Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC
A memória ambiental em pesquisas de história: experiências no entorno do
Parque Nacional da Serra do Itajaí – SC. 1
Martin Stabel Garrote2
Vanessa Dambrowski3
Resumo: O Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) iniciou em
2004, na Universidade Regional de Blumenau – SC, pesquisas com o viés da História Ambiental
sobre o Parque Nacional da Serra do Itajaí. Em treze pesquisas realizadas entre 2004 e 2012,
utilizou-se o método de História Oral com o objetivo de estudar a Memória Ambiental sobre os
modos de vida e suas interações com o ambiente na história das comunidades localizadas no entorno
do Parque. Neste trabalho serão comentadas experiências realizadas nas pesquisas efetuadas na área
do Parque, avaliando o papel da memória ambiental na compreensão da história das comunidades e
nas transformações do ambiente da região do Parque Nacional. Utilizou-se como fonte os relatórios
de pesquisas e produção científica publicados pelo grupo, assim como o acervo de transcrições de
entrevistas. Os dados foram selecionados e compilados a fim de identificar narrativas / informações
que contribuem para a descrição histórica do ambiente onde se inserem as comunidades, apontando
algumas contribuições da memória ambiental como fonte para a História Ambiental. Construir a
História Ambiental é um projeto que requer do pesquisador a união de diferentes metodologias,
porém sem dúvida, a Memória Ambiental, captada via História Oral, contribui de maneira
significativa para que possamos ter representações e percepções sobre as transformações do
ambiente. Os moradores antigos das comunidades relatam suas memórias, que informam sobre o uso
dos recursos naturais, configurações e transformações do ambiente no processo de interações
antrópicas com a floresta da região.
Palavras-chave: Memória Ambiental; Experiências de Pesquisa; Parque Nacional da Serra do Itajaí
Conversar com pessoas mais velhas possibilita ao pesquisador uma série de elementos
que se tornam fonte para análises e confrontações com demais documentos históricos. Essas
pessoas contam a memória e ela apresenta subsídios para melhor reconstruir o passado, e
melhor fundamentar o cenário de onde passa a história. Tendo isso em vista, a memória
possibilita pistas para que o historiador ambiental possa reconstruir o ambiente da história.
Sendo assim de fundamental utilidade a História Oral, como um método da História, a
memória é falada, é gravada e transcrita, transformando-se em um documento, para que com
outras fontes documentais, o historiador possa constituir uma interpretação elucidando o
passado ambiental de uma região.
1
O estudo faz parte de um compilado de informações de pesquisas de Iniciação Científicas realizadas pelo
GPHAVI, financiadas pelo PIBIC-CNPq, Artigos 170 e 171 do Governo do Estado de Santa Catarina, e recursos
de projetos FAPESC, sendo que além dos autores implícitos do estudo, ocorre a participação do Dr. Gilberto
Friedenreich dos Santos, como coautor e membro da equipe que elaborou este artigo.
2
Historiador, Mestre em Desenvolvimento Regional, Pesquisador GPHAVI/FURB.
3
Bióloga, Mestranda em Engenharia Florestal, Pesquisadora GPHAVI/FURB.
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Com esse viés, a partir de 2003 foi iniciada uma pesquisa numa pequena comunidade
rural isolada na Floresta Atlântica, a Nova Rússia, localizada no bairro Progresso, sul do
município de Blumenau-SC. A comunidade está em uma geografia de vales profundos, tendo
como principal curso d´água o Rio Garcia. Sua história inicia no processo de colonização
realizado por Hermann Bruno Otto Blumenau em 1850, e o expansionismo da colônia a
região sul, rica em mananciais de água, madeira e minérios, sendo loteada, ocupada e
colonizada a partir de 1890. Na região fixaram-se alemães, prussianos poloneses, italianos, e
brasileiros, e através da exploração dos recursos naturais sobreviveram e desenvolveram a
localidade.
Conforme Garrote (2006), na localidade da Nova Rússia ocorreu um intenso processo
de exploração da madeira, do palmito, da caça e de demais elementos da biodiversidade da
floresta. A partir de 1980, o movimento ambientalista da cidade, principalmente pela figura da
Associação Catarinense de Preservação da Natureza – ACAPRENA, e demais membros da
comunidade, realizam diversas denuncias e atividades em benefício da conservação da
natureza. Um dos resultados dessas ações foi a compra de diversos lotes de terras nas
cabeceiras do Rio Garcia pela Companhia Artex, empresa de artefatos têxteis de Blumenau,
protegendo mais de 5.300 hectares, onde encontravam-se os mananciais e grande parte da
floresta preservada da devastação, a empresa instituiu em janeiro de 1988 Parque Ecológico
Artex. A fim de assegurar a conservação da região do parque, a empresa em conjunto com a
Universidade Regional de Blumenau – FURB, Fundação Municipal de Meio Ambiente –
FAEMA, representando a Prefeitura Municipal de Blumenau, criaram em 1998 o Parque
Natural Municipal Nascentes do Garcia, com uma legislação já regulamentada com o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação. A criação desses parques serviu de embrião para a
criação em 2004 do Parque Nacional da Serra do Itajaí - PNSI, com uma área de 57 mil
hectares presentes em nove municípios: Apiúna, Ascurra, Botuverá, Blumenau, Gaspar,
Guabiruba, Indaial, Presidente Nereu e Vidal Ramos.
A beleza da paisagem, misturando o rural com a Floresta Ombrófila Densa, e a
vontade de historiar o processo de ocupação e colonização da região da Nova Rússia e o das
outras 32 comunidades que ficaram localizadas no entorno do PNSI, verificando como
ocorreu o uso do solo, e as transformações na paisagem, serviram de estimulo para a
elaboração do projeto Investigando a História Ambiental das Comunidades do entorno do
Parque Nacional da Serra do Itajaí, tendo como principal foco estudar a memória
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ambiental. Nesse sentido o GPHAVI - Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do
Itajaí passou a executar pesquisas com o objetivo de construir a História Ambiental das
comunidades humanas que entornam o parque.
O GPHAVI é um grupo interdisciplinar composto por pesquisadores das áreas de
Biologia, Ciências Sociais, Geografia e História, estando vinculado a Base de Grupos de
Pesquisa do CNPq – Conselho Nacional de Pesquisa, certificado pela FURB -Universidade
Regional de Blumenau. O grupo vem realizando pesquisas como este objetivo no entorno do
parque nos município de Apiúna, Blumenau, Botuverá, Gaspar, Guabiruba, Indaial,
Presidente Nereu, Vidal Ramos entre 2004 e 2012. Nas pesquisas optou-se usar como
principal metodologia a História Oral, realizando entrevistas que coletam através da oralidade
a memória das relações entre sociedade e natureza presente nos antigos moradores das
comunidades. O uso da História Oral para coletar a memória possibilita levantar os processos
históricos e as transformações do meio ambiente que servem como subsídios para as
pesquisas realizadas no entorno do PNSI.
Neste artigo apresentaremos uma reflexão sobre as atividades do Grupo de Pesquisas
de História Ambiental do Vale do Itajaí, analisando as experiências relativas às pesquisas que
com o uso da oral possibilitaram elucidar uma memória ambiental sobre o entorno do Parque
Nacional da Serra do Itajaí. Trataremos assim das experiências realizadas nas pesquisas
efetuadas na área do Parque, avaliando o papel da memória ambiental na compreensão da
história das comunidades e nas transformações do ambiente da região do Parque Nacional.
Utilizou-se como fonte os relatórios de pesquisas e produção científica publicados pelo grupo,
assim como o acervo de transcrições de entrevistas, e as experiências da equipe. Os dados
foram selecionados e compilados a fim de identificar narrativas / informações que contribuem
para a descrição histórica do ambiente onde se inserem as comunidades, apontando algumas
contribuições da memória ambiental como fonte para a História Ambiental.
O GPHAVI de 2004 até 2012 realizou as seguintes pesquisas no entorno do PNSI:
- Histórico Ambiental da Mata Atlântica da região do Parque Natural Municipal Nascentes do
Garcia e entorno no séc. XX;
- Análise histórica ambiental da memória oral de duas comunidades do entorno do Parque
Natural Municipal Nascentes do Garcia (Vale do Itajaí - Santa Catarina);
- Análise Histórica Ambiental da memória oral das comunidades da Nova Rússia e Faxinal do
Bepe no entorno do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia SC;
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- História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí:
comunidades de Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá
Vale do Itajaí – SC;
- História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí:
comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá Vale do Itajaí – SC;
- História Ambiental das Comunidades do parque Nacional da Serra do Itajaí em Gaspar e
Guabiruba – SC;
- História Ambiental das Comunidades do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Blumenau e
Indaial-SC;
- História Ambiental das Comunidades do Entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí no
Município de Apiúna – SC;
- História Ambiental das Comunidades do Parque Nacional da Serra do Itajaí em GuabirubaSC;
- A história das interações humanas com o ambiente no entorno do Parque Nacional da Serra
do Itajaí: o caso das comunidades de Gravatá, Ribeirão Jundiá, Ribeirão Neisse, Barra de
Águas Frias e Braço Salão do município de Apiúna SC.
- Comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central (Botuverá - SC - Zona de
Amortecimento do Parque Nacional Serra do Itajaí): uma História Ambiental baseada no ouro
e calcário;
- A interação sociedade e natureza das comunidades situadas no extremo sul da zona de
amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí (Santa Catarina, Vale do Itajaí).
Estas pesquisas tiveram como principal amostragem de fontes a memória ambiental
dos moradores das comunidades. Para resgatar a memória ambiental usou-se a História Oral, e
com ela foi possível levantar os processos históricos e as transformações do ambiente no
entorno do PNSI. As comunidades pesquisadas são territórios constituídos materialmente e
simbolicamente pelos seus moradores. Nas comunidades predominam a cultura alemã e
italiana, os colonizadores chegaram na região a partir de 1890, e é comum encontrar entre os
moradores mais antigos os filhos e netos dos primeiros colonizadores. Nestes moradores
antigos existem em suas memórias informações sobre como ocorreram às relações entre
sociedade e natureza na região do PNSI, e como ambiente passou a ser um fator
caracterizador da história.
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Na memória dos moradores antigos das comunidades que entornam o PNSI existe
registrado a imagem das paisagens, as áreas onde haviam florestas e como elas foram sendo
alteradas, humanizadas, e como os seus elementos, a biodiversidade, foi se transformando em
recursos e promovendo a sobrevivência e desenvolvimento das comunidades. Também estão
presentes as memórias sobre as representações simbólicas, os conhecimentos, e as técnicas
sobre os usos da natureza. E as histórias de como era a vida na Floresta Atlântica, e como aos
poucos ela foi sendo explorada, compreendida, moldada, e também como o conjunto de
fatores do ambiente gerou e enraizou os hábitos e a cultura das comunidades.
Devido a existência de moradores de boa idade, e geralmente pertencentes a terceira
geração de morados das comunidades, a memória ambiental pessoal, e a memória que lhes
foram passadas pelos pais e entes queridos, proporciona elementos que complementam e dão
um outro panorama na história. A partir disso, foi pensado o uso do método da história oral
para buscar informações na memória dos antigos moradores das comunidades no entorno do
parque, e com elas contribuir com a construção da História Ambiental das populações do
entorno do PNSI.
Com o uso da memória o historiador promove um conhecimento pronunciado pelos
próprios sujeitos que constituem a história, como se formou o conhecimento e como as
experiências humanas com o ambiente o modificam, promovendo um percurso histórico.
Segundo Bosi (1994, p.60) quando se resgata a memória de pessoas mais velhas, como os da
boa idade, surgem memórias antigas sobre determinada história. “Na memória dos idosos é
possível encontrar uma história social bem definida, pois eles já passaram por certo tipo de
sociedade com características bem marcadas e já viveram quadros de referencia familiar e
cultural também já conhecidos”.
No campo das pesquisas em História Ambiental, o método da História Oral vem
demonstrando-se plausível na coleta, e registro das memórias ambientais do entorno do PNSI.
A história oral é um procedimento metodológico que constrói fontes e documentos através das
narrativas auxiliando construir uma História em suas múltiplas dimensões: factuais,
temporais, espaciais, conflituosas, e consensuais (DELGADO apud MEIHY HOLANDA,
2007, p.82). Segundo Lozano (1996) a história oral dá um espaço de contato interdisciplinar,
social, de escalas e níveis locais e regionais, compartilhando com o método histórico
tradicional, agindo com ênfase nos fenômenos e eventos que permitam através da oralidade,
passar a oferecer interpretações qualitativas de processos históricos sociais, e desta forma,
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inicia a contar com métodos e técnicas precisas para a construção de um conhecimento com
papel importante.
Com entrevistas e gravação do áudio são coletadas as narrativas (História Oral),
contando a memória ambiental do passado sobre como era o cenário da história, a paisagem, e
como ela vai sendo alterada pelos usos da natureza, também possibilitam informações, que se
enquadram nos estudos de história com o viés da História Ambiental, pois informam sobre
alterações do clima, relevo, da vegetação, hidrografia e fauna. A História Ambiental é uma
maneira como pesquisadores e historiadores passam a chamar a forma de escrever a História,
na qual se leva em conta o que o meio ambiente influência no desenvolvimento e formação da
sociedade, e o que a sociedade interage no desenvolvimento e formação do meio ambiente. E
o que essas interações proporcionam positivamente e negativamente para ambas as partes.
(WORSTER, 1991; DRUMMOND, 1991; LEFF, 2005; MARTINS, 2007).
De acordo com Martins (2007), a produção do conhecimento histórico com o viés da
História Ambiental “tem como objetivo colocar a sociedade na natureza. Dito de outra forma,
ela quer conferir às “forças da natureza” o estatuto de agente condicionador e modificador da
cultura, e da vida humana, e atribuir aos componentes naturais “objetivos” que tem a
capacidade de influir significativamente nos rumos da história” (MARTINS, 2007, p.22).
Nesse sentido, através de uma análise histórica com o viés da História Ambiental foi possível
levantar aspectos esquecidos, até então, pela tradição historiográfica e compreender que a
natureza possui uma dinâmica histórica própria, e que interage com a dinâmica histórica da
sociedade, a qual, também pertence à dinâmica da natureza.
Segundo Drummond (1991) uma das fontes de informações para o historiador
ambiental descrever sobre como ocorreram às transformações do meio ambiente, das
paisagens, das apropriações e usos da natureza, pode ser resgatada com a análise da memória
dos que vivenciaram os processos de exploração e usos da natureza. Desta forma, o nosso
argumento é que com a história oral, coletando a memória ambiental dos sujeitos que
vivenciaram a história onde hoje é o PNSI, e organizando as informações, será possível
compreender a História Ambiental das comunidades.
A proposta que adotamos na história oral foi a de estabelecer uma rede de
entrevistados, coletando histórias de vida e percepção sobre as mudanças ambientais.
Inicialmente foi realizada uma visita em cada uma das comunidades, e nelas entramos em
contato com alguns moradores, explicando a pesquisa e solicitando informações sobre as
pessoas mais antigas. Foram localizadas as pessoas mais antigas na comunidade e idosas, e a
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partir delas, com as informações das suas entrevistas, e indicações, foram sendo localizadas as
próximas pessoas a serem entrevistadas, estabelecendo uma rede. Desta forma, através da
história oral foi coletada a memória da vida na floresta que hoje é território do PNSI, e foram
totalizadas 80 narrativas/entrevistas do Banco de Dados do GPHAVI.
Utilizamos na prática da história oral o método da entrevista aberta, mas com um
roteiro de orientação para o entrevistador divido em blocos temáticos, que passariam a gerar
dados para responder os objetivos específicos das pesquisas. Por se tratar de entrevistas
abertas, em campo, o roteiro funciona como um guia, a partir do qual se encaminha a
conversa com os entrevistados, de forma que se procura dar espaço para as características
ambientais de cada comunidade e para a vivência de cada entrevistado com os elementos da
biodiversidade.
O roteiro de orientação que foi utilizado nas pesquisas foi organizado nos seguintes
blocos: 1- conhecendo o entrevistado, no qual foram realizadas perguntas de caráter geral
sobre a vida do entrevistado (nome, data e local de nascimento do entrevistado e dos pais, o
cotidiano da infância e da comunidade no passado), levantamento da sua história de vida; 2Identificação da história da comunidade, resgatando informações sobre o passado e o
desenvolvimento da comunidade; 3- Praticas e os cultivos da agricultura, descrevendo
informações a respeito dos tipos e formas de cultivos realizados na comunidade ao longo do
tempo, identificando elementos externos introduzidos na biodiversidade local, o uso de
agroquímicos e fertilizantes; 4- Informações sobre a Caça e Pesca, reconhecendo os elementos
da biodiversidade utilizados para alimentação e comércio e práticas de caça e pesca; 5- O
corte das árvores para a indústria madeireira, identificando espécies e usos para os tipos de
árvores da floresta, analisando o desenvolvimento do caráter mercantil da extração de
madeira; 6- A influência do parque na vida do colono, analisando a percepção e integração
das comunidades do entorno com a existência do Parque Nacional da Serra do Itajaí.
As informações resgatadas com os procedimentos que adotamos nas pesquisas
possibilitaram mais vantagens do que limitações para a compreensão de como ocorreu a
História Ambiental de cada Comunidade. A análise documental realizada não trouxe
informações suficientes para que os objetivos fossem respondidos. E o uso da história oral
evidenciou fatos que não foram possíveis de encontrar em documentação, e assim, foi
possível preencher as lacunas, e ordenar melhor os acontecimentos históricos e as
características das interações sociedade natureza nesse processo.
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Ao estabelecer a rede, e ao conhecer a história de vida das pessoas antigas das
comunidades, as informações dos blocos temáticos do roteiro foram automaticamente sendo
ditas, e ao se cruzar as informações dos entrevistados da rede, foi possível verificar a
existência de uma memória coletiva sobre como ocorreram os fatos da História Ambiental do
entorno do PNSI.
Com a história oral foi possível resgatar as características bióticas e abióticas da
região; A história das comunidades e como a paisagem foi sendo transformada com os usos da
natureza; Os fluxos de colonização, ocupação do espaço, e crescimento demográfico; Como
era o processo de abertura de clareias na mata, o que se aproveitava ou não; Como eram
escolhidas, cortadas e preparadas as melhores árvores utilizadas para as feitorias locais, e
venda da madeira, e destinos dos recursos que elas geravam e tecnologias e procedimentos da
atividade; O que era aproveitado da mata para o artesanato, gamelas, vassouras, armadilhas
para caçadas e pescarias, entre outros; O uso de elementos da floresta para uso médico, em
curas de enfermidades e acidentes como picadas de cobras e ferimentos no trabalho; A
importância da água, os seus usos com engenhos de serrar, atafonas e alambiques; Como era
preparada a terra para a agricultura, o que era plantado, como era plantado, as técnicas e
procedimentos, e os ciclos de culturas agrícolas que predominaram em cada comunidade;
Como eram exploradas, quantas espécies havia e existem hoje, e o que se gerava de lucro com
a exploração do palmito, xaxim, cipós, entre outros elementos da biodiversidade; Como era
realizada a caça e a pesca, identificando animais que existiam e que hoje não existem mais,
quais eram os lucros ou usos da carne, couro ou peles dos animais; Mudanças climáticas,
diminuição ou aumento na cobertura florestal, qualidade e oscilações de volume água dos
ribeirões, pluviosidade, falta de animais que antes eram caçados e usados como alimentação,
identificando os momentos históricos nos quais algumas espécies deixaram de existir como a
anta, jacutinga, gatos do mato e outros; Deslizamentos, enxurradas, perda de áreas cultivadas,
pragas biológicas e outras consequências da exploração, foram identificados nas análises das
memórias ambientais coletadas com a história oral.
A história oral é um método importante, principalmente em pesquisas onde os sujeitos
históricos ainda são participantes da construção da história. Ela é capaz de resgatar
informações não registradas, gerando um documento que pode ser analisado. E dele, abstrair
informações ecológicas, indicadores da qualidade do ambiente, econômicas, culturais, entre
outras, que produzem uma visualização das situações ou períodos históricos.
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O que Bosi (1994, p60) destaca sobre a riqueza dos elementos da memória dos velhos,
que percebem uma sociedade com características bem marcadas e quadros de referencia
familiar e cultural, pode ser percebido no relato do Sr. Arthur, já falecido, filho mais velho do
primeiro morador da Nova Rússia:
[...] a Nova Rússia tem mais ou menos 125 anos. Na Nova Rússia não tinha
nem um brasileiro só Alemão. Eles vinham lá da Rússia e quase todos eram
Russos lá. O primeiro que eu lembro aqui de baixo, foi o Laschewitz, depois
foi o Griebner, depois foi mais uma turma de Laschewitz, depois foi o Vasik
onde eles foram para lá em cima onde os Batschauer, e os Garcia moram.
Aquilo foi dessa família. Depois lá dentro foi o Reimann, aqui pra cima foi o
velho Gueland, e depois foi outra o Rautenberg. Depois mais pra lá foi o
Generoso. Eu sei mais ou menos, depois ali na Mina de Prata, entra mais pra
baixo um pouco, foi o Batschauer, e lá pra cima das minas depois foi o, não
me lembro mais. Depois foi (...) o Pinto, do lado. Esse foi a primeira família
de brasileiros que entrou lá, isso eu lembro bem.
Nessa narrativa do Sr. Artur ele descreve as famílias que ele lembra, e como a sua
residência localizava-se onde hoje é a sede do PNSI, região plana mais alta (Segunda Vargem
da Nova Rússia). Ocorre uma percepção sobre a espacialidade das famílias, e a ordem na qual
ele cita os nomes é decorrente das localizações descendo a via principal da comunidade da
Nova Rússia. E desta forma auxilia na comparação com os documentos dos lotes coloniais.
Neste outro relato a Sra. Edgard, viúva, e moradora da Nova Rússia apresenta alguns
aspectos de como era a vida cotidiana e como ocorriam algumas interações entre sociedade e
natureza:
[...] meu marido ia no mato, tirava cipó, fazia balaio e vendia, aí ele fazia
compra com isso. Ele visitava, e um pouco ele comprava. Meus filhos eram
pequenos. Eu ficava em casa riscando cipó e ele ia no mato tira, aí ele veio,
deixava o cipó e fazia os balaio né. Nós trabalhava só em roça. O pai tinha
cavalo, e carroça, e maquina de tratar, nós tinha as vacas, nós tinha nas roças
bastante aipim, batata doce, milho, tudo, cara, tudo nós tinha. Vivia tudo da
roça bem dizer. Comprava quase nada.
Neste trecho de transcrição percebemos alguns elementos sobre a memória ambiental
do local presente nas práticas de caça, assim como denuncia espécies que desapareceram e
não foram mais vistas, e que antes eram avistadas em grande número na região do PNSI
Martin: Com que frequência vocês iam caçar?
S. Arno: Uma vez por semana, ou só domingo.
Marcela: O senhor percebeu que alguns animais foram sumindo com o passar
do tempo?
S. Arno: Aquele porco do mato, aquele queixo branco, não existe mais. Tava
muito, muito, muito e agora só aquele catete, e ainda só um ou dois e é
difícil.
Martin: E outros bichos de pelo que desapareceram ou diminuíram tem mais
algum ai?
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S. Arno: Só que o mesmo o macaco e o quati. O veado a mesma coisa. O
veado vem até aqui no pasto. Se deixar eles come tudo.
Marcela: E por que o senhor acha que os animais foram sumindo?
S. Arno: Eu não sei. Mesmo como aquele sapo lá. Dois anos faz que não tem
sapo. (Aqueles sapo de casa). Quase não tem mais. De vez em quando acha
um. E ele viu um sapo cheio de carrapato. E mesmo o tatu eu não sei quem
matou um tatu cheio de carrapato, não dá pra comer.
Sobre sua memória ambiental Sr. Gianesini narra sobre a fauna na região e Botuverá:
Aqui eu me cansei de ver a anta, e aqueles veados [...] a anta é sempre o
casal. E depois tinham aqueles veados, aqueles veados de mato, então eles
vinham pela água afora né, vinham pela água afora e vinha e batia na lagoa,
aí estava lá o veado com aqueles galhões, eles iam lá, o que deixavam ir
embora, se não eles iam lá com uma faca ou com um machado e matava ele
lá na beiradinha do rio. [...]Todo mundo tinha (caça). Ali eles maneiravam,
eles maneiravam para ter, para não exagerar. Tinha Jacopemba, jacu, jacu,
macuco. Caçava só no inverno. Porque agora, agora para a frente, todo o
passarinho, todo o passarinho está botando ovo, chocando, botando ovo... até
abril, maio. [...]Sim só que tem cuidar também né. Se por acaso é dedado, no
caso é dedado, vai lá a Polícia Ambiental ele tem direito a ir no freezer, vai
no freezer se estiver um tatu, uma carne de veado ou paca ou cotia. Fiança
não tem, é gaiola e tem que responder processo a vida toda, tem gente aqui
que tem dar um sacolão para uma instituição todo mês, se não quer ficar na
gaiola. Sim e pagou três, quatro mil de fiança, até mais.
Sr Fachini, morados dos Lageados em Botuverá narra sua percepção sobre as
mudanças ambientais, trazendo elementos da memória ambiental e da problemática dos usos
dos elementos da biodiversidade do PNSI:
Tinha (muitos peixes) é porque sumiu muito peixe do rio. Era o cascudo, era
só o cascudo que tinha no rio, só o cascudo e depois tinha outros peixes, mas
o cascudo é o melhor né. Hoje em dia ninguém mais pesca está muito
poluído. [...] Tinha mais (água) sim. Se desse uma chuva como deu na
semana passada o rio estava nas praias hoje. Porque a gente passava no rio de
carroça, mas não era sempre que dava para passar, hoje ficam anos e anos, se
tivesse que passar ainda.
Estes relatos apresentados exemplificam elementos e aspectos que associados a outros
relatos podem contribuir para elucidar questões diversas como sobre o desaparecimento de
uma espécie, sobre como era utilizado o solo, para que atividades, entre outras. Por exemplo,
o desaparecimento de um tipo de sapo, o entrevistado comenta sobre a ocorrência de um
parasita, no caso o carrapato, que pode ter sido introduzido, ou não. Onde cada questão
comentada pelo entrevistado gera uma dúvida onde a partir dela o pesquisador pode buscar
informações em outras entrevistas, com pesquisadores e pesquisas de outras áreas das
ciências, e na bibliografia e produção científica, tentando elucidar uma questão.
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Com a História Oral, a Memória Ambiental vem possibilitando elementos
fundamentais para o entendimento da História Ambiental das Comunidades do entorno do
Parque Nacional da Serra do Itajaí, pois permite preencher lacunas da historiografia e ao
mesmo tempo compreender a história pela memória e pelas reconstruções de diferentes
pontos de vista. A história oral com todas suas particularidades nos traz informações valiosas,
e um bom entendimento sobre o contexto histórico de regiões que - na maioria das vezes - não
possui historiografia pertinente ou suficiente. Contudo, este procedimento contribui
especialmente pelo contato direto com agentes de memória, pessoas que viveram
determinados fatos, presenciaram mudanças econômicas ou sociais. “Mas deve-se lembrar
sempre que não é apenas quando não existem documentos necessários que a história oral
acontece” (MEIHY HOLANDA, 2007).
Usando o método da história oral foi possível coletar dados para a análise da memória
ambiental dos sujeitos históricos, sobre como ocorreram os fatos, e como esses fatos estavam
ou não relacionados com o ambiente no qual os sujeitos os vivenciaram. Assim, o método da
história oral e a análise da memória, são ferramentas fundamentais, e também possibilita que
o conhecimento da História Ambiental seja construído e usado para conscientizar as
populações sobre as implicações ambientais geradas pelo modelo de desenvolver e viver da
exploração do natural.
Os relatos coletados nas pesquisas realizadas pelo GPHAVI possuem indícios que
proporcionam na amarração das informações documentais uma natureza dinâmica e, através
do discurso, integram características da cultura das comunidades, e conforme Ferreira (2002)
ajudam, pois possibilitam incorporar dimensões materiais, sociais, simbólicas e imaginárias
na história a ser descrita (FERREIRA, 2002). Devido à natureza dinâmica dos relatos, e das
influências dos ânimos, uma das maiores dificuldades da história oral está na necessidade de
estar atento ao discurso, e as suas reconstruções ao mesmo tempo. Ao confrontar nas diversas
entrevistas essas reconstruções individuais se alcança a memória coletiva da comunidade. É a
partir desse ponto que podemos cientificar a memória ambiental como uma fonte
historiográfica. Ao construir a História Ambiental o pesquisador requer da união de diferentes
metodologias, porém sem dúvidas, a História Oral contribui de maneira significativa para que
possa “contar a história” de comunidades como as citadas nesse artigo, sobre as quais as
bibliografias são diminutas e as memórias ambientais de seus moradores ainda guardam
lembranças do processo histórico. Portanto, a coleta e registro da memória com o uso do
método da história oral possibilitam ao historiador ambiental informações suficientes para
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traçar um panorama de como era o passado histórico ambiental, e como a história das
interações entre sociedade e natureza alteram e constroem a realidade. E isso vem sendo
notado nas pesquisas que foram realizadas com os antigos moradores das comunidades do
entorno do PNSI pelo GPHAVI.
REFERÊNCIAS
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia das
Letras,1994.
DRUMMOND, José Augusto. A História Ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa.
Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.4, n.8, p.177-197.1991.
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Agradecimentos:
Agradecemos aos bolsistas que participaram das pesquisas citadas neste artigo, em especial a
Marcela Adriana Grandi.
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