João Vitor Rodrigues Gonçalves
Gramática da Amizade: um estudo sobre Comunicação e a
construção das emoções nas redes sociais online
Dissertação de Mestrado
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação Social da PUCRio como requisito parcial para obtenção do
título de Mestre em Comunicação.
Orientador: Profª. Cláudia da Silva Pereira
Rio de Janeiro
Março de 2012
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou
parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e
do orientador.
João Vitor Rodrigues Gonçalves
Graduado em Relações Públicas na Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ), em 2005. Pós-graduação lato sensu em
Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas, em
2008. Coordenador de Relacionamento Digital na Infoglobo
Comunicações, tendo como principais atividades a produção de
conteúdo e o relacionamento com clientes nos sites de redes
sociais.
Agradecimentos
A minha orientadora Professora Cláudia Pereira por acreditar nesta pesquisa e
pelo seu trabalho bem planejado e organizado.
A minha mãe pelo valor que sempre deu à educação de seus filhos, possibilitando
que eu chegasse até aqui.
Ao Rodrigo Cobra pelo apoio em todas as horas, a paciência e a compreensão
durante os últimos dois anos, em especial os últimos meses, período dedicado à
produção desta pesquisa.
Ao Márcio Gonçalves, primo, que sempre se manteve como referência na família
e colaborou nesta pesquisa com discussões e diversos livros.
A Bianca Leite Dramali, pessoa que me impulsionou ao Mestrado e sempre me
deu muita força para essa conquista.
A Karine Karam, Isabella Cardoso e Simone Pinto pela força e pela motivação e
por terem permitido que eu pudesse realizar o Mestrado conciliando-o com minha
atividade profissional.
Aos meus amigos, Cristiano Martins, Luciano do Valle e Marcel Souza por
permanecerem ao meu lado mesmo nos momentos em que eu mais estive ausente
durante os dois últimos anos.
A Barbara Robichez Muller por reconhecer o valor dessa conquista e sempre me
estimular a seguir em frente.
A todos os amigos e familiares que sempre me estimularam e me apoiaram
durante esses anos.
Resumo
Gonçalves, João Vitor Rodrigues. Gramática da amizade: um estudo sobre
Comunicação e a construção das emoções nas redes sociais online. Rio de
Janeiro, 2012, 100p. Dissertação de Mestrado. Departamento de
Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Como emoção e sentimento, todos sabem o significado de uma amizade. De
Aristóteles aos cientistas sociais, que buscam compreendê-la sob os aspectos da
Antropologia das Emoções, a relação entre as pessoas unidas por esse sentimento
não parece ter sido modificada ao longo dos séculos. Com a internet, a amizade
recebeu o suporte de ferramentas de comunicação mediadas pelo computador, que
permitiram aos amigos manter contato com mais frequência, trocar e
compartilhar, bater papo. O Facebook, uma dessas ferramentas, é um site de rede
social que conecta amigos. No espaço social de interação que vem se tornando
esse site, os amigos reproduzem os códigos da relação existentes fora da rede
social online. Quais são esses códigos e como eles são reproduzidos no online,
como no offline, são os pontos sobre os quais esta pesquisa pretende avançar.
Esses tais códigos compõem a gramática da amizade, analisada aqui a partir da
comunicação mediada pelo computador, através do Facebook, e pelo contexto
interacional pré-existente ao surgimento desse site de rede social.
Palavras-chave
Redes Sociais; Amizade; Antropologia das Emoções; Facebook.
Abstract
Gonçalves, João Vitor Rodrigues. Grammar of friendship: a study on
Communication and the construction of emotion in online social networks.
Rio de Janeiro, 2012, 100p. Dissertation. Departamento de Comunicação
Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
As emotion and feeling, everyone knows the meaning of friendship. From
Aristoteles to social scientists, seeking to understand it under the aspects of
the Anthropology of Emotions, the relationship between people united by this
feeling seems to have not been modified over the centuries. With the internet,
friendship received the support of tools for computer-mediated communication,
allowing friends to stay
in
touch
more
often,
exchanging and
sharing, chatting. Facebook, one of these tools, is a social network site that
connect friends. In the space of social interaction this site has became,
friends reproduce the codes of the relationship existing outside the social
network online. What are these codes and how they are played online, as offline:
these are the points on which this research intends to move forward. These
codes make up the grammar of friendship, analyzed here from computer mediated
communication, through Facebook, and the interactional pre-existing context to
the emergence of this social networking site.
Keywords
Social Networks; Friendship; Anthropology of Emotions; Facebook.
Sumário
Introdução
9
1. O indivíduo, a sociedade, a tecnologia e as emoções
17
1.1. Do indivíduo sociológico às emoções compartilhadas
17
1.2. Da tecnocultura à cibercultura
21
1.3. Comunicação e Cibercultura
25
1.4. A internet e a comunicação mediada pelo computador
28
1.5. O desenvolvimento dos estudos de redes sociais
29
1.5.1. Elementos das redes sociais
31
1.6. Abordagem relacional da interação e a antropologia das emoções 42
2. Facebook: metodologias aplicadas à interação em um site de rede
social
47
2.1. Do que é feito um site de rede social
47
2.2. Metodologia da pesquisa
50
3. Antropologia das emoções e o Facebook
68
3.1. Interações e relações sociais mediadas pelo computador
69
3.2. A globalização e o sujeito individualista
73
3.3. Interações sociais e a expressão do sentimento
77
3.4. Expressão dos sentimentos e linguagem
80
3.5. Desvendando a relação de amizade no Facebook
84
3.5.1. Gramática da amizade
97
3.5.1.1. Amigos não se encaixam em categorias, são decorrentes de
laços fortes
97
3.5.1.2. A reciprocidade nas trocas
98
3.5.1.3. Mais do que o número de amigos, quero saber de quem me
interessa
99
4. Considerações finais
104
5. Referências Bibliográficas
107
Lista de figuras
Figura 1 – Perfil de usuário no Facebook
32
Figura 2 – Interação entre usuários no Facebook
39
Figura 3 – Comentário que gerou respostas para o usuário
55
Figura 4 – Publicação no mural de uma amiga
55
Figura 5 – Lista “melhores amigos” e as pessoas incluídas nela
58
All the modern things
Like cars and such
Have always existed
They've just been waiting in
a mountain
For the right moment
Listening to the irritating
noises
Of dinosaurs and people
Dabbling outside
It's their turn now...
Björk, The Modern Things
Introdução
Compartilhar. “Ter ou tomar parte em; participar de; compartir, partilhar 1”.
À definição do dicionário poderia se acrescentar termos como “postar”, “publicar
no mural” no Facebook 2. Depois da primeira experiência com o Orkut 3, o site de
rede social surgido em 2004, quando os internautas então aprenderam como criar
uma identidade através de um perfil na rede para buscar e encontrar outros
usuários, trocar mensagens e demonstrar suas preferências e gostos em
comunidades, compartilhar e curtir são os verbos que regulam a interação no site
de rede social Facebook. Nascido no mesmo ano do Orkut, o Facebook já
ultrapassou os oitocentos milhões de usuários em todo o mundo, conforme
anúncio feito pelo fundador do site, Mark Zuckerberg, em evento 4 oficial da
empresa em setembro de 2011, quando também anunciou recentes mudanças no
layout do site. A princípio não muito diferente de seu antecessor, o Facebook vem
se mantendo na preferência dos usuários como o site de relacionamentos para
encontrar e manter listados os amigos próximos e distantes, colegas, parentes,
conhecidos e novos contatos, entre outros.
Redes sociais digitais não são um sinônimo de um dado momento da
sociedade, dominada pela cultura digital. Tampouco estão relacionadas apenas ao
desenvolvimento e à expansão da rede mundial de computadores, a internet 5.
Watts (2009) explica redes como um conjunto de objetos de alguma forma
conectados, que podem ser desde pessoas em uma rede de amigos ou em uma
empresa até roteadores na internet ou neurônios no cérebro. Recuero (2009)
atualiza o conceito de rede social definindo-a como um conjunto de atores e
conexões. Os atores são pessoas, instituições ou grupos, representados pelos nós
da rede. E as conexões são as interações ou laços sociais. Dessa forma, a rede se
torna “uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a
partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores.” (Recuero, 2009, p.24).
1
Mini Aurélio Escolar Século XXI, 2001
www.facebook.com
3
www.orkut.com
4
O Facebook não revela oficialmente em seu site estatísticas com o número de usuários, porém
nesse evento, seu fundador confirmou essa informação. Mais informações em f8
http://on.fb.me/s8bvZ4
5
Nesta pesquisa, internet será grafada com letra minúscula seguindo padrão e metodologia
escolhidos por Fragoso et al. (2011, p.23), em que afirma que a utilização da letra maiúscula
sugere ao termo tratar-se de nome próprio ou de lugar.
2
10
Aliados a essa metáfora de redes e às mudanças trazidas para a sociedade
pelo advento da Comunicação Mediada pelo Computador (CMC) 6, que vem
alterando “as formas de organização, identidade, conversação e mobilização
social” (Recuero, 2009, p.16), encontram-se os sites de redes sociais na internet,
como pode ser assim considerada “toda ferramenta que for utilizada de modo a
permitir que se expressem as redes sociais suportadas por ela” (Recuero, 2009,
p.102). Esses sites são “uma consequência da apropriação das ferramentas de
comunicação mediada pelo computador pelos atores sociais”, segundo Recuero
(2009, p.102). O Facebook é o que possui o maior número de usuários ativos
desde o final de 2011.
As ferramentas de que os atores participantes da comunicação mediada pelo
computador apropriaram-se, como os sites de redes sociais, permitiram a eles que
pudessem construir sua presença na rede através de dados como nomes, fotos,
data e local de nascimento, cidade onde vivem, gostos musicais e mais
informações, definindo assim uma identidade nesses sites. Além disso,
possibilitaram interagir e comunicar-se com outros atores. Com isso, a partir da
década de 90, conforme aponta Recuero, o estudo de redes sociais tem uma nova
perspectiva, pois as indicações, ou rastros, deixados por eles na comunicação,
interação e conversação com outros atores na rede de computadores “permitem o
reconhecimento dos padrões de suas conexões e a visualização de suas redes
sociais através desses rastros.” (Recuero, 2009, p.24). Dessa maneira, “é neste
âmbito que a rede como metáfora estrutural para a compreensão dos grupos na
Internet é utilizada através da perspectiva de rede social.” (Recuero, 2009, p.24)
O estudo das redes sociais na Internet, assim, foca o problema de como as
estruturas sociais surgem, de que tipo são, como são compostas através da
comunicação mediada pelo computador e como essas interações mediadas são
capazes de gerar fluxos de informações e trocas sociais que impactam essas
estruturas. (RECUERO, 2009, p. 24)
E foi diante dessa nova possibilidade de estudar as conexões entre os
indivíduos através da perspectiva dos estudos de redes sociais, e frente ao
fenômeno dos sites de redes sociais, que surgiu o interesse por investigar o objeto
6
“Originalmente, a CMC era definida como uma forma de comunicação eletrônica escrita, mas o
termo passou a ser usado para se referir a um amplo âmbito de tecnologia que facilita tanto a
comunicação humana quanto a partilha interativa de informação através de redes de computador.”
(Braga, 2008, p.41)
11
desta pesquisa. Além de tornar-se mais uma das ferramentas apropriadas na
comunicação mediada pelo computador, um espaço social de interação, e de ter
um alcance significativo frente ao número de pessoas com acesso à internet no
mundo 7, o Facebook chamou atenção para a necessidade da presente pesquisa,
que parte da premissa de que ele está interferindo ou modificando códigos ou
condutas de comportamento a partir da interação no seu ambiente digital.
Segundo Braga (2008), no processo de interação social que ocorre no
interior dos ambientes da internet, as estratégias são individuais e grupais,
adquiridas por apropriação de regras já estabelecidas em outros contextos
relacionais. Ali, os comportamentos serão moldados caso a caso, conforme
“demandas situacionais, anteriores a uma codificação formal explícita ou mesmo
tácita, que se consolidará com a sedimentação de uma cultura da atividade online” (Braga, 2008, p.16). No que se refere especificamente à amizade, nos sites
de redes sociais ela é aquilo que estabelece a conexão entre os participantes.
Bastaria encontrar e enviar um convite para ser adicionado à lista de amigos de
outro usuário para que a amizade se estabeleça entre as duas partes. Depois do
convite enviado e da solicitação de uma nova amizade aceita, os dois participantes
passam a interagir mutuamente através de funcionalidades desse site que é o
Facebook, como mensagens públicas, privadas, chat, conversas em grupos ou
listas e até agendamento de eventos.
Observando
pessoas
próximas
constantemente
se
referindo
aos
acontecimentos dentro do Facebook, falando sobre como é encontrar e interagir,
dentro desse site, com amigos cuja relação surgiu há pouco tempo até aqueles que
se conhece desde a infância, os comentários positivos e negativos sobre o que as
pessoas publicam e como eles refletem sobre todos os participantes que estão
associados ao seu perfil, as discussões, os debates, as fotos e os vídeos
compartilhados, enfim, sobre como tudo isso estava sendo incorporado ao dia-adia de muitos daqueles que me cercavam, surgiu o interesse nesta pesquisa.
Comecei a perceber que, ao mesmo tempo em que as regras poderiam ser de um
contexto relacional pré-existente, ainda assim muitas delas não estavam claras
7
São quase dois bilhões e meio de pessoas, segundo estudo de 2011 do ITU – International
Telecomunication Union, disponível em
http://www.itu.int/ITU-D/ict/facts/2011/material/ICTFactsFigures2011.pdf
12
para todos naquele novo ambiente de interação ou que tantas outras poderiam
estar sendo criadas ou adaptadas. Escutei muitos amigos reclamando do
comportamento dos outros no Facebook, o que provocava reações diversas, desde
esconder todas as publicações de alguém “chato” ou “irritante” até a exclusão
dessa pessoa da sua lista de amigos. E em alguns casos, as pessoas até debatiam
sobre isso pessoalmente, depois do fato ocorrido no site. Da mesma forma, ouvi
relatos emocionados de quem reencontrou, mesmo que somente através desse site,
pessoas com quem não mantinham contato há anos ou que conseguiu, depois do
Facebook, conversar com mais frequência com um amigo que mora distante, em
outro país ou que se vê raramente. Em torno de todas essas questões,
possibilidades, conexões, novos códigos, conflitos, vi a possibilidade de
desenvolver uma pesquisa como esta, cujo foco estará sobre o sentimento da
amizade dentro desse ambiente de interação que é o site de rede social Facebook.
Com foco no sentimento da amizade e através da observação das interações
dos atores no Facebook, esta pesquisa tende a contribuir tanto para os estudos da
Comunicação Social quanto das Ciências Sociais, propiciando um instrumento
teórico, intelectual e prático necessário à produção, desenvolvimento e
multiplicação do conhecimento em ambas as áreas. Para a Comunicação Social,
deverá somar aos diversos estudos sobre comunicação e interação mediada pelo
computador, sobre a entrada dos sites de redes sociais no cenário da cibercultura e
as trocas comunicacionais entre indivíduos, possíveis agora também através das
ferramentas apropriadas por eles e trazidas pelos avanços da tecnologia.
Abordando aspectos da Antropologia das Emoções, esta pesquisa também deverá
contribuir para o diálogo entre Comunicação Social e Ciências Sociais, visto que a
expressão dos sentimentos é parte das pesquisas desta última e pode ajudar a
compreender as trocas interacionais nos ambientes da internet através dos códigos
comuns que compõem o sentimento da amizade. Visto desta forma, a expressão
dos sentimentos, ou uma “gramática dos sentimentos”, será observada nos
contextos relacionais anteriores aos sites de redes sociais para buscar compreender
comportamentos replicados nesses sites ou que estão em transformação e
reciprocidade entre online e offline.
13
Dentro desse quadro de referência da realidade contemporânea é que se
determina o objeto de estudo desta pesquisa: os códigos de expressão da amizade
entre online e offline 8, sob a perspectiva de um site de rede social, o Facebook.
Partindo do conceito de Mauss (1980) de que a expressão dos sentimentos é uma
linguagem usada pelos indivíduos para comunicar as suas emoções aos outros e a
si mesmo, através de um código comum, esta pesquisa levantará hipóteses sobre a
constituição desse código através das ferramentas no ambiente em que a
comunicação é mediada pelo computador, mais especificamente, neste caso, o
Facebook.
Quais são os códigos do contexto relacional da amizade, anteriores ao
surgimento da comunicação mediada pelo computador, que estão sendo levados
aos ambientes de um site de rede social, em que a amizade é tida como uma
conexão sob a ótica dos estudos de redes sociais? Seriam os mesmos códigos ou é
possível afirmar que há novas formas de expressar esse sentimento usando as
ferramentas para a interação que se dá através do computador? Num site de rede
social, esses códigos comuns na expressão de um sentimento, como descreveu
Mauss, já são previamente conhecidos e compartilhados? Todas as pessoas que
participam da interação nesse ambiente online estão de acordo com a maneira
como esses códigos do offline estão sendo usados ou adaptados nesses sites de
redes sociais? E o contrário, é possível afirmar que já existem códigos de
expressão da amizade constituídos no online que estão sendo levados para o
offline? Essas e outras hipóteses devem ser abordadas nesta pesquisa, que busca
compreender a expressão de um sentimento, a amizade, e seus códigos partilhados
pelos indivíduos no ambiente de um site de rede social, o Facebook.
O objetivo desta pesquisa é partir da compreensão dos códigos de expressão
da amizade, já conhecidos e que são comuns a todos, para encontrar o lugar deles
nos ambientes de interação e comunicação mediada pelo computador. Como
ferramenta apropriada desses ambientes e espaço de interação, o Facebook tornouse o site de rede social mais significativo para identificação de laços de amizade
8
Embora já muito comuns na linguagem dos estudos sobre internet e utilizados para opor as
interações ocorridas no interior dos ambientes mediados pelo computador e fora deles, os termos
online e offline serão usados a partir daqui para designar o que ocorre dentro dos ambientes da
internet e fora dela, respectivamente.
14
nesse contexto. E como na maioria desses sites, nele a conexão é também
chamada de “amizade”, o que possibilita investigar e localizar aqueles códigos
nesse ambiente online. Além disso, outros objetivos desta pesquisa são: analisar
referenciais teóricos sobre a amizade e a expressão desse sentimento;
contextualizar e atualizar os estudos sobre redes sociais e sobre a comunicação
mediada pelo computador; e estabelecer um diálogo entre os estudos da
Comunicação Social, no âmbito das trocas comunicacionais, dentro do quadro da
cibercultura, e das Ciências Sociais, no que se refere à expressão das emoções
como objeto de estudo, contribuindo para refletir sobre como essa expressão está
sendo moldada nos ambientes de interação online.
Para Lopes (2005),
seguindo uma noção ampla e não-tecnicista de método, este aparece como uma
série de opções, seleções e eliminações que incidem sobre todas as operações
metodológicas no interior da investigação: na definição do problema da pesquisa,
na formulação de hipóteses, na teorização de conceitos e, o que é menos óbvio, na
construção dos dados (LOPES 2005, p. 101)
De acordo com a classificação feita por Gil (2002) em relação ao método a
ser empregado, esta pesquisa tem um caráter exploratório quanto a seus objetivos,
pois está voltada para a busca de referenciais para a constituição de hipóteses a
respeito da expressão do sentimento amizade em um site de rede social. Esse tipo
de pesquisa “procura conhecer as características de um fenômeno para procurar
explicações das causas e consequências de dito fenômeno”. (Richardson, 1989,
p.281).
Quanto aos procedimentos técnicos, conforme Gil (2002), o método
empregado será a pesquisa bibliográfica, pois aqui se pretende realizar um estudo
sistematizado a partir de publicações – fontes primárias e secundárias – dentre
livros, revistas e internet, cujo tema abordado e o conhecimento dos autores
tenham relevância na contribuição da proposta desse projeto. Ainda em relação
aos procedimentos utilizados, a pesquisa fará uso do método descritivo, que, de
acordo com Thomas & Nelson (1996) procura determinar status, opiniões ou
projeções futuras nas respostas obtidas. A sua valorização está baseada na
premissa de que os problemas podem ser resolvidos e as práticas podem ser
melhoradas através de descrição e análise de observações objetivas e diretas. As
15
técnicas utilizadas para obtenção de informações são bastante diversas,
destacando-se os questionários, as entrevistas e as observações.
No entanto, para Lopes, a Comunicação deve apoiar-se e desenvolver-se,
visto que se trata de uma disciplina mais recente, a partir das Ciências Sociais
tradicionais. As formas específicas de aproximação da realidade na Comunicação
ainda estão sendo delimitadas, segundo a autora. “O amadurecimento
metodológico no campo da Comunicação depende do desenvolvimento das
análises de seus múltiplos níveis e dimensões, o que exige necessariamente uma
variedade de metodologias” (Lopes, 2005, p.105).
Os participantes da comunicação mediada pelo computador “conduzem suas
atividades tendo como modelo recursos de várias práticas comunicacionais
anteriores, sendo uma delas a escrita” (Braga, 2008, p.96). Logo, cada pesquisa
deve reconhecer a necessidade de uma composição de técnicas, resultando num
aparato metodológico específico. Por essas razões, esta pesquisa deverá combinar
métodos das Ciências Sociais e privilegiará a etnografia, que, “parece constituir-se
em um aporte promissor para o estudo empírico das atividades de CMC (...).”
(Braga, 2008, p.96). Para Braga, “essas práticas sociais emergentes apresentam
características peculiares, que demandam uma mediação considerável para com as
regras tradicionais do método etnográfico”. (Braga, 2008, p.96)
A descrição completa do método aplicado a esta pesquisa estará no segundo
capítulo, em que serão apresentadas a abordagem etnográfica, o esquema da
observação não-participante nesses ambientes online e os relatórios da pesquisa
empírica que contou também com método qualitativo através de entrevistas em
profundidade.
No primeiro capítulo serão apresentadas as definições e a evolução do
sujeito moderno, a caracterização da cibercultura, o surgimento da internet, da
evolução dos estudos de redes sociais até os sites de redes sociais (SRS), passando
por uma introdução à abordagem relacional da interação e aos estudos da
Antropologia das Emoções.
16
No segundo capítulo, encontram-se a metodologia e uma reflexão a respeito
da necessidade de combinação de métodos para pesquisas em Comunicação com
foco em internet. Diante das novas perspectivas de pesquisas em ambientes de
comunicação mediada pelo computador, como em sites de redes sociais, alguns
pesquisadores acreditam que uma abordagem multimétodos pode ser mais eficaz
para analisar e descrever cenários nessas condições. Ainda neste capítulo será
apresentada a primeira parte de um dos métodos selecionados para observar a
interação no Facebook e seus resultados.
O terceiro capítulo aborda os reflexos da comunicação mediada pelo
computador sobre as interações e as relações sociais. Há também um breve
histórico sobre a amizade e suas configurações contemporâneas em um espaço de
interação social como o Facebook. Por fim, são apresentados os resultados da
pesquisa, uma indicação da gramática da amizade a partir dos códigos observados
nesse site de rede social e as considerações finais.
17
1. O indivíduo, a sociedade, a tecnologia e as emoções
Antes de chegar ao cenário contemporâneo da comunicação, mediada pelos
computadores, para o âmbito desta pesquisa, se faz necessário compreender a
evolução do indivíduo até seu estágio em uma era em que as relações também
carregam características das trocas realizadas pelo conteúdo das interações em
ambientes digitais. Da evolução da técnica às configurações da cibercultura, o
indivíduo e a sociedade passaram por transformações psicológicas e sociais que
modificam ainda o modo como as relações sociais se estabelecem entre as partes.
Ao estudo das redes sociais e da interação mediada pelo computador, somase a esta pesquisa o campo da antropologia das emoções, permitindo identificar
uma linguagem relacionada à expressão de sentimentos, como a amizade, objeto
central dos objetivos deste trabalho. Dos contextos interacionais anteriores ao
surgimento dos sites de redes sociais até o modo como as relações vão se
moldando através deles, a amizade parece prevalecer sobre a tecnologia,
abordagem que será mais explorada entre o segundo e o terceiro capítulos.
Neste capítulo é possível encontrar uma retrospectiva, da modernidade à
pós-modernidade, dos avanços da sociedade sobre o indivíduo, e vice-versa. Foi
dentro desse quadro que nasceu o sujeito individual e a sociedade democrática.
Nele também evoluíram os meios de comunicação, dos primeiros satélites à
internet, que permitiu a conexão global entre os indivíduos de todas as partes do
mundo e, consequentemente, possibilitou a comunicação e a interação entre eles.
Interação essa que é feita de conteúdos diversos em sites de redes sociais como o
Facebook.
1.1. Do indivíduo sociológico às emoções compartilhadas
Está situada na transição da sociedade agrária para a industrial uma
importante mudança na estrutura da organização social, trazida pelo surgimento
do conceito moderno de Nação. No período anterior, as sociedades estavam
divididas em camadas reforçadas hierarquicamente pelas classes dirigentes,
formadas por uma minoria da população alfabetizada, que mantinha o controle
sobre a grande maioria e reforçava a diferenciação cultural a fim de reduzir atritos
18
e a ambiguidade entre elas. Para Giddens (2002), são estabelecidos pela primeira
vez na Europa, depois do feudalismo, instituições e modos de comportamento que
viriam a impactar todo o mundo com mais força a partir do século XX, mas que
desde então já podem ser caracterizados como parte do período de passagem para
a modernidade. Esta se refere “às relações sociais implicadas no uso generalizado
da força material e do maquinário nos processos de produção” (Giddens, 2002, p.
21).
Ortiz (2007) afirma que, neste momento, a constituição de uma Nação traz
consigo a existência de um ideal comum partilhado por todos, suportado pelo
princípio da cidadania, amparado pelas revoluções políticas. Giddens reforça que
o estado-nação é o oposto dos tipos tradicionais de ordem estabelecidos antes
dele, pois “tem formas muito específicas de territorialidade e capacidade de
vigilâncias, e monopoliza o controle efetivo sobre os meios da violência”
(Giddens, 2002, p.22). Para este autor, mais importante do que o tamanho ou o
caráter burocrático trazido pela organização dos estados-nações na modernidade,
está a ascensão da organização, permitindo o “monitoramente reflexivo e o
controle regular das relações sociais dentro de distâncias espaciais e temporais
indeterminadas” (Ibid., p.22).
Surge um sistema moderno de comunicação, onde a escola, a imprensa e os
meios de transporte tiveram papel fundamental, já que antes os países eram
formados por regiões que não se conectavam, entre as quais não havia
comunicação. “A rede comunicativa (estradas de ferro, telégrafo, transportes,
jornais etc) irá, pela primeira vez, articular este emaranhado de pontos,
interligando-os entre si” (Ortiz, 2007, p.44). O que sucedeu a isto, segundo Ortiz,
foi o advento da ordem industrial, no início do século XIX.
Giddens ressalta ainda que em diversos aspectos fundamentais as
instituições modernas são feitas de uma “‘descontinuidade’ com as culturas e os
modos de vida pré-modernos” (Giddens, 2002, p.22). Para o autor, a modernidade
é muito mais dinâmica, o ritmo da mudança social é mais veloz que nos sistemas
anteriores, além de ser capaz de modificar práticas sociais e comportamentos
preexistentes com maior amplitude e profundidade. O indivíduo se desprende de
19
uma estrutura de organização que o mantinha fixo rigidamente a um espaço e
vislumbra a possibilidade de deslocamento, mobilidade, já que “a forma de
organização industrial requer principalmente a rearticulação do tecido social.”
(Ortiz, 2007, p.45). Para Ortiz, o sistema técnico dessas transformações permitiu
um controle maior do espaço e do tempo pelos homens, o que favoreceu a
organização
racional
de
suas
vidas,
possibilitando
inclusive
que
se
desterritorializassem. “Nas sociedades modernas as relações sociais são
deslocadas dos contextos territoriais de interação e se reestruturam por meio de
extensões indefinidas de tempo-espaço”. (Ortiz, 2007, p.45).
De acordo com
Giddens, “em situações pré-modernas, tempo e espaço se conectavam através da
situacionalidade do lugar” (Giddens, 2002 p.22), o oposto do que ocorre na
modernidade e uma das justificativas para explicar seu caráter dinâmico e a
separação de tempo e espaço.
Ao mesmo passo em que a modernidade vai se configurando com um estilo
de vida próprio, um modo de ser que rearticula a organização social, os indivíduos
passam por duas importantes fases de construção de sua identidade a partir desse
ponto. Hall descreve a transição do “sujeito do Iluminismo” para o “sujeito
sociológico”. O primeiro estava baseado numa concepção de indivíduo
“totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência
e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior” (Hall, 1999, p.10). Já o
“sujeito sociológico”, foi aprendendo a lidar com a complexidade do mundo
moderno e percebeu que seu núcleo interior é constituído da relação com outras
pessoas, “que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura
– dos mundos em que ele/ela habitava.” (Hall, 1999, p.10)
Para o “sujeito sociológico”, que poderia ser o correspondente ao indivíduo
vivendo na modernidade, seu núcleo interior ainda existe, o que Hall chama de
“essência interior”, “eu real”, mas ele está constantemente em transformação,
sendo modificado pela interação com diferentes “mundos culturais ‘exteriores’ e
as identidades que esses mundos oferecem” (Hall, 1999, p.11). Nesse sentido, a
identidade do indivíduo passa a ser vista pela ligação entre interior e exterior, o
pessoal e o público. A identidade teria, assim, o papel de posicionar o sujeito
20
frente à estrutura, tornando ambos reciprocamente conectados e com maior
probabilidade de previsão de fenômenos derivados dessa relação.
O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo
tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os ‘parte de
nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos
que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL, 1999, p.12).
Simmel (1998) e Goffman (2008) aprofundaram a questão sociológica da
interação a partir dessa nova perspectiva. Para o primeiro, uma sociedade se move
a partir de diferentes motivações, interesses, fins, o que ele chama de “conteúdo”,
e não somente com a parte individual de cada sujeito. Esta não seria unicamente
capaz de constituir uma sociedade, visto que a reciprocidade na interação entre os
indivíduos é responsável por essa construção, relação que o autor chamou de
“forma”. Já Goffman preocupou-se com o modo como o “eu” era apresentado nas
diferentes situações sociais e como são feitas as negociações nas situações de
conflitos entre os diferentes papéis sociais, ou seja, a “influência recíproca dos
indivíduos sobre as ações uns dos outros.” (Goffman, 2008, p.23). A questão da
interação social será abordada ainda nesta pesquisa com mais profundidade nos
capítulos que se seguem.
Essas questões caracterizam o momento de transição da sociedade para a era
moderna, apoiada pela industrialização, embora seja necessário reconhecer, como
afirma Giddens, que essa não é sua única dimensão institucional. A segunda
dimensão é o capitalismo, “sistema de produção de mercadorias que envolve tanto
mercados competitivos de produtos quanto a mercantilização da força de
trabalho” (Giddens, 2002, p.21). Mas o importante a ser ressaltado nesse ponto
são as transformações estruturais na organização social que impactam diretamente
as relações dos indivíduos com o meio e entre eles. Do “sujeito do Iluminismo” ao
“sujeito sociológico”, tem-se uma mudança na posição do “eu”, antes individual e,
em seguida, interacional. Para Hall, o individualismo da época moderna não é
uma novidade, já que em eras pré-modernas as pessoas também tinham sua
individualidade. A diferença, para o autor, está na forma como essa
individualidade era vivida e conceituada. “As transformações associadas à
modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas
estruturas” (Hall, 1999, p.25).
21
O nascimento do “indivíduo soberano” entre o Humanismo Renascentista do
século XVI e o Iluminismo do século XVIII, representou uma ruptura importante
com o passado. Alguns argumentam que ele foi o motor que colocou todo o
sistema social da ‘modernidade’ em movimento. (HALL, 1999, p.25)
As conseqüências desse período refletem ainda sobre o que viria a seguir,
quando a identidade começa a ser mais descentralizada, caracterizando o que
alguns autores concordam chamar de pós-modernidade. Nesta fase, o sujeito vê
sua relação com os ambientes culturais em que habita desestabilizada; sua
identidade, antes unificada e estável, está sendo modificada por conta de uma
fragmentação, pois já não é mais composto de uma identidade, mas de várias
delas, “algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas” (Hall, 1999, p.12).
1.2. Da tecnocultura à cibercultura
Seguindo o curso da industrialização da sociedade, Lemos (2008) chama a
atenção para a revolução industrial em andamento, anos mais tarde, a partir da
segunda metade do século XIX, baseada na eletricidade, no petróleo, no motor a
explosão e nas indústrias de síntese química. Crescimento demográfico,
organização industrial, produção em larga escala e diversificação dos novos meios
de transporte e de comunicação são os principais aspectos de configuração da
modernidade, caracterizada pelo “mito do progresso pela realização tecnológica
do destino humano.” (Lemos, 2008, p.47).
Segundo o autor, o desenvolvimento tecnológico da sociedade passa por três
grandes fases: “a fase da indiferença (até a Idade Média), a fase do conforto
(Modernidade) e a fase da ubiqüidade (pós Modernidade)”. (Lemos, 2008, p.52)
A primeira seria caracterizada “pela mistura entre arte, religião, ciência e
mito” (Lemos, 2008, p.52), quando a vida social gira somente em torno do
sagrado. A fase do conforto, durante a Modernidade, é quando a natureza perde
seu caráter sagrado e passa a ser vista como passível de controle, exploração e
transformação. Para o autor, a razão passa a dirigir o progresso das condições
materiais, a ciência substitui a religião e a tecnologia coloca o homem no centro
do universo para conduzir a administração racional do mundo.
Associada ao fato da mobilidade social dos indivíduos, que vai se
constituindo a partir da modernidade, está a questão do progresso feito pelo
22
homem sobre a técnica, quando passa a desenvolver máquinas, ferramentas e faz
avançar o desenvolvimento de novas tecnologias através de invenções e inovações
que vão dos transportes aos meios de comunicação. Para o autor, essas
transformações estão associadas à relação entre o homem, a natureza e a
sociedade e provam que “desde o surgimento das primeiras sociedades até as
complexas cidades pós-industriais (...), a tecnologia ganhou significações e
representações diversas em um movimento de vaivém com a vida social”.
(Lemos, 2008, p.51).
Com isso, cada época da História teria o que autor chama de uma “cultura
técnica particular”. Esta está relacionada com aqueles três componentes – homem,
natureza e sociedade – e à forma como o primeiro transforma, domina ou controla,
dos artefatos aos ideais sociais, que passariam pela invenção do fogo, pela
construção de cidades, pelo domínio da energia, pela construção de indústrias,
pela conquista do espaço até as viagens ao núcleo da matéria e aos significados da
constituição espaço-tempo. “A racionalidade científico-tecnológica torna-se
instrumento de modernização da sociedade, sendo a racionalidade determinante
para o modelo de desenvolvimento moderno” (Lemos, 2008, p.51). A cultura
técnica, nesse momento, seria chamada de “tecnocultura”, caracterizada assim
pois a “especificidade da técnica contemporânea estaria na constituição de um
meio, de um sistema, de um reino isolado das outras esferas da cultura”. (Lemos,
2008, p.51)
A última fase seria aquela a partir da mudança do paradigma eletricidade,
petróleo, motor elétrico e química de síntese do final do século XIX, característico
da modernidade, para o paradigma da energia nuclear, informática, engenharia
genética, logo após a Segunda Guerra Mundial. “Este novo sistema técnico vai
afetar a vida quotidiana de forma radical com a formação e planetarização da
sociedade de consumo e do espetáculo” (Lemos, 2008, p.52), além de trazer
conseqüências como a “poluição, desigualdades sociais, econômicas e políticas,
caos urbano, violência, drogas etc”. (Lemos, 2008, p.52).
23
A fase da ubiqüidade pós-moderna, ou fase da comunicação e da informação
digital, corresponde à conclusão da fase do conforto (a natureza é agora
controlável) e ao surgimento da tecnologia digital, permitindo escapar do tempo
linear e do espaço geográfico. Entram em jogo a telepresença, os mundos virtuais,
o tempo instantâneo, a abolição do espaço físico, em suma, todos os poderes de
transcendência e de controle simbólico do espaço e do tempo. (LEMOS, 2008,
p.52)
Para Lemos é a partir dessa última fase que passa a se caracterizar o cenário
da cibercultura, aquela que seria a fase da onipresença, da simulação, onde os
ideais modernos que visam a um futuro racionalista são enfraquecidos e
substituídos pela ênfase no presente, “numa sociedade cada vez mais refratária às
falas futuristas, cada vez mais submergida em jogos de linguagem”. (Lemos,
2008, p.52)
A cibercultura é uma configuração sociotécnica de produção de pequenas
catástrofes que se alimentam das fusões, impulsões e simbioses contemporâneas: o
usuário interativo da cibercultura nasce do desaparecimento do social (Baudrillard)
e da implosão do individualismo moderno. Homens e máquinas (nanotecnologias,
próteses) tornam-se quase isomórficos, simbióticos, indiferenciados. O tribalismo,
o presenteísmo e o hedonismo das comunidades virtuais abalam a rigidez das
formas sociais modernas (partidos, classes, gênero). A cibercultura seria a inclusão
de pequenas catástrofes em meio à infraestrutura tecnológica mundial. Tudo isso
em tempo real, instantâneo. (LEMOS, 2008, p.75)
Ao longo dessas fases, o indivíduo também passou por mais transformações.
Aquela que interessa a esta pesquisa está relacionada ao reposicionamento do “eu”
de cada sujeito, à descentralização e fragmentação das identidades. Esse processo
produziu o sujeito pós-moderno, que, segundo Hall, é “conceptualizado como não
tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma
‘celebração móvel’”. (Hall, 1999, p.13). Isso significa que ela está constantemente
em transformação e varia conforme “as formas pelas quais somos representados
ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (Hall, 1999, p.13).
Para esse autor, os ambientes culturais ao redor do indivíduo, “que
asseguravam nossa conformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da
cultura” (Hall, 1999, p.12), começam a entrar em colpaso por conta de mudanças
estruturais e institucionais, muitas dessas relacionadas ao que Lemos (2008) citou
quanto à configuração da cibercultura. O processo de identificação do sujeito com
as identidades culturais ao seu redor está se tornando problemático, já que agora
24
ele passaria a assumir identidades diferentes em momentos diferentes, embora
“unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (Hall, 1999, p.13).
Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de
tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se
sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é
apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma
confortadora ‘narrativa’ do eu. (HALL, 1999, p.13)
E é nesse sentido que caminha contemporaneamente a caracterização da
identidade. Para Bauman (2001), antes havia códigos, padrões e regras que
poderiam servir como orientação para o sujeito moderno. No que o autor chama
de “modernidade líquida”, ou pós-modernidade como identificamos até agora
nesta pesquisa, a falta daquela orientação está levando a sociedade a passar da
“era de ‘grupos de referência’ predeterminados a uma outra de ‘comparação
universal.’” (Bauman, 2001, p.14). Isso quer dizer que a construção das
referências individuais relacionadas ao meio em que vive o sujeito não está
previamente disponível, pois os padrões e configurações estão em constantes
transformações a todo tempo.
Com isso, caracterizam-se até aqui dois aspectos que interessam a esta
pesquisa: a evolução da técnica historicamente, da tecnocultura à cibercultura; e
as transformações do sujeito e de sua identidade, do individualismo ao complexo
sistema de identidades diferentes dentro e fora dele, nos ambientes culturais que o
cercam. Compreender alguns dos aspectos da cibercultura será importante para
discutir o ambiente interacional que será analisado em profundidade nesta
pesquisa. Além disso, a cibercultura também contribui para a multiplicação de
identidades distintas dentro de um mesmo sujeito, como será discutido mais
adiante. No que Hall chama de “modernidade tardia” e Bauman, de “modernidade
líquida”, ou pós-modernidade, “as identidades são atravessadas por diferentes
divisões e antagonismos que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de
sujeito’ – isto é, identidades – para os indivíduos”. (Hall, 1999, p.17) A seguir
serão aprofundadas questões relacionadas ao indivíduo de múltiplas identidades
na pós-modernidade, num cenário de cibercultura, e como suas interações e, mais
especificamente, no caso desta pesquisa, suas relações de amizade são
estabelecidas nos ambientes online que surgiram nos últimos anos.
25
É importante ressaltar que o conceito de cibercultura ainda é motivo de
alguma divergência a respeito de suas características, surgimento e constituição.
Como aponta Felinto (2010), diversos estudos recentes fazem a ligação direta do
conceito de cibercultura como derivado do surgimento da rede mundial de
computadores e “pecam por seu excessivo foco na atualidade (perdendo de vista
uma possível ‘pré-história da cibercultura’) ou por sua sobreposição das ideias de
cibercultura e ciberespaço” (Felinto, 2010, p.41). Porém, segue o autor, a
cibercultura tem na convergência de formas culturais e formas tecnológicas a
característica que explicita seu grau máximo.
As diferenças na abordagem e descrição histórica da cibercultura não fazem
parte desta pesquisa, embora aqui se reconheça que existem graus mais profundos
para se compreendê-la. Por este motivo, optou-se por descrevê-la a partir da
ordem cronológica apontada por Lemos (2008), conforme mostrado acima. A
caracterização do conceito feita pelo autor orienta esta pesquisa para o estágio
contemporâneo da relação entre máquinas e indivíduos que permitirá aprofundar a
análise das interações nos ambientes online, mas não se pretende aqui abordar as
evidências históricas da cibercultura.
1.3. Comunicação e Cibercultura
Antes de chegar à comunicação através das redes, com a conexão dos
indivíduos através de computadores, as “Novas Tecnologias de Comunicação
(NTC)” (Lemos, 2008, p.68), deram os primeiros sinais da evolução da técnica da
comunicação através do telégrafo, do rádio, do telefone e do cinema, ainda no
século XIX, quando o homem “amplia o desejo de agir à distância, da
ubiqüidade” (Lemos, 2008, p.68). Já no século XX, em 1964, é lançado o
primeiro satélite de comunicação que consegue cobrir todas as áreas do planeta.
Mas a “grande novidade do século XX serão as novas tecnologias digitais e
as redes telemáticas” (Lemos, 2008, p.68). Em 1975, a fusão das
telecomunicações analógicas com a informática fez com que, através do
computador, fosse possível publicar e trocar diversos formatos de mensagens,
entre texto, áudio e até vídeos. É a partir do desenvolvimento das tecnologias de
comunicação decorrentes desse fato que ocorre, gradativamente, a passagem dos
26
tradicionais meios de comunicação, a TV, o rádio, a imprensa, o cinema, para
“formas individualizadas de produção, difusão e estoque da informação” (Lemos,
op. cit.), como é possível observar nos dias de hoje. Lemos afirma que na fase
seguinte em decorrência dessa evolução, a circulação de informações deixa de
obedecer à hierarquia da árvore (um-todos) e passa à multiplicidade do rizoma
(todos-todos). Essas etapas resumem a constituição do cenário contemporâneo,
consolidando a fase em que se encontram indivíduos conectados através da rede
de computadores.
As novas tecnologias de informação devem ser consideradas em função da
comunicação bidirecional entre grupos e indivíduos, escapando da difusão
centralizada da informação massiva. Várias tecnologias comprovam a falência da
centralidade dos media de massa: os videotextos, os BBSs, a rede mundial internet
em todas as suas particularidades (web, WAP, chats, listas, newsgroups, muds...).
Em todos estes novos media estão embutidas noções de interatividade e de
descentralização da informação. (LEMOS, 2008, p.69)
Trazida pela cibercultura, esse autor cita ainda mais uma importante
transformação sobre a sociedade. Enquanto na Modernidade, prevalecia “a cultura
do impresso”, cujos aspectos principais seriam a homogeneização e a
padronização através da tipografia, considerada o instrumento do individualismo
dentro da sociedade moderna, os computadores em rede e a comunicação entre
eles e dos indivíduos através deles, “parecem ir na direção oposta àquela da
cultura do impresso, estando mais próximos do tribalismo anterior à escrita e à
imprensa”. (Lemos, 2008, p.71).
O ciberespaço 9, tido como o espaço onde as informações são traduzidas
“sob a forma de bits, imateriais, abstratas, lidas por uma meta-máquina” (Lemos,
2008, p.127), possui uma dinâmica social em que o desejo de conexão se realiza
de forma planetária. O computador pessoal passa, dessa forma, de um instrumento
“individual, desconectado, austero, feito para um indivíduo racional e objetivo”
(Lemos, 2008, p.71) para um computador coletivo, conectado em rede.
9
O termo ciberespaço aparece quotidianamente na imprensa e nas discussões sobre as novas
tecnologias da informação. Temos uma idéia do ciberespaço como o conjunto de redes de
telecomunicações criadas com o processo digital de circulação das informações. O termos
ciberespaço foi inventado pelo escritor cyberpunk de ficção científica William Gibson no seu
monumental Neuromancer, de 1984. (LEMOS, 2008, p.127)
27
Para Lemos, essa é uma condição que ressalta o papel “retribalizante” da
tecnologia que, agindo através do ciberespaço e combinada com as características
da sociedade contemporânea, vai produzir a cibercultura. “Parece que a
homogeneidade e o individualismo da cultura do impresso cede, pouco a pouco,
lugar à conectividade e à retribalização da sociedade”. (Lemos, 2008, p.71)
No centro dessas transformações que permitem a conexão dos computadores
em rede e dos indivíduos através dessas máquinas, com elas e através delas com
outros indivíduos, está a internet, que, para Lemos, criou “uma revolução sem
precedentes na história da humanidade” (Lemos, 2008, p.116). Foi através da
internet que se tornou possível trocar informações, sob diferentes formas, com o
mundo inteiro. Também através da internet e das diversas plataformas digitais
desenvolvidas nos últimos anos para comunicação entre os indivíduos foi que se
estabeleceram as redes sociais online, como são chamados os sites com a
finalidade de relacionamento ou sites de redes sociais, como Facebook e Orkut.
Eles servem para estabelecer uma aproximação entre as pessoas em diferentes
níveis, como amigos, conhecidos, colegas de trabalho etc. Dentro desses
ambientes, as pessoas trocam e compartilham, das formas mais variadas,
diferentes tipos de mensagens, conectados através de uma relação chamada
amizade. Isto, porque as conexões que são realizadas entre os indivíduos ocorrem
através de opções como “aceitar”, “adicionar”, “recusar” ou “excluir amigos”, que
é como são chamados todos os contatos, ou melhor, todas as conexões que cada
pessoa realiza nesses sites de redes sociais.
No centro desta pesquisa estão as interações e a relação entre os indivíduos
com o sentimento de amizade através desses ambientes digitais e online. E para
melhor compreender como ocorrem esses relacionamentos e trocas interacionais,
faz-se necessário, antes, descrever alguns termos e conceitos comuns na
abordagem dos estudos sobre o tema, como CMC (Comunicação Mediada pelo
Computador), o surgimento da internet e seus desdobramentos, além do início dos
estudos sobre redes sociais e suas diferentes perspectivas. No entanto, o enfoque
principal deste trabalho recai sobre o lugar em que o sentimento da amizade está
sendo colocado nos sites de redes sociais frente às opções técnicas e digitais que
elas oferecem para criar conexões com novos e antigos amigos. De quando se
28
conhecia um amigo face a face ao momento atual em que se adiciona ou recebe
uma sugestão de amizade do site, até a escolha de “excluir um amigo” da sua rede
de conexões online, passando por outras questões que envolvem a amizade, esta
pesquisa estará voltada para analisar se e como as relações offline estão sendo
levadas para os ambientes online, e se e como, ao contrário, os laços construídos
através da internet podem influenciar o que está fora deste ambiente.
1.4. A internet e a comunicação mediada pelo computador
Lemos (2008) explica que a idéia de unir computadores em rede é
desenvolvida por Bob Taylor, diretor, em 1966, do DARPA, Departamento de
Projetos de Pesquisa Avançada da Agência de Defesa Americana. Em 1969, um
processador de mensagens é construído em um minicomputador, sendo este o
primeiro ponto da então rede ARPANET. Em 1980, aquela rede é dividida em
duas: ARPANET (científica) e MILNET (militar), permitindo com que ambas
trocassem comunicações eletrônicas. A interconexão entre as duas foi chamada de
internet, mas estava limitada a cientistas e militares.
Braga (2008) apresenta as ideias conceituais para o desenvolvimento da
internet, segundo um artigo de 1968, redigido e publicado pelos fundadores da
ARPANET em que defendem:
i) redes de comunicação são mais do que enviar e receber informação de um ponto
a outro, os/as agentes são participantes ativos/as que têm papel central no processo
comunicativo; ii) comunicação é um processo de reforço mútuo, que envolve
criatividade; iii) o computador digital é um meio flexível, interativo que pode ser
utilizado para a comunicação humana cooperativa; iv) a comunicação baseada em
computadores exige enquadramento da situação. (BRAGA, 2008, p.43)
Antes definida apenas como uma forma de comunicação eletrônica escrita, a
CMC, Comunicação Mediada pelo Computador, ainda segundo a autora, “passou
a se referir a um amplo âmbito de tecnologia que facilita tanto a comunicação
humana quanto a partilha interativa de informações através de redes de
computadores”. (Braga, 2008, p.42)
Para compreender o papel da internet é importante observar a constatação de
Braga, de que “as atividades online não se resumem à CMC e vice-versa” (Braga,
2008, p.41). A comunicação das pessoas através dos computadores pela rede
29
mundial que os conecta, a internet, é apenas uma das atividades realizadas por
elas. É possível também realizar outras atividades das mais diversas, como
transações comerciais, participação e discussão em fóruns, ouvir músicas de
rádios de várias partes do mundo, assim como ler jornais, revistas e assistir a
vídeos de qualquer lugar do planeta etc. Para a autora, a internet “reforça e
estende redes sociais por interconectar indivíduos em um diálogo de proporções
globais, altera a maneira como muitas pessoas trabalham, aprendem, jogam e se
comunicam (...). (Ibid., p.41).
Desde a introdução dessa tecnologia, a CMC tem desenvolvido várias modalidades
que incluem e-mail, listas de discussão, chats, MUDs, instant messenger, livros de
visitas, Orkut e a própria Web, cada uma delas a criar um ambiente social
específico. As modalidades de CMC são atualizadas rapidamente. Em um período
de desenvolvimento e estabelecimento de scripts, ferramentas, interfaces,
programas são aprimorados e substituídos por outros mais avançados e condizentes
com necessidades específicas identificadas pelo uso. (BRAGA, 2008, p.41)
1.5. O desenvolvimento dos estudos de redes sociais
Já o estudo das redes sociais não é novidade no campo científico. Durante
todo o século XX, a observação da evolução da sociedade a partir do conceito de
rede foi um dos focos de mudança que permeou a Ciência. Antes disso, cientistas
já haviam se preocupado em estudar detalhadamente os fenômenos, “na tentativa
de compreender o todo, paradigma frequentemente referenciado como analíticocartesiano” (Recuero, 2009, p.17). No entanto, somente a partir do início do
século passado é que começaram a despontar outros estudos que voltaram-se
principalmente para a interação entre as partes nas redes sociais.
A “Teoria Geral dos Sistemas”, desenvolvida por Ludwig Von Bertalanffy,
nas décadas de 40 e 50, defendia que a perspectiva sistêmica estaria alinhada com
a necessidade da Ciência de observar e compreender os fenômenos não mais
independentes uns dos outros, mas como parte de uma totalidade. “Ou seja, para
entender um fenômeno é necessário observar não apenas suas partes, mas suas
partes em interação” (Recuero, 2009, p.17). Como a “Teoria Geral dos Sistemas”,
diversos outros estudos buscavam sobrepor-se à observação da perspectiva
analítico-cartesiana nessa mesma época. Tanto o surgimento da física quântica, na
década de 20, com a análise das interações nos níveis subatômicos das
30
micropartículas que compunham os átomos, quanto a abordagem da Cibernética,
ainda segundo Recuero, corroboraram, com seus resultados, para a necessidade de
observar os fenômenos inseridos em uma totalidade em que a interação entre as
partes é tão importante quanto o estudo do objeto em si apenas. Essa mudança,
que foi sendo aceita aos poucos pela comunidade científica, permitiu que estudos
mais antigos, como o caso dos estudos de redes iniciados por matemáticos,
recebessem uma revisão sob a ótica da interação entre as partes.
Nesse contexto, “a metáfora da rede foi usada pela primeira vez numa
abordagem do matemático Leonard Euler” (Recuero, 2009, p.19). Em um artigo
publicado em 1736, depois de analisar a estrutura de ligação entre as pontes da
cidade prussiana de Königsberg, como muitas de sua época, localizada em meio a
ilhas no centro do rio Pregolya, ele demonstrou que cruzar as sete pontes que
ligavam a cidade sem jamais repetir um caminho era impossível; para entrar em
uma determinada parte da cidade e sair sem passar pela mesma ponte, seria
necessário que essa parte tivesse, pelo menos, duas pontes. Essa conclusão levou
Euler a criar o primeiro teorema da “Teoria dos Grafos” (Recuero, op. cit.).
Segundo Recuero, um grafo é a representação de uma rede, constituído de
nós e arestas que conectam esses nós. Essa teoria é uma parte da matemática
aplicada que se dedica a estudar as propriedades dos diferentes tipos de grafos,
uma representação de rede que pode ser utilizada por diversos sistemas, como
rotas de vôos de um aeroporto ou estradas de uma cidade, um conjunto de órgãos
e suas interações, as ligações entre os neurônios, entre outros. Foi a partir de então
que a teoria dos grafos e suas implicações receberam força dentro das Ciências
Sociais e deram origem ao que é hoje conhecido como “Análise Estrutural de
Redes Sociais” (Recuero, 2009, p.20). Na abordagem desse tipo de análise, os
grupos de indivíduos estão conectados como rede social, sendo possível, a partir
do teorema dos grafos, “extrair propriedades estruturais e funcionais da
observação empírica” (Recuero, op. cit.)
Na verdade, a abordagem de rede fornece ferramentas únicas para o estudo
aspectos sociais do ciberespaço: permite estudar, por exemplo, a criação
estruturas sociais; suas dinâmicas, tais como a criação de capital social e
manutenção, a emergência da cooperação e da competição; as funções
dos
das
sua
das
31
estruturas e, mesmo, as diferenças entre os variados grupos e seu impacto nos
indivíduos. (Recuero, 2009, p.21)
Recuero aponta que os estudos de rede mereceram maior destaque nas
Ciências Sociais a partir do final da década de 90 e início dos anos 2000, sendo
identificado até em abordagens sobre agrupamentos sociais no ciberespaço. Para a
autora, a construção empírica qualitativa e quantitativa, através da observação
sistemática dos fenômenos, busca “verificar padrões e teorizar sobre os mesmos”
(Recuero, 2009, p.22). “Estudar redes sociais, portanto, é estudar os padrões
expressos no ciberespaço. É explorar uma metáfora estrutural para compreender
elementos dinâmicos e de composição dos grupos sociais” (Recuero, op. cit.).
1.5.1. Elementos das redes sociais
Recuero destaca que nas redes sociais existem elementos característicos que
servem para que elas sejam percebidas e para que as informações a respeito delas
sejam apreendidas. Um desses elementos são os atores, as pessoas envolvidas na
rede que se analisa; o outro, as conexões. Os atores “atuam de forma a moldar as
estruturas sociais através da interação e da constituição de laços sociais”
(Recuero, 2009, p.25). Na comunicação mediada pelo computador, como nos sites
de redes sociais, existe distanciamento físico entre os envolvidos na interação
social, e os atores não são facilmente identificáveis, sendo, por isso, constituídos
de maneira um pouco diferente. Neste caso, trabalha-se com “representações dos
atores sociais ou construções identitárias do ciberespaço” (Recuero, op. cit.). Um
perfil no Facebook, por exemplo, permite que o usuário informe dados como data
de nascimento, instituições de ensino com entrada e saída em cada uma delas,
cargos, atividades e períodos em cada uma das empresas em que trabalhou até
uma descrição pessoal de como se vê, suas preferências musicais, gostos, partidos
entre tantas outras informações. Além disso, o usuário pode criar diferentes álbuns
de fotos, que estarão disponíveis para todos os seus amigos e demais participantes
da rede conforme suas configurações de privacidade 10. São todos esses dados e
informações em textos, fotos, músicas e até vídeos que definem e constroem a
identidade de cada ator no site de rede social. Para esta pesquisa serão observadas
10
O Facebook permite ao usuário escolher quem dentro da sua lista de amigos e demais usuários
fora dela podem ver o que ele publica, quais fotos ou álbuns, os comentários e outras interações no
site. Isso é feito manualmente por cada usuário nas configurações de sua conta.
32
as informações que o Facebook oferece para constituição do perfil dos atores
nessa rede. Veja a Figura 1 abaixo, que representa um perfil no Facebook e as
informações disponibilizadas pelo usuário.
Figura 1. Perfil de usuário no Facebook
De acordo com Recuero, essas plataformas não são necessariamente o ator
em si, e, sim, “representações dos atores sociais, espaços de interação, lugares de
fala construídos pelos atores de forma a expressar elementos de sua personalidade
ou individualidade.” (Recuero, 2009, p.25). Nessas páginas pessoais, também
chamadas de perfil do usuário, em sites de redes sociais, é necessário considerar a
33
característica da expressão pessoal ou pessoalizada na internet, que faz com que
aquele perfil na rede seja identificado como outra pessoa.
Essa característica é fundamental para que o processo comunicativo seja
estabelecido. “Aquele é um espaço do outro no ciberespaço. Esta percepção dá-se
através da construção do site por meio de elementos identitários e de apresentação
de si”. Trata-se de um processo permanente de construção e expressão de
identidade por parte dos atores, que se apropriam dessas ferramentas para marcar
a presença do “eu” no ciberespaço. “Essa individualização da expressão, de
alguém “que fala” através desse espaço é que permite que as redes sociais sejam
expressas na Internet” (Recuero, 2009, p.27).
No Facebook, a construção dessa identidade se dá através das descrições
pessoais que os atores fazem de si mesmo e das informações que disponibilizam
para os demais, como músicas que ouviram, cantores, atores e artistas preferidos,
filmes e vídeos a que já assistiram, lugares para onde viajaram, fotos de lugares
visitados etc. A identidade vai se constituindo com cada parte dessas adicionada
ao seu perfil pessoal e como ele é exibido para os amigos e todos os outros
participantes da rede. Em alguns casos, como será visto nos próximos capítulos,
quando a amizade começou e está restrita ao ambiente dessa rede social, tudo que
os amigos sabem uns dos outros é o que está disponível dentre aquelas
informações e o que costumam compartilhar em comentários, novas fotos,
músicas, lugares visitados etc.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que se trata de um espaço privado,
esses perfis nas redes sociais na internet também estão em um espaço público. De
acordo com Recuero, essa intersecção entre o público e o privado passa a ser uma
conseqüência direta do fenômeno globalizante, que exacerba o individualismo,
como se fosse obrigatório ser “visto” para fazer parte do ciberespaço. “Talvez,
mais do que ser visto, essa visibilidade seja um imperativo para a sociabilidade
mediada pelo computador” (Recuero, 2009, p. 27).
Bauman (2001), ao opor o público e o privado, trata do desaparecimento do
cidadão que vem a ser substituído pelo indivíduo, sendo essa mais uma
conseqüência da modernidade fluida. Enquanto o cidadão busca um espaço para o
34
coletivo, o indivíduo pensa apenas em satisfazer seus próprios interesses. Nesse
sentido, o indivíduo ocupa o espaço público com suas preocupações, afirmando-as
como legítimas para estarem nessa posição.
O “público” é colonizado pelo “privado”; o “interesse público” é reduzido à
curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é
reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissão de sentimentos
privados (quanto mais íntimos, melhor) (BAUMAN, 2001, p.46)
Na modernidade fluida, todos os dias os indivíduos excursionam pelos
espaços públicos, afirma Bauman, e dali veem reforçadas suas individualidades,
certos de que, como ele, todos os demais levam a vida do mesmo modo, “dão seus
próprios tropeços e sofrem suas (talvez transitórias) derrotas no processo”
(Bauman, 2001, p.50). Segundo o autor, para esse indivíduo, o espaço público é
como uma tela gigante em que se projetam as aflições privadas incessantemente,
“sem deixarem de ser privadas ou adquirirem novas qualidades coletivas no
processo da ampliação: o espaço público é onde se faz a confissão dos segredos e
intimidades privadas” (Bauman, 2001, p.49).
Esse é um ponto importante desta pesquisa, pois a questão entre público e
privado é um tema delicado para os participantes dos sites de redes sociais. Estes
facilitam a exposição privada através de diversos recursos, e muitos dos usuários
ainda têm dúvidas sobre o que deve ou o que pode ser controlado nesses espaços
públicos. Mas a exposição excessiva, compartilhar momentos íntimos e as
divergências de opiniões entre os amigos sobre o que deve ou não ser mostrado ali
também deve ser analisado dentro de um possível código da amizade nesse
ambiente, visto que, como ainda não são comuns ou partilhados por todos da
mesma maneira, podem gerar atritos entre os amigos conectados na rede. Por
exemplo: o Facebook permite que uma foto seja mostrada para a rede,
compartilhada por um usuário, indicando quem são as pessoas que estão nela
através de um link para a página pessoal daqueles participantes que aparecem
nela. Porém, durante a pesquisa de campo, foi destacado por alguns entrevistados
que fotos antigas ou de momentos particulares em que são marcados – como se
chama a indicação do amigo naquela foto – podem se tornar um problema, já que
todos os amigos daquela pessoa marcada verão a mesma foto. E dependendo do
que está sendo exposto na foto, aquilo pode causar, entre outras conseqüências,
35
constrangimento. E dessa insatisfação com o amigo que postou e marcou os
demais na foto é que podem surgir conflitos tanto online, ainda na rede, ou
offline, quando os usuários se encontram. Marcar amigos em fotos íntimas, ou em
qualquer tipo de foto, expostas publicamente, pode interferir na relação entre dois
amigos, uma conseqüência dessa interação mediada pelo computador, num site de
rede social. Existiria um código para compreender essa dinâmica? Ou uma
combinação de códigos ainda em definição?
Para Recuero (2009), essa é a razão da importância de se compreender como
os atores constroem esses espaços de expressão, pois é através dessas percepções
que padrões de conexões são gerados. Nesta pesquisa serão levantadas hipóteses
a respeito de como a linguagem e as características das conexões entre os
participantes nas redes sociais online podem estar diretamente ligadas a alguns
dos conhecidos códigos do sentimento amizade.
Ao mesmo tempo um sentimento e um tipo de relação, como afirma
Rezende, “concebida e praticada com significados, normas e valores
culturalmente definidos” (Rezende, 2010, p.74), a amizade poderia estar
recebendo influências das interações através das conexões nos sites de redes
sociais ou sendo, em alguns aspectos, modificada por elas. O significado e o valor
de um amigo, as práticas sociais que caracterizam a amizade, as formas de se
comunicar, esses e outros elementos da relação podem estar sendo repetidos no
online, como é hoje no offline, recebendo novos códigos por influência desse
novo ambiente de interação, ou alguns deles sendo substituídos por novos
significados por causa da interação mediada pelo computador, uma das hipóteses
desta pesquisa. Não se trata aqui, porém, de comparar online e offline, mas de se
buscar compreender de que forma as interações num ambiente de comunicação
mediada por computadores estão ocupando um lugar na expressão da amizade.
O outro elemento característico das redes sociais são as conexões, que são
constituídas, de acordo com Recuero, pelos laços sociais que ligam os atores uns
aos outros, a interação social entre eles. Para a autora, as conexões são tão
importantes num estudo sobre redes sociais porque a variação delas é que provoca
36
alterações nas estruturas dos grupos de atores sociais. Na concepção da autora, as
conexões são formadas por interação, relação e laços sociais.
Nos estudos de redes sociais, a interação, “matéria-prima das relações e dos
laços sociais” (Recuero, 2009, p.30), implica reciprocidade entre os envolvidos no
contato e “compreende também as intenções e atuações de cada um”. Logo, estão
diretamente relacionadas aos atores sociais, são parte das percepções, influências
e motivações particulares a partir de tudo que os cercam. “A interação é, portanto,
aquela ação que tem um reflexo comunicativo entre o indivíduo e seus pares,
como reflexo social” (Recuero, 2009, p.31), atuando sobre o tipo de relação entre
os envolvidos na interação.
Estudar a interação social compreende, deste modo, estudar a comunicação entre os
atores. Estudar as relações entre suas trocas de mensagens e o sentido das mesmas,
estudar como as trocas sociais dependem, essencialmente, das trocas
comunicativas. (Recuero, 2009, p.31)
No ciberespaço, a interação sofre a influência da mediação pelo computador
e das ferramentas de comunicação, que possuem particularidades a respeito dos
processos de interação. Para Recuero, a primeira delas é que os “atores não se
conhecem, nem há sinais da linguagem não verbal, nem da interpretação do
contexto da interação, tudo é realizado através da mediação do computador”
(Recuero, 2009, p.32). Além disso, as possibilidades de comunicação através das
ferramentas utilizadas pelos atores, a multiplicidade delas e o fato de permitirem
que a interação permaneça mesmo depois de o ator estar desconectado são fatores
relevantes para a interação no ciberespaço, pois permitem, por exemplo, que se
criem interações assíncronas. No Facebook, um texto escrito na página pessoal de
qualquer usuário pode ser lido e comentado a todo tempo, e o histórico desses
comentários nunca é excluído, a não ser que o proprietário da página opte por
isso.
As situações citadas acima poderiam descaracterizar o que para Goffman
(2008) seria a interação, para quem ela deveria ocorrer a partir de alguns
requisitos, dentre eles sinais que informam os emissores de que está havendo a
recepção, de que está havendo a busca de um canal ou de que um canal está
aberto. Alguns desses requisitos podem ser questionados na internet, mas são logo
superados por um recurso do próprio Facebook e que também é uma ferramenta
37
de comunicação muito comum nos ambientes de mediação pelo computador: o
bate-papo. Nele, os participantes conseguem saber quantos e quais de seus amigos
estão online em um determinado momento, um sinal de que há um canal aberto
com emissores aptos à interação. Além disso, para Braga, a interação online traz
consigo algumas características particulares que merecem atenção, entre elas “o
uso de atalhos lingüísticos, siglas, emoticons, imitação de sons com letras etc”
(Braga, 2008, p.93), que serviriam como uma tentativa de simular expressões nãoverbais existentes em outros contextos.
A interação social, no âmbito do ciberespaço, pode dar-se de forma síncrona ou
assíncrona, segundo Reid (1991). Essa diferença remonta à diferença de construção
temporal causada pela mediação, atuando na expectativa de resposta de uma
mensagem. Uma comunicação síncrona é aquela que simula uma interação no
tempo real. Deste modo, os agentes envolvidos têm uma expectativa de resposta
imediata ou quase imediata, estão ambos presentes (on-line, através da mediação
do computador) no mesmo momento temporal. (...) Já o email, ou um fórum, por
exemplo, têm características mais assíncronas, pois a expectativa de resposta não é
imediata. Espera-se que o ator, por não estar presente no momento temporal da
interação, possa respondê-la depois. (Recuero, 2009, p. 32)
Sobre essa divisão entre os tipos de interação social, Primo (2007) propõe
outra tipologia para o estudo da interação mediada pelo computador, a partir de
uma abordagem sistêmico-relacional. De acordo com a observação do
relacionamento entre os participantes, lista dois tipos de interação: “mútua” e
“reativa”.
A interação mútua é aquela caracterizada por relações interdependentes e processos
de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e
cooperada do relacionamento, afetando-se mutuamente; já a interação reativa é
limitada por relações determinísticas de estímulo e resposta (PRIMO, 2007, p.57).
Numa discussão através de e-mail, numa conversa num chat e nos
comentários das publicações no Facebook, os participantes agem uns sobre os
outros, mutuamente, durante o processo, e o relacionamento que emerge entre eles
vai sendo recriado a cada intercâmbio, negociado durante a interação. Já no caso
de clicar num link ou jogar um game, chamadas então de interações “reativas”,
essas são limitadas por certas determinações; significa que se a mesma ação fosse
feita uma segunda vez, mesmo que por outro interagente, não causaria um efeito
diferente. No caso de clicar em um link, por exemplo, o ator tem apenas a opção
38
de escolher entre clicar ou não, mas não conseguirá alterar o local para onde
aquele link aponta.
Recuero (2009) conclui que seria possível imaginar que a interação mediada
pelo computador será sempre mútua, dialógica, mas demonstra a possibilidade de
se encontrar em uma mesma ferramenta de comunicação na internet ambos os
tipos de interação atuando sobre as relações, como será observado no site de rede
social escolhido para observação nesta pesquisa, o Facebook. Ele tem, em grande
parte, interações desse tipo, mútuas, com interferências dos indivíduos uns sobre
os outros. Cada usuário com um perfil nessa rede social pode informar a seus
contatos, também chamados de amigos, através de mensagens de texto, links,
vídeos e fotos, desde o que está sentindo, onde está, o que está fazendo, com
quem está, suas preferências – musicais, políticas, religiosas, sexuais, entre outras
– uma opinião a respeito de qualquer assunto etc e essa mensagem ser comentada
e até compartilhada por todos aqueles que estão conectados a sua rede. Essa
interação acontece a todo instante e envolve tanto quem publicou a mensagem
quanto quem está interagindo com ela, pois dos comentários feitos na mensagem
vão sendo feitos mais comentários e as pessoas passam a debater sobre o que é
dito ao longo do tempo, exatamente como é caracterizada uma interação mútua.
Veja a seguir um exemplo de como ocorre essa interação.
39
Figura 2. Interação entre usuários no Facebook
40
Já a interação chamada por Primo de “reativa” será percebida quando
analisada a maneira como os atores sociais criam as conexões de amizade no
Facebook, clicando num botão (ou link) que permite aceitar ou recusar um amigo.
Para Recuero (2009), embora estas interações não sejam mútuas, elas têm impacto
social, já que deixam também seus reflexos nos dois lados da relação
comunicativa. Se alguém aceita ser amigo de outra pessoa no Facebook, o
primeiro reflexo no sistema é que ambos passam a ter mais uma conexão; no
indivíduo, aceitar a amizade se reflete sobre o fato de que ambos os interagentes
terão mais um amigo, que terá acesso a seus dados pessoais e com quem poderá
trocar mensagens.
O que há de similar entre as classificações feitas por Recuero (2009) e
Primo (2007) é que, em ambos os casos, os rastros deixados pelos atores nas redes
sociais servem para a investigação de suas conexões e estruturas de redes. Isso
porque não são apagados e podem durar por tempo indeterminado, facilitando o
trabalho do pesquisador no levantamento e descrição do comportamento deles
através da interação mediada pelo computador, mostrando até mesmo de que
forma mantêm e constroem os laços sociais no ciberespaço.
Mas, além de a interação se configurar como a comunicação entre os atores
e as trocas entre eles, ela também pode dar pistas do tipo de relação que possuem.
A interação vai sendo construída quando, por exemplo, uma pessoa publica uma
mensagem em sua página pessoal no Facebook, disponível para leitura por
aqueles que estão ligados a sua conexão, e surgem ali comentários com opiniões
diferentes, que vão sendo estendidos como numa conversa e que, num processo
assíncrono, pode até ser prolongada por alguns dias. Desenvolve-se um diálogo,
com retorno e opiniões diferentes, identificação dos atores, “interação com base
na percepção dos demais atores e da discussão e também a negociação da
interação, direcionamento e construção das conexões sociais” (Recuero, 2009,
p.35). Por fim, Recuero destaca que a interação mediada pelo computador “é
também geradora e mantenedora de relações complexas e de tipos de valores que
constroem e mantêm as redes sociais na Internet” (Recuero, 2009, p.36) Para a
autora, são as relações sociais geradas nesse caso que irão criar os laços sociais.
41
O objeto principal de análise em uma rede social seria a relação, segundo
Recuero. Essa relação envolve uma grande quantidade e tipos diferentes de
interações, desde aquelas capazes de construir ou acrescentar algo, até as relações
conflituosas e as que podem diminuir a força do laço social. Além disso, a autora
afirma que a idéia de relação social é independente do seu conteúdo, pois este se
constitui do que é trocado nas mensagens entre dois indivíduos e auxilia a definir
a relação. Mas o que é definido a partir dessa troca comunicacional seria a
interação, que é importante não confundir com a relação, pois esta pode ter
conteúdos variados.
A relação mediada pelo computador, assim como a interação, pode ter
características próprias e acrescentar aspectos importantes para a relação social, já
que essa mediação está sujeita à limitações contextuais, como o distanciamento
entre as pessoas envolvidas, o que pode alterar a forma através da qual a relação
social passa a ser estabelecida. Recuero cita como conseqüências disso, por
exemplo, a facilidade maior de iniciar e terminar relações, já que “não envolvem o
‘eu’ físico do ator”; a possibilidade de criar um novo sujeito no ciberespaço, já
que “barreiras como sexualidade, cor, limitações físicas e outras não são
imediatamente dadas a conhecer” (Recuero, 2009, p.37); a influência que a
utilização da linguagem não-verbal nessas interações pode provocar nas relações.
Desse modo, conclui a autora,
o laço social é a efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos na interação.
Ele é resultado da sedimentação das relações estabelecidas entre agentes. Laços são
formas mais institucionalizadas de conexão entre atores, constituídos no tempo e
através da interação social (RECUERO, 2009, p.38)
Por fim, Recuero afirma ainda que o desenvolvimento tecnológico também
proporcionou uma flexibilidade na manutenção de laços sociais, “uma vez que
permitiu que eles fossem dispersos espacialmente.”(Recuero, 2009, p.44). Isso
significa que a comunicação mediada pelo computador apresentou às pessoas
maneiras de manter laços sociais fortes, através de ferramentas de comunicação,
como Skype, Messenger, chats 11, e-mails, redes sociais, mesmo quando estão
11
Skype: é um software que permite comunicação pela internet através de conexões de voz sobre
IP (VoiP); Messenger: é um programa de mensagens instantâneas criado pela Microsoft
Corporation, que permite que um usuário da internet se relacione com outro que tenha o mesmo
programa em tempo real, podendo ter uma lista de amigos "virtuais" e acompanhar quando eles
42
separadas por longas distâncias. “Esses novos espaços de interação acabaram
provocando a desterritorialização dos laços” (Recuero, 2009, p.44).
Definidas a interação e a relação, a seguir será apresentado como a
expressão dos sentimentos, especificamente a amizade, se relaciona com esses
conceitos e de que forma faz sentido analisar a combinação dessas partes para
compreender os códigos, explícitos ou não, num site de rede social.
1.6. Abordagem relacional da interação e a antropologia das
emoções
Primo afirma que é comum observar a interação como simples transmissão
de informações, igualando cognição e computador, comportamento humano e
funcionamento informático. “Porém, interagir não é algo que alguém faz sozinho,
em um vácuo. Comunicar não é sinônimo de transmitir. Aprender não é receber”
(Primo, 2007, p.71). Interação é um processo no qual o sujeito se engaja, em que a
relação dinâmica desenvolvida entre as partes tem como característica
transformadora a recursividade. “E para que isso seja compreendido, é preciso
observar o próprio conhecer como relação” (Primo, op. cit.).
“Estudar a interação humana é reconhecer os interagentes como seres vivos
pensantes e criativos na relação” (Primo, 2007, p.72), por isso é preciso levar em
consideração também o conhecimento do indivíduo, que depende de seu contínuo
aprendizado em relação ao meio em que vive. Sujeito e cultura estão sempre
juntos, assim como os seus pares ou opositores, a política, crenças religiosas, ou a
ausência delas, a linguagem, as instituições, entre outras instâncias.
Para ilustrar que uma relação jamais tem sentido único, o autor traz o
seguinte exemplo: “João não é amigo de Pedro sem Pedro ser amigo de João. A
amizade só existe quando os dois têm amizade recíproca um para com o outro.
Dessa maneira, a amizade não estaria nem no Pedro, nem no João, mas na relação
que existe entre os dois” (Primo, 2007, p.86)
entram e saem da rede; chats: um chat, que em português significa conversação, ou bate-papo é
um neologismo para designar aplicações de conversação em tempo real. Esta definição inclui
programas de IRC, conversação em sítio web ou mensageiros instantâneos. Fonte: Wikipedia:
www.wikipedia.org
43
(...) Para se estudar a amizade entre duas pessoas, por exemplo, não basta querer
estudá-las em separado, pois o relacionamento que as une é diferente da mera soma
de suas características individuais. O relacionamento vai ganhando uma “forma”,
configurando um “padrão” que se atualiza durante a interação e modifica seus
participantes (Primo, 2007, p.80)
Considerando que, sob o aspecto sistêmico-relacional, como abordado por
Primo (2007), a análise das interações humanas precisa levar em conta as relações
com o meio e que os conceitos de emoção implicam negociações sobre vários
aspectos da vida social, de acordo com Rezende (2010), não se pode desprezar,
para esta análise, a influência das emoções agindo diretamente sobre a interação.
Dessa forma, segundo a autora, as emoções podem ser consideradas como o
idioma que define e negocia a relação social entre as pessoas. Rezende afirma que,
além disso, aqueles conceitos de emoção devem “ser vistos como elementos de
práticas ideológicas locais” (Rezende, 2010, p.14).
Mauss (1980) demonstra que a expressão dos sentimentos é ritualizada por
momentos demarcados e que obedece a uma gramática; “que o indivíduo
comunica aos outros aquilo que sente em um código comum, nesse movimento
comunicando também a si mesmo suas emoções” (Rezende, 2010, p.48). Essa
concepção de gramática, envolvida com o rito e a coletividade da expressão dos
sentimentos, está, para Mauss, diretamente relacionada ao que Durkheim (1984),
na concepção do seu projeto para a antropologia das emoções, denominou “fato
social”. Este seria o que “existe fora das consciências individuais, sendo capaz de
exercer uma ação coercitiva sobre a vontade individual” (Rezende, 2010, p.46).
No entanto, o “fato social”, de natureza ritualizada e coletiva da expressão dos
sentimentos, não impediria que eles fossem também espontâneos por serem
vivenciados por quem os expressa.
Rezende (2010) afirma que o estudo antropológico das emoções passou a
enfatizar o elemento do contexto em que se manifestam os conceitos emotivos,
buscando ir além das relativizações para analisar sob um ponto de vista
pragmático as situações sociais específicas em que eles são expressos. E que a
principal preocupação dessa abordagem é mostrar como o próprio significado
varia dentro de um mesmo grupo social, dependendo das circunstâncias em que se
manifestam e atentar para as conseqüências da expressão dos sentimentos nas
44
relações sociais e de poder. Para a autora, é a partir daquela perspectiva de Mauss
que surge um modelo teórico para situar as emoções como objeto das Ciências
Sociais e “da percepção ocidental moderna das emoções como provenientes do
íntimo de cada um”, contrapondo a representação delas como algo “histórica,
social e culturalmente configurado” (Rezende, 2010, p.49)
A amizade, relacionada ao objeto de estudo desta pesquisa, e as demais
emoções, segundo Rezende, “tornam-se parte de esquemas ou padrões de ação
aprendidos em interação com o ambiente social e cultural, que são internalizados
no início da infância e acionados de acordo com cada contexto” (Rezende, 2010,
p.30). Ela explica que, desde cedo, se aprende como, quando e com quem
expressar os sentimentos, como um aprendizado emocional, que, “por ser
internalizado muito cedo, deixa de ser percebido como uma forma controlada de
viver os sentimentos” (Rezende, 2010, p.31). Assim, as pessoas aprendem regras
explícitas de emoções que devem ser manifestadas em algumas ocasiões
conhecidas. Porém, quando essas regras não são evidentes, sentem-se à vontade
para expressar-se com espontaneidade. Essa afirmação pode ser diretamente
relacionada com os espaços nos sites de redes sociais, onde as pessoas ainda não
compartilham de regras comuns, orientações, direções de comportamento e, por
isso mesmo, fazem deles espaços de diferentes tipos de uso. A questão que pode
aproximar ou afastar os amigos conectados nessa rede é a reciprocidade entre eles
sobre o que é compartilhado. Enquanto em alguns casos, as trocas são aprovadas e
retribuídas, em outros, podem provocar conflitos e interferir nas relações online e
offline dos participantes.
Trazendo a amizade para o contexto das trocas comunicacionais, ou seja, as
interações nos sites de redes sociais, observa-se como a expressão dos sentimentos
e as trocas entre as pessoas estão se constituindo com símbolos específicos dos
ambientes de comunicação mediada pelo computador e, ao mesmo tempo,
contribuindo para a manutenção dos laços existentes entre os indivíduos, ainda
que eles estejam separados fisicamente, como descrito anteriormente. Para citar
um exemplo, o Facebook destaca o dia do aniversário de seus usuários e lembra
aos amigos conectados a eles para escrever uma mensagem de felicitações pela
data. Trata-se ao mesmo tempo de um recurso de uma ferramenta que faz lembrar
45
o dia do aniversário de um amigo, assim como afasta a noção de tempo quando
deixa disponível para que a qualquer instante você possa ir até a página pessoal do
aniversariante e escrever-lhe uma mensagem, sem se preocupar em encontrar
durante o dia um momento exato ou mais propício para falar com ele. A
retribuição daquele que recebe a mensagem pode se dar através de outra opção da
ferramenta chamada de “curtir”. Seria como um agradecimento do aniversariante
à mensagem enviada pelo amigo.
Também Mauss (1974) observou este fenômeno de reciprocidade entre dois
indivíduos e identificou que a dádiva é o que os conecta nessa ocasião. Para ele, a
constituição da vida social é formada por um constante dar e receber, obrigações
organizadas de modo particular em cada caso, trocas concebidas e praticadas nos
diferentes tempos e lugares. Para o antropólogo Mauss, a dádiva aproxima e torna
os indivíduos semelhantes, seria um ato simultaneamente espontâneo e
obrigatório. E não existiria a dádiva sem a expectativa de retribuição.
Sob esses dois aspectos – uma gramática dos sentimentos e a reciprocidade
na dádiva – é que essa pesquisa deve avançar e se constituir. Tanto a abordagem
sistêmico-relacional da interação humana mediada pelo computador quanto o
estudo antropológico das emoções irão nortear esta reflexão que busca
compreender as relações de amizade entre os indivíduos a partir de um site de
rede social. Em ambos os casos, o foco da análise está na interação entre as partes
e destas com o meio e o contexto, considerando que esses últimos também podem
interferir nos relacionamentos entre os indivíduos, ou seja, assim como sofrem a
ação, podem também provocar uma ação ou reação. Serão abordados tanto os
aspectos que valorizam os processos interativos mediados pelo computador em
sua complexidade, quanto a existência de regras de expressão do sentimento da
amizade, que afetam sua manifestação de acordo com os contextos sociais e as
diferenças entre as sociedades. No caso específico desta pesquisa será tomado
para estudo o contexto social brasileiro.
Nos sites de redes sociais, as pessoas são percebidas por aquilo que
expressam, e essa percepção é essencial para a interação humana, aponta Recuero
(2009). Para isso usam palavras, constituídas como expressões de alguém,
46
legitimadas pelos grupos sociais, que também podem representar sentimentos,
seja através de um comentário, uma imagem, uma música ou um link. Ali são
expostos os gostos, as paixões e os ódios dos atores sociais. E ferramentas como o
Facebook são apropriadas como formas de expressão do self, espaços do ator
social, percebidas pelos demais como tal.
Nos próximos capítulos, a reflexão se dará em torno da expressão dos
sentimentos, especificamente no caso desta pesquisa, a amizade, a partir da
estrutura de um site de redes sociais e das conexões entre os atores sociais na
interação mediada pelo computador sob o aspecto sistêmico-relacional. O
problema central desta pesquisa reside sobre a questão da linguagem citada por
Mauss (1980) como uma gramática comum na expressão dos sentimentos: se essa
linguagem é compreendida porque é comum a todos que dela compartilham, em
um site de redes sociais, de que forma ela estaria se construindo e quais os
códigos comuns observados nesses ambientes para a relação de amizade? Se, do
contrário, esses códigos ainda não são conhecidos e são diferentes do ambiente
offline, de que forma estão se constituindo e como deverão ser compreendidos?
47
2. Facebook: metodologias aplicadas à interação em um
site de rede social
No dia-a-dia, na linguagem mais informal usada para se referir ao Facebook,
as pessoas o chamam de site de relacionamentos. Para a análise desta pesquisa, ele
está enquadrado, dentro dos estudos de redes sociais, como Site de Rede Social
(SRS). Mas, na verdade, o Facebook está se tornando aquilo que as pessoas fazem
dele, é definido pelas conexões entre os participantes (amigos, contatos, parentes,
colegas etc) e pelo que é compartilhado na rede, que fica visível para toda sua lista
de “amigos”, como se você estivesse conversando com uma grande plateia. Ainda
há muitas dúvidas sobre o que conversar nesse espaço: expor sentimentos, mostrar
suas fotos, contar todos os seus passos em um dia, reclamar? Cada um dá ao
Facebook o destino que mais lhe convém, mas a questão sobre a qual se coloca o
foco desta análise é buscar compreender como isso tudo que pode ser
compartilhado entre os participantes, “amigos”, tem relação direta com a amizade.
2.1. Do que é feito um site de rede social
Nesta pesquisa, as interações em um site de rede social permitiram observar
parte das hipóteses levantadas aqui. As redes sociais, como descritas no capítulo
anterior, são compostas por atores e conexões. Na comunicação mediada pelo
computador, os sites de redes sociais “(SRSs)” (Recuero, 2009, p.102) são
ferramentas apropriadas pelos atores, sendo um deles o Facebook, utilizado para
captar essas interações e permitir o avanço sobre os objetivos da pesquisa.
Boyd & Ellison (2007 apud Recuero, 2009, p.102) definiram sites de redes
sociais como sistemas que permitem: “i) a construção de uma persona através de
um perfil ou página pessoal; ii) a interação através de comentários; iii) a
exposição pública da rede social de cada ator” (Recuero, 2009, p.102). Nesse
sentido, como outras ferramentas, os sites de redes sociais cumprem seu papel
para a comunicação através do computador, mas, segundo as autoras, a diferença
deles para as demais é “o modo como permitem a visibilidade e a articulação das
redes sociais, a manutenção dos laços sociais estabelecidos no espaço off-line”
(Recuero, 2009, p.103). Recuero destaca que é importante salientar que os sites de
redes sociais não são necessariamente redes sociais, cumprem mais o papel de
48
suporte para as interações que constituem as redes sociais. “Eles podem apresentálas, auxiliar a percebê-las, mas é importante salientar que são, em si, apenas
sistemas. São os atores sociais, que utilizam essas redes, que constituem essas
redes.” (Recuero, 2009, p.103).
Segundo a autora, os sites de redes sociais dividem-se entre “estruturados” e
“apropriados”. Os primeiros são focados em expor e publicar a rede social dos
atores, como o Facebook e o Orkut, por exemplo. Já os apropriados, não surgem
com essa finalidade, mas em determinado momento podem ser utilizados dessa
maneira, como fotologs e Twitter 12. No caso desta pesquisa, a observação das
interações se deu sobre um site de rede social estruturado, “cujo foco principal
está na exposição pública das redes conectadas aos atores, ou seja, cuja finalidade
está relacionada à publicização dessas redes.” (Ibid., p.104)
São sistemas onde há perfis e há espaços específicos para a publicização das
conexões com os indivíduos. Em geral, esses sites são focados em ampliar e
complexificar essas redes, mas apenas isso. O uso do site está voltado para esses
elementos, e o surgimento dessas redes é conseqüência direta desse uso. (...) Toda a
interação está, portanto, focada na publicização dessas redes. (Recuero, 2009,
p.104).
O Facebook nasceu como “thefacebook.com”, um sistema criado pelo
americano Mark Zuckerberg, aluno de Harvard, em 2004. Seu objetivo inicial era
atrair alunos que estavam saindo do ensino secundário (High School, nos Estados
Unidos) e os que estavam entrando na universidade. Isso porque, nos Estados
Unidos, essa é uma fase em que, geralmente, o estudante sai de casa e muda de
cidade, o que pode significar também uma mudança em torno das suas relações
sociais. O Facebook serviria como uma ferramenta para criar uma nova rede de
contatos nesse momento da vida desses estudantes. O site começou disponível
apenas para alunos de algumas escolas e colégios, sendo a primeira delas Harvard.
Aos poucos, foi sendo aberto para escolas secundárias.
Dados divulgados em janeiro de 2012 13 comprovam que o Facebook recebe
451 novos adeptos a cada minuto. Até esse mês, a quantidade total de usuários do
12
www.twitter.com
13
Facebook Continues its Global Dominance, Claiming the Lead in Brazil. Disponível em:
http://blog.comscore.com/2012/01/facebook_brazil.html. Acesso em 07/02/2012
49
site chegou a oitocentos e quarenta e cinco milhões em todo o mundo, com
exceção da China, onde o site é bloqueado pelo governo. A previsão é de que até
agosto de 2012 o Facebook alcance a marca de um bilhão de usuários, ou seja,
uma em cada sete pessoas da população mundial.
Esses mesmos dados ainda mostram que nos Estados Unidos e na Índia, de
todos os seus habitantes com acesso à internet, mais de 80% possuem uma conta
ativa no Facebook. No Brasil, de cada 100 brasileiros conectados à internet, 75
deles estão nesse site de rede social. O país triplicou, em 2011, a quantidade de
usuários nesse site, chegando a trinta e seis milhões de inscritos. Mais do que isso,
o brasileiro que passava, em média, trinta e sente minutos dentro dele, agora passa
até cinco horas por dia.
Diante dessas estatísticas, Miller (2011) considera relevante avaliar os
impactos das redes sociais sobre as pessoas. O autor quer buscar algumas
respostas tentando compreender de que forma a vida delas vem sendo modificada
pela experiência de uso do Facebook; como isso impacta as relações com as
pessoas que realmente importam para cada um; como isso muda a maneira como
vemos a nós mesmos e por que as pessoas estão aparentemente despreocupadas
com a perda da privacidade em sites como esse. Ele acredita que há boas razões
para ver o Facebook através de uma ótica antropológica.
Para o autor, a primeira razão é que uma das definições desse campo das
Ciências Sociais é a de que, enquanto outras disciplinas tratam as pessoas como
indivíduos, a Antropologia sempre as tratou como parte de uma rede mais ampla
de relacionamentos. Em seguida, ele explica que, antes da invenção da internet,
para a Antropologia, os indivíduos já eram vistos como participantes de uma rede
social. Portanto, uma inovação tecnológica como o Facebook, que permita
conectá-los em rede, deve ser obviamente de grande interesse para um
antropólogo. Miller destaca ainda que em uma das conferências realizadas para
anunciar novidades sobre o site, em abril de 2010, Mark Zuckerberg afirmou:
“estamos construindo uma internet em que o padrão é social” (Miller, 2011, p.X).
Com isso, o autor considera que, frente às previsões de um século em que a
participação em comunidades e as relações sociais estariam em declínio, as
50
previsões de Zuckerberg soam surpreendentes e particularmente relevantes para o
futuro da antropologia.
É com base nas mesmas expectativas de Miller que esta pesquisa avança
sobre a interação e a relação social dos usuários do Facebook, que permitem
vislumbrar, a cada dia, novas ou antigas formas de expressão dos sentimentos,
como a amizade, objeto central desta análise. Sob a ótica antropológica e de
métodos de pesquisa combinados, como a etnografia, a netnografia, a observação
não-participante e as pesquisas em profundidade, serão apresentados alguns
aspectos do comportamento dos indivíduos relacionados à amizade no ambiente
de um site de rede social, onde a conexão entre dois atores é também chamada,
como no Facebook, amizade.
2.2. Metodologia da pesquisa
Entre os métodos de pesquisa para os ambientes em que a comunicação é
mediada pelo computador, como os sites de redes sociais, aquele que mais
aproximou adequação e eficácia a este caso foi o método etnográfico. Braga
explica que
a aplicação de técnicas de inspiração etnográfica, investindo em observação direta
para coleta de dados e registros de diário de campo, seleção de informantes para
aplicação de entrevistas abertas visa à construção de um relato acerca de uma
situação comunicacional de âmbito microscópico, em que interessa a
circunstancialidade, o ocorrido. (Braga, 2008, p.87)
Fragoso et al. (2011) atestam que, desde o surgimento da internet e das
comunidades virtuais que foram criadas em consequência da facilidade da
comunicação em rede, alguns pesquisadores admitiram a utilização das técnicas
de pesquisa etnográficas para estudar as culturas e as comunidades online,
“fossem elas derivadas de grupos sociais já constituídos no offline e que, neste
momento, migram e/ou transitam entre esses espaços ou mesmo formações sociais
compostas apenas por relações sociais online.” (Fragoso et. al., 2011 p.171). As
autoras explicam ainda que a adoção desse método para a investigação nos
ambientes da comunicação mediada pelo computador não foi de consenso geral
entre os pesquisadores, pois para uma parte deles, o que se constituíam
características primárias do método, como deslocar-se, lidar com o estranhamento,
51
‘ir a campo’, “tão decisivos na formação do olhar interpretativo pareciam ter se
esvaído frente a uma possível dissolução espaço-temporal advinda das tecnologias
de comunicação e informação.” (Fragoso et. al., 2011, p.171).
Desta forma, é assumida nesta pesquisa a mesma perspectiva daquelas
autoras para o uso do termo “etnografia” no estudo sobre internet ou nos objetos
recortados a partir dela, como das ferramentas apropriadas pelos atores nos sites
de redes sociais e suas interações. O conceito das técnicas desse método de
pesquisa pode ser retomado “desde que tais diferenças em termos de coleta de
dados e de observação sejam descritas e problematizadas em suas distintas fases,
com indicações das variações entre os níveis online e offline.” (Fragoso et. al.,
p.178).
O cuidado que deve ser tomado em relação às descrições que incidem sobre
o desenho e planejamento do método da pesquisa, nas quais as diferenças entre
online e offline devem ser mantidas estão relacionadas
tanto em relação aos usos e apropriações de formas diferentes que são feitos pelos
informantes, pelo recorte do objeto e o delineamento do campo, pela coleta de
dados e mesmo pelos níveis de engajamento e relacionamento do pesquisador com
a comunidade. As diferenças, sejam elas sutis ou intensas, entre uma entrevista
realizada presencialmente e uma entrevista conduzida por e-mail ou ferramentas de
conversação como o MSN ou Skype devem ser incluídas na narrativa etnográfica
que será construída ao longo da pesquisa. O refinamento das análises sofrerá
influências que podem ser significativas e, nesse sentido, devem ser respeitados os
planos online e offline (Fragoso et al., 2011, p.178).
No entanto, nesses ambientes, de acordo com Braga, a interação demanda
dos participantes improvisação diante de situações desconhecidas e existe a
possibilidade de códigos novos na interação com outros participantes. Para a
autora, geralmente eles tentam adaptar modelos de outros contextos interacionais
para experimentar ou, ao mesmo tempo, podem criar regras para relações em
ambientes específicos. Por esse motivo, o pesquisador também precisa estar atento
a essa particularidade para realizar combinações e adequações de métodos de
investigação de materiais específicos. Além disso, no ambiente da internet, alerta
a autora, ao se afastar das práticas comunicacionais vividas pelos indivíduos, um
dos riscos que se corre na escolha desse método de pesquisa é “o de produzir uma
teoria estipulativa que se baseia mais na potencialidade oferecida pela tecnologia
52
disponível na Internet como meio de comunicação do que em seus usos
concretos.” (Braga, 2008, p.84). Por esses motivos, junto às aplicações pertinentes
ao método etnográfico para esta pesquisa, também foram combinados alguns
outros aportes metodológicos que serão justificados a seguir.
Com a compreensão de como está estruturado, qual sua principal finalidade
e como os atores agem dentro de um site de rede social, esta pesquisa seguiu em
direção à observação não-participante no Facebook. O grande desafio de
pesquisas como esta, que envolvem o ambiente da comunicação mediada pelo
computador, é o modo peculiar de interação na internet, em que se faz necessário
adaptar a técnica etnográfica, que “foi concebida e historicamente aplicada a
grupos sociais em interação face a face com o/a etnógrafo/a, que fazia da sua
experiência uma fonte de dados.” (Braga, 2008, p.87). Sendo assim, a questão que
se colocou a partir daí foi: como realizar uma observação não-participante sob os
métodos da etnografia?
A direção a seguir a partir deste ponto baseou-se no método aplicado por
Braga (2008) em sua pesquisa sobre as interações em blogs. Da necessidade de
observar dentro desses novos espaços de interação na internet, surge a
combinação entre métodos de pesquisa estabelecidos, como a etnografia, e novos,
como a chamada observação não-participante, prática também denominada como
lurking, cuja tradução literal é ficar à espreita. “(...) os ambientes interacionais da
CMC caracterizam-se pela ausência física das/os visitantes, sendo possível tornarse invisível.” (Braga, 2008, p.88).
A peculiaridade dessa prática permite ao pesquisador ver sem ser visto e não
interferir na dinâmica da interação observada. E é essa participação no grupo,
ainda que invisível, que
irá viabilizar a apreensão de aspectos daquela cultura possibilitando a elaboração
posterior de uma descrição densa, que demanda uma compreensão detalhada dos
significados compartilhados por seus/suas participantes e da rede de significação
em questão. (Braga, 2008, p.88)
Para Braga, lurking é uma participação peculiar e está nessa especificidade o
objeto central do questionamento acerca dessa prática metodológica. Para a
53
autora, visto que a condição que possibilita a realização do trabalho do etnógrafo é
a imersão combinada à experiência efetiva da participação no ambiente
pesquisado, o lurking torna-se peculiar na medida em que “em termos de
presença/ausência, a informação acerca da presença do/a observador/a no setting
não está disponível às/aos demais participantes.” (Braga, 2008, p.88)
O método foi escolhido por ser, até o momento, o mais apropriado para este
tipo de pesquisa, embora ainda haja divergências entre pesquisadores das Ciências
Sociais sobre suas práticas e efetividade. Porém, com os resultados positivos em
seu uso, obtidos por Braga (2008), a pesquisa avançou no Facebook sobre o
primeiro nível de observação não-participante a partir da própria lista de amigos,
ou conexões, deste pesquisador.
Esse site de rede social já surgiu com a característica própria do lurking,
permitindo observar não somente as interações dos amigos para com o
pesquisador, como deles com seus amigos, sem ter sido percebido como um
observador. O Facebook e alguns outros sites de rede sociais, diferentes do Orkut,
não mostram quando um amigo visitou o perfil de outro amigo. Além de receber
através da sua página pessoal as atualizações e publicações de todos os amigos,
ainda é possível visitar as páginas pessoais, ou perfis, de cada um deles e até ler os
comentários feitos pelos amigos deles, que não são necessariamente amigos em
comum de quem está realizando aquela visita. Assim, a possibilidade de capturar
os mais diversos tipos de interação foi se constituindo até chegar ao objeto de
estudo desta pesquisa, a amizade, com seus códigos de interação num site de rede
social.
Como afirma Recuero, “uma relação sempre envolve uma quantidade
grande de interações.” (Recuero, 2009, p.37). Neste ponto é necessário recuperar a
descrição apresentada no capítulo anterior sobre um dos elementos que constituem
as redes sociais: as conexões. Para Recuero (2009), elas são compostas de
interação, relação e laços sociais. É importante localizar nesta parte da pesquisa
essa categorização feita pela autora porque, na observação do Facebook, a
distinção entre esses três elementos contribuiu de forma ímpar para localizar o
objeto de estudo aqui proposto.
54
Quando um participante do Facebook publica em seu mural uma pergunta
para sua rede de amigos, por exemplo, e recebe, nos comentários, diversas
respostas, existem nessas ações diferentes interações, que podem ser dos amigos
para com aquele que publicou até entre os amigos conhecidos ou não, mas que
interagiram através dos comentários. Essas interações constituem a relação social.
Por fim, o laço social vem a ser constituído das interações somadas às relações.
Dessa forma, ficou mais evidente a análise dentro do Facebook das diversas
interações e seus reflexos sobre as relações. Ou seja, a relação de amizade está
dentro dessa perspectiva de laço social, aquela que conecta indivíduos por
diferentes interações, sejam elas de contextos interacionais anteriores ou surgidos
naquele meio online.
Durante o tempo desta pesquisa, foram observados os principais recursos de
interação através do Facebook. O primeiro e mais comum deles é a publicação no
mural. O mural é como é chamado o espaço que existe em todos os perfis tanto
para seu proprietário quanto para os amigos dele realizarem as publicações que
serão expostas. O usuário pode usar seu mural para compartilhar algo que será
visto por todos os seus amigos ou pode escrever diretamente no mural de qualquer
um deles, o que poderia ser caracterizado como uma mensagem direta, não fosse o
fato de que os amigos em comum de ambos também enxergam aquela mensagem.
A publicação é o conteúdo do que é compartilhado entre os atores no Facebook e
suas conexões. Trata-se de um espaço em que é possível compartilhar com todos,
ou especificamente alguns amigos, mensagens em forma de texto, links, fotos e
vídeos. É esse o espaço utilizado para se falar através do perfil do usuário do site
dessa rede social. E é a partir dele que são gerados os comentários, em que os
amigos opinam, concordam, criticam, elogiam, discutem sobre o que foi
compartilhado.
As imagens a seguir exemplificam essas situações: uma em que o usuário
compartilha uma frase e recebe comentários dos amigos; e outra em que um
amigo escreveu uma mensagem no mural da amiga e, em seguida, ambos
interagiram pelos comentários.
55
Figura 3. Comentário que gerou respostas para o usuário
Figura 4. Publicação no mural de uma amiga
56
Braga (2008) trata esses comentários como thread, que, além de ser uma das
formas mais comuns de interação no Facebook, faz com que o conjunto deles,
agrupados em uma mesma publicação a propósito de um assunto, possibilite uma
análise da interação entre os amigos no Facebook, tornando-os uma “possibilidade
metodológica muito interessante.” (Ibid., p.101). No conjunto desses comentários,
é possível observar diálogos inteiros, trocas comunicacionais das mais variadas
formas e até multimídia, com respostas levando para outros perfis, links e vídeos.
A observação deles permite constatar que uma de suas finalidades parece ser o
prolongamento do contato, das interações.
A estipulação dos threads, a observação de sua duração, freqüência e conteúdos
para a organização e exame desses dados em seu conjunto demonstram grande
potencial analítico, uma vez que é no confronto entre posições manifestas ao longo
dos threads que a realização social dos sentidos se realiza (...) visando a uma
caracterização profunda das modalidades de interação ocorrentes neste ambiente.
(Braga, 2008, p.101)
Existe também um recurso que faz com que toda publicação possa ser
curtida pelos seus amigos. O Facebook tem um recurso em que, clicando num
botão chamado “Curtir”, representado pelo símbolo de um dedo polegar em sinal
de aprovação, o amigo demonstra que gostou, está de acordo, aprovou aquilo que
foi compartilhado. Mais recentemente esse recurso também vem sendo usado em
sinal de agradecimento, como, por exemplo, quando alguém recebe felicitações de
aniversário com uma mensagem no seu mural e o aniversariante agradece clicando
nesse botão em sinal de retribuição. Ou quando, em outro caso, uma citação ou
opinião a respeito de qualquer assunto tem valor ou algum significado para um
amigo, este curte a publicação.
De fato, os comentários dos participantes do Facebook nas publicações
compartilhadas e observadas durante a análise foram um material enriquecedor
para o avanço da pesquisa. Basicamente, o espaço aberto para que um usuário
compartilhe qualquer tipo de conteúdo já traz em si os comentários como a parte
principal e responsável pela interação entre todos. É neles que se realizam as
diversas interações, sendo possível até, em alguns casos, que o desdobramento
dessas interações permita que uma pessoa adicione um novo amigo depois das
conversas nesses comentários. Eles podem se identificar por afinidades, gostos,
lembranças, reencontro ou simplesmente se aproximarem depois de algum tempo
57
participando de uma dessas interações. E para provocar uma interação o conteúdo
compartilhado pode ser dos mais variados tipos. Desde uma atualização ou
informação sobre estado civil do usuário, lugar em que está visitando ou visitou,
opiniões sobre qualquer tipo de assunto, vídeos, músicas, citações, fotos, álbuns,
piadas entre tantos outros. No Facebook, com raríssimas exceções, tudo pode ser
comentado e, mais recentemente, até re-compartilhado, quando uma publicação de
um amigo agradou e os outros compartilham também com seus amigos.
Por outro lado, para todo conteúdo publicado por um usuário do site é
possível aplicar um filtro que permite falar somente com pessoas selecionadas. O
Facebook possibilita que você selecione se o que está sendo publicado deve ser
mostrado para todos os seus amigos, se deve excluir algum ou alguns deles que
não verão sua publicação e permite também salvar como padrão a permissão e a
exclusão de quem pode e de quem não pode ver suas publicações. Essa
configuração pode ser refeita a cada nova publicação, ou seja, podem ser
direcionados para aqueles com quem você quer falar. Caso não utilize a
configuração padrão do site, que é para mostrar para todos os seus amigos, o
usuário pode escolher que o conteúdo seja “público” (mesmo quem não é seu
amigo pode ver no seu perfil), para toda a lista de “amigos”, “personalizado”
(apenas para amigos selecionados um a um ou para excluir amigos
individualmente também), para uma das listas automáticas ou criadas pelos
usuários, ou ainda, publicar somente para determinado grupo.
Além das publicações no mural, o Facebook também oferece outras formas
de interação, entre bate-papo (chat), mensagens privadas, convites para eventos,
criação de grupos públicos ou restritos para tratar de assuntos específicos ou
apenas reunir pessoas com alguma característica em comum e classificação dos
amigos em listas – melhores amigos, conhecidos, colegas de trabalho, colegas de
escola, restritos. Essas listas são um dos recursos do site e separam
automaticamente as pessoas com um mesmo tipo de dado no perfil. Por exemplo:
agrupam na lista com o nome da universidade todos os seus amigos que
estudaram nela no mesmo período em que você. Ou seja, é uma maneira simples
de localizar e categorizar as pessoas. As listas também podem ser editadas, podem
ser criadas por qualquer pessoa (nomeada e definida pelo próprio) e podem servir
58
para que o usuário selecione com quais pessoas ou grupos ele quer compartilhar
qualquer publicação no mural. Quando o Facebook seleciona um dos seus amigos
para uma lista, mas você não quer tê-lo nela, você pode excluí-lo da lista, trocar
para outra ou simplesmente deixar no grupo geral de amigos.
Duas dessas listas automáticas chamaram a atenção dos usuários: “melhores
amigos” e “restritos”. Elas não são ativadas automaticamente, mas o usuário pode
incluir os amigos que desejar em cada uma delas. No caso da lista “melhores
amigos”, ela permite que uma publicação seja feita exclusivamente para esse
grupo definido pelo usuário e também possibilita checar todas as atualizações e
publicações desses amigos, sem que seja necessário ler todo o conteúdo
compartilhado pelos demais, bastando para isso selecionar dentre as opções do
lado esquerdo do site a lista assim nomeada.
Figura 5. Lista “melhores amigos” e as pessoas incluídas nela
A lista “restritos” literalmente restringe a visualização do que você publica
para os amigos incluídos nela, que deixam de receber suas atualizações. Ela
também não é ativada automaticamente, mas a partir do momento em que um
amigo é incluído nela, todas as publicações sempre restringirão o conteúdo para
ele e todos os demais na mesma lista. Nesse ponto já há uma pergunta a se fazer
que diz respeito a uma das hipóteses da pesquisa: quem e por que deve ser
incluído na lista “melhores amigos” e na lista “restritos”? Com que critérios os
amigos são selecionados para cada uma delas? Existe na relação de amizade que
antecede ao Facebook uma separação da mesma forma? Os desdobramentos
dessas questões serão vistos ainda neste e no próximo capítulo.
59
Outros recursos de interação no Facebook são os aplicativos; as páginas de
personalidades e empresas, que para receber conteúdo delas o usuário deve curtilas; as assinaturas, um recurso recente que permite receber publicações de outros
participantes sem necessariamente adicioná-los como amigo, mas desde que o
usuário permita que outros assinem seu perfil e que o conteúdo compartilhado seja
público, ou seja, sem restrição de listas ou grupos. O Facebook também facilita a
localização de contatos e amigos através do email do usuário. Existe a opção
dentro do site para que seja feita uma busca na sua lista de contatos do email, em
que, com sua permissão, o Facebook acessa sua conta de correio e localiza as
pessoas com quem você já trocou mensagens. Caso qualquer uma delas participe
do Facebook, ele mostra o perfil do usuário e sugere a amizade. Entre outros
recursos, por fim, para citar mais um deles, existem também as sugestões de
amigos feitas pelo Facebook com base nos perfis dos amigos que já fazem parte
da sua lista. O site pode identificar no seu perfil e no perfil do seu amigo e dos
amigos dele um dado comum, como, por exemplo, a empresa em que trabalham, e
sugerir que você adicione aquele participante como amigo.
É interessante notar em relação a esse último recurso citado, o da sugestão
de amigos, que ao mesmo tempo em que é possível encontrar, por exemplo, um
antigo colega de escola, que informou em seu perfil o nome do colégio em que
você e ele estudaram e, por esse motivo, houve a sugestão da amizade, também
existem sugestões de amizades que não são desejadas ou aprovadas pelos
usuários. O que o site de rede social está fazendo é tentando, através de
algoritmos 14, identificar perfis similares ou com dados ou preferências ou padrões
de comportamento parecidos para que as pessoas aproximem-se, tornem-se
amigos. Fora dos sites de redes sociais, as pessoas, antes de tornarem-se amigas,
excluindo a possibilidade de um primeiro contato através de qualquer outra
ferramenta de comunicação pela internet, encontram-se, são apresentadas umas às
outras, conversam, identificam afinidades e diferenças e, por fim, ambos podem
tomar a decisão de fazer daquele novo contato uma amizade. Será que os critérios
14
Um algoritmo é uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das
quais pode ser executada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de
esforço finita. Um site de rede social como o Facebook usa algoritmos para localizar dados
similares nos perfis de diferentes usuários. Com essas combinações, ele pode sugerir amizades, por
exemplo. Fonte: Wikipedia, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Algoritmo
60
sugeridos pelo Facebook são adotados por seus participantes com base nos
códigos de interação já conhecidos para o significado da amizade fora do
ambiente online? Seriam eles capazes de criar novas amizades? Também essas
questões serão elucidadas adiante.
Frente aos diversos recursos deste site de rede social, para observar
apropriadamente as interações nas relações de amizade, optou-se nesta pesquisa
pelos comentários, pois eles permitem acompanhar a interação de forma muito
similar a um diálogo, com a extensão da conversa sem tempo exato ou definido.
Em alguns casos, os comentários surgem até mesmo depois de horas, dias depois
desde que aquela conversa foi ativada. Isso permite ao pesquisador recorrer aos
históricos de interações ao longo do tempo, buscando compreender o contexto da
situação.
No entanto, alguns parâmetros precisavam ser definidos para que a pesquisa
pudesse ser realizada dentro de um espaço e um período, permitindo selecionar
dados e analisar as situações e sem estender o universo da amostra para toda a
rede de amigos de um ou mais usuários, o que inviabilizaria o acompanhamento
de todas, ou grande parte das publicações e interações, tanto pelo número de
amigos quanto pela quantidade de publicações e comentários realizados por eles
diariamente. Para Fragoso et al. (2011, p.118), um estudo de redes sociais através
de um site desse tipo requer primeiramente três delimitações: os atores, as
conexões e os limites da rede.
Nesta pesquisa, os atores serão os indivíduos representados por suas páginas
pessoais, ou perfil, no Facebook, considerando que através delas expressa-se
somente um ator, um indivíduo. Em outras situações, é possível que mais de um
ator expresse-se através de um mesmo perfil, como num blog, num fotolog ou
numa página coletiva no Facebook. “Os atores de uma rede social podem ser
indivíduos, instituições e grupos. São representados pelos nós, os quais serão
interconectados pelas arestas que o pesquisador decidir levar em conta” (Fragoso
et al., 2011, p.119). Para as conexões, Fragoso et al. explicam que elas podem ser
de qualquer tipo, “desde conexões formais (tais como subordinação em uma
empresa, por exemplo) até conexões informais, como interações ou laços sociais.”
61
(Fragoso et. al., op.cit.). Quando existe um conjunto de laços específicos entre
indivíduos, Wasserman e Faust (1994, apud Fragoso et al., 2011, p.119) os
definem como relações sociais, que podem ser desde laços diplomáticos entre
nações até a amizade entre duas ou mais pessoas, o caso específico do objeto desta
pesquisa. Assim, as conexões, aqui, serão a relação social proporcionada pela
amizade.
Para definir os limites na rede social analisada, há duas opções: “rede inteira
ou rede ego” (Fragoso et al., 2011, p.120). No caso da “rede ego”, escolhe-se um
ator para iniciar o traçado da rede e, a partir dele, todos os nós e conexões vão
sendo reconhecidos. Já na limitação pela “rede inteira”, a escolha pode ser por
comunidades ou grupos com uma identificação entre seus participantes. Esse
último é o caso desta pesquisa: a análise das interações será realizada dentro dos
grupos espontâneos criados por indivíduos com um grau de amizade de médio a
alto, ou seja, entre aqueles que se conhecem e existe uma relação de fato próxima,
e que usam desse recurso do Facebook para manter contato, reavivar lembranças,
compartilhar fotos principalmente antigas, marcar encontros, tentar preservar os
laços da amizade, pelo menor que seja o contato através desse site de rede social.
Frente à escolha dos grupos, alguns secretos e outros abertos, a questão que
se colocou para esta pesquisa a seguir foi o grau de inserção do pesquisador na
observação dentro deles. Para Fragoso et al. (2011, p. 192), “a partir da inserção
do pesquisador no campo, mesmo que ele não se identifique e não seja um
participante previamente inserido na cultura em questão, há uma transformação no
objeto.” Diante disso e visando à preservação das interações espontâneas dos
participantes, visto que um observador externo poderia constranger ou limitar as
expressões dos indivíduos, optou-se em realizar o trabalho sob a técnica de
lurking. Em três dos grupos observados, como a participação era livre e pública, o
pesquisador foi incluído por um dos participantes, sem que isso fosse
obrigatoriamente comunicado a todos eles, tampouco sobre o objetivo da entrada
para a pesquisa. Nos outros dois grupos, a observação foi realizada em conjunto
com um dos membros que, através do seu perfil e com sua autorização, permitiu
ler e acompanhar todas as publicações de um determinado período. Isso foi
realizado durante três meses, se agosto a outubro de 2011, e sempre com um
62
encontro agendado com esse membro que autorizou a observação dentro do
grupo.
Por esse motivo também foi uma escolha decorrente desse método manter o
anonimato de todos os participantes dos grupos, não revelar a identidade, crenças,
diferenças culturais ou abordar assuntos relacionados à intimidade deles.
Manteve-se, assim, o foco sobre as interações mais do que sobre o conteúdo.
Embora, uma relação social como a amizade possa ter conteúdos variados, como
afirma Recuero (2009), o mais importante na observação não-participante era
descrever as práticas sociais da amizade dentro do ambiente online, destacando
como as interações cumprem ou colaboram para essa função.
Para isso, foram selecionados cinco grupos pré-existentes em que a
finalidade principal era reunir num único espaço amigos de diferentes ocasiões. O
grupo 1 reúne ex-usuários de uma das primeiras ferramentas de comunicação dos
ambientes mediados pelo computador, o MIRC 15, que servia como um chat. Para
esta pesquisa, foi localizado no Rio de Janeiro um grupo de indivíduos que se
conheceram através desse canal, que marcavam encontros presenciais naquela
época e que se tornaram amigos desde então. De lá para cá, o MIRC foi
substituído por outras ferramentas de comunicação mais simples e de fácil
utilização, como os programas para troca de mensagem em tempo real, chamados
de instant messengers. A relação entre aqueles amigos tentou se manter primeiro
através dessas novas ferramentas de chat; em seguida, partiu para comunidades
naquele que foi o primeiro e tornou-se o mais popular site de rede social no Brasil,
a partir de 2005, o Orkut; por fim, muitos deles, depois de trocar o Orkut por
novos sites de redes sociais, reencontraram-se no Facebook, e um deles tomou a
iniciativa de incluir todos aqueles amigos conhecidos nesse grupo.
Até o final do período de observação desta pesquisa, o grupo tinha 199
participantes, sendo que nem todos são da cidade ou estão no Rio de Janeiro.
15
MIRC é um cliente de IRC, shareware, para o sistema operacional Microsoft Windows, criado
em 1995 e desenvolvido por Khaled Mardam-Bey com a finalidade principal de ser um
programa chat utilizando o protocolo IRC, onde é possível conversar com milhões de pessoas de
diferentes partes do mundo. Este era somente o seu uso, mas evoluiu para uma ferramenta
totalmente configurável, que pode ser usada para muitas finalidades devido à sua linguagem de
programação incorporada (mIRC Scripting). Fonte: Wikipedia, disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/MIRC
63
Alguns se mudaram para outras cidades, grupos de demais usuários de MIRC de
outros estados também foram incluídos nesse mesmo grupo, mas a característica
mais marcante é que todos se reconhecem principalmente pelo apelido, ou
nickname 16, que usavam naquela época. As interações através dos comentários
são, em sua maioria, perguntando sobre o paradeiro de outros participantes, em
fotos da época publicadas no grupo, a partir das lembranças das situações e dos
encontros que aconteciam com freqüência e há sempre um convite para que o
grupo volte a se reunir, para que todos compartilhem informações sobre onde
estão, o que estão fazendo, com o que trabalham etc.
O grupo 2 é a reunião de ex-alunos de diferentes anos que estudaram em um
colégio carioca e que, aos poucos, foram reencontrando, no Facebook, os amigos
de turma. Alguns deles, mesmo depois de concluir os estudos nesse colégio,
mantiveram o contato através de telefone, cartas e encontros. Esses são,
geralmente, aqueles cuja amizade nasceu na escola mas se manteve ao longo dos
anos, com mais ou menos contato em algumas ocasiões, porém sempre
interagindo. No grupo, os participantes encontram outros colegas de turma,
informam sobre aqueles dos quais sabem a localização e com quem mantiveram a
relação durante os anos depois da escola, compartilham fotos da época, relembram
situações com professores, inspetores, outros colegas, em viagens, em provas etc.
O grupo contava com 218 participantes, foram compartilhadas 198 fotos, entre
junho e outubro de 2011, e houve, pelo menos atestado dentro grupo, um
reencontro de parte dos amigos. Acontece que num grupo tão grande e com
pessoas que estudaram em anos diferentes, assim que os amigos mais próximos se
reencontram, vão sendo formados outros grupos menores, que conseguem realizar
os encontros, trocar e interagir com mais freqüência.
Muito similar ao anterior, o grupo 3 também é uma reunião de ex-alunos,
mas nesse caso de algumas turmas que concluíram o ensino médio em 1992, em
uma escola de educação tecnológica, no Rio de Janeiro. Grande parte deles
16
Nickname é sinônimo de alcunha. “Uma alcunha (no Brasil também se usa o termo apelido que,
em Portugal, designa nome de família) é uma designação não-oficial criada através de um
relacionamento
interpessoal,
geralmente
informal,
para
identificar
uma
determinada pessoa, objeto ou lugar, de acordo com uma característica que se destaque positiva ou
negativamente, de forma a atribuir-lhe um valor específico.” Fonte: Wikipedia. Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alcunha
64
conviveu junto durante os três anos de formação técnica na escola, mas outros já
se conheciam antes disso e levaram a amizade também para dentro das salas de
aula. A principal característica deste grupo é que ele é pequeno, tem sessenta e um
participantes, e muitos dos amigos mantiveram a amizade depois da conclusão dos
estudos. Isso fica nítido nas publicações, nos comentários e nas fotos de encontros
recentes. O espaço no Facebook foi criado como uma opção para preservar os
laços dessas amizades e manter ativa a interação e o contato entre todos eles.
Ainda assim, a primeira regra quando qualquer novo participante é incluído é
pedir para que ele apresente-se e informe se está solteiro ou casado, se tem filhos,
a profissão e onde vive. Funciona quase como um rito para ser identificado e a
partir dali, como eles mesmos dizem, estar devidamente situado no contexto.
O grupo 4 tem treze membros, a amizade entre os participantes já dura dez
anos ou mais, todos estudaram juntos por muito tempo ou ainda vivem próximos,
moram no mesmo bairro ou até na mesma rua. As discussões são sobre assuntos
corriqueiros, desde qualquer ação realizada durante o dia, notícias, próximos
encontros nos finais de semana, os namoros, as brigas etc. Também compartilham
algumas fotos, lembram situações passadas, discutem futebol, política, música,
entre outros. O fato mais relevante que chamou atenção na observação é que
existe uma regra definida desde a criação do grupo e que é apoiada por todos
aqueles que são incluídos, é como se fosse uma condição para ser aceito: tudo que
é escrito, compartilhado, as opiniões, as críticas, as fofocas, nada disso pode sair
daquele ambiente, especialmente os segredos não podem ser jamais revelados para
qualquer pessoa fora do grupo. E mais: namorados e namoradas não são
considerados amigos e não devem ser incluídos no grupo.
Por fim, o grupo 5 é composto por 33 amigos que se conheceram ao longo
de anos, alguns desde os primeiros anos da escola, outros, mais recentemente, mas
nenhuma amizade tem menos do que dois anos. É um grupo muito ativo na
interação no Facebook, com diversas publicações que geram inúmeros
comentários todos os dias. Qualquer situação é motivo para compartilhar ou
publicar no grupo. Podem ser fotos do encontro de alguns deles que trabalham
próximos e marcam para almoçar num dia da semana, comentários enquanto
assistem aos programas da televisão, piadas e brincadeiras entre eles, convites
65
para encontros para assistir ou ir aos jogos de futebol, muitas publicações sobre os
encontros freqüentes nos finais de semanas e todas as fotos decorrentes deles,
entre tantos outros motivos para interagir no grupo.
Neste grupo, foi possível perceber também que eles buscam levar a
linguagem escrita para o mais próximo da informalidade, escrevem utilizando
códigos e símbolos da comunicação típica da internet, como emoticons, palavras
em maiúsculas para indicar que estão falando alto, e não se preocupam com o que
está sendo dito dentro do grupo no Facebook, se é um palavrão, um xingamento,
uma ofensa, qualquer coisa que não seria escrita por eles em seus perfis para os
demais amigos. O que é publicado, geralmente, provoca um número grande de
comentários que vai crescendo e se estendendo como num diálogo e que pode ser
reativado a qualquer instante. Todos parecem gostar de opinar e de se mostrar
presentes em qualquer publicação. Havia 221 fotos dentro do grupo, entre maio e
outubro de 2011, e esse é o tipo de publicação que gera mais comentários porque
é sempre de uma situação em que a maioria estava reunida e traz boas lembranças
e motivos para interagir.
Depois de reunidas as primeiras observações sobre os grupos, o material foi
analisado de forma a buscar pontos comuns que pudessem sinalizar pistas sobre a
relação de amizade entre seus participantes dentro desse espaço de interação
digital. Embora distintos, com finalidades diversas e perfis de usuários diferentes,
o foco para analisar a amizade deteve-se sobre a interação e a troca de conteúdos –
a partir dos threads, ou comentários, sobre as mensagens de texto, fotos, vídeos e
outros comentários – entre eles e como tudo o que é compartilhado impacta as
conexões nessa rede, ou seja, os amigos. Com o intuito de aprofundar a
investigação para esta pesquisa, o próximo passo foi combinar a observação dos
comentários nos grupos com outras técnicas de metodologia de pesquisa que
pudessem oferecer mais subsídios para a análise.
Pela sua própria adaptabilidade, o método etnográfico pode ser combinado
com outros métodos e técnicas para pesquisa. E para complementar esse método
aplicado aqui, foi utilizada a pesquisa qualitativa através da seleção e entrevista
em grupos de participantes do site de rede social Facebook. “A pesquisa
66
qualitativa visa uma compreensão aprofundada e holística dos fenômenos em
estudo e, para tanto, os contextualiza e reconhece seu caráter dinâmico,
notadamente na pesquisa social.” (Fragoso et al., 2011, p.67). A partir da
observação e do comportamento dos usuários em relação ao tipo de conteúdo que
compartilham, a frequência, a quantidade de interações através de comentários e a
repercussão de alguns conteúdos compartilhados, foram selecionadas pessoas que,
ao mesmo tempo, possuem um perfil no site, ou seja, são atores da rede social, e
também utilizam o recurso ou fazem parte de qualquer tipo de grupo, aberto ou
privado. Não necessariamente esses grupos dos quais os entrevistados fazem parte
são os mesmos observados anteriormente. Nesta etapa da pesquisa, o objetivo das
entrevistas era verificar o que se comprovaria através das declarações dos
participantes em relação ao que fora observado anteriormente nos grupos no
tocante à interação com amigos.
“A combinação multimétodos reforça e desvela o caráter epistêmico da
etnografia e está presente em estudos que priorizam objetos distintos da
comunicação digital e operam em níveis macro, micro e mezzo.” (Fragoso et al.,
2011, p.188). Para a autora e naquilo que concerne ao universo desta pesquisa,
dos níveis descritos, o micro é aquele que vem recebendo maior relevância e
atenção para pesquisas em internet. Isso porque ele diz respeito tanto à
especificidade dos métodos e técnicas de pesquisa em relação aos possíveis
objetos em internet quanto à crescente utilização dos próprios recursos,
tecnologias e aplicativos na web, como ferramentas metodológicas. É justamente
o caso desta pesquisa, que utilizou um site de rede social como ambiente a ser
observado, mas também fez de seus recursos, como o encontro dos indivíduos em
grupos, uma parte da metodologia aplicada à observação e análise. E para
enriquecer esta análise descritiva recorreu-se à técnica qualitativa da pesquisa, já
conhecida e comprovadamente eficaz aos objetivos propostos.
Braga explica que a internet é um meio interativo que possibilita
comunicação e feedback em dois sentidos. Isso quer dizer que, nesse ambiente de
comunicação mediada pelo computador, as trocas de mensagens ocorrem entre os
indivíduos “um-para-um, como no caso dos e-mails; um-para-muitos, como é o
caso das webpages; muitos-para-um, no caso de navegação em busca de
67
informação e muitos-para-muitos, como no caso das listas de discussão.” (Braga,
2008, p.43). Um site de rede social, como o Facebook, incorpora parte de todas
essas possibilidades de interação através de seus recursos. Por essas
características, a internet, ainda segundo a autora, pode ser usada como suporte de
comunicação humana ou de massa, o que a torna híbrida e faz com que os estudos
a seu respeito precisem considerar aspectos de ambos os modos comunicativos.
Para Braga, a disciplina da Comunicação tem separado a comunicação humana e
de massa em áreas distintas, mas a internet se torna um desafio porque tem
características dos dois tipos.
Estudos pioneiros da CMC argumentavam que a eliminação da informação oral e
visual e feedback direto faziam do computador um meio frio no qual as emoções e
afetos estavam excluídos da interação. (...) Atualmente, é possível observar
instâncias nas quais os níveis de afeto e emoção desenvolvidos nas relações via
Internet podem ser similares ou mesmo ultrapassar aqueles estabelecidos em
relações face a face ou mediadas por outros suportes técnicos. (...) Assim, uma
característica central da CMC é a importância do feedback, sem o qual a
comunicação por esta via está condenada a ser finalizada. Sem os recursos sociais
disponíveis em contextos de presença física imediata, a CMC depende da troca
interativa de mensagens. (Braga, 2008, p. 44)
Pois é justamente com o interesse de observar o papel da emoção,
representada pelo sentimento da amizade, na interação mediada pelo computador,
neste caso, através do site de rede social Facebook, que esta pesquisa avança para
o capítulo seguinte. Nele serão apresentados o desenvolvimento da pesquisa, a
análise combinada da observação dos grupos com as entrevistas em profundidade,
o levantamento bibliográfico sobre o tema e a conclusão.
68
3. A antropologia das emoções e o Facebook
De que forma e onde começa uma amizade? Quem primeiro definiu essa
relação? Sêga (2011) explica que nas sociedades pré-modernas a amizade era uma
extensão da comunidade local e do parentesco, era institucionalizada e estava
baseada na solidariedade de sangue ou nos companheiros de armas. Rezende
(2002) aponta que na literatura das Ciências Sociais, o tema amizade muitas vezes
teve sua validade questionada, em particular na Antropologia e na Sociologia. Já
para a Filosofia, continua a autora, a amizade sempre teria ocupado um espaço
essencial naquilo que deveria ser levado em conta para uma vida bem realizada.
Rezende afirma que na filosofia de Aristóteles, “a amizade era mesmo essencial à
ética, pois apenas as pessoas boas e virtuosas seriam amigas no sentido mais pleno
do termo” (Rezende, 2002, p.18).
É possível encontrar entre a obra de Aristóteles algumas passagens sobre a
amizade:
i) é amigo aquele que ama e é amado em retorno. As pessoas que julgam encontrarse nestas disposições reciprocamente julgam ser amigas; ii) estamos igualmente
unidos pela amizade quando os bens e os males são comuns; iii) mostra-se
verdadeiramente amigo o homem que quer para o ser amado aquilo que quer para
si; iv) as espécies de amizade são: a camaradagem, a familiaridade, o parentesco e
as ligações do mesmo gênero. O que produz a amizade é a benevolência, os
serviços prestados sem que tenham sido solicitados e sem que posteriormente
sejam publicados; nestas condições, tais serviços foram prestados apenas em
atenção ao beneficiado, e não por outro motivo. (Aristóteles, 2000, p.126)
Ao longo dos séculos, a amizade recebeu novas configurações em
consequência das transformações por que passaram as sociedades. Algumas das
mais relevantes delas foram trazidas pela modernidade, quando nasce o indivíduo
que é deslocado para o centro das questões históricas e sociais, o ser para quem o
individualismo prevaleceria sobre qualquer estrutura social. Para Rezende (2002),
a partir do cristianismo, a amizade deixou de ser tratada como ideal ético até ser
vista, a partir do século XVIII, como um sentimento natural, uma relação
estritamente pessoal, de cunho afetivo e não condicionada a princípios sociais.
Esse fato fez com que, durante muito tempo, a amizade fosse abordada
como tema da psicologia, pois “seria por demais informal e emotiva para ter
alguma importância estrutural ou funcionalidade para a sociedade, como era o
69
caso das relações de família e parentesco” (Rezende, 2002,19). Por esse motivo
mesmo é que são raros materiais e estudos acerca do tema, inclusive porque até o
final da década de 1950 ela foi tratada como assunto periférico na Antropologia,
segundo atesta Rezende. Para esta, é somente a partir da década de 1990 que
surgem estudos mais detalhados sobre a amizade. Eles foram divididos em dois
grupos de acordo com seu recorte teórico-metodológico:
Alguns partem de uma definição preestabelecida de amizade para mostrar como a
relação é afetada por variáveis sociológicas como gênero, fase de vida, classe etc.
Outros tomam-na como objeto de representações histórica e culturalmente
elaboradas e, portanto, variadas. (Rezende, 2002, p.21)
O trabalho em que é possível encontrar mais referências históricas sobre a
amizade descreve como era essa relação entre os séculos XVIII e XIX e é de Anne
Vincent-Buffault. Ela analisou diversos textos sobre o tema, desde obras com
abordagens filosóficas, relações de civilidade, regras de comportamentos sociais
até o engajamento político da amizade, confirmado no pensamento de Aristóteles.
Para Vincent-Buffault (1996), os indivíduos buscam identificação entre si, e a
amizade oferece os referenciais necessários para essa identificação, como nas
relações sociais e na interação dentro dos aspectos da amizade que serão
abordados nesta pesquisa.
3.1. Interações e relações sociais mediadas pelo computador
Entre os indivíduos da era anterior à modernidade aos indivíduos
contemporâneos, ocorreram significativas mudanças nas estruturas da ordem
social na qual eles estavam inseridos, e até mesmo psicológicas, que
gradativamente transformaram também as relações e a interação entre eles. Hall
(1999) acredita que a grande mudança se deu entre o Humanismo Renascentista
do século XVI e o Iluminismo do século XVIII, representando uma ruptura
importante em relação ao passado, sendo esse o ponto crucial para colocar em
ação todo o sistema social da modernidade. Nessa primeira fase, para o autor,
ocorre o nascimento “do sujeito soberano”, conceptualizado a partir de
importantes movimentos na sociedade:
a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das
instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o
Humanismo Renascentista, que colocou o Homem no centro do universo; as
70
revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades
para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo,
centrado na imagem do Homem racional, científico, libertado do dogma e da
intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser
compreendida e dominada. (Hall, 1999, p.26)
No entanto, o autor acredita que, a partir do final do século XVIII, à medida
que as sociedades iam se tornando mais complexas, também foram adquirindo
uma forma mais coletiva e social. E seguindo essa vertente, surge então uma
concepção mais social também do sujeito. Agora, ele está localizado dentro das
estruturas que sustentam a sociedade moderna. Com isso, as antigas teorias
clássicas liberais, baseadas no individualismo, viram-se diante da obrigação de se
adaptar às estruturas do estado-nação para atender aos anseios das massas que
fazem parte de uma democracia moderna. Dentro deste quadro, dois importantes
eventos ainda contribuíram para designar esse sujeito moderno, que vai se
acomodando dentro da estrutura social em transformação, sendo um deles o fato
de que “o sujeito foi ‘biologizado’ – a razão tinha uma base na Natureza e a mente
um ‘fundamento’ no desenvolvimento físico do cérebro humano” (Hall, 1999,
p.30). Essa teria sido uma conseqüência do surgimento da Biologia Darwiniana 17.
O segundo evento teria sido o surgimento das novas Ciências Sociais, que, para
Hall, baseado no dualismo típico do pensamento cartesiano, institui a divisão
entre a psicologia e a sociologia, quando a partir de então “o estudo do indivíduo e
de seus processos mentais tornou-se o objeto de estudo especial e privilegiado da
psicologia” (Hall, 1999, p.31).
Esse último fato atesta as afirmações anteriores de Rezende (2002), citadas
nesta pesquisa, sobre o espaço reservado aos estudos sobre a amizade nesse
período e a razão pela qual não é simples encontrar referências sobre o tema,
muitas vezes preterido pela Sociologia e pela própria Psicologia. Naquele
momento, a Sociologia, segundo Hall, volta-se para a crítica do “‘individualismo
racional’ do sujeito cartesiano” (Hall, 1999, p.31), que estaria inserido em
processos de grupo e normas coletivas que prevaleciam sobre quaisquer contratos
17
“Charles Robert Darwin foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a
comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá
por meio da seleção natural e sexual. Esta teoria se desenvolveu no que é agora considerado o
paradigma central para explicação de diversos fenômenos na Biologia”. Fonte: Wikipedia.
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin
71
individuais, estabelecendo que os indivíduos são formados subjetivamente através
de relações sociais mais amplas, mas que ao mesmo tempo, inversamente, as
estruturas e os processos sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos
desempenham neles. “Essa ‘internalização do exterior no sujeito, e essa
‘externalização’ do interior, através da ação no mundo social, constituem a
descrição sociológica primária do sujeito moderno (...)”. (Hall, op. cit.).
Para Hall, a integração do indivíduo na sociedade sempre fora uma
preocupação de longa data da Sociologia e esse era o momento propício para
expansão e realização desse desejo. São desse período os primeiros estudos
chamados interacionais, como os de Goffman, preocupados em entender como o
“eu” do indivíduo se apresenta de acordo com as diferentes situações sociais, e
como um possível conflito entre esses papéis é negociado. Para Goffman (2008),
cada pessoa representa um papel, como num teatro, e esse papel, por sua vez, deve
revelar um “eu” apropriado para cada ocasião e, ao mesmo tempo, esconder um
self que, se revelado, poderia prejudicar o propósito do ator por trás de cada papel.
Primo explica que a definição de relação social que se tornou um dos pilares
da teoria sociológica é de Weber: “a situação em que duas ou mais pessoas estão
empenhadas em uma conduta onde cada qual leva em conta o comportamento da
outra de uma maneira significativa, estando portanto orientadas nestes termos”
(Primo, 2007, p.76). Para este autor, o caráter social do contato entre os seres
humanos se comprova somente quando a ação de um indivíduo é orientada para a
de outro. Já Georg Simmel (1986 apud Primo 2007, p.76) analisa o fenômeno
social a partir do pressuposto da interação, em que a sociedade só existe dentro de
um quadro em que os indivíduos sempre reagem uns aos outros reciprocamente.
Na interação, para Simmel, os indivíduos agem de acordo com um conteúdo –
interesses e motivações – e uma forma, que está baseada na relação constituída na
influência de uns sobre os outros.
Tanto Weber, quanto Simmel e Goffman abordaram as relações sociais com
ênfase no relacionamento mútuo, numa reciprocidade na interação. Esse conceito
é importante e irá relacionar-se com parte desta pesquisa, pois é a partir da
compreensão da interação sob o ponto de vista da reciprocidade que seguiremos
72
em direção à evolução do interacionismo nas relações mediadas pelo computador
contemporaneamente, nesse caso especificamente a amizade. Tomada como parte
de relações sociais e ao mesmo tempo um sentimento, sob o aspecto da
antropologia das emoções, aqui, a amizade será analisada nesses ambientes
através dessa perspectiva da interação, em que os indivíduos exercem influência
uns sobre os outros e que a relação é constituída de forma recíproca, o que nos
levará até a análise da expressão desse sentimento dentro do código comum de
uma linguagem encontrada no ambiente de um site de rede social, o Facebook.
A crítica de Primo para compreender os aspectos da interação nas condições
em que ela é mediada pelo computador, dentro da Comunicação Social, se faz
sobre estudos anteriores em que “o destaque atomístico e descontextualizado do
comportamento individual” (Primo, 2007, p.74) que traz como conseqüência “a
miopia do tecnicismo e o foco psicologizante que isola o indivíduo” se opõe à
análise da inter-relação entre as partes durante o processo interativo, ou seja,
aquele em que “passa-se a valorizar a totalidade sistêmica.” (Primo, op. cit.).
Levando em consideração que esta pesquisa aborda a interação com foco na
amizade dentro de um site de rede social, outra perspectiva que deve ser
localizada dentro deste estudo também é a da análise da dinâmica entre as partes
de forma sistêmica nos estudos de redes sociais. Recuero (2009) aponta que para
entender um fenômeno nesses casos é necessário observar não apenas suas partes,
mas suas partes em interação.
Essa abordagem oferece ferramentas únicas para o estudo dos aspectos sociais do
ciberespaço: permite estudar, por exemplo, a criação das estruturas sociais; suas
dinâmicas, tais como a criação de capital social e sua manutenção, a emergência da
cooperação e da competição; as funções das estruturas e, mesmo, as diferenças
entre os variados grupos e seu impacto nos indivíduos. (Recuero, 2009, p.21)
Dessa maneira, após localizar o indivíduo a partir do cenário da
modernidade, as transformações provocadas sobre o “eu” e suas consequências
dentro das relações sociais, partiremos para buscar compreender de que forma
estão estruturadas as relações na contemporaneidade e como se configuram as
interações através da comunicação mediada pelo computador. Sob os aspectos da
interação recíproca e da análise sistêmica das partes que interagem, o foco desta
pesquisa a partir daqui se coloca sobre a linguagem como elemento fundamental
73
da relação e como um código capaz de expressar sentimentos como a amizade.
Esta será analisada em contextos relacionais anteriores ao surgimento dos sites de
redes sociais na internet para tentar identificar de quais formas essa linguagem da
amizade se constitui em um ambiente como o Facebook.
O objetivo principal será demonstrar a dinâmica dessa relação expressa
como um sentimento, sob a ótica da antropologia das emoções, através da
estrutura de um site de rede social, e como este permite desenvolver tal linguagem
através de códigos explícitos, ou não, em suas funcionalidades e características
exploradas por seus usuários. Para embasar essa abordagem, antes, será necessário
um breve histórico de como o indivíduo, seu “eu”, modificou-se entre os quadros
da modernidade à pós-modernidade, a fim de buscar compreender como agora as
relações podem ocorrer num contexto interacional de ambientes, onde ferramentas
de comunicação, como os sites de redes sociais, são apropriadas para expressão
desse mesmo “eu”, e como nessa expressão a amizade se realiza.
3.2. A globalização e o sujeito individualista
Hall acredita que uma das principais características da ordem social na pósmodernidade é decorrente da globalização, um complexo de processos e forças de
mudanças. Dentro da globalização estariam processos atuantes numa escala
global, que desfazem as fronteiras nacionais para interconectar as comunidades e
as organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, por
sua vez, totalmente interconectado. Para o autor, essa compressão do espaçotempo provoca a “aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o
mundo é menor, (...) que os eventos em um determinado lugar têm impacto
imediato sobre pessoas e lugares a uma grande distância”. (Hall, 1999, p.69)
Segundo o autor, a principal consequência da globalização sobre os
indivíduos está na transformação que essas mudanças provocam sobre suas
identidades, sobre o “eu”. Ele acredita que o tempo e o espaço são as coordenadas
básicas de todo os sistemas de representação. “Todo meio de representação –
escrita, pintura, desenho, fotografia, simbolização através da arte ou dos sistemas
de telecomunicação – deve traduzir seu objeto em dimensões espaciais e
temporais”. (Hall, 1999, p.70). Por esse motivo, a moldagem e remodelagem das
74
relações entre espaço e tempo na pós-modernidade provocam efeitos sobre a
forma como as identidades são localizadas e representadas, visto que elas estão
profundamente envolvidas no processo de representação, conclui Hall. É esta uma
das primeiras características da sociedade pós-moderna que serão descritas a
seguir. Sua relevância para esta pesquisa está diretamente relacionada ao fato de
ser parte do cenário em que está inserido o indivíduo pós-moderno, que será
analisado interagindo através de uma ferramenta de comunicação mediada pelo
computador. Logo, é importante compreender de que são feitas essas partes em
interação na análise que se seguirá.
Giddens acredita que nesse mesmo período houve também a globalização da
atividade social, impulsionada pela modernidade e que produziu um processo de
desenvolvimento de laços genuinamente mundiais. “A globalização diz respeito à
interseção entre presença e ausência, ao entrelaçamento de eventos e relações
sociais ‘à distância’ com contextualidades locais” (Giddens, 20002, p.27).
Somada ao aspecto anterior da pós-modernidade descrito, essa característica pode
ser relacionada com a estrutura das relações, ou conexões, estabelecidas entre os
indivíduos através de um site de rede social, por exemplo. Embora a descrição de
Giddens aponte para algo muito maior, no sentido de relações globais que
envolvem até mesmo nações, é possível enxergar essa mesma ideia dentro do
micro ambiente que está sendo analisado nesta pesquisa através do Facebook.
Neste site, a presença não necessariamente é física, como descreveu Goffman
(2008) no seu modelo de interação face a face, mas pode ser percebida através da
caracterização dos atores na rede social online com a apropriação que fazem do
espaço para a constituição de um “eu”, com a construção de seus perfis e do que
esses representam para as outras partes em interação. Ou seja, a globalização,
como é vista tanto por Hall quanto por Giddens, poderia estar provocando
desdobramentos nas formas de interação.
Giddens também apresenta algumas circunstâncias da sociedade pósmoderna, ou da “alta modernidade”, com as quais os indivíduos precisam lidar
diariamente e que influenciam diretamente sobre suas relações sociais. Para ele,
essas circunstâncias são conseqüência da pluralidade de escolhas que se colocam
diante dos indivíduos. A primeira delas é “viver numa ordem pós-tradicional” que
75
os confronta. “Agir num mundo de escolhas plurais, envolver-se com ele, é optar
por alternativas, tendo em vista que os sinais estabelecidos pela tradição estão
agora em branco” (Giddens, 2002, p.81). Em seguida, o autor traz a “pluralização
de mundos de vida”, uma mudança em relação aos ambientes sociais em que
circulam e convivem. Antes, vivia-se “dentro de um conjunto de ambientes
comparáveis” (Giddens, op. cit.), que englobavam a família, os locais de lazer e
de trabalho, entre outros. Agora, os ambientes nessa nova estrutura em que se
encontra o indivíduo são muito mais diversos e segmentados. Dessa forma, é
preciso tomar decisões, fazer escolhas o tempo inteiro, sendo elas cada vez mais
plurais e diversas. E, ao mesmo tempo, perceber como parte dessas escolhas
também está relacionada à circulação entre os segmentados ambientes que se
constroem a partir de então.
Outra circunstância relacionada pelo autor é o “impacto existencial da
natureza contextual das crenças garantidas nas condições da modernidade”
(Giddens, 2002, p.82). Isso significa que, ao contrário do que se possa esperar, a
modernidade não opera em situações de certeza, mas sim, faz prevalecer a
“dúvida metódica.” “(...) os sistemas abstratos que tanto penetram na vida
cotidiana normalmente oferecem múltiplas possibilidades em vez de fornecer
guias ou receitas fixas de ação.” (Giddens, op. cit.) Por fim, Giddens destaca a
“prevalência da experiência transmitida através da mídia.” Para ele, a mídia tem
dado aos indivíduos cada vez mais informações sobre performances que
acontecem em lugares diferentes, distantes de onde eles estão, fazendo com que se
tornem audiências que não estão “fisicamente presentes”. “Como resultado, a
ligação tradicional entre ‘ambiente físico’ e ‘situação social’ foi solapada;
situações sociais que vêm pela mídia constroem novas semelhanças – e diferenças
– entre formas pré-constituídas de experiência social.” (Giddens, 2002, p.83).
Essas
também
são
duas
circunstâncias
que
estão
incluídas
no
desenvolvimento desta pesquisa, visto que, por exemplo, estar num site de rede
social é uma escolha, dentro do qual você também faz escolhas, como aquelas
entre aceitar a conexão com um novo amigo ou não, o que deve compartilhar,
como retribuir o que recebe etc. Há ainda a questão de se deparar a todo instante
com situações novas, para as quais nem sempre há referenciais que auxiliem sobre
76
como agir. Além disso, um site como o Facebook permite conexões com outras
pessoas e organizações em qualquer parte do mundo, de quem você certamente irá
receber informações, dados, notícias e com os quais irá se aproximar lendo,
comentando, curtindo, compartilhando etc. E sobre essas quatro circunstâncias,
para o embasamento desta pesquisa, será analisada ainda a dinâmica que justifica
como elas estão ligadas à “forma” e ao “conteúdo” das relações sociais, sobretudo
a amizade.
Giddens credita também à pluralidade de escolhas as relações com os
outros, “à transformação da intimidade”. (Giddens, 2002, p.85). Ele explica que
os gregos não usavam uma palavra para designar “amigo” no sentido em que a
palavra é conhecida hoje. Para eles, philos era a denominação para referir-se aos
mais próximos e mais queridos, independente de serem parentes, afins ou de
qualquer relação consangüínea. “A rede de philos de uma pessoa era basicamente
dada pela posição social do indivíduo; havia pouco espaço para escolha
espontânea.” (Giddens, 2002, p.85). Do contrário, nos sistemas da modernidade,
continua o autor, é característico que os amigos sejam escolhidos voluntariamente
dentre as diversas possibilidades que são oferecidas aos indivíduos. Ele explica
que quando esses laços são livremente escolhidos, na “alta modernidade”, é
possível considerar essa relação como o que ele chama de uma “pura relação”,
aquela em que há elementos centrais envolvidos numa relação íntima e
emocionalmente exigente, como é o caso da amizade.
A moderna amizade expõe essa característica de maneira ainda mais clara. Um
amigo é definido especificamente como alguém com quem se tem uma relação que
não depende de nada mais que das recompensas que essa relação oferece. É
possível tornar-se amigo de um colega, e a proximidade no trabalho ou o interesse
compartilhado gerado pelo trabalho podem estimular a amizade – mas ela só será
uma amizade se a ligação com a outra pessoa for valorizada em si mesma.
(Giddens, 2002, p.87)
Partindo desse aporte teórico para compreender o indivíduo, sua relação
com e dentro da estrutura social pós-moderna, seguiremos para explorar a
interação na amizade dentro do contexto da comunicação mediada pelo
computador. Para isso, são apresentadas a seguir algumas hipóteses acerca desse
particular tipo de interação, que, embora específica, tem sido a responsável pela
77
criação e até manutenção de laços sociais em muitas relações contemporâneas,
incluindo a amizade.
3.3. Interações sociais e a expressão dos sentimentos
Enquanto na primeira metade do século XX as preocupações tecnológicas do
homem estavam em conquistar o espaço, na segunda metade, o homem preocupouse em conquistar o tempo. As novas tecnologias de comunicação buscam novas
formas de relacionamento social enfrentando alguns desafios. Entre esses está o de
manter a presença contínua da consciência crítica social, política e econômica face
a tantas informações vindas de diferentes pontos de emissão. (Sêga, 2011, p.117).
A ideia defendida pela autora corrobora com aquelas circunstâncias
enumeradas por Giddens. De fato, as novas tecnologias de comunicação,
apropriadas pelos indivíduos para promover a interação mediada pelo
computador, requerem atenção sobre as questões da presença versus a ausência
nas relações sociais. Essas ferramentas são capazes de emitir sinais de qualquer
parte, a qualquer momento, e isso provocar, além da obrigatoriedade de escolhas –
como aponta Giddens – a necessidade de se manter uma capacidade crítica e
analítica sobre os desdobramentos que podem trazer o conteúdo emitido e o
recepcionado.
Sêga aponta que os meios técnicos de comunicação, como a televisão e o
computador – “que vem acompanhado dos serviços de internet, permitindo o
acesso e a distribuição das informações, além da comunicação entre as pessoas”
(Sêga, 2011, p.119) – colaboram para a interação social. Na recepção e
apropriação das formas simbólicas que se constituem através da internet, cada
indivíduo coloca sobre o que recebe seus respectivos valores sociais, políticos,
religiosos, econômicos, míticos e culturais, entre outros.
Na internet, para Sêga, a comunicação ocorre da mesma maneira que nas
formas tradicionais, ou seja, vai do emissor ao receptor, através de um canal, com
um código, dentro de uma mensagem, inserida num contexto. Ela acredita que
isso tenha permitido que os indivíduos conquistassem uma nova forma de
estabelecer as relações sociais, pois os usuários da internet mostram-se
predispostos a trocar informações e estabelecer comunicação no ciberespaço, que
é em si o lugar da interação social nesses ambientes.
78
Por fim, Sêga ainda chama atenção para o fato de que as “relações sociais
virtuais” são construídas sobre laços de intimidade com tanta naturalidade e
espontaneidade que estão dispensando, muitas vezes, as etapas que ocorrem nas
formas tradicionais de se relacionar. No Facebook, por exemplo, muitos usuários
adicionam até desconhecidos como amigos e assim os consideram, sem que
necessariamente tenha ocorrido, alguma vez, encontros face a face entre essas
pessoas que levassem à intimidade e ao grau de envolvimento que comumente se
percebe entre aqueles que se conhecem e se tornam amigos fora desse ambiente,
nas relações offline. Para a autora, a emoção e o sentimento podem ser
demonstrados através da linguagem verbal ou através de símbolos específicos da
comunicação pela internet, como os emoticons 18.
Nesse ponto, alcançamos um dos elementos principais desse capítulo: a
linguagem. Mais especificamente, o uso da linguagem para comunicar e expressar
sentimentos. Para Giddens, “virtualmente toda experiência humana é mediada –
pela socialização e em particular pela aquisição da linguagem” (Giddens, 2002,
p.28). O autor afirma ainda que linguagem e memória estão intrinsecamente
ligadas para sustentar a lembrança individual e a institucionalização da
experiência coletiva. Sêga considera a linguagem, verbal ou não verbal, o
elemento mais importante da interação entre os indivíduos, à disposição de todas
as pessoas e capaz de expressar “objetivações e intenções subjetivas” (Sêga, 2011,
p.17). A autora acredita que as formas de linguagem humana existentes são
“índices ou indicadores” que permitem a compreensão das ideias, atitudes e
servem de base para a interação social. “São esses índices que fazem com que as
pessoas compreendam a subjetividade do outro; que as aproxima ou afastam-nas
desse outro.” (Sêga, op. cit.)
Braga parte da perspectiva de que a linguagem é um sistema para
comunicação, produto de educação e cognição. Para a autora, é possível afirmar
que a estrutura da linguagem caracteriza o modo “como as pessoas organizam
18
Forma de comunicação paralinguística, um emoticon, palavra derivada da junção dos seguintes
termos em inglês: emotion (emoção) + icon (ícone) (em alguns casos chamado smiley) é uma
seqüência de caracteres tipográficos, tais como: :), ou ^-^ e :-); ou, também, uma imagem
(usualmente, pequena), que traduz ou quer transmitir o estado psicológico, emotivo, de quem os
emprega, por meio de ícones ilustrativos de uma expressão facial. Fonte: Wikipedia. Disponível
em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Emoticon
79
informações e desenvolvem ideias, concluindo-se que a linguagem é, ao mesmo
tempo, meio de comunicação e ferramenta informática (sistema de processamento
de informação)” (Braga, 2008, p.36). Dessa maneira, segue a autora, cada nova
forma de linguagem surgida é resultado da emergente necessidade de lidar com a
quantidade de informações excedentes da forma anterior. “Nessa perspectiva, a
Internet seria uma linguagem surgida para comportar o universo do computador e
organizar, arquivar e distribuir toda informação gerada pela computação.” (Braga,
2008, p.37)
Na perspectiva desta pesquisa interessa compreender a linguagem como
expressão de um sentimento, a amizade. Para isso, partimos dos trabalhos de
Marcel Mauss, para quem expressar sentimentos “é uma linguagem, em que o
indivíduo comunica aos outros aquilo que sente em um código comum, nesse
movimento comunicando também a si mesmo suas emoções.” (Rezende &
Coelho, 2010, p.48).
Nas Ciências Sociais, o termo “gramática” é bastante utilizado para designar
e reunir esses códigos comuns da linguagem na expressão dos sentimentos. Por
esse motivo, seguiremos adiante para identificar alguns desses códigos dentro do
que pode estar contido na gramática da amizade. Em seguida, buscaremos a
correlação desses mesmos códigos dentro da interação praticada através da
internet, no Facebook.
Nesse site de rede social, optou-se por observar a constituição dessa
gramática da amizade através da linguagem nas trocas interacionais dos usuários.
Como um dos “códigos” principais da interação no Facebook é compartilhar,
nosso objetivo é situar a expressão da amizade através do “dar, receber e
retribuir”, conceito descrito por Mauss como elemento principal das trocas que
ocorrem entre os indivíduos em suas relações sociais: “que força há na coisa dada
que faz com que o donatário a retribua?” (Mauss, 1974, 42). Ora, receber uma
solicitação de amizade no Facebook e aceitá-la; enviar uma solicitação de amizade
no Facebook e vê-la aceita; publicar, através de textos, vídeos, fotos e links,
conteúdo que será compartilhado para uma rede de amigos disposta em uma lista
no Facebook e ser retribuído com um “curti” ou um comentário; tudo isso são
80
formas de se relacionar e interagir com os amigos no Facebook e se enquadram
dentro da dinâmica da dádiva descrita por Mauss.
Portanto, qual o lugar da amizade na interação através de um site de rede
social, cuja principal finalidade a que foi destinada essa ferramenta, apropriada no
ambiente de comunicação mediada pelo computador, é encontrar e manter em um
só lugar os amigos? Onde estão os códigos da gramática da amizade anteriores ao
surgimento desse tipo de ferramenta dentro do Facebook? São novos códigos? E
no sentido inverso, há alguma contribuição desse site de rede social sobre a
amizade e a manutenção de seus laços que se relacionam com os códigos daquela
gramática? Essas e algumas outras hipóteses serão avaliadas a seguir.
Rezende & Coelho (2010) resumem a relação de amizade dentro do escopo
de tudo que foi mencionado até aqui a respeito das relações sociais, da interação e
da linguagem:
é uma relação afetiva que contém algum grau de escolha individual, que, entretanto
se dá dentro de um campo de possibilidades. Embora vivida como uma opção
subjetiva, a amizade é concebida e praticada com significados, normas e valores
culturalmente definidos. (Rezende & Coelho, 2010, p.74)
3.4. Expressão dos sentimentos e linguagem
Rezende & Coelho relatam que na história das Ciências Sociais a presença
do afeto ligado às emoções fez com que, durante muito tempo, elas fossem
notadas como parte da dinâmica da vida social, não recebendo, por isso, atenção
como objeto autônomo para estudos. As autoras creditam essa situação ao status
dúbio das emoções: “embora se tornassem elementos da interação social, eram
vistas como fatos ‘naturais’, realidades psicobiológicas que já eram dadas a priori
e modificadas até certo ponto pela socialização em uma cultura específica.”
(Rezende & Coelho, 2010, p.13).
Os primeiros esforços na direção de tratar as emoções como elementos
sociais, segundo essas autoras, foram feitos por Émile Durkheim e Georg Simmel.
Em seus textos, ambos trataram as emoções como “estados subjetivos e não
sociais”, porém, seguindo linhas distintas de investigação, eles mostraram que há
81
sentimentos que são produzidos socialmente nas relações sociais e que podem
produzir “efeitos significativos para as interações e a coletividade de modo
amplo.” (Rezende & Coelho, 2010, p.13). Mas essa ambivalência sobre o estudo
das emoções prevaleceria ainda por muitas décadas, com autores explorando as
regras e formas coletivas de expressão dos sentimentos tanto sob o ponto de vista
de seu papel ou função social quanto com comparações entre padronizações
culturais distintas das emoções.
Somente na década de 1970 o estudo das emoções começou a ter seu escopo
melhor definido através do desenvolvimento da abordagem interpretativa. Para
Rezende & Coelho, a mudança se deu sobre a noção de cultura, definida até então
através de padrões de comportamento habituais e tradicionais, mas que agora
receberia uma redefinição através de “teias de significados, transmitidas por
símbolos e interpretadas de maneira específica de sociedade para sociedade.”
(Rezende & Coelho, 2010, p.14). Essa mudança desencadeou o surgimento de
novos estudos acerca dos conceitos de pessoa e self, assim como das emoções,
além de outros que buscavam a articulação entre “emoção e concepções de pessoa
com as esferas da moralidade, da estrutura social e das relações de poder.”
(Rezende & Coelho, op. cit.).
Contudo, foi na década de 1980, ainda conforme essas autoras, a partir do
momento em que se percebem as ideias de pessoa e de subjetividade como
construções culturais, que os estudos antropológicos sobre as emoções, através de
uma perspectiva relativista, passaram a tratar os sentimentos como “conceitos
culturais que mediam e produzem a experiência afetiva.” (Rezende & Coelho,
2010, p.14) Completa esse quadro a proposição de Catherine Lutz (1988 apud
Rezende 2010, p.14) de que os conceitos de emoção “implicam negociações sobre
a definição da situação e sobre vários aspectos da vida social, devendo ser vistos
como práticas ideológicas locais.” (Rezende & Coelho, op. cit.). É a partir de
então que “as emoções passam a ser tomadas como um idioma que define e
negocia as relações sociais entre uma pessoa e as outras.” (Rezende & Coelho, op.
cit.).
82
Essas autoras acreditam que a tensão do par indivíduo-sociedade na
definição do escopo dos estudos sobre as emoções foi mais bem resolvida por
Mauss, que, dando continuidade ao trabalho de Durkheim, permitiu uma
“exploração do modo como o obrigatório e o espontâneo entrelaçam-se na
experiência emocional individual.” (Rezende & Coelho, 2010, p.44). É de 1895 a
formulação de Durkheim de um projeto teórico-metodológico para a nova
disciplina da sociologia em que determina como unidade de análise o “fato
social”. “Este é definido como algo que ‘existe fora das consciências individuais’,
sendo capaz de exercer uma ação coercitiva sobre a vontade individual.” (Rezende
& Coelho, 2010, p.46). Isso significa que essa capacidade de coerção externa
sobre o indivíduo atesta a natureza social de um fato, aquilo que é capaz de coagir
a vontade individual. Para ele, as constituições, os códigos penais, a condenação
pela opinião pública ou os costumes são exemplos dessa característica do fato
social que se sobrepõe à consciência individual.
No entanto, foi também um trabalho de Durkheim que, segundo Rezende &
Coelho, sugeriu que o social poderia, ao mesmo tempo, ser uma condição externa
– “fato social” – e interna do indivíduo. Discutindo ritos e crenças religiosas, ele
chegou à definição do conceito de “efervescência”. “A ‘efervescência’ é um
estado alterado da atividade psíquica individual, que somente se produz quando o
sujeito está imerso em meio a uma coletividade, cuja marca é a intensidade.”
(Rezende & Coelho, 2010, p.47). É neste ponto que, para as autoras, essa
possibilidade advinda da “efervescência”, ao mesmo tempo em que atesta a
coerção do fato social sobre o indivíduo, sugere que o social pode estar também
dentro dele, visto que a existência de um fenômeno coletivo poderia ser capaz de
alterar o estado de consciência individual.
Porém, Rezende & Coelho creditam a Mauss um avanço sobre essa reflexão
do par indivíduo-sociedade. Para as autoras, Mauss “mostra o caráter ritualizado
da expressão dos sentimentos, que se acentua ou recua segundo momentos
socialmente demarcados na sequência ritual, obedecendo, além disso, a uma
estética comum.” (Rezende & Coelho, 2010, p.48). Com um estudo do ritual oral
dos cultos funerários australianos, Mauss (1980) pretendia demonstrar que todos
os tipos de expressões orais dos sentimentos não se ligavam a fenômenos
83
fisiológicos ou psicológicos, mas sim, a fenômenos sociais, não espontâneos,
obrigatórios.
Rezende & Coelho consideram que a conclusão de Mauss atesta que a
natureza ritualizada e coletiva da expressão dos sentimentos é prova de seu caráter
como “fato social”. No entanto, ao mesmo tempo em que essa expressão é algo
externo ao indivíduo, isso não impossibilita a espontaneidade dos sentimentos, já
que podem ser vivenciados por quem os expressa, concluem as autoras. E é nesse
ponto que reside a questão central que buscamos até aqui para compreender a
expressão da amizade. Como sentimento, uma relação, ela também tem sua
linguagem característica.
Compreendendo a amizade a partir dessa perspectiva, é possível analisar
seus códigos e colocá-los em oposição ou linearidade com os símbolos da
linguagem na interação através do site de rede social Facebook. Nesse site, a
linguagem se constitui tanto pelos recursos técnicos à disposição dos usuários
quanto pelos contextos específicos desse ambiente a que eles são apresentados,
em que lidam com escolhas, compartilham para a rede social e comunicam aos
amigos em suas listas. Em qualquer dessas etapas, para que códigos de amizade
existam e se constituam em uma gramática desse sentimento, o mais importante é
fazer com que eles sejam compreendidos da mesma forma por todos.
(...) todas essas expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força
obrigatória dos sentimentos do indivíduo e do grupo são mais do que simples
manifestações, são sinais, expressões compreendidas, em suma, uma linguagem.
Estes gritos são como frases e palavras. É preciso dizê-las, mas se é preciso dizêlas é porque todo o grupo as compreende. A pessoa, portanto, faz mais do que
manifestar os seus sentimentos, ela os manifesta a outrem, visto que é mister
manifestar-lhos. Ela os manifesta a si mesma exprimindo-os aos outros e por conta
dos outros. (Mauss, 1980, p.332)
Em seu trabalho, Mauss (1980), abordando a questão do caráter coletivo da
expressão dos sentimentos, analisa dados etnográficos que o levam a evidenciar a
dimensão de linguagem dessa expressão, observando o ritual e a sincronização das
demonstrações de pesar. No entanto, a abordagem de Mauss não deduz daí a
natureza coercitiva do ritual que obrigaria o indivíduo a demonstrar aquilo que
não sentiria, pois, segundo Coelho, para Mauss, o que muda é “‘a etiologia’ do
sentimento, o qual, ao invés de provir espontaneamente do íntimo de cada
84
indivíduo, é gerado de ‘fora para dentro.’” (Coelho, 2006, p.54). Porém, afirma a
autora, a conclusão de Mauss não faz com que seja menos verdadeiro o
sentimento experimentado pelo sujeito numa ocasião como essa. É nesse sentido
que a expressão dos sentimentos pode ser analisada sob o aspecto de uma
linguagem, “que funcionaria como um movimento de mão-dupla, em que o
indivíduo, ao demonstrar o que sente para os outros segundo um código
compartilhado, neste movimento expressaria seus sentimentos também para si
mesmo.” (Coelho, op. cit.).
Mas é também na tensão entre obrigatório e espontâneo que reside o fio
condutor das reflexões de Mauss sobre a dádiva. “Mauss afirma a existência de
‘duas verdades’ na dádiva: seu caráter ‘voluntário’, expresso na ‘teoria’, e a
obrigação da retribuição, presente na ‘realidade da dádiva’” (Coelho, 2006, p.54).
Compreender a dádiva é buscar o elemento dessa relação que faz com que aquilo
que foi dado seja retribuído, segundo Mauss (1974, p.42). Para Coelho, o mesmo
problema orienta os trabalhos de Mauss: “a tensão entre as dimensões obrigatória
e espontânea da experiência individual, expressa na vivência das emoções e na
oferta/recebimento de dádivas materiais.” (Coelho, 2006, p.55).
Consideremos, assim, uma linguagem que expressa o sentimento da
amizade observada no site de rede social Facebook e a experiência de dar, receber
e retribuir através do compartilhamento de informações e conteúdos nesse site. É
sobre essas duas orientações que esta pesquisa avança para localizar a linguagem
característica da amizade e seus códigos compartilhados, existentes antes mesmo
do contexto interacional da internet. Para evidenciar na prática as características
dessa relação, serão descritos agora os resultados da observação não participante
apresentada no segundo capítulo e das entrevistas realizadas com dois grupos de
usuários do Facebook.
3.5. Desvendando a relação de amizade no Facebook
As entrevistas foram divididas em dois grupos com pessoas de diferentes
faixas etárias, variando entre 19 e 40 anos, diversas profissões e que possuem
perfis ativos, mas que utilizam o site de maneiras e com frequência diferentes. A
faixa etária escolhida tem relação direta com o fato de estarem incluídas nela
85
desde pessoas que descobriram no Facebook um novo espaço de interação para
amizade até aquelas que, pela pouca idade e relação com a tecnologia, já o
consideram quase como uma extensão dessa relação.
Como o Facebook trata como “amigos” todos os usuários incluídos nas
listas uns dos outros, os participantes foram questionados sobre a origem de seus
melhores amigos nesse momento de suas vidas. Todos são unânimes em afirmar
que seus melhores amigos vêm de uma relação anterior àquela conexão
estabelecida pelo site. Conheceram-se principalmente na escola, na faculdade, são
amigos de infância ou de uma relação que se fortaleceu dentro do ambiente de
trabalho. Mas são também pessoas com quem se encontram pessoalmente com
relativa frequência e que, através da tecnologia, acrescentaram à relação mais essa
forma de interação pelo Facebook. Em alguns casos, o contato é menos frequente,
mas, ainda assim, o vínculo criado anteriormente por muitos anos com a amizade
determina a continuidade da relação, a afinidade para se manter o contato através
do site de rede social, como demonstra o depoimento a seguir:
Os melhores amigos são da vida, colégio, faculdade. Mas daqueles de quem estou
um pouco afastada fisicamente, mas com que já existe uma relação de muito
tempo, adoro que estejam ali no Facebook. Posso saber um pouco o que estão
fazendo, posso opinar, bater papo, trocar ideias, ver fotos, é como se a relação
permanecesse próxima. (Participante A)
Uma das entrevistadas conta que na faculdade havia um grupo de amigos
muito próximos do qual sempre fez parte e com quem mantém contato até hoje.
São amigos e encontram-se com certa regularidade, falam por telefone e todos
estão adicionados em suas listas de amigos no Facebook. Porém, uma das amigas
viajou para o exterior, deixou de mandar notícias, já foi procurada no Facebook,
mas ninguém conseguiu encontrá-la. Por isso, perderam o contato, mas não o
desejo de ainda revê-la, poder interagir com ela novamente, o que seria facilitado
pelos recursos de localização de usuários e comunicação do Facebook:
Todo o grupinho da faculdade ainda se fala pelo Facebook, mas com ela nós
perdemos o contato. Já procurei e não encontrei ela no Facebook. (Participante B)
Assim também é com os grupos que foram criados pelos usuários neste site
de rede social e cujo recurso é usado para prolongar a interação com os amigos.
Todos os grupos são compostos por pessoas que se conhecem e que mantiveram,
86
durante muitos anos, a relação de amizade até agora. São amigos da escola,
amigos de infância, amigos de amigos que foram se conhecendo pessoalmente.
No caso dos grupos 2 e 3, que são turmas de colégios diferentes, mesmo o grupo
do Facebook aceitando ex-alunos de anos diferentes, os amigos que eram mais
próximos identificam-se e dali partem para a interação. Eles se procuram,
perguntam uns pelos outros, às vezes pelos nomes, às vezes pelo apelido, e
formam outros pequenos grupos de afinidade e aproximação na rede. Isso, no
entanto, não impede que mesmo aqueles que não se conheceram pessoalmente
interajam, pois o motivo de todos estarem ali é comum: a escola em que
estudaram. A tecnologia permitiu que se reencontrassem, mas eles estão
interessados em descobrir o que aqueles com quem estabeleceram uma relação
estão fazendo agora, onde estão, suas profissões. Percebe-se que alguns
mantiveram contato ao longo de todos esses anos, e esses são os que realizam o
papel de informar para os demais onde estão quem procuram. A seguir alguns
depoimentos colhidos nos grupos observados:
Caramba... A EBA/UFRJ pode ter formado o modo como vejo o mundo, o
CEDERJ/UERJ pode forjar o modo como me relaciono com o mundo, mas muito
do que sou no íntimo tem origem no CEFET em geral, e na Turma do Bloco E em
especial... (Participante 1)
Vamos passar informações de como estamos hoje. desculpem os erros, mas o
teclado eh em espanhol. (Participante 2)
Pedro Henrique Fontana, vulgo Urubu naquela época, Fisioterapeuta, enquanto vcs
estavam matando aula debaixo do bloco E, eu matava aulas de eletronica para ficar
correndo naquela pista de atletismo, precária, mas saudosa, rsrs..
Mas fosse a turma do bloco E, a turma do grêmio, a turma do teatro, a turma do
violão, a turma dos laboratórios, etc... tínhamos algum em comum: Éramos capazes
de ficar dentro do CEFET mesmo durante as incansáveis Greves... (Participante 3)
Outra questão abordada pelos entrevistados e observada nos grupos é
justamente a localização, encontrar amigos, buscar pelo nome, pelo email, usar
um recurso que o Facebook oferece para retomar essa interação. No entanto, da
mesma forma que nos grupos os participantes procuram por aqueles de quem
eram mais próximos, os entrevistados afirmaram que buscam somente por pessoas
com quem estabeleceram a amizade, mas que, em algum momento, perderam o
contato. Porém, ressaltaram que usam desse recurso porque, mesmo depois de
tanto tempo, o interesse por essas pessoas permanece até hoje. Ou seja, nota-se
mais uma vez com esses resultados observados que a afinidade, a proximidade
87
que foi construída na relação de amizade é o que sustenta a necessidade ou o
desejo de continuar interagindo com aqueles amigos.
Nas entrevistas, muitos citaram que ainda não aceitam pedidos de amizade
de colegas, nem adicionam pessoas com quem mantiveram pouco contato, pessoas
que viram raras vezes. Ou ainda aqueles colegas da escola que eram da mesma
turma, mas de quem não eram tão próximos e os colegas de trabalho com quem
não têm tanta proximidade. Não é comum, para esse grupo entrevistado, aceitar
em sua rede social online a presença dessas pessoas.
Essas pessoas com quem um dia eu tive contato, que foi pouco, alguns colegas da
escola, eu penso assim: já não tinha nada antes, pouca afinidade, vou adicionar
agora pra quê? Não quero que vejam o que estou fazendo. E mais: não quero ficar
preocupada com o que vão pensar do que faço ou digo. (Participante C)
Não acredito que o contato no Facebook vá trazer uma afinidade que já não existia
antes. (Participante D)
Mas há também casos em que, nas entrevistas, alguns participantes
contaram situações em que não se sentiam à vontade para aceitar algumas dessas
pessoas de quem nunca foram tão próximas, sendo que, depois de estabelecerem a
conexão pelo site, a percepção sobre o outro mudou um pouco. Porém, para eles,
isso não significa que a ligação no Facebook tenha provocado obrigatoriamente a
tal proximidade, a intimidade da amizade. Quando isso ocorreu, geralmente o
motivo esteve ligado ao conteúdo compartilhado por essas pessoas que aceitaram
em suas redes.
Tem gente que me surpreendeu depois que adicionei no Facebook. Achei que a
pessoa não tivesse nada de bom a dizer, mas pelo contrário, é super legal. Gostei.
(Participante C)
Fui falar pessoalmente com uma pessoa que percebi que gostava de um mesmo
cantor que eu, puxar assunto, tentar me aproximar, mas levei um toco. A pessoa
não me deu a mínima. (Participante D)
E é o conteúdo, aquilo que é compartilhado, seja entre amigos
publicamente, seja em grupos, que pode determinar o fortalecimento ou até o
enfraquecimento da relação de amizade a partir desse contexto. O conteúdo
trocado entre os amigos nesse ambiente pode interferir na relação offline, aquela
fora do site. Isso foi comprovado durante as entrevistas e foi percebido também
durante a observação nos grupos. Nesses, essa evidência fica clara quando os
88
participantes compartilham memórias, lembranças, situações, fatos, estórias que
são contadas no grupo dentro da rede social, mas que somente os amigos
conseguem identificar porque viveram e participaram dos momentos que estão
sendo narrados ali. Essa identificação com as estórias, com o conteúdo
compartilhado, é que reagrupa os amigos ou fortalece os laços que já existiam
antes, fora desse ambiente. Esse conteúdo é capaz de aproximar ou afastar pela
identificação dos códigos comuns conhecidos por eles. Quando alguém não
reconhece qualquer um desses códigos, a pessoa tende a ficar isolada e,
consequentemente, podendo até se retirar e deixar de participar tanto da relação
online quanto daquela que ocorre fora da rede social. É nesse sentido que, para os
grupos, o conteúdo da interação é importante. Isso separa aqueles entre quem a
afinidade com os amigos sempre existiu daqueles com quem ela não está presente.
Ou seja, no final, restam, mais uma vez, os amigos que mantiveram por anos a
relação de amizade.
Já nos perfis e na interação entre os amigos fora de grupos, o conteúdo, para
esses participantes, pode interferir diretamente sobre relação de amizade. Ele tanto
pode aproximar quanto afastar. Porém, a maioria dos usuários que interage com os
amigos nesse site afirma que o conteúdo só é capaz de afastar aqueles que não os
conhecem de um contexto anterior ao Facebook. Isso acontece porque, segundo
eles, os amigos, aqueles que podem mesmo ser chamados de amigos fora desse
ambiente, e que são poucos, já os conhecem suficientemente bem por causa de
trocas apreendidas durante diversas interações e com conteúdos variados durante
anos de uma relação. E seja qual for a maneira como qualquer conteúdo é
apresentado, eles tendem a gerar conversação em vez de conflitos ou diferenças.
Essas, neste caso, surgiriam pela ausência de laços mais fortes que unam as
pessoas em uma relação.
Resumindo, em ambos os casos, o conteúdo é o elo entre eles, mas somente
a amizade, a afinidade, a proximidade e até a intimidade entre os amigos, é que
sustenta a relação, não a tecnologia.
Ainda sobre o conteúdo, nas entrevistas, os participantes descreveram o que
gostam de dar e receber no site de rede social. Eles afirmaram que gostam de
89
contar para os amigos na rede social sobre o seu dia, as coisas mais interessantes
que aconteceram, lugares que visitaram, músicas que ouviram, as novidades, um
pouco sobre suas atividades profissionais, seus desejos, seus sonhos, o que estão
sentindo. Querem sentir-se como se estivessem ao lado de alguém para quem
contariam o que estão escrevendo no site. Em troca, querem ser percebidos da
mesma forma que percebem seus amigos na rede e gostam de receber informações
sobre o que os amigos estão fazendo, onde estão ou estiveram, o que leram, dicas
de filmes, músicas, lugares visitados, novidades, opiniões sobre assuntos diversos.
Gostam de debater, opinar, ver fotos, comentar nos posts, conhecer coisas novas
através deles, receber o mesmo tipo de conteúdo que está relacionado àquele que
compartilham.
Assim, nessa relação de trocas comuns, a consequência direta é que mais
uma vez os laços mais fortes de amizade firmam-se, e os mais fracos, podem
perder ainda mais força. Isso porque o que os participantes identificam como
apropriado para dar e receber está, em quase na totalidade dos casos, somente com
os mesmos amigos, aqueles com quem a relação foi construída e se mantém há
anos. Não é que não se admita a possibilidade de uma nova amizade surgir, se
fortalecer e durar muitos anos quando surge num site de rede social como este.
Mas o fato é que as relações de amizade, como conhecidas até hoje, fora dos
ambientes da internet, estão se estabelecendo como uma extensão da amizade offline dentro do ambiente online, não uma nova propriedade em si da relação. A
tecnologia pode estar facilitando a interação, a comunicação, a sensação de mais
proximidade quando suprime a relação espaço-tempo, marca da pós-modernidade.
O que comprova essa constatação é justamente aquilo que os participantes
do Facebook afirmaram fazer quando um conteúdo não está de acordo com o que
querem receber, quando um conteúdo desagrada, ofende, é vazio ou não interessa
por diversas razões subjetivas.
Ah, eu nem bloqueio, não penso em usar esses recursos, eu deleto logo. Pra que
manter ali alguém que não quero ver, que não me interessa? (Participante E)
Poxa, uma pessoa que eu gostava muito foi lá e colocou uma opinião super escrota,
homofóbica, uma coisa que eu não concordo, eu não posso aprovar, não vou gostar,
significa que a gente tem diferenças. Não preciso ter essa pessoa no Facebook.
Nem bloqueio, excluo mesmo. (Participante F)
90
Nesse ponto, quase todos os entrevistados concordam que a melhor opção é
ocultar a visualização das publicações dos participantes com quem estão em
desacordo ou, outras vezes, excluir mesmo a pessoa da lista de amigos. O
conteúdo pode desagradar por estar em desacordo com a opinião de quem o
recebe, por ser ofensivo, agressivo, de mau gosto, por expor imagens de violência
ou qualquer coisa que vá de encontro aos valores daquele que participa da rede.
Nos grupos, a situação não é diferente, pois a maior proximidade, a afinidade e até
a intimidade que sustentam a amizade fora daquele ambiente e que gerou um
grupo na rede social deixa mais evidente a situação de desacordo com um
conteúdo não aprovado. Isso porque para quem está dentro do grupo é como se o
fato de ele ter sido criado, as pessoas terem sido incluídas e aceitado participar
significa que todos conhecem os códigos daquela relação levados para o site de
rede social. Logo, sabem também das consequências de determinados assuntos e
como eles impactam ou fazem com que os amigos reajam. Os amigos reunidos
num grupo já têm um conhecimento prévio que vem da relação offline e sabem o
quanto determinado assunto ou tema pode provocar, incomodar, gerar conflitos
etc. E se alguém compartilha no grupo algo desse tipo, demonstra que não
reconhece aqueles códigos da relação, podendo sentir-se ou até ser excluído das
interações.
Houve uma situação de tensão no grupo 5 que atesta o que foi descrito
acima. Num comentário irônico, um dos participantes se sentiu ofendido e a
resposta da amiga no grupo fez referência ao que ela chamou de “mania de
perseguição”, uma situação que ela demonstra conhecer da relação que tem com o
amigo fora do Facebook.
91
Figura 6. Tensão entre os participantes do grupo 5
Os entrevistados chamaram de desgaste o processo que ocorre quando um
dos amigos adicionados a sua rede tem um comportamento reincidente com
conteúdos que desaprovam. Eles afirmaram que sentem-se constrangidos e que
aquela situação ajuda a construir a imagem que fazem do amigo fora do site. É
como se as publicações e seus conteúdos fossem tornando-se fragmentos do que é
a pessoa. E nessas demonstrações, revelam o que ainda não havia sido apreendido
em outras interações.
Porque você conhece a pessoa de verdade, vê quais são os gostos dela que são
diferentes do seu, isso afasta”. Isso não acontece muito com meus amigos porque
eu convivo direto com eles, conheço-os muito bem. Mas com os outros, os
conhecidos, o Facebook me mostra as opiniões e os comportamentos daqueles com
quem não me identifico. Por isso eu excluo, prefiro excluir para não voltar a me
decepcionar. (Participante G)
92
Sabe televisão? Se você não quiser ver aquilo, você muda de canal, é isso que faço
com as coisas que não me interessam. (Participante H)
Dois entrevistados afirmaram que já passaram também pela situação
contrária, quando começaram a conhecer alguém melhor através dos conteúdos
publicados. Exatamente o inverso do que foi descrito acima. Eles relataram que
tinham em suas listas de amigos pessoas que não eram tão próximas, aquelas com
quem mantiveram uma relação durante certo tempo, mas que não se firmou como
amizade. E isso não aconteceu justamente porque na relação offline não
ocorreram as trocas e interações apropriadas para estabelecer a amizade com
aquelas pessoas. No entanto, com essas pessoas no site de rede social,
descobriram afinidades, opiniões similares e isso, de certa forma, ajudou a
modificar ou construir outra imagem daquele participante. Porém, eles são
bastante enfáticos: o Facebook ajudou a identificá-los próximos por algumas
razões, mas não propiciou a relação de amizade.
O que o Facebook trouxe foi essa facilidade de saber sempre mais um pouco da
pessoa, do amigo que eu sabia pouco antes ou que só sabia de mais coisas quando a
gente se encontrava. Ali tem sempre um pouquinho daquela pessoa, dá pra ir
conhecendo mais, sabendo mais. E ali mesmo já faço a seleção de quem quero e
quem não quero como amigo. (Participante I)
Por fim, ainda sobre o conteúdo, nota-se que ele pode abrir para a relação
offline a possibilidade de um diálogo entre dois participantes que são “amigos” no
Facebook, como também é capaz de permitir uma conversa ininterrupta em suas
interações. Na primeira situação, os entrevistados concordaram que o que
descobrem ou sabem de outros participantes através do Facebook pode ajudar a
começar uma conversa offline, como, por exemplo, entre colegas de trabalho na
empresa ou numa situação mais informal fora dela. Saber previamente o que
aquele participante que está na sua lista de amigos gosta ou esteve fazendo, ajuda
a deixar menos tensa a relação e um possível diálogo nessas ocasiões. Já para os
amigos cuja relação é anterior ao Facebook, qualquer comentário compartilhado,
foto, vídeo, opinião é como se abrisse uma sala de bate papo, um chat, em que
eles podem interagir continuamente sem necessariamente contar com a presença
de todos juntos ao mesmo tempo. É como apresentado no primeiro capítulo, tratase de uma interação mútua e síncrona e assíncrona simultaneamente. E essa
interação no Facebook, possibilitada pela interação mediada pelo computador,
93
pode estender e manter a relação offline entre os amigos, pois a sensação é a de
como se estivessem ainda mais próximos, fato que a internet e sua mobilidade
com smartphones ajudam a reforçar.
Para mim, ele é como um fórum melhorado. O legal é poder falar para todo mundo
e ouvir as respostas, comentar. Eu gosto de mostrar uns assuntos para os meus
amigos e a gente fica conversando nos comentários. O mais legal é que são amigos
daqui, tem uma que está morando agora em Buenos Aires, outro na Alemanha e a
gente fica se falando como se estivesse frente a frente. É legal isso de poder
continuar falando com eles, debatendo os assuntos como a gente faz pessoalmente
quando se encontra, mas agora pode fazer mesmo com eles estando longe. A gente
se fala muito, esses que estão morando fora trazem coisas novas lá dos países onde
estão, é bem legal. Aliás, essa é uma das melhores coisas em relação a ter meus
amigos ali conectados comigo, é o mais legal do Facebook. (Participante J)
Assim, o pessoal da faculdade, por exemplo, alguns não vejo sempre na aula, mas
estão no meu Facebook, mas quando vou conversar com eles, quando vou discutir
qualquer coisa, já sei mais ou menos do que a pessoa gosta, do que posso falar.
(Participante K)
Sobre os recursos do site, os mais citados são os grupos, a sinalização do dia
do aniversário dos participantes, as configurações de privacidade e a publicação e
marcação de fotos. Os dois primeiros são mencionados positivamente, pois são
vistos como ferramentas que auxiliam a interação. Assim também com os grupos,
por todas as razões já explicadas aqui anteriormente, tanto em relação ao uso
pelos amigos, quanto pela possibilidade de reunir novamente aqueles que estavam
afastados. A indicação do dia do aniversário de outros participantes, mas
principalmente dos amigos, é como se fosse o lembrete de um compromisso, a
sinalização de um alarme que soa chamando a atenção para a necessidade de
interagir, de felicitar aquela pessoa. Diante da infinidade de coisas a fazer,
assuntos para resolver no dia a dia, diante da correria e das pressões por todos os
lados sobre o indivíduo que vive na pós-modernidade, nada melhor do que um
alarme, um lembrete que o desperta e o chama a fazer algo, assim como usa todos
os dias o alarme para acordar, os calendários e agendas para reuniões no trabalho
e tantos outros artifícios para marcar e lembrar compromissos.
Por outro lado, as configurações de privacidade não são bem aceitas pelos
participantes do Facebook que foram entrevistados. A maioria deles afirmou que
não quer pensar em usar configurações para definir o que e com quem
compartilhar. Preferem pensar antes em quem aceitam em sua rede, pois não
94
querem se preocupar em dividir em grupos como expressar o que sentem, o que
compartilham. Para eles, o Facebook é usado como um espaço para interação, em
que não cabe definir configurações de privacidade na hora de expressar o que está
sentindo. Como na relação offline, confiam e sabem que podem contar com
aqueles que estão adicionados em suas listas de amigos, por isso mesmo excluem
ou não aceitam pedidos de amizade daqueles que – acreditam – podem não
entender o que dizem.
Para aceitar alguém como amigo, avalio bastante se vale a pena porque quero poder
falar sem restrições o que penso, falar abertamente e nem todo mundo vai entender
algumas coisas, já meus amigos, sim. Porque eles estão mais próximos sabem do
que estou falando, mesmo quando falo algo enigmático. (Participante L)
Eles também concordam que a exceção para aceitar o pedido de amizade de
alguém fora dessas condições, ou usar algum dos recursos de privacidade do site,
ocorre quando a situação pode gerar algum constrangimento na relação offline
com a pessoa que enviou o pedido.
Por exemplo, a namorada do meu irmão me adicionou, é recente ela, não acho que
temos intimidade, mas imagina ela na minha casa perguntando por que não aceitei
ela no Facebook. Aceito mas bloqueio álbuns, restrinjo algumas coisas pra ela.
(Participante M)
Tenho casos assim com o pessoal do trabalho. É chato às vezes ter que aceitar
alguém do trabalho, mas como explico pra ele que não aceitei com a pessoa do meu
lado todo dia? (Participante N)
Isso comprova que o site de rede social não está necessariamente criando
nenhum código novo para a relação de amizade. Até por ainda não saberem muito
bem como lidar com diversas situações nesses novos ambientes, as pessoas
buscam referências nos contextos interacionais anteriores ao surgimento deles, no
contexto relacional da amizade existente antes do Facebook ou de qualquer
ferramenta ou site de interação pela internet.
Com as fotos o problema reside sobre a marcação do nome de um amigo em
qualquer uma delas. Marcar um amigo numa foto é um recurso que permite
associar o perfil de um participante do Facebook a uma imagem publicada por
alguém. Por exemplo: em uma foto feita na praia aparecem três amigos seus que
estão na sua lista no Facebook. Ao publicar essa foto no mural ou em um álbum,
esse participante pode associar o rosto de cada um na imagem ao perfil dos seus
95
amigos no site. E quando você é marcado em qualquer foto, a não ser que tenha
usado configurações de privacidade, toda sua lista de amigos será notificada sobre
a foto compartilhada com seu nome. O problema, segundo relatam os
entrevistados, é quando não queriam ter a imagem mostrada publicamente. Alguns
relataram que seus amigos já publicaram e os marcaram em fotos em momentos
íntimos, situações particulares e aquilo não agradou.
Dos recursos do site citados pelos entrevistados, o que mais agrada, além da
lembrança do dia do aniversário, são as listas. As listas são como grupos, sendo
que algumas são criadas automaticamente pelo Facebook e outras, ativadas pelos
usuários. A diferença em relação a um grupo é que a lista não é um espaço de bate
papo, interação, ela é, na verdade, uma seleção, como se fosse um filtro
agrupando amigos com alguma característica similar. Por exemplo: o Facebook
cria, nomeia e agrupa numa mesma lista todos os seus amigos que informaram nos
dados do perfil o nome da empresa em que vocês trabalham. Se você trabalha na
empresa XYZ, incluiu essa informação mencionando-a em seu perfil e tem na sua
lista de amigos pessoas que fizeram o mesmo, automaticamente o Facebook cria
uma lista com o nome dessa empresa e inclui dentro dela esses seus amigos.
Quando você acessa essa lista, você verá somente as atualizações e publicações
das pessoas que estão incluídas nela. É realmente como se fosse um filtro para
selecionar, dentre tanto conteúdo compartilhado, o que você quer ver.
Mas não são as listas automáticas as que foram citadas como um recurso
positivo do site. O Facebook tem uma lista automática chamada “Melhores
Amigos”, mas que só é ativada a partir do momento em que o usuário inclui ao
menos um amigo dentro dela. Ou seja, embora o site já traga esse recurso
disponível, ele não faz a seleção dos amigos para incluir nessa lista. No entanto,
alguns entrevistados confirmaram que ativaram e usam essa lista para fazer um
filtro do que querem ler, não tanto para o que vão publicar.
Contudo, as listas também podem ser usadas como um recurso de
privacidade. Quando um conteúdo é publicado pelo usuário, ele pode escolher
compartilhar somente com uma ou mais listas automáticas ou para aquelas criadas
por ele. Sendo que, pelos depoimentos até aqui, as configurações de privacidade
96
com o intuito de restringir o que publicar para a lista de amigos não agradam aos
participantes. Por outro lado, a lista permite que o usuário leia diretamente o
conteúdo compartilhado por aquelas pessoas que mais o interessam, que seriam
justamente essas incluídas nas listas.
Nas entrevistas, a lista “Melhores Amigos” foi citada como um facilitador
para saber o que os amigos – geralmente poucos e aqueles de uma relação de
longa data – estão fazendo, o que compartilharam, o que contaram nos últimos
dias. Ao invés de ler todos os comentários publicados um a um, a lista facilita
saber sobre um pequeno grupo de amigos cujo conteúdo mais interessa, que
podem estar diretamente associados aos melhores amigos na relação offline.
Dessa forma, os diversos conteúdos da interação reforçam a relação social, ou
melhor, a relação de amizade do offline para o online, e vice-versa.
Recuero aponta que a interação mediada pelo computador pode gerar e
manter “relações complexas e de tipos de valores que constroem e mantêm as
redes sociais na Internet.” (Recuero, 2009, p.36). Com isso, a interação nesse
ambiente, segundo a autora, gera relações sociais que vão criar ou fortalecer laços
sociais. Como descrito no primeiro capítulo, os laços sociais se constituem a partir
das relações sociais e são a “efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos
nas interações.” (Recuero, 2009, p.38) A amizade pode ser considerada, nesse
contexto, um laço forte, estabelecido sobre uma relação social que se faz a partir
da troca de conteúdo em diversas interações entre os indivíduos. Tal qual a
relação no off-line, a relação entre amigos no online está se espelhando na
“forma” e no conteúdo” da primeira, como se pode constatar até aqui.
Laços consistem em uma ou mais relações específicas, tais como
proximidade, contato freqüente, fluxos de informação, conflito ou suporte
emocional. A interconexão destes laços canaliza recursos para localizações
específicas na estrutura dos sistemas sociais. Os padrões destas relações – a
estrutura da rede social – organiza os sistemas de troca, controle, dependência,
cooperação e conflito. (Wellman, 2001, p.7 apud Recuero 2009, 38)
97
3.5.1. Gramática da amizade
Quando Mauss (1980), em sua obra, demonstra que a expressão dos
sentimentos está associada a uma linguagem, uma “gramática”, ele assegura que a
compreensão da expressão dos sentimentos se dá entre os indivíduos por conta de
um código comum partilhado por todos. Os ritos, os gestos, os sons, além de
obrigatórios, resultado de uma força coercitiva externa, também podem ser
íntimos, espontâneos, permitindo que o sujeito vivencie de fato o que demonstra
estar sentindo. Tomando a amizade como um sentimento, logo, composta por uma
linguagem típica para que se compreenda e se estabeleça a relação entre as partes,
e, ao mesmo tempo, a tensão de caráter obrigatório e espontâneo expresso pela
dádiva nas relações sociais, foram selecionados e nomeados alguns desses códigos
observados a partir do estudo “netnográfico” realizado nesta pesquisa, em
conjunto com as entrevistas em profundidade aplicadas. A seguir, consideramos
possíveis códigos observados na relação de amizade no Facebook.
3.5.1.1. Amigos não se encaixam em categorias, são decorrentes de
laços fortes
Isso significa que, assim como em suas vidas offline, as pessoas não estão,
num site de rede social, dividindo os amigos em categorias, separando tipos
diferentes de interações para cada grupo. Na verdade, a relação de amizade
estabelecida através do ambiente de interação online está refletindo a forma como
ela se constitui no offline, ou seja, os amigos são aqueles com quem se tem uma
relação originada a partir de frequentes e diferentes interações, em grande parte
dos casos ao longo de muitos anos, reforçando, através do conteúdo trocado
nessas interações, a relação entre as partes.
Embora o Facebook, como qualquer site de rede social, permita que as
interações sejam mais frequentes, ele não é tido ainda como um espaço capaz de
estabelecer uma relação de amizade. Como os entrevistados atestaram, a amizade
vai se fortalecendo tanto quanto aumentam os contatos e a interação pessoal, face
a face, com outras pessoas, o que os leva a considerar amigos aqueles que os
acompanham há anos, como os amigos de infância, da escola, da faculdade etc.
98
As interações mais frequentes nesse site ajudariam apenas a conhecer de
maneira mais rápida aquilo que, numa relação de amizade anterior ao Facebook,
se descobriria com o passar dos anos, nas trocas, no convívio, nos encontros, nas
conversas. Como isso já ocorreu em uma fase anterior, para esses amigos agora
conectados através do Facebook, esse repertório já foi construído e ajuda a
fortalecer o laço entre eles na comunicação mediada pelo computador. Para as
amizades mais recentes, ou aquelas relações que ainda podem vir a se tornar uma
amizade, esse site permite receber dos amigos o conteúdo que vai moldar a
relação e fazê-la ser aceita ou rejeitada.
Sendo assim, o que esses usuários do Facebook buscam na construção de
sua rede social online é manter próximos os amigos que são de um contexto
relacional anterior ao site, permitindo que possam agir com a liberdade que
julgam necessária para expressar a amizade através dos conteúdos que
compartilham. As exceções ficam com os casos de pedidos de amizade aceitos por
uma convenção social, como os colegas de trabalho, ou a fim de evitar
constrangimentos, como familiares. Sobre essa liberdade para exprimir uma
emoção, uma opinião ou qualquer tipo de conteúdo que reforce os laços de
amizade nesse site de rede social, pode-se recorrer à definição de Godbout (1999),
para quem, na dádiva, a liberdade, quando preservada, cumpre o papel de reforçar
os vínculos por ela criados, denotando um caráter espontâneo em oposição a uma
reciprocidade vivida como coação.
3.5.1.2. A reciprocidade nas trocas
Como dito anteriormente, as interações podem ser feitas de diversos
conteúdos, e o Facebook multiplicou as possibilidades e tipos de conteúdos
trocados entre os amigos nas interações dentro desse site. Essa multiplicação
ocorre à medida que a interação pode se dar através de fotos, álbuns, links, vídeos,
textos, tudo dentro do mesmo ambiente e de maneira atemporal, já que ficam
disponíveis e podem ser acessados a qualquer tempo.
No entanto, esta pesquisa comprovou que, para a relação de amizade, o
conteúdo compartilhado nas interações tem uma relação direta entre quem dá e
recebe, ou seja, no Facebook as pessoas aproximam-se ainda mais daquelas que
99
demonstram gostos, opiniões, preferências similares às suas. E essa similaridade,
em grande parte dos casos, foi sendo construída na relação de amizade existente
antes desse site. Logo, voltamos mais uma vez às amizades de infância, do
colégio, da faculdade e mesmo aquelas oriundas das relações profissionais, entre
colegas que com a convivência diária tornaram-se amigos.
Em seus depoimentos, os entrevistados afirmaram que, no Facebook,
querem receber em troca conteúdos similares aos que compartilham. Eles dão aos
amigos informações, fotos, vídeos, dicas, novidades e querem receber de volta o
mesmo tipo de conteúdo com a opinião dos amigos sobre lugares visitados, livros
lidos, filmes assistidos, comidas provadas, marcas compradas etc. Para as
amizades existentes num contexto anterior ao do Facebook, a interação no site
serve para aproximar ainda mais os amigos. Já para as amizades mais recentes, o
conteúdo compartilhado é como um teste que pode aprovar ou reprovar o
“candidato a amigo”. Por isso mesmo é que alguns entrevistados afirmaram que
não se sentem constrangidos ou impedidos de excluir alguém que tenha sido
adicionado à rede, mas que não esteja correspondendo conforme o esperado. Ou
seja, aquele que compartilha o que não é considerado interessante para quem
recebe o conteúdo.
No Facebook, o verbo ‘curtir’ tornou-se sinônimo dessa reciprocidade
intencionada nas trocas. Qualquer conteúdo compartilhado nesse site pode ser
curtido, clicando em um link abaixo da mensagem, que sinaliza com uma imagem
do dedo polegar em sinal de positivo, que ele agradou, que quem curtiu está de
acordo, concorda, gosta do que viu compartilhado pelo amigo.
3.5.1.3. Mais do que o número de amigos, quero saber de quem me
interessa
No Facebook, cada usuário tem em média 130 amigos 19, mas alguns
chegam a somar até cinco mil, que é o limite de um perfil do site. Ainda assim, as
entrevistas comprovaram que quando esse número é levado para fora do site, na
vida offline, os usuários mantêm relação, interação face a face, com até menos de
10% desse total. Alguns chegaram a se referir a um grupo de seis, no máximo, dez
19
www.facebook.com/press/info.php?statistics (julho de 2010)
100
pessoas da escola ou da faculdade. Quando se referem a amigos de infância, esse
número é menor ainda. O fato é que somando amigos de infância com os de
colégio e faculdade ou trabalho, chega-se a um resultado muito menor do que a
quantidade de “amigos” que se tem na rede social online.
Isso foi comprovado com duas situações descritas durante as entrevistas: a
lembrança da utilização da lista de melhores amigos e a sinalização feita pelo site
do dia do aniversário dos participantes. Em relação a esse último, quase todos os
entrevistados confirmaram que o recurso do site é positivo. Mas que embora
escrevam uma mensagem de felicitação para os “amigos” mostrados pelo site no
dia do aniversário, é somente para poucos que eles ligam, visitam ou comparecem
à festa de aniversário. Esse dado nos leva ao mesmo ponto em comum com os
outros dois itens citados acima: a interação mais próxima, aquela que vai além da
mensagem de texto felicitando pelo site, é com os amigos cujo laço é mais forte. E
esses amigos, mais uma vez, são aqueles que estão relacionados a um contexto
anterior ao Facebook.
Já a lista “Melhores Amigos” comprova que eles interessam-se pelo que
dizem ou fazem aqueles com quem têm uma relação de laço forte. Como uma
forma de filtrar tudo que recebem no Facebook, os usuários demonstram, com a
utilização dessa lista, que preferem receber conteúdo ou buscá-lo entre os seus
amigos que fazem parte daquele menor grupo com quem interagem fora do site. É
mais uma comprovação de que a relação de amizade offline é adaptada para o
online, e não um indicativo de que há uma nova configuração dessa relação a
partir dos sites de redes sociais.
Esses três aspectos identificados como expressões de um código da
amizade, analisando sob a ótica da interação no Facebook, têm em comum o fato
de que a amizade é sempre marcada pela relação de mais longo prazo,
estabelecida através da troca de conteúdos frequentes em interações diversas. E
geralmente esses amigos são poucos, bem diferente da quantidade de “amigos”
listados no Facebook, por exemplo. Nesse site, existe a possibilidade de mais
interação com mais gente, porém, essa interação não garante a existência de uma
relação de amizade.
101
Como o foco desta pesquisa estava em localizar a amizade – como
experimentada pelos indivíduos e descrita pelas Ciências Sociais num contexto
anterior ao Facebook – dentro de um site de rede social, em que todos estão
conectados pelo que se chama “amizade”, não foi analisada a possibilidade de
uma relação como essa surgir e se manter através do site, partindo,
posteriormente, para interações face a face. Foi realizada aqui a investigação do
caminho do offline para o online e possíveis impactos reversos. Isso não quer
dizer que não exista a possibilidade de ocorrer o contrário, de uma amizade
começar pelo site de rede social e, a partir da interação com os conteúdos
trocados, seguir em direção ao contato offline até que o tempo e a frequência
possibilitem constituir a “pura relação”, a amizade como descrita por Giddens e
pelos entrevistados, que citam, como o autor, a intimidade no âmbito dessa
relação. Mas o ponto principal da constatação desta pesquisa é que a relação
online só existe porque uma relação mais forte, offline, existiu antes.
Por outro lado, há dois aspectos observados nesta pesquisa sobre a interação
no ambiente online desse site de rede social que estão se estendendo sobre a
interação offline, por isso mesmo importantes de serem destacados aqui.
O primeiro deles, também notado no depoimento dos entrevistados, diz
respeito a como os temas e assuntos dos conteúdos compartilhados no Facebook
estão sendo levados para o offline ou se estendem a partir do online para o offline.
No primeiro caso estão situações como desacordos sobre atitudes no online, por
exemplo, excluir ou bloquear um participante. Nota-se que, mesmo tendo definido
parâmetros para aceitar amigos em sua rede no site, muitos usuários ainda têm
dúvidas sobre como lidar com situações atípicas. Para os amigos, enviam ou
aceitam pedidos de amizade sem restrições; para conhecidos, é feita uma
avaliação, mas nada impede que, no futuro, eles possam ser excluídos. Já para
situações como um conflito, uma discussão ou um comportamento considerado
inadequado por uma das partes, os usuários têm dúvidas sobre o impacto de uma
atitude como excluir a pessoa para a relação offline. E para esse tema não há
consenso entre os participantes. Alguns acreditam que o que é feito no online vale
também para o offline; outros discordam; e ainda há aqueles que consideram dois
mundos, duas relações completamente distintas. O fato é que essa etiqueta de
102
comportamento,
ou
“netiqueta”,
ainda
provoca
muitas
dúvidas
e
desentendimentos entre os usuários do Facebook. E é freqüente encontrar pessoas
discutindo situações como essa numa mesa de almoço, num encontro de amigos,
numa mesa de bar etc. O comportamento online tornou-se pauta da relação de
amizade offline.
Há também os casos em que as atualizações, o conteúdo compartilhado no
site, facilitam a interação no offline. Dando pistas sobre gostos musicais, lugares
visitados, atividades pessoais e profissionais, os usuários vão criando um
repertório que possibilita fazer desses temas assuntos para uma abordagem fora do
site. Um dos entrevistados citou que para conversar com pessoas com quem
trabalha e que estão entre seus amigos do Facebook costuma usar os assuntos e
opiniões compartilhados por essas pessoas no site. Na falta de um conhecimento
mais profundo sobre o que a pessoa gosta, aonde vai, o que pensa, essas pistas
ajudam a estabelecer o diálogo, colaboram para facilitar a interação. Mas isso vale
principalmente para a relação com aquelas pessoas que não são os amigos cuja
relação é de longa data e para com os quais existe um alto grau de afinidade e até
intimidade.
O segundo aspecto diz respeito à utilização do espaço como local da
memória da amizade. Com a possibilidade de compartilhar fotos principalmente,
nota-se que os usuários estão fazendo do Facebook um repositório das memórias,
das lembranças da amizade. Muitos compartilham fotos antigas, comentam sobre
a época passada, lembram situações vividas juntos e com muita frequência
compartilham toda e qualquer foto feita nos últimos anos. Depois de um encontro
à noite com fotos, compartilham num álbum no Facebook; depois de uma festa de
aniversário com fotos, compartilham também; sempre que viajam juntos ou
comparecem a um evento, logo em seguida compartilham as fotos feitas nessas
ocasiões. E é dessa forma que os álbuns no Facebook tornam-se apoio à memória
da relação entre dois ou mais amigos ou entre um grupo de amigos. As fotos
ficam disponíveis para serem acessadas a qualquer momento e, mesmo as mais
antigas depois de compartilhadas, também podem, a qualquer tempo, serem
trazidas de volta com um comentário ou um “curti”.
103
Nos grupos dentro do site também é bastante evidente como aquele espaço
se tornou um espaço de memória. Tanto pelos reencontros possibilitados pela
tecnologia quanto pela frequência e interação constante dos amigos mais
próximos, como em um dos grupos observados nesta pesquisa. Nele, as interações
são diárias e mais de uma vez ao dia, fazendo com que o grupo torne-se uma
extensão da interação face a face, pois todos, ou quase todos, os assuntos
vivenciados e discutidos no offline são levados para o online, e vice-versa. Nesse
exemplo, o grupo tornou-se quase que um repositório das ações cotidianas de
todos os amigos participantes, que informam onde estão ou estiveram, o que estão
fazendo, onde almoçaram, agendam encontros, compartilham fotos feitas no dia e
em ocasiões passadas etc. Isso os mantém em contato permanente e ao mesmo
tempo cria no site um histórico de quase todas as ações que envolveram aquelas
pessoas, por isso considerado um espaço de memória, de lembranças.
O levantamento apresentado acima representa uma tentativa de compreender
a linguagem correspondente à expressão do sentimento da amizade dentro das
interações que ocorrem num espaço em que as relações são mediadas pelo
computador. Como já afirmado antes nesta pesquisa, nesses ambientes as pessoas
ainda buscam referências para estabelecer relações sociais, como a amizade.
Geralmente, essas referências encontram-se nos ambientes externos aos da
internet, nos contextos relacionais existentes antes do surgimento do Facebook ou
de qualquer ferramenta apropriada para a comunicação na rede mundial de
computadores. De comum em ambos os casos está a linguagem, que permite o
compartilhamento de códigos – símbolos, referências, sinais etc – que fluem entre
o offline e o online, e vice-versa, algumas vezes buscando adaptar-se ao meio,
pois são esses códigos que permitem as trocas e a interação no interior de
qualquer relação e na expressão dos sentimentos. E é certamente o que está
ocorrendo com a expressão da amizade em um site de rede social como o
Facebook. Embora conectados todos sejam amigos, a referência de amizade para
quem está online só existe porque, antes, existiu a amizade nos ambientes offline.
104
4. Considerações finais
Para Caillé, Mauss apresentou um modelo de ação social intrinsecamente
plural na reflexão acerca da dádiva. Segundo o autor, com seu trabalho, Mauss
demonstrou que a dádiva
é indissociavelmente ‘livre e obrigada’ de um lado, e interessada e desinteressada
do outro. Obrigada, pois não se dá qualquer coisa a qualquer pessoa, num momento
qualquer ou de qualquer modo, sendo os momentos e as formas da dádiva de fato
socialmente instituídos (...). Contudo, se se tratasse unicamente de mero ritual e
pura mecânica, expressão obrigatória de sentimentos obrigados de generosidade,
então nada ocorreria na verdade, já que, mesmo socialmente imposta, a dádiva só
adquire sentido numa certa atmosfera de espontaneidade. É preciso dar e retribuir.
Sim, mas quando, quanto, com que gestos, quais entonações? Quanto a isso,
mesmo a sociedade selvagem mais controlada pela obrigação ritual deixa ainda um
grande espaço para a iniciativa pessoal. (Caillé, 1998)
Como qualquer sentimento, a expressão da amizade está claramente
definida nessa descrição do autor. Ele refere-se a dar e receber, o que não é feito
de qualquer maneira, nem para qualquer pessoa. Da forma em que os aspectos do
código da amizade, na interação através do Facebook, foram apresentados nesta
pesquisa, pode-se notar claramente que eles seguem e estão de acordo com essa
mesma concepção. Mais ainda: este site de rede social apresenta dentre seus
recursos os elementos estruturais que possibilitam o dar, receber e retribuir
presentes na expressão dos sentimentos e na tensão obrigatória e espontânea da
dádiva.
Outro ponto importante nessa esfera é a questão de quando, quanto e como
dar e retribuir dentro da linguagem que define a expressão de um sentimento.
Rezende & Coelho, apresentando uma visão teórica sobre a relação entre o corpo
e as emoções, demonstram que para a corrente de autores que crê nessa relação, as
emoções, embora possam surgir como reações biológicas a estímulos externos,
“são lembradas desde cedo como parte de um contexto de interação social, e não
são pensadas de forma isolada.” (Rezende & Coelho, 2010, p.30). Dessa forma, as
emoções estariam dentro de esquemas e padrões aprendidos em interações com o
ambiente social e cultural desde a infância, sendo acionados de acordo com cada
contexto, conforme descrevem as autoras. Há também a atribuição das emoções a
um caráter impulsivo, “de reações que, como os fenômenos corporais, até certo
ponto fogem ao controle da pessoa.” (Rezende & Coelho, op. cit.). A crítica das
105
Ciências Sociais a respeito dessa última visão sobre a expressão das emoções
reside sobre o fato de que, se desde a infância, o indivíduo aprende como, quando
e com quem expressar os sentimentos, não haveria um estado inicial em que as
emoções poderiam ser vivenciadas de modo puro, de forma espontânea e sem
controle. Na verdade, com a internalização dessas regras desde muito cedo, tornase mais difícil perceber o controle que elas exercem sobre os sentimentos. Isso, no
entanto, não faz com que as pessoas não percebam, em determinadas situações, as
regras explícitas de como devem expressar suas emoções.
No entanto, é no paradigma da dádiva, de Mauss, que essas críticas se
dissolvem e surge então um modelo teórico para se pensar as emoções como
objeto das Ciências Sociais. Caillé acredita que, enquanto o interacionismo lida
com unidades e sequências delimitadas, a perspectiva de Mauss constrói seus
fatos de outro modo:
substitui um modo de recorte dos objetos operado em função das necessidades da
análise do investigador por uma construção dos fatos segundo as situações em que
estão efetivamente pertinentes para os grupos estudados; as unidades observadas
não são constituídas em isolado [...] A originalidade de sua posição decorre,
precisamente, de sua capacidade de circular entre o plano mais ‘situacional’ e o
mais ‘estrutural’, de praticar o go-between entre níveis diferentes do fato social.
(Caillé, 1998).
Com base nessas evidências é que esta pesquisa avançou sobre as interações
no Facebook e dentro da relação de amizade para compreender de que maneira os
códigos configurados e partilhados pelos indivíduos no contexto anterior a esse
site situam-se, agora, dentro dele. A conclusão foi de que a tecnologia não deve
ser encarada como fator determinante e capaz de reconfigurar aqueles códigos,
mas pode ser atribuída a ela a capacidade de impulsionar e incluir no âmbito das
relações
sociais
outras
formas
de interação,
de múltiplos conteúdos,
independentes de tempo e espaço. Nesse caso, o espaço é o social, é o espaço
compartilhado, que, aliás, é uma forte característica da internet, seu espaço
“social” para as interações, como em sites de redes sociais.
Visto que o Facebook tornou-se um espaço social de interação e que, ao
menos, grande parte das regras comuns que regulam a relação de amizade e a
expressão desse sentimento entre os indivíduos, através de uma linguagem
própria, estão ancorados sobre as interações no contexto offline, a questão que se
106
coloca aqui a fim de avançar sobre o tema seria compreender de que maneira as
situações sem referenciais no contexto offline serão resolvidas no ambiente online
de um site de rede social como esse. A liberdade, como apresentado
anteriormente, é primordial para a manutenção do equilíbrio que a própria dádiva
exige das relações. Por outro lado, de que maneira ela pode estar relacionada, por
exemplo, aos conflitos gerados, dentro desse site de rede social, quando permite
que os indivíduos façam uso de códigos não partilhados entre todos na linguagem
que expressa a amizade? O desenvolvimento da interação e das relações sociais
que se estabelecem agora em ambientes de comunicação mediada pelo
computador, assim como a linguagem identificada na expressão dos sentimentos
no cenário da cibercultura devem tornar-se temas de grande relevância e interesse
tanto para a Comunicação Social quanto para as Ciências Sociais. Esta pesquisa
representa o primeiro passo nesse sentido e pretende colaborar para o avanço e o
desenvolvimento de novos estudos os campos das Ciências Humanas e Sociais.
107
5. Referências bibliográficas
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2000 (Coleção Os
pensadores. Livro I)
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editora, 2001.
BRAGA, Adriana. Personas materno-eletrônicas: feminilidade e
interação no blog Mothern. Porto Alegre: Sulina, 2008
CAILLÉ, Alain. Nem holismo nem individualismo metodológicos.
Marcel Mauss e o paradigma da dádiva. Revista Brasileira de Ciências
Sociais, v.13, n.38, São Paulo, outubro. 1998
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Dissertação de mestrado aborda a gramática da amizade no