1 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e ultramarino
português no século XVIII
Consolidação e transferência de saberes médico-cirúrgicos no
espaço metropolitano e ultramarino português no século XVIII
Monique Palma
Aluna do 3º ciclo- Curso de doutoramento em História da Faculdade de Letras Universidade do Porto (FLUP)
Resumo: A comunicação apresenta um projeto de doutoramento em curso na Faculdade
de Letras da Universidade do Porto, centrado no estudo das práticas e saberes cirúrgicos
identificados para Portugal e a América portuguesa no século XVIII. Visa discutir de
que modo as práticas cirúrgicas e os discursos dos cirurgiões refletem transformações
no período setecentista a nível da prática médico-cirúrgica. Pretende-se investigar a
produção de literatura, mas também analisar as práticas cirúrgicas e nelas averiguar
eventuais trocas de saberes entre o Brasil e a metrópole, questionando os seus
contributos para a restruturação do conhecimento na época. Tratados cirúrgicos,
manuais e compêndios de medicina constituirão a base documental de incidência. Serão
analisadas fontes produzidas em simultâneo em Portugal e no Brasil. Estas matérias
serão lidas à luz do que se conhece acerca da renovação dos estudos da Filosofia
Natural na Europa, e dos debates relativos à afirmação da Cirurgia face à Medicina no
contexto português, envolvendo formação académica, constituição de academias,
circulação de conhecimento e afirmação dos cirurgiões, no século XVIII.
Palavras-chave: século XVIII; história das ciências; história da cirurgia.
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2 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
Introdução ao Universo médico-cirúrgico no século XVIII
Ao debruçarmo-nos sobre a América portuguesa, no século XVIII, observamos
que as atuações dos oficiais da saúde na colônia, a exemplo do que ocorria no Velho
Continente, estavam gerando novas maneiras de tratar, pensar e interpretar o corpo
humano e suas enfermidades. Estas instigaram e proporcionaram perspectivas e
investigações que favorecessem o fortalecimento, não apenas do individuo, mas dos
poderes constituídos, nomeadamente da Coroa Portuguesa, através do domínio do
corpo, e da saúde física. O incremento do poder sobre o corpo, através do exercício da
medicina, é uma constante na Europa dos finais do Antigo Regime, e refletia-se, como
tal, em espaços coloniais sobre o seu domínio1.
Por um lado, o processo do expansionismo marítimo europeu proporcionou
mudanças consideráveis no campo dos saberes médico-cirúrgicos, influenciadas pelo
contato com novos saberes, novas práticas e novas plantas medicinais, e por um volume
de informações propiciadas e exigidas pelas explorações ultramarinas. Daí resultou uma
grande quantidade de novos compêndios, manuais e tratados de medicina e cirurgia, que
circulavam entre a metrópole e a colônia e vice-versa2. Por outro lado, as reformas
científicas ocorridas, quer ao longo do século XVII, dando forma ao que se entende
como um processo de revolução científica, quer ao longo do século XVIII, foram
cruciais para as novas práticas e saberes que seriam aplicados na área da saúde. Esse é o
caso da criação dos laboratórios anatómicos e da criação de aulas de anatomia dentro
das Universidades3. Em meio de tal efervescência, constatações e descobertas,
invenções como a do microscópio dinamizavam a construção de saberes.
A Filosofia Natural também estava instituindo novos paradigmas no século
XVIII. Observamos, neste período, uma preocupação em descrever, agrupar, categorizar
e classificar, de forma racional, e não somente uma mera descrição casuística da miríade
de espécies encontradas na fauna e flora do Velho e Novo Mundo 4. A anatomia do
corpo humano, bem como as enfermidades que poderiam acometer algumas funções
1
Jean Luiz Neves de Abreu, A Colônia enferma e a saúde dos povos: a medicina das 'luzes' e as
informações sobre as enfermidades da América Portuguesa. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. Rio
de Janeiro, v. 14, 2007.
Jorge Crespo, História do Corpo. Col. Memória e Sociedade. Lisboa: Difel, 1990.
2
Luís Gomes Ferreira, “Erário Mineral”, 1735, in: Júnia Ferreira Furtado, (org.), Erário Mineral de Luís
Gomes Ferreira, Belo Horizonte; Fundação João Pinheiro, 2002.
Jean Vigier, Histoire des plantes de l'Europe, 1718.
3
Richard S. Westfall, A Construção da Ciência Moderna: mecanismos e mecânica, Porto: Porto Editora,
2001.
4
Richard S. Westfall, A Construção da Ciência Moderna: mecanismos e mecânica, Porto: Porto Editora,
2001
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3 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
vitais, passaram a ser objeto de observação, descrição e classificação. Ao analisarmos a
vertente da Filosofia Natural destinada aos saberes que estavam compondo a Medicina e
Cirurgia, no século XVIII, percebemos que a saúde e a salubridade eram temas
constantes de investigação entre os homens de letras e os curiosi5, tanto na metrópole
quanto nas colônias portuguesas no além-mar. Discussões enfatizando aportes médicos
eram eminentes desde a época dos descobrimentos. Fatores como os riscos a que os
navegantes estavam expostos durante longas viagens marítimas eram comumente
discutidos. A preocupação com a salubridade, pública e privada, entre os séculos XVI e
XVIII, era, também, considerável.
O estudo e aprimoramento de técnicas cirúrgicas, no século XVIII, se dava, em
grande parte, a partir de exames anatômicos de corpos (tanto humanos, quanto de
animais). Os motivadores, via de regra, eram aqueles relacionados a uma curiosidade
inerente e a um aperfeiçoamento de habilidades terapêuticas que, por sua vez, eram
empregadas no socorro aos enfermos. Tais investigações, na maioria dos casos,
ocorriam durante exames ou intervenções cirúrgicas, o que atestava um caráter
eminentemente empírico na produção de saberes médicos6 .
A anatomia comparada foi um campo de saber que levou cirurgiões e físicos a
discutirem, e especularem, como seres tão distintos, como homens e aves, poderiam ter
estruturas ósseas tão semelhantes. Um dos documentos que melhor ilustrou a longa
discussão que envolveu comparações anatômicas, na era Moderna, foi uma prancha
debuxada pelo filósofo natural francês Pierre Belon (1517-1564) em sua obra intitulada
Les observations de plusieurs singularitez et choses memorables trouvées en Grèce,
Asie, Judée, Egypte, Arabie et autres pays étrangèrs (1555)7. Pierre Belon traçou a
comparação entre o esqueleto de um homem e o de uma ave ao assinalar, com letras,
todos os ossos que acreditava serem homólogos entre as duas espécies.
Não era incomum as investigações do corpo humano levarem cirurgiões, como o
escocês John Hunter (1737-1821), à adesão a uma prática frequente entre homens de
letras do século XVIII: o colecionismo. O colecionismo de itens, objetos ou mesmo
seres, era visto como uma atividade que demonstrava erudição, saber enciclopédico e,
sobretudo, levaria a uma compreensão daquele que era considerado o Grande Livro da
5
Paul Lawrence Farber, Finding Order in Nature: the naturalists tradition from Linnaeus to E. O.
Wilson, Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 2000.
6
Inácio Guerreiro, “Particularidades da Vida no Mar”, Revista Oceanos, n. 38, 1999, pp. 149-160.
7
Pierre Belon, Les observations de plusieurs singularitez et choses memorables trouvées en Grèce, Asie,
Judée, Egypte, Arabie et autres pays étrangèrs, 1555.
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4 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
Natureza. Nesta perspectiva, O Criador, ao escrever o Grande Livro, havia ocultado
saberes, que só seriam revelados aos homens a partir de uma leitura atenta de todas as
lições que a natureza poderia conter8. O cirurgião John Hunter foi um dos que procurou,
na anatomia, estes segredos deixados pelo Criador. O resultado de tal peregrinação
filosófico-natural culminou em um gabinete, organizado pelo próprio Hunter, com mais
de 13.000 peças, incluindo esqueletos completos das mais diversas espécies de
mamíferos9.
O século XVIII foi, como afirmado, um período de efervescência no campo dos
saberes em saúde. Para além dos saberes oriundos de uma anatomia comparada, no
século XVIII, boa parte das percepções acerca do processo saúde-doença eram
norteadas pelos princípios hipocrático-galênicos, e suas respectivas vertentes. O corpo
estaria dividido em quatro humores, sendo eles: sangue, pituíta, bile amarela e bile
negra. Para o indivíduo gozar de boa saúde, os referidos humores deveriam permanecer
em equilíbrio. Somado ao cenário hipocrático-galênico, havia também a iatroquímica,
proposta desde há muito por Paracelso (1493-1541). Este médico e alquimista suíçoalemão defendia o tratamento do enfermo, que embasado na tradição hermética,
compreende o microcosmo (homem) pelo macrocosmo, considerando que o primeiro é a
perfeita representação do segundo, enfatizando a preferência do uso de medicamentos
químicos para curar as enfermidades10. Não obstante, a iatroquímica também possuía
suas derivações como, por exemplo, a iatromecânica (ou iatrofísica). Esta propunha que
as leis do movimento serviam para justificar as do corpo. Teve como um dos seus
maiores expoentes o holandês Hermann Boerhaave (1668-1738)11, que chegou a ser
nomeado como o Hipócrates do século XVIII12. A iatrofísica e iatroquímica visam
entender o corpo pelo corpo relacionando o mesmo ao meio, e a Deus, e aclamava por
saberes anatômicos, o que as fizeram diferentes do príncipio hipocrático-galênico, que
analisava a saúde do enfermo através dos sintomas que o índividuo apresentava,
relativizando o entendimento anatômico13. O vitalismo foi uma doutrina que também se
8
P. Wod, C. W. J. Withers, (org). Science And Medicine In The Scottish Enlightenment, Edinburg,
Tuckell Press, 2002.
9
Francisco Antonio Lourenço Vaz, O Grande Livro da Natureza nos Textos e Viagens Filosóficas de
José Antonio de Sá. Imagens da Ciência em Portugal. Séculos XVIII-XIX, Lisboa, Caleidoscópio, 2005.
10
Joffre M de Rezende, À Sombra do plátano, São Paulo: UNIFESP, 2009, pp.255-258.
11
Flávio Coelho Edler, Boticas e pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil, Rio de
Janeiro, Casa da Palavra, 2006.
12
Flávio Coelho Edler, Boticas e pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil, Rio de
Janeiro, Casa da Palavra, 2006.
13
Manuel Valente Alves, História da Medicina em Portugal – Origens, ligações e contextos, Porto, Porto
Editora, 2014.
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5 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
fez presente no complexo século XVIII, tendo como seu maior defensor George Ernest
Sthal (1660-1734), professor de medicina e químico. O vitalismo, em boa medida, era
regido por um princípio, este denominado anima, que regularia as forças mais
importantes do corpo humano14. Outro importante segmento teórico, no campo da
fisiologia setecentista, era o da economia animal. Um de seus principais defensores era
o polímata sueco Emanuel Swedborg (1688-1772) que, em sua obra, Economy of the
Animal Kingdom (1740)15, visou compreender o funcionamento do organismo animal.
Para Swedborg, o sangue determinava toda a constituição da vida animal.
Físicos, cirurgiões e boticários: os agentes de saúde no período setecentista
O ofício da medicina, no período setecentista, foi ocupado por um grupo
heterogêneo, de diversa representação hierárquica: havia os físicos licenciados, que
possuíam formação em medicina, eram vistos como catedráticos da saúde e
correspondiam aos habilitados com formação para atuar no campo do que conhecemos
hoje por medicina. Suas funções eram as de diagnosticar os doentes e indicar o
tratamento, embora não praticassem cirurgias16. Acrescentavam-se também os
boticários, que estavam vinculados ao fabrico e venda das boticas e mezinhas, sendo
que, em alguns casos, chegavam a prestar assistência médica. O tempo de aprendizagem
para exercer o ofício era menor se o compararmos ao necessário para atuar como
cirurgião e, evidentemente, como físico. Suas funções, tanto na América quanto na
Europa, estavam atreladas, portanto, à preparação e comercialização de boticas, como
também à prescrição das mesmas aos enfermos, na ausência de um físico17. Com
relação aos cirurgiões, e aos cirurgiões-barbeiros, suas funções eram permeadas quase
exclusivamente de intervenções cirúrgicas18. Os cirurgiões e cirurgiões-barbeiros
compunham, portanto, o campo de praticantes de medicina, não sendo porém,
considerados físicos ou médicos. Desde o período medieval salientava-se essa diferença
14
José Pedro Sousa Dias, “Até que as Luzes os separem. Hipócrates e Galeno na Literatura MédicoFarmacêutica portuguesa dos séculos XVII e XVIII”, in: Inês E. Ornellas, (org), Revisitar os Saberes.
Referências Clássicas na Cultura Portuguesa do Renascimento à Época Moderna, Centros de Estudos
Clássicos FLUL e IELT, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2010.
15
Emanuel Swedenborg, The Economy of the Animal Kingdom (1740), London, Walton And Mitchell,
1845.
16
Flávio Coelho Edler, Boticas e pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil, Rio de
Janeiro, Casa da Palavra, 2006.
17
Daniela Buono Calainho, “Médicos e Curandeiros no Brasil Colonial”, XI Encontro Regional de
História: democracia e conflito, Anpuh-Rio, Rio de Janeiro, 2004.
18
William F. Bynum, Science and the Practice of Medicine in the Nineteenth Century, Cambridge,
Cambridge University Press, 1996, pp. 5-6.
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6 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
entre o campo pensante e o campo de quem deveria praticar, e caracterizava-se como
inferior aquele que ficava encarregado das práticas manuais, como ocorria com os
cirurgiões19. Suas funções se centravam, primordialmente, no tratamento de fraturas,
sangrias e amputações20. O fato de os cirurgiões não serem físicos, os considerados
pensadores da saúde, não significa que não fossem detentores de um entendimento, bem
como de um conhecimento, inclusive certificado pelos poderes públicos, e decorrente de
um exame prévio, dos procedimentos que realizavam21.
Os historiadores William F. Bynum e Roy Porter levantaram essa discussão
acerca da hierarquia que havia no referente às funções e praticantes das artes médicas na
obra William Hunter and the Eighteenth-Century Medical World (2002)22. Entre os
oficiais da cura, a delimitação entre físico, cirurgião e boticário era aparentemente
evidente, do ponto de vista regulamentar, mas a sociedade nem sempre compreendia
esta hierarquização e diferenciação. De modo geral, fora dos círculos médicos, nem
todos apreendiam as nuances dessas determinações, distinguindo uma prática da outra.
Os praticantes que conheciam e eram mais próximos dos enfermos eram,
maioritariamente, os ditos “empíricos”, sem titulação académica. São ilustrativos alguns
casos em que físicos foram chamados de cirurgiões, e mesmo o contrário23. Logo, os
conceitos que classificavam os oficiais da medicina não eram bem definidos no seio da
sociedade setecentista. Paradoxalmente, as fontes documentais do século XVIII que
registraram o cotidiano de físicos e cirurgiões nos permitem observar muitas das
especificidades que envolviam tais ofícios.
A fusão de atribuições, pertinentes aos mecanismos de atuação de físicos e
cirurgiões, vai ocorrendo na segunda metade do século XVIII, formalmente como
resultado do projeto reformador de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o
marquês de Pombal, porém decorrente de um mais longo processo de debate entre a
comunidade científica portuguesa e europeia. A reforma pombalina do ensino superior
19
Jean Luiz Neves Abreu, “Os estudos anatômicos e cirúrgicos na medicina portuguesa do século XVIII”
Revista da SBHC, Rio de Janeiro, v.5, n.2, 2007, pp. 149-172.
20
Leandro Silva de Paula, “Médicos Acadêmicos e terapeutas populares: uma convivência conflituosa”,
Segundo Encontro Memorial: nossas letras na história da educação, UFOP, Mariana-MG, 2009.
Disponível em: <http://www.ichs.ufop.br/memorial/trab2/h542.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2011.
21
Maria Cristina Cortez Wissenbach, “Gomes Ferreira e os símplices da terra: experiências sociais dos
cirurgiões no Brasil colonial”, in: Júnia Ferreira Furtado (org.), Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira,
Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, p. 107-149, 2002.
Mary Lindemann, Medicina e Sociedade no início da Europa Moderna, Lisboa, Replicação, 2002.
22
William F. Bynum, Roy Porter, William Hunter and the Eighteenth-Century Medical World,
Cambridge, Cambridge University Press, p. 364, 2002.
23
Timothy D. Walker, Doctors, Folk Medicine and the Inquisition. The Repression of Magical Healing in
Portugal during the Enlightenment, Leiden-Boston: Brill, 2005.
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7 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
alavancou uma série de transformações que visaram integrar novos saberes,
impulsionando a readequação de premissas fundamentais, inclusive, para o estudo de
medicina24. No início da década de 1770, foi instituída a Junta de Previdência Literária.
Esta, presidida pelo marquês de Pombal, atribuía, enquanto metas, as de investigar os
motivos do que se considerava, à época, um retrocesso dos estudos superiores em
Portugal. A Junta pretendia, também, indicar propostas e métodos que, uma vez
adotados, trariam melhoramentos e inovações. Como resultado do trabalho levantado
pela Junta de Previdência Literária, houve a publicação de dois documentos de extrema
importância para a concretização da reforma universitária em 1772, a saber: o
Compêndio histórico do estado da Universidade (1770), e os Estatutos da Universidade
de Coimbra (1772)25.
Personagem de extrema relevância para as reformas vigentes em Portugal, no
século XVIII, foi também Antonio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). Este português,
catedrático em medicina, deixou sua pátria em 1726 e residiu em vários países da
Europa, tendo sido discípulo do médico holandês Herman Boerhaave, um dos
idealizadores do hospital acadêmico. Apesar do distanciamento geográfico de Portugal,
no decorrer de sua vida, Ribeiro Sanches mantinha uma troca de correspondências
constante com vários conterrâneos portugueses, como era prática corrente entre os
círculos de eruditos da Europa Iluminista do tempo. A revisão dos Estatutos da
Universidade de Coimbra (1772), por exemplo, é atribuída ao espírito do texto de
Antonio Nunes Ribeiro Sanches, de 1763: Metodo para aprender e estudar a medicina,
ilustrado com os apontamentos para estabelecer-se as sciencias humanas de que
necessita o estado civil e político. Ribeiro Sanches defendeu a necessidade e a
importância de integrar museus de história natural e jardins botânicos na Universidade,
enfatizando que corroboraria imensamente a didática médica26. O apelo para que físicos
e cirurgiões também se dedicassem aos estudos em botânica foi salientado por Ribeiro
Sanches, por defender que nem sempre os oficiais da saúde atuariam em ambientes que
teriam ao alcance de suas mãos as boticas que conheciam, e para que conseguissem
24
William F. Bynum, Roy Porter, William Hunter and the Eighteenth-Century Medical World,
Cambridge, Cambridge University Press, 2002.
25
João Carlos Pires Brigola, Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no Século XVIII, Coimbra,
Fundação Calouste Gulbenkian – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2003.
26
João Carlos Pires Brigola, Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no Século XVIII, Coimbra,
Fundação Calouste Gulbenkian – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2003.
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8 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
elaborar um outro meio de cura, evidentemente, fazia-se necessário o conhecimento
sobre biota e fauna propaladas pela Filosofia Natural27.
O apelo pela construção do saber baseada no corpo humano
Os manuais médicos apresentavam, ainda, no século XVIII, indagações acerca
da interação do homem com a natureza, haja vista encontrarmos, nestas obras, o
entendimento de que, não havendo uma boa relação entre o homem e o ambiente, a
saúde do indivíduo não ficaria em harmonia com a natureza, sendo que as doenças
decorreriam desta (má) relação28. Em suma, as maneiras de se interpretar as
enfermidades, no século XVIII, eram baseadas ainda na medicina hipocrático-galênica.
Entretanto, observamos um crescente apelo a uma maior incidência numa construção do
saber baseada no exame do corpo humano, associado à efervescência das perspectivas
teóricas que se afirmam neste período. A iatroquímica, ou iatromecânica, e o vitalismo,
estimularam o fomento de medidas ilegais por parte dos agentes da saúde setecentistas,
porque o estudo anatômico com corpos humanos era proibido.
Em Portugal, pouco antes das reformas pombalinas (1772), na cidade do Porto, o
cirurgião Manuel Gomes de Lima Bezerra (1727-1806) foi um dos principais
impulsionadores do movimento de renovação intelectual nas academias médicocirúrgicas portuguesas, defendendo a ciência experimental e as teorias médicas de
Boerhaave. De várias academias, a de maior destaque foi a primeiramente nomeada por
Academia dos Escondidos, que integrava representantes das disciplinas de Medicina,
Cirurgia, e Farmácia, depois reconhecida por Academia-Médico Portopolitana29. Tais
dados nos permitem observar que o paradigma médico-cirúrgico em Portugal, no século
XVIII, articulou e incentivou a busca de novos conhecimentos e procedimentos sobre o
corpo humano e as enfermidades que poderiam acometê-lo – e isso conferiu lugar de
maior destaque à Cirurgia.
O objetivo do presente estudo
27
Romulo Carvalho, A História Natural em Portugal no século XVIII, Lisboa, Instituto de Cultura e
Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Biblioteca Breve, v. 112, p. 34, 1987.
28
George Rosen, Uma História da Saúde Pública, São Paulo, Rio de Janeiro, Hucitec, Edunesp, Abrasco,
1994.
29
José Pedro Sousa Dias, “Até que as Luzes os separem. Hipócrates e Galeno na Literatura MédicoFarmacêutica portuguesa dos séculos XVII e XVIII”, in: Inês E. Ornellas, (org), Revisitar os Saberes.
Referências Clássicas na Cultura Portuguesa do Renascimento à Época Moderna, Centros de Estudos
Clássicos FLUL e IELT, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2010.
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9 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano e
ultramarino português no século XVIII
No pressuposto de que a pragmatização desses novos saberes e novas
tendências, difundidos no século XVIII, depende dos agentes que os implementam,
torna-se fundamental analisar, em Portugal e na América portuguesa, no período
setecentista, por um lado o perfil desses técnicos ligados à saúde, por outro lado a
dinâmica de crescente fusão de atribuições dos profissionais envolvidos na prática, quer
da medicina, quer da cirurgia. Em concreto, importa averiguar como algumas funções,
antes restritas especificamente a físicos, se estendem à prática dos cirurgiões, e viceversa e, por outro lado, como o exercício dessas funções e uma maior qualificação dos
cirurgiões contribui para a afirmação da cirurgia face à medicina.
Esta temática será abordada através de tratados, manuais e compêndios médicocirúrgicos, tendo em consideração o emergente reconhecimento da presença e atuação
dos cirurgiões. Uma vez que o apelo à união da medicina e cirurgia foi central na
segunda metade do século XVIII, questionaremos o que tal dinâmica significou para o
estudo do corpo humano.
Para trabalharmos com o estatuto profissional dos cirurgiões e a fundamentação
do ensino e oficial em Cirurgia, recorreremos aos textos do cirurugião Manuel Gomes
de Lima em suas obras: Raçam academica recitada na real academia de cirurgia
portuense em o obzequio do nome do seu mecenas o ... Conde de oeyra... : em dia de s.
Sebastiam, de 1765, e Memorias chronologicas e criticas para a historia da cirurgia
moderna : ou noticia dos principaes progressos, revoluçoens, descobrimentos, seytas,
privilegios, academias, obras impressas, e varoens famosos da cirurgia, desde a
conquista de constantinopla pelos turcos, ate o tempo prezente, também do século
XVIII30.
A Carta do Dr. Alexandre Thomson a hum Amigo, sobre a natureza, causas, e
methodo de curar as doenças nervosas31, por Alexandre Thomson, de 1782, traduzida
por Dr. António Ribeiro Sanches em 22 fólios, no ano de 1783 será também objeto de
análise. Esta fonte documental certamente trará importantes contributos ao estudo das
dinâmicas de circulação de saberes médicos em Portugal. A análise destas fontes
30
Manuel Gomes de Lima, “Raçam academica recitada na real academia de cirurgia portuense em o
obzequio do nome do seu mecenas o ... Conde de oeyra... : em dia de s. Sebastiam, de 1765, e Memorias
chronologicas e criticas para a historia da cirurgia moderna : ou noticia dos principaes progressos,
revoluçoens, descobrimentos, seytas, privilegios, academias, obras impressas, e varoens famosos da
cirurgia, desde a conquista de constantinopla pelos turcos, ate o tempo prezente, também do século
XVIII”, Arquivo da Biblioteca Nacional de Portugal.
31
Alexandre Thomson, “Carta do Dr. Alexandre Thomson a hum Amigo, sobre a natureza, causas, e
methodo de curar as doenças nervosas”, António Ribeiro Sanches (trad), Academia das Ciências de
Lisboa.
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10 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano
e ultramarino português no século XVIII
documentais será realizada confrontando as mesmas com as discussões pertinentes ao
tema, durante o período da ilustração portuguesa, que se compreende aos últimos
decênios do século XVIII.
O Thesouro Apollineo, Galenico, Chimico, Chirurgico, Pharmaceutico (1714)32,
escrito pelo francês Jean Vigier (1662-1723), que se mudou para Portugal e atuou como
físico e droguista em Lisboa. Interessante salientar que Vigier também publicou a
Histoire des plantes de l'Europe (1718)33, uma obra que revela os entendimentos deste
físico e droguista sobre as plantas nativas da colônia portuguesa, e aponta para o grau
de disseminação das plantas e saberes encontrados nas matas e florestas da América
portuguesa, apesar de não existirem indícios sobre a passagem de Vigier pela América
portuguesa. Os escritos de Vigier tiveram considerável circulação em Portugal34.
Na vertente do contributo do espaço colonial brasileiro para a construção
dialética de saberes que visamos estudar, há outras obras, cunsubstanciais para o
desenvolvimento da tese. Neste contexto situam-se obras como o Erário Mineral
(1735)35 do português Luís Gomes Ferreira (1686-1764), redigida após sua experiência
como cirurgião nas Minas Gerais da América portuguesa.
As fontes que acabamos de apresentar, acreditamos que contribuirão para
desenvolver o trabalho aqui proposto, no que se refere às propostas e ideias correntes
em Portugal e na Europa. O acréscimo de mais fontes no decorrer efetivo da pesquisa
tornar-se-á um fato. A própria leitura das obras citadas poderá nos indicar outros
trabalhos que se venham a revelar importantes para a nossa pesquisa.
O século XVIII e suas transformações no campo médico-cirúrgico
A nossa hipótese de partida, que testaremos através de um sólido trabalho
empírico, é a de que o século das Luzes fomentou mudanças significativas no campo
médico-cirúrgico. Todavia, tais transformações não se deram somente em ambientes
pontuais como, por exemplo, o das Universidades. Havia uma dinâmica considerável
que envolvia também os empíricos, e tanto cirurgiões quanto físicos e boticários
32
Jean Vigier, “Thesouro Apollineo, Galenico, Chimico, Chirurgico, Pharmaceutico,” 1714, in: Acervo
digital
do
Google
Books,
Disponível
em:
<http://books.google.com/books?id=ip3bYNAsUCgC&printsec=frontcover&hl=ptBR&sourc
e=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=one page&q&f=false.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2011.
33
Jean Vigier, Histoire des plantes de l'Europe, 1718.
34
Vera Regina Beltrão Marques, “Instruir para fazer a ciência e a medicina chegar ao povo no
setecentos”, Varia História, Belo Horizonte, UFMG, n. 32, 2004, pp. 37-47.
35
Luís Gomes Ferreira, “Erário Mineral”, 1735, in: Júnia Ferreira Furtado, (org.), Erário Mineral de Luís
Gomes Ferreira, Belo Horizonte; Fundação João Pinheiro, 2002.
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11 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano
e ultramarino português no século XVIII
contribuíam com novos conceitos, percepções, técnicas e descobertas 36. Ademais, havia
o intuito, por parte da Coroa portuguesa, em promover os novos saberes oriundos da
Filosofia Natural, campo de estudos que também se relacionava com os saberes médicocirurgicos, caracterizando estes como bem público, o que deveria trazer benefícios para
toda a sociedade37. Este apelo foi redigido claramente no documento Relação geral do
estado da universidade de 1777: “Não se deve olhar para a Universidade como hum
Corpo isolado, e concentrado em si mesmo, como ordinariamente se faz; mas sim como
hum Corpo formado no seio do Estado [...] [visando] promover a felicidade do
homem”38. Esta passagem, escrita por Dom Francisco Manuel de Lemos (1735-1822),
que foi reformador e reitor da Universidade de Coimbra, expressava o que se pretendia
que fosse o resultado da orgânica universitária dos primeiros cinco anos de atribuições
no desempenho de seus cargos (1772-1777).
Dito isto, que se aplica aos saberes e aos agentes institucioinalizados, e
académicos, é interessante notar que este não é o único palco em que a evolução das
ciências ocorre. O desenvolvimento dos saberes de medicina, no decorrer das
descobertas e colonização portuguesas, em diversos momentos, teve de contar com o
envolvimento de sujeitos que não tinham formação regular ou licenças para atuar na
área da saúde, mas que possuíam um espírito investigativo considerável. O cumular de
adversidades logísticas implicadas por processos de descobertas de novos territórios e
de adaptação a novos climas proporcionaram o desenvolvimento de um olhar voltado,
cada vez mais, para os recursos disponibilizados pelos saberes e recursos naturais
autóctones39.
A curiosidade pela novidade, incentivando ao colecionismo, contribuiu, por seu
turno, para a criação de um saber que acabava por ser universal, sem fronteiras. Essa
atitude estimulou, na Europa, a organização de gabinetes de curiosidade, museus e
jardins botânicos que pretendiam agrupar espécimes representando toda a diversidade
do mundo natural. Esta organização da natureza pretendia classificar animais, plantas e
minerais dos mais diversos continentes. Tal organização e sistematização possuía, em
36
Júnia Ferreira Furtado, “Barbeiros, cirurgiões e médicos na Minas colonial”, Revista do Arquivo
Público Mineiro, Belo Horizonte, v. XLI, 2005, pp. 88-105.
37
Kenneth Maxwell, Marquês de Pombal, paradoxo do Iluminismo, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996.
38
Maximiano Lemos, História da Medicina em Portugal: Doutrinas e Instituições, Lisboa, Publicações
D. Quixote/Ordem dos Médicos, vol. 2, 1991.
39
Palmira Fontes da Costa, Henrique Leitão, “Portuguese Imperial Science, 1450–1800: a
historiographical Review”, in: Daniela Bleichmar (org), Science in the Spanish and Portuguese Empires,
1500–1800, Stanford, Stanford University Press, 2009.
José de Vasconcellos e Menezes, Armadas Portuguesas: apoio sanitário na época dos descobrimentos,
Lisboa, Academia de Marinha, 1987.
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12 Monique Palma, Consolidação e transferências de saberes médico-cirúrgicos no espaço metropolitano
e ultramarino português no século XVIII
boa medida, um caráter pragmático, e associava a busca por novas possibilidades
mercantis a vantagens médicas e medicinais40. Esse pragmatismo não estava, por sua
vez, dissociado das ideias das reformas propaladas pelo marquês de Pombal, posto que
estas defendiam o uso social e pragmático desses saberes e sustentavam a ideia que as
ciências naturais e filosóficas também deveriam associar-se aos estudos em políticas da
ciência41. Há portanto aqui também um espaço de análise da dimensão do papel social,
e político, destes novos saberes.
A documentação produzida no século XVIII, pertinente aos estudos em História
das Ciências da Saúde foi, nestes contextos, vasta. O que significa que há, ainda,
considerável volume de manuais, memórias e tratados médico-cirúrgicos inéditos, posto
que muitas fontes ainda permanecem, literalmente, desconhecidas e inexploradas,
nomeadamente aquelas geradas em circuitos de produção e circulação de conhecimento
não académicos e não formalmente institucionalizados. Para uma contribuição
potencialmente inovadora ao estudo do século XVIII, do Iluminismo e da História da
Expansão Portuguesa, uma análise destas obras incidentes sobre conhecimentos
médico-cirúrgicos pode se revelar estratégica, não somente para uma melhor
compreensão das demandas em saúde vividas naquele período, mas também visando um
melhor entendimento daqueles complexos processos que envolviam o desenvolvimento
de novos saberes, práticas e técnicas relacionados com os ofícios médico- cirúrgicos e
também a consolidação da formação dos agentes da saúde, neste caso, principalmente,
os cirurgiões.
É neste enquadramento histórico e neste quadro de questionamento que
posicionamos a investigação, ainda nos seus inícios, que prosseguiremos no âmbito da
tese de doutoramento em curso.
40
Onésimo T. Almeida, “Science During the Portuguese Maritime Discoveries: A Telling Case of
Interaction Between Experimenters and Theoreticians”, in: Daniela Bleichmar (org), Science in the
Spanish and Portuguese Empires, 1500– 1800, Stanford, Stanford University Press, 2009.
Henrique Carneiro, Filtros Mezinhas e Triagas: as drogas no mundo moderno, São Paulo, Xamã editora,
1994.
41
Allen G. Debus, O Homem e a Natureza do Renascimento, Porto, Porto Editora, 2002.
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