“A realização deste estudo foi apoiada pela Agência Norte Americana para Desenvolvimento Internacional (USAID) através da ARD – PROGOV. Porém, as conclusões deste estudo não reflectem necessariamente quer a opinião da USAID, quer da ARD – PROGOV ou de seus funcionários.” CENTRO DE INTEGRIDADE PÚBLICA CENTER FOR PUBLIC INTEGRITY Boa Governação-Transparência-Integridade Good Governance-Transparency-Integrity Av. Amílcar Cabral, 903; 1º Andar Tel.: (+258) 21 32 76 61 - Fax: (+258) 21 32 76 61 Cel.: (+258) 82 301 6991 - Caixa Postal: 3266 Maputo-Moçambique Email:[email protected] ou [email protected] Website:integridadepublica.org.mz Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Chibuto, Chimoio, Dondo, Gurue, Nacala e Vilanculos Adriano Nuvunga Marcelo Mosse César Varela Maputo, Março de 2007 Ficha Técnica: Título: Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Chibuto, Chimoio, Dondo, Gurue, Nacala, e Vilanculos Autor: Adriano Nuvunga, Marcelo Mosse e César Varela Edição: Centro de Integridade Pública de Moçambique Design e Layout: Élia Manjate Impressão: CIEDIMA Tiragem: 300 exemplares Maputo, Março de 2007 ÍNDICE 1.Introdução 5 2. Objectivos do estudo 5 3. Considerações metodológicas do estudo 5 4. Constatações por Município 7 4.1. Município de Chibuto 7 4.1.1. Informação Básica sobre Chibuto 7 4.1.2. Breve Contexto Político de Chibuto 7 4.1.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Chibuto 7 4.1.4. Vereação de Construção e Urbanização 7 4.1.5. Sector de Estradas 8 4.1.6. Sector de Finanças e Mercados 9 4.1.7. Participação popular na planificação e orçamentação 10 4.1.8. Prestação de Contas 11 4.1.9. Sociedade Civil 11 4.2. Município de Dondo 11 4.2.1. Informação Básica sobre Dondo 11 4.2.2. Breve Contexto Político de Dondo 11 4.2.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Dondo 12 4.2.4. Vereação de Construção e Urbanização 12 4.2.5. Sector de Finanças e Mercados 12 4.2.6. Participação popular na planificação e orçamentação 13 4.2.7. Prestação de Contas 13 4.2.8. Sociedade Civil 14 4.3. Município de Nacala 14 4.3.1. Informação Básica sobre Nacala 14 4.3.2. Breve Contexto Político de Nacala 15 4.3.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Nacala 15 4.3.4. Vereação de Administração e Finanças (Mercados) 15 4.3.5. Gestão Financeira 16 4.3.6. Área de vereação de Urbanismo, Infra-Estruturas, Transportes e Comunicações 18 4.3.7. Participação popular na planificação e orçamentação 19 4.3.8. Prestação de Contas 19 4.3.9. Possibilidades de Controlo Social 20 4.4. Município de Vilankulo 20 4.4.1. Informação Básica sobre Vilankulo 20 4.4.2. Breve Contexto Político de Vilankulo 20 4.4.3. O que já se disse sobre o assunto em Vilankulo 20 4.4.4. Sector de Administração e Finanças 21 4.4.5. Gestão de Finanças 22 4.4.6. Sector de Compras e Recepção 23 4.4.7. Área de Urbanismo, Obras Públicas e Transportes 24 4.4.8. O Sector de Obras Públicas 24 Regras arbitrárias 25 4.4.9. O papel da Assembleia Municipal 26 4.4.10. Participação popular na planificação e orçamentação 26 4.4.11. Possibilidades de Controlo Social 27 4.5. Município de Gurué 28 4.5.1. Informação Básica sobre Gurué 28 4.5.2. Breve Contexto Político de Gurué 28 4.5.3. O que já se disse sobre o assunto em Gurué 28 4.5.4. Vereação de Planeamento, Actividades Económicas, Finanças e Abastecimento Público 28 4.5.5. A nível da vereação de Urbanização, Administração Territorial e Saneamento 29 4.5.6. A prestação de contas e a participação popular na planificação e orçamentação 30 4.5.7. Possibilidades de Controlo Social 30 4.6. Município de Chimoio 30 4.6.1. Informação Básica sobre Chimoio 30 4.6.2. Breve Contexto Político de Chimoio 30 4.6.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Chimoio 31 4.6.4. Contexto e constrangimentos sobre a pesquisa 31 4.6.5. Vereação de Indústria e Comércio (Secção de Mercados) 32 4.6.7. Vereação de Finanças (Direcção de Administração e Finanças) 33 4.6.8. Vereação de Construções e Urbanização 34 4.6.9. Participação popular na planificação e orçamentação 35 4.6.10. Prestação de Contas 36 5. Constatações gerais 36 6. Recomendações 37 7. Referências 38 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS EP1: Ensino Primário do Iº Grau $: Dólares Americanos AM: Assembleia Municipal CIP: Centro de Integridade Pública CM: Conselho Municipal CMV: Conselho Municipal de Vilankulo DUAT: Direito de Uso e Aproveitamento da Terra FE: Fundo de Estradas GTZ: Germany Technical Cooperation Mts: Meticais da Antiga Família MTn: Meticais da Nova Família PDM: Projecto de Desenvolvimento Municipal PROGOV: Projecto de Governação Autárquica Democrática TA: Tribunal Administrativo ANAVIL: Associação dos Naturais de Vilankulo Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 1.Introdução A comunicação social tem denunciado casos de gestão não transparente de finanças autárquicas. Estas denúncias incluem casos de contratação de bens e serviços pelos governos locais sem a observância de regras públicas de contratação de bens e serviços; degradação precoce de infraestruturais cuja reabilitação custará milhares de MTn. Pelo seu interesse na melhoria da qualidade de governação nos municípios moçambicanos, o PROGOV encomendou a realização de um estudo sobre transparência, áreas de risco e fragilidades institucionais para a prática de corrupção em cinco municípios. Longe de ser uma investigação criminal, uma inspecção administrativa ou financeira, o estudo pretendia compreender as áreas de risco e oportunidades para a prática de corrupção, a partir da análise de procedimentos e práticas administrativas dos Conselhos Municipais em conjugação com as percepções dos próprios agentes (funcionários) municipais sobre a problemática da transparência na gestão do bem comum municipal. Na verdade, este é um diagnóstico para acção, ou seja, um estudo que é feito para permitir uma melhor compreensão duma problemática que se pretende abordar, numa fase seguinte. No caso vertente, é a compreensão de fragilidades institucionais para a prática de corrupção para depois se estudar a melhor maneira de se introduzir anticorpos institucionais que possam dificultar o seu aproveitamento para a prática daquele fenómeno. O estudo realizado nos municípios de Chibuto, Vilanculos, Dondo, Nacala, Gurué e Chimoio, concluiu que há áreas de risco e oportunidades para a prática tanto de grande como de pequena corrupção. Em termos de áreas, o estudo concluiu que a contratação de empreitadas para a prestação de serviços e a aquisição de bens e serviços são as áreas de maior risco para a prática de grande corrupção (avaliando pelos 1/ valores monetários envolvidos; e 2/ os volumes orçamentais dos municípios moçambicanos). Os mercados e os vários serviços que requerem contacto entre agentes municipais e o público, sobretudo, tramitação de expediente para a legalização de parcelas e concessão de licenças de construção e fiscalização, apresentam oportunidades e riscos para a prática de pequena corrupção. O presente relatório tem 8 capítulos, designadamente: a introdução, os objectivos, considerações metodológicas, constatações por município, constatações gerais, recomendações, referências e a lista de entrevistados. 2. Objectivos do estudo O estudo tem os seguintes objectivos: • Fazer um levantamento comparativo de opiniões e percepções sobre possíveis práticas de corrupção no contexto da descentralização e gestão municipal e as várias vertentes que ela assume nas autarquias locais, nomeadamente no que diz respeito: o o o à gestão dos mercados; à alocação de terrenos e emissão de licenças de construção; aos concursos públicos para a construção de infra-estruturas. • Mostrar as oportunidades e mecanismos conducentes a actos de corrupção nas autarquias, no ciclo de planificação e orçamentação municipal, nos processos e procedimentos de arrecadação e gestão de finanças públicas e na prestação das contas; • Compreender que tipo de instituições de prestação de contas, responsabilização e controle social existem e funcionam no espaço das autarquias locais; e • Estimar e quantificar os danos e/ou custos directos causados pela corrupção, por exemplo, para a provisão de serviços públicos, a redução de receitas etc. 3. Considerações metodológicas do estudo Para o alcance dos objectivos acima indicados, o estudo foi dividido em duas partes complementares, designadamente a (i) revisão da pouca literatura existente sobre corrupção em Moçambique, em geral, e sobre corrupção nos municípios, em particular; e o (ii) trabalho de campo que foi realizado em seis municípios, designadamente Chibuto, Vilanculos, Dondo, Nacala, Gurue e Chimoio. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Metodologicamente, havia duas formas diferentes para a execução do trabalho de campo, designadamente (i) a pesquisa baseada em percepções dos munícipes sobre as áreas de risco para a prática de corrupção; (ii) e o estudo focalizado na máquina municipal, ou seja, através de entrevistas com os autarcas e o pessoal administrativo dos órgãos autárquicos, incluindo observações através de meios de verificação predeterminados. Este estudo optou pela segunda abordagem, ou seja, teve particular destaque para as entrevistas com o pessoal dos órgãos autárquicos e observações directas através de meios de verificação predeterminados. Porém, onde se mostrou necessário e possível, se fez uma combinação das duas abordagens. O trabalho de campo focalizou nas seguintes áreas: gestão financeira, gestão de mercados, gestão do solo urbano, contratação de bens e serviços, planificação e orçamentação participativas, prestação de contas e possibilidades de controlo social. Sendo uma pesquisa para acção, o trabalho de campo visava, nas áreas acima indicadas, identificar as fragilidades institucionais ou estruturas de oportunidade que podem ser aproveitadas para a prática de corrupção. As entrevistas de tipo semi-estruturadas, incluindo mesas redondas, foram feitas aos autarcas (Conselho e Assembleia); funcionários municipais; organizações da sociedade civil, vendedores e munícipes, sobretudo, na componente de talhões. Em cada uma das áreas acima indicadas, havia meios de verificação previamente definidos e estes incluem: Na área de gestão financeira, a aferição do cumprimento dos preceitos estabelecidos na lei 11/97 de 31 de Maio sobre gestão financeira; os mecanismos de gestão da receita municipal (talhões e mercados); Na área de procurement (contratação de bens e serviços), a aferição da existência de comissões de contratação de bens e serviços (comissão de Compras e de Recepção); os seus termos de referência (normas de procurement); a sua composição; as regras existentes em casos de conflitos de interesse; e a aferição da legalidade procedimental dos processos em arquivo; Na área de gestão de mercados, a aferição da organização dos mercados (existência de cadastros sobre a capacidade dos mercados); mecanismos de controlo dos cobradores e fiscais pelo Conselho Municipal; tipo de senha usada; opinião sobre a integridade dos cobradores e fiscais; a gestão da receita diária dos mercados; Na área de gestão do solo urbano, a aferição dos prazos da tramitação dos processos de legalização de parcelas para habitação e de licenças de construção, incluindo a aferição de quem efectivamente autoriza; os mecanismos de pagamentos das taxas; mecanismos de fiscalização das construções clandestinas; e controle sobre a actividade dos fiscais municipais; Na área de prestação de contas, a aferição da utilização dos mecanismos de prestação vertical e horizontal de contas previstos na lei 2/97 de 18 de Fevereiro e a lei 11/97 de 31 de Maio; Na área de planificação e orçamentação participativas, a aferição dos mecanismos de envolvimento popular na planificação e orçamentação anual; e na componente sobre possibilidades de controlo social, a avaliação das potencialidades existentes nos municípios para um envolvimento popular na fiscalização da actividade governativa (que organizações da sociedade civil existem e quais são as suas potencialidades). Pelo que se pode ver, não se pretendia medir a corrupção em si mas, sim, as fragilidades institucionais ou estruturas de oportunidade existentes nos municípios estudados que podem ser operacionalizadas para a prática de corrupção. Para uma maior compreensão do tipo de fenómenos que possam ocorrer em caso de operacionalização das fragilidades institucionais e áreas de risco, fez-se um brevíssimo enquadramento conceptual do fenómeno da corrupção. Para os objectivos que se pretendem com estas linhas, vale a pena trazer a definição de Klitgaard (1998) que considera a corrupção como uma forma de mau uso do cargo público para benefícios privados ou para fins não oficiais. Ele desenvolveu uma fórmula através da qual se pode definir a corrupção. A fórmula é a seguinte: C = M + D -A Onde: C = Corrupção; M=Monopólio; D=Discricionariedade; A =Accountability Para Klitgaard, seja tratando-se duma actividade pública ou privada, seja de uma actividade não lucrativa, aconteça em Bamako ou em Washington, pode-se encontrar práticas de corrupção quando uma organização ou uma pessoa tem o monopólio de poder sobre um bem ou determinados serviços; tem a discricionariedade de decidir quem vai recebê-lo e em que quantidades, mas não pesa sobre ela nenhuma regra ou prática de accountability, ou seja, essa organização ou pessoa não tem a obrigação de prestar contas. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Para Klitgaard, num contexto semelhante, há mais espaço para a ocorrência de práticas de corrupção, as quais só podem ser controladas se o monopólio for redzuzido, a discricionariedade clarificada e a transparência aumentada, a par dum aumento dos desincentivos (custos) formais/legais. O trabalho desta equipa centrou-se, por um lado, na letra D (por ser a fonte de muitas das fragilidades institucionais observáveis em muitas autarquias deste país) e, por outro lado, na letra A (por ser onde devem estar os anticorpos do aproveitamento das fragilidades propiciadas pela letra D. 4. Constatações por Município 4.1. Município de Chibuto 4.1.1. Informação Básica sobre Chibuto Chibuto é uma cidade que fica situada na região central da província de Gaza, junto da bacia do Rio Limpopo e ao norte da cidade de Xai-Xai. Com uma área de cerca de 117 km2 e uma população estimada em 77 000 habitantes, a cidade de Chibuto está organizada em 20 bairros. Economicamente, Chibuto é uma cidade agrícola; nos últimos anos, Chibuto assistiu ao desaparecimento dos seus principais pilares económicos, designadamente a Sogaza (fabrica de descasque de arroz) e a Oliveiras Transportes e Turismo, principal empresa de transportes na zona sul do país. 4.1.2. Breve Contexto Político de Chibuto Desde a primeira experiência da governação local, Chibuto é governado pela Frelimo. O primeiro edil foi Francisco Braz Mulhanga; perdeu a confiança do partido e em 2003, a Frelimo designou Francisco Chichongue para candidato a edil, o qual viria a vencer as eleições, derrotando Pedro Pelembe, da Renamo-UE. Portanto, Chibuto faz parte daquelas autarquias em que houve alternância do poder por mecanismos intra-partidários; são publicamente desconhecidas as razões que ditaram o afastamento de Francisco Mulhanga da edilidade. Com 17 assentos, a AM é composta por 16 membros da Frelimo e 1 da Renamo-União Eleitoral. Surpreendeu a opinião pública que a Renamo-União Eleitoral tenha ganho um assento em Chibuto, dado que Chibuto faz parte do chamado bastião da Frelimo, a província de Gaza. Na verdade, Chibuto é um dos distritos que menos simpatia mostrou perante a Renamo nos últimos 16 anos de vida democrática. 4.1.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Chibuto Em Chibuto ainda não se fez um estudo sobre a problemática da transparência e corrupção. Porém, no seu relatório sobre a assistência técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal apresenta algumas fragilidades detectadas em cada um dos 33 municípios. Para o caso de Chibuto (trabalho realizado entre 14 e 25 de Agosto de 2006), este relatório apontou as seguintes fragilidades: • • • • • • • • • • Não fixação das receitas diárias; Não elaboração da reconciliação bancária; Funcionamento da facturação fora da contabilidade; Falta de cadastro dos contribuintes; Falta de cumprimento das normas de aquisição de bens; Falta de observância das normas na criação das comissões de compra e de recepção; Falta de pessoal no sector de finanças; Existência de conflito de terras; Falta de numeração de talhões na zona suburbana; Falta de uso do livro de protocolo; 4.1.4. Vereação de Construção e Urbanização Concessão de Licenças de Construção O município tem uma zona de expansão, o bairro Chimundo; neste bairro, uma parcela ‘tipo’ para habitação custa cerca de 5000 MTn, alegadamente, por causa dos custos das demarcações. Uma licença de construção duma casa para habitação com três divisões custa entre 300 MTn a 400 MTn, sem incluir os custos do projecto. Uma licença para a construção duma barraca no mercado central custa 500 MTn, incluindo a planta que é feita pelos serviços técnicos do Conselho Municipal. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas No respeitante à tramitação do expediente tanto para a concessão do direito de uso e aproveitamento do solo urbano, como para a emissão de licenças de construção, sobretudo, para habitação no bairro de expansão, os prazos variam entre 20 a 35 dias, mas a norma prevê 15 dias. Reconhecendo a demora, o vereador da área, Jaime Muthemba, alegou escassez de meios de trabalho, sobretudo, técnicos. Esta constitui uma área de risco, como vai-se mostrar mais adiante. Em termos de legalidade, os processos são tramitados em conformidade com a lei, senão a falta de ‘adequada publicidade’. Na verdade, não há evidência de que o Conselho Municipal faça uma publicidade sobre as concessões do direito de uso e aproveitamento do solo: na vitrina não há publicitação dos pedidos e não há arquivo sobre casos anteriores. As percepções populares e, sobretudo, das organizações da sociedade civil, são de que os talhões, tanto na parte urbana como no bairro de expansão, viraram um rentável negócio. O vereador Jaime Muthemba, o arquitecto Luís Vilanculos e o técnico de planeamento físico Jaime Mavale rejeitam estas percepções, afirmando que os pagamentos são feitos contra um recibo que indica, claramente, o montante pago; a data do pagamento; os fins a que se destina, incluindo o agente municipal que instruiu o pagamento. Efectivamente, existem vários canhotos de pagamentos; porém isto não constitui, em si, garantia de que as percepções populares estejam desprovidas de veracidade. Ficou-se com a percepção de que parte da demora na tramitação dos processos tanto de uso e aproveitamento do solo, como de emissão de licenças de construção é propositada, com o objectivo de criar ‘aflição’ nos requerentes. Parte significativa dos pedidos tanto de uso e aproveitamento do solo como de licença de construção são feitos por pessoas que trabalham nas minas da África do Sul, portanto, mineiros que nunca têm uma licença disciplinar para vir a Moçambique não superior a dois (2) meses. Para estas pessoas, o tempo é escasso e um (1) mês de espera para obter uma licença de construção torna-se ‘insuportável’. Há, então, duas saídas para estas pessoas, nomeadamente subornar a equipa dos técnicos de planeamento físico para ‘agilizar’ o processo ou erguer a obra sem licença, as chamadas obras clandestinas. Não se conseguiu evidências sobre a primeira hipótese, apesar de abundarem alegações populares, ou seja, não se conseguiu falar com alguém que tenha ‘agilizado’ o seu processo através de suborno à equipa de técnicos de planeamento físico ou doutros agentes municipais com poder de decisão. Falou-se com várias pessoas que estão a erguer obras (casas para habitação) sem licença alegadamente por excessiva demora dos serviços urbanos em conceder tais licenças. Porém, apenas uma das pessoas com que se falou mostrou evidências de ter iniciado a construção clandestina por causa da demora na tramitação do expediente (cópias de requerimentos dirigidos ao Conselho Municipal). Esta pessoa esperava pelo despacho sobre o pedido de uso e aproveitamento do solo há mais de dez (10) meses. Há indicações, pelo menos no bairro de expansão, duma inoperante cobertura de fiscalização das obras clandestinas; visitou-se 8 casas cujas obras estão, já, na fase de ‘viga’ e os proprietários afirmaram que nunca tiveram missões de fiscalização sobre a legalidade das construções. O vereador da área, Jaime Muthemba, justificou-se alegando que o processo de fiscalização é feito em coordenação com os secretários dos bairros, pelo que há uma complementaridade entre as equipas de fiscalização e as informações prestadas pelos secretários dos bairros. 4.1.5. Sector de Estradas O Conselho Municipal (CM) não realizou nenhuma obra na área de estradas com recurso a fundos próprios. Todas as obras realizadas nesta área foram custeadas pelo Fundo de Estradas (FE), agora descentralizado para a gestão municipal. Em 2005, o CM reabilitou as avenidas Ngungunhane (da rotunda até à avenida 20 de Maio); a avenida 20 de Maio; a rua 20 de Setembro; e, posteriormente, a avenida Eduardo Mondlane. Há informações contraditórias no que respeita à adjudicação das obras que culminaram com a reabilitação do primeiro lote de três avenidas, designadamente a avenida Ngungunhane, 20 de Maio, e a rua 20 de Setembro. O vereador do sector, Jaime Muthemba, diz que houve concurso público provincial, dirigido e executado pelo Conselho Municipal. O vereador de Planificação, Serviços Sociais, Transportes e Comunicações, Armando Sitoe, diz que houve concurso público mas executado pela Direcção Provincial das Obras Publicas e Habitação, órgão gestor do Fundo de Estradas até 2005. O arquitecto municipal, Luís Vilanculos, responsável pelo sector de estradas a partir de finais de 2005, diz que não houve concurso público. O factual é que não há evidências (cópias do processo) de que tenha havido, efectivamente, concurso público. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Igualmente factual é que cerca de um (1) ano depois da reabilitação do primeiro lote de vias, há mais buracos que alcatrão firme para a circulação de viaturas e pessoas. Este primeiro lote de estradas custou cerca de 3 milhões de MTn. O vereador da área, Jaime Muthemba, disse que “…isto foi uma ingenuidade, falta de conhecimento sobre as regras dos concursos públicos (…) por isso, fomos burlados”. O técnico de estradas do CM e presidente do Núcleo de Chibuto da Associação dos Transportadores de Gaza, António Manjate, disse que “…isto, foi um trabalho mal feito (…) empresa não própria, não tem material”. Para Felizardo Matsombe, coordenador da Associação para o Desenvolvimento Sustentável (ADS), as estradas reabilitadas representaram simplesmente um dinheiro mal gasto “…valores fabulosos, milhões de MTn, entregues a empresas que simplesmente desapareceram sem fazer nada (…) não há transparência nos concursos públicos, aliás, nem sabemos se há ou não concurso público, apenas vemos a adjudicação de obras”. No sector de estradas, alguém tirou beneficio, “…não há transparência”, disse Carlos Hofisso, coordenador da ONG Ntwanano. A fase seguinte da reabilitação está subdividida em duas sub fases, nomeadamente a reabilitação da avenida Eduardo Mondlane, ainda em 2005, e a reabilitação da avenida Ngungunhane (da rotunda até à avenida Eduardo Mondlane). A primeira sub fase, consiste da obra referente à reabilitação da avenida Eduardo Mondlane, que não teve concurso público; apenas se convidou, alegadamente, o terceiro classificado no concurso da reabilitação do lote das três avenidas a assumir esta obra; a reabilitação desta avenida custou cerca de 1, 7 milhão MTn. Este tipo de adjudicação apresenta muitas fragilidades, alias, riscos para a prática de corrupção. Para evidenciar, neste caso concreto, examinado o processo, não se apanhou evidência documental da tramitação deste processo (documentos que evidenciassem o convite do alegado terceiro classificado); em segundo lugar, como se afirmou acima, não há evidência de que tal concurso tenha havido (em que o empreiteiro aquém se adjudicou a obra tenha ficado em terceiro lugar). Em terceiro lugar, não há garantia de transparência no tal convite do suposto terceiro classificado num concurso já encerrado para assumir uma outra obra que tenha sido prevista no plano de actividades e tenha sido alocada orçamento. A questão que está sendo levantada é de que, tendo as duas fases sido devidamente planeadas e orçamentadas, não se justifica que se tenha convidado um terceiro classificado dum suposto concurso para assumir uma obra independente daquela, sobretudo, atendendo o valor envolvido: cerca de 1, 7 milhão MTn. Isto é risco para grande corrupção. Ao que se apurou, esta obra está num processo litigioso: por parecer técnico da COTOP, o CM se recusa a efectuar o último pagamento ao empreiteiro por falta de acabamento e manifesta má qualidade da obra. A segunda sub fase é referente à obra para a reabilitação da Av. Ngungunhane (da rotunda até à Av. Eduardo Mondlane) que teve concurso público, publicado no jornal ‘Noticiais’ e na emissora provincial da Rádio Moçambique (RM). As regras de ‘procurement’ foram fornecidas pela Direcção Provincial das Obras Públicas de Gaza. Alegadamente por causa da experiência passada, procurou-se maior objectividade possível e “…daí que houve muitos factores de ponderação na escolha final (…) muitos dos ponderadores foram trazidos pelo próprio edil (…) pesou muito o facto de o Lalgy ser ‘local’ e ser conhecido, apesar de estar baseado no Maputo”, considerou Luís Vilanculos, arquitecto municipal. O factual é que existe evidência de concurso público e compulsada a documentação, desde os anúncios até à nota de adjudicação da obra, ficou-se com a impressão de que o processo careceu de maior fundamentação na selecção, uma vez que o vencedor não apresentou a melhor proposta financeira, ou seja, pelo menos houve uma proposta que apresentou um valor inferior ao apresentado pela proposta vencedora. Isto não é em si ilegal, mas precisava de fundamentação sobre os factores de ponderação, por escrito, como garantia de transparência. 4.1.6. Sector de Finanças e Mercados Não se fixam os mapas diários de tesouraria na vitrina como instrui a lei 11/97 de 31 de Maio; apesar de haver evidências de que são produzidos. Somente recentemente foi criada a Unidade de Compras (no âmbito do decreto 54/2005 de 13 de Dezembro) que, no entanto, ainda não está funcional, alegadamente porque espera homologação da sua composição pelo Tribunal Administrativo. O Decreto que previa a criação das ‘Comissões de Compra’ e de ‘Recepção’ dos bens e serviços já foi revogado sem que, no entanto, tenha sido posto em prática no município de Chibuto. Afinal como se faz o procurement no município de Chibuto? Cada sector, por exemplo, Estradas vai ao ‘mercado’ e pede cotações dos materiais que precisa junto dos fornecedores. Junta as cotações (3) numa requisição dirigida ao vereador de Administração e Finanças que, em conformidade com o cabimento - Apesar de não fazer parte da Comissão de Avaliação do concurso (meu acréscimo). Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas orçamental, autoriza e manda executar o pedido, em harmonia com a melhor oferta. Em princípio, o sector de Administração e Finanças deve, dentre as propostas apresentadas, escolher a melhor oferta, ou seja, deve fazer a escolha da melhor proposta sem nenhuma aferição prévia às cotações (como por exemplo ir ao mesmo aferir a veracidade das cotações). Isto apresenta um risco, primeiro, associado à produção das tais cotações; segundo, associado ao favoritismo na escolha dos fornecedores para o pedido de cotações. Está-se a dizer que, se a lei exige um mínimo de três cotações, isto pode não ser problema para um município que tenha igual número de fornecedores dum determinado produto, por exemplo, cimento. Mas, se um determinado município tiver mais de três (3) fornecedores, por exemplo, dez (10) fornecedores para um determinado material (por exemplo, brita), pode levantar suspeição sobre a escolha de uns fornecedores para pedir cotações (o poder discricionário que se oferece no pedido de cotações, abre espaço de penumbra em termos de transparência). Nos vários processos de compras de bens e serviços, constatou-se cerca de quatro (4) processos com valores entre 16 e 20 mil MTn que foram executados nos moldes do esquema acima referido. Os sectores requisitantes recebiam o ‘OK’ da Administração e Finanças para irem levantar os materiais num determinado fornecedor (escolhido a partir das três cotações), devendo trazer, no final da operação, o recibo de levantamento dos referidos materiais para efeitos de pagamento (transferência bancária). Sobre a gestão dos mercados, as atenções foram focalizadas para o mercado central, onde há evidências de organização; os cobradores passam as senhas como comprovativo de pagamento; os cobradores levam a receita para a tesouraria, faz-se a conferência do dinheiro e instrui-se uma guia para efeitos de depósito bancário, no dia seguinte; Há talões de depósito. Porém, nos três dias de trabalho neste mercado, haviam pessoas que até às 16 horas não tinham pago a senha, alegadamente porque acabavam de chegar e não tinham vendido nada ainda. Coincidentemente, sobre essas pessoas não tinham passado os fiscais exigindo a exibição da senha. Os vendedores ambulantes são o grande problema do CM. Em princípio, os vendedores ambulantes pagam a taxa de circulação no valor de 10 MTn, na tesouraria do CM e, em troca, recebem um recibo, carimbado como prova de pagamento. Porém, o CM reconheceu que mais de metade dos vendedores ambulantes não pagam a taxa de circulação, aparentemente porque se movimentam dum lado para o outro e, por isso, escapam dos cobradores. Este dado é incontestável, mas ficou-se, da nossa parte, com a impressão de que há, em certa medida, uma espécie de conluio entre os vendedores ambulantes, cobradores e fiscais. Aparentemente, os 10 MTn são mais atractivos que os 5 MTn pagos pela ocupação de bancas no mercado central “…os 10 MTn são mais atractivos para os cobradores e podem facilitar porque os vendedores ambulantes não estão fixos num certo lugar mas, sim, estão em movimento”, afirma Loira Sitoe, contabilista municipal. Isto revela uma outra fragilidade, fraco controlo sobre os cobradores e fiscais que é exacerbado pela falta dum cadastro dos vendedores quer dos formais quer dos ambulantes. 4.1.7. Participação popular na planificação e orçamentação Em 2003, o candidato vencedor a presidente do CM, teve como emblema da campanha eleitoral a ‘governação participativa’. Procurou-se apreender a proclamada governação participativa a partir de (i) envolvimento dos munícipes no processo de planificação anual de actividades; (ii) prestação regular de contas sobre a execução desse plano de actividades. Constatou-se que no município de Chibuto, decorridos cerca de três anos do segundo mandato de governação municipal, há escassas evidências sobre a operacionalização da tal ‘governação participativa’. O CM mostrou apenas duas actas, respeitantes a dois encontros promovidos pelo edil em dois (2) bairros. Porém, o CM alegou que a agenda do edil, nos meses de Setembro e Outubro, está reservada ao trabalho nas comunidades. Apesar desta alegação, há poucas evidências, sobre governação participativa, aliás, como já se fez referência. Por exemplo, a partir dos relatórios do CM, os empreendimentos a baixo discriminados foram feitos a partir da priorização popular nos seus respectivos bairros: abertura de pequenas vias de acesso e salas de aulas no bairro 2 da cidade, com material local e misto, respectivamente; construção de salas de aulas no bairro 3 da cidade, com material misto; abertura de fontanários de água nos bairros 25 de Junho, Unidade 4, Mudada, bairro de cimento, etc. Porém, das actas a que se teve acesso não há evidência de que os empreendimentos acima referidos tenham resultado duma priorização popular. Haveria evidências se estes empreendimentos constassem das actas de reuniões populares, posteriormente integradas nos planos anuais de actividades. 10 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.1.8. Prestação de Contas Há dois mecanismos principais de prestação de contas, designadamente vertical e horizontal. A prestação vertical de contas é feita para os munícipes. Neste acto, os autarcas prestam explicações aos munícipes sobre as suas decisões e acções. Explicam, sobretudo, (i) o que fizeram; (ii) por que fizeram; (iii) como fizeram; (iv) o custo; etc. A falta de evidência sobre planificação participativa é extensiva à orçamentação participativa. A prestação horizontal de contas é feita, principalmente, para a Assembleia Municipal (AM) e, em segundo plano, para os órgãos de tutela, designadamente os ministérios de Administração Estatal e Finanças e para a terceira secção do Tribunal Administrativo (TA). No contexto municipal, a AM age como ‘olhos’, ‘ouvidos’ e ‘boca’ dos munícipes. Porém, para o caso de Chibuto, a AM não apresentou evidências de tal exercício. A AM alega fazer um debate criterioso do plano de actividades e orçamento apresentados pelo CM mas não há evidência de qualquer rectificação orçamental; a Comissão de Administração e Finanças não tem arquivos de pareceres sobre as propostas de plano e orçamento. Igualmente, não há arquivos sobre a fiscalização realizada pela AM sobre a execução orçamental e do plano de actividades do CM. Há um aspecto que, não sendo o determinante, pode desvigorar o poder fiscalizador da AM sobre o CM. A lei exige que um determinado número de membros da AM seja, em regime de cumulação de funções, cooptado para o CM. Os resultados no terreno podem ser bem adversos aos previstos pelo legislador: por exemplo, o vereador do sector de Construção e Urbanização, Jaime Muthemba, é chefe da comissão técnica na AM e a contabilista do CM; Loira Sitoe, é secretária da AM e, portanto, membro da mesa da AM. Enquanto vereador, Jaime Muthemba, chefia o sector que reabilitou as avenidas que em menos de 1 (um) ano já estão esburacadas, necessitando duma nova reabilitação, aliás, é o mesmo vereador que justificou o prejuízo das estradas com recurso a ‘ingenuidade’. Enquanto chefe da Comissão Técnica na AM, devia organizar um inquérito para apurar responsabilidades pelos prejuízos das estradas; aparentemente, por ser a mesma pessoa nos dois lados, nada foi feito! Enquanto contabilista do CM, Loira Sitoe, devia assegurar o cumprimento dos dispositivos sobre transparência e prestação de contas previstos na lei 11/97, datada de 31 de Maio, mas como se fez referência, há um cumprimento marginal destes preceitos. Enquanto membro da AM, a Sra. Loira Sitoe, devia exigir o cumprimento integral destes dispositivos legais, a bem da transparência e legalidade. Por exemplo, a AM não conhece a receita diária do CM, mesmo tendo a contabilista do CM como seu membro. 4.1.9. Sociedade Civil Atendendo aos objectivos do estudo, falou-se com as organizações da sociedade civil não somente para colher suas percepções sobre aspectos do estudo mas também e, sobretudo, para aferir a medida em que estas organizações têm um potencial para participar em iniciativas de controle social. Trabalhou-se com quatro (4) ONGs locais, nomeadamente a Associação dos Amigos e Naturais de Chibuto, a Associação para o Desenvolvimento Sustentável, a ‘Ntwanano’ e a ‘Hanhane’. Apesar de estarem voltadas para a problemática do HIV/SIDA e desenvolvimento sustentável, estas organizações têm, pela qualidade de crítica e conhecimento sobre a dinâmica da governação municipal, um potencial para servir de embriões de planificação e orçamentação participativas. 4.2. Município de Dondo 4.2.1. Informação Básica sobre Dondo A cidade de Dondo, sede do distrito do mesmo nome, situa-se a 30 km da cidade da Beira, ao longo do corredor da Beira. Com uma superfície de 382 km2, Dondo tem uma população estimada de 61.342 habitantes, distribuídos por 10 bairros administrativos. Dondo foi concebido como pólo de desenvolvimento complementar da Beira; oferece boas condições em termos de infra-estruturas, com vantagem de possuir condições físicas favoráveis para a localização e construção de indústrias. Ao nível regional, existem boas perspectivas para que, no futuro, a cidade da Beira e Dondo venham a constituir uma única região urbana de grande potencial económico. 4.2.2. Breve Contexto Político de Dondo Dondo é governado pela Frelimo, desde a primeira experiência de governação local. O edil chama-se Manuel Cambezo que em 2003, concorreu para a sua própria sucessão. Cambezo derrotou Joaquim Greva (Renamo-EU) e Matias Traquino (IPADE). Com um total de cerca de 38.635 eleitores registados, apenas 11.417 eleitores votaram, o que representa uma abstenção activa de cerca de 70,45%. A Assembleia 11 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Municipal consiste de 21 assentos, sendo 13 da Frelimo, 7 da Renamo e 1 do IPADE. O edil, pessoa com muita experiência administrativa (foi presidente do Conselho Executivo da Beira nos anos 80) é visto como estando em posição de dominar a Assembleia Municipal, o que segundo se diz, determina o actual desempenho da AM que, de certa forma, é fraco quer em termos de análise das propostas de plano e orçamento quer em termos de acompanhamento da execução orçamental e das actividades. 4.2.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Dondo Em Dondo, à semelhança do que se constatou em Chibuto, ainda não se fez um estudo sobre a problemática da transparência e corrupção. Porém, no seu relatório sobre a assistência técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal apresenta algumas fragilidades detectadas em cada um dos 33 municípios. Para o caso de Dondo (trabalho realizado entre 17 e 29 de Julho de 2006), este relatório apontou as seguintes fragilidades: • • • • • Falta de classificação económica de receita na secção de receitas; Falta de assinatura por todos intervenientes nos documentos de despesas; Má interpretação sobre o Fundo de maneio e seu uso; Realização de despesas sem obediência a um plano; Escrituração dos livros após a realização da despesa. 4.2.4. Vereação de Construção e Urbanização Este sector apresenta uma relativa organização no tocante à tramitação do expediente para concessão de licenças de construção e de direito de uso e aproveitamento do solo urbano. O CM tem o cadastro organizado e tem uma zona de expansão no bairro Mafarinha. A concessão de licença para a construção no bairro de expansão demora entre 20 a 25 dias, enquanto a norma prevê 15 dias. Ao que se apurou, esta relativa demora não constitui problema; o problema reside na legalização de parcelas para a construção. O facto é que há muita procura por terrenos para habitação, sobretudo, na parte urbana do município. Com a elevada procura, os interessados que identificam parcelas ‘desocupadas’ na parte urbana do município encetam contactos com pessoas ligadas aos serviços de Construção e Urbanização do município de Dondo ao invés de fazer um contacto institucional para legalizar o espaço em causa “…o grande problema que temos, está associado à legalização de parcelas para a construção; as pessoas não fazem contacto institucionalizado, contactam algumas pessoas ligadas ao município e isso traz muitos problemas para o sector”, Eng. Mateus Taremba, chefe dos Serviços de Construções e Urbanização. Isto torna-se problema para o CM e área de risco para a prática de corrupção e conflito de interesse a partir do momento em que estes agentes municipais dão seguimento aos processos de legalização dos terrenos através de esquemas paralelos ao legalmente estabelecido nos Serviços de Construções e Urbanização. 4.2.5. Sector de Finanças e Mercados No conjunto de receitas, o CM tem as receitas próprias; o Fundo de Compensação Autárquico (FCA); o Fundo de Investimento de Iniciativa Local (FIIL) e os Fundos do Projecto de Desenvolvimento Municipal (PDM) e da Cooperação Austríaca. Existem evidências claras duma gestão financeira transparente dos fundos dos doadores, designadamente do PDM e da Cooperação Austríaca. A título de exemplo, as normas de procurement do PDM foram estabelecidas em 2003 e há um núcleo do PDM, integrado por pessoal do município e um engenheiro (assessor) do PDM. A Cooperação Austríaca faz uma administração directa dos seus fundos e, por isso, há poucas fragilidades institucionais que possam oferecer riscos. Todavia, não se pode dizer o mesmo em relação à gestão dos fundos próprios, ou seja, a clareza na gestão dos fundos dos doadores não é extensiva à gestão dos fundos próprios. Isto é um risco, agravado pela situação detectada pelo Gabinete de Capacitação Municipal que é de realização de despesas sem obediência a nenhum plano. Mais grave ainda se torna quando se percebe que o Conselho Municipal realizou uma despesa de cerca de 1,3 milhão de MTn em bens e serviços em 2004. Somente a partir de 2005, existe um mecanismo claro de gestão de fundos próprios, FCA e FIIL, o decreto 54/2005 de 13 de Dezembro; contudo, na prática este dispositivo ainda não foi usado. Os mercados são a principal fonte de receita: a receita diária municipal varia entre 4,5 a 5 000 MTn. A senha de ocupação de banca nos mercados municipais varia entre 4 a 6 MTn; os vendedores ambulantes pagam 15 MTn por dia. No fim do dia, os cobradores levam o dinheiro para casa e trazem-no dia seguinte. As bancas e quiosques pagam directamente, numa base semestral, na tesouraria do município. Os mercados e as praças de carga e descarga de passageiros são as principais áreas de risco, por causa da permissividade de contacto entre cobradores/fiscais e vendedores. Em particular, os vendedores ambulantes são o principal foco de risco. 12 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Permitir que os cobradores dos mercados levem a receita para casa e tornem a trazê-la dia seguinte à tesouraria constitui, em si, uma oportunidade flagrante para o desvio do dinheiro da própria receita. Os cobradores, na melhor das hipóteses, andam de bicicleta; vivem nas zonas periféricas do município; e voltam à casa depois do pôr-do-sol. Há evidências de organização nos mercados, sobretudo, o mercado central; os cobradores estão devidamente identificados; passam as senhas como comprovativo de pagamento. Porém, nos quatro dias em que se passou pelo mercado central, sempre à mesma hora (17h), pelo menos, um (1) em cada cinco (5) vendedores, sobretudo de pão e peixe, não tinha pago a senha. Estranhamente, sobre essas pessoas não tinham passado os fiscais. O cenário descrito no parágrafo anterior leva a pensar que há uma relativa subutilização das potencialidades de receita em Dondo (cenário que se assemelha ao de Estados que recebem os seus orçamentos de ajuda externa). Tal cenário pode ser bem compreendido a partir da informação de que, por exemplo, dos cerca de 35 milhões de MTn de receita previstos para 2005, cerca de 19,5 milhões de MTn são donativos, incluindo as transferências do Estado. Mais explícito ainda quando se afirma que no mesmo ano, do valor global do orçamento, apenas 732 mil MTn constituem a receita fiscal; as restantes são receitas não fiscais. Os vendedores ambulantes pagam 15 MTn por dia mas o município reconhece que este constitui o sector mais problemático. Primeiro, porque, os 15 MTn são um ‘grande atractivo’ para os cobradores e fiscais municipais que acabam entrando em conluio; segundo, porque, estando em constante movimento, facilmente se escapulem dos vendedores e dos fiscais. Portanto, os vendedores ambulantes são um risco em duas dimensões: Primeiro, em colaboração com os cobradores e fiscais e, segundo, escapando-se das vistas dos cobradores e dos fiscais, incluindo da polícia municipal. Reconhecendo o prejuízo causado aos cofres municipais pelos esquemas entre cobradores e vendedores, sobretudo vendedores ambulantes, o chefe do sector de receitas, Alexandre Moutinho, diz que o prejuízo é “…inferior a meio por cento… na verdade deve ser alguma coisa para comprar peixe e pão no fim do dia”. 4.2.6. Participação popular na planificação e orçamentação O município de Dondo é falado pela planificação participativa. Existem dez (10) bairros no município de Dondo e em cada bairro existe um núcleo de desenvolvimento. Estes núcleos de desenvolvimento de bairro têm como função principal a agregação das preocupações e interesses populares e lhes canalizar ao CM para sua inclusão no plano anual de actividades. As propostas dos núcleos de desenvolvimento são apresentadas ao Gabinete de Estudos e Assessoria que, por sua vez, faz a triagem, projectando uma proposta de plano e orçamento. Da filtragem sai um documento que é apresentado à população nos bairros, uma espécie de informação daquilo que, dentre as propostas populares, o CM tem efectivamente capacidade para realizar, em conformidade com as suas capacidades financeiras. Com as rectificações possíveis, o documento é apresentado e discutido no Conselho Consultivo (órgão de consulta do edil que congrega figuras influentes no município, independentemente da sua orientação política), por ele convocado e presidido. Após conclusão, o documento é apresentado à AM para aprovação. Os núcleos de desenvolvimento são um importante potencial para o controle social, sobretudo pela demonstrada capacidade em apresentar as propostas daquilo que querem que seja feito, incluindo a localização desses empreendimentos. O secretário de bairro e o presidente do núcleo de desenvolvimento vão, perante o Fórum Consultivo, apresentar e defender as propostas de plano dos seus respectivos bairros. Há, no entanto, dois aspectos a serem tomados em conta quanto ao potencial dos núcleos de desenvolvimento em realizar o controle social, (i) nas discussões dos núcleos de desenvolvimento não entram questões orçamentais, apenas o que querem que seja feito, por exemplo, reabilitação de rua, abertura de fontanário de agua, etc; e (ii) os núcleos de desenvolvimento, pelo menos o núcleo de desenvolvimento do bairro Mandruzi, não apresentou evidências de que as propostas tenham, efectivamente, vindo da população, organizada pelas seis (6) unidades residenciais que compõem o bairro. Neste caso, as evidências seriam actas/relatórios ou outro tipo de documento referente aos vários encontros havidos no seio do núcleo e entre o núcleo e as seis (6) unidades residenciais que constituem o bairro Mandruzi. 4.2.7. Prestação de Contas Dondo mostrou fraca actividade de prestação de contas. Ao que se viu, esta fraqueza se deve a fragilidades de ambas as partes, designadamente CM e AM. Os núcleos de desenvolvimento dos bairros e o Conselho Consultivo são usados como mecanismos de prestação vertical de contas. Mesmo assim, não se teve evidências de que haja uma ampla prestação vertical de contas; ampla no sentido de incluir (i) a justificação das escolhas feitas; (ii) a apresentação dos custos envolvidos nas várias realizações. Por exemplo, não foi - Falou-se com um total de 20 vendedores nos quatro dias em que se passou pelo mercado 13 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas mostrado nenhum ‘informe’ do presidente aos núcleos de desenvolvimento e ao fórum consultivo que incluísse os aspectos a que acima se fez referência. A prestação horizontal de contas continua fraca para a AM mas aprazada para os doadores e para os órgãos de tutela. Por exemplo, o regimento da AM estabelece que o CM deve enviar as propostas para aprovação, incluindo os orçamentos e relatórios entre 12-15 dias antes do início da sessão, mas o CM só envia estes documentos faltando 4-5 dias para a sessão, o que limita o tempo de análise. Pelo regimento, a AM só tem um dia para discutir o orçamento e, nesse dia, apenas 3 horas para discussão plenária do orçamento, o que é manifestamente insignificante. Isto mostra uma aparente subalternização da AM pelo CM. Por sua vez, a AM reconhece que tem falta de capacidade técnica para fazer uma fiscalização plausível. A AM tem um limitado envolvimento na discussão orçamental, primeiro, por manifesta limitada capacidade e, segundo, porque cerca de 50% do orçamento municipal vem de doadores, designadamente PDM e Cooperação Austríaca e vai directamente para o CM, deixando de lado a AM. Este é o falado sindroma de executivos fortes e assembleias fracas em contextos de dependência externa. A AM diz não ter informação, por exemplo, sobre a receita diária do CM, alegadamente porque este órgão não envia para a Assembleia. “…Não sabemos quanto dinheiro entra no CM; por isso, não temos como fiscalizar a receita”, diz Jorge Bondo, chefe da bancada da Frelimo. Porém, dos escritórios donde funciona a contabilidade municipal até à AM são apenas cinco (5) minutos de caminhada e, como dissemos, os mapas diários de receita estão estampados na vitrina para o acesso público. A AM também se queixa daquilo a que designou de actividades extra-plano anual de actividades, ou seja, aquelas actividades que são realizadas pelo CM sem que tenham sido planificadas e aprovadas pela AM “…as actividades extra-plano anual dificultam a fiscalização das actividades pela AM (…) pela minha experiência, essas actividades fazem parte dos projectos financiados por doadores”, Maria White, secretaria da AM. Pela frequência com que foi levantada, a capacidade para fazer fiscalização acabou dominando a mesa redonda. Com efeito, António Branco, o presidente da AM, Ricardo Donco, vice-presidente e Joaquim Greva, chefe da bancada da Renamo-União Eleitoral, disseram que os membros da AM precisam de capacitação para fazer fiscalização “…não sabemos por onde começar com o nosso trabalho”. No geral, ficou-se com a impressão de que o CM sente uma limitada pressão da AM para prestar contas sobre a execução do plano e orçamento. Igualmente, a AM admitiu não explorar dinamicamente as relações com a sociedade civil, aliás, não tem nenhuma evidência de que tenha contactos institucionalizados com as inúmeras organizações da sociedade civil. Portanto, uma criação de capacidade para o controle social deverá, necessariamente, passar pela capacitação da AM para razoavelmente desempenhar as suas funções. 4.2.8. Sociedade Civil Organizou-se uma mesa redonda com seis (6) associações locais, designadamente a rádio e televisão comunitárias de Dondo, a associação ‘MAE’, associação Kupezana, associação dos Desmobilizados de Guerra, associação dos médicos tradicionais independentes de Moçambique e a associação de promoção da paz (AMODEC). Apesar de, na sua maior, estarem voltadas para a problemática do HIV/SIDA e ajuda mútua, estas organizações têm uma grande capacidade de crítica e um elevado nível de sofisticação política e opinião sobre a governação municipal no Dondo, pelo que em combinação com os Núcleos de Desenvolvimento dos bairros oferecem condições para servirem de embriões de controle social, sobretudo, na questão de participação e orçamentação participativas e pressão sobre os órgãos municipais para uma maior prestação de contas. 4.3. Município de Nacala 4.3.1. Informação Básica sobre Nacala A cidade de Nacala localiza-se na península do mesmo nome a nordeste da província de Nampula. Centro urbano da 2ª classe, emergiu como centro portuário mais importante da região norte nos meados do século xx. O porto serve a zona Norte e o Malawi através dos Caminhos-de-ferro de Moçambique. Sendo o segundo maior centro urbano da província de Nampula, a cidade tem como principal factor de desenvolvimento a baía Fernão Veloso, onde foi construído o maior porto natural do país. Com uma superfície aproximada de 400 km2, Nacala tem uma população de cerca de 198.783 habitantes (censo de 1997). A cidade está organizada em 23 bairros. 14 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.3.2. Breve Contexto Político de Nacala No primeiro mandato, Nacala foi governada pela Frelimo. O edil era José Caetano; Caetano foi derrotado nas segundas eleições autárquicas por Manuel dos Santos, candidato da Renamo. Portanto, Nacala é um dos poucos municípios onde houve alternância do poder. Dos Santos é um funcionário reformado dos Caminhos-de-ferro de Moçambique (norte); já em 2004, era prezado por várias sensibilidades por ter continuado com o mesmo corpo técnico-administrativo que vinha trabalhando desde o primeiro mandato. Na verdade, este é o normal procedimento em contextos democráticos mas, para o caso de Moçambique, onde por exemplo Afonso Dlhakama (líder do partido através do qual dos Santos chegou ao poder) tinha prometido, no mesmo ano, expulsar os machanganas do sul do país e os técnicos superiores do Aparelho do Estado, caso ganhasse as eleições de 2004, não deixa de ser um acto louvável. Houve, por isso, tensões entre dos Santos e a cúpula da Renamo ao nível de Nacala que queria que afastasse os técnicos que vinham do primeiro mandato, para que abrisse vagas para a nova elite política (vencedora). Dos Santos não fez isso, mas provavelmente por pressões da cúpula da Renamo, ‘aceitou’ que se empregasse, sem concurso público e sem visto do TA, um exército de eventuais que, na maior parte das vezes, tinham idades próximas ou superiores da reforma. Actualmente, Nacala tem um efectivo de cerca de 89 trabalhadores nas condições acima descritas. Por exemplo, o relatório da assistência técnica feita pelo Gabinete de Capacitação Municipal fala em não observância de regras de recrutamento e selecção. 4.3.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Nacala Em Nacala ainda não se fez igualmente um estudo sobre a problemática da transparência e corrupção. Porém, no seu relatório sobre a assistência técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal apresenta algumas fragilidades detectadas em cada um dos 33 municípios. Para o caso de Nacala (trabalho realizado entre 7 e 18 de Agosto de 2006), este relatório apontou as seguintes fragilidades: • • • • • • • Necessidade de se concluir a elaboração do Cadastro dos Contribuintes; Deficiente sistema de cobrança de receita; Despesas acima dos duodécimos; Alterações orçamentais acima do previsto na lei 11/97 e demais regulamentos; Deficiente colaboração entre o sector de património e do sector de contabilidade; Compras arbitrárias (as aquisições são feitas nos sectores requisitantes e não pela Comissão de Compras); Deficiente procedimento no processo de abate de bens; etc. 4.3.4. Vereação de Administração e Finanças (Mercados) No sector de mercados, constatou-se problemas de organização nos mercados; na verdade, o mercado convencional é o da cidade baixa; o mercado da cidade alta se assemelha a uma ocupação desordenada dum espaço, por sinal, privado. Mesmo o mercado da cidade baixa, não está devidamente organizado. Por exemplo, a Administração e Finanças não conhece a real capacidade deste mercado. Este cenário é ele em si uma oportunidade flagrante nas mãos dos cobradores e fiscais para desenvolveram esquemas de desvio de parte das taxas dos vendedores que, em princípio, deviam entrar nos cofres municipais. Há vendedores que ocupam mais de 4 m2 mas pagam o mesmo valor – 5 MTn – que é o valor pago por aqueles vendedores que ocupam o espaço convencional que é de 2 m2. Isto é subutilização das potencialidades para o aumento da receita municipal. Sobre este facto, o edil, Manuel dos Santos, disse que “…isso é preguiça do sector para fazer um cadastro actualizado sobre o potencial dos mercados, já há instruções nesse sentido”. A fiscalização não só não cobre todos os mercados como também é ineficaz naqueles mercados em que marca presença diariamente. Por exemplo, cerca de dois (2) dos oito (8) vendedores com que se falou diariamente, durante os cinco dias úteis da semana do trabalho de campo em Nacala, não tinham sido fiscalizadas até as 17 horas, sobretudo os vendedores de peixe. Coincidentemente, nos cinco (5) dias úteis em que se trabalhou no mercado da cidade alta, deparou-se com uma situação em que até 17 horas cerca de três (3) vendedores de peixe não tinham pago a senha de ocupação de espaço, alegadamente, porque ainda não tinham vendido nada e, como tal, não tinham dinheiro para pagar a senha “...sim, é verdade, a capacidade de fiscalização é muito fraca”, reconhece Pedro Machado, director de Administração e Finanças. Há aqui duas situações: ii) deficiente sistema de fiscalização (verificação pelos fiscais do pagamento ou não da taxa de mercado pelos vendedores) e ii) deficiente controlo sobre a actividade dos cobradores e 15 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas fiscais que, por exemplo, resulta em constantes variações da receita diária dos mercados. Facto curioso é que em três (3) dos cinco (5) dias úteis que se passou pelo mercado cerca das 17 horas já não havia nem cobrador nem fiscal “…os cobradores entram as 7:30 e despegam as 16:00 e muitos vendedores, sobretudo, de peixe entram justamente a essa hora no mercado e não são cobrados (…) teremos que criar dois turnos para poder abranger este grupo que até este momento escapa do pagamento da taxa de mercado”, defende Pedro Machado, director de Administração e Finanças. Mais uma vez, esta é uma fragilidade de tipo subutilização das potencialidades de incremento das receitas municipais. A subutilização das potencialidades de receita parece ser sistemática e parece estar associada a financiamentos externos (projectos) a que Nacala tem acesso. O cenário acima apresentado pode ajudar, de certa forma, a explicar que em 2004, se tenha colectado apenas 354 mil MTn, contra os 1.06 milhões de MTn previstos na receita sobre a taxa de actividade económica). Igualmente, pode, de certa forma, ajudar a perceber que, no mesmo ano, se tenha colectado apenas 8 mil MTn contra 36 mil MTn previstos, na receita sobre as licenças de vendedores ambulantes. Pode ainda ajudar a compreender que em 2006, no primeiro semestre, se tenha colectado apenas cerca de 216 mil MTn na receita sobre a taxa por actividade económica contra os 600 mil MTn previstos. Os vendedores ambulantes não são cobertos pelos cobradores. Durante o tempo em que se permaneceu em Nacala, não se viu vendedores ambulantes correndo dum lado para o outro, perseguidos por cobradores ou fiscais. Aliás, o relevo acidentado da cidade não permite tais manobras, pelo que não se conseguiu apurar se a falta de cobertura é devida à reduzida capacidade humana ou à conivência entre cobradores e vendedores ambulantes; e/ou ambas. Reconhecendo o problema, o director de Administração e Finanças, Pedro Machado, disse que os vendedores ambulantes eram o seu calcanhar de Aquiles “…vendedores ambulantes: aqui está o nosso calcanhar de Aquiles; não conseguimos cobrar mais do que 50% do potencial”. Isto se associa à subutilização das potencialidades municipais para o incremento da receita a que se fez referência no parágrafo anterior. O director de Administração e Finanças argumenta que a questão dos incentivos para os cobradores e fiscais é fundamental para um funcionamento exemplar do sector da receita “…por mais esquemas bonitos que possamos montar, sem incentivos para os cobradores e fiscais não iremos muito longe (…) os fiscais também têm os seus problemas de fome e acabam entrando em esquemas com os cobradores”, Pedro Machado. O argumento do director de Administração e Finanças pode, dalguma forma, ajudar a explicar a variação constante da receita dos mercados, por exemplo, durante os dias úteis da semana em que se esteve a fazer o trabalho de campo em Nacala, houve uma variação na receita de cerca de 200 MTn. Todavia, apesar de se concordar com o argumento de baixos salários, pensa-se que a inoperância do sector de Administração e Finanças em estabelecer anticorpos institucionais para limitar tais mecanismos dá mais campo de manobra para que os cobradores/fiscais encontrem mecanismos de embolsar parte das receitas. No final da jornada de trabalho, portanto às 16 horas, como se indicou acima, os cobradores levam o dinheiro da receita para casa e trazem-no dia seguinte para a tesouraria do CM. Sobre este facto o edil, Manuel dos Santos, disse que “…levar dinheiro para casa pelos cobradores, isso é negligência dos caixas (…) têm meios circulantes para evitar que isso aconteça”. Porém, o director de Administração e Finanças, Pedro Machado, disputa a afirmação do edil, alegando que o sector da gestão dos mercados não tem meios circulantes, de tipo viatura. 4.3.5. Gestão Financeira “…querer combater a corrupção a partir de pequenas autarquias é escrever na água; gostaríamos de ver na televisão e ouvir na rádio que ministro tal foi preso e julgado por causa de corrupção; aí vamos acreditar que se está a fazer um trabalho sério”, Abdul Magid Nordine, vereador de Administração e Finanças, no desabafo de boas-vindas à conversa que tivemos. No âmbito do decreto 42/89 de 28 de Dezembro, o CM criou as seguintes comissões: a Comissão de Compras, pelo despacho 03/GP/2004; a Comissão de Recepção, pelo despacho 02/GP/2004; e, pelo despacho 04/GP/2004, a Comissão de Concursos sobre a Adjudicação de Obras, Fornecimento de Materiais de Construção e Equipamento de Aluguer. Estas comissões eram integradas por diferentes pessoas e há evidências de que, pelo menos, a Comissão de Concursos sobre a Adjudicação de Obras, - Os cobradores e fiscais têm um salário mensal de 2.080 MTn; usam bicicletas numa cidade acidentada como Nacala; têm que fazer cerca de três (3) kms de subida, sempre empurrando a bicicleta. 16 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Fornecimento de Materiais de Construção e Equipamento de Aluguer tenha funcionado até finais de 2005. Não há evidências de funcionamento sobre outras comissões. A Comissão de Concursos sobre a Adjudicação de Obras, Fornecimento de Materiais de Construção e Equipamento de Aluguer se desintegrou em finais de 2005. Sobre as razões da desintegração, há duas versões diferentes: o engenheiro-técnico municipal de aquisições (membro da comissão), Adelino Cobre, diz que a comissão se desintegrou porque houve descentralização do conhecimento e capacidade de realização de concurso público para os sectores. Por isso, cada sector realiza o seu próprio concurso público para a contratação de bens e serviços. Contrariamente, Gimo Mandede, director dos Serviços Urbanos, argumenta que a comissão deixou de funcionar porque o presidente da comissão, Rafael António Gusmão (ex-vereador para a área de Serviços Urbanos, Urbanização e Meio Ambiente) e o membro Adelino Cobre deixavam à margem o terceiro membro da comissão, José Carlos da Silva, e pediam apenas que este assinasse os documentos do concurso para efeitos de validação. Perante a recusa deste em assinar documentos dum processo de que não tenha participado, houve paralisia decisória, o que ditou o fim da comissão. O facto é que a Comissão não funciona; igualmente factual é que a Direcção dos Serviços Urbanos organiza seus próprios concursos. Há evidências de vários concursos públicos devidamente instruídos, pelo menos, em termos de tramitação processual para fornecimento de pedra, alcatrão, cimento e aluguer de equipamento para a reparação de estradas. Para além de fundos do Estado (FCA; FIIL; Fundo de Estradas; e o fundo para a Reabilitação Ambiental), o município de Nacala beneficia de fundos externos, como sejam os Fundos do PDM e os fundos do projecto ‘7 Cidades’. Comparativamente, a gestão dos fundos de Estradas, PDM e das 7 cidades é mais transparente que a gestão dos chamados fundos próprios, particularmente os fundos resultantes da receita local. Aliás, por aquilo que se apurou, os concursos públicos na apagada Comissão de Concursos sobre a Adjudicação de Obras, Fornecimento de Materiais de Construção e Equipamento de Aluguer eram referentes aos fundos do Fundo de Estradas, PDM e das 7 Cidades. A comissão de compras que se devia encarregar da gestão dos fundos para a gestão corrente, designadamente Receitas Locais e de Compensação Autárquica, como se fez referência, não há evidência de que tenha alguma vez funcionado. A falta de funcionamento desta comissão constituiu uma oportunidade flagrante para aquisição de bens e serviços de forma não transparente e ruinosa. Para que se compreenda a seriedade do assunto, de Janeiro a Junho de 2006, o CM gastou em despesas correntes cerca de 9.8 milhões de MTn. Perante a inoperância da comissão de compras, coube à Direcção de Administração e Finanças a execução do procurement. Afinal, como funciona o procurement em Nacala? Os vários sectores que têm necessidade de material, por exemplo, brita para o sector de estradas, fazem requisição do material junto do sector de Administração e Finanças, em conformidade com o estabelecido no plano de actividades e a verba disponível no orçamento. Uma vez recebida a requisição, o sector de Administração e Finanças realiza o procurement que consiste em solicitar cotações nos níveis distritais, provinciais e, até, nacional. Muitas vezes, a Direcção de Administração e Finanças faz o procurement sem concurso público; por exemplo, em 2005, esta direcção instalou um sistema de gestão documental on-line/in-line sem concurso público que custou cerca de 900 000 MTn. Mais grave que a falta de transparência no processo, o sistema nunca funcionou. O não funcionamento deste serviço confirma a regra de que um procurement não transparente termina ou em obras de má qualidade ou de forma litigiosa; neste caso foi má qualidade. O contra argumento do director de Administração e Finanças não altera a veracidade dos factos apresentados neste parágrafo. Aliás, referem-se a períodos diferentes: o tal novo sistema de procurement foi montado em 2006 no âmbito do decreto 54/2005 de 13 de Dezembro que, na verdade, ainda não funciona enquanto os factos apresentados neste parágrafo são referentes ao período que vai desde a tomada de posse do actual mandato até finais de 2005. - O director de Administração e Finanças, Pedro Machado, contra argumenta dizendo que este sector não faz procurement. Pois, introduziu-se um novo sistema em que apenas este sector faz monitoria de contratos e de compras, em colaboração com os sectores de património e de plano. 17 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.3.6. Área de vereação de Urbanismo, Infra-Estruturas, Transportes e Comunicações Área de Talhões Para melhor compreensão, dividiu-se a área de talhões em duas fases, nomeadamente de 2004 a 2005 e de 2006 a esta parte. Durante a primeira fase, que vai de 2004 a finais de 2005, havia uma autêntica instrumentalização da desordem na legalização de terrenos e concessão de licenças para construção: havia venda de talhões na parte urbana da cidade; demoras propositadas na concessão das licenças de construção; havia uma proliferação de construções clandestinas; sector de fiscalização muito fraco; havia muitas cedências de uso e aproveitamento do solo urbano e concessões de licenças para construção nas sessões em o que edil não estivesse presente; coincidentemente, na sua ausência, o edil delegava as responsabilidades ao vereador que superintendia a área de Urbanismo, Infra-Estruturas, Transportes e Comunicações, responsável pelo sector de talhões. O cenário que se vivia em Nacala neste período não era de risco mas, sim, de colapso institucional ou de captura institucional neste sector. Compulsou-se o livro de tramitação interna do expediente e viu-se algumas coisas interessantes, por exemplo, uma desordenação da numeração dos expedientes sobre pedidos de uso e aproveitamento do solo urbano (por desordenação na numeração, refere-se, por exemplo, os casos em que um expediente, datado de Maio de 2005, tem um número de registo municipal superior ao dum expediente que deu entrada no CM em Julho de 2005); dos poucos casos a que se teve acesso, ficou a indicação de que, a desordenação na numeração era referente aos terrenos da parte urbana e não aos terrenos do bairro de expansão que, aliás, eram tramitados com relativa celeridade. A segunda fase, de 2006 a esta parte, começou com o despedimento, aliás, transferência do vereador de Urbanismo, Infra-Estruturas, Transportes e Comunicações para a área de vereação da Cultura. Com a mudança do vereador, houve melhoria, pelo menos, da transparência na tramitação burocrática do expediente: há um livro único de entrada de expediente; o processo interno de triagem canaliza os pedidos de uso e aproveitamento do solo urbano e de licença de construção para a área de urbanismo, construção, transportes e comunicações; neste sector, há um mecanismo interno de circulação de documentos e, em cada fase, há prazos previamente estabelecidos; o responsável de cada unidade envolvida na tramitação do expediente deve assinar e colocar a data da recepção e de saída do expediente. Há evidências de que as coisas se processam desta maneira. Sobre este faseamento, o edil, Manuel dos Santos, disse que “…de facto havia esses problemas até finais de 2005, por isso mudei de vereador e, como viu, a situação melhorou bastante”. No que toca às licenças de construção no bairro de expansão, há uma situação nova: há muitas licenças não levantadas, “…alegadamente porque as pessoas pensam que uma vez expedido o requerimento pedindo a concessão de licença de construção, está tudo acabado e, consequentemente, podem iniciar a obra (…) outros não vem levantar as licenças por causa dos custos envolvidos”, Saquina Abdulremane, directora da Construção e Urbanização; a licença de construção varia entre 900 a 2000 MTn. No entanto, falou-se com 5 famílias no bairro de expansão que estão a erguer suas obras sem licenças; depois de assumir que não tinham licenças de construção, alegaram demora do CM em emitir tais licenças como motivo para iniciar as obras sem licença. O actual vereador do sector, Serafim Ussene, refuta a tese de demora do CM como motivo para iniciar as obras “…no passado, tivemos situações dessas mas, posso assegurar, que já não acontecem (…) temos um prazo de 15 dias para despachar um documento e fazemos tudo para cumprir esse prazo (…) aquilo que vejo nas pessoas é que muito antes de meter o pedido de licença, começam a comprar o cimento e demais material de construção e só depois metem os pedidos de autorização (…) porque o cimento pode secar, as pessoas acabam iniciando com as obras mesmo antes de ter a licença”. Nas várias conversas com o pessoal dos serviços urbanos, sobretudo, com o vereador Serafim Ussene e o engenheiro Adelino Cobre, ficou-se com a impressão de que há dois tipos de construtores clandestinos, nomeadamente os chamados ‘folgados’, aqueles que, quando são descobertos, encarregam o próprio fiscal de tratar da licença de construção, junto do Conselho Municipal, enquanto a obra continua; e os chamados ‘vulgares’, aqueles que, não tendo licença de construção, não têm nada para oferecer aos fiscais. Esta aparente ‘oficialização’ de construções clandestinas torna-se inquietante atendendo, sobretudo, à atitude dos fiscais perante construções do género. Os fiscais, deparando-se com obras clandestinas, não embargam as obras; não recebem nada em troca e, simplesmente, deixam a obra continuar, alegadamente por medo de feitiço “…acontecem esse tipo de 18 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas situações mas, o mais frequente é, os fiscais não receberem nada em troca; também não multam; nem embargam a obra, simplesmente, porque têm medo de feitiço e morrer, tal como supostamente aconteceu com outros cinco (5) colegas do departamento que morreram alegadamente por feitiço”, disse Saquina Abdulremane, directora dos Serviços de Construção e Urbanização. Deixando de lado este problema, os serviços de fiscalização continuam muito fragilizados; na verdade, só há um fiscal e, apenas, uma motorizada, o que acaba explicado a inoperância deste sector perante obras clandestinas. 4.3.7. Participação popular na planificação e orçamentação Não há evidências de planificação e orçamentação participativas. Não há evidências de que até 2005, algum plano anual de actividades tenha sido produzido com um envolvimento dos munícipes, quer organizados em bairros ou organizados em associações. Toda a planificação era feita pelo CM, alegadamente a partir do manifesto eleitoral. Somente em Junho de 2006 houve duas experiências, nomeadamente a execução pelo sector de planificação, subordinado à Direcção de Administração e Finanças, dum inquérito à população para a elaboração do plano anual de actividades para 2007; e a realização pelo PROGOV dum workshop de consulta aos parceiros sobre o plano de 2007 no bairro piloto. O contra argumento do director de Administração e Finanças mostra que escreveu o seu comentário sem que tenha lido todo o paragrafo. A leitura completa do parágrafo dispensaria o contra argumento, apresentado em rodapé. Como se indicou, estas iniciativas são para 2007, para além de que um inquérito tem as suas limitações metodológicas e, sobretudo, limitações ao nível do ownership; portanto neste momento Nacala não tem nenhuma experiência de envolvimento sistemático dos munícipes no processo de planificação. Mais longe do alcance dos munícipes está o processo de orçamentação: não há nenhuma indicação sugerindo que tenha havido, no passado, e haja, no presente, uma experiência de envolvimento popular no processo de orçamentação, o chamado orçamento participativo. 4.3.8. Prestação de Contas Não tivemos evidências de que haja uma ampla prestação vertical de contas; ampla no sentido de incluir (i) a justificação das escolhas feitas; (ii) a apresentação dos custos envolvidos nas várias escolhas, apesar de alegações do edil nesse sentido. A prestação horizontal de contas continua fraca para a AM mas aprazada para os doadores e para os órgãos de tutela. Ficou a impressão de que o CM está mais voltado para os seus doadores que para o seu público interno através da AM. Na verdade, nos pareceu que há uma subalternização da AM pelo CM. A própria Assembleia Municipal faz fiscalização à actividade do CM mas duma forma não sistemática e, sobretudo, adocrática. O que faz com que exerça de forma limitada o seu poder orçamental. Aliás, a AM reconhece isso e alega falta de capacidade técnica para fiscalizar as acções do CM “…fazemos uma fiscalização deficiente; não temos uma mesma base sobre o assunto da fiscalização ou sobre o papel da AM duma forma geral; precisamos de formação e meios de trabalho, Buane Aly, bancada da Frelimo. O vice-presidente da AM, António Rufino, foi mais longe afirmando que “…a cegueira dos membros da AM é propositada, alegadamente, porque todas as acções de formações vão para o CM (…) nós somos esquecidos mas querem que façamos bom trabalho (…) queremos troca de experiência sobre orçamento participativo”. A AM não tem nenhumas evidências de que explore dinamicamente as relações com a sociedade civil, aliás, não tem nenhuma evidência de que tenha contactos institucionalizados com as inúmeras organizações da - O director de Administração e Finanças, Pedro Machado, contesta dizendo que: “Isso foi apenas nos anos anteriores. Em 2006, o PROGOV introduziu uma abordagem participativa na planificação no bairro Muanona, incluindo a formação de líderes locais, membros da AM e do CM. As prioridades foram devidamente identificadas. Um projecto de um mini sistema de água está em curso, e vai ser “on plan and on Budget” para 2007. ver PROGOV: histórias autárquicas Nº 4. Ver também: Nacala Hoje: Boletim Informativo Municipal, Nº 2, Junho de 2006. Pág. 3. Esta metodologia vai ser replicada em outros bairros periféricos. - O director de Administração e Finanças, Pedro Machado, contesta esta afirmação. Fez acompanhar dos seus comentários vários documentos de informes trimestrais do PCM à AM, que são informativos e incluem números sobre a execução orçamental mapas que mostram a arrecadação de receitas etc. Nota: os documentos até são produzidos mas, isso, não significa que são enviados à AM. Por exemplo, o CM não envia os mapas diários de receita à AM; não envia atempadamente os relatórios para a AM. Como já se disse, a produção destes documentos está mais voltada para a prestação externa do que para a prestação interna de contas. 19 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas sociedade civil. O presidente da AM, Celestino Xavier, reconheceu que “…não há veículo de comunicação entre a sociedade civil e a AM (…) não temos nada institucionalizado, aliás, a população não confia em nós”. 4.3.9. Possibilidades de Controlo Social Existem duas rádios comunitárias, designadamente a Rádio Wátana e a Rádio e Televisão de Nacala, do Instituto de Comunicação Social. Para além destas duas rádios, trabalhou-se com três (3) grupos culturais de Tufu, designadamente a Associação de Mucuahipa; Núcleo de Muziwane 1; e Núcleo da Mulher de Mpangue 2. Trabalhou-se ainda com o grupo dos agricultores de Mpagu; este é um grupo de ajuda mútua que produção de hortícolas na baixa de Mpagu. Nenhuma das associações culturais mostrou interesse por assuntos ligados à governação local, para além de que se ficou com a impressão de que estes grupos estão, até certa medida, politizados: há grupos inclinados para a Frelimo e grupos inclinados para a Renamo. Os agricultores de Mpagu estão sob ‘orientação’ do vereador da Agricultura, Pesca e Assuntos Comunitários, Zeca Amade, por isso podem não ter a necessária autonomia para fazer um controle social; mas deixando de lado este elemento, os agricultores de Mpagu mostraram interesse por assuntos da governação local. Das duas rádios comunitárias, a Rádio Wátana pareceu a que tem mais potencial mobilizador e, sobretudo, mais ‘neutralidade’. 4.4. Município de Vilankulo 4.4.1. Informação Básica sobre Vilankulo A vila de Vilankulo situa-se na estrada nacional número 1 (EN1). Com um número de habitantes na ordem das 20.000 pessoas, a vila está distribuída por 8 bairros. A vila depende fundamentalmente de turismo, pesca e comércio, produção de sal, corte de madeira, moagem de cereais. A reparação de embarcações também é uma actividade económica a ter em conta, em virtude da forte actividade pesqueira. A maioria dos turistas é proveniente do Zimbabwe e da África do Sul, sendo igualmente dessa origem os maiores investidores nos complexos turísticos. Dados oficiais mostram que existem cerca de 520 pescadores locais e 80 pequenas empresas de diferentes tipos. Vilankulo possui um aeroporto internacional, electricidade e é coberto pela rede das telecomunicações. 4.4.2. Breve Contexto Político de Vilankulo Vilankulo é uma autarquia governada pela Frelimo. Tanto na primeira legislatura municipal como na segunda, a Frelimo é o partido maioritário, detendo 12 dos 13 assentos da AM e a Presidência do Conselho. O edil chama-se Sulemani Amuji, um cidadão natural da região. Amuji ganhou as eleições tanto em 1998 como em 2003. Uma das particularidades de Amuji – que interessa realçar para que se compreenda devidamente este relatório – é que ele é um homem de negócios, principal fornecedor de bens e serviços em toda a vila. Amuji é conhecido em Vilankulo como “o dono” da vila. O maior armazém distribuidor em Vilankulo é seu. Até bem pouco tempo, Vilankulo tinha apenas uma bomba de gasolina, a dele. Em termos de comércio, Vilankulo depende de Amuji e, nesse sentido, os fornecimentos ao Conselho Municipal também dependem da capacidade do seu armazém, denominado SEA (Suleman Esep Amuji). Este relatório identifica situações de conflito de interesse que decorrem deste contexto. Em condições normais, o CM devia abster-se de fazer aquisições nas lojas de Amuji, em nome da transparência. Mas em Vilankulo, enquanto não aparecerem outros operadores económicos da mesma envergadura e que possam fornecer bens e serviços a preços iguais ou inferiores aos do SEA, isso dificilmente acontecerá. Por outras palavras, as situações de conflito de interesse são claras e evidentes, e delas não se pode fazer vista grossa. Mas é preciso compreender donde essas situações emergem e, em função disso, avaliar se é uma questão de puro desvio ou de uma questão involuntária. 4.4.3. O que já se disse sobre o assunto em Vilankulo A autarquia de Vilankulo já foi alvo de dois levantamentos sobre corrupção. No geral, os mesmos identificaram as fragilidades institucionais que podem levar à corrupção nas áreas igualmente identificadas pelo nosso estudo. O levantamento de Berger (2002) apresentou o seguinte retrato, em termos de áreas de risco: • A urbanização e a distribuição de terreno para a construção foi apontada como área de alto risco; 20 - O primeiro estudo é da autoria do Ministério da Administração Estatal e Germany Technical Cooperation (GTZ), realizado por Nadja Berger em 2002; O segundo estudo tinha como objectivo analisar o clima de investimentos na província de Inhambane e foi financiado pelo GTZ. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas • • • O mau uso do tempo dos funcionários públicos foi também apontado como área de maior risco... foi referido que era frequente ver funcionários empenhados em assuntos pessoais em pleno tempo de serviço; Emissão e colecta de multas e taxas; A urbanização também foi vista como área de alto risco, particularmente a alocação de terrenos ao longo da costa; Por sua vez, o levantamento da GTZ mostrou que a vila de Vilankulo era a pior região para fazer negócios em Inhambane, sobretudo por causa da corrupção. O estudo envolveu 100 firmas, incluindo empresas comerciais, industriais e do sector do turismo nas cidades de Inhambane, Maxixe e Vilankulo. Tratandose de identificar obstáculos para o negócio, foram traçadas 4 categorias hipotéticas, nomeadamente a corrupção, a burocracia excessiva, a inadequação do clima de investimentos e a criminalidade. A corrupção foi o principal obstáculo referido. Das firmas inquiridas, 63.8% referiram que tinham sido sujeitas a práticas de corrupção no seu contacto com oficiais públicos. A situação era mais grave em Vilankulo (82,1%) que nas restantes regiões estudadas. As práticas de corrupção referidas tinham a ver com os procedimentos da administração fiscal, a polícia de trânsito e as alfândegas. No seu relatório sobre a Assistência Técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal, num trabalho realizado entre 14 a 25 de Agosto de 2006, concluiu que em Vilankulo: • Há deficiente aplicação da legislação sobre contratação de pessoal; • Falta de inscrição de fornecedores locais; • Aquisição de bens sem observação de normas; • Falta de realização de concursos para fornecimento de bens e Obras; 4.4.4. Sector de Administração e Finanças Mercados e Feiras Na cobrança de receitas, a corrupção pode acontecer em função da fraca capacidade de organização e eficiência por parte do sector de Finanças. A supervisão aos 5 cobradores que têm a missão de fazer a cobrança nos 11 mercados não é feita; o único fiscal contratado não tem meios para fiscalizar se os vendedores estão, de facto, a fazer os pagamentos; o Município não tem condições para verificar se os cobradores não fazem cobranças para os seus bolsos. Pode-se assumir que existem riscos de corrupção nestas áreas pelas seguintes razões: • • • O controlo da actividade dos cobradores é mínimo, não se sabendo se eles estão de facto a cobrar cabalmente as taxas; ou seja, parte das cobranças pode ir para os seus bolsos; O controlo do sector financeiro sobre a fiscalização também é mínimo, não se sabendo se o único fiscal existente para mais de 1500 vendedores e cerca de 470 bancas consegue fiscalizar a actividade de 5 cobradores distribuídos por 11 mercados, quando a fiscalização consiste justamente é percorrer cada um dos vendedores e exigir a apresentação da senha de pagamento; Não há cadastro sobre os vendedores. Um cadastro permitiria saber quem de facto usa as bancas e quantos, de facto, estão a pagar. Um cadastro permitiria igualmente que o município previsse as suas receitas provenientes dessa fonte. A utilização de locais reservados a banca e mercados é uma das principais fontes de financiamento da autarquia de Vilankulo. Observando a Conta de Gerência de 2005, conclui-se que a área de Mercados e Feiras é uma das principais fontes de receitas não fiscais da autarquia. Estas receitas não fiscais provem da colecta de taxas por Licenças Concedidas. Em 2005, a autarquia arrecadou 1.812 mil Mtn em receitas não fiscais. Deste valor, 533 mil Mtn vieram das taxas por Ocupação e Utilizaçãao de Locais Reservados a Mercados e Feiras, o que significa que, tendo em conta os problemas idenficados na área, existe um grande potencial para um crescimento de receitas. Segundo os dados facultados pelo CMV, a receita mensal média arrecadada nos mercados é de 55 mil Mtn. A maior parte da receita (98%) provém das bancas. O CMV cobra uma taxa diária de utilização de uma banca no valor de 5 MTn. A fixação desta taxa não tem em conta o tamanho da banca ou a área que o - Aliás, a receita proveniente de Mercados e Feiras esteve abaixo do orçamentado. O CMV havia previsto cobrar 590.000. Mtn, mas cobrou menos. 21 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas vendedor ocupa. De acordo com o edil, intervindo na discussão de um estudo sobre a Gestão de Mercados em Vilankulo, o Município deve estar a receber entre 40 a 50% do que podia cobrar se houvesse maior eficiência e controlo. Esta declaração de Amuji é uma sugestão de que alguns funcionários envolvidos neste sector podem estar a pôr no bolso parte das cobranças. Mas os fiscais alegam que existe, em muitos casos, resistência por parte de alguns vendedores, os quais se recusam a pagar as taxas. Também foram reportados casos de vendedores que simplesmente se escondem, fugindo da presença dos cobradores. Alguns funcionários do CM disseram que uma das razões das baixas cobranças tinha a ver com o facto de alguns vendedores não comparecem todos os dias nas suas bancas. Isto quer dizer que as cobranças são feitas pela presença do vendedor e não pela ocupação da banca. O que levanta outro problema: alguns vendedores podem optar por não comparecer no mercado na altura em que supõem que o cobrar está no local; ou que o fiscal vai passar; dado que existe apenas um fiscal para todos os onze mercados. A ineficiência na cobrança de receitas pode também ficar a dever-se à exiguidade de recursos humanos que trabalham neste sector. Toda a autarquia de Vilankulo tem 5 cobradores, 1 fiscal, 2 guardas e 11 serventes. São cinco cobradores para 11 mercados e 1555 bancas, as quais têm de percorrer todos os dias. Os cobradores trabalham mediante uma escala semanal e no sistema de rotatividade entre os mercados. Se X está hoje num mercado 1, amanha ele terá de estar no mercado 2 ou 3 e não no 1. Trata-se de um mecanismo que pretende evitar o aprofundamento de relações amigáveis (contacto pessoal) entre X e os vendedores. Como mecanismo de prevenção de corrupção, o conceito é aplicado em diferentes contextos mas, no caso de Vilankulo, a autarquia é muito pequena e a prática só é aplicada em 5 dos 11 mercados. É, portanto, uma prática que não tem efeitos concretos. Os cobradores cobram as taxas usando cadernetas. Até há uns meses atrás as cadernetas não tinham canhoto, o que dificultava o controlo por parte do sector de finanças. Hoje já trazem canhotos. Estes funcionários não têm algumas das condições básicas para realizarem o seu trabalho: uniformes e transportes. No caso dos transportes, num dado momento a autarquia comprou bicicletas para os cobradores mas não incluiu no seu orçamento uma verba para manutenção. Isso levou a que alguns cobradores passassem a custear por si próprios as despesas de manutenção. Mas como não existe controlo, pode haver o risco de os funcionários usarem parte das receitas para custearem a manutenção das bicicletas, beneficiando-se a si próprios como cidadãos. Os onze mercados de Vilanculos têm na totalidade 1555 bancas (para cerca de 1500 vendedores) mas a sua atribuição não tem critérios estabelecidos, sobretudo quando se inaugurou este ano o Mercado Novo. Na altura dessa inauguração, as bancas do mercado estiveram totalmente preenchidas, mas meses mais tarde dezenas de bancas estavam às moscas. A explicação para isso é esta: como se tratasse de um mercado novo, alguns populares ocuparam as bancas para mais tarde sub-alugarem-nas e houve cobradores e funcionários que atribuíram bancas a familiares. Esta é, aliás, uma das práticas suspeitas de estar a acontecer nalguns mercados de Vilankulo. É uma prática atribuída aos cobradores, que podem estar a subalugar as bancas para benefício próprio, prejudicando os cofres municipais. Existem alegações de que alguns cobradores possuem dezenas de bancas as quais não são tributadas. Este é um risco de corrupção que resulta de não haver um cadastro das bancas e dos vendedores. Essa falta de registo abre oportunidades para que cobradores usem as bancas em seu proveito, i) sub-alugando-as; ii) não pagando as taxas devidas. Sobre esta última alegação, Suleimane Amuji disse no seminário que não conhecia nenhum caso de algum cobrador a quem tenha sido adjudicada uma banca. A situação de descontrolo não tem apenas a ver com aos vendedores baseados nos mercados. Também os vendedores informais vivem uma situação de descontrolo que pode abrir espaços para a corrupção. Os vendedores informais pagam uma taxa anual (Imposto Autárquico de Comércio e Indústria) e uma taxa diária de 10 MTn. De acordo com Mário Chivava, Chefe da Secção de Finanças, Vilanculos tem 300 vendedores ambulantes, mas nem todos pagam as taxas diárias devidas à autarquia. A cobrança é feita através de senhas de mercado, mas o controlo é mínimo, havendo o risco de cobranças ilegais. O pessoal da área alega que também não tem condições para trabalhar. 4.4.5. Gestão de Finanças A gestão financeira do Município apresenta várias lacunas tanto em termos organizacionais como humanos. Problemas organizacionais impedem que o CMV tenha hoje um cadastro sobre o número de vendedores tanto dentro dos mercados como no que diz respeito aos vendedores ambulantes. Problemas 22 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas organizacionais não permitem que o Município aumente os seus níveis de receitas próprias. Por exemplo, o CMV apenas consegue cobrar o Imposto Predial Autárquico a 22 pessoas, de acordo com informações prestadas por Mário Chichava, da Secção de Finanças. Uma das grandes zonas de penumbra assenta também no controlo sobre os cobradores. Aos vendedores formais e informais são cobradas taxas com base no mesmo tipo de senhas; depois, o departamento relevante do CMV não faz a devida separação de receitas, dificultando ainda mais o controlo. Nos últimos meses, o CMV deu, no entanto, alguns avanços nesta matéria de cadernetas, acabando com as antigas cadernetas sem canhotos. Sem canhotos não se sabia a que cobrador correspondia cada receita e quanto realmente se cobrava aos vendedores informais e aos vendedores formais. Por outro lado, havendo um único fiscal dificilmente haverá capacidade de controlo. Há que referir também que, no que diz respeito à transparência, as receitas não são afixadas diariamente, como mandam as boas práticas e a lei. 4.4.6. Sector de Compras e Recepção A CMV tem uma Comissão de Compras e uma Comissão de Recepção. Ambas funcionam de forma irregular. As comissões foram criadas em Julho de 2005, mas só se envolveram até hoje em pouco mais de 20 processos de aquisição (pouco mais de 20 actas existentes). Observando minuciosamente essas actas, vê-se que elas se referem apenas a compras de pequena envergadura. Não há evidências de que a tradicional regra de três facturas seja aplicada nos vários processos de aquisição. Em muitas situações de aquisições e contratos, o CM não toma em consideração o papel da Comissão de Compras pois considera-se que esta não se entende com a Comissão de Recepção. Até o ano passado, o sistema de abastecimento de água à Vilankulo era gerido pelo Município. Nesse sentido, uma das principais despesas da autarquia era com combustíveis. Em 2005, por exemplo, a autarquia de Vilankulo gastou com combustíveis e lubrificantes 1. 021.940 MTn. O problema não é que a autarquia não devia gastar em combustíveis. O problema é que a autarquia sempre comprou e compra todos os combustíveis nas bombas de Sulemane Esep Amuni, o mesmo que é o edil. E essa tem sido a rúbrica mais onerosa da autarquia depois da rúbrica relativa ao vencimento base. Esta é uma situação evidente, que resulta do facto de que até bem pouco tempo Amuji ser o único fornecedor de combustíveis na vila. Esta situação poderá mudar com a abertura recente de mais uma bomba gasolineira na vila. Seja como for, o próprio processo de aquisição de combustíveis nas bombas do SEA é bastante elementar. Segundo nos descreveram vários funcionários do Município, todas as segundas feiras, o chefe dos transportes dirige-se às bombas da SEA acompanhado de 4 tractores e 3 viaturas, que são abastecidas até encherem os respectivos tanques. As requisições para estas operações são emitidas mais tarde. O facto de Sulemani Amuji ser o maior comerciante de Vilankulo e principal fornecedor de produtos a melhor preço leva a que mais de 70% das compras sejam feitas nos seus armazéns. Desde materiais de construção a simples resmas de papel, passando por combustíveis. Nalguns casos, os funcionários levantam os produtos e o CMV paga no final do mês. Isto quer dizer que boa parte dos fundos e receitas da autarquia são gastos nas lojas do próprio edil, levantando-se, aqui, grandes problemas de conflito de interesse, favoritismo e falta de transparência. Este tipo de situações é delicado quando as rubricas de Combústiveis e Lubrificantes e a de Manutenção e Reparação de Equipamento assim como a de Material Não Duradoiro de Escritório são as que mais valores movimentam na categoria de Bens e Serviços. Por exemplo, em 2005 o CMV gastou em Combústiveis e Lubrificantes 1.021 mil Mtn, em Manutenção e Reparação de Equipamento 112 mil Mtn e em Material Não Duradoiro de Escritório 162 mil Mtn. Sulemani Amuji não reconhece que, por esta via, ele esteja a tirar vantagens obscuras. Este relatório também não conclui isso. Amuji tem referido que ele apenas leva da autarquia um magro salário e abdicou doutras regalias a que tinha direito. Por outro lado, tem usado os seus camiões para transportarem produtos comprados pelo Conselho Municipal em Maputo. E fé-lo a título gratuíto. No entanto, essa justificação não elimina o problema objectivo de conflito de interesses que se verifica dado a sua condição de maior comerciante de Vilankulo. Por outro lado, sem mesmo fazer contas, parece claro que a quantidade de aquisições que o cliente CMV faz nas lojas e bombas da SEA supera de longe a quantidade das regalias que Sulemane Amuji abdicou no CMV, assim como a quantidade de “favores” que ele diz prestar à autarquia. - Temos de chamar atenção para o facto de que até 2005 era o CMV quem garantia o fornecimento de água à autarquia e para tal tinha de suportar altos encargos com combustíveis. 23 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.4.7. Área de Urbanismo, Obras Públicas e Transportes O sector da urbanização Vilankulo é uma autarquia onde confluem muitos interesses ligados ao turismo e, de facto, um dos maiores negócios é a terra. Embora a Lei de Terra estabelece que a terra seja do Estado, ela está a ser vendida a gentes com posses, incluindo estrangeiros. Existe, de facto, um ritmo vertiginoso de concessão de DUATs. Só em 2005, o CM arrecadou 660 mil Mtn nos processos de Uso e Aproveitamento de Solo Urbano. Isto quer dizer que existe hoje uma grande actividade de atribuição de terras em Vilankulo (ver Relatório de Contas de Gerência 2005)10. Outro facto objectivo é que a terra que está a ser vendida está na posse dos cidadãos locais, através do direito de posse consuetudinário. Isto quer dizer que os funcionários municipais não têm muitas chances de fazerem a venda directa da terra, o que não quer dizer que não haja riscos para a corrupção. Na verdade, a corrupção pode ocorrer por duas vias principais. Em primeiro lugar, os funcionários municipais detêm a informação sobre os terrenos que, dado a sua boa localização, podem ser vendidos aos interessados (os populares vendem a terra a pretexto de venderem as benfeitorias). O papel dos agentes municipais é de servir de intermediários entre quem queira um terreno e os cidadãos locais que estejam na posse de um terreno por via de ocupação. O facto de funcionários municipais poderem participar como intermediários numa operação de venda de terra é um acto de corrupção, pois está-se perante do uso da sua função num organismo público para benefício próprio. Uma segunda vertente de risco na área de Urbanização envolve uma forma de conflito de interesses. Funcionários municipais podem desenhar projectos de construção para cidadãos que, numa vila como Vilankulo, não tem muitas ofertas de arquitectos ou desenhadores e não tem poder para pagar arquitectos e desenhadores. Como o Conselho Municipal emprega técnicos médios de construção civil, topógrafos e desenhadores, estes podem trabalhar, nos tempos livres e com os seus meios, em projectos de construção de cidadãos singulares. À primeira vista, esta situação parece pacífica, mas na verdade não é. Como os mesmos funcionários vão mais tarde tomar palavra nos processos de autorização dos pedidos de construção, eles estarão a avaliar os projectos que eles próprios construíram. O risco é que, mesmo que encontrem projectos problemáticos do ponto de vista urbanístico, eles podem não se opor a isso. Trata-se aqui de uma questão de conflito de interesses. Esta situação de conflito de interesses ao nível das actividades de funcionários juniores do Conselho Municipal é regulada pelo Estatuto Geral do Funcionário Público e pela Lei Anti-corrupção. A fraca capacidade da autarquia para a fiscalização e controlo das construções clandestinas é um risco institucional para a corrupção. Se os cidadãos constroem sem obedecerem às posturas camarárias, está-se perante o risco de os funcionários ligados à fiscalização extraírem alguns subornos dos construtores ilegais. Em suma, o cenário nesta área remete para a ideia de que a venda de terrenos é feita pela população e que funcionários municipais podem estar a ganhar dinheiro através da mediação de negócio entre aquela e os interessados. 4.4.8. O Sector de Obras Públicas Uma das áreas de risco para a grande corrupção no CM é a que diz respeito à contratação de empreitadas de construção e prestação de serviços. Em Vilankulo poucas obras públicas de vulto foram realizadas nos últimos anos, nomeadamente a construção do chamado Mercado Novo (com financiamento da Embaixada da Irlanda), a reabilitação em curso de 5 kms de estradas (também com financiamento da Embaixada da Irlanda). Outras obras realizadas e em curso são a construção de alguns sanitários e alpendres, a reabilitação de alguns troços de ruas dentro da vila (Fundo de Estradas) e construção de um anexo à sede do CM, etc. No momento em que se fez a pesquisa no terreno, algumas artérias da autarquia estavam a ser reabilitadas, mas ouviu-se várias críticas segundo as quais uma das prioridades é uma rua que passa pela residência do edil, pelo seu gabinete e termina na sua estação de serviço. A corrupção pode acontecer se as regras de procurement (Decreto 54/2005, Regulamento de Contratação de Empreitadas de Obras Públicas, Fornecimento de Bens e Prestação de Serviços ao Estado), não forem 24 10 - O CMV tem a consciência de que a terra é uma importante fonte de receitas e por isso havia orçamentado para 2005 uma receita indicativa de 906 mil Mtn. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas aplicadas; ou se forem aplicadas mas de forma não cabal, nomeadamente através da realização de concursos públicos que não obedecem a todos os passos estabelecidos na Lei. Em Vilankulo esta é uma situação patente em alguns processos de contratação de obras públicas. Em 2002, o Conselho Municipal iniciou a construção do Mercado Novo, uma obra orçada em cerca de $ 400 000 (tendo $ 300 000, sido financiados pela Embaixada da Irlanda). A construção do Mercado Novo viria a terminar em 2006 (foi inaugurado em Junho deste ano). O processo de adjudicação desta obra não foi transparente; não houve concurso público. A obra foi adjudicada em 10 de Julho de 2002 (Vide contrato de adjudicação) a uma firma sedeada em Maputo de nome HM-Construções, Limitada, representada por Mahomed Essak. A documentação relativa à adjudicação desta obra é composta apenas pelo contrato com o empreiteiro e pelo projecto de construção e engenharia. De acordo com informações recolhidas no CM, a HM-Construções recebeu $ 100 000 nos primeiros meses do contrato, sem no entanto ter feito um “trabalho visível”.11 O facto de não terem sido aplicadas, na construção do Mercado Novo, regras de procurement é uma fraqueza institucional que abre portas para a ocorrência de corrupção. Uma consequência da manipulação ou da simples não aplicação das regras de procurement tem a ver com a qualidade final das obras. No caso de Vilankulo, este aspecto é patente, bastando comparar o projecto inicial da construção do mercado e a obra final. A pesquisa apurou que os acabamentos do Mercado não são dos melhores, já se podem ver paredes tortas e com rachas, o pavimento não ficou como vinha projectado, a argamassa no tampo das bancas não foi queimada de modo a permitir a sua lavagem e nenhuma das bancas tem gavetas gradeadas para o armazenamento da mercadoria. Outro inacabamento do mercado é o tanque de água. Estava previsto um tanque construído em betão armado, mas no fim ergueu-se um tanque de plástico. Por outro lado, há que referir que o mercado não foi oficialmente entregue pelo empreiteiro ao município, não havendo qualquer documentação sobre o assunto. Realce-se que contrato com Mahomed Essak não faz referência a cláusula anti-corrupção nem a disposições sobre conflito de interesses. Regras arbitrárias Na única vez que a autarquia de Vilankulo lançou um concurso para uma obra pública, esse concurso foi feito de forma inconsequente, sem se respeitarem todos os passos estabelecidos na Lei. Tratou-se da adjudicação duma obra de reabilitação de 5 kms de estrada ligando o centro da vila à zona norte onde se encontram algumas das mais caras estâncias turísticas de Vilankulo. Trata-se duma reabilitação ainda em curso, orçada em $ 300 000 (financiados pela Embaixada da Irlanda). A obra foi adjudicada a uma empresa Chinesa de nome Sino Hydro. De acordo com o edil, a Sino Hydro ganhou o concurso porque apresentou um preço baixo. Embora se tivesse tratado dum financiamento externo, para esta obra, o CMV convidou a Direcção Provincial de Obras Públicas e Habitação para dirigir o concurso. Foi, pois, a DPOPH que desenhou os cadernos de encargos. Mas estes cadernos de encargos foram desenhados com a colaboração directa não da Comissão de Compras mas da secção de Urbanização, ou seja, as entidades autárquicas que por lei devem participar nestes processos, mesmo que não estejam capacitadas, ficaram relegadas a um plano secundário. Administração directa Práticas de corrupção podem acontecer quando a edilidade, ao invés de adjudicar as obras tendo em conta as regras de procurement estabelecidas ignora-as optando por fazer aquilo a que chama de administração directa. Administração directa quer dizer que a autarquia, ao invés de recrutar uma empresa que faz toda a execução e supervisão da obra, faz ela própria a administração da obra. Essa abordagem de execução de obras públicas está coberta pela Lei 11/97 (Lei de Finanças Autárquicas). A principal justificação da autarquia para avançar com esta prática é a de que a realização de concursos públicos é muito cara. O problema é que o recurso à administração directa não isenta a autarquia da realização de concursos públicos na contratação de empreitadas e aquisição de materiais. Não há evidências de que a tradicional regra de três facturas seja aplicada nos processos de aquisição de materiais 11 - O contrato entre a CMV e a HM-Construções estabelecia que a segunda empresa receberia 25.000 USD pela aprovação do projecto de arquitectura, 25.000 USD no acto da adjudicação e assinatura do contrato e 50.000 no acto da conclusão das fundações. 25 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas de construção. Neste momento, a autarquia encontra-se a construir um edifício nas suas instalações, mas a contratação dos empreiteiros no caso vertente não foi precedida da realização de qualquer concurso. Os pedreiros foram escolhidos de forma desregrada. Dois empreiteiros entrevistados disseram que nesta área de obras públicas de administração directa também não existem práticas de transparência. Um dos empreiteiros deu como exemplo a construção dos anexos do CM. Por outro, a administração directa não tem permitido práticas de transparência uma vez que a aquisição dos materiais de construção é feita nas lojas do Presidente do CM, Sulemane Amuji. Esta situação é delicada, atendendo que o CMV gasta boa parte das suas receitas neste tipo de actividades. Com efeito, o Relatório de Contas de Gerência de 2005 mostra que a categoria de Despesas de Capital é maioritariamente consumida por Edifícios (2.259,00 Mtn) e por Outras Construções (1.858,00 Mtn). 4.4.9. O papel da Assembleia Municipal A AM de Vilankulo tem 13 membros e apenas 1 é da Renamo. Os restantes 12 são da Frelimo. O facto de haver uma esmagadora maioria de um partido sobre o outro limita o debate na AM. Por outro lado, a disciplina partidária tem sido uma característica fundamental para se compreender a falta de acção dos membros da AM. Este facto perturba a acção da AM pois trata-se aqui duma acção de fiscalização dum governo liderado pelo mesmo partido que detém a maioria na AM. De acordo com o seu presidente, Facílio Timóteo, a AM é irrelevante e nem sequer consegue exercer uma fiscalização adequada às actividades do CM. Facílio Timóteo tem a consciência de que a AM poderia reforçar o seu papel de fiscalização no referente à área de mercados, entre outros assuntos etc. De acordo com Timóteo, a AM é irrelevante e nem sequer consegue exercer uma fiscalização adequada às actividades do CM. A AM não participa de forma pro-activa na reorganização da área de mercados e nunca tentou introduzir práticas de transparência nos vários sectores da CMV. Os seus membros sabem dalguns riscos de corrupção mas nunca tentaram discuti-los de forma aberta. Os seus membros sabem que o CMV adquire muitas das suas necessidades nos armazéns do edil mas nunca tentaram impedir que isso acontecesse. E também nunca fizeram pronunciamentos desaconselhando essas práticas. Os seus membros dizem que não tem nenhuma voz sobre os Planos e Orçamentos do Município. Facílio alega que o edil dicide e escolhe as prioridades sozinho “a Assembleia é apenas informada”. Um dos exemplos apontados é a recente reabilitação de estradas. Facílio disse que a AM apenas foi informada pelo edil de que haveria uma reabilitação de estradas, mas este não deu espaço à AM para se discutir sobre as prioridades. A AM é irrelevante enquanto espaço de fiscalização. Aliás, é frequente em Vilankulo ouvir-se a alegação de que a bancada da Frelimo é toda ela controlada por Sulemane Amuji, que coarctou a possibilidade de os membros terem um palavra a dizer relativamente às prioridades e decisões da autarquia. A fraqueza da AM é, pois, atribuída ao próprio edil. 4.4.10. Participação popular na planificação e orçamentação Ficou-se com a percepção de que a participação popular na planificação e orçamentação não existe em Vilankulo pois a sociedade civil e a comunidade empresarial está ausente da gestão do Município. A planificação e orçamentação participativa dependem de dois aspectos: em primeiro lugar, terá de haver vontade dos dirigentes da autarquia em envolver as vozes da sociedade civil nos processos decisórios; em segundo lugar, terá de haver capacidade da sociedade civil em participar nesses processos. Em Vilankulo não se encontrou evidências de isso acontecer. Não se viu sinais de que a população participa na orçamentação das despesas e no controlo das receitas nem na definição de prioridades. Não há indicações de que o Conselho Municipal faça sistematicamente uma gestão participativa. Por exemplo, processos recentes de definição de estradas para reabilitar não tiveram o envolvimento nem da AM nem da sociedade civil. Ficou-se com a percepção de que a sociedade civil desconhece as suas possibilidades de participar activamente na vida do município. Agentes do sector privado nacionais e estrangeiros dizem que têm muito pouco espaço de participação na vida do município porque o edil não lhes abre as portas. Um dos fóruns que podia ser usado para aproximar os processos de decisão da autarquia é a AM. As sessões da AM são, por lei, abertas à participação dos munícipes. Mas em Vilankulo, há indicações de que os munícipes não participam. Ricardo Vilankulo, um munícipe entrevistado, diz que os cidadãos não se aproximam pois não são convidados, por um lado e, por outro, os cidadãos não 26 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas concordam muito com a ideia de presenciarem as reuniões da AM sem sequer terem a possibilidade de intervir. Também há indicações de que a organizações são fracas. Em 2004, fruto da vontade das pessoas em participar, foi criado um Forum Comunitário para participar mais activamente na gestão do município, mas o fórum mostrou-se sem força e completamente irrelevante. A participação social em Vilankulo é afectada também pelos níveis de formação e informação ao dispor dos cidadãos; os jovens não têm emprego e alhearam-se completamente da vida da autarquia. Ricardo Vilankulo é natural e residente em Vilankulo. Empregado numa empresa pública, Vilankulo não vê qualquer benefício com o presente processo de municipalização. Ele descreve não necessariamente práticas de corrupção mas um cenário onde ressalta a ideia de que os recursos da autarquia não estão a ser usados para beneficiar a maioria. De acordo com Ricardo Vilankulo, muitas das decisões tomadas pela edilidade não são feitas em consulta com os munícipes e, nesse sentido, não se verifica a chamada governação aberta ou participativa. 4.4.11. Possibilidades de Controlo Social Existem poucas organizações cívicas como a ANAVIL e o Fórum para o Desenvolvimento Municipal, mas estas estão quase que inoperacionais. Algumas organizações sabem que podem participar nas sessões da AM, mas dizem que não são convidados e acham que deviam ter direito à palavra. O Relatório de Contas da Gerência referente a 2005 refere que, ao longo de todo o ano, o CMV encontrouse apenas uma vez com os membros do Fórum para o Desenvolvimento Municipal, mas não explica que assuntos foram debatidos nesse evento. Contudo, adianta que também realizou “consulta à Comunidade Municipal através de auscultação pública e visita inter-domiciliária”, sem igualmente, em relação a esta actividade, especificar o conteúdo e os objectivos da auscultação. A ANAVIL é uma organização cívica criada em 1996 tendo como objectivo participar nas decisões sobre Vilankulo. Badrudine Dulá, um comerciante há muito radicado em Vilankulo, membro fundador da ANAVIL, diz que, desde que o processo de descentralização democrática foi estabelecido em Moçambique, aquela associação nunca foi convidada a participar em processos ligados ao Município. A ANAVIL tem cerca de 400 membros, maioritariamente naturais e amigos de Vilankulo, mas não tem recursos para desenvolver as suas actividades, sendo quase inexistente. Também existe a AMAV – Associação de Mulheres e Amigas de Vilankulo, que se encontra virada para a promoção do desenvolvimento e apoio aos sectores sócio-económicos. Estas associações não funcionam também porque os seus membros não têm capacidade para angariação de fundos e desenho de projecto de desenvolvimento e de advocacia, continuando a depender das poucas parceirias que estabelecem com alguns ONGs estrangeiras. Existem comissões de vendedores mas o seu papel é completamente nulo quando se trata de restabelecer padrões mínimos de integridade. As comissões participam apenas em actividades que têm como objectivo questões de segurança e higiene; não têm actividades anti-corrupção como por exemplo a denúncia dos vendedores que não pagam as taxas ou a denúncia de funcionários que, por exemplo, têm bancas e usamnas em benefício próprio. Das entrevistas realizadas com os vários stakeholders da sociedade civil em Vilankulo, ficou a ideia de que existe um conhecimento acumulado na sociedade sobre os problemas da Vila, que existe um entendimento de que poderia haver uma melhor participação entre os cidadãos e os órgãos autárquicos, mas que isso não acontece alegadamente porque a gestão de Vilankulo não é feita no interesse das suas populações mas sim em função de interesses alheios. Vilankulo tem igualmente uma Rádio Comunitária criada pelo Instituto de Comunicação Social (ICS), com uma programação que destaca programas educativos, recreativos e informativos. Contudo, a emissora nunca trabalhou com o CMV nem tem uma atitude proactiva que contemple a discussão de matérias ligadas à gestão do Munícipio. 27 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.5. Município de Gurué 4.5.1. Informação Básica sobre Gurué Situado a norte da província da Zambézia, com uma área 107 km², o município de Gúruè está dividido em três localidades municipais, com um total de 23 bairros municipais. O censo populacional de 1997 indica que o município tem uma população de 99 325 habitantes. A cidade de Gurué, a terceira cidade da província da Zambézia, possui excelentes condições climatéricas e geológicas para a produção das culturas de chá, algodão e milho. 4.5.2. Breve Contexto Político de Gurué Gurué é governada pela Frelimo, desde 1998. O edil é João Bernardo e nas segundas eleições autárquicas, realizadas em 2003, concorreu para a sua própria sucessão. Nestas eleições, João Bernardo derrotou Luís Silva (Renamo) e Baptista Julião (União pela Mudança). Dos cerca de 23.451 eleitores registados, apenas 4.431 votaram, representando uma abstenção activa de cerca de 81,11%. A Assembleia Municipal é composta por 17 membros, sendo 12 da Frelimo, 4 Renamo e 1 da União Pela Mudança. Vários documentos a que se teve acesso falam em défice de iniciativa da liderança municipal para reverter a situação em que o município se encontra. Os mesmos documentos falam igualmente em limitado funcionamento da AM, funcionando como uma espécie de ‘aprovador’ das propostas do CM. 4.5.3. O que já se disse sobre o assunto em Gurué Em Gurué também ainda não se fez um estudo sobre a problemática da transparência e corrupção. Porém, no seu relatório sobre a Assistência Técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal, num trabalho realizado entre 14 a 25 de Agosto de 2006, concluiu que em Gurué há: • Falta de cultura de programação orçamental; • Falta de arquivo; • As comissões de compra e de recepção não funcionam por falta de iniciativa e falta de conhecimento de procedimentos sobre legislação aplicável; • Falta de lista aprovada de fornecedores; • Aquisições arbitrarias; • Falta de colaboração entre o sector de património e contabilidade; 4.5.4. Vereação de Planeamento, Actividades Económicas, Finanças e Abastecimento Público Gestão de Mercados O Município possui um único mercado municipal e pequenos mercados que, na verdade, são pequenos aglomerados de vendedores que vão surgindo um pouco por todo o município, mas representam uma importante fonte de receita para o município. Este sector apresenta riscos de prática de corrupção. Uma das fragilidades institucionais que pode ser conducente à prática de corrupção nos mercados relaciona-se com a falta de capacidade para um controlo efectivo da receita diária dos mercados. Pelo que se observou, apesar das melhorias havidas no sistema de controlo das receitas resultantes da capacitação institucional realizada pelo PROVOG, ainda há fragilidades institucionais, o que faz com que parte das receitas não entre para os cofres municipais. A gestão da receita dos mercados é baseada num registo informático diário que tem guias de saída e entrada; logo pela manhã, os cobradores recebem as senhas e, no final do dia, se apresentam à tesouraria para efeitos de conferência contabilística. Uma das fragilidades, tem a ver, por exemplo, com o tipo de senhas usado pelos cobradores que não possui o número de série, não tem carimbo, nem canhotos. Soubese, por exemplo, que um cobrador fazia cobranças através de cópias de senhas reproduzidas no vizinho Malawi. Além da fragilidade acima mencionada, verificou-se nos cinco dias de trabalho em Gúruè que existem cobradores que recebem os valores das taxas de ocupação de mercado mas não passam as senhas aos vendedores; a situação se agrava por causa da fragilidade do sistema de fiscalização dos mercados. Sector de Finanças O sector de Contratação de Bens e Serviços apresenta fragilidades institucionais que são, na verdade, oportunidades para a prática de corrupção. O município de Gúruè teve uma Comissão ah-doc de Compras mas nunca realizou concursos públicos para aquisição de bens e serviços, ou seja, o Conselho Municipal nunca delegou à Comissão de Compras a realização dum concurso público para a aquisição de bens e serviços. A Comissão fazia apenas pequenas compras de escritório como, por exemplo, canetas, papel e pastas. Esta Comissão adocrática já foi extinta no âmbito do Decreto nº 54/2005, de 13 de Setembro 28 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas (Novo Regulamento de Contratação de Empreitadas de Obras Públicas, Fornecimento de Bens e Prestação de Serviços do Estado); no seu lugar foi criada uma Unidade de Compras, cuja proposta de composição foi enviada ao Tribunal Administrativo para homologação. Afinal como funciona o procurement em Gurue? Em princípio, as aquisições de bens e serviços são feitas na base do sistema de 3 cotações mas, na prática, não funciona porque o mercado local não oferece condições. Então, como funciona? O esquema abaixo ajuda a compreender o mecanismo: • • • • • Arrolamento das necessidades por sectores e entrada na secretaria; Parecer do chefe da contabilidade que informa da disponibilidade orçamental; Parecer do vereador de finanças sobre a razoabilidade da despesa; Despacho do Presidente; Efectivação da compra, em caso de despacho presidencial favorável. O chefe da contabilidade Afonso Rui Mucova disse que devido à pequena dimensão das compras e falta de alternativas para a requisição de três cotações, acaba-se por realizar as compras num único estabelecimento comercial “…nunca efectuamos compras de grande dimensão, apenas se fazem pequenas compras de escritório (canetas, papel, pastas, etc.) e como no município existe apenas uma única livraria: ou compramos nesta única livraria ou mandamos alguém para Quelimane, o que seria oneroso”. Ao que se apurou, não há qualquer ligação entre os proprietários da livraria e o edil/vereadores. Portanto, o cenário que se vive em Gurue deriva das insuficiências do mercado e não duma atitude premeditada, em termos de risco para a prática de corrupção, dos agentes municipais. Em segundo lugar, concorre para que o cenário que se vive em Gurue não seja qualificado de falta de transparência pelo facto de que, oficialmente, não existe qualquer ligação entre os proprietários da cantina e o edil/vereadores, o que elimina situações de conflito de interesse. 4.5.5. A nível da vereação de Urbanização, Administração Territorial e Saneamento Sector de Estradas O cenário que se vive em relação à aquisição de bens e serviços também se verifica no sector de infraestruturas, de tipo estradas. O município lançou em Quelimane dois (2) concursos públicos para a reabilitação de algumas artérias municipais. Neste concurso participaram três (3) empresas, nomeadamente a CETA, TÂMEGA, CMC. Apesar de ter havido participação, este processo não chegou ao fim, porque as propostas apresentadas pelas três (3) empresas eram muito superiores às verbas a locadas para as obras. O município tinha cerca de 560 mil MTn; as empresas apresentaram propostas com valores que variavam entre 19 a 26 milhões de MTn. Porque a oferta do município era irreconciliável com as propostas das empresas, o município desistiu do concurso e, porque queria realizar as obras, optou por fazer pequenas melhorias através de brigadas próprias, a chamada a administração directa. Para a administração directa, o CM alugou equipamentos e adquiriu material de construção como, por exemplo, cimento; pedra; brita; etc. Aqui é onde começa o problema de falta de transparência e presença de oportunidades flagrantes para a prática de corrupção: estes equipamentos e material de construção são adquiridos sem concurso público. A mais recente avenida reabilitada nestes moldes foi a Av. da República. Pelos valores despendidos quer na compra de material quer no aluguer de equipamento, a administração directa de obras oferece oportunidades para a grande corrupção que pode ser por via de super facturação; pagamento de comissões; favoritismos, etc. Emissão de licenças de construções e concessão de talhões Em termos gerais, a emissão das licenças para construção é bastante demorada; a norma prevê um limite máximo de 30 dias mas vários munícipes com as casas já erguidas e alguns já a morar nelas disseram que não tinham recebido as licenças de construção, embora tivessem solicitado desde o início. Muitas pessoas alegaram lentidão na emissão de licenças como razão de base para as várias construções clandestinas que abundam em Gúruè. A lentidão na emissão de licenças para construção, oferece oportunidades para a prática de corrupção, primeiro, em termos de suborno aos agentes que passam as licenças, porque muitas pessoas estão cientes dos riscos de construções clandestinas e, segundo, oferece oportunidades para a prática de corrupção aos fiscais de obras clandestinas que, na realidade, tem oportunidade para passar de casa em casa ‘recolher’ alguma gratificação para não embargar a obra. Porém, reconhece-se que esta segunda oportunidade para a prática de corrupção pode ter pouca expressão porque Gurué não tem fiscais de obras clandestinas. 29 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas A legalização de parcelas para habitação envolve os secretários de bairros; este envolvimento acaba criando alguma desordem porque os secretários de bairro interpretam o seu envolvimento no processo de legalização como um poder de facto para também legalizarem parcelas. Este cenário abre espaço para a existência dum, de facto, sistema paralelo de atribuição e legalização de parcelas. aliás, como o próprio vereador disse, estes também costumam conceder autorizações “....o município não tem fiscais de obras e o processo envolve os secretários que, na verdade, funcionam também como fiscais (…) mesmo estes, costumam conceder autorizações”. Quem é o vereador! Em consequência deste de facto sistema paralelo de concessão/legalização de parcelas constatou-se uma total desordem na urbanização, especialmente, na área de expansão; a desordem inclui obstruções de algumas vias de acesso. 4.5.6. A prestação de contas e a participação popular na planificação e orçamentação Embora existam no município muitas organizações comunitárias, o seu papel é bastante limitado em termos de participação na planificação e orçamentação. Se há pouco envolvimento dos munícipes e das organizações comunitárias na planificação e orçamentação, também é verdade que da parte do Conselho Municipal há pouco esforço no sentido de envolver os munícipes no processo de planificação. Na verdade, não se apuraram evidências duma planificação e orçamentação participativas no município de Gúruè “…pelo facto de a sociedade civil ser fraca não participa nos processos de elaboração dos planos e orçamentos”, segundo corrobora o edil, João Bernardo. No entanto, contrariando a percepção do edil que fala em fraqueza da sociedade civil, constatou-se uma generalizada insatisfação dos munícipes sobre o desempenho do actual executivo. Os munícipes e, sobretudo, organizações da sociedade civil apontam o dedo acusador ao próprio edil e seu elenco de não estarem a fazer nada, daí o estado de estagnação e improvisação a que Gúruè está votado. Constatou-se igualmente que o sistema de prestação de contas é bastante fraco. Não há evidências de prestação vertical de contas, e há uma limitada prestação horizontal de contas tanto para o Tribunal Administrativo (TA) como para com a AM. Ficou-se com a impressão de que na prática a AM serve para aprovar as propostas e legitimar as acções do CM. Não há evidências de que a AM debata as propostas de planos de actividades e orçamentos. Sérgio Campos, Presidente da Assembleia Municipal e Luís Dalvez, membro da banca da Renamo, apontaram o enviou tardio dos documentos à AM pelo CM como um dos principais constrangimentos que prejudica o normal funcionamento da AM. Apontaram também a falta de instalações e mobiliário como factores que dificultam o seu trabalho. Por exemplo, por diversas vezes, as secções da AM são adiadas por falta de envio dos documentos. Até à data da realização deste trabalho, não tinham sido enviados os relatórios de gerência de 2004 e 2005, ao Tribunal Administrativo e à Assembleia municipal. 4.5.7. Possibilidades de Controlo Social Existem no município muitas organizações comunitárias locais, por exemplo, a ANAGUR; Associação Pastoral da Criança; Associação 4 de Outubro; Associação dos Amigos e Naturais do Ile; AMUZA; AMUTRA; Ovilela; entre outras. Estas organizações mostraram um espírito crítico, empreendedor e relativo envolvimento em assuntos da governação municipal por isso podem servir de ponto de partida para a promoção de controlo social. 4.6. Município de Chimoio 4.6.1. Informação Básica sobre Chimoio Capital da província de Manica, Chimoio situa-se ao longo do corredor da Beira. Com uma área de cerca de 174 km2 e uma população de cerca de 172. 000 Habitantes, Chimoio está inserido numa zona muito rica em recursos agro-pecuários, constituindo o centro industrial, comercial e administrativo do eixo BeiraZimbabwe. A sua economia é dependente das indústrias transformadoras de produtos agrícolas como tabaco, citrinos, cereais, etc. Administrativamente, Chimoio está organizado em 3 localidades urbanas, designadas por Administrações Urbanas e 33 bairros. 4.6.2. Breve Contexto Político de Chimoio Chimoio é governada pela Frelimo. Foi assim desde a introdução das autarquias locais em 1998. No primeiro mandato, Chimoio foi governado por Dário Jane, docente de Filosofia na Universidade Pedagógica e antigo Director provincial de Educação de Manica. Em 2003, a Frelimo designou Alberto Manuel Sarande para candidato a edil. No acto eleitoral, Sarande derrotou Pedro Siavaca, candidato da Renamo12. Do total 30 12 - Num comício popular por ocasião da campanha eleitoral (2003), Siavaca, por engano, disse ‘viva a Frelimo’. Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas de 104.170 eleitores inscritos, apenas 23.593 votaram, o que representa uma abstenção activa de cerca de 77,35%. Do total de 39 membros que compõem a Assembleia Municipal, 24 são da Frelimo e 15 são da Renamo. O edil, Alberto Manuel Sarande, é político de carreira e já exerceu vários cargos, dentre os quais o de deputado da Assembleia da República. Aliás, interrompeu o mandato de deputado para se candidatar a edil. No Chimoio, é conhecido pela sua vocação política, o que no dizer dalgumas pessoas tem dominado a sua agenda em detrimento da gestão municipal. A partir da análise das deliberações da Assembleia Municipal (AM) sobre as várias propostas do Conselho Municipal, sobretudo, a proposta de plano/orçamento e relatório de execução orçamental e de actividades, fica-se com a impressão de que a AM de Chimoio é um órgão criteriosamente actuante, burocraticamente organizado e, sobretudo, conhecedor da legislação autárquica. 4.6.3. O que já se disse sobre o assunto em pesquisa relativo a Chimoio No seu relatório sobre a Assistência Técnica aos 33 municípios de Moçambique, o Gabinete de Capacitação Municipal, num trabalho realizado entre 12 a 23 de Junho de 2006, concluiu que em Chimoio: • Não há fixação do diário das despesas; • Não há elaboração da reconciliação bancária; • Há inconsistência de documentos nos processos de conta de 200-2005; • Há aquisições com fraca observância das normas e fraco domínio da legislação sobre a gestão patrimonial autárquico; • Há bens adquiridos sem processos; • Há aquisição de bens sem segunda mão; • Há um deficiente processo de implementação do plano parcial do bairro Trangapasso; • Deficiente fiscalização; 4.6.4. Contexto e constrangimentos sobre a pesquisa Inicialmente, este município não estava contemplado no estudo mas, no dia da apresentação dos resultados preliminares do estudo realizado nos 5 municípios acima apresentados, o edil, juntamente com o presidente da AM, solicitaram que um estudo similar fosse realizado no município de Chimoio. Os dois parceiros, CIP e PROGOV, compreenderam que a solicitação era genuína e única, por isso, decidiram atender. Mas também contribuiu grandemente para o acolhimento favorável da solicitação o facto de que Chimoio será abrangido na segunda fase da iniciativa (aquela que vai procurar estabelecer anticorpos institucionais para a melhoria do ambiente de transparência na gestão pública municipal). A partir do encontro de apresentação que tivemos com o edil e das questões que, na altura, apresentou e de algumas constatações apresentadas neste documento, ficámos com a percepção de que, ao solicitar que um estudo similar fosse realizado no município de Chimoio, o edil estava a agir inteligentemente, porque ao que nos parece ele já tinha alguns dados sobre grande parte das nossas constatações e, provavelmente, doutras que não conseguimos detectar, mas não se sentia confortável para os abordar. Daí que queria uma espécie de voz independente para apresentar os problemas. Como CIP, gostaríamos que houvesse mais gestores públicos com a coragem demonstrada pelo edil de Chimoio. Porque a equipa tinha sido convidada pelo edil, pensou-se que o mesmo ‘convite’ também viesse dos demais colaboradores, por exemplo, vereadores. Aqui, se cometeu um erro! Por este erro, revelou-se a agenda de trabalhos, sobretudo, indicando com quem se ia falar e, inclusive, aceitou-se que fosse um vereador a organizar os encontros. No dia seguinte ao da sessão de apresentação preliminar dos resultados do estudo (onde participaram 9 membros da Comissão Permanente da AM; 2 vereadores e o inspector do Conselho Municipal) houve uma espécie de ‘interrogatório’ e acusações baseadas em deturpação dos resultados preliminares do nosso diagnóstico, a duas das pessoas com que falámos ao longo do trabalho. O ‘interrogatório’ a que se faz referência foi feito por uma das três pessoas que participaram no encontro de apresentação preliminar dos resultados em representação do Conselho Municipal, designadamente os dois vereadores e o inspector. Aliás, já se tem informação da pessoa que fez isso mas não se vai revelar porque o objectivo que se pretende neste parágrafo é de apresentar o ambiente que esta pessoa criou à volta do trabalho da equipa em Chimoio. É importante lembrar que se deixou claro para todas as pessoas em todos os municípios por onde a equipa passou que este trabalho não era policial, de inspecção seja de que tipo for mas, sim, um diagnóstico para aprofundar o entendimento sobre como se pode ajudar estes municípios a melhorar os índices de transparência na gestão municipal que, como já se disse, é o trabalho da segunda fase. 31 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas 4.6.5. Vereação de Indústria e Comércio (Secção de Mercados) Os mercados, incluindo as praças de transportes semi-colectivos, constituem a segunda maior fonte de receita do Município. Opera nos mercados municipais um total de 35 cobradores, incluindo os cobradores da praça de transportes semi-colectivos, e um total de 10 fiscais, para um total de 1006 vendedores que operam nos 4 mercados e feiras municipais; 2000 vendedores que operam nos 6 mercados informais; e 994 que operam nos 33 mercadozinhos informais13. Os cobradores dos mercados iniciam as actividades entre 7:00 e 9:00 da manhã e despegam entre 16:00 e 17:00. Alegadamente (alegação feita por Lúcio Juanete, chefe dos mercados), fica um cobrador por cada mercado para cobrir os vendedores que iniciam as suas actividades comerciais no período da tarde, sobretudo, a partir das 16:00. Porém, esta alegação não foi confirmada nem pelos próprios cobradores nem pela equipa de pesquisa, pelo menos no mercado Josina Machel, durante os três dias em que a equipa passou pelo mercado. Aliás, os cobradores disseram que abandonam os mercados a partir das 16:00, por temer pela sua própria segurança, uma vez que transportam elevadas somas de dinheiro. A receita dos mercados varia entre 7 000 MTn a 8 000 MTn. Pelos livros de entrada a que se teve acesso, nos últimos três meses, isto é, de Setembro, Outubro e Novembro, houve uma variação diária de cerca de 1000 MTn. Mas, o chefe dos mercados estimou em 80 MTn o prejuízo diário causado pelos possíveis ‘esquemas’ dos cobradores. Na verdade, pelos objectivos deste trabalho, o sector de mercados apresenta um misto de fragilidades (áreas de risco) causadas por défice de capacidade e, sobretudo, esquemas montados por pessoas de topo da hierarquia municipal para desviar parte da receita diária cobrada nos mercados. Sobre as fragilidades causadas por défice de capacidade, está em primeiro lugar o registo manual da receita. Por exemplo, na segunda-feira (11 de Dezembro), toda a receita da semana anterior ainda não tinha sido registada a computador. Associado a esta fragilidade, está o facto de o mapa de registo da receita (o tal que fica cerca duma semana sem que os dados nele contidos sejam registados a computador) não requerer uma verificação dum supervisor externo ao sector. Em terceiro lugar, está o tipo de senha que se utiliza. As senhas consistem de duas partes: a senha em si e o canhoto. Normalmente, o elemento de segurança nas senhas é, entre outros, o número de série que, em princípio, deve estar estampado nas duas partes que compõem a senha, para efeitos de fiscalização. Mas, as senhas que se usam no município de Chimoio apenas apresentam o número de série na parte que se entrega ao vendedor como comprovativo de pagamento da taxa de mercado, o que significa que os canhotos não apresentam o número de série. Isto resulta em que, objectivamente, não se pode identificar de que caderneta se retirou uma determinada senha. Porém, os fiscais com que se falou e o chefe dos mercados disseram que isto não constituiu risco mas, a equipa tem uma opinião diferente. Para a equipa, a actual disposição das senhas pode perturbar a aferição da actualidade das senhas apresentadas pelos vendedores aos fiscais, apesar de que os cobradores escrevem a data do dia em que a senha foi passada. Primeiro, a data é apenas escrita na senha em si e não no canhoto; segundo, os cobradores não escrevem legivelmente as datas. Por exemplo, no dia 12 de Dezembro, no mercado Josina Machel, a equipa teve dificuldades para descortinar os números (indicando a data) que estavam escritos na senha de cerca de 4 vendedores. Sobre os esquemas montados por pessoas para desviar parte da receita diária cobrada nos mercados, não se tem uma opinião acabada mas, sim, percepções de que no município de Chimoio há um esquema (s) bastante enraizado para roubar dinheiro do município. Este esquema funciona sob protecção de/ou foi montado por um vereador ou por alguém que tenha exercido esta função mas que ainda permanece no Conselho Municipal. Aparentemente, para evitar que haja muito contacto e, possivelmente, amizades entre vendedores e cobradores, o município de Chimoio desenvolveu um esquema de rotatividade dos cobradores. Trimestralmente, os cobradores são rodados entre os vários mercados. Pelo mapa de rotatividade de 2006, observou-se que parte dos cobradores afectos a grandes mercados, tais como Josina Machel, não foram abrangidos pelo esquema de rotatividade. As percepções que existem são de que este grupo de vendedores ‘fixos’ são chamados de cobradores ‘facilitadores’ e trabalham sob ordens desse tal vereador ou ex-vereador. Pelo tempo de permanência e pelo medo com que as pessoas falam (alguns verificavam sempre se a porta estava bem fechada), não se conseguiu formar uma opinião acabada sobre o esquema, mas a equipa tem duas linhas possíveis de operacionalização do esquema. Por um lado, pensa-se que a pessoa em causa (que pelas suas funções está ligada à produção das senhas) tem ‘senhas paralelas’ que são vendidas pelo grupo de cobradores ‘fixos’ nos grandes mercados, como por exemplo, Josina Machel. Por outro lado, o grupo de cobradores ‘fixos’ opera em colaboração com alguns 13- Estes dados foram extraídos no relatório de actividades de 2004, baseados num censo realizado no mesmo ano 32 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas fiscais afectos aos grandes mercados que facilitam o esquema. Esta segunda linha acontece da seguinte maneira: os cobradores vão aos mercados para cobrar a taxa de mercado que varia entre 2,5 MTn (hortícola) a 5 MTn (manufacturados) e, em troca, passar uma senha como confirmativo de pagamento. Mas, estes cobradores, ao invés de cobrar a taxa estipulada, cobram por exemplo metade da taxa e não passam nenhuma senha troca. Porque os vendedores são molestados quando encontrados pelos fiscais sem senha, estes exigem a senha mas os cobradores asseguram que nada vai lhes acontecer porque os fiscais não vão passar por aquela zona. Pela gravidade do assunto, o próprio Conselho Municipal realizou uma ‘visita’ de surpresa em alguns mercados e os resultados são surpreendentes. Por exemplo, na visita surpresa realizada no dia 7 de Dezembro de 2006, os resultados são os seguintes (não se vai apresentar os nomes dos cobradores implicados): • • • • • • • • Mercado Mupulanga, ao fim do dia, na área do cobrador 1, foram encontrados 8 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 40 MTn; No mesmo mercado, na área do cobrador 2, foram encontrados 7 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 35 MTn; No Mercado do Parque de Matsinhe foram encontrados 27 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 35 MTn; Mercado 25 de Junho, na área do cobrador 3, foram encontrados 50 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 250 MTn; No mesmo mercado, na área do cobrador 4, foram encontrados 20 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 100 MTn; No mercado Francisco Manyanga, na área do cobrador 5, foram encontrados 10 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 50 MTn; No mesmo mercado na área do cobrador 6, foram encontrados 15 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 75 MTn; No mesmo mercado na área do cobrador 7, foram encontrados 15 vendedores sem senha, o que equivale a um prejuízo de 75 MTn. Estes dados, extraídos dum documento confidencial (por isso não se vai citar a fonte), mostram por um lado a gravidade dos prejuízos aos cofres municipais imputados pelos agentes municipais afectos à área de cobrança da receita dos mercados. Por outro lado, mostram que tamanho prejuízo só é possível num contexto em que os cobradores fazem o trabalho para ou em conivência com alguém que têm poder para os proteger. Como se afirmou logo de início, não se tem dados acabados sobre este esquema, aliás, cavouse até onde foi possível. Mas, o mais importante para os objectivos deste trabalho é a percepção de que a segunda mais importante fonte de receita no município de Chimoio, os mercados, foi capturada por alguma (s) pessoa (s) de topo do Conselho Municipal. Provavelmente, esta percepção pode ajudar a perceber que em 2004, duma previsão de cerca de 715 mil MTn em receita fiscal se tenha apenas realizado cerca de 223 mil MTn. Em 2006, dum total de cerca de 1.8 milhões de MTn previstos, tenha apenas realizado até o mês de Agosto, cerca de 736 mil MTn. 4.6.7. Vereação de Finanças (Direcção de Administração e Finanças) O sector de finanças mostrou dados de que cumpre com os dispositivos da actual lei das finanças autárquicas, a lei 11/97 de 31 de Maio. Mas não há fixação do diário das despesas. Nesta área, o maior interesse era o Procurement. As duas comissões previstas pela lei para o procurement, designadamente, a comissão de Compras e de Recepção, existem; têm composições diferentes e são funcionais. A Comissão de Compras tem termos de referência (que especificam as modalidades de procurement de acordo com os montantes orçamentados) e já realizou compras que envolvessem elevadas somas de dinheiro. Por exemplo, fez o procurement para a compra dum camião basculante; duas viaturas com tracção a 4 rodas; e três motorizadas. Para a aquisição do camião basculante e as três motorizadas, houve um concurso público publicado no jornal e na Rádio local. Enquanto, para a compra das duas (2) viaturas com tracção a 4 rodas, realizouse apenas um curso dirigido, o que pelo montante gasto; pelos valores praticados pelas empresas; e, sobretudo, por não haver uma lista de fornecedores aprovada pelo Conselho Municipal, devia-se ter realizado um concurso público. Isto é uma fragilidade. Os concursos, até aqui, realizados foram avaliados em conformidade com os critérios estabelecidos nos termos de referência. Porém, nas compras que envolvem valores iguais ou inferiores a 6000 MTn, não há a mesma transparência que se observa nas chamadas ‘grandes’ compras. 33 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Há, por exemplo, bens adquiridos sem processos de suporte e muitos deles em estado de segunda mão. Isto é grave se se tomar em consideração os montantes gastos nas rúbricas de despesas com bens e serviços14. Este aspecto é mais grave nas oficinas que compram peças sem processo e em segunda mão. A Comissão de Recepção apresenta fragilidades na sua forma de funcionamento. Por exemplo, para receber as várias obras/bens/serviços, esta Comissão procura uma ‘opinião técnica’ sobre o estado da obra/bem/serviço que estão a receber. Por exemplo, na compra dos bens acima referidos, solicitou-se a opinião do chefe das oficinas, motoristas, etc. Porém, não há relatório de recepção, onde por exemplo, se especificasse o estado do bem/obra que se está a receber. Os membros desta comissão assinam por trás das guias de entrega do bem/serviço. Isto é uma grande fragilidade, sobretudo, num contexto em que alguns sectores, como por exemplo, as Oficinas, compram peças em segunda-mão. 4.6.8. Vereação de Construções e Urbanização Sector de Talhões Durante o primeiro mandato (1998-2003), Chimoio foi conhecido pelo problema de dupla atribuição e, sobretudo, por venda de talhões, aliás, este último é causa do primeiro. A imprensa local e alguma nacional publicaram, entre outros, vários materiais sobre esse problema. Pelas percepções populares e, sobretudo, de alguns jornalistas locais, a venda de talhões e dupla atribuição são um problema, já, controlado. Porém, há outros problemas, cuja expressão mais alta é Trangapasso, o bairro de expansão. Os problemas deste bairro são, na verdade, causados pelo próprio Conselho Municipal (CM). Senão vejamos: O CM atribui talhões sem abrir ruas que servissem de demarcações factuais dos talhões pertencentes a vários e diferentes cidadãos. Na verdade, existem marcos de demarcação dos talhões mas, por se tratar dum bairro de expansão (com muito capim), a ocupação efectiva dos talhões é diferenciada. Por exemplo, num total de 10 talhões distribuídos pode-se apenas encontrar cerca de 5 que, de facto, ocupam as suas parcelas, o que faz com que existam um pouco por todo o bairro parcelas não ocupadas. Como resultado, há litígios de delimitação de parcelas, uma vez que não há ruas que, claramente, indicassem onde inicia e termina uma determinada parcela. Para que se perceba a seriedade do assunto, nos dias em que permanecemos no Município de Chimoio, presenciamos cerca de, pelo menos, 3 casos de litígios de delimitação de talhões, por dia, apresentados à Direcção de Construção e Urbanização do Conselho Municipal. Neste bairro, um terreno que mede 50/50 m custa 25000 MTn; um terreno que mede 20/40 m custa 12 000 MTn; e um terreno que mede 20/30 m custa 6000 MTn. Um outro dado que interessa ressaltar neste ponto é o facto de que os agentes municipais podem ter até 3 talhões. Ninguém se mostrou interessado em falar sobre as medidas dos tais talhões e do mecanismo de fiscalização sobre esses três (3) talhões a que os agentes municipais têm direito por norma. A questão do fundo é: quem atribui; quem fiscaliza; e para que fins tais terrenos podem ser usados. Mais grave, é o facto de que o plano de Trangapasso como bairro de expansão é totalmente desconhecido pela AM; portanto este projecto não foi submetido à AM para debate, por isso, ainda não foi aprovado pela AM. Olhando pelos preços das parcelas em Trangapasso; pela facilidade que se dá aos agentes municipais para ter até 3 talhões e, agora, pelo facto de que este projecto de Trangapasso não foi aprovado pela AM, fica a ideia de que o CM só quer ‘vender’ talhões para encaixar dinheiro sem se preocupar com os problemas que surgem pela falta de infra-estruturas. Seria interessante ver a gestão da receita dos talhões, afinal, são a principal fonte de receita do Conselho Municipal. Não se tem material que leve a pensar que o cenário verificado nos mercados também se possa estar a passar na receita dos terrenos, mas seria interessante que se fizesse uma aferição nesse sentido. Sector de Estradas Até ao período em que estivemos a trabalhar em Chimoio, no sector de estradas se tinha realizado um concurso público e se estava em processo do segundo concurso público. No âmbito do primeiro concurso público, adjudicado através do contrato 03/MEU/CMC/2005 (Concurso dirigido pelas Obras Públicas), foi reabilitada a rua da Sussundenga (recelagem de 1200 m) e Tambara 2 (formação, compactação e 14 - A título de exemplo, na despesa de 2004, o Conselho Municipal gastou 4.5 milhões de MTn na rúbrica sobre ‘Bens’; 1.9 milhões de MTn na rúbrica sobre ‘Serviços’; e 3.5 milhões de MTn na rúbrica sobre ‘Bens de Capital’. Em 2005, gastou 5 milhões de MTn na rúbrica sobre ‘Bens’; e cerca de 2.4 milhões de MTn na rúbrica sobre ‘Serviços’. 34 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas asfaltagem de 200 m), no valor de 2.899.009 MTn. Sobre o concurso em si há muito pouco por se dizer, porque este foi realizado pelas Obras Públicas. Mas, sobre o trabalho realizado há muito por dizer e resumese no seguinte: as duas faixas têm níveis diferentes; o asfalto tem ondulações; em dias de chuva, como por exemplo a que nos apanhou no dia 11 de Dezembro, a água escorre para as casas ribeirinhas porque a asfaltagem tapou os esgotos. A justificação para estes problemas é a de que o dinheiro disponibilizado era insuficiente. Com a descentralização do Fundo de Estradas para os municípios, este ano, o Conselho Municipal está a organizar o segundo concurso para a adjudicação de obras públicas no sector de Estradas. Do Fundo de Estradas, o CM recebeu para 2006, cerca de 4 milhões MTn. Consultou-se o processo, e até este momento está em conformidade com os termos de referência para a contratação de bens e serviços do Estado. Mas no geral, nem tudo está tão claro, senão vejamos: apesar de que nunca houve administração directa de obras, o CM tem parcerias com agentes económicos com interesse na área de construção civil. Algumas empresas emprestam equipamento ao município sem cobrar nada em troca, apenas o CM abastece em combustível os camiões e equipamento desses agentes económicos para fazerem o trabalho. A equipa encoraja o espírito de busca de parcerias com o sector privado mas, deve haver transparência e prestação de contas sobre os termos das parcerias. No caso de Chimoio não fica claro o que os agentes económicos ganham pelo desgaste físico dos seus equipamentos/camiões para a recolha de lixo, incluindo o trabalho dos motoristas, e operadores de máquinas, etc. Só para citar alguns, há dois casos que podem ser tomadas como exemplo: no caso do Jardim Municipal (recorde-se que este projecto também não foi aprovado pela AM), houve uma parceria entre o CM e a PAF, Construções que até hoje não ficou esclarecida em termos do ganho que esta empresa teve com o fornecimento de pedra que, pelo que se diz, foi gratuita. O segundo exemplo está relacionado com o bairro Trangapasso: um agente económico se ofereceu para abrir algumas ruas. Como se disse, esta é uma necessidade urgente mas, tem que haver transparência na sua solução. Ao que se ficou a saber, o tal agente económico tem interesse num terreno no mesmo bairro e que o CM se mostrou ‘aberto’ a atribui-lo sem que este pague o valor do mesmo, desde que abrisse as ruas. Até pode ser que o CM saia a ganhar com esta parceria mas, o mesmo não deve ser conseguido em prejuízo da transparência e da violação das normas de gestão das finanças públicas, neste caso o princípio da não consignação. Estes dados apresentados neste parágrafo ganham contornos de gravidade quando, por exemplo, se constata que o CM gastou em maquinaria e aluguer de equipamento cerca de 3,9 milhões de MTn em 2004. 4.6.9. Participação popular na planificação e orçamentação Em 2003, o candidato vencedor a presidente do CM, teve como emblema da campanha eleitoral a ‘governação participativa’. Procurou-se apreender a proclamada governação participativa a partir de (i) envolvimento dos munícipes no processo de planificação e orçamentação anual; (ii) prestação regular de contas sobre a execução orçamental e do plano de actividades. Ficou-se com a percepção de que o CM ou, melhor, o edil estabeleceu um mecanismo de consulta popular, o chamado, Fórum de Consulta, mais para preencher um requisito formal no âmbito da chamada governação participativa do que, propriamente, para estabelecer um mecanismo instrumental de participação popular. O CM tem, entre outros, os seguintes mecanismos de participação popular: • • • O Fórum de consulta do presidente (presidido pelo próprio presidente); Os encontros com a comunidade (promovidos pelo presidente do CM); Os Comités de água e ambiente. A equipa prestou particular atenção na operacionalidade do Fórum de Consulta do edil e constatou que, pelas actas a que se teve acesso, este Fórum só funcionou em 2005, sobretudo, na euforia do momento inicial. Inicialmente, estava estabelecido que este Fórum iria ter reuniões com uma periodicidade bimensal. A equipa constatou também que não há critérios estabelecidos para a designação dos membros do Fórum; não há evidências que mostram que este Fórum seja um instrumento de participação popular na governação municipal. Por exemplo, houve dificuldades por parte da vereação de Administração Territorial para mostrar em que medida e momento o Fórum de Consulta do edil interveio na elaboração do plano de actividades de 2006. Aliás, o défice de capacidade na componente de planificação anual extravasa a simples falta de evidências de participação popular no processo através do chamado Fórum de Consulta: o próprio CM, 35 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas em termos técnicos, enfrenta dificuldades para elaborar um plano anual de actividades. Por exemplo, até hoje (20 de Dezembro), o CM ainda não depositou a proposta de plano e orçamento para 2007 na AM porque, segundo se soube, ainda está em ‘elaboração’. Por norma, a aprovação do plano de actividades e orçamento deve acontecer entre Outubro e Novembro do ano em curso. 4.6.10. Prestação de Contas Chimoio aparece como um caso atípico: tem uma AM bastante actuante e, por isso, este órgão se afirma como um pilar sólido de exigência para uma prestação regular de contas. O primeiro aspecto positivo da AM é a organização e, sobretudo, documentação de todas as actividades (pareceres/recomendações/ actas) feitas no âmbito da aprovação do plano de actividades/orçamento e sua fiscalização. Em termos de poder orçamental, a AM de Chimoio já recomendou uma série de rectificações orçamentais, o que por exemplo ditou que a sessão para aprovação do orçamento de 2006 durasse cerca de dois meses, contra os cerca de 7 dias previstos por lei. Presumivelmente, pela pressão da AM, o CM apresenta relatórios trimestrais à AM, o que em última instância, faz com que o próprio CM tenha uma nota positiva neste aspecto de prestação horizontal de contas. O actual desfecho da questão salarial do edil teve também um grande impulso da AM que não só pressionou para que se interrompesse a prática daquele salário como também e, sobretudo, que se ressarcisse os cofres municipais pelo prejuízo. A AM também teve um papel preponderante no embargo do projecto do ‘jardim municipal’. Na verdade, a AM deixou claro, desde o início, que não concordava com a transformação do jardim municipal em praça de pedra; aliás, chumbou o projecto submetido pelo CM. E, agora, cerca de dois anos depois, o CM recuou e, paulatinamente, vai devolvendo o jardim ao seu anterior aspecto. Sobre o bairro de Expansão, Trangapasso, a AM disse que se tratava dum ‘projecto desconhecido’ para os membros da AM. Disseram, no entanto, que sabiam do que acontecia naquele bairro, mas não queriam discutir o assunto porque ‘desconheciam’ o projecto. Portanto, o município de Chimoio e, em particular, os seus munícipes, têm na AM um instrumento que, efectivamente, serve de ‘boca’; ‘ouvido’ e ‘olhos’ perante a gestão do bem comum municipal. Em termos de possibilidades para um controle social, centrado na sociedade civil, ficou-se com a percepção de que o município de Chimoio tem mais possibilidades numa provável ligação entre os órgãos de comunicação locais e a AM e, talvez, menos nas chamadas ONGs ainda que locais. Durante o tempo de trabalho no município, não se conseguiu contactar nenhuma das ONGs que tinham sido sugeridas, designadamente a UCAMA (sector agrícola), Kubatsirana (HIV/SIDA), Cubatana (HIV/SIDA); Rudo Kubatana (HIV/SIDA); e Jossual (Jovens/HIV/SIDA) mas trabalhou-se intensamente com jornalistas, quer correspondentes de órgãos de comunicação social baseados em Maputo, quer jornalistas trabalhando para a rádio comunitária (ICS-TVC) e GESSOM. Destas conversas ficou-se com um entendimento comum sobre os problemas que afectam o município e os munícipes: lixo e, alegadamente, falta de cometimento dos vereadores, sobretudo, a percepção de que os vereadores só se envolvem em algo de que tiram algum benefício pessoal. Estas percepções sugerem que estes jornalistas têm interesse e capacidade para fazer um acompanhamento do que se passa com a gestão do bem comum no CM, pelo que, podem servir de embriões para acções sistemáticas de controlo social. Porém, pensa-se que estes órgãos de comunicação social teriam muito mais força e, sobretudo, legitimidade se se articulassem com a AM que, como se disse, também constitui um grande pilar na luta por mais transparência e legalidade na gestão do bem comum municipal. 5. Constatações gerais O estudo concluiu que há áreas de risco e oportunidades para a prática tanto de grande como de pequena corrupção nos seis municípios estudados. Os conceitos de grande corrupção variam de acordo com o nível de desenvolvimento municipal. Por exemplo, o município de Chibuto tem um orçamento anual de cerca de 5 milhões de MTn contra os cerca de 32 milhões MTn de Dondo. Em termos gerais, o estudo concluiu que: Os municípios com doadores tem mecanismos transparentes para a gestão dos fundos doados mas a mesma transparência não se encontra na gestão dos fundos próprios; ou seja, pode até falar-se em mecanismos paralelos de gestão financeira: transparência na gestão de fundos externos (de doadores) e relativa falta de transparência na gestão dos fundos próprios, sobretudo, as receitas locais. Porém há excepções a esta regra: há municípios em 36 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas que a relativa falta de transparência se aplica também aos fundos dos doadores. O estudo também concluiu que as regras de procurement não são aplicadas, sobretudo, para os fundos próprios, abrindo espaço para o risco da chamada ‘grande corrupção’, tendo em conta os valores monetários movimentados. Igualmente, o estudo concluiu que a existência (legal) de Comissões de Compra, de Recepção e de Contratação de Bens e Serviços não representou um salto qualitativo em termos de transparência na gestão de bens públicos, porque (i) em alguns casos não foram criadas, (ii) apesar de terem sido criadas, em certos municípios não funcionaram, (iii) foram criadas e funcionaram mas não observaram as regras de procurement; e (iv) foram marginalizadas pelos líderes municipais, em alguns casos, pelo próprio edil. Os mercados, como uma das principais fontes de receita municipal, não estão sendo devidamente aproveitados e abundam oportunidades para a prática de ‘pequena corrupção’. O trabalho de campo sugere que os mercados são subaproveitados, primeiro, porque o Conselho Municipal tem fontes alternativas de receita (em muitos casos donativos externos que vêem por via de projectos), por isso, os líderes financeiros municipais preocupam-se pouco em melhorar os níveis de controlo de colecta da receita; segundo, porque algumas pessoas ligadas à máquina do Conselho Municipal se beneficiam da situação da falta de ordem; quando por exemplo, não se conhece a real capacidade dos mercados (falta de cadastros) e alegações sistemáticas de falta de incentivos por parte dos cobradores, alegadamente porque têm baixos salários. Terceiro, por falta de iniciativa para melhorar as fontes de receita. Os elementos desta última tendência são mais facilmente encontrados em municípios pequenos, sobretudo, os que estão mais afastados das capitais provinciais. O estudo encontrou também um cenário de fragilidades nos mecanismos de fiscalização sobre a actividade dos Conselhos Municipais. Com a excepção duma Assembleia Municipal, as AMs (que deviam ser os pilares de prestação de contas para criar constrangimentos no aproveitamento das fragilidades institucionais) apresentaram, elas próprias, muitas fragilidades que dificultam o seu próprio trabalho. As Assembleias Municipais apresentam um défice de capacidade técnica e um défice institucional. O défice técnico é referente aos recursos humanos que compõem as Assembleias Municipais enquanto o défice institucional é referente ao contexto em que as Assembleias Municipais operam. Por exemplo, a correlação de forças entre os membros; o posicionamento dos membros perante as propostas e relatórios do CM; etc. Por estas razões, as Assembleias Municipais acabam, por exemplo, tendo um envolvimento marginal na aprovação e fiscalização da execução orçamental pelo Conselho Municipal. Na verdade, provavelmente pelo défice técnico e institucional, os pesquisadores ficaram com a impressão de que há uma relativa subalternização das Assembleias Municipais pelos Conselhos Municipais. O resultado é que os CM sentem uma limitada pressão/fiscalização pelas Assembleias Municipais, o que minimiza o antídoto do aproveitamento das oportunidades para a corrupção que vêem com a discricionariedade, segundo a fórmula de Klitgaard. No tocante à planificação e orçamentação participativas, não há evidências de envolvimento dos munícipes na planificação e orçamentação das actividades pelos Conselho Municipais; não há evidências de que a prestação vertical de contas seja uma prática comum, em termos de (i) justificação das escolhas feitas pela Conselho Municipal perante aos munícipes; (ii) a apresentação dos custos envolvidos nas várias escolhas. O trabalho de campo permitiu também observar que as Assembleias Municipais não exploram de forma dinâmica as relações com a sociedade civil, aliás, muitas das Assembleias Municipais não têm ligação institucional com a sociedade civil, o que exacerba a falta de planificação e orçamentação participativas. 6. Recomendações O estudo teve duas grandes conclusões: por um lado, a de que há área de riscos nos municípios estudados e, por outro lado, a de que há uma grande fragilidade em termos de estruturas de prestação de contas. Nesta conformidade, a recomendação geral é de que tem que se fazer um trabalho duplo, designadamente uma intervenção que limite o poder discricionário dos agentes municipais no desempenho das suas actividades que se faz activando o quadro regulatório da área onde abundam mais riscos, por exemplo, a área de procurement; e, à jusante, estabelecer mais anticorpos de corrupção para limitar o aproveitamento das estruturas de oportunidade que se faz por via da operacionalização e capacitação das estruturas e mecanismos de prestação de contas. Em resumo, por um lado, se reforça os Conselhos Municipais com instrumentos que permitem uma actuação transparente e legal e, por outro lado, se capacitam os órgãos de fiscalização e controle sobre o Conselho Municipal. 37 Relatório do Estudo sobre Transparência, Áreas de Riscos e Oportunidades de Corrupção em Seis Autarquias Moçambicanas Em detalhe, este trabalho implica uma intervenção para (i) sensibilizar os autarcas sobre os riscos de corrupção na capacidade dos governos locais em alcançar os seus objectivos; (ii) estabelecimento de anticorpos de corrupção através de formação dirigida às unidades de compras sobre a Lei e Estratégia Nacional Anti-corrupção; o Decreto 54/2005, de 13 de Dezembro (Novo Regulamento de Empreitadas de Obras Públicas, Fornecimento de Bens e Prestação de Serviços do Estado); (iii) disseminação/operacionalização dos mecanismos previstos nas leis 2/97 de 18 de Fevereiro e 11/97 de 31 de Maio sobre participação, transparência e prestação de contas15; (iv) capacitação sobre experiências de Planificação e Orçamentação Participativas (envolvendo a sociedade civil); e (v) através de mobilização da sociedade civil para o estabelecimento de mecanismos de controlo social. 7. Referências ___ (2003) Dossier da III Reunião Nacional dos Municípios, Maputo, Imprensa Nacional AWEPA (2003) As Primeiras Autarquias em Moçambique: Realidades, Conquistas, Constrangimentos e Perspectivas; Maputo, Mil Graphics, Lda. Berger, N. (2002) Áreas de Risco de Corrupção nos Municípios: Catandica, Manica e Vilankulo. Ministério da Administração Estatal (MAE). Cooperação Alemã para o Desenvolvimento (GTZ) Maputo. Direcção Nacional de Desenvolvimento Autárquico (2000) II Reunião Nacional dos Municípios, Maputo, EloGráfico Gabinete de Capacitação Municipal (2006) Relatório Geral de Assistência Técnica aos 33 municípios de Moçambique GTZ (2004): A Survey on the Investment Climate in the Province of Inhambane. Maputo. Klitgaard, R. (1998) Instrumental Cooperation against Corruption. In Finance and Development. Washington. Mosse, M. (2006) Breve Análise à Estratégia Anti-corrupção: do Dilema salarial, dos Códigos de Conduta e da urgência de planos sectoriais; documento de discussão n. 1, Maputo Nuvunga, A. (2004) Cartografia do Poder Local, 2003-2008, Maputo, Mil Grafics 15 - Vai se usar a nova lei das finanças autárquicas. 38