esta pesquisa avança para localizar a linguagem característica da amizade e seus códigos compartilhados, existentes antes mesmo do contexto interacional da internet. Para evidenciar na prática as características dessa relação, serão descritos agora os resultados da observação não participante apresentada no segundo capítulo e das entrevistas realizadas com dois grupos de usuários do Facebook. 3.5. Desvendando a relação de amizade no Facebook As entrevistas foram divididas em dois grupos com pessoas de diferentes faixas etárias, variando entre 19 e 40 anos, diversas profissões e que possuem perfis ativos, mas que utilizam o site de maneiras e com frequência diferentes. A faixa etária escolhida tem relação direta com o fato de estarem incluídas nela 85 desde pessoas que descobriram no Facebook um novo espaço de interação para amizade até aquelas que, pela pouca idade e relação com a tecnologia, já o consideram quase como uma extensão dessa relação. Como o Facebook trata como “amigos” todos os usuários incluídos nas listas uns dos outros, os participantes foram questionados sobre a origem de seus melhores amigos nesse momento de suas vidas. Todos são unânimes em afirmar que seus melhores amigos vêm de uma relação anterior àquela conexão estabelecida pelo site. Conheceram-se principalmente na escola, na faculdade, são amigos de infância ou de uma relação que se fortaleceu dentro do ambiente de trabalho. Mas são também pessoas com quem se encontram pessoalmente com relativa frequência e que, através da tecnologia, acrescentaram à relação mais essa forma de interação pelo Facebook. Em alguns casos, o contato é menos frequente, mas, ainda assim, o vínculo criado anteriormente por muitos anos com a amizade determina a continuidade da relação, a afinidade para se manter o contato através do site de rede social, como demonstra o depoimento a seguir: Os melhores amigos são da vida, colégio, faculdade. Mas daqueles de quem estou um pouco afastada fisicamente, mas com que já existe uma relação de muito tempo, adoro que estejam ali no Facebook. Posso saber um pouco o que estão fazendo, posso opinar, bater papo, trocar ideias, ver fotos, é como se a relação permanecesse próxima. (Participante A) Uma das entrevistadas conta que na faculdade havia um grupo de amigos muito próximos do qual sempre fez parte e com quem mantém contato até hoje. São amigos e encontram-se com certa regularidade, falam por telefone e todos estão adicionados em suas listas de amigos no Facebook. Porém, uma das amigas viajou para o exterior, deixou de mandar notícias, já foi procurada no Facebook, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Por isso, perderam o contato, mas não o desejo de ainda revê-la, poder interagir com ela novamente, o que seria facilitado pelos recursos de localização de usuários e comunicação do Facebook: Todo o grupinho da faculdade ainda se fala pelo Facebook, mas com ela nós perdemos o contato. Já procurei e não encontrei ela no Facebook. (Participante B) Assim também é com os grupos que foram criados pelos usuários neste site de rede social e cujo recurso é usado para prolongar a interação com os amigos. Todos os grupos são compostos por pessoas que se conhecem e que mantiveram, 86 durante muitos anos, a relação de amizade até agora. São amigos da escola, amigos de infância, amigos de amigos que foram se conhecendo pessoalmente. No caso dos grupos 2 e 3, que são turmas de colégios diferentes, mesmo o grupo do Facebook aceitando ex-alunos de anos diferentes, os amigos que eram mais próximos identificam-se e dali partem para a interação. Eles se procuram, perguntam uns pelos outros, às vezes pelos nomes, às vezes pelo apelido, e formam outros pequenos grupos de afinidade e aproximação na rede. Isso, no entanto, não impede que mesmo aqueles que não se conheceram pessoalmente interajam, pois o motivo de todos estarem ali é comum: a escola em que estudaram. A tecnologia permitiu que se reencontrassem, mas eles estão interessados em descobrir o que aqueles com quem estabeleceram uma relação estão fazendo agora, onde estão, suas profissões. Percebe-se que alguns mantiveram contato ao longo de todos esses anos, e esses são os que realizam o papel de informar para os demais onde estão quem procuram. A seguir alguns depoimentos colhidos nos grupos observados: Caramba... A EBA/UFRJ pode ter formado o modo como vejo o mundo, o CEDERJ/UERJ pode forjar o modo como me relaciono com o mundo, mas muito do que sou no íntimo tem origem no CEFET em geral, e na Turma do Bloco E em especial... (Participante 1) Vamos passar informações de como estamos hoje. desculpem os erros, mas o teclado eh em espanhol. (Participante 2) Pedro Henrique Fontana, vulgo Urubu naquela época, Fisioterapeuta, enquanto vcs estavam matando aula debaixo do bloco E, eu matava aulas de eletronica para ficar correndo naquela pista de atletismo, precária, mas saudosa, rsrs.. Mas fosse a turma do bloco E, a turma do grêmio, a turma do teatro, a turma do violão, a turma dos laboratórios, etc... tínhamos algum em comum: Éramos capazes de ficar dentro do CEFET mesmo durante as incansáveis Greves... (Participante 3) Outra questão abordada pelos entrevistados e observada nos grupos é justamente a localização, encontrar amigos, buscar pelo nome, pelo email, usar um recurso que o Facebook oferece para retomar essa interação. No entanto, da mesma forma que nos grupos os participantes procuram por aqueles de quem eram mais próximos, os entrevistados afirmaram que buscam somente por pessoas com quem estabeleceram a amizade, mas que, em algum momento, perderam o contato. Porém, ressaltaram que usam desse recurso porque, mesmo depois de tanto tempo, o interesse por essas pessoas permanece até hoje. Ou seja, nota-se mais uma vez com esses resultados observados que a afinidade, a proximidade 87 que foi construída na relação de amizade é o que sustenta a necessidade ou o desejo de continuar interagindo com aqueles amigos. Nas entrevistas, muitos citaram que ainda não aceitam pedidos de amizade de colegas, nem adicionam pessoas com quem mantiveram pouco contato, pessoas que viram raras vezes. Ou ainda aqueles colegas da escola que eram da mesma turma, mas de quem não eram tão próximos e os colegas de trabalho com quem não têm tanta proximidade. Não é comum, para esse grupo entrevistado, aceitar em sua rede social online a presença dessas pessoas. Essas pessoas com quem um dia eu tive contato, que foi pouco, alguns colegas da escola, eu penso assim: já não tinha nada antes, pouca afinidade, vou adicionar agora pra quê? Não quero que vejam o que estou fazendo. E mais: não quero ficar preocupada com o que vão pensar do que faço ou digo. (Participante C) Não acredito que o contato no Facebook vá trazer uma afinidade que já não existia antes. (Participante D) Mas há também casos em que, nas entrevistas, alguns participantes contaram situações em que não se sentiam à vontade para aceitar algumas dessas pessoas de quem nunca foram tão próximas, sendo que, depois de estabelecerem a conexão pelo site, a percepção sobre o outro mudou um pouco. Porém, para eles, isso não significa que a ligação no Facebook tenha provocado obrigatoriamente a tal proximidade, a intimidade da amizade. Quando isso ocorreu, geralmente o motivo esteve ligado ao conteúdo compartilhado por essas pessoas que aceitaram em suas redes. Tem gente que me surpreendeu depois que adicionei no Facebook. Achei que a pessoa não tivesse nada de bom a dizer, mas pelo contrário, é super legal. Gostei. (Participante C) Fui falar pessoalmente com uma pessoa que percebi que gostava de um mesmo cantor que eu, puxar assunto, tentar me aproximar, mas levei um toco. A pessoa não me deu a mínima. (Participante D) E é o conteúdo, aquilo que é compartilhado, seja entre amigos publicamente, seja em grupos, que pode determinar o fortalecimento ou até o enfraquecimento da relação de amizade a partir desse contexto. O conteúdo trocado entre os amigos nesse ambiente pode interferir na relação offline, aquela fora do site. Isso foi comprovado durante as entrevistas e foi percebido também durante a observação nos grupos. Nesses, essa evidência fica clara quando os 88 participantes compartilham memórias, lembranças, situações, fatos, estórias que são contadas no grupo dentro da rede social, mas que somente os amigos conseguem identificar porque viveram e participaram dos momentos que estão sendo narrados ali. Essa identificação com as estórias, com o conteúdo compartilhado, é que reagrupa os amigos ou fortalece os laços que já existiam antes, fora desse ambiente. Esse conteúdo é capaz de aproximar ou afastar pela identificação dos códigos comuns conhecidos por eles. Quando alguém não reconhece qualquer um desses códigos, a pessoa tende a ficar isolada e, consequentemente, podendo até se retirar e deixar de participar tanto da relação online quanto daquela que ocorre fora da rede social. É nesse sentido que, para os grupos, o conteúdo da interação é importante. Isso separa aqueles entre quem a afinidade com os amigos sempre existiu daqueles com quem ela não está presente. Ou seja, no final, restam, mais uma vez, os amigos que mantiveram por anos a relação de amizade. Já nos perfis e na interação entre os amigos fora de grupos, o conteúdo, para esses participantes, pode interferir diretamente sobre relação de amizade. Ele tanto pode aproximar quanto afastar. Porém, a maioria dos usuários que interage com os amigos nesse site afirma que o conteúdo só é capaz de afastar aqueles que não os conhecem de um contexto anterior ao Facebook. Isso acontece porque, segundo eles, os amigos, aqueles que podem mesmo ser chamados de amigos fora desse ambiente, e que são poucos, já os conhecem suficientemente bem por causa de trocas apreendidas durante diversas interações e com conteúdos variados durante anos de uma relação. E seja qual for a maneira como qualquer conteúdo é apresentado, eles tendem a gerar conversação em vez de conflitos ou diferenças. Essas, neste caso, surgiriam pela ausência de laços mais fortes que unam as pessoas em uma relação. Resumindo, em ambos os casos, o conteúdo é o elo entre eles, mas somente a amizade, a afinidade, a proximidade e até a intimidade entre os amigos, é que sustenta a relação, não a tecnologia. Ainda sobre o conteúdo, nas entrevistas, os participantes descreveram o que gostam de dar e receber no site de rede social. Eles afirmaram que gostam de 89 contar para os amigos na rede social sobre o seu dia, as coisas mais interessantes que aconteceram, lugares que visitaram, músicas que ouviram, as novidades, um pouco sobre suas atividades profissionais, seus desejos, seus sonhos, o que estão sentindo. Querem sentir-se como se estivessem ao lado de alguém para quem contariam o que estão escrevendo no site. Em troca, querem ser percebidos da mesma forma que percebem seus amigos na rede e gostam de receber informações sobre o que os amigos estão fazendo, onde estão ou estiveram, o que leram, dicas de filmes, músicas, lugares visitados, novidades, opiniões sobre assuntos diversos. Gostam de debater, opinar, ver fotos, comentar nos posts, conhecer coisas novas através deles, receber o mesmo tipo de conteúdo que está relacionado àquele que compartilham. Assim, nessa relação de trocas comuns, a consequência direta é que mais uma vez os laços mais fortes de amizade firmam-se, e os mais fracos, podem perder ainda mais força. Isso porque o que os participantes identificam como apropriado para dar e receber está, em quase na totalidade dos casos, somente com os mesmos amigos, aqueles com quem a relação foi construída e se mantém há anos. Não é que não se admita a possibilidade de uma nova amizade surgir, se fortalecer e durar muitos anos quando surge num site de rede social como este. Mas o fato é que as relações de amizade, como conhecidas até hoje, fora dos ambientes da internet, estão se estabelecendo como uma extensão da amizade offline dentro do ambiente online, não uma nova propriedade em si da relação. A tecnologia pode estar facilitando a interação, a comunicação, a sensação de mais proximidade quando suprime a relação espaço-tempo, marca da pós-modernidade. O que comprova essa constatação é justamente aquilo que os participantes do Facebook afirmaram fazer quando um conteúdo não está de acordo com o que querem receber, quando um conteúdo desagrada, ofende, é vazio ou não interessa por diversas razões subjetivas. Ah, eu nem bloqueio, não penso em usar esses recursos, eu deleto logo. Pra que manter ali alguém que não quero ver, que não me interessa? (Participante E) Poxa, uma pessoa que eu gostava muito foi lá e colocou uma opinião super escrota, homofóbica, uma coisa que eu não concordo, eu não posso aprovar, não vou gostar, significa que a gente tem diferenças. Não preciso ter essa pessoa no Facebook. Nem bloqueio, excluo mesmo. (Participante F) 90 Nesse ponto, quase todos os entrevistados concordam que a melhor opção é ocultar a visualização das publicações dos participantes com quem estão em desacordo ou, outras vezes, excluir mesmo a pessoa da lista de amigos. O conteúdo pode desagradar por estar em desacordo com a opinião de quem o recebe, por ser ofensivo, agressivo, de mau gosto, por expor imagens de violência ou qualquer coisa que vá de encontro aos valores daquele que participa da rede. Nos grupos, a situação não é diferente, pois a maior proximidade, a afinidade e até a intimidade que sustentam a amizade fora daquele ambiente e que gerou um grupo na rede social deixa mais evidente a situação de desacordo com um conteúdo não aprovado. Isso porque para quem está dentro do grupo é como se o fato de ele ter sido criado, as pessoas terem sido incluídas e aceitado participar significa que todos conhecem os códigos daquela relação levados para o site de rede social. Logo, sabem também das consequências de determinados assuntos e como eles impactam ou fazem com que os amigos reajam. Os amigos reunidos num grupo já têm um conhecimento prévio que vem da relação offline e sabem o quanto determinado assunto ou tema pode provocar, incomodar, gerar conflitos etc. E se alguém compartilha no grupo algo desse tipo, demonstra que não reconhece aqueles códigos da relação, podendo sentir-se ou até ser excluído das interações. Houve uma situação de tensão no grupo 5 que atesta o que foi descrito acima. Num comentário irônico, um dos participantes se sentiu ofendido e a resposta da amiga no grupo fez referência ao que ela chamou de “mania de perseguição”, uma situação que ela demonstra conhecer da relação que tem com o amigo fora do Facebook. 91 Figura 6. Tensão entre os participantes do grupo 5 Os entrevistados chamaram de desgaste o processo que ocorre quando um dos amigos adicionados a sua rede tem um comportamento reincidente com conteúdos que desaprovam. Eles afirmaram que sentem-se constrangidos e que aquela situação ajuda a construir a imagem que fazem do amigo fora do site. É como se as publicações e seus conteúdos fossem tornando-se fragmentos do que é a pessoa. E nessas demonstrações, revelam o que ainda não havia sido apreendido em outras interações. Porque você conhece a pessoa de verdade, vê quais são os gostos dela que são diferentes do seu, isso afasta”. Isso não acontece muito com meus amigos porque eu convivo direto com eles, conheço-os muito bem. Mas com os outros, os conhecidos, o Facebook me mostra as opiniões e os comportamentos daqueles com quem não me identifico. Por isso eu excluo, prefiro excluir para não voltar a me decepcionar. (Participante G) 92 Sabe televisão? Se você não quiser ver aquilo, você muda de canal, é isso que faço com as coisas que não me interessam. (Participante H) Dois entrevistados afirmaram que já passaram também pela situação contrária, quando começaram a conhecer alguém melhor através dos conteúdos publicados. Exatamente o inverso do que foi descrito acima. Eles relataram que tinham em suas listas de amigos pessoas que não eram tão próximas, aquelas com quem mantiveram uma relação durante certo tempo, mas que não se firmou como amizade. E isso não aconteceu justamente porque na relação offline não ocorreram as trocas e interações apropriadas para estabelecer a amizade com aquelas pessoas. No entanto, com essas pessoas no site de rede social, descobriram afinidades, opiniões similares e isso, de certa forma, ajudou a modificar ou construir outra imagem daquele participante. Porém, eles são bastante enfáticos: o Facebook ajudou a identificá-los próximos por algumas razões, mas não propiciou a relação de amizade. O que o Facebook trouxe foi essa facilidade de saber sempre mais um pouco da pessoa, do amigo que eu sabia pouco antes ou que só sabia de mais coisas quando a gente se encontrava. Ali tem sempre um pouquinho daquela pessoa, dá pra ir conhecendo mais, sabendo mais. E ali mesmo já faço a seleção de quem quero e quem não quero como amigo. (Participante I) Por fim, ainda sobre o conteúdo, nota-se que ele pode abrir para a relação offline a possibilidade de um diálogo entre dois participantes que são “amigos” no Facebook, como também é capaz de permitir uma conversa ininterrupta em suas interações. Na primeira situação, os entrevistados concordaram que o que descobrem ou sabem de outros participantes através do Facebook pode ajudar a começar uma conversa offline, como, por exemplo, entre colegas de trabalho na empresa ou numa situação mais informal fora dela. Saber previamente o que aquele participante que está na sua lista de amigos gosta ou esteve fazendo, ajuda a deixar menos tensa a relação e um possível diálogo nessas ocasiões. Já para os amigos cuja relação é anterior ao Facebook, qualquer comentário compartilhado, foto, vídeo, opinião é como se abrisse uma sala de bate papo, um chat, em que eles podem interagir continuamente sem necessariamente contar com a presença de todos juntos ao mesmo tempo. É como apresentado no primeiro capítulo, tratase de uma interação mútua e síncrona e assíncrona simultaneamente. E essa interação no Facebook, possibilitada pela interação mediada pelo computador, 93 pode estender e manter a relação offline entre os amigos, pois a sensação é a de como se estivessem ainda mais próximos, fato que a internet e sua mobilidade com smartphones ajudam a reforçar. Para mim, ele é como um fórum melhorado. O legal é poder falar para todo mundo e ouvir as respostas, comentar. Eu gosto de mostrar uns assuntos para os meus amigos e a gente fica conversando nos comentários. O mais legal é que são amigos daqui, tem uma que está morando agora em Buenos Aires, outro na Alemanha e a gente fica se falando como se estivesse frente a frente. É legal isso de poder continuar falando com eles, debatendo os assuntos como a gente faz pessoalmente quando se encontra, mas agora pode fazer mesmo com eles estando longe. A gente se fala muito, esses que estão morando fora trazem coisas novas lá dos países onde estão, é bem legal. Aliás, essa é uma das melhores coisas em relação a ter meus amigos ali conectados comigo, é o mais legal do Facebook. (Participante J) Assim, o pessoal da faculdade, por exemplo, alguns não vejo sempre na aula, mas estão no meu Facebook, mas quando vou conversar com eles, quando vou discutir qualquer coisa, já sei mais ou menos do que a pessoa gosta, do que posso falar. (Participante K) Sobre os recursos do site, os mais citados são os grupos, a sinalização do dia do aniversário dos participantes, as configurações de privacidade e a publicação e marcação de fotos. Os dois primeiros são mencionados positivamente, pois são vistos como ferramentas que auxiliam a interação. Assim também com os grupos, por todas as razões já explicadas aqui anteriormente, tanto em relação ao uso pelos amigos, quanto pela possibilidade de reunir novamente aqueles que estavam afastados. A indicação do dia do aniversário de outros participantes, mas principalmente dos amigos, é como se fosse o lembrete de um compromisso, a sinalização de um alarme que soa chamando a atenção para a necessidade de interagir, de felicitar aquela pessoa. Diante da infinidade de coisas a fazer, assuntos para resolver no dia a dia, diante da correria e das pressões por todos os lados sobre o indivíduo que vive na pós-modernidade, nada melhor do que um alarme, um lembrete que o desperta e o chama a fazer algo, assim como usa todos os dias o alarme para acordar, os calendários e agendas para reuniões no trabalho e tantos outros artifícios para marcar e lembrar compromissos. Por outro lado, as configurações de privacidade não são bem aceitas pelos participantes do Facebook que foram entrevistados. A maioria deles afirmou que não quer pensar em usar configurações para definir o que e com quem compartilhar. Preferem pensar antes em quem aceitam em sua rede, pois não 94 querem se preocupar em dividir em grupos como expressar o que sentem, o que compartilham. Para eles, o Facebook é usado como um espaço para interação, em que não cabe definir configurações de privacidade na hora de expressar o que está sentindo. Como na relação offline, confiam e sabem que podem contar com aqueles que estão adicionados em suas listas de amigos, por isso mesmo excluem ou não aceitam pedidos de amizade daqueles que – acreditam – podem não entender o que dizem. Para aceitar alguém como amigo, avalio bastante se vale a pena porque quero poder falar sem restrições o que penso, falar abertamente e nem todo mundo vai entender algumas coisas, já meus amigos, sim. Porque eles estão mais próximos sabem do que estou falando, mesmo quando falo algo enigmático. (Participante L) Eles também concordam que a exceção para aceitar o pedido de amizade de alguém fora dessas condições, ou usar algum dos recursos de privacidade do site, ocorre quando a situação pode gerar algum constrangimento na relação offline com a pessoa que enviou o pedido. Por exemplo, a namorada do meu irmão me adicionou, é recente ela, não acho que temos intimidade, mas imagina ela na minha casa perguntando por que não aceitei ela no Facebook. Aceito mas bloqueio álbuns, restrinjo algumas coisas pra ela. (Participante M) Tenho casos assim com o pessoal do trabalho. É chato às vezes ter que aceitar alguém do trabalho, mas como explico pra ele que não aceitei com a pessoa do meu lado todo dia? (Participante N) Isso comprova que o site de rede social não está necessariamente criando nenhum código novo para a relação de amizade. Até por ainda não saberem muito bem como lidar com diversas situações nesses novos ambientes, as pessoas buscam referências nos contextos interacionais anteriores ao surgimento deles, no contexto relacional da amizade existente antes do Facebook ou de qualquer ferramenta ou site de interação pela internet. Com as fotos o problema reside sobre a marcação do nome de um amigo em qualquer uma delas. Marcar um amigo numa foto é um recurso que permite associar o perfil de um participante do Facebook a uma imagem publicada por alguém. Por exemplo: em uma foto feita na praia aparecem três amigos seus que estão na sua lista no Facebook. Ao publicar essa foto no mural ou em um álbum, esse participante pode associar o rosto de cada um na imagem ao perfil dos seus 95 amigos no site. E quando você é marcado em qualquer foto, a não ser que tenha usado configurações de privacidade, toda sua lista de amigos será notificada sobre a foto compartilhada com seu nome. O problema, segundo relatam os entrevistados, é quando não queriam ter a imagem mostrada publicamente. Alguns relataram que seus amigos já publicaram e os marcaram em fotos em momentos íntimos, situações particulares e aquilo não agradou. Dos recursos do site citados pelos entrevistados, o que mais agrada, além da lembrança do dia do aniversário, são as listas. As listas são como grupos, sendo que algumas são criadas automaticamente pelo Facebook e outras, ativadas pelos usuários. A diferença em relação a um grupo é que a lista não é um espaço de bate papo, interação, ela é, na verdade, uma seleção, como se fosse um filtro agrupando amigos com alguma característica similar. Por exemplo: o Facebook cria, nomeia e agrupa numa mesma lista todos os seus amigos que informaram nos dados do perfil o nome da empresa em que vocês trabalham. Se você trabalha na empresa XYZ, incluiu essa informação mencionando-a em seu perfil e tem na sua lista de amigos pessoas que fizeram o mesmo, automaticamente o Facebook cria uma lista com o nome dessa empresa e inclui dentro dela esses seus amigos. Quando você acessa essa lista, você verá somente as atualizações e publicações das pessoas que estão incluídas nela. É realmente como se fosse um filtro para selecionar, dentre tanto conteúdo compartilhado, o que você quer ver. Mas não são as listas automáticas as que foram citadas como um recurso positivo do site. O Facebook tem uma lista automática chamada “Melhores Amigos”, mas que só é ativada a partir do momento em que o usuário inclui ao menos um amigo dentro dela. Ou seja, embora o site já traga esse recurso disponível, ele não faz a seleção dos amigos para incluir nessa lista. No entanto, alguns entrevistados confirmaram que ativaram e usam essa lista para fazer um filtro do que querem ler, não tanto para o que vão publicar. Contudo, as listas também podem ser usadas como um recurso de privacidade. Quando um conteúdo é publicado pelo usuário, ele pode escolher compartilhar somente com uma ou mais listas automáticas ou para aquelas criadas por ele. Sendo que, pelos depoimentos até aqui, as configurações de privacidade 96 com o intuito de restringir o que publicar para a lista de amigos não agradam aos participantes. Por outro lado, a lista permite que o usuário leia diretamente o conteúdo compartilhado por aquelas pessoas que mais o interessam, que seriam justamente essas incluídas nas listas. Nas entrevistas, a lista “Melhores Amigos” foi citada como um facilitador para saber o que os amigos – geralmente poucos e aqueles de uma relação de longa data – estão fazendo, o que compartilharam, o que contaram nos últimos dias. Ao invés de ler todos os comentários publicados um a um, a lista facilita saber sobre um pequeno grupo de amigos cujo conteúdo mais interessa, que podem estar diretamente associados aos melhores amigos na relação offline. Dessa forma, os diversos conteúdos da interação reforçam a relação social, ou melhor, a relação de amizade do offline para o online, e vice-versa. Recuero aponta que a interação mediada pelo computador pode gerar e manter “relações complexas e de tipos de valores que constroem e mantêm as redes sociais na Internet.” (Recuero, 2009, p.36). Com isso, a interação nesse ambiente, segundo a autora, gera relações sociais que vão criar ou fortalecer laços sociais. Como descrito no primeiro capítulo, os laços sociais se constituem a partir das relações sociais e são a “efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos nas interações.” (Recuero, 2009, p.38) A amizade pode ser considerada, nesse contexto, um laço forte, estabelecido sobre uma relação social que se faz a partir da troca de conteúdo em diversas interações entre os indivíduos. Tal qual a relação no off-line, a relação entre amigos no online está se espelhando na “forma” e no conteúdo” da primeira, como se pode constatar até aqui. Laços consistem em uma ou mais relações específicas, tais como proximidade, contato freqüente, fluxos de informação, conflito ou suporte emocional. A interconexão destes laços canaliza recursos para localizações específicas na estrutura dos sistemas sociais. Os padrões destas relações – a estrutura da rede social – organiza os sistemas de troca, controle, dependência, cooperação e conflito. (Wellman, 2001, p.7 apud Recuero 2009, 38) 97 3.5.1. Gramática da amizade Quando Mauss (1980), em sua obra, demonstra que a expressão dos sentimentos está associada a uma linguagem, uma “gramática”, ele assegura que a compreensão da expressão dos sentimentos se dá entre os indivíduos por conta de um código comum partilhado por todos. Os ritos, os gestos, os sons, além de obrigatórios, resultado de uma força coercitiva externa, também podem ser íntimos, espontâneos, permitindo que o sujeito vivencie de fato o que demonstra estar sentindo. Tomando a amizade como um sentimento, logo, composta por uma linguagem típica para que se compreenda e se estabeleça a relação entre as partes, e, ao mesmo tempo, a tensão de caráter obrigatório e espontâneo expresso pela dádiva nas relações sociais, foram selecionados e nomeados alguns desses códigos observados a partir do estudo “netnográfico” realizado nesta pesquisa, em conjunto com as entrevistas em profundidade aplicadas. A seguir, consideramos possíveis códigos observados na relação de amizade no Facebook. 3.5.1.1. Amigos não se encaixam em categorias, são decorrentes de laços fortes Isso significa que, assim como em suas vidas offline, as pessoas não estão, num site de rede social, dividindo os amigos em categorias, separando tipos diferentes de interações para cada grupo. Na verdade, a relação de amizade estabelecida através do ambiente de interação online está refletindo a forma como ela se constitui no offline, ou seja, os amigos são aqueles com quem se tem uma relação originada a partir de frequentes e diferentes interações, em grande parte dos casos ao longo de muitos anos, reforçando, através do conteúdo trocado nessas interações, a relação entre as partes. Embora o Facebook, como qualquer site de rede social, permita que as interações sejam mais frequentes, ele não é tido ainda como um espaço capaz de estabelecer uma relação de amizade. Como os entrevistados atestaram, a amizade vai se fortalecendo tanto quanto aumentam os contatos e a interação pessoal, face a face, com outras pessoas, o que os leva a considerar amigos aqueles que os acompanham há anos, como os amigos de infância, da escola, da faculdade etc. 98 As interações mais frequentes nesse site ajudariam apenas a conhecer de maneira mais rápida aquilo que, numa relação de amizade anterior ao Facebook, se descobriria com o passar dos anos, nas trocas, no convívio, nos encontros, nas conversas. Como isso já ocorreu em uma fase anterior, para esses amigos agora conectados através do Facebook, esse repertório já foi construído e ajuda a fortalecer o laço entre eles na comunicação mediada pelo computador. Para as amizades mais recentes, ou aquelas relações que ainda podem vir a se tornar uma amizade, esse site permite receber dos amigos o conteúdo que vai moldar a relação e fazê-la ser aceita ou rejeitada. Sendo assim, o que esses usuários do Facebook buscam na construção de sua rede social online é manter próximos os amigos que são de um contexto relacional anterior ao site, permitindo que possam agir com a liberdade que julgam necessária para expressar a amizade através dos conteúdos que compartilham. As exceções ficam com os casos de pedidos de amizade aceitos por uma convenção social, como os colegas de trabalho, ou a fim de evitar constrangimentos, como familiares. Sobre essa liberdade para exprimir uma emoção, uma opinião ou qualquer tipo de conteúdo que reforce os laços de amizade nesse site de rede social, pode-se recorrer à definição de Godbout (1999), para quem, na dádiva, a liberdade, quando preservada, cumpre o papel de reforçar os vínculos por ela criados, denotando um caráter espontâneo em oposição a uma reciprocidade vivida como coação. 3.5.1.2. A reciprocidade nas trocas Como dito anteriormente, as interações podem ser feitas de diversos conteúdos, e o Facebook multiplicou as possibilidades e tipos de conteúdos trocados entre os amigos nas interações dentro desse site. Essa multiplicação ocorre à medida que a interação pode se dar através de fotos, álbuns, links, vídeos, textos, tudo dentro do mesmo ambiente e de maneira atemporal, já que ficam disponíveis e podem ser acessados a qualquer tempo. No entanto, esta pesquisa comprovou que, para a relação de amizade, o conteúdo compartilhado nas interações tem uma relação direta entre quem dá e recebe, ou seja, no Facebook as pessoas aproximam-se ainda mais daquelas que 99 demonstram gostos, opiniões, preferências similares às suas. E essa similaridade, em grande parte dos casos, foi sendo construída na relação de amizade existente antes desse site. Logo, voltamos mais uma vez às amizades de infância, do colégio, da faculdade e mesmo aquelas oriundas das relações profissionais, entre colegas que com a convivência diária tornaram-se amigos. Em seus depoimentos, os entrevistados afirmaram que, no Facebook, querem receber em troca conteúdos similares aos que compartilham. Eles dão aos amigos informações, fotos, vídeos, dicas, novidades e querem receber de volta o mesmo tipo de conteúdo com a opinião dos amigos sobre lugares visitados, livros lidos, filmes assistidos, comidas provadas, marcas compradas etc. Para as amizades existentes num contexto anterior ao do Facebook, a interação no site serve para aproximar ainda mais os amigos. Já para as amizades mais recentes, o conteúdo compartilhado é como um teste que pode aprovar ou reprovar o “candidato a amigo”. Por isso mesmo é que alguns entrevistados afirmaram que não se sentem constrangidos ou impedidos de excluir alguém que tenha sido adicionado à rede, mas que não esteja correspondendo conforme o esperado. Ou seja, aquele que compartilha o que não é considerado interessante para quem recebe o conteúdo. No Facebook, o verbo ‘curtir’ tornou-se sinônimo dessa reciprocidade intencionada nas trocas. Qualquer conteúdo compartilhado nesse site pode ser curtido, clicando em um link abaixo da mensagem, que sinaliza com uma imagem do dedo polegar em sinal de positivo, que ele agradou, que quem curtiu está de acordo, concorda, gosta do que viu compartilhado pelo amigo. 3.5.1.3. Mais do que o número de amigos, quero saber de quem me interessa No Facebook, cada usuário tem em média 130 amigos 19, mas alguns chegam a somar até cinco mil, que é o limite de um perfil do site. Ainda assim, as entrevistas comprovaram que quando esse número é levado para fora do site, na vida offline, os usuários mantêm relação, interação face a face, com até menos de 10% desse total. Alguns chegaram a se referir a um grupo de seis, no máximo, dez 19 www.facebook.com/press/info.php?statistics (julho de 2010) 100 pessoas da escola ou da faculdade. Quando se referem a amigos de infância, esse número é menor ainda. O fato é que somando amigos de infância com os de colégio e faculdade ou trabalho, chega-se a um resultado muito menor do que a quantidade de “amigos” que se tem na rede social online. Isso foi comprovado com duas situações descritas durante as entrevistas: a lembrança da utilização da lista de melhores amigos e a sinalização feita pelo site do dia do aniversário dos participantes. Em relação a esse último, quase todos os entrevistados confirmaram que o recurso do site é positivo. Mas que embora escrevam uma mensagem de felicitação para os “amigos” mostrados pelo site no dia do aniversário, é somente para poucos que eles ligam, visitam ou comparecem à festa de aniversário. Esse dado nos leva ao mesmo ponto em comum com os outros dois itens citados acima: a interação mais próxima, aquela que vai além da mensagem de texto felicitando pelo site, é com os amigos cujo laço é mais forte. E esses amigos, mais uma vez, são aqueles que estão relacionados a um contexto anterior ao Facebook. Já a lista “Melhores Amigos” comprova que eles interessam-se pelo que dizem ou fazem aqueles com quem têm uma relação de laço forte. Como uma forma de filtrar tudo que recebem no Facebook, os usuários demonstram, com a utilização dessa lista, que preferem receber conteúdo ou buscá-lo entre os seus amigos que fazem parte daquele menor grupo com quem interagem fora do site. É mais uma comprovação de que a relação de amizade offline é adaptada para o online, e não um indicativo de que há uma nova configuração dessa relação a partir dos sites de redes sociais. Esses três aspectos identificados como expressões de um código da amizade, analisando sob a ótica da interação no Facebook, têm em comum o fato de que a amizade é sempre marcada pela relação de mais longo prazo, estabelecida através da troca de conteúdos frequentes em interações diversas. E geralmente esses amigos são poucos, bem diferente da quantidade de “amigos” listados no Facebook, por exemplo. Nesse site, existe a possibilidade de mais interação com mais gente, porém, essa interação não garante a existência de uma relação de amizade. 101 Como o foco desta pesquisa estava em localizar a amizade – como experimentada pelos indivíduos e descrita pelas Ciências Sociais num contexto anterior ao Facebook – dentro de um site de rede social, em que todos estão conectados pelo que se chama “amizade”, não foi analisada a possibilidade de uma relação como essa surgir e se manter através do site, partindo, posteriormente, para interações face a face. Foi realizada aqui a investigação do caminho do offline para o online e possíveis impactos reversos. Isso não quer dizer que não exista a possibilidade de ocorrer o contrário, de uma amizade começar pelo site de rede social e, a partir da interação com os conteúdos trocados, seguir em direção ao contato offline até que o tempo e a frequência possibilitem constituir a “pura relação”, a amizade como descrita por Giddens e pelos entrevistados, que citam, como o autor, a intimidade no âmbito dessa relação. Mas o ponto principal da constatação desta pesquisa é que a relação online só existe porque uma relação mais forte, offline, existiu antes. Por outro lado, há dois aspectos observados nesta pesquisa sobre a interação no ambiente online desse site de rede social que estão se estendendo sobre a interação offline, por isso mesmo importantes de serem destacados aqui. O primeiro deles, também notado no depoimento dos entrevistados, diz respeito a como os temas e assuntos dos conteúdos compartilhados no Facebook estão sendo levados para o offline ou se estendem a partir do online para o offline. No primeiro caso estão situações como desacordos sobre atitudes no online, por exemplo, excluir ou bloquear um participante. Nota-se que, mesmo tendo definido parâmetros para aceitar amigos em sua rede no site, muitos usuários ainda têm dúvidas sobre como lidar com situações atípicas. Para os amigos, enviam ou aceitam pedidos de amizade sem restrições; para conhecidos, é feita uma avaliação, mas nada impede que, no futuro, eles possam ser excluídos. Já para situações como um conflito, uma discussão ou um comportamento considerado inadequado por uma das partes, os usuários têm dúvidas sobre o impacto de uma atitude como excluir a pessoa para a relação offline. E para esse tema não há consenso entre os participantes. Alguns acreditam que o que é feito no online vale também para o offline; outros discordam; e ainda há aqueles que consideram dois mundos, duas relações completamente distintas. O fato é que essa etiqueta de 102 comportamento, ou “netiqueta”, ainda provoca muitas dúvidas e desentendimentos entre os usuários do Facebook. E é freqüente encontrar pessoas discutindo situações como essa numa mesa de almoço, num encontro de amigos, numa mesa de bar etc. O comportamento online tornou-se pauta da relação de amizade offline. Há também os casos em que as atualizações, o conteúdo compartilhado no site, facilitam a interação no offline. Dando pistas sobre gostos musicais, lugares visitados, atividades pessoais e profissionais, os usuários vão criando um repertório que possibilita fazer desses temas assuntos para uma abordagem fora do site. Um dos entrevistados citou que para conversar com pessoas com quem trabalha e que estão entre seus amigos do Facebook costuma usar os assuntos e opiniões compartilhados por essas pessoas no site. Na falta de um conhecimento mais profundo sobre o que a pessoa gosta, aonde vai, o que pensa, essas pistas ajudam a estabelecer o diálogo, colaboram para facilitar a interação. Mas isso vale principalmente para a relação com aquelas pessoas que não são os amigos cuja relação é de longa data e para com os quais existe um alto grau de afinidade e até intimidade. O segundo aspecto diz respeito à utilização do espaço como local da memória da amizade. Com a possibilidade de compartilhar fotos principalmente, nota-se que os usuários estão fazendo do Facebook um repositório das memórias, das lembranças da amizade. Muitos compartilham fotos antigas, comentam sobre a época passada, lembram situações vividas juntos e com muita frequência compartilham toda e qualquer foto feita nos últimos anos. Depois de um encontro à noite com fotos, compartilham num álbum no Facebook; depois de uma festa de aniversário com fotos, compartilham também; sempre que viajam juntos ou comparecem a um evento, logo em seguida compartilham as fotos feitas nessas ocasiões. E é dessa forma que os álbuns no Facebook tornam-se apoio à memória da relação entre dois ou mais amigos ou entre um grupo de amigos. As fotos ficam disponíveis para serem acessadas a qualquer momento e, mesmo as mais antigas depois de compartilhadas, também podem, a qualquer tempo, serem trazidas de volta com um comentário ou um “curti”. 103 Nos grupos dentro do site também é bastante evidente como aquele espaço se tornou um espaço de memória. Tanto pelos reencontros possibilitados pela tecnologia quanto pela frequência e interação constante dos amigos mais próximos, como em um dos grupos observados nesta pesquisa. Nele, as interações são diárias e mais de uma vez ao dia, fazendo com que o grupo torne-se uma extensão da interação face a face, pois todos, ou quase todos, os assuntos vivenciados e discutidos no offline são levados para o online, e vice-versa. Nesse exemplo, o grupo tornou-se quase que um repositório das ações cotidianas de todos os amigos participantes, que informam onde estão ou estiveram, o que estão fazendo, onde almoçaram, agendam encontros, compartilham fotos feitas no dia e em ocasiões passadas etc. Isso os mantém em contato permanente e ao mesmo tempo cria no site um histórico de quase todas as ações que envolveram aquelas pessoas, por isso considerado um espaço de memória, de lembranças. O levantamento apresentado acima representa uma tentativa de compreender a linguagem correspondente à expressão do sentimento da amizade dentro das interações que ocorrem num espaço em que as relações são mediadas pelo computador. Como já afirmado antes nesta pesquisa, nesses ambientes as pessoas ainda buscam referências para estabelecer relações sociais, como a amizade. Geralmente, essas referências encontram-se nos ambientes externos aos da internet, nos contextos relacionais existentes antes do surgimento do Facebook ou de qualquer ferramenta apropriada para a comunicação na rede mundial de computadores. De comum em ambos os casos está a linguagem, que permite o compartilhamento de códigos – símbolos, referências, sinais etc – que fluem entre o offline e o online, e vice-versa, algumas vezes buscando adaptar-se ao meio, pois são esses códigos que permitem as trocas e a interação no interior de qualquer relação e na expressão dos sentimentos. E é certamente o que está ocorrendo com a expressão da amizade em um site de rede social como o Facebook. Embora conectados todos sejam amigos, a referência de amizade para quem está online só existe porque, antes, existiu a amizade nos ambientes offline. 104 4. Considerações finais Para Caillé, Mauss apresentou um modelo de ação social intrinsecamente plural na reflexão acerca da dádiva. Segundo o autor, com seu trabalho, Mauss demonstrou que a dádiva é indissociavelmente ‘livre e obrigada’ de um lado, e interessada e desinteressada do outro. Obrigada, pois não se dá qualquer coisa a qualquer pessoa, num momento qualquer ou de qualquer modo, sendo os momentos e as formas da dádiva de fato socialmente instituídos (...). Contudo, se se tratasse unicamente de mero ritual e pura mecânica, expressão obrigatória de sentimentos obrigados de generosidade, então nada ocorreria na verdade, já que, mesmo socialmente imposta, a dádiva só adquire sentido numa certa atmosfera de espontaneidade. É preciso dar e retribuir. Sim, mas quando, quanto, com que gestos, quais entonações? Quanto a isso, mesmo a sociedade selvagem mais controlada pela obrigação ritual deixa ainda um grande espaço para a iniciativa pessoal. (Caillé, 1998) Como qualquer sentimento, a expressão da amizade está claramente definida nessa descrição do autor. Ele refere-se a dar e receber, o que não é feito de qualquer maneira, nem para qualquer pessoa. Da forma em que os aspectos do código da amizade, na interação através do Facebook, foram apresentados nesta pesquisa, pode-se notar claramente que eles seguem e estão de acordo com essa mesma concepção. Mais ainda: este site de rede social apresenta dentre seus recursos os elementos estruturais que possibilitam o dar, receber e retribuir presentes na expressão dos sentimentos e na tensão obrigatória e espontânea da dádiva. Outro ponto importante nessa esfera é a questão de quando, quanto e como dar e retribuir dentro da linguagem que define a expressão de um sentimento. Rezende & Coelho, apresentando uma visão teórica sobre a relação entre o corpo e as emoções, demonstram que para a corrente de autores que crê nessa relação, as emoções, embora possam surgir como reações biológicas a estímulos externos, “são lembradas desde cedo como parte de um contexto de interação social, e não são pensadas de forma isolada.” (Rezende & Coelho, 2010, p.30). Dessa forma, as emoções estariam dentro de esquemas e padrões aprendidos em interações com o ambiente social e cultural desde a infância, sendo acionados de acordo com cada contexto, conforme descrevem as autoras. Há também a atribuição das emoções a um caráter impulsivo, “de reações que, como os fenômenos corporais, até certo ponto fogem ao controle da pessoa.” (Rezende & Coelho, op. cit.). A crítica das 105 Ciências Sociais a respeito dessa última visão sobre a expressão das emoções reside sobre o fato de que, se desde a infância, o indivíduo aprende como, quando e com quem expressar os sentimentos, não haveria um estado inicial em que as emoções poderiam ser vivenciadas de modo puro, de forma espontânea e sem controle. Na verdade, com a internalização dessas regras desde muito cedo, tornase mais difícil perceber o controle que elas exercem sobre os sentimentos. Isso, no entanto, não faz com que as pessoas não percebam, em determinadas situações, as regras explícitas de como devem expressar suas emoções. No entanto, é no paradigma da dádiva, de Mauss, que essas críticas se dissolvem e surge então um modelo teórico para se pensar as emoções como objeto das Ciências Sociais. Caillé acredita que, enquanto o interacionismo lida com unidades e sequências delimitadas, a perspectiva de Mauss constrói seus fatos de outro modo: substitui um modo de recorte dos objetos operado em função das necessidades da análise do investigador por uma construção dos fatos segundo as situações em que estão efetivamente pertinentes para os grupos estudados; as unidades observadas não são constituídas em isolado [...] A originalidade de sua posição decorre, precisamente, de sua capacidade de circular entre o plano mais ‘situacional’ e o mais ‘estrutural’, de praticar o go-between entre níveis diferentes do fato social. (Caillé, 1998). Com base nessas evidências é que esta pesquisa avançou sobre as interações no Facebook e dentro da relação de amizade para compreender de que maneira os códigos configurados e partilhados pelos indivíduos no contexto anterior a esse site situam-se, agora, dentro dele. A conclusão foi de que a tecnologia não deve ser encarada como fator determinante e capaz de reconfigurar aqueles códigos, mas pode ser atribuída a ela a capacidade de impulsionar e incluir no âmbito das relações sociais outras formas de interação, de múltiplos conteúdos, independentes de tempo e espaço. Nesse caso, o espaço é o social, é o espaço compartilhado, que, aliás, é uma forte característica da internet, seu espaço “social” para as interações, como em sites de redes sociais. Visto que o Facebook tornou-se um espaço social de interação e que, ao menos, grande parte das regras comuns que regulam a relação de amizade e a expressão desse sentimento entre os indivíduos, através de uma linguagem própria, estão ancorados sobre as interações no contexto offline, a questão que se 106 coloca aqui a fim de avançar sobre o tema seria compreender de que maneira as situações sem referenciais no contexto offline serão resolvidas no ambiente online de um site de rede social como esse. A liberdade, como apresentado anteriormente, é primordial para a manutenção do equilíbrio que a própria dádiva exige das relações. Por outro lado, de que maneira ela pode estar relacionada, por exemplo, aos conflitos gerados, dentro desse site de rede social, quando permite que os indivíduos façam uso de códigos não partilhados entre todos na linguagem que expressa a amizade? O desenvolvimento da interação e das relações sociais que se estabelecem agora em ambientes de comunicação mediada pelo computador, assim como a linguagem identificada na expressão dos sentimentos no cenário da cibercultura devem tornar-se temas de grande relevância e interesse tanto para a Comunicação Social quanto para as Ciências Sociais. Esta pesquisa representa o primeiro passo nesse sentido e pretende colaborar para o avanço e o desenvolvimento de novos estudos os campos das Ciências Humanas e Sociais. 107 5. Referências bibliográficas ARISTÓTELES. Política. 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