Caracterização do Comportamento de Materiais a partir do Ensaio Pressiométrico Rita Raquel Rego Silva de Oliva Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Civil Júri Presidente: Prof. Doutor Jaime Alberto dos Santos Orientador: Prof. Doutor Alexandre da Luz Pinto Orientador: Prof. Doutor Pedro Fernando e Mota Guedes de Melo Vogal: Prof. Doutor Armando Manuel Sequeira Nunes Antão Dezembro de 2009 AGRADECIMENTOS Ao Professor Pedro Guedes de Melo pelos ensinamentos, apoio e disponibilidade demonstrada ao longo da realização deste trabalho, e pela motivação para a área da Geotecnia transmitida ao longo do meu percurso académico. À empresa Geotest pela disponibilização de todos os resultados de ensaios pressiométricos usados na execução da aplicação prática deste trabalho. Em especial, à Eng. Ana Teresa Carvalho pelo apoio prestado na pesquisa de casos de obra adequados e pela oportunidade de assistir à realização de um ensaio, e, também, à Eng. Mariana Ley Rosa pela disponibilização de material bibliográfico e interesse demonstrado. À secção de Geotecnia do Departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico, nomeadamente ao Professor Jaime Santos, pelo apoio logístico ao longo do desenvolvimento deste trabalho. Aos meus pais pela compreensão, incentivo e apoio constantes. Ao Carlos por tudo. i RESUMO O presente trabalho tem como objectivos principais: estudar o ensaio pressiométrico com o pressiómetro de Ménard e explorar os seus resultados para a calibração de um modelo de comportamento de um material. A descrição do pressiómetro, da técnica de execução do ensaio e da análise e aplicações de resultados tem por base a pesquisa bibliográfica efectuada. Ao longo do desenvolvimento deste trabalho discute-se a conformidade dos métodos de abertura do furo e introdução da sonda no terreno, e também a validade dos resultados e parâmetros obtidos do ensaio. O material escolhido para estudo é o ocorrente nas formações arenosas do Miocénico da região de Lisboa. A calibração de um modelo de comportamento para este material é realizada pelo método dos elementos finitos, escolhendo-se para o efeito o programa Plaxis. O modelo de comportamento escolhido é o Hardening Soil, já incorporado no programa. O processo de obtenção do modelo consiste numa análise de sensibilidade dos vários parâmetros definidores do modelo e no ajuste progressivo às curvas pressiométricas dos ensaios realizados nessas formações. Os resultados obtidos são discutidos e apresentam-se as vantagens e limitações deste método de caracterização de materiais a partir do ensaio pressiométrico. Palavras-chave: Pressiómetro de Ménard; caracterização geotécnica; modelação numérica; Miocénico; Plaxis; Hardening Soil Model ii ABSTRACT The current essay has two major objectives: to present a study about the Ménard’s pressuremeter test and to exploit its results in order to calibrate a soil model. The description of the pressuremeter, the test technique and the results analysis and applications is based on the extensive bibliographic research. In the course of this paper is discussed the suitability of the methods used in preboring operation and probe insertion in the ground, as well as, the validity of the parameters measured during the test. The chosen material for this study is the non-cohesive soil of the Miocene formations that occur in Lisbon region. The model of the mechanical behaviour of the soil is calibrated by the finite element method. The soil behaviour is simulated by the Hardening Soil Model, which is a model already assembled in the chosen software Plaxis. The calibration process consists in a sensitivity analysis of the main defining parameters of the model and the progressive adjustment to the pressuremeter curves obtained from the tests done in the studied formations. The results of this work are discussed and the advantages and limitations of this methodology for materials characterization are analysed. Key-words: Ménard’s pressuremeter; geotechnical characterization; numerical modelling; Miocene; Plaxis; Hardening Soil Model iii Índice Geral AGRADECIMENTOS ..........................................................................................................................................i RESUMO............................................................................................................................................................ ii ABSTRACT ...................................................................................................................................................... .iii ÍNDICE GERAL ................................................................................................................................................. iv ÍNDICE DE TABELAS ...................................................................................................................................... vii ÍNDICE DE FIGURAS ....................................................................................................................................... ix LISTA DE SÍMBOLOS .................................................................................................................................... .xii CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1 1.1 Objectivos .................................................................................................................................................... 1 1.2 Estrutura do Documento ............................................................................................................................. .1 CAPÍTULO 2 – TIPOS DE PRESSIÓMETROS .............................................................................................. 3 2.1 Evolução Histórica ...................................................................................................................................... .3 2.2 Classificação dos Equipamentos ................................................................................................................ .9 2.3 Pressiómetro de Ménard ........................................................................................................................... .10 2.3.1 A Sonda Pressiométrica.................................................................................................................... .10 2.3.2 A Unidade de Controlo de Pressão e Volume................................................................................... .11 2.3.3 A Tubagem ....................................................................................................................................... .12 2.3.4 O Pressiómetro do tipo GC ............................................................................................................... .13 2.4 Outros tipos de Pressiómetros .................................................................................................................. .15 2.4.1 Pressiómetros de pré-furo................................................................................................................. .15 2.4.2 Pressiómetros Autoperfuradores ...................................................................................................... .17 2.4.3 Pressiómetros de Cone..................................................................................................................... .19 2.4.4 Pressiómetros com tubo exterior de revestimento ............................................................................ .20 CAPÍTULO 3 –ENSAIO PRESSIOMÉTRICO DE MÉNARD ........................................................................ 21 3.1 Considerações iniciais .............................................................................................................................. .21 3.2 Calibração ................................................................................................................................................. .21 3.2.1 Saturação dos Circuitos .................................................................................................................... .21 3.2.2 Calibração das Perdas de Volume.................................................................................................... .22 3.2.3 Determinação do Volume Inicial. ...................................................................................................... .24 3.2.4 Calibração das Perdas de Pressão................................................................................................... .24 3.3 Inserção da Sonda no Terreno ................................................................................................................. .26 3.3.1 Diâmetro do Furo .............................................................................................................................. .26 3.3.2 Métodos e Equipamento de Furação ................................................................................................ .27 3.3.2.1 Métodos de Furação .................................................................................................... .28 3.3.2.2 Inserção Directa ........................................................................................................... .29 3.3.3 Influência nos Resultados ................................................................................................................. .32 iv 3.3.3.1 Forma da Curva Pressiométrica................................................................................... .32 3.3.3.2 Dispersão de Resultados ............................................................................................. .33 3.3.3.3 Valores dos Parâmetros Pressiométricos Medidos ...................................................... .34 3.4 Descrição do Ensaio ................................................................................................................................. .36 3.4.1 Recomendações Prévias. ................................................................................................................. .36 3.4.2 Descrição do Processo. .................................................................................................................... .38 3.4.3 Avaliação da Qualidade do Ensaio. .................................................................................................. .39 3.4.4 Cuidados no Fim do Ensaio. ............................................................................................................. .41 3.5 Ensaios Especiais ..................................................................................................................................... .41 CAPÍTULO 4 – INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO DOS RESULTADOS. ................................................. 44 4.1 Curva Pressiométrica ................................................................................................................................ .44 4.2 Parâmetros do Ensaio .............................................................................................................................. .46 4.2.1 Pressão Limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 . ............................................................................................................................ .46 4.2.2 Ponto Teórico de Início de Ensaio. ................................................................................................... .48 4.2.3 Pressão de Fluência, 𝑝𝑝𝑓𝑓 . ................................................................................................................... .49 4.2.4 Pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ . ....................................................................................................................................... .49 4.2.5 Módulo Pressiométrico, 𝐸𝐸𝑀𝑀 . .............................................................................................................. .50 4.2.6 Correlações com resultados de outros Ensaios de Campo. ............................................................. .51 4.2.6.1 Ensaio de Penetração Dinâmica, SPT ......................................................................... .51 4.2.6.2 Ensaio de Penetração Estática, CPT ........................................................................... .52 4.2.6.3 Ensaio Pressiométrico Autoperfurador......................................................................... .54 4.3 Aplicações dos Resultados ....................................................................................................................... .54 4.3.1 Caracterização Geotécnica ............................................................................................................... .54 4.3.1.1 Identificação do Material .............................................................................................. .54 4.3.1.2 Resistência ao Corte não drenada ............................................................................... .57 4.3.1.3 Ângulo de Resistência ao Corte ................................................................................... .60 4.3.1.4 Módulo de Deformabilidade ......................................................................................... .63 4.3.1.5 Tensão Horizontal em Repouso ................................................................................... .64 4.3.2 Dimensionamento de Fundações ..................................................................................................... .65 4.3.2.1 Fundações Superficiais ................................................................................................ .65 4.3.2.2 Estacas ........................................................................................................................ .67 4.3.2.3 Ancoragens .................................................................................................................. .68 4.3.2.4 Pavimentos .................................................................................................................. .68 4.3.2.5 Controlo da Compactação e Melhoramento de Terrenos ............................................ .69 CAPÍTULO 5 – MODELAÇÃO DE UM CASO PRÁTICO ............................................................................. 70 5.1 Introdução. ................................................................................................................................................ .70 5.2 Descrição da Formação. ........................................................................................................................... .71 5.3 Resultados dos Ensaios Pressiométricos de Ménard. .............................................................................. .72 5.4 Modelação Numérica do Ensaio Pressiométrico....................................................................................... .75 5.4.1 Geometria da Malha de Elementos Finitos ....................................................................................... .75 5.4.2 Passos de Cálculo ............................................................................................................................ .76 v 5.4.3 Resultados da modelação................................................................................................................. .77 5.4.4 Modelo de Comportamento do solo .................................................................................................. .78 5.4.4.1 Parâmetros de Resistência. ......................................................................................... .79 5.4.4.2 Parâmetros de Rigidez. ................................................................................................ .80 5.4.4.3 Parâmetros avançados. ............................................................................................... .80 5.5 Estudo Paramétrico.. ................................................................................................................................ .81 5.5.1 Coeficiente de Impulso em Repouso. ............................................................................................... .81 5.5.2 Ângulo de Resistência ao Corte........................................................................................................ .82 5.5.3 Ângulo de Dilatância. ........................................................................................................................ .83 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 5.5.4 Módulo 𝐸𝐸50 . ..................................................................................................................................... .83 5.5.5 Parâmetro m. .................................................................................................................................... .84 5.5.6 Restantes Parâmetros. ..................................................................................................................... .84 5.6 Resultados da Modelação numérica.. ....................................................................................................... .85 5.6.1 Modelo calibrado............................................................................................................................... .85 5.6.2 Comparação entre os Resultados dos Ensaios e os Resultados Numéricos.................................... .85 5.6.3 Análise dos Resultados..................................................................................................................... .92 5.6.4 Comparação dos valores dos Parâmetros do Modelo com os valores dos Parâmetros do Ensaio Pressiométrico de Ménard .............................................................................................................................. .93 5.6.4.1 Módulo de Ménard. ...................................................................................................... .93 5.6.4.2 Ângulo de Resistência ao Corte. .................................................................................. .94 CAPÍTULO 6 – CONCLUSÕES .................................................................................................................... 95 6.1 Conclusões e Discussão dos Resultados.. ............................................................................................... .95 6.2 Desenvolvimentos Futuros........................................................................................................................ .96 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................................. 97 Bibliografia Principal.. ..................................................................................................................................... .97 Bibliografia Secundária. ................................................................................................................................ .101 ANEXO A ..................................................................................................................................................... 106 ANEXO B ..................................................................................................................................................... 116 vi ÍNDICE DE TABELAS Tabela 2.1 – Principais conferências sobre o ensaio pressiométrico................................................................. 6 Tabela 2.2 – Evolução das normas francesa e americana ................................................................................ 7 Tabela 2.3 – Dimensões das sondas pressiométricas ..................................................................................... 11 Tabela 2.4 – Dimensões do pressiómetro Camkometer .................................................................................. 17 Tabela 3.1 – Valores representativos da pressão limite em função do parâmetro 𝑣𝑣0 , proposto por Amar e Jézéquel, 1971................................................................................................................................................. 35 Tabela 4.1 – Correlações entre os parâmetros pressiométricos e número de pancadas SPT ........................ 52 Tabela 4.2 – Correlações entre a resistência cónica estática e a pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ .................................................. 52 Tabela 4.3 – Valores da relação 𝑞𝑞𝑐𝑐 �𝑝𝑝𝑙𝑙 em função do valor do ângulo de resistência ao corte ........................ 53 Tabela 4.4 – Correlações entre a resistência cónica estática e a pressão limite ............................................. 53 Tabela 4.5 – Valores de referência do parâmetro 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ para materiais argilosos ............................................... 55 Tabela 4.6 – Valores de referência do parâmetro 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ para materiais arenosos ................................................ 55 Tabela 4.7 – Valores comuns da relação 𝐸𝐸𝑀𝑀� 𝑝𝑝𝑙𝑙 ............................................................................................... 55 Tabela 4.8 – Valores comuns de 𝐸𝐸𝑀𝑀 e 𝑝𝑝𝑙𝑙 em função do tipo de solo ............................................................... 56 Tabela 4.9 – Valores comuns de 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ e 𝐸𝐸𝑀𝑀 para materiais argilosos ................................................................. 56 Tabela 4.10 – Valores comuns de 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ e 𝐸𝐸𝑀𝑀 para materiais arenosos ............................................................... 56 ′ em função do tipo de solo .................................................................................... 62 Tabela 4.11 – Valor de 𝜙𝜙𝑐𝑐𝑐𝑐 Tabela 4.12 – Parâmetro 𝛼𝛼 para a obtenção de 𝐸𝐸𝑀𝑀 ......................................................................................... 63 Tabela 4.13 – Valores dos factores de forma .................................................................................................. 66 Tabela 5.1 – Curvas pressiométricas analisadas para cada tipo de material .................................................. 70 Tabela 5.2 – Formações miocénicas de matriz arenosa presentes nas obras estudadas ............................... 71 Tabela 5.3 – Classificação das curvas analisadas........................................................................................... 73 Tabela 5.4 – Descrição do modelo Hardening Soil .......................................................................................... 79 Tabela 5.5 – Valores dos parâmetros do modelo ............................................................................................ 85 vii ÍNDICE DE FIGURAS Figura 2.1 – Esquema do pressiómetro de Kögler ............................................................................................. 3 Figura 2.2 – Esquema do pressiómetro de Ménard ........................................................................................... 4 Figura 2.3 – Classificação dos diversos tipos de pressiómetros ........................................................................ 9 Figura 2.4 – Aspecto exterior da sonda pressiométrica; e, partes constituintes da sonda pressiométrica ...... 10 Figura 2.5 – Unidade de controlo de pressão e volume................................................................................... 12 Figura 2.6 – Diversos componentes do pressiómetro de Ménard .................................................................... 13 Figura 2.7 – Esquema dos circuitos de um pressiómetro tipo GC ................................................................... 14 Figura 2.8 – Principais passos de montagem da sonda pressiométrica de um pressiómetro do tipo GC........ 15 Figura 2.9 – Diferentes tipos de pressiómetros de Ménard ............................................................................. 15 Figura 2.10 – Sonda do pressiómetro OYO Elastmeter ................................................................................... 16 Figura 2.11 – Pressiómetro Pencel .................................................................................................................. 16 Figura 2.12 – Sonda do pressiómetro Camkometer ........................................................................................ 17 Figura 2.13 – Esquema detalhado do pressiómetro Camkometer ................................................................... 18 Figura 2.14 – Curva pressiométrica típica de um pressiómetro autoperfurador .............................................. 18 Figura 2.15 – Esquema do pressiómetro de cone ........................................................................................... 19 Figura 2.16 – Curvas pressiométricas típicas de um pressiómetro de cone .................................................... 20 Figura 2.17 – Esquema de um pressiómetro tipo PIP...................................................................................... 20 Figura 3.1 – Curva de calibração do volume ................................................................................................... 22 Figura 3.2 – Curvas de correcção do volume .................................................................................................. 23 Figura 3.3 – Variação na resistência da membrana......................................................................................... 25 Figura 3.4 – Curva de calibração da pressão .................................................................................................. 25 Figura 3.5 – Utilização de tubo contínuo, com extracção total e com extracção por lavagem ......................... 29 Figura 3.6 – Secção transversal do tubo perfurado ......................................................................................... 30 Figura 3.7 – Esquema da sonda dentro do tubo perfurado.............................................................................. 31 Figura 3.8 – Curvas pressiométricas para diferentes valores de 𝑣𝑣0 ................................................................. 32 Figura 3.9 – Curvas pressiométricas anómalas ............................................................................................... 33 Figura 3.10 – Comprimento da célula de medição para o pressiómetro tipo GC ............................................. 37 Figura 3.11 – Situações possíveis de expansão da sonda pressiométrica ...................................................... 37 Figura 3.12 – Curva pressiométrica ................................................................................................................. 39 Figura 3.13 – Curva de fluência ....................................................................................................................... 40 Figura 3.14 – Curva pressiométrica do ensaio de fluência e do ensaio de relaxamento ................................. 42 Figura 3.15 – Curva pressiométrica de um ensaio cíclico................................................................................ 42 Figura 3.16 – Curva pressiométrica de um ensaio com ciclo de descarga/recarga, variando a pressão e variando o volume............................................................................................................................................ 43 Figura 4.1 – Exemplo de folha de cálculo para os valores da pressão e volume corrigidos ............................ 44 Figura 4.2 – Correcção da curva pressiométrica ............................................................................................. 45 Figura 4.3 – Fases do ensaio na curva pressiométrica.................................................................................... 46 Figura 4.4 – Método logarítmico para obtenção da pressão limite................................................................... 47 viii Figura 4.5 – Método proposto por Van Wambeke e d’Henricourt para obtenção da pressão limite ................ 47 Figura 4.6 – Método dos volumes relativos para obtenção da pressão limite.................................................. 48 Figura 4.7 – Método proposto por Brandt para obtenção do parâmetro 𝑝𝑝0 ...................................................... 49 Figura 4.8 – Fase pseudo-elástica da curva pressiométrica detalhada ........................................................... 50 Figura 4.9 – Curvas pressiométricas típicas para materiais arenosos e argilosos........................................... 57 Figura 4.10 – Valores de 𝐺𝐺�𝑐𝑐𝑢𝑢 em função da constante pressiométrica, 𝑁𝑁𝑝𝑝 .................................................... 58 Figura 4.11 – Método de Gibson e Anderson para a determinação da resistência ao corte não drenada....... 59 Figura 4.12 – Método da curva de corte para a determinação da resistência ao corte não drenada .............. 59 Figura 4.13 – Correlação entre a pressão limite líquida e a resistência ao corte não drenada........................ 60 Figura 4.14 – Correlação entre a pressão limite líquida e o ângulo de atrito ................................................... 62 Figura 4.15 – Ábaco proposto por Calhoon para determinação do ângulo de atrito em função dos parâmetros 𝐸𝐸𝑀𝑀 e 𝑝𝑝𝑙𝑙 ............................................................................................................................................................. 63 Figura 4.16 – Analogia entre o comportamento de uma fundação superficial e a o ensaio pressiométrico..... 65 Figura 4.17 – Ábacos para a obtenção de 𝑘𝑘, propostos por Ménard e Baguelin et al. .................................... 66 Figura 4.18 – Ábacos para determinação da capacidade resistente, 𝑘𝑘, propostos por Ménard e pelo Laboratoire Central des Ponts et Chaussées .................................................................................................. 67 Figura 4.19 – Curva P-y, com B igual ao diâmetro da estaca .......................................................................... 68 Figura 4.20 – Deformação associada a uma coluna de brita ........................................................................... 69 Figura 5.1 – Curva pressiométrica identificada como anómala ....................................................................... 72 Figura 5.2 – Curva pressiométrica identificada como associada a um elemento rochoso ............................... 72 Figura 5.3 – Curvas pressiométricas analisadas ............................................................................................. 74 Figura 5.4 – Valores do módulo de Ménard dos ensaios analisados ............................................................... 74 Figura 5.5 – Valores da pressão limite dos ensaios analisados ...................................................................... 75 Figura 5.6 – Geometria do problema ............................................................................................................... 75 Figura 5.7 – Malha de elementos finitos .......................................................................................................... 76 Figura 5.8 – Zona de aplicação da tensão uniformemente distribuída............................................................. 76 Figura 5.9 – Pontos associados à leitura do deslocamento ............................................................................. 77 Figura 5.10 – Deformação provocada pela pressão do pressiómetro.............................................................. 77 Figura 5.11 – Relação hiperbólica tensão-deformação.................................................................................... 78 Figura 5.12 – Estudo da influência do parâmetro 𝑘𝑘0 no andamento das curvas.............................................. 82 Figura 5.13 – Estudo da influência do parâmetro 𝜙𝜙 no andamento das curvas ............................................... 82 Figura 5.14 – Estudo da influência do parâmetro 𝜓𝜓 no andamento das curvas............................................... 83 Figura 5.15 – Estudo da influência do parâmetro 𝐸𝐸50 no andamento das curvas ............................................ 83 Figura 5.16 – Estudo da influência do parâmetro 𝑚𝑚 no andamento das curvas .............................................. 84 Figura 5.17 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 50 kPa .......................................... 86 Figura 5.18 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 75 kPa .......................................... 86 Figura 5.19 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 100 kPa ........................................ 86 Figura 5.20 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 125 kPa ........................................ 87 Figura 5.21 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 150 kPa ........................................ 87 Figura 5.22 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 175 kPa ........................................ 87 Figura 5.23 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 200 kPa ........................................ 88 Figura 5.24 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 225 kPa ........................................ 88 ix Figura 5.25 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 250 kPa ........................................ 88 Figura 5.26 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 275 kPa ........................................ 89 Figura 5.27 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 300 kPa ........................................ 89 Figura 5.28 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 325 kPa ........................................ 89 Figura 5.29 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 350 kPa ........................................ 90 Figura 5.30 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 375 kPa ........................................ 90 Figura 5.31 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 400 kPa ........................................ 90 Figura 5.32 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 425 kPa ........................................ 91 Figura 5.33 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 450 kPa ........................................ 91 Figura 5.34 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 475 kPa ........................................ 91 Figura 5.35 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 500 kPa ........................................ 92 Figura 5.37 – Valores do módulo de Ménard obtidos dos ensaios pressiométricos ....................................... 93 Figura 5.38 – Valores do ângulo de resistência ao corte dos ensaios pressiométricos ................................... 94 Figura A.1 – Geometria do problema ............................................................................................................. 107 Figura A.2 – Coordenadas cilíndricas ............................................................................................................ 108 Figura A.3 – Tensões principais..................................................................................................................... 108 Figura A.4 – Curva pressiométrica................................................................................................................. 110 Figura A.5 – Obtenção do módulo de distorção a partir da curva pressiométrica .......................................... 112 Figura A.6 – Obtenção da resistência ao corte não drenada a partir da curva pressiométrica ...................... 114 Figura A.7 – Gráficos ln (𝜀𝜀𝜃𝜃 )0 ; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜 𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎 .......................................................................................... 115 Figura B.1 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 50 kPa .......................................... 116 Figura B.2 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 75 kPa .......................................... 116 Figura B.3 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 100 kPa ........................................ 117 Figura B.4 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 125 kPa ........................................ 117 Figura B.5 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 150 kPa ........................................ 118 Figura B.6 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 175 kPa ........................................ 118 Figura B.7 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 200 kPa ........................................ 119 Figura B.8 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 225 kPa ........................................ 119 Figura B.9 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 250 kPa ........................................ 120 Figura B.10 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 275 kPa ...................................... 120 Figura B.11 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 300 kPa ...................................... 121 Figura B.12 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 325 kPa ...................................... 121 Figura B.13 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 350 kPa ...................................... 122 Figura B.14 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 375 kPa ...................................... 122 Figura B.15 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 400 kPa ...................................... 123 Figura B.16 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 425 kPa ...................................... 123 Figura B.17 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 450 kPa ...................................... 124 Figura B.18 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 475 kPa ...................................... 124 Figura B.19 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 500 kPa ...................................... 125 x LISTA DE SÍMBOLOS A maioria dos símbolos utilizados neste trabalho tem o seu significado explicado ao longo do texto. No entanto, considera-se importante a apresentação de uma listagem dos mais relevantes. Símbolo Significado 𝜀𝜀𝜃𝜃 Deformação circunferencial 𝜀𝜀𝑧𝑧 Deformação vertical 𝜈𝜈 Coeficiente de Poisson 𝜎𝜎0ℎ Tensão horizontal em repouso 𝜎𝜎0𝑣𝑣 Tensão vertical em repouso 𝜎𝜎𝑟𝑟 Tensão radial 𝜏𝜏𝑚𝑚 Tensão deviatórica máxima ′ 𝜙𝜙𝑐𝑐𝑐𝑐 Ângulo de resistência ao corte a volume constante 𝜓𝜓 Ângulo de dilatância 𝑐𝑐 ′ Coesão efectiva 𝐷𝐷 Diâmetro da sonda pressiométrica 𝐷𝐷𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 Diâmetro do furo necessário à execução do ensaio pressiométrico 𝐸𝐸 Módulo de Young ou módulo de elasticidade 𝐺𝐺 Módulo de distorção 𝐺𝐺𝑀𝑀 Módulo de distorção pressiométrico 𝐾𝐾 Módulo de compressibilidade 𝐾𝐾0𝑂𝑂𝑂𝑂 Coeficiente de impulso em repouso – estado sobreconsolidado 𝜀𝜀𝑟𝑟 Deformação radial 𝜀𝜀𝑐𝑐 Deformação da cavidade 𝜈𝜈𝑢𝑢𝑢𝑢 Coeficiente de Poisson descarga/recarga ′ 𝜎𝜎0ℎ Tensão horizontal efectiva em repouso 𝜎𝜎𝜃𝜃 Tensão circunferencial 𝜎𝜎𝑧𝑧 Tensão vertical 𝜙𝜙 Ângulo de resistência ao corte 𝜙𝜙 ′ Ângulo de resistência ao corte efectivo 𝑐𝑐 Coesão 𝑐𝑐𝑢𝑢 Coesão não drenada 𝐷𝐷𝑒𝑒𝑒𝑒 . Diâmetro do equipamento de furação 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 Diâmetro da sonda pressiométrica 𝐸𝐸𝑀𝑀 Módulo pressiométrico de Ménard 𝐺𝐺𝑖𝑖 Módulo de distorção inicial 𝐺𝐺𝑢𝑢𝑢𝑢 Módulo de distorção em descarga/recarga 𝐾𝐾0 Coeficiente de impulso em repouso xi 𝐾𝐾𝑎𝑎 Coeficiente de impulso activo 𝑝𝑝0 Pressão correspondente ao início da fase linear da curva pressiométrica 𝐿𝐿 Comprimento da célula de medição 𝑝𝑝𝑓𝑓 Pressão de fluência 𝑝𝑝𝑙𝑙 Pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ Diferença entre a pressão limite e a tensão horizontal em repouso 𝑅𝑅0 Raio inicial da sonda ∆𝑅𝑅 Variação do raio da sonda 𝑣𝑣0 Diferença entre o volume da cavidade e o volume inicial da célula de medição 𝑣𝑣𝑓𝑓 Volume correspondente à pressão de fluência 𝑝𝑝𝑓𝑓′ Pressão de fluência efectiva 𝑝𝑝𝐿𝐿 Pressão limite teórica 𝑅𝑅 Raio da sonda pressiométrica 𝑅𝑅𝑐𝑐 Raio inicial da cavidade 𝑢𝑢0 Pressão intersticial 𝑉𝑉𝑐𝑐 Volume inicial da célula de medição xii CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO 1.1 Objectivos O presente trabalho de dissertação de Mestrado Integrado em Engenharia Civil tem como tema o ensaio pressiométrico em solos e a sua aplicabilidade à caracterização geotécnica. Pretende-se com este documento apresentar uma síntese sobre o ensaio pressiométrico, descrever o aparelho e a técnica de execução, apontar e discutir os problemas tecnológicos associados e as aplicações do pressiómetro. É dado especial relevo à caracterização geotécnica, em detrimento do dimensionamento de fundações, por esta última não ser uma prática nacional comum. Constitui um objectivo adicional fornecer uma base bibliográfica a mais abrangente e actualizada possível sobre o assunto. A componente prática consiste em calibrar, a partir dos resultados de ensaios pressiométricos, um modelo numérico, baseado no método de elementos finitos, que simule o comportamento real de um determinado tipo de material. O material estudado pertence ao Miocénico da região de Lisboa e corresponde à sua ocorrência predominantemente arenosa. A calibração do modelo é conseguida através da análise de resultados de ensaios pressiométricos realizados em várias obras estudadas. O objectivo deste trabalho é demonstrar a potencialidade do ensaio pressiométrico na caracterização geotécnica de materiais e apresentá-lo como uma ferramenta para o projecto geotécnico. 1.2 Estrutura do Documento O presente trabalho está dividido em sete capítulos, em que este faz a INTRODUÇÃO e o último apresenta as CONCLUSÕES. O CAPÍTULO 2 – TIPOS DE PRESSIÓMETROS apresenta o resumo histórico do ensaio pressiométrico e o estudo evolutivo dos diferentes tipos de pressiómetros. No CAPÍTULO 3 – ENSAIO PRESSIOMÉTRICO DE MÉNARD desenvolve-se a técnica do ensaio e indicam-se algumas correlações com outros ensaios de campo. O CAPÍTULO 4 – INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO DOS RESULTADOS descreve os parâmetros pressiométricos e resume as potencialidades dos resultados do ensaio pressiométrico. No CAPÍTULO 5 – MODELAÇÃO DE UM CASO PRÁCTICO apresenta-se a caracterização de um material arenoso do Miocénico da região de Lisboa, através da modelação por elementos finitos de resultados pressiométricos. No CAPÍTULO 6 – CONCLUSÕES discutem-se os resultados obtidos e apresentam-se as conclusões obtidas com este trabalho. As REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS estão divididas em BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL e BIBLIOGRAFIA SECUNDÁRIA. A BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL apresenta as referências fundamentais que foram 1 consultadas e estudadas para a elaboração deste trabalho. A BIBLIOGRAFIA SECUNDÁRIA é constituída por referências complementares sobre o ensaio pressiométrico que permitem o desenvolvimento das matérias abordadas. Apresenta-se ainda o ANEXO A que resume as teorias de interpretação do ensaio pressiométrico e expõe a teoria de expansão de cavidades cilíndricas. 2 CAPÍTULO 2 – TIPOS DE PRESSIÓMETROS 2.1 Evolução Histórica A ideia de introduzir uma sonda no terreno e expandi-la de modo a medir in situ as propriedades do solo surgiu pela primeira vez em 1930, pelo engenheiro alemão Kögler. Em 1933, Kögler publicava o seu trabalho: tinha concebido um aparelho no qual media a quantidade de gás necessária para o expandir. No entanto, teve dificuldades em calcular o volume injectado e a distribuição de tensões inerente à sua teoria não respeitava a condição de equilíbrio. O aparelho idealizado por Kögler, que consistia numa sonda cilíndrica fixada por dois discos metálicos, está esquematizado na Figura 2.1. Figura 2.1 – Esquema do pressiómetro de Kögler (adaptado de Baguelin et al., 1978). Apesar do aparente fracasso da ideia de Kögler, Baguelin et al. (1978) ressaltam a sua importância como o primeiro a ter trabalhado com um pressiómetro, definindo o mesmo como aparelho que aplica pressão às paredes livres de um furo através duma membrana flexível. Saliente-se também que Kögler, apesar de inúmeros problemas tecnológicos, conseguiu realizar alguns ensaios em solos finos. Baguelin et al. (1978) afirmam que as curvas pressiométricas obtidas destes ensaios são similares às obtidas actualmente. Em 1954, o engenheiro francês recém-licenciado Louis Ménard desenvolvia testes de compactação para uma pista de aeroporto, junto a Paris, quando se apercebeu que medir a resistência do solo à expansão de uma sonda, inserida no terreno, seria o ideal para determinar as propriedades de tensão e de deformação do material. Assim nasceu o projecto do pressiómetro de Ménard, desenvolvido durante o ano seguinte, como projecto final de curso, sob orientação do 3 Professor Kérisel, na École National des Ponts et Chaussées. O modelo apresentado por Ménard está esquematizado na Figura 2.2. Figura 2.2 – Esquema do pressiómetro de Ménard (adaptado de Baguelin et al., 1978). A principal diferença entre os pressiómetros de Kögler e de Ménard consiste na introdução, por parte deste último, de três câmaras dispostas seguidamente. As três câmaras, ou células, têm uma constituição similar, são protegidas por uma membrana de borracha, possuem discos metálicos nas extremidades e são independentes entre si. As células exteriores, células de guarda, têm esse nome pois a sua função é contrariar o efeito que o comprimento finito do aparelho tem sobre a célula central. Assim, a célula central, ou célula de medição, expande apenas radialmente, como se a sonda pressiométrica tivesse um comprimento infinito. Segundo Baguelin et al. (1978), é possível então considerar que o solo à volta da célula central está em condições de deformação plana. O sucesso do pressiómetro de Ménard ficou também a dever-se aos avanços tecnológicos a nível dos materiais, então registados. O núcleo de metal usado por Ménard garantia-lhe que o comprimento da célula de medição era constante, o que permitia assumir que qualquer variação no seu volume se devia a uma variação radial. Adicionalmente, Ménard também tirou partido dos novos materiais, como a borracha sintética, que podia usar para revestir a membrana, tornando-a mais resistente. 4 Ménard adaptou a teoria de Bishop et al. (1945), desenvolvida para metais, que prova que a expansão de uma esfera ou um cilindro de comprimento infinito numa massa infinita é possível até um determinado carregamento limite, valor relacionado com a tensão de cedência do material. Em 1955, Ménard realizou os primeiros ensaios pressiométricos enquanto trabalhava no seu mestrado, sob a orientação do Professor Peck, na Universidade de Illinois. Nestes primeiros ensaios foi possível obter um módulo de deformação pela teoria de Lamé e foi também medida uma pressão limite tal como a teoria de Bishop et al. (1945) previa. Foi também neste ano, 1955, que Ménard patenteou o seu aparelho. A tese de mestrado de Ménard (1957), intitulada “An Apparatus for Measuring the Strength of Soils in Place”, é o primeiro documento sobre o pressiómetro e as suas aplicações. Em 1957, Ménard regressou a França e criou a sua empresa, Les Pressiomètres Louis Ménard, mais tarde renomeada para Téchniques Louis Ménard, que foi durante 10 anos detentora exclusiva do pressiómetro. Embora a ideia inicial de Ménard tenha sido conceber um aparelho para conhecer as características geotécnicas do solo, ao longo do desenvolvimento do pressiómetro, e com a experiência adquirida com a realização de ensaios, Ménard apercebeu-se do potencial para o dimensionamento de fundações. Baguelin et al. (1978) descrevem também as dificuldades que Ménard sentiu na obtenção de valores válidos dos parâmetros de resistência de Mohr-Coulomb, 𝑐𝑐 e 𝜙𝜙, com a sua teoria inicial de interpretação do ensaio pressiométrico, na qual considerava o solo com comportamento elástico perfeitamente plástico, com ângulo de atrito constante com variação de volume nula (Ladanyi, 1995). Esta dificuldade foi assim um factor adicional para abandonar a interpretação teórica em favor de uma via semi-empírica. Numa primeira fase, o módulo pressiométrico e a pressão limite foram usados como valores de referência para correlacionar com os resultados obtidos dos ensaios mais comuns: CPT, ensaio de corte directo, ensaio de placa, ensaio triaxial, ensaio de corte e o ensaio edométrico. No entanto, Baguelin et al. (1978) revelam que esta abordagem não foi bem sucedida como método de dimensionamento, pois os erros inerentes a qualquer ensaio eram ampliados pela tentativa de correlação. É como consequência desta tentativa frustrada que Ménard retoma a ideia de usar o ensaio pressiométrico como modelo de comportamento de fundações. Assim, Ménard e uma equipa de engenheiros dirigida por si conduziram um trabalho experimental que visava, não só a confirmação de que o pressiómetro era um método adequado para prever o comportamento de fundações, como possibilitasse a obtenção dos factores de escala para que os resultados do ensaio pudessem ser directamente usados no seu dimensionamento. O trabalho prático passou pela investigação de um local com ensaios pressiométricos, sendo executadas em seguida fundações à escala real. Simultaneamente foram instrumentadas fundações reais que haviam sido dimensionadas com base em ensaios pressiométricos. Baguelin et al. (1978) afirmam que este trabalho foi muito bem sucedido e os seus resultados foram publicados pela primeira vez, em 1963, por Ménard e Gambin, na revista SolsSoils, onde eram apresentadas fórmulas e ábacos de dimensionamento. Estas regras práticas têm 5 sido revistas por inúmeros autores, e são consideradas, ainda hoje, válidas. No entanto, o interesse, por parte dos investigadores, em estudar e aperfeiçoar estas regras de dimensionamento manteve-se, impulsionado pelo instituto francês Laboratoire Central des Ponts et Chaussées. Esta instituição governamental adoptou o ensaio pressiométrico como prática comum e teve um papel fundamental no seu desenvolvimento: contribuiu para a definição do campo de aplicação do ensaio; foi responsável pela estandardização de procedimentos através da comparação de resultados; e, de uma forma geral, promoveu a compreensão do pressiómetro enquanto método de dimensionamento de fundações. Em 1971 o laboratório francês publicou a primeira norma sobre o método de realização do ensaio pressiométrico e a sua interpretação, denominada “Essai Pressiométrique normal, mode opératoire”. A partir de 1969, com a venda do aparelho a outras empresas e centros de investigação e o seu licenciamento para executar ensaios pressiométricos, inúmeros autores dedicaram-se a investigar e a estabelecer diferentes interpretações do ensaio. A título de exemplo, referem-se três diferentes interpretações do ensaio em argilas, publicadas no mesmo ano, por Ladanyi (1972), Palmer (1972) e Baguelin et al. (1972). Até 15 de Janeiro de 1978, data da sua morte, Louis Ménard desenvolveu ainda um importante trabalho na área de melhoramento de terrenos, para a qual o pressiómetro se mostrou uma ferramenta importante, pois permitiu comparar a rigidez do solo antes e depois de aplicação da técnica de melhoramento. Ao longo dos anos, a temática do pressiómetro e do ensaio pressiométrico tem sido alvo de inúmeros congressos e conferências. Os principais estão destacados na Tabela 2.1. Tabela 2.1 – Principais conferências sobre o ensaio pressiométrico. Ano Local Nome 1982 Paris, LCPC Pressuremeter Testing, ISP-1 1986 Univ. Texas A&M The pressuremeter and its Marine Applications, ISP-2 1990 Univ. Oxford Pressuremeters, ISP-3 1995 Univ. Sherbrooke The Pressuremeter and its New Avenues, ISP-4 2005 Paris, LCPC 50 years of pressuremeters, ISP-5 A evolução nesta área tem-se traduzido, não só na melhoria da interpretação e uso dos resultados obtidos do ensaio pressiométrico, mas também ao nível do próprio aparelho. Ladanyi (1995) destaca os seguintes temas mais investigados: efeito do comprimento finito da célula (Laier et al., 1975), a perturbação do solo aquando da instalação da sonda (Ladanyi, 1972; Baguelin et al., 1972; Prévost, 1979) e, a rigidez e calibração da membrana (Murat e Lemoigne, 1988). A nível de normas internacionais, historicamente as mais importantes são a francesa, que surgiu da revisão da norma de 1971 do Laboratoire Central des Ponts et Chaussées, e a americana, ambas revistas ao longo dos anos, como demonstrado na Tabela 2.2. Actualmente na 6 norma europeia, Eurocódigo 7 – Projecto Geotécnico, o ensaio pressiométrico é detalhado na Parte 3. Tabela 2.2 – Evolução das normas francesa e americana. Norma Francesa NF P 94 110 1991 Sols: reconnaisssance et essais, Essai pressiométrique Ménard NF P 94 110-1 2000 Sols: reconnaissance et essais, Essai presiométrique Ménard, Partie 1: essai sans cycle NF P 94 110-2 Sols: reconnaissance et essais, Essai presiométrique Ménard, Partie 2: essai avec cycle Norma Americana ASTM D4719-87 1987 Standard Test Method for Pressuremeter Testing in Soils ASTM D4719-00 2000 Standard Test Method for Prebored Pressuremeter Testing in Soils ASTM D4719 - 07 2007 Standard Test Method for Prebored Pressuremeter Testing in Soils Quanto ao aparelho, têm sido desenvolvidas, a partir do equipamento original, versões modificadas na concepção das sondas e na sua forma de inserção no terreno. A evolução tecnológica do pressiómetro foi iniciada pelo próprio Ménard. Desde o protótipo, registado em 1955, que o desenvolvimento dos pressiómetros de Ménard foi intenso. Segundo Ley Rosa (1993), a primeira evolução surgiu em 1958 com o pressiómetro tipo D, que sucedendo ao pressiómetro tipo C, dispunha de um volumímetro com possibilidade de preenchimento durante o ensaio, atingia profundidades entre 10 m e 12 m e permitia aplicar pressões da ordem de 1 MPa. O aparelho que surgiu a seguir, pressiómetro tipo E, permitiu a execução de ensaios a profundidades maiores, da ordem dos 25 m, e a aplicação de valores de pressão maiores, cerca de 2,5 MPa. Ley Rosa (1993) aponta ainda a inovação trazida pelo regulador automático de pressão das células de guarda. Em 1963 foi desenvolvido o pressiómetro tipo F que dispunha de um duplo volumímetro e, em 1965, surge o pressiómetro tipo G, o primeiro a apresentar uma tubagem coaxial e a permitir a realização de ensaios a profundidades superiores a 25 m. Este aparelho permite também aplicar pressões superiores a 10 MPa pois dispõem de novas válvulas e faz uso do azoto como fonte de pressão. A contínua evolução do pressiómetro de Ménard ficou também a dever-se à investigação realizada no Canadá, em especial à empresa Roctest. A autorização do desenvolvimento de um novo aparelho com base no pressiómetro tipo G, por parte da Techniques Louis Ménard, deu 7 origem ao pressiómetro G-AM, em que AM significa americano. Mais tarde, foi com base neste modelo que a empresa de Ménard desenvolveu os pressiómetros do tipo GA, GB e GC. O pressiómetro do tipo GB foi particularmente pensado para ser usado em ensaios em rocha e o pressiómetro do tipo GC é o mais comum e será descrito no ponto 2.3.4. Em 1959, no Japão, Fukuoka desenvolveu um pressiómetro, do tipo pré-furo, denominado Type K-value tester com o objectivo de determinar um valor do coeficiente de impulso lateral para dimensionar fundações por estacas à resistência lateral. Em 1966, engenheiros da empresa japonesa Oyo Corporation, Suyama, Imai, e Ohya, aperfeiçoaram o modelo de Fukuoka, desenvolvendo o Lateral Load Tester, LLT e o Elastmeter 100. Com a consciência de que as condições de execução do furo e inserção do pressiómetro produziam uma perturbação no solo (não quantificável) e, devido às dificuldades em realizar o ensaio offshore, surgiu o interesse em encontrar novos métodos de instalação do pressiómetro. Mais uma vez o Laboratoire Central des Ponts et Chaussées foi pioneiro, tendo desenvolvido o primeiro pressiómetro autoperfurador, em 1967, nas suas instalações em Saint Brieuc (Baguelin et al., 1978). Este aparelho foi denominado PAF, pressiomètre autoforeur. Os primeiros ensaios demonstraram que, não só os valores dos parâmetros pressiométricos eram diferentes mas também as curvas obtidas tinham um andamento diferente. Baguelin et al. (1978) concluem então a significativa importância do processo de descarga e recarga das paredes do furo que ocorre com o pressiómetro de Ménard aquando da sua execução e início do ensaio. Com a evolução do equipamento introduziu-se o ano de desenvolvimento na sua designação. Assim, o primeiro PAF é conhecido como PAF-68, ao qual se seguiram o PAF-72, PAF-76 e o PAF-2000. A evolução dos pressiómetros autoperfuradores foi bastante intensa. A utilização de transdutores eléctricos, bem como de borrachas sintéticas, permitiu o regresso, segundo Maranha das Neves e Sousa Coutinho (1985), à concepção de Kögler com uma única célula. Em 1971 na Universidade de Cambridge, em Inglaterra, surgiu um outro pressiómetro autoperfurador desenvolvido por Wroth e Hughes. Actualmente este pressiómetro, denominado Camkometer, é comercializado pela Cambridge In Situ. Também Baguelin et al. (1974), e Windle e Wroth (1977), desenvolveram modelos de pressiómetros autoperfuradores. Em 1978, o Instituto Francês do Petróleo (IFP) desenvolveu o seu modelo autoperfurador para investigação em plataformas petrolíferas, denominado PAM. No Canadá, igualmente em 1978, Briaud e Shields deram um novo passo na evolução do aparelho, ao conceberem um mini-pressiómetro com vista ao dimensionamento de pavimentos, conhecido actualmente como Pencel. Os mesmos investigadores, em colaboração com a Universidade do Texas A&M, desenvolveram, em 1981, um novo aparelho, apenas com uma célula, denominado Texam. Ambos são actualmente comercializados pela empresa Roctest. O incremento da utilização do pressiómetro offshore impulsionou o aparecimento de um novo conceito: o pressio-penetrómetro, também conhecido por FDP (full-displacement pressuremeter) ou cone-pressiómetro. Este modelo inicialmente desenvolvido pelo Laboratoire Central des Ponts et Chaussées, em 1982, em colaboração com a empresa Techniques Louis Ménard, caracteriza-se por ser inserido no terreno por vibração. Os ensaios com este tipo de 8 pressiómetro, denominado LCPC-TLM são, segundo Ladanyi (1995), apropriados para determinar a resposta do solo a carregamentos cíclicos e alguns parâmetros de resistência têm sido deduzidos do ramo de descarga do ensaio (Houlsby, 1986; e Ferreira e Robertson, 1992 e 1994). Os resultados do ensaio podem ser usados directamente para o dimensionamento de estacas carregadas lateralmente, como estudado por Robertson et al. (1986) e Meyerhof e Sastry (1987). Como referido por Briaud (1992), surgiram inúmeras versões deste tipo de pressiómetros: por investigadores, como Hughes e Robertson, em 1985, Withers et al., em 1986, Schnaid e Houlsby, em 1990; e por diversas instituições, como Cambridge In Situ, Fugro B.V., Roctest, Universidade do Texas A&M e a Universidade British Columbia. Em 1984 foi introduzido em França a versão automatizada do pressiómetro de Ménard, o PAC. Nesse mesmo ano, uma parceria entre a Roctest e a Cambridge In Situ desenvolveu um pressiómetro capaz de aplicar pressões elevadas para realizar ensaios em rochas. Este tipo de aparelhos são capazes de aplicar até 20 MPa, dispõem de injecção com óleo e obtém os valores da pressão e do deslocamento radial através de transdutores eléctricos. A aplicação do pressiómetro a diferentes tipos de materiais tem evoluído consideravelmente, existindo inúmeros estudos sobre o ensaio pressiométrico em rochas brandas, solos congelados, e gelo. 2.2 Classificação do Equipamento Actualmente existem diversos tipos de pressiómetros, os quais diferem principalmente pelo método de instalação da sonda no terreno. Os diferentes equipamentos podem ser divididos em: • pressiómetros de pré-furo (esquema A da Figura 2.3); • pressiómetros autoperfuradores (esquema B da Figura 2.3); • pressiómetros com cone (esquema C da Figura 2.3); e, • pressiómetros com tubo exterior de revestimento (esquema D da Figura 2.3). Figura 2.3 – Classificação dos diversos tipos de pressiómetros (adaptado de Briaud, 1992). 9 A utilização do pressiómetro de pré-furo requer a abertura prévia de um furo no terreno, ou seja, é necessário recorrer a equipamento de furação. O pressiómetro de Ménard é o modelo mais importante deste tipo de pressiómetros, razão pela qual alguma bibliografia denomina o ensaio pressiométrico com este tipo de aparelho por MPT, Menard Pressuremeter Test ou, PBPMT, Preboring Pressuremeter. O aparelho com autoperfuração, criado para evitar a pré-furação, denominado por SBP, Selfboring Pressuremeter, foi o precursor dos aparelhos de ensaios in situ autoperfuradores. O pressiómetro com cone ou cone-pressiómetro, pode ser cravado no local ou penetrado por pressão e o pressiómetro com tubo exterior de revestimento é penetrado por pressão e pode ser chamado de PIP, Push-in Pressuremeter. 2.3 Pressiómetro de Ménard O pressiómetro de Ménard é constituído por três partes distintas: a sonda, a unidade de controlo e a tubagem. 2.3.1 A Sonda Pressiométrica A sonda está dividida em três células, duas células de guarda e a célula central, unidas por um núcleo de aço que as mantém alinhadas. Na Figura 2.4 apresentam-se fotografias da sonda e das suas partes constituintes. Figura 2.4 – Aspecto exterior da sonda pressiométrica (propriedade da empresa Geotest, fotografia tirada pela autora), à esquerda; e, partes constituintes da sonda pressiométrica (retirado de Dourado, 2005), à direita. 10 A célula central, também denominada de célula de medição, feita de borracha flexível e impermeável, é pressurizada com água. Segundo Baguelin et al. (1978) as células de guarda são cheias com gás, favorecendo a situação de equilíbrio, de modo a que a célula central não sofra qualquer alteração de comprimento. A sua existência permite assumir a condição de deformação plana. Como referido no ponto 2.1, a evolução tecnológica do pressiómetro foi iniciada pelo próprio inventor, Ménard. Os primeiros melhoramentos desenvolvidos pela sua empresa centraram-se na sonda, tendo sido criadas várias. As duas sondas mais comuns são a sonda AX e a sonda BX, sendo esta última, segundo Baguelin et al. (1978), a mais utilizada e também denominada como sonda de referência. A Tabela 2.3 apresenta as dimensões dos dois tipos de sonda mais comuns. Tabela 2.3 – Dimensões das sondas pressiométricas (adaptado de Baguelin et al., 1978). Designação Diâmetro da sonda (cm) Comprimento da sonda (cm) Volume da célula de medição (cm 3) Comprimento da célula de medição (cm) AX 4,4 66 535 36 BX 5,8 42 535 21 Maranha das Neves (1985) descreve o núcleo da sonda como um cilindro oco de metal com duas ombreiras que delimitam a célula de medição. A sonda é revestida por uma membrana e, em algumas ocasiões, também por uma bainha exterior. Esta bainha pode ser em borracha sintética simples, tal como a membrana, ou pode ser feita em borracha reforçada. Segundo Baguelin et al. (1978) o reforço é usualmente feito com cordões de nylon ou metal disposto longitudinalmente de modo a que a bainha possa deformar-se livremente na direcção radial. Este autor refere que as bainhas com reforço metálico são eficazes em solos com elementos de maiores dimensões, mas acarretam muitas dificuldades de extracção quando se rompem. As membranas e bainhas devem possuir boas qualidades relativamente ao envelhecimento, isto é, o valor da sua resistência deve permanecer constante ao longo do tempo e independente do número de ensaios realizados. A membrana da célula de medição desliza sobre o núcleo metálico e é firmemente apertada contra as ombreiras por dois anéis tronco-cónicos. A bainha é fixada nas suas extremidades com dois anéis metálicos. 2.3.2 A Unidade de Controlo de Pressão e Volume A unidade de controlo de pressão e volume (CPV) tem como função controlar a expansão da sonda, aplicando um determinado valor de pressão, e medir a correspondente variação de volume da célula central. A fonte de pressão é uma garrafa de gás comprimido e o valor do volume é lido no volumímetro incorporado. A unidade de controlo dispõe ainda de um conjunto de válvulas que permitem reduzir a pressão do gás comprimido até ao valor requerido, conectam a 11 tubagem até à sonda, permitem o preenchimento do volumímetro e permitem ainda expurgar a pressão para esvaziar a sonda no fim do ensaio. A unidade de controlo é colocada no terreno suficientemente próxima do furo, sendo portátil e suportada por um tripé desmontável. Na Figura 2.5 mostra-se uma fotografia da unidade de controlo de pressão e volume de um pressiómetro do tipo GC. Figura 2.5 – Unidade de controlo de pressão e volume (propriedade da empresa Geotest, fotografia tirada pela autora). 2.3.3 A Tubagem A tubagem é o elemento de ligação entre a sonda e a unidade de controlo, por onde circula o ar e a água. A tubagem é flexível e constituída por um tubo coaxial (à excepção do pressiómetro do tipo E), com uniões especiais nas suas extremidades, sendo o tubo interior aquele que conduz a água à célula de medição e o tubo exterior aquele que conduz o ar às células de guarda. Segundo Baguelin et al. (1978) existem dispositivos herméticos entre a tubagem e a unidade de controlo e entre a tubagem e a sonda de modo a garantir que a água circula somente para a célula de medição e o gás somente para as células de guarda. Baguelin et al. (1978) referem que a tubagem standard tem 4 mm de diâmetro interior e 6 mm de diâmetro exterior e 50 m de comprimento. Segundo Baguelin et al. (1978) para a tubagem 3 standard e para um caudal de água igual a 100 cm /minuto, a perda hidráulica da tubagem, devido ao atrito, é igual a 60 kPa. A Figura 2.6 apresenta os diversos componentes de um pressiómetro. 12 Figura 2.6 – Diversos componentes do pressiómetro de Ménard (adaptado de Weltman e Head, 1983). Como referido no ponto 2.1, o pressiómetro criado por Ménard foi sendo sucessivamente melhorado, tendo sido criados pela sua empresa vários modelos. 2.3.4 O Pressiómetro do tipo GC Este pressiómetro é capaz de aplicar pressões de 2500 kPa e, com algumas alterações, pode aplicar até cerca de 4000 kPa. A capacidade do reservatório da unidade de controlo é 900 3 cm . A sonda está protegida, a todo o comprimento, por uma bainha, com a qual a membrana da célula de medição entra em contacto. Para que a condição de deformação plana se verifique sempre, Baguelin et al. (1978) recomendam que a pressão da célula de medição, ou seja a pressão da água, seja superior à pressão das células de guarda, pressão do gás. O diferencial de pressão entre a célula de medição e as células de guarda é controlado por uma válvula reguladora e medido por um manómetro, específico para o efeito. Este diferencial no valor da pressão aplicada às células é uma característica distintiva entre o pressiómetro GC e os outros tipos, e é discutido no ponto 3.4.1. Neste tipo de pressiómetro, embora exista apenas uma fonte de energia para todo o sistema, o gás na unidade de controlo percorre dois circuitos independentes: um que pressuriza as células de guarda e outro que injecta água sob pressão na célula de medição. Na Figura 2.7 apresenta-se um esquema de ambos os circuitos. 13 Figura 2.7 – Esquema dos circuitos de um pressiómetro tipo GC (adaptado de APAGEO, 1998). Embora alguns investigadores, como Laier (1973), defendam que a importância do diferencial de pressão ao longo da sonda é difícil de contabilizar, Baguelin et al. (1978) consideram o possível erro associado a este facto negligenciável face à heterogeneidade do solo. No entanto, Schmertmann (1975) considera importante ter em conta a diferença de pressão no caso de solos muito moles. Este tipo de pressiómetro distingue-se também pela facilidade de montagem da sonda, face aos restantes. Na Figura 2.8 apresentam-se os principais passos de montagem. 14 Figura 2.8 – Principais passos de montagem da sonda pressiométrica de um pressiómetro do tipo GC (adaptado de Araújo, 2001). No passo 1 apresenta-se a sonda totalmente desmontada. O passo 2 corresponde à colocação da membrana central e ajuste do comprimento da célula de medição. No passo 3 procede-se à vedação da célula central e o passo 4 representa a colocação do recobrimento. As células de guarda da sonda deste tipo de pressiómetro não se encontram individualizadas, isto é, são formadas pela própria membrana que protege a célula de medição. Uma das desvantagens apontada por Baguelin et al. (1978) deste tipo de pressiómetro é a diminuída sensibilidade do aparelho em solos moles, dado que a sonda se expande contra duas camadas de revestimento: a membrana e a bainha. Os tipos mais importantes de pressiómetros de Ménard estão esquematizados na Figura 2.9. Figura 2.9 – Diferentes tipos de pressiómetros de Ménard (adaptado de Baguelin et al., 1978). 2.4 Descrição dos restantes tipos de Pressiómetros 2.4.1 Pressiómetros de Pré-Furo Na categoria de pressiómetros de pré furo existem o pressiómetro de Ménard e outro tipo de aparelhos cuja principal diferença reside no sistema de medição. 15 Estes pressiómetros possuem uma única célula cuja pressão é aplicada através de gás ou óleo e, segundo Mair e Wood (1987), o deslocamento das paredes do furo é medido de forma directa por braços de medição eléctricos. A medição é independente nos seis braços dispostos à volta da circunferência, através da relação entre o raio interno da membrana e o raio da cavidade. Mair e Wood (1987) referem que esta relação é função da espessura e propriedades da membrana e da pressão aplicada. Esta relação é obtida durante o processo de calibração. Um exemplo deste tipo de pressiómetros é o Oyo Elastmeter, representado na Figura 2.10. Figura 2.10 – Sonda do pressiómetro OYO Elastmeter (retirado de www.oyo.co.jp). O primeiro pressiómetro para o dimensionamento de pavimentos foi desenvolvido por Briaud, em 1978, tal como referido no ponto 2.1. Em 1981 o aparelho foi melhorado pelo Texas Highway Department começando a ser comercializado pela Roctest em 1984, com o nome Pencel. É um pressiómetro do tipo pré-furo e a sonda mede 35 mm de diâmetro e 230 mm de comprimento. Este tipo de pressiómetros apresenta uma sonda com comprimento inferior aos outros aparelhos pois o objectivo é ensaiar separadamente as camadas que constituem o pavimento, de modo a obter as características próprias de cada uma delas. O pressiómetro Pencel está esquematizado na Figura 2.11. Figura 2.11 – Pressiómetro Pencel (retirado de www.roctest.com). Briaud (1992) refere que o furo deve ser aberto, sempre que possível, através de um trado contínuo, com 35 mm de diâmetro. Nos ensaios em pavimentos existentes, o procedimento aconselhado passa por abrir um furo à superfície, através de uma broca, em que o núcleo pode ser usado parar determinar o módulo da camada de desgaste, abrindo os restantes metros com recurso ao trado contínuo. Na impossibilidade deste ser usado, o pressiómetro pode ser cravado 16 no solo, caso em que se torna necessário aplicar factores de conversão para a obtenção do módulo de deformabilidade (Briaud et al., 1986). 2.4.2 Pressiómetros Autoperfuradores Mair e Wood (1987) descrevem o pressiómetro autoperfurador como sendo uma máquina tuneladora em miniatura que é fixada ao terreno. Como referido no ponto 2.1, o desenvolvimento deste tipo de pressiómetros surgiu para ultrapassar o problema da perturbação do solo provocada pela abertura de um furo, necessário no caso dos pressiómetros de pré furo. Os principais factores de perturbação que se pretende evitar, referidos por Baguelin et al. (1978), são a acção de corte das ferramentas de perfuração, a cedência das paredes do furo, a variação no teor em água do solo e a perturbação provocada pela introdução da sonda. Neste caso, o solo desloca-se com a entrada do aparelho no terreno, sendo destruído pela cabeça de corte rotativa e trazido por lavagem até à superfície. Na prática, existe sempre algum tipo de perturbação do solo, como refere Benoît (1995), em função dos parâmetros de perfuração, tipo de solo e características in situ. A investigação nesta área estabeleceu linhas de orientação para os parâmetros mais significativos da perfuração, como o tipo de broca, posição da broca na base do pressiómetro, velocidade de rotação, velocidade de avanço da sonda, velocidade do fluido de perfuração, entre outros. Existem vários aparelhos desta categoria, destacando-se em seguida o Camkometer e o PAF. O pressiómetro Camkometer, desenvolvido no Reino Unido, está esquematizado na Figura 2.1 e as suas dimensões mais importantes apresentam-se na Tabela 2.4. Tabela 2.4 – Dimensões do pressiómetro Camkometer. Dimensões Comprimento da Sonda 1175 mm Comprimento da Membrana 493 mm Diâmetro da Membrana 81,7 mm Figura 2.12 – Sonda do pressiómetro Camkometer. O elemento de corte é alimentado através da rotação das hastes de furação interiores, a partir da superfície. A perturbação do solo aquando da introdução do pressiómetro no terreno é minimizada adaptando as características da broca ao tipo de solo e fazendo uso de uma broca cujo diâmetro externo seja igual ao da secção do pressiómetro. Mair e Wood (1987) referem que, após a instalação deste tipo de pressiómetro, a membrana é expandida com recurso a gás e o deslocamento radial é medido por três sensores eléctricos de deformação, separados 120°, no plano médio da sonda. A pressão do gás e a pressão intersticial do solo também são medidas com recurso a transdutores eléctricos instalados 17 dentro do pressiómetro. Na Figura 2.13 apresenta-se o esquema detalhado do pressiómetro Camkometer, na fase de perfuração e na fase do ensaio. Figura 2.13 – Esquema detalhado do pressiómetro Camkometer (adaptado de Weltman e Head, 1983). Segundo Mair e Wood (1987), o pressiómetro PAF difere do pressiómetro Camkometer em três aspectos principais: o sistema de medição do deslocamento, a protecção da membrana e o método de corte. O PAF dispõem de um sistema de medição idêntico ao do pressiómetro de Ménard, ou seja, o volume de expansão da membrana é lido no volumímetro. Ao contrário do Camkometer, a membrana do pressiómetro PAF não tem um tubo de metal a protege-la. É suportada pelo líquido que contém, podendo deformar-se durante a instalação do pressiómetro no terreno. O instrumento de corte do pressiómetro de modelo PAF é alimentado por um motor hidráulico instalado dentro da sonda. O ensaio com um pressiómetro autoperfurador pode ser realizado com tensão controlada, deformação controlada, ou ainda uma combinação dos dois procedimentos. A curva pressiométrica obtida através deste tipo de pressiómetros é diferente da obtida pelos restantes aparelhos, e a sua forma típica está representada na Figura 2.14. Figura 2.14 – Curva pressiométrica típica de um pressiómetro autoperfurador (adaptado de da Silva e Gomes Correia, 2000). 18 A Fase I representa a aplicação de um valor da pressão que corresponde à tensão que o terreno exerce sobre a membrana. A Fase II corresponde à expansão radial da cavidade cilíndrica. O ensaio com recurso a um pressiómetro autoperfurador permite, ao contrário do pressiómetro de Ménard, a obtenção de um valor da tensão horizontal inicial do solo fiável, visto que se admite que o pressiómetro é inserido no terreno sem perturbações. 2.4.3 Pressiómetros de Cone Os pressiómetros de cone são constituídos por uma ponteira cónica e introduzidos no terreno, por penetração estática ou dinâmica. A concepção deste tipo de pressiómetro teve como objectivo combinar as vantagens do ensaio CPT, Cone Penetration Test, e do ensaio pressiométrico. A sonda tem 46 mm e é expandida com gás. Segundo da Silva (1999), durante o ensaio obtêm-se os perfis, em profundidade, da resistência de ponta oferecida pelo solo, parando-se a penetração quando se atinge a cota pretendida para a realização do ensaio. A penetração estática é realizada com a mesma velocidade usada no ensaio CPT, 20 mm/s. Na Figura 2.15 está esquematizado um pressiómetro deste tipo. Figura 2.15 – Esquema do pressiómetro de cone (adaptado de Brouwer, 2007). A curva pressiométrica obtida com este tipo de pressiómetros pode ter a configuração A, da Figura 2.16, se o diâmetro da sonda pressiométrica for superior ao diâmetro da ponteira cónica, ou apresentar a configuração B, no caso contrário. 19 Figura 2.16 – Curvas pressiométricas típicas de um pressiómetro de cone (adaptado de Briaud, 1992). A interpretação destes ensaios é mais complexa que a dos demais ensaios pressiométricos, pois a expansão da cavidade cilíndrica ocorre depois do solo ter sofrido uma grande perturbação pela penetração do cone. 2.4.4 Pressiómetros com tubo exterior de revestimento Este tipo de pressiómetro, desenvolvido no Reino Unido em 1979, surgiu como resposta à necessidade de ensaiar argilas duras offshore. O pressiómetro é inserido no terreno por pressão, no fundo de um furo previamente aberto. Segundo Mair e Wood (1987), a sonda é um cilindro oco com 78 mm de diâmetro inserido num tubo tipo amostrador de forma a garantir a recuperação quase total do material removido, diminuindo assim a perturbação do solo envolvente. O aparelho é constituído por três partes distintas, como se pode observar na Figura 2.17. Figura 2.17 – Esquema de um pressiómetro tipo PIP (adaptado de Weltman e Head, 1983). A cabeça do pressiómetro é onde se localiza a sonda e o cortador e instala-se na cota que se pretende ensaiar por meio do espaçador. A restante parte do aparelho é onde se localizam os sistemas de medição de pressão e volume e a bomba eléctrica que fornece a pressão ao óleo que expande a membrana. A pressão é medida directamente através de transdutores eléctricos e a variação de volume é medida indirectamente pelo deslocamento da membrana. 20 CAPÍTULO 3 – ENSAIO PRESSIOMÉTRICO DE MÉNARD 3.1 Considerações iniciais A organização estabelecida para este capítulo tem como objectivo respeitar a sequência de um ensaio pressiométrico de Ménard: calibração; abertura do furo e realização do ensaio. Ao longo deste capítulo será feita referência a alguns parâmetros obtidos ou calculados a partir dos dados do ensaio pressiométrico. No entanto estes parâmetros são apresentados e estudados apenas no Capítulo 4. Assim, para promover uma melhor compreensão das matérias abordadas em seguida, apresenta-se uma breve explicação dos parâmetros pressiométricos referidos. O parâmetro 𝐸𝐸𝑀𝑀 é denominado de módulo pressiométrico, ou módulo de Ménard, e é um parâmetro de deformabilidade obtido a partir do módulo de distorção pressiométrico que é calculado directamente da curva pressiométrica. Este parâmetro é explicado no ponto 4.2.5. O parâmetro pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , corresponde ao valor da pressão quando o volume da cavidade é o dobro do volume inicial da sonda pressiométrica. Este ponto representa, em teoria, o fim do ensaio pressiométrico. Este parâmetro é abordado no ponto 4.2.1. O volume 𝑣𝑣0 representa a diferença entre o volume inicial da cavidade e o volume da célula de medição. 3.2 Calibração A verdadeira curva (𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜) do solo só pode ser traçada se forem conhecidas as perdas de volume e pressão inerentes ao próprio aparelho. Deste modo, a calibração consiste em quantificar o valor dessas perdas, de modo a que se conheça o real comportamento tensão- deformação do solo. Vários autores sublinham a importância deste processo: Mair e Wood (1987), afirmam que o ensaio pressiométrico é praticamente inútil se a calibração não for realizada; Clarke (1995) e Schnaid (2000) acrescentam ainda que o pressiómetro deve ser calibrado regularmente, antes e após a realização de cada programa de ensaios. Schnaid (2000) sublinha a importância do procedimento de calibração ao afirmar que a curva (𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜) utilizada na interpretação do ensaio seja a curva medida em campo corrigida, pois somente os resultados corrigidos podem produzir parâmetros representativos do comportamento do solo. O processo de calibração não apresenta significativas alterações entre os diversos autores, sendo prática comum o processo descrito por Baguelin et al. (1978), validado pela norma francesa NF P 94 110. 3.2.1 Saturação dos Circuitos Depois de montado o pressiómetro o primeiro passo consiste em encher de água todo o equipamento: a sonda, a tubagem e a unidade de controlo; de modo a purgar o ar existente. A 21 saturação do sistema é necessária pois a existência de bolhas de ar durante a execução do ensaio conduz a variações de volume que não podem ser avaliadas. Segundo Baguelin et al. (1978), esta operação deve ser realizada sempre que: o circuito de água seja sujeito ao vácuo; quando se reduza bruscamente o valor da pressão; e, logo após a realização de ensaios especiais. 3.2.2 Calibração das Perdas de Volume Antes de se proceder à calibração é necessário garantir que o circuito de água não apresenta fugas. Para tal, Baguelin et al. (1978) propõem que se aplique uma pressão de 500 kPa e se proceda à leitura do volume para 1 minuto e 3 minutos. Em seguida, deve aumentar-se o valor da pressão até 2000 kPa e registar igualmente o volume para 1 minuto e 3 minutos. Se a diferença nos volumes registados for considerável então deve existir uma fuga. Para uma 3 diferença volumétrica superior a 0,15 cm /m, para pressiómetros do tipo GB e GC, os circuitos não estão totalmente saturados. A calibração das perdas volumétricas é feita inserindo a sonda verticalmente num tubo espesso de aço, considerado indeformável. Este tubo deve ter dimensões normalizadas, particularmente o diâmetro interior, cujo valor deverá ser apenas 4 mm superior ao da sonda em calibração, isto é, 64 mm para uma sonda do tipo BX. Note-se que a calibração é um procedimento sensível à temperatura, pelo que o seu valor deve ser anotado e deve evitar-se a exposição do aparelho ao sol. Com a sonda no interior do tubo aumenta-se progressivamente o valor da pressão, com pequenos incrementos de 100 kPa até a membrana entrar em contacto com o tubo, e com incrementos da ordem dos 300 kPa até atingir a máxima pressão. Cada patamar de tensão é mantido por 1 minuto com o objectivo de traçar a curva de expansão. Na Figura 3.1 apresenta-se o resultado de uma calibração para um pressiómetro do tipo GC. Figura 3.1 – Curva de calibração do volume (adaptado de Baguelin et al., 1978). 22 Analisando a Figura 3.1 é possível concluir que a sonda entra em contacto com o tubo no ponto assinalado como X. A partir deste ponto, que neste exemplo se situa nos 360 kPa, estão a medir-se as verdadeiras perdas de volume da sonda, da unidade de controlo e da tubagem. O declive do restante trecho é denominado por Schnaid (2000) como o coeficiente de expansão da 3 2 tubagem e do aparelho, com unidades em cm /kN/m . O volume que está a ser injectado na sonda não tem tradução num incremento do volume da sonda, visto esta encontrar-se dentro do tubo metálico de calibração, ou seja, durante um ensaio este volume não traduziria qualquer aumento de volume na cavidade. Para determinar a correcção de volume para a pressão zero, Baguelin et al. (1978) sugerem que se trace a curva designada por iii na Figura 3.1, conhecendo o valor de A. Este valor é determinado na calibração da unidade de controlo e tubagem sem estarem ligados à sonda. O processo de calibração é idêntico ao descrito anteriormente, e A corresponde ao volume associado ao valor da pressão no ponto X, 360 kPa no exemplo apresentado. O ponto inicial da 3 curva iii é assim o ponto de referência para a calibração do volume, no exemplo 192 cm . Obtémse os valores do volume corrigidos, para cada nível de pressão, subtraindo o valor de referência, elaborando deste modo a curva da correcção do volume, como as apresentadas na Figura 3.2. Figura 3.2 – Curvas de correcção do volume (adaptado de Baguelin et al., 1978). Baguelin et al. (1978) recomendam que se efectue uma calibração do volume sempre que a tubagem seja renovada ou sempre que se registe uma mudança na temperatura. Em solos rijos e em rochas qualquer alteração na curva de calibração tem uma influência significativa no parâmetro módulo de Ménard, 𝐸𝐸𝑀𝑀 . 23 3.2.3 Determinação do Volume Inicial O volumímetro regista apenas a quantidade de água injectada na sonda sendo necessário adicionar o volume inicial da célula de medição, 𝑉𝑉𝑐𝑐 , para que seja possível calcular os parâmetros 𝐸𝐸𝑀𝑀 e 𝑝𝑝𝑙𝑙 . É necessário que este valor se mantenha constante durante o processo de calibração e durante os ensaios. Um método simples para o assegurar é fixar o volume num valor conhecido num processo em que se mantém a sonda dentro do tubo metálico. Este processo, descrito por Baguelin et al. (1978), passa por aplicar uma pressão inicial de 500 kPa de modo a que a membrana fique em contacto com o interior do tubo. Neste ponto, é possível calcular o volume – 𝑉𝑉 – da célula de medição pois é conhecido o comprimento da célula e o diâmetro interior do tubo. A partir deste volume e conhecendo a correcção necessária para uma pressão de 500 kPa – 𝑉𝑉𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐 çã𝑜𝑜 – é possível ajustar o volume que deve ser lido no volumímetro, de acordo com a equação (3.1). 𝑣𝑣𝑣𝑣 = 𝑉𝑉 + 𝑣𝑣𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐 çã𝑜𝑜 − 𝑉𝑉𝑐𝑐 (3.1) O parâmetro 𝑣𝑣𝑉𝑉 é o volume que deve ser ajustado no volumímetro, adicionando ou retirando água. O Centre d’Études Ménard (1967) e Baguelin et al. (1978) recomendam que o 3 valor que deve ser fixado como 𝑉𝑉𝑐𝑐 seja igual a 535 cm . 3.2.4 Calibração das Perdas de Pressão A calibração do pressiómetro face às perdas de pressão torna-se necessária pois a pressão aplicada para a expansão da sonda tem também que ultrapassar a resistência da membrana. Este processo é também denominado por calibração da sonda. A calibração deve ser feita após a saturação dos circuitos e o estabelecimento do volume inicial, 𝑉𝑉𝑐𝑐 . Durante o processo deve manter-se a sonda no terreno, na posição vertical, tal como estará no furo, no decorrer de um ensaio. Baguelin et al. (1978) aconselham que, previamente à calibração, se expanda e retraia a 3 sonda quatro a cinco vezes elevando o volume até 700 cm , para que os resultados da calibração sejam consistentes. Mair e Wood (1987) salientam que a resistência da membrana depende do tipo de material que a constitui, da sua espessura e do tipo de bainha, se esta existir. Assim, existem membranas cuja resistência se mantém constante ao longo do tempo e outras em que tal não acontece e são sensíveis ao número de vezes que são expandidas, como se pode concluir na Figura 3.3. 24 Figura 3.3 – Variação na resistência da membrana (adaptado de Mair e Wood, 1987). Devem ser feitos vários incrementos de pressão até a sonda atingir o seu volume máximo, sendo mantida a pressão durante 1 minuto e a leitura dos volumes ao 15, 30 e 60 segundos registada. Obtém-se então uma curva, como a que se apresenta na Figura 3.4. A cada volume corresponde um determinado valor de pressão, pressão essa que existe dentro da sonda mas não no exterior, visto que a sonda se encontra no ar. Este valor não seria exercido na parede do furo e como tal deve ser subtraído da leitura de pressão obtida do ensaio. Figura 3.4 – Curva de calibração da pressão (adaptado de Briaud, 1992). A curva resultante, apresentada na Figura 3.4, denomina-se curva de calibração da membrana, e permite obter, para cada volume injectado, a correcção da pressão devida à resistência da própria membrana. Este procedimento poderá ser realizado mantendo a sonda ao 25 mesmo nível do manómetro o que torna desnecessário a consideração da diferença na pressão hidrostática, ou, em caso contrário deve ser feita a seguinte correcção, 𝑃𝑃 = 𝑝𝑝𝑚𝑚 + 𝛾𝛾𝑤𝑤 × ℎ0 (3.2) em que, 𝑝𝑝𝑚𝑚 é a pressão do manómetro; 𝛾𝛾𝑤𝑤 é o peso volúmico da água e ℎ0 é o desnível entre o manómetro da unidade de controlo e a sonda, durante a calibração. 3.3 Inserção da Sonda no Terreno Como referido anteriormente, existem diversas maneiras de introduzir a sonda no terreno, a partir das quais se faz a distinção entre tipos de pressiómetros. O presente trabalho tem como objecto de estudo o pressiómetro de Ménard, dedicando-se, portanto, este capítulo ao método de pré-furo. A abertura do furo constitui, para Baguelin et al. (1978), um procedimento indissociável do ensaio, pois um furo mal executado altera os resultados ou impossibilita qualquer interpretação dos mesmos. Tal acontece pois o cálculo dos parâmetros baseia-se na expansão radial de apenas alguns milímetros, ou seja, qualquer zona perturbada, mesmo de pequena dimensão, influencia directamente os resultados obtidos. Dada então a importância da abertura correcta do furo, é possível encontrar na literatura regras práticas que devem ser observadas na sua execução. 3.3.1 Diâmetro do Furo O diâmetro do furo é um dos parâmetros que maior impacto tem na qualidade do ensaio, devendo ter dimensões dentro de certos limites. Se o diâmetro do furo for muito maior que o da sonda, o volume, 𝑣𝑣0 , necessário para o ponto teórico de início do ensaio, será demasiado elevado, e consequentemente a pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , nunca será alcançada. Note-se que, na prática, o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙 raramente é alcançado durante o ensaio, tornando-se necessária a sua extrapolação, mesmo em furos bem calibrados. No entanto, esta será tanto mais exacta quanto melhor calibrado for o furo. Na situação oposta, quando o furo é demasiado pequeno torna-se difícil descer a sonda, a curva pressiométrica não exibe a fase pseudo-elástica e os resultados só em parte poderão ser usados. Mair e Wood (1987) estabelecem, em ensaios realizados em solos, o limite da relação entre o diâmetro do furo e o diâmetro exterior da sonda pressiométrica, como sendo: 𝐷𝐷 𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 𝐷𝐷 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 < 1,10 (3.3) A relação (3.3) é também recomendada por Amar et al. (1990). 26 Briaud (1992) sugere os seguintes valores limite para o diâmetro do equipamento de furação, 𝐷𝐷𝑒𝑒𝑒𝑒 . , e para o diâmetro do furo, 𝐷𝐷𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 , em relação ao diâmetro da sonda, 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 : 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ≤ 𝐷𝐷𝑒𝑒𝑒𝑒 . ≤ 1,03 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (3.4) 1,03 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ≤ 𝐷𝐷𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 ≤ 1,20 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (3.5) Devido às limitações de expansão da sonda pressiométrica, Schnaid (2000) salienta a importância do controle da relação entre o diâmetro do furo, 𝐷𝐷𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 e o diâmetro da sonda, 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 , recomendando a relação, 𝐷𝐷 𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓𝑓 𝐷𝐷 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 < 1.15 (3.6) Esta recomendação é igual à proposta pela norma francesa, NF P 94 110. 3.3.2 Métodos e Equipamento de Furação O método de furação deve ser criteriosamente escolhido e, consequentemente, o equipamento utilizado deve provocar o mínimo de perturbação possível no solo e nas paredes do furo. Baguelin et al. (1978) alertam que a existência de solo remexido entre a sonda e a zona de terreno não perturbada afecta em grande medida a curva obtida do ensaio. Independentemente do método de perfuração escolhido, vários autores (Baguelin et al., 1978, Amar et al., 1990) recomendam que o furo se destine exclusivamente à execução do ensaio, alertando para a impossibilidade de recolha de amostras intactas num furo onde se pretende executar o ensaio pressiométrico. A técnica de recolha de amostras intactas tem como objectivo garantir que o solo dentro do amostrador não é perturbado, ou seja, a perturbação causada pela furação ao restante solo não é relevante. Para além disto, quando o amostrador é retirado existe um fenómeno de sucção que provoca o colapso de algum material para dentro do furo. Assim, Baguelin et al. (1978) salientam que um furo submetido à operação de recolha de amostras intactas é inútil para a realização de ensaios pressiométricos. No entanto, a recolha de amostras para identificação dos materiais é possível. Para além da perturbação mecânica causada pelo equipamento de perfuração, Finn et al. (1984) identificaram os três principais componentes de perturbação do solo das paredes do furo: colapso, erosão e amolecimento. Dependendo das condições in situ, cada um destes componentes assume relevâncias diferentes e, consequentemente, o método mais adequado varia também. Para solos em que o colapso das paredes do furo seja possível, o método escolhido deve garantir o suporte total durante a sua abertura, recorrendo eventualmente a lamas de perfuração. Neste caso, Mair e Wood (1987) ressaltam a importância de minimizar o tempo entre a abertura do furo e o início do ensaio. 27 Em materiais erodíveis, como siltes e areias soltas, a abertura do furo deve ser conseguida sem a circulação de fluidos. No entanto, se a sua utilização for inevitável, a velocidade de circulação deve ser a mais baixa possível, mantendo-se a eficiência ao aumentar a viscosidade do fluido. As velocidades necessárias de circulação diminuem, respectivamente, consoante seja ar, água, lama ou espuma. No entanto, como fluido de perfuração, Mair e Wood (1987) não aconselham a espuma, pois sendo um material de baixa densidade, não consegue equilibrar a pressão hidrostática, provocando o colapso em furos abaixo do nível freático. O amolecimento das paredes do furo é provocado pela sucção por parte do solo dos líquidos usados na perfuração. Este fenómeno conduz também a uma diminuição da tensão efectiva. Segundo Mair e Wood (1987), o fluido mais adequado é a lama pois esta forma o designado “cake” com o solo das paredes do furo que impede a absorção de fluido. Deve, no entanto, optar-se por lamas bentoníticas de modo a que o “cake” formado tenha uma espessura reduzida, não afectando assim os resultados do ensaio. Em seguida, descrevem-se os principais métodos de perfuração. 3.3.2.1 Métodos de Furação O trado é o equipamento de perfuração mais simples. Pode ser utilizado a seco, isto é sem recurso a injecção de lamas, em solos que se mantenham abertos sem dificuldade e que não sejam demasiado duros. No entanto, o método pode ser melhorado com injecção de lama bentonítica, operação que, segundo Baguelin et al. (1978), se traduz em dois benefícios: as paredes do furo são suportadas pela lama e o trado não precisa de ser levantado do furo para ser esvaziado o que aumenta consideravelmente a velocidade da perfuração. Desta maneira, é possível abrir furos entre 20 a 30 metros, em argilas moles a rijas e areias soltas. O uso do trado contínuo deve seguir duas regras fundamentais: a velocidade de avanço não deve ser demasiado elevada e o trado deve ser retirado lentamente do furo, mantendo o sentido da rotação usada na perfuração. Segundo Baguelin et al. (1978), esta última regra tem como objectivo manter um furo limpo, sem submeter as paredes do furo a uma inversão nas forças de corte. A perfuração com recurso a amostrador é um método que consiste em empurrar um tubo oco no terreno, retirando-o em seguida, deixando um furo aberto. Existem dois tipos de amostradores de percussão: o amostrador tipo Shelby e o amostrador contínuo. O amostrador tipo Shelby é trazido à superfície quando cheio e o material é extraído ou substitui-se o tubo por outro, para que a abertura do furo continue. Baguelin et al. (1978) recomendam que se use um amostrador com o comprimento correspondente à profundidade do ensaio, para que assim que o amostrador seja retirado se possa realizar o ensaio pressiométrico de seguida. O amostrador contínuo é um tubo de paredes espessas que pode ser ou não constituído por segmentos aparafusados entre si. O exterior não deve apresentar saliências que poderão afectar a integridade das paredes do furo. Depois de ter colocado o amostrador até à profundidade 28 desejada é possível extrair todo o seu comprimento ou limpar o seu interior por lavagem. Na Figura 3.5 é apresentado o esquema de utilização do tubo contínuo através dos dois métodos. Figura 3.5 – Utilização de tubo contínuo, com extracção total, à esq., e com extracção por lavagem, à dir. (adaptado de Baguelin et al., 1978). No primeiro caso, o diâmetro do furo está bem calibrado para o ensaio, no segundo caso, o pressiómetro é inserido dentro do amostrador retirando-se em seguida parte do mesmo até uma distância suficiente para realizar o ensaio. Baguelin et al. (1978) alertam que esta técnica, apesar de permitir realizar o ensaio em terrenos não auto-suportados, produz um furo cujo diâmetro é sempre maior do que o necessário e, consequentemente, mal calibrado. Assim, este método do furo entubado é ineficiente e pouco usado. Pelo contrário, a utilização do amostrador contínuo com extracção total é um método bastante desenvolvido existindo equipamentos que operam automaticamente. Baguelin et al. (1978) apontam a máquina D9000, do Centre d’Études Ménard, como exemplo. 3.3.2.2 Inserção Directa O método foi concebido para resolver os problemas tecnológicos ligados a solos grossos, como as areias e cascalho, em condições propícias ao desenvolvimento de um gradiente hidráulico que impossibilite a utilização de lamas de injecção. Neste tipo de materiais, a colocação da sonda pode ser dificultada ou impossibilitada pelo escorregar do material para dentro do furo e a mesma pode ser danificada por elementos mais grosseiros do material. O método consiste na introdução um tubo perfurado que tem como função suportar as paredes do furo e proteger a sonda, permitindo a expansão da célula central sem que esta entre em contacto directo com as paredes do furo. O tubo perfurado é um tubo com seis ranhuras longitudinais com cerca de 1 mm de largura cada. Estas ranhuras permitem que o tubo se expanda com a sonda analogamente a uma 29 lanterna, nome pelo qual é conhecido na literatura francesa. Existem inúmeros modelos padronizados deste tubo, no entanto, Baguelin et al. (1978) apontam o tubo perfurado com 63 mm de diâmetro exterior, 49 mm de diâmetro interior como sendo o mais comum. Este tubo permite acomodar uma sonda do tipo AX, de 44 mm de diâmetro, e tem um comprimento de cerca de 1 m. A secção transversal do tubo perfurado está esquematizada na Figura 3.6. Figura 3.6 – Secção transversal do tubo perfurado (adaptado de Baguelin et al., 1978). Existem dois métodos de colocação do tubo perfurado no terreno: num furo previamente aberto ou através da colocação directa do mesmo no terreno por cravação ou vibração. Quando o tubo perfurado é colocado num furo previamente aberto é recomendável equipar a ponta com uma ponteira cónica, para facilitar esta operação. Baguelin et al. (1978) referem que quando o tubo perfurado é usado desta maneira a sua espessura pode ser diminuída, estabelecendo, no entanto, 56 mm como mínimo recomendável para o diâmetro exterior. A colocação do tubo perfurado no terreno, sem a abertura prévia de furo, pode ser realizada por cravação ou vibração. Baguelin et al. (1978) alertam que a introdução do tubo perfurado no terreno nunca deve ser realizada por rotação, pois há o risco das ranhuras se abrirem e permitirem a entrada de material para o interior do mesmo. Existem duas técnicas de inserção do tubo perfurado no terreno, com deslocamento total ou com deslocamento parcial do solo. O método que implica deslocamento total do solo consiste em ligar ao tubo perfurado uma extensão oca com 60 cm de comprimento no fundo do mesmo. Este elemento dispõe de bordas cortantes e, ao introduzir-se o conjunto no terreno, esta extensão fica preenchida com material. Baguelin et al. (1978) referem que o uso de bordas cortantes em vez de uma ponteira tem a vantagem de permitir quebrar algum elemento mais grosso do material, mantendo o tubo perfurado direito e evitando a sua danificação. O segundo método referido, com o qual a perturbação do solo é consideravelmente menor, consiste em deixar o tubo perfurado aberto no fundo, equipado com bordas cortantes. Esta técnica exige a remoção do material do interior do tubo. Após a limpeza do tubo perfurado, a 30 sonda é colocada exactamente a meia altura das ranhuras, para que se possa dar início ao ensaio. A introdução da sonda pressiométrica no tubo perfurado afecta a quantidade de volume necessário para a expansão da sonda. Para um mesmo valor de volume injectado, o deslocamento da sonda dentro do tubo perfurado será inferior ao que seria o da sonda apenas. 3 Tal acontece porque o valor de 𝑉𝑉𝑐𝑐 do conjunto “tubo perfurador mais sonda” é 1120 cm enquanto 3 que o volume 𝑉𝑉𝑐𝑐 apenas da sonda é 535 cm . Assim, o volume necessário para alcançar o valor da pressão limite durante o ensaio, definido como sendo igual a 𝑉𝑉𝑐𝑐 + 2𝑣𝑣0 , é um valor maior que a capacidade do reservatório e implicaria a expansão do tubo perfurador além da cedência do metal, o que o deformaria permanentemente. Tal como Baguelin et al. (1978) referem, este facto impede, na maior parte dos casos, a obtenção directa do valor 𝑝𝑝𝑙𝑙 , e consequentemente leva à extrapolação da curva pressiométrica. Na Figura 3.7 mostram-se dois esquemas da sonda dentro do tubo perfurado. Figura 3.7 – Esquema da sonda dentro do tubo perfurado (adaptado de Baguelin et al., 1978 e de Briaud, 1992). Outra questão importante relacionada com o uso do tubo perfurador consiste em determinar se a perturbação do material altera as condições e os resultados do ensaio. Este problema foi estudado por Meyerhof (1959) e pelo Centre d’Études Ménard (1966). Meyerhof defende que, tal como acontece no processo de cravação de estacas, forma-se uma zona compactada em redor do tubo perfurado. A verificar-se a sua suposição, tal levaria à sobrestimação dos parâmetros do solo ensaiado. Pelo contrário, o Centre d’Études Ménard é da opinião que este fenómeno de compactação é temporário e localizado na zona da base do tubo 31 perfurado. Como descrito por Baguelin et al. (1978), esta é uma das razões para a extensão de 60 cm como descrita anteriormente. Baguelin et al. (1978) apontam ainda um outro ponto de discussão e análise nesta matéria. O vazio criado com a abertura das ranhuras durante a expansão da sonda pressiométrica pode ser calculado, no entanto é impossível determinar se será cheio pela membrana, por solo ou 3 por ambos. O autor apresenta que para uma sonda do tipo AX e uma injecção de 700 cm as 3 ranhuras do tubo abrirão cerca de 9 mm, o que perfaz um vazio de 140 cm . 3.3.3 Influência nos resultados A experiência mostra que o modo de inserir a sonda no terreno afecta directamente os resultados obtidos. Esta relação varia consoante o tipo de material e as suas condições in situ. A relação pode ser avaliada através da forma da curva pressiométrica, pela dispersão de resultados ou nos valores dos principais parâmetros pressiométricos: o módulo de Ménard, 𝐸𝐸𝑀𝑀 e a pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 . 3.3.3.1 Forma da Curva Pressiométrica Num ensaio pressiométrico válido, a forma da curva obtida no gráfico (𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜) será semelhante à curva ideal, como se constata na Figura 3.4. A análise do andamento da curva é uma ferramenta essencial para avaliar todos os procedimentos do ensaio, pois esta é o reflexo das “anomalias” mais comuns. Quando o furo é sobredimensionado o valor de 𝑣𝑣0 é demasiado elevado (ver curva representada na Figura 3.8). Quando o diâmetro do furo é demasiado pequeno (ver curva “Furo subdimensionado” da Figura 3.8), o valor de 𝑣𝑣0 será nulo e a curva terá o seu início tangente ao eixo que representa a pressão. Neste caso, o valor do módulo de Ménard, 𝐸𝐸𝑀𝑀 , não tem qualquer significado, pois são registados valores elevados de pressão sem o correspondente aumento de volume. No entanto, o valor da pressão limite poderá ser determinado considerando o ponto em que o volume de água injectado iguala o volume inicial da célula de medição. Figura 3.8 – Curvas pressiométricas para diferentes valores de 𝒗𝒗𝟎𝟎 (adaptado de Mair e Wood, 1987). 32 No gráfico da Figura 3.9 apresentam-se duas formas de curvas pouco usuais mas possíveis. A curva 1 apresenta dois valores de 𝑣𝑣0 . Tal pode acontecer quando material estranho se interpõe entre a sonda e o material que devia ser ensaiado. Baguelin et al. (1978) referem que este fenómeno é proporcionado pelo uso do trado contínuo, o qual pode arrastar consigo material de um estrato inferior, e parte deste fica retido nas paredes do furo. O primeiro valor de 𝑣𝑣0 corresponde assim ao contacto da sonda com o material “extra” e, o segundo valor de 𝑣𝑣0 , será o valor associado ao material a ensaiar. Deste modo, segundo Baguelin et al. (1978), o resultado do ensaio a partir do segundo valor de 𝑣𝑣0 é válido e pode ser usado. A curva 2 da Figura 3.9 está associada a um furo danificado e não pode ser explorada pois o solo sofreu uma profunda alteração do seu arranjo estrutural na zona envolvente à cavidade cilíndrica. Figura 3.9 – Curvas pressiométricas anómalas (adaptado de Baguelin et al., 1978). Saliente-se que, o facto de a partir da curva pressiométrica se conseguir aferir da qualidade de execução é uma enorme vantagem do ensaio pressiométrico. Adicionalmente, mesmo com curvas cujo andamento se afasta do ideal, é possível aferir resultados válidos. 3.3.3.2 Dispersão de resultados Segundo Baguelin et al. (1978), a dispersão de resultados do ensaio pressiométrico tem a sua origem em três factores interdependentes: • a natureza heterogénea do material, a qual pode afectar a pressão limite diferenciadamente do módulo pressiométrico; • as discrepâncias de procedimento do ensaio e as diferenças no aparelho, como por exemplo a variação dos incrementos de pressão ou desvios de precisão dos manómetros; • falhas na técnica e procedimento in situ, como variações no valor do diâmetro do furo. Vários autores têm estudado estes factores e o seu grau de influência nos resultados do ensaio pressiométrico. Nazaret (1972) abordou o problema relacionado com o terceiro ponto referido, as falhas na técnica e procedimento in situ. Para tal, realizou ensaios pressiométricos e 33 ensaios CPT numa areia compacta do vale do Loire, com características conhecidas. Ambos os ensaios foram realizados no mesmo furo, o que elimina a variável da heterogeneidade do material, e foram utilizados equipamentos bem calibrados, eliminando também os problemas com o equipamento. A principal conclusão alcançada com este estudo aponta que, desde que a abertura do furo e a instalação da sonda no terreno seja feita com cuidado, seguindo as várias directivas, a dispersão dos resultados do ensaio pressiométrico tem a mesma amplitude que a verificada com outros ensaios in situ, isto é, reflecte apenas a dispersão intrínseca às propriedades do solo. As falhas ao nível do aparelho podem conduzir a erros de precisão das medições efectuadas, de pressão e volume. Baguelin et al. (1978) afirmam que os erros de precisão associados à medição da pressão afectam particularmente os solos moles ou solos soltos. A resistência da membrana, o domínio de medição do manómetro e a leitura da posição hidrostática contribuem para o erro total de medição da pressão. Baguelin et al. (1978) recomendam a adopção de uma membrana com resistência inferior e a calibração eficiente do manómetro. Os erros de precisão da medição do volume são importantes no caso de solos duros e rochas, isto é, em solos com um módulo de deformação elevado. Baguelin et al. (1978) salientam a importância de, nestes casos, dispôr de um volumímetro bem graduado, expurgar completamente o ar dos circuitos e realizar uma boa calibração das perdas de volume, a temperatura constante. 3.3.3.3 Valores dos Parâmetros Pressiométricos Medidos Como referido anteriormente, os parâmetros 𝐸𝐸𝑀𝑀 e 𝑝𝑝𝑙𝑙 obtidos pelo ensaio pressiométrico podem ser usados para determinar a capacidade resistente e o potencial assentamento de fundações. Deste modo, o engenheiro projectista precisa de confiar nos valores dos parâmetros de que dispõem. É então relevante conhecer a relação entre o método de execução do furo e de introdução da sonda no terreno com os valores obtidos do módulo de Ménard e da pressão limite, em função do tipo de solo. Da análise cuidada da bibliografia é possível concluir que o método de execução do furo de referência é o trado. Apesar de ser um método limitado, a furação por trado é visto unanimemente, (Baguelin et al., 1978, Mair e Wood, 1987 e Briaud, 1992), como o método ideal, a partir do qual é possível obter os valores correctos dos parâmetros pressiométricos. • Solos finos coerentes, moles a rijos Neste tipo de solos, Baguelin et al. (1978) e Jézéquel (1968) afirmam que o uso de trado manual é obrigatório. O uso de qualquer outro método conduz a valores subestimados do módulo 𝐸𝐸𝑀𝑀 e da pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 . O decréscimo no valor do parâmetro 𝐸𝐸𝑀𝑀 pode chegar aos 50%. • Solos finos coerentes, rijos a muito rijos O método que fornece resultados mais fiáveis para estes materiais é a perfuração por carote com injecção de lamas bentoníticas, tal como refere Jézéquel (1968). Pelo contrário, Baguelin et al. (1978) alertam que o uso de tubo perfurado ou uma furação por percussão-rotação 34 são métodos desaconselhados por conduzirem a uma grande dispersão de resultados e a um decréscimo no valor dos parâmetros pressiométricos. • Solos granulares, soltos a compactos Na impossibilidade de usar o trado contínuo, Baguelin et al. (1978) sugerem que se recorra ao tubo contínuo por percussão simples. O uso do trado contínuo conduz a valores subestimados do módulo pressiométrico. • Solos granulares, compactos a muito compactos Vários autores, como Baguelin et al. (1978) e Jézéquel (1968), constataram que o trado contínuo ou a perfuração por carote contínuo, com injecção de água ou lama, fornecem resultados fiáveis. Pelo contrário, métodos de perfuração com efeito de compactação sobre o solo devem ser evitados, por exemplo, cravação ou vibro-cravação do tubo contínuo ou o uso do tubo perfurado. Jézéquel et al. (1969) verificaram que estes métodos conduzem a um aumento de cerca de 20% do valor da pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 , enquanto o efeito no valor do módulo pressiométrico é o contrário, decresce cerca de 50%. • Solos granulares de grande dimensão Baguelin et al. (1978) afirmam que, neste tipo de materiais, o uso do tubo contínuo é recomendado se as paredes do furo se mantêm autosuportadas. Quando tal não acontece, deve recorrer-se ao tubo perfurado, sabendo que se o material se encontrar seco este método conduz a um valor da pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 sobrestimado. O uso de percussão-rotação deve ser o último recurso pois este método sobrestima os valores das propriedades do solo. Amar e Jézéquel (1971) consideram que o ensaio pressiométrico deve ser rejeitado quando o valor da pressão limite ultrapassa determinado intervalo, em função do valor do volume inicial 𝑣𝑣0 , como se verifica na Tabela 3.1. Tabela 3.1 – Valores representativos da pressão limite em função do parâmetro 𝒗𝒗𝟎𝟎 , proposto por Amar e Jézéquel, 1971. v0 (cm3) pl (MPa) > 200 < 1,0 > 300 1,0 < pl < 2,0 > 400 > 2,0 Os mesmos autores consideram ainda que o rácio 𝐸𝐸𝑀𝑀� 𝑝𝑝𝑙𝑙 é uma medida da qualidade do ensaio indicando que o valor normal se situa entre 8 e 12. O ensaio deve ser rejeitado se o valor obtido for inferior a 6 ou a 4 no caso de solos submersos. Os investigadores Amar et al. (1990) referem que o parâmetro módulo de Ménard, 𝐸𝐸𝑀𝑀 , para além de ser afectado pela perturbação causada com a abertura do furo, não representa uma 35 propriedade intrínseca do solo, deste modo apenas deve ser usado nas teorias respeitantes ao ensaio pressiométrico. O investigador Laier (1973) estudou o efeito da influência do comprimento finito da célula nos parâmetros pressiométricos. Para tal, usou diversas sondas com diferentes relações de 𝐿𝐿�𝐷𝐷 , com 𝐿𝐿 igual ao comprimento da sonda pressiométrica e 𝐷𝐷 igual ao diâmetro do furo, em materiais do tipo arenoso. No seu estudo, Laier conclui que a relação 𝐿𝐿�𝐷𝐷 não tem influência na medição do módulo pressiométrico, condicionando no entanto o valor da pressão limite. Este investigador observou que quando a relação 𝐿𝐿�𝐷𝐷 diminui para metade, o valor da pressão limite aumenta 1,28 vezes. Briaud et al. (1985), reconhecendo o estudo de Laier, salientam a importância de adoptar a mesma relação 𝐿𝐿�𝐷𝐷 na execução do ensaio pressiométrico. O rácio igual a 6,5 deve ser adoptado, pois verifica-se que este valor permite obter os mesmos parâmetros usando sondas monocelulares ou tricelulares. 3.4 Descrição do Ensaio Depois do processo de calibração a sonda deve ser inserida no furo o mais breve possível para que o ensaio tenha início. Esta medida tem como objectivo limitar a expansão do solo devido ao alívio das tensões que a abertura do furo provoca. 3.4.1 Recomendações Prévias Consoante o tipo de ensaio e as características do terreno, torna-se necessário adaptar alguns dos componentes do equipamento: o comprimento adequado da tubagem, a sensibilidade dos manómetros, o tipo de membrana e bainha, e o tipo de gás. O comprimento da tubagem deve ser suficiente para que se realize o ensaio à profundidade desejada mas deve também ser evitado um comprimento excessivo para evitar grandes correcções de volume devido à expansão da tubagem sob pressão, como recomendam Baguelin et al. (1978), e também devido ao problema de determinação da pressão limite, discutido no ponto 4.2.1. O tipo de membrana e o uso de bainha dependem do valor da pressão que deve ser atingido durante o ensaio e da agressividade do solo, tal como referido no ponto 2.3.1. Baguelin et al. (1978) referem que em solos moles a sensibilidade das medições decresce com o aumento de resistência do material que constitui a membrana e a bainha. O tipo de gás usado nas células de guarda pode ser ar comprimido ou dióxido de carbono para a maioria dos ensaios, em que a pressão não ultrapassa os 2000 kPa, ou azoto para os ensaios em que se atinjam altas pressões. Adicionalmente, deve ser sempre verificada a correcta montagem da sonda de modo a que o comprimento da célula de medição seja o normalizado. Os limites do comprimento da célula de medição, para um pressiómetro do tipo GC, estão esquematizados na Figura 3.10. 36 Figura 3.10 – Comprimento da célula de medição para o pressiómetro tipo GC (adaptado de Baguelin et al., 1978). Para que um ensaio pressiométrico seja válido, a célula central deve estar em contacto com o solo ao longo de toda a sua extensão, originando deste modo a expansão, apenas radial, da sonda, como exemplificado no esquema 1 da Figura 3.11. Figura 3.11 – Situações possíveis de expansão da sonda pressiométrica (adaptado de APAGEO). O exemplo 2 da Figura 3.11 ocorre quando a pressão do gás é igual ou superior à pressão da água. Neste caso, a membrana da célula de medição fica impossibilitada de se expandir e nunca entra em contacto com o solo. O caso 3, da Figura 3.11, ilustra o “efeito de borda” que ocorre na célula de medição quando a pressão da água é superior à pressão do gás. Esta situação gera deslocamentos axiais. Para garantir a expansão radial da sonda é necessário, então, aplicar um valor de pressão nas células de guarda inferior ao valor da pressão aplicada à célula central, isto é, existe um diferencial de pressão entre as células. Este valor depende do tipo de material que constitui a membrana e da resistência do solo. Baguelin et al. (1978) afirmam que para a grande maioria de solos e para as membranas standard o valor do diferencial de pressão deve ser 110 kPa. Salienta-se que o diferencial de pressão lido directamente nos manómetros deve ser corrigido da pressão hidrostática, isto é, 𝑃𝑃𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚 ó𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚𝑚 = 𝑃𝑃ℎ𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖 á𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡 − 𝑃𝑃𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑 (3.7) 37 Esta diferença no valor da pressão deve ser mantida ao longo de todo o ensaio. Segundo Baguelin et al. (1978), em solos moles ou soltos é possível reduzir o valor do diferencial até 60 kPa, existindo também membranas especiais que permitem fixar o valor do diferencial de pressão em 40 kPa. 3.4.2 Descrição do Processo O ensaio pressiométrico pode ser realizado com incrementos de pressão ou com incrementos de volume. Briaud (1992) aponta a dificuldade em estimar a priori o valor da pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 , como desvantagem para o método de incrementar a pressão, e a difícil utilização de incrementos de volume suficientemente pequenos, como desvantagem do método alternativo. Segundo este autor, não se verificam diferenças significativas nos resultados obtidos através dos dois métodos. Neste trabalho descreve-se o ensaio pressiométrico pelo método de incremento da pressão na sonda, por ser o método mais comum. O espaçamento standard entre ensaios, referenciado na bibliografia e na norma francesa NF P 94 110, é de 1 metro de profundidade. No entanto, quando se encontra uma camada de material diferente, Baguelin et al. (1978) sugerem que se realize um ensaio independentemente do espaçamento. Saliente-se que a realização de ensaios com um espaçamento inferior a 50 cm terá influência no valor do parâmetro 𝐸𝐸𝑀𝑀 . O ensaio deve ser executado no mesmo tipo de material, de rigidez constante, de modo a que o ensaio possa ser bem interpretado e evitar o rompimento da membrana. A sonda deve ser oca de modo a que a lama da perfuração flua livremente. Nas sondas sólidas desenvolve-se o fenómeno “pistão”. Baguelin et al. (1978) recomendam que o ensaio se realize com o mínimo de 8 incrementos de pressão para que existam pontos suficientes para traçar a curva e para que o ensaio não seja demasiado rápido. A magnitude dos incrementos depende do valor da pressão limite expectável. Uma estimativa deste parâmetro pode ser feita com base na geologia da zona do ensaio e também através da informação obtida com a abertura do furo. Na bibliografia encontram-se algumas linhas de orientação para avaliar as condições do solo e o valor da pressão limite através da furação, como as que se apresentam nas Tabelas 4.2 e 4.3 do ponto 4.3.1.1. Baguelin et al. (1978) sugerem 10 como o número ideal para os incrementos de pressão, pelo que cada incremento deve corresponder a um décimo da pressão limite estimada. Mair e Wood (1987) apontam 6 incrementos como valor mínimo na fase pseudo-elástica do ensaio. 𝑐𝑐 Segundo estes autores, para ensaios realizados em argilas, a relação 𝑢𝑢 �6 pode ser usada como aproximação para determinar os incrementos de pressão, em que 𝑐𝑐𝑢𝑢 é o valor da coesão não drenada. Antes de aplicar o primeiro incremento de pressão é necessário registar uma “leitura zero”, isto é, uma leitura do volume quando o manómetro regista a pressão atmosférica. Depois de aplicado o primeiro valor de pressão, os manómetros deverão estabilizar nos valores correctos, registando-se então o volume de água aos 15, 30 e 60 segundos. Durante este 38 intervalo de tempo é necessário ter atenção aos valores indicados pelos manómetros. A experiência demonstra que uma queda súbita no valor da pressão indicará o provável rompimento da membrana. O ensaio é continuado com a aplicação do próximo valor de pressão, registando os novos valores de volume, para os intervalos de tempo referidos. Baguelin et al. (1978) afirmam que idealmente o ensaio deveria ser terminado apenas quando o volume 𝑣𝑣0 é duplicado. No entanto, raramente tal acontece. Na prática considera-se que a pressão limite foi atingida, e consequentemente o ensaio terminou, quando a água do reservatório se esgota. Reconhecendo esta prática como generalizada, a revisão da norma francesa, NF P 94 110-1 determinou que um ensaio pode ser concluído após a injecção de 600 3 cm , desde que a seguinte condição seja respeitada. 𝐷𝐷𝑒𝑒𝑒𝑒 . < 1,08 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (3.8) em que, 𝐷𝐷𝑒𝑒𝑒𝑒 . é o diâmetro da ferramenta de furação e 𝐷𝐷𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 o diâmetro da sonda. No limiar do esgotamento de água é necessário fechar rapidamente a válvula do volumímetro para que o reservatório não se esvazie completamente, o que introduziria ar na tubagem. O andamento da curva pressiométrica face ao volume existente dentro da cavidade e ao volume injectado durante a execução do ensaio está apresentado na Figura 3.12. Figura 3.12 – Curva pressiométrica (adaptado de Baguelin et al., 1978). 3.4.3 Avaliação da Qualidade do Ensaio A qualidade do ensaio depende da qualidade e dimensões do furo. Um furo cujas dimensões conduzam a um valor de 𝑣𝑣0 demasiado elevado tem como consequência o esgotamento da água do reservatório sem que a pressão limite seja atingida, como referido anteriormente. O enchimento de novo do reservatório, em geral, não se pratica pois acarreta o 39 risco de rebentamento da sonda, visto que a sua capacidade é igual à do volumímetro, e também porque implica um enorme controlo sobre a quantidade de água adicionada para que o parâmetro 𝑉𝑉𝑐𝑐 continue conhecido, como referem Baguelin et al. (1978). Adicionalmente, na maior parte dos ensaios a sonda não é expandida até ao seu máximo pois quanto mais deformada maior é o risco de rompimento. Baguelin et al. (1978) referem que mesmo quando não ocorre rompimento, a membrana desprende-se do conjunto e alguma água sai. Para avaliar a qualidade do ensaio simultaneamente com a sua realização, Baguelin et al. (1978) recomendam dois cálculos simples: avaliação dos resultados dentro do mesmo estágio de pressão - cálculo da fluência - e avaliação dos resultados entre dois estágios de pressão consecutivos - cálculo da deformação. O cálculo da fluência é feito em cada incremento de pressão, subtraindo o valor do volume registado aos 60 segundos pelo valor do volume registado aos 30 segundos. Esta informação pode ser apresentada em forma de gráfico como na Figura 3.13. Figura 3.13 – Curva de fluência (adaptado de Briaud, 1992). Da análise dos resultados é possível inferir a ordem de grandeza de (𝑣𝑣0 ; 𝑝𝑝𝑜𝑜 ) e de (𝑣𝑣𝑓𝑓 ; 𝑝𝑝𝑓𝑓 ). O primeiro ponto (𝑣𝑣0 ; 𝑝𝑝𝑜𝑜 ) situa-se aquando da primeira diminuição do valor da fluência, ponto A no gráfico da Figura 3.13, e o segundo ponto (𝑣𝑣𝑓𝑓 ; 𝑝𝑝𝑓𝑓 ), assinalado como B na Figura 3.13, ocorre antes de se verificarem grandes incrementos no valor da fluência. O conhecimento do valor de 𝑣𝑣0 permite ao operador determinar se o furo está bem calibrado e o valor de 𝑣𝑣𝑓𝑓 indica se o ensaio entrou na fase plástica. Estes valores serão discutidos no capítulo 4.2. A obtenção da deformação é calculada entre cada dois incrementos de pressão e Baguelin et al. (1978) recomendam que se obtenha a partir das leituras dos volumes nos 60 segundos. Os valores assim obtidos permitem ao operador uma melhor avaliação da proximidade do valor da pressão limite durante o ensaio. Adicionalmente a este método pode traçar-se a curva pressiométrica in situ, isto é, com os valores obtidos directamente das leituras, sem correcção. Embora esta curva não possa servir para determinar os parâmetros do ensaio, o seu andamento constitui um bom indicador da qualidade do ensaio, como discutido no ponto 3.3.3.1. 40 O operador deve assim avaliar dois parâmetros que podem ser considerados como parâmetros de controlo: o volume inicial 𝑣𝑣0 e a pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 , no sentido de determinar se o valor da pressão é da magnitude do valor desta. 3.4.4 Cuidados no Fim do Ensaio Quando se dá por concluído o ensaio deve reduzir-se a pressão na sonda até à pressão atmosférica. Baguelin et al. (1978) salientam a importância de ter atenção à diferença de pressão entre a célula de leitura e as células de guarda, visto que se esta for muito elevada, a membrana pode rebentar. É necessário também evitar quedas bruscas no valor da pressão para que a tubagem não sofra danos. Em geral, a sonda é retirada do terreno com o equipamento de perfuração, sem grande dificuldade. No entanto, em argilas rijas e plásticas a sonda pode ficar “colada” ao material dificultando a operação de extracção do terreno. Nestes casos, Briaud (1992) afirma que o problema pode ser resolvido extraindo a sonda e empurrando-a novamente, em pequenos incrementos. Este movimento repetitivo, juntamente com o esvaziamento da sonda, quebrará a adesão da sonda ao terreno. Este procedimento pode também ser adoptado em solos arenosos soltos quando o furo se desmorona. Em ambos os casos, este problema é evitado usando lama de perfuração, pois este material tem um efeito de “graxa” nas paredes do furo. 3.5 Ensaios Especiais O ensaio pressiométrico normalizado, descrito ao longo deste capítulo, permite obter os parâmetros pressiométricos usuais. Para obter parâmetros adicionais existem procedimentos de ensaios especiais. Segundo Briaud (1992) a técnica de ensaio que permite estimar as propriedades de fluência e consolidação do solo consiste em manter constante um determinado valor de pressão, registando o valor do volume em intervalos de tempo definidos, até 10 minutos. Estes degraus de pressão podem ser realizados para vários níveis diferentes, como forma de avaliar a dependência das propriedades do solo em função do estado de tensão. Briaud (1992) refere ainda que mantendo o volume da sonda constante durante 10 minutos é possível estudar as propriedades de relaxação do solo. As curvas pressiométricas obtidas através destes ensaios estão esquematizadas na Figura 3.14. 41 Figura 3.14 – Curva pressiométrica do ensaio de fluência, à esquerda, e do ensaio de relaxamento, à direita (adaptado de Briaud, 1992). Segundo Briaud (1992), realizando ensaios deste tipo mas diminuindo o tempo em que se mantém a pressão ou o volume constantes, e comparando com ensaios com o tempo standard, é possível avaliar o efeito da velocidade de carregamento no comportamento do solo. Outro tipo de ensaio especial é o ensaio cíclico. Quando se atinge um determinado valor da pressão, faz-se variar o seu valor entre dois limites pré-definidos, usualmente em 10 ou 20 ciclos. Um ensaio deste tipo permite avaliar a diminuição do valor do módulo secante do solo em função do número de ciclos. Briaud (1992) refere que pode também ser realizado com ciclos de volume. A curva pressiométrica obtida num ensaio cíclico está esquematizada na Figura 3.15. Figura 3.15 – Curva pressiométrica de um ensaio cíclico (adaptado de Briaud, 1992). Os ensaios de ciclos de descarga/recarga permitem estimar a influência do nível de tensão no módulo de deformabilidade do solo. Segundo Schnaid (2000), o ciclo é realizado interrompendo-se a expansão, aguardando-se a estabilização de possíveis pressões de fluência e descarregando-se lentamente a sonda dentro do regime elástico. Na execução deste tipo de ensaios é necessário manter a variação de volume constante, em cada ciclo, isto é, entre o valor superior e inferior da pressão, de modo a que os módulos obtidos estejam no mesmo nível de deformação, como na imagem da esquerda da Figura 3.16. A execução deste tipo de ensaios com pressiómetros tricelulares exige que, durante a fase de descarregamento, o diferencial na pressão entre as células de guarda e a célula de medição 42 permaneça constante, de maneira análoga à fase de carregamento. Quando tal não acontece, não é possível obter a curva de descarga do material, visto que são as células de guarda que estão a comprimir a célula central. A influência do nível de deformação no valor do módulo do solo pode ser avaliada realizando o ensaio com ciclos de descarga/recarga com vários intervalos de volume. Briaud salienta que neste tipo de ensaios é essencial realizar os ciclos com o mesmo valor médio de pressão, de modo a garantir que os resultados correspondem ao mesmo nível de tensão, como na imagem da direita da Figura 3.16. Figura 3.16 – Curva pressiométrica de um ensaio com ciclo de descarga/recarga, variando a pressão, à esquerda, e variando o volume, à direita (adaptado de Briaud, 1992). Segundo Briaud (1992), a realização da parte especial dos testes deve ser realizada durante a fase pseudo-elástica e sempre com valores superiores a 0,20 𝑝𝑝𝑙𝑙 de modo a obter resultados fiáveis. 43 CAPÍTULO 4 – INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO DOS RESULTADOS O ensaio pressiométrico simula a expansão de uma cavidade cilíndrica fornecendo assim uma relação tensão-deformação in situ do solo. O facto de se tratar de um ensaio com condições de fronteira bem definidas torna-o, segundo Yu (1990), no ensaio de campo que melhor se adequa a uma análise teórica fundamentada baseada na da teoria sobre a expansão de cavidades cilíndricas. A simplicidade de interpretação do ensaio pressiométrico assenta, segundo inúmeros investigadores, no facto de deformar o solo em condições de deformação plana e na possibilidade de se fazer uma análise axissimétrica. Na interpretação do ensaio pressiométrico atribui-se um comportamento drenado a materiais do tipo arenoso e um comportamento não drenado a materiais do tipo argiloso. No entanto, tal como explica Maranha das Neves (1985), no caso de argilas, siltes ou materiais de baixa permeabilidade é possível teoricamente a realização de ensaios drenados desde que o incremento de pressão seja suficientemente lento. Na prática os ensaios são conduzidos em condições não drenadas por questões económicas, mas também, porque a capacidade de carga de uma fundação neste tipo de solos é crítica quando o solo exibe a sua resistência não drenada. No ANEXO A resume-se o desenvolvimento das teorias de interpretação do ensaio pressiométrico e expõe-se os conceitos básicos da teoria de expansão de cavidades cilíndricas. 4.1 Curva Pressiométrica Como referido anteriormente, em simultâneo com a execução do ensaio pressiométrico deve ser traçada a curva (𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜) para melhor controlo da qualidade do mesmo. Findo o ensaio, é necessário obter a curva (𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜) corrigida, denominada curva pressiométrica, para uma correcta interpretação dos resultados. Baguelin et al. (1978) apresentam uma tabela como método expedito de corrigir os valores registados de volume e pressão. Na Figura 4.1, apresenta-se uma versão da mesma. Data Ensaio Pressiométrico Local Nr. Furo V0 (cm3) Profundidade (m) Altura Manómetro (m) (1) (2) Pressão lida Incremento (kPa) (3) (+) Pressão Hidrostática (kPa) (4) (-) Resistência da Membrana (kPa) (5) Pressão Corrigida (kPa) (6) Volume lido (cm3) (7) (-) Correcção do Volume (cm3) (8) Volume Corrigido (cm 3) Figura 4.1 – Exemplo de folha de cálculo para os valores da pressão e volume corrigidos. 44 A coluna (1) é uma coluna de controlo do número de passos. Os valores registados da pressão e do volume, na coluna (2) e (6), são lidos aos 60 segundos. O valor da pressão é corrigido somando a pressão hidrostática, coluna (3), e subtraindo o valor da resistência da membrana, coluna (4). A correcção do valor da pressão hidrostática devese à diferença no nível de água entre a unidade de controlo e a sonda, mantendo-se constante ao longo do ensaio. Esta pressão existe dentro da sonda mas não é medida pelo manómetro da unidade de controlo. O valor da resistência da membrana é obtido no processo de calibração e, como referido anteriormente, representa o valor da pressão necessário para ultrapassar a resistência da membrana, não sendo por isso exercida no solo. O valor do volume é corrigido subtraindo o valor da correcção do volume, coluna (7), obtido durante o processo de calibração. Esta correcção do valor do volume deve-se à compressibilidade do sistema e não corresponde a um aumento de volume da sonda. A curva pressiométrica corrigida, como a da Figura 4.2, é a curva usada em todos os cálculos. 20 Pressão (kPa) 15 Curva corrigida 10 Curva sem correcção 5 0 0 100 200 300 400 500 600 Volume (cm3) Figura 4.2 – Correcção da curva pressiométrica (baseado em ensaios disponibilizados pela empresa Geotest). O gráfico tradicional da curva pressiométrica representa o volume no eixo das abcissas e a pressão no eixo das ordenadas. Este procedimento não permite comparar curvas correspondentes a pressiómetros com dimensões diferentes, pois o volume 𝑉𝑉𝑐𝑐 é diferente. Para ultrapassar este problema recomenda-se que se trace a curva com a variação relativa do raio da sonda, Δ𝑉𝑉�𝑉𝑉 no eixo das abcissas. Deste modo as curvas obtidas com qualquer tipo de 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 pressiómetro podem ser comparadas. Em ensaios realizados em solos, a curva pressiométrica exibe três fases distintas, como se verifica na Figura 4.3. 45 Figura 4.3 – Fases do ensaio na curva pressiométrica (adaptado de Mair e Wood, 1987). A parte curva inicial correspondente à fase assinalada como (1), traduz a expansão da membrana até entrar em contacto com as paredes do furo. Verifica-se um grande aumento de volume para uma pequena variação de pressão. Esta fase termina no ponto (A) que corresponde aos valores (𝑣𝑣0 ; 𝑝𝑝0 ) e que assinala o início teórico do ensaio. A segunda fase do ensaio, correspondente a um troço recto, é denominada de fase pseudo-elástica. Durante esta fase do ensaio considera-se o material no domínio das pequenas deformações. O ponto de transição entre esta fase e a fase seguinte é o ponto (B) que representa o ponto (𝑣𝑣𝑓𝑓 ;𝑝𝑝𝑓𝑓 ) de fluência. Quando o valor da pressão é aumentado para lá do ponto (B), fase (3) do ensaio, o material entra em cedência, exibindo um comportamento puramente plástico, entrando no domínio das grandes deformações. Idealmente esta fase apresentará uma assímptota da qual se obtém o valor da pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 . 4.2 Parâmetros do Ensaio Os parâmetros característicos do ensaio pressiométrico são a pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , e o módulo pressiométrico, 𝐸𝐸𝑀𝑀 . Em seguida, descrevem-se estes e outros parâmetros significativos retirados directamente dos resultados do ensaio. 4.2.1 Pressão Limite, 𝒑𝒑𝒍𝒍 A fase inicial do ensaio, entre 0 e 𝑣𝑣0 , corresponde ao período em que a sonda expande e entra em contacto com as paredes do furo, assumindo-se que o solo retoma a situação inicial, préfuro. Deste modo, 𝑣𝑣0 representa a diferença entre o volume inicial da cavidade o volume da célula de medição. Por definição, o valor da pressão limite é atingido quando o volume da cavidade é o dobro do volume inicial, isto é, igual a 2𝑣𝑣0 + 𝑉𝑉𝑐𝑐 . 46 Como discutido anteriormente, na maioria dos ensaios o volume inicial da cavidade não é dobrado devido a limitações inerentes ao aparelho. Surge assim a necessidade de extrapolar o valor da pressão limite através da curva pressiométrica. O método mais simples de extrapolação consiste em desenhar o restante da curva pressiométrica a partir do valor do volume máximo medido, até ao ponto 2 𝑣𝑣0 + 𝑉𝑉𝑐𝑐 . Jézéquel et al. (1974) propuseram o chamado método logarítmico, em que se desenha um gráfico com o valor da pressão corrigida no eixo das ordenadas e a relação entre o incremento do volume da cavidade e o parâmetro 𝑣𝑣−𝑣𝑣0 𝑉𝑉𝑐𝑐 +𝑣𝑣0 , no eixo das abcissas. Neste gráfico, a parte final do ensaio é uma recta como é possível constatar na Figura 4.4. Figura 4.4 – Método logarítmico para obtenção da pressão limite (adaptado de Baguelin et al., 1978). O método consiste em prolongar a recta até à intersecção com o ponto de abcissa igual a 1. Este ponto corresponde à duplicação do volume da cavidade, obtendo-se assim o valor da pressão limite nas ordenadas. Outro método, proposto por Van Wambeke e d’Henricourt (1971) consiste em traçar a curva (𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣𝑣; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜), tal como na Figura 4.5. Figura 4.5 – Método proposto por Van Wambeke e d’Henricourt para obtenção da pressão limite (adaptado de Baguelin et al., 1978). A curva resultante apresenta três troços rectos distintos, assinaladas como AB, BC e CD, que correspondem respectivamente à expansão inicial da sonda até às paredes do furo, à fase 47 pseudo-elástica do ensaio e à fase plástica. O ponto de intersecção do troço CD com o eixo vertical representa o valor da pressão para a deformação infinita da sonda. Este valor é o limite inferior do valor real da pressão limite. Também em 1971, o Centre d’Études Ménard propôs o método denominado volumes relativos, apresentado na Figura 4.6. Esta técnica baseia-se no gráfico da relação entre o aumento do volume da cavidade e o volume instantâneo em função da pressão corrigida. A parte recta do gráfico representa a fase plástica do ensaio e, ao estende-la até à abcissa igual a obtém-se o valor convencional da pressão limite. (𝑣𝑣−𝑣𝑣0 ) (𝑉𝑉𝑐𝑐 +𝑣𝑣) = 0.5 Figura 4.6 – Método dos volumes relativos para obtenção da pressão limite (adaptado de Baguelin et al., 1978). Na discussão da conformidade de cada método gráfico descrito anteriormente, Baguelin et al. (1978) apontam a necessidade de determinar os parâmetros 𝑣𝑣0 e 𝑝𝑝0 no caso dos métodos de Jézéquel et al. e dos volumes relativos. Quanto ao método proposto por Van Wambeke e D’Henricourt, Baguelin et al. (1978) alertam para o facto do valor da pressão obitdo para uma expansão infinita, para 1�𝑣𝑣 = 0 diferir do valor do parâmetro pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , o que põe em causa as regras de dimensionamento que se baseiam neste parâmetro. A pressão limite não é uma propriedade característica do material, no entanto, é um parâmetro muito importante pois está directamente relacionado com a capacidade de carga das fundações, ao mesmo tempo que fornece informação das condições geotécnicas dos materiais. 4.2.2 Ponto Teórico de início do Ensaio O parâmetro 𝑝𝑝0 é o valor da pressão correspondente ao volume 𝑣𝑣0 , isto é, ao ponto em que a sonda empurra as paredes do furo até à posição inicial, considerado portanto o ponto teórico de início do ensaio. Conceptualmente, a pressão no interior da sonda, 𝑝𝑝0 , deveria corresponder à tensão horizontal in situ do solo, antes da abertura do furo. No entanto inúmeros investigadores, Baguelin et al. (1978), Hartman (1974), Roy et al. (1975), Wroth (1982), Clarke (1995), concluíram que o valor de 𝑝𝑝0 depende do método de abertura do furo e é bastante afectado por fenómenos de perturbação que as paredes do furo sofrem: variação do estado de 48 tensão durante a escavação, amolgamento do solo durante a execução do furo de sondagem e pressão do fluido utilizado na estabilização do furo. Adicionalmente, o valor de 𝑝𝑝0 é de muito difícil determinação, visto que na fase inicial do ensaio ainda há poucos pontos para a definição da curva. Brandt (1978) sugeriu um procedimento gráfico para a obtenção de 𝑝𝑝0 , com base na curva pressiométrica. Este autor define o valor de 𝑝𝑝0 como correspondente ao ponto de intersecção entre uma recta paralela ao trecho pseudo-elástico da curva e de uma outra tangente ao trecho inicial, de ajuste da membrana às paredes do furo. Este ponto é indicado como X na Figura 4.7. Figura 4.7 – Método proposto por Brandt para obtenção do parâmetro 𝒑𝒑𝟎𝟎 (adaptado de Cavalcante et al., 2000). O valor de 𝑝𝑝0 é usado para obter o módulo 𝐸𝐸𝑀𝑀 , parâmetro que será abordado adiante. 4.2.3 Pressão de Fluência, 𝒑𝒑𝒇𝒇 A pressão de fluência, 𝑝𝑝𝑓𝑓 , é a pressão correspondente ao ponto (𝑣𝑣𝑓𝑓 𝑝𝑝𝑓𝑓 ), localizado no fim da fase pseudo-elástica. Para o determinar, traça-se a curva de fluência, como na Figura 3.13 do ponto 3.4.3. Embora este parâmetro não seja usado directamente como parâmetro de projecto, permite avaliar a qualidade do ensaio e obter o módulo pressiométrico, 𝐸𝐸𝑀𝑀 . 4.2.4 Pressão 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 O parâmetro da pressão 𝑃𝑃𝑙𝑙∗ define-se como: 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ = 𝑝𝑝𝑙𝑙 − 𝜎𝜎0𝐻𝐻 (4.1) Baguelin et al. (1978) salientam que a exactidão do valor de 𝜎𝜎0𝐻𝐻 é tanto mais relevante quanto menor for o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙 , podendo-se admitir a possibilidade de substituir 𝜎𝜎0𝐻𝐻 por 𝑝𝑝0 no caso de solos duros e rochas. Segundo Baguelin et al. (1978), o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ é pouco sensível à perturbação das paredes do furo mas bastante influenciável pelo rácio 𝐿𝐿�𝐷𝐷 da sonda, em que 𝐿𝐿 representa o comprimento 49 de medição da sonda e 𝐷𝐷 representa o diâmetro da sonda. Briaud et al. (1986) concluíram que em areias o valor do parâmetro 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ aumenta 20% quando o rácio 𝐿𝐿�𝐷𝐷 decresce de 10 para 5. Em materiais argilosos não foi observada variação significativa. O parâmetro 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ é fundamental no dimensionamento de fundações. 4.2.5 Módulo Pressiométrico, 𝑬𝑬𝑴𝑴 Admitindo que entre pontos correspondentes a 𝑣𝑣0 e 𝑣𝑣𝑓𝑓 o solo se comporta como um material elástico, pode considerar-se válida a teoria de Lamé (1852) para a expansão radial de uma cavidade cilíndrica em meio elástico. Assim, o módulo de distorção é obtido por, 𝐺𝐺 = 𝑉𝑉 × Δ𝑝𝑝 (4.2) Δ𝑉𝑉 em que 𝑉𝑉 representa o volume na cavidade e ∆𝑝𝑝 a variação da pressão na cavidade associada a uma variação de volume ∆𝑉𝑉. Baguelin et al. (1978) realçam que enquanto o valor de Δ𝑝𝑝 Δ𝑉𝑉 representa o declive da curva pressiométrica e é uma constante, o valor do volume, 𝑉𝑉, depende do ponto em consideração. Deste modo, Ménard propôs que se adopte o ponto médio entre 𝑣𝑣0 e 𝑣𝑣𝑓𝑓 , cujo valor é dado pela equação (4.3) e a sua representação na curva pressiométrica está esquematizado na Figura 4.8. 𝑉𝑉𝑚𝑚 = 𝑉𝑉𝑐𝑐 + 𝑣𝑣0 +𝑣𝑣𝑓𝑓 2 (4.3) Figura 4.8 – Fase pseudo-elástica da curva pressiométrica detalhada. O módulo de distorção assim obtido designa-se por 𝐺𝐺𝑀𝑀 e pode ser escrito como, 𝐺𝐺𝑀𝑀 = 𝑉𝑉𝑚𝑚 × Δ𝑝𝑝 Δ𝑣𝑣 (4.4) 50 Através deste parâmetro é possível obter um valor para o parâmetro de deformabilidade, 𝐸𝐸𝑀𝑀 , através da conhecida relação elástica, 𝐺𝐺𝑀𝑀 = 𝐸𝐸𝑀𝑀 (4.5) 2(1+𝜈𝜈) Como coeficiente de Poisson, 𝜈𝜈, Ménard (1967) escolheu adoptar um valor constante, igual a 0,33, obtendo a equação, 𝐸𝐸𝑀𝑀 = 2.66 × 𝐺𝐺𝑀𝑀 (4.6) 4.2.6 Correlações com resultados de outros Ensaios de Campo A comparação entre os resultados obtidos no ensaio pressiométrico e os de outros ensaios in situ tem sido um tema de muito interesse para os investigadores. As comparações entre os diversos tipos de ensaios de campo têm como objectivo: obter o maior número de parâmetros de caracterização de um solo com o mínimo de ensaios possível; tentar compreender as interacções existentes entre as propriedades físicas de um solo de modo a compreender melhor o comportamento desse material sob acção de diferentes tipos de carregamentos; permitir uma análise comparativa de vários ensaios realizados no mesmo local. 4.2.6.1 Ensaio de Penetração Dinâmica, SPT Larriére (1982) apresentou um estudo que relacionava vários ensaios de campo com o ensaio pressiométrico para diversos tipos de materiais. A correlação estabelecida para materiais arenosos é a equação (4.7) e a correlação para materiais argilosos é a equação (4.8), em que 𝑁𝑁 é o número de pancadas SPT e os parâmetros 𝑝𝑝𝑙𝑙 e 𝑝𝑝0 são expressos em MPa. 10 < 𝑁𝑁 𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝑝𝑝 0 𝑁𝑁 < 40 (4.7) ~5 (4.8) 𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝑝𝑝 0 Briaud (1985) compilou diversos resultados de ensaios pressiométricos de pré-furo, comparando-os com os resultados obtidos de outros ensaios realizados no mesmo local, nomeadamente os ensaios SPT e CPT. Como conclusão do seu trabalho, Briaud estabeleceu a seguinte relação entre 𝑝𝑝𝑙𝑙 (kPa) e 𝑁𝑁 (valor do número de pancadas registadas no ensaio SPT, sem correcção). 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 47,9 × 𝑁𝑁 (4.9) 51 Gonin et al. (1992) apresentam correlações entre o número de pancadas do ensaio SPT e os parâmetros pressiométricos, com base num estudo efectuado em solos do norte de França. As conclusões estão representadas na Tabela 4.1. Os parâmetros pressiométricos são expressos em MPa. Tabela 4.1 – Correlações entre os parâmetros pressiométricos e o número de pancadas SPT (adaptado de Gonin et al., 1992). Silte Areia Argila mole Argila plástica N60 / p l 32 21 26 18 N60 / EM 2,6 2,9 2,3 1,6 Tipo de Solo * 4.2.6.2 Ensaio de Penetração Estática, CPT Baguelin et al. (1978) estabeleceram as correlações da Tabela 4.2, em função do tipo de solo, entre o valor da resistência cónica estática, 𝑞𝑞𝑐𝑐 , e o valor da pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ . Tabela 4.2 – Correlações entre a resistência cónica estática e a pressão 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 (proposto por Baguelin et al., 1978). Tipo de Solo Argila mole qc / p*l (MPa) 1 - 2,5 Argila dura a muito dura Argila rija 2,5 - 3,5 3-4 Areia solta ou Silte compressível 1 - 1,5 3-4 Silte compacto Areia ou Cascalho 3-5 5 - 12 Este autor verifica que quanto maior a profundidade a que se realiza o ensaio maior a discrepância entre as correlações e os valores reais. Nuyens (1973) apresentou correlações entre os parâmetros pressiométricos e a resistência cónica estática, 𝑞𝑞𝑐𝑐 . Em materiais argilosos as correlações são as seguintes. 2,6 < 1,8 < 𝐸𝐸𝑀𝑀 < 3,0 (4.10) 𝑞𝑞 𝑐𝑐 < 3,6 (4.11) 𝑞𝑞 𝑐𝑐 𝑝𝑝 𝑙𝑙 Em solos arenosos as correlações dependem do valor do ângulo de resistência ao corte, 𝜙𝜙 ′ , como mostrado na Tabela 4.3. 52 Tabela 4.3 – Valores da relação 𝒒𝒒𝒄𝒄 �𝒑𝒑𝒍𝒍 em função do valor do ângulo de resistência ao corte. φ' (°) qc / pl 10 2,3 - 3,1 20 3,6 - 4,7 30 5,5 - 7,3 40 8,7 - 11,6 50 14,7 - 19,6 Van Wambeke e d’Henricourt (1982) realizaram um estudo bastante abrangente comparando o ensaio pressiométrico, com o pressiómetro de Ménard, e o ensaio de penetração 𝑞𝑞 estático, CPT. Estes investigadores apresentaram valores para a relação 𝑐𝑐�𝑝𝑝𝑙𝑙 , apresentadas na Tabela 4.4. Tabela 4.4 – Correlações entre a resistência cónica estática e a pressão limite (proposto por Van Wambeke e d’Henricourt, 1982). Tipo de solo qc / pl argila 3 silte 6 areia 9 areia densa e cascalho 12 Larriére (1982) desenvolveu um estudo com materiais arenosos e argilosos, apresentando correlações com os parâmetros: resistência cónica estática, 𝑞𝑞𝑐𝑐 , pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , e módulo de Ménard, 𝐸𝐸𝑀𝑀 . As correlações apresentadas para materiais argilosos são as seguintes. 3 < 𝑞𝑞 𝑐𝑐 −𝜎𝜎 0𝐻𝐻 2,5 < 𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝑝𝑝 0 𝐸𝐸𝑀𝑀 𝑞𝑞 𝑐𝑐 <4 <7 (4.12) (4.13) Em siltes as correlações tomam os seguintes valores. 5,5 < 2,3 < 𝑞𝑞 𝑐𝑐 −𝜎𝜎 0𝐻𝐻 𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝑝𝑝 0 𝐸𝐸𝑀𝑀 𝑞𝑞 𝑐𝑐 <6 <3 (4.14) (4.15) Em materiais arenosos as correlações propostas são as seguintes. 8< 1< 𝑞𝑞 𝑐𝑐 −𝜎𝜎 0𝐻𝐻 𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝑝𝑝 0 𝐸𝐸𝑀𝑀 𝑞𝑞 𝑐𝑐 < 10 < 1,5 (4.16) (4.17) 53 Do estudo realizado por Briaud (1985) o autor relaciona também os parâmetros 𝑝𝑝𝑙𝑙 e 𝑞𝑞𝑐𝑐 através da expressão (4.18). 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 0,2 × 𝑞𝑞𝑐𝑐 (4.18) Este autor caracteriza o seu campo de estudo através da relação entre 𝑝𝑝𝑙𝑙 e 𝑐𝑐𝑢𝑢 . 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 7,5 × 𝑐𝑐𝑢𝑢 (4.19) 4.2.6.3 Ensaio Pressiométrico Autoperfurador Os resultados obtidos a partir do pressiómetro de Ménard e do pressiómetro autoperfurador têm sido bastante estudados, em diversos tipos de materiais e profundidades. Para além da diferença, anteriormente mencionada na curva pressiométrica obtida, Baguelin et al. (1978) apontam uma maior diferença nos resultados quanto maior a compressibilidade do material ensaiado. Em ensaios realizados em argilas, Baguelin et al. (1978) constataram o seguinte: o valor de 𝑝𝑝0 obtido pelo pressiómetro autoperfurador é menor que o valor de 𝑝𝑝0 obtido pelo pressiómetro de Ménard e, o valor do módulo de deformabilidade do solo obtido através do autoperfurador é muito superior ao valor de 𝐸𝐸𝑀𝑀 obtido através do pressiómetro de Ménard. Baguelin et al. (1978) referem que ambas as conclusões são válidas para argilas normais e rijas, tendo verificado que nas argilas muito rijas a duras a discrepância no valor do módulo é menor. A comparação de resultados em areias originou as mesmas conclusões: a diferença no módulo pressiométrico medido é maior em solos soltos que em solos densos. 4.3 Aplicações dos Resultados 4.3.1 Caracterização Geotécnica 4.3.1.1 Identificação do Material Num ensaio, realizado com um pressiómetro de Ménard e com um procedimento standard, não é possível identificar o tipo de solo envolvido a partir dos valores dos parâmetros pressiométricos, 𝑝𝑝𝑙𝑙 e EM. Baguelin et al. (1978) afirmam que valores idênticos podem ser registados em diversos tipos de solos. No entanto, se o material for previamente identificado é possível determinar as condições do solo a partir dos resultados do ensaio pressiométrico, com recurso à Tabela 4.5, no caso de materiais argilosos, e à Tabela 4.6, para os materiais arenosos. Note-se que ambas as tabelas transmitem pouca informação sobre o solo se não for associado o valor da tensão vertical efectiva. 54 Tabela 4.5 – Valores de referência do parâmetro 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 para materiais argilosos (adaptado de Baguelin et al., 1978). Argilas * p Descrição Teste in situ 0 - 75 muito mole penetravel com o punho; facilmente esmagavel entre os dedos 75 - 150 mole penetravel com o dedo; facilmente moldável 150 - 350 firme penetravel com dificuldade; moldável com o dedo, exercendo forte pressão 350 - 800 dura marcável com o dedo, exercendo forte pressão 800 - 1600 muito dura dificilmente marcável com o dedo, exercendo forte pressão >1600 rija não pode ser marcável com o dedo; penetrável com a unha ou a ponta de um lápis l [kPa] Tabela 4.6 – Valores de referência do parâmetro 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 para materiais arenosos (adaptado de Baguelin et al., 1978). Areias * p Descrição NSPT 0 - 200 muito solta 0-4 200 - 500 solta 4 -10 500 - 1500 compacta 10 - 30 1500 - 2500 densa 30 - 50 > 2500 muito densa > 50 l [kPa] Baguelin et al. (1978) referem que a relação 𝐸𝐸𝑀𝑀� 𝑝𝑝𝑙𝑙 para além de útil à avaliação da qualidade do ensaio, pode também ser usada para a avaliação do tipo de solo. Os valores comuns são apresentados na Tabela 4.7. Tabela 4.7 – Valores comuns da relação Em rochas a relação 𝑬𝑬𝑴𝑴� 𝒑𝒑𝒍𝒍 . EM/pl Material 4-7 areia muito solta a solta 7 - 10 areia compacta a muito densa 8 - 10 argila mole a firme 10 - 20 argila rija a muito rija 𝐸𝐸𝑀𝑀� 𝑝𝑝𝑙𝑙 varia com o grau de alteração do material. Em rochas muito fracturadas, Baguelin et al. (1978) referem que valores entre 8 e 10 são comuns, enquanto que em rochas sãs podem registar-se valores de 30. 55 Outros autores, como Gambin e Rousseau (1988) e Briaud (1992), apontam valores típicos para os parâmetros 𝐸𝐸𝑀𝑀 , 𝑝𝑝𝑙𝑙 e 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ , em função do tipo de solo. Apresentam-se os valores propostos por estes autores na Tabela 4.8, Tabela 4.9 e Tabela 4.10. Tabela 4.8 – Valores comuns de 𝑬𝑬𝑴𝑴 e 𝒑𝒑𝒍𝒍 em função do tipo de solo (adaptado de Gambin e Rousseau, 1988). Tipo de Solo EM (kPa) pl (kPa) Lama 200 - 1500 20 - 150 Argila mole 500 - 3000 50 - 300 Argila medianamente rija 3000 - 8000 300 - 800 Argila rija 8000 - 40000 600 - 2000 Areia solta com silte 500 - 2000 100 - 500 Silte 2000 - 10000 200 - 1500 Areia e cascalho 8000 - 40000 1200 - 5000 Areia sedimentar 7500 - 40000 1000 - 5000 Tabela 4.9 – Valores comuns de 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 e 𝑬𝑬𝑴𝑴 para materiais argilosos (adaptado de Briaud, 1992). Argila Parâmetros (kPa) Mole Média Dura Muito Dura Rija p*l 0 - 200 200 - 400 400 - 800 800 - 1600 > 1600 EM 0 - 2500 2500 - 5000 5000 - 12000 12000 - 25000 > 25000 Tabela 4.10 – Valores comuns de 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 e 𝑬𝑬𝑴𝑴 para materiais arenosos (adaptado de Briaud, 1992). Areia Parâmetros (kPa) Solta Compacta Densa Muito Densa p*l 0 - 500 500 - 1500 1500 - 2500 > 2500 EM 0 - 3500 3500 - 12000 12000 - 22500 > 22500 Adicionalmente, é possível distinguir um material do tipo argiloso de um material do tipo arenoso a partir do andamento da curva pressiométrica, tal como se constata na Figura 4.9. 56 Figura 4.9 – Curvas pressiométricas típicas para materiais arenosos e argilosos (adaptado de Briaud, 1992). Como se pode inferir da Figura 4.9, o andamento da curva pressiométrica de um material em condições não drenadas apresenta uma inflexão brusca e uma assímptota do valor limite visível. Briaud (1992) refere que quanto maior for o grau de sobreconsolidação do solo mais acentuadas são estas duas características. Pelo contrário, a curva correspondente a materiais em condições drenadas tem uma inclinação muito suave, o que não permite uma distinção clara das fases características do ensaio. 4.3.1.2 Resistência ao Corte não drenada A partir dos resultados dos ensaios pressiométricos, a resistência ao corte não drenada pode ser obtida através de diferentes métodos. Briaud (1992) divide-os em: o método da pressão limite, correlações empíricas, o método da pressão de cedência, o método proposto por Gibson e Anderson e o método da curva de corte. O método da pressão limite tem por base correlações empíricas com a pressão limite tendo como referência o valor de 𝑐𝑐𝑢𝑢 do ensaio triaxial. Para tal, Briaud (1992) propõe que se recorra à equação (4.9) em que 𝐺𝐺 é o módulo de distorção. 𝐺𝐺 Ou seja, 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 �1 + 𝑙𝑙𝑙𝑙 � �� 𝑐𝑐𝑢𝑢 𝑐𝑐𝑢𝑢 = (𝑝𝑝 𝑙𝑙 −𝜎𝜎 0𝐻𝐻 ) (4.20) (4.21) 𝑁𝑁𝑝𝑝 em que o parâmetro 𝑁𝑁𝑝𝑝 , denominado de constante pressiométrica, por Marsland e Randolph, define-se como, 𝐺𝐺 𝑁𝑁𝑝𝑝 = 1 + ln� � 𝑐𝑐𝑢𝑢 (4.22) 57 Este parâmetro é análogo à constante usada para calcular a resistência ao corte não drenada através do ensaio CPT. A Figura 4.10 apresenta a relação entre 𝐺𝐺�𝑐𝑐𝑢𝑢 e a constante pressiométrica 𝑁𝑁𝑝𝑝 . Figura 4.10 – Valores de 𝑮𝑮�𝒄𝒄𝒖𝒖 em função da constante pressiométrica, 𝑵𝑵𝒑𝒑 (adaptado de Mair e Wood, 1987). Note-se que a equação (4.9) recorre ao valor da tensão horizontal em repouso e não ao valor de 𝑝𝑝0 . No entanto, sempre que for impossível estimar o valor de 𝜎𝜎0ℎ , Mair e Wood (1987) recomendam que se recorra ao valor de 𝑝𝑝0 estimado do ensaio pressiométrico. Quando o valor do módulo de distorção, 𝐺𝐺, não é conhecido é possível usar a equação (4.10) com um valor médio 𝑁𝑁𝑝𝑝 igual a 6,2, segundo Mair e Wood (1987). A equação (4.21) foi reescrita por Ménard, em 1970, como 𝑐𝑐𝑢𝑢 = 𝑝𝑝 𝑙𝑙∗ 𝛽𝛽 (4.23) propondo para o factor 𝛽𝛽 o valor de 5,5. Briaud refere que, dado a dependência deste parâmetro da relação 𝐺𝐺�𝑐𝑐𝑢𝑢 e, consequentemente, do grau de sobreconsolidação do material, 𝛽𝛽 varia entre 5,6 e 7,4. Baguelin et al. (1972) apresentam as razões pelas quais os resultados deste método devem ser usados com precaução: o valor de 𝑝𝑝0 , de difícil determinação, influencia directamente o valor da pressão limite; a heterogeneidade do material pode proporcionar que a sonda pressiométrica actue sobre zonas localizadas de material com características muito diferentes; o rácio entre comprimento e o diâmetro da sonda, 𝐿𝐿�𝐷𝐷 , influencia o parâmetro pressão limite. É possível também obter um valor para a resistência ao corte não drenada a partir da pressão de fluência. 𝑐𝑐𝑢𝑢 = 𝑝𝑝𝑓𝑓 − 𝑝𝑝0 (4.24) 58 Ambos os valores de 𝑝𝑝𝑓𝑓 e 𝑝𝑝0 são lidos directamente da curva pressiométrica. Briaud desaconselha o uso deste método pois, na maioria dos casos, fornece um valor de 𝑐𝑐𝑢𝑢 superior ao real. Este facto deve-se à pouca fiabilidade do parâmetro 𝑝𝑝𝑓𝑓 pois pode ser sobrestimado. Gibson e Anderson (1961) propuseram a seguinte equação como método para determinar o valor da resistência ao corte não drenada. 𝑝𝑝𝑐𝑐 = 𝑝𝑝𝑓𝑓 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 × 𝑙𝑙𝑙𝑙 � 𝐺𝐺 𝑐𝑐𝑢𝑢 × Δ𝑉𝑉 𝑉𝑉 � (4.25) Na expressão, 𝑝𝑝𝑐𝑐 é a pressão corrigida, 𝑝𝑝𝑓𝑓 é a pressão de fluência e Δ𝑉𝑉 é a variação de Δ𝑉𝑉 volume na cavidade em que 𝑉𝑉 é o volume da cavidade. O gráfico ln � �, 𝑝𝑝𝑐𝑐 é uma recta cujo 𝑉𝑉 declive é o valor da resistência ao corte não drenada, tal como se constata na Figura 4.11. Figura 4.11 – Método de Gibson e Anderson para a determinação da resistência ao corte não drenada (adaptado de Briaud, 1992). O método da curva de corte, estudado por Baguelin et al. (1972) e Palmer (1972), baseiase na curva (𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡ã𝑜𝑜; 𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑çã𝑜𝑜) obtida da curva pressiométrica. Este método gráfico é também conhecido como o método da subtangente e, segundo Briaud (1992), não é recomendável para ensaios de pré-furo devido ao alívio de tensão durante a abertura do furo. A curva de corte para materiais sobreconsolidados apresenta um valor de pico, 𝑐𝑐𝑢𝑢 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝 , e um valor residual, 𝑐𝑐𝑢𝑢 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 , como se pode verificar no gráfico da direita da Figura 4.12. Figura 4.12 – Método da curva de corte para a determinação da resistência ao corte não drenada (adaptado de Briaud, 1992). 59 Briaud (1992) salienta a utilidade de se utilizar o ensaio pressiométrico para a determinação do valor da resistência ao corte não drenada, em especial em argilas muito fissuradas onde os resultados obtidos através do ensaio triaxial são muito dispersos. Baguelin et al. (1978) apresentam um estudo intensivo sobre a relação entre a resistência ao corte não drenada e a pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ , apresentando a seguinte correlação, com os parâmetros 𝑐𝑐𝑢𝑢 e 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ em kPa. 𝑐𝑐𝑢𝑢 = 0,67 × 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ 0,75 (4.26) Figura 4.13 – Correlação entre a pressão 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 e a resistência ao corte não drenada (adaptado de Briaud, 1992). 4.3.1.3 Ângulo de Resistência ao Corte Existem diversos métodos para determinar o valor do ângulo de resistência ao corte através do ensaio pressiométrico: o método da pressão de fluência, o método da pressão limite, o método proposto por Hughes et al. (1977) e correlações empíricas. O método da pressão de cedência utiliza a definição da pressão de fluência efectiva, ′ (1 + 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ′ ) 𝑝𝑝𝑓𝑓′ = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 (4.27) ′ é a tensão horizontal efectiva em repouso e o parâmetro pressão de fluência efectiva em que 𝜎𝜎0𝐻𝐻 obtém-se subtraindo o valor da pressão intersticial à pressão de fluência. 𝑝𝑝𝑓𝑓′ = 𝑝𝑝𝑓𝑓 − 𝑢𝑢0 (4.28) Briaud (1992) considera este método pouco usado dada a dificuldade em determinar 𝑝𝑝𝑓𝑓′ . 60 O método da pressão limite faz uso da equação da pressão limite efectiva. 𝑝𝑝𝑙𝑙′ = ′ 𝜎𝜎0𝐻𝐻 ′ (1 + 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ) � 𝐺𝐺 ′ × 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜎𝜎0𝐻𝐻 � 1 (1−𝐾𝐾𝑎𝑎 ) 2 (4.29) Briaud refere que este método não deve ser usado visto que acarreta muitos defeitos: a expressão assume a não variação de volume do material, o que no caso de materiais não coesivos é pouco realista; a experiência demonstra que se os materiais forem dilatantes o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙′ real será maior que o fornecido pela equação, enquanto no caso de materiais contráteis o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙′ real será menor que o obtido da equação; a expressão baseia-se na consideração da expansão infinita do pressiómetro e do comprimento infinito da sonda, o que conduz a resultados pouco fiáveis; e, a utilização da equação necessita de uma estimativa do valor do módulo de distorção, 𝐺𝐺. O método de Hughes et al. (1977) incorpora o conceito da dilatância dos materiais não coesivos. Este método baseia-se na expressão da curva pressiométrica a partir da pressão de cedência. 𝑙𝑙𝑙𝑙𝑙𝑙 � Δ𝑅𝑅𝑐𝑐 𝑅𝑅𝑐𝑐 𝐶𝐶 + �=� 2 𝐾𝐾�1−𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ �+1+𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ 2𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ � 𝑙𝑙𝑙𝑙𝑙𝑙(𝑝𝑝 − 𝑢𝑢0 ) + 𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐 (4.30) Na expressão anterior, 𝑅𝑅𝑐𝑐 é o raio inicial da cavidade, Δ𝑅𝑅𝑐𝑐 é a variação do raio da cavidade, 𝐶𝐶 é o ponto de intersecção entre a deformação volumétrica e a deformação deviatórica, 𝑝𝑝 é a pressão total pressiométrica, 𝑢𝑢0 é a tensão intersticial, 𝜙𝜙 ′ é o ângulo de atrito e 𝐾𝐾 define-se como, 𝐾𝐾 = 𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡2 �45° + ′ 𝜙𝜙 𝐶𝐶𝐶𝐶 2 � (4.31) ′ é o ângulo de resistência ao corte a volume constante, o valor no estado crítico. O em que, 𝜙𝜙𝐶𝐶𝐶𝐶 valor deste parâmetro pode ser obtido através de uma tabela, como a Tabela 4.8, ou directamente através de ensaios de corte directo em amostras não perturbadas. O método propõe que se trace um gráfico com os resultados do ensaio pressiométrico com log(𝑝𝑝 − 𝑢𝑢0 ) no eixo das abcissas e com log � Δ𝑅𝑅𝑐𝑐 �𝑅𝑅 � no eixo das ordenadas. Assim, o declive 𝑐𝑐 da recta obtida, 𝑠𝑠, dependerá apenas de 𝜙𝜙 ′ e permite a obtenção do valor do ângulo de resistência ao corte, 𝜙𝜙 ′ , e da dilatância, 𝜓𝜓. 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ = 𝑠𝑠 ′ 1+(𝑠𝑠−1)𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 𝑐𝑐𝑐𝑐 ′ 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜓𝜓 = 𝑠𝑠 + (𝑠𝑠 − 1)𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝜙𝜙𝑐𝑐𝑐𝑐 𝑠𝑠 = 2𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ 𝐾𝐾(1−𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ )+1+𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 𝜙𝜙 ′ (4.32) (4.33) (4.34) 61 ′ O valor de 𝜙𝜙𝑐𝑐𝑐𝑐 depende do tipo de solo de acordo com a Tabela 4.11. Briaud (1992) avisa que este método foi desenvolvido para o pressiómetro autoperfurador. Tabela 4.11 – Valor de 𝝓𝝓′𝒄𝒄𝒄𝒄 em função do tipo de solo (adaptado de Briaud, 1992). Tipo de Solo φ'CV Cascalho bem graduado 40° Areia grosseira uniforme 37° Areia de tamanho médio bem graduada 37° Areia de tamanho médio uniforme 34° Areia fina bem graduada 34° Areia fina uniforme 30° Um exemplo de correlação empírica, proposta pelo Centre d’Études Ménard (1970) é o ábaco da Figura 4.14, no qual se baseia a equação (4.35). 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ = 250 × 2 𝜙𝜙 ′ −24 4 (4.35) Figura 4.14 – Correlação entre a pressão 𝒑𝒑∗𝒍𝒍 e o ângulo de resistência ao corte (adaptado de Baguelin et al., 1978). A recta central traduz a expressão proposta por Ménard e as rectas limite representam a relação proposta por Muller, expressa na equação (4.36). 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ = 𝑏𝑏 × 2 𝜙𝜙 ′ −24 4 (4.36) 62 O parâmetro 𝑏𝑏 é igual a 180 para solos húmidos e igual a 350 para solos secos. O valor da pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ é expresso em kPa. Clarke (1995) aconselha o uso do valor médio, 𝑏𝑏 = 250, tal como proposto por Ménard. Outro método empírico que também fornece bons resultados foi proposto por Calhoon (1970) e determina o valor de 𝜙𝜙 ′ com base nos parâmetros módulo pressiométrico, 𝐸𝐸𝑀𝑀 e pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , através do ábaco apresentado na Figura 4.15. Figura 4.15 – Ábaco proposto por Calhoon para determinação do ângulo de atrito em função dos parâmetros 𝑬𝑬𝑴𝑴 e 𝒑𝒑𝒍𝒍 (adaptado de Baguelin et al., 1978). 4.3.1.4 Módulo de Deformabilidade A partir do módulo pressiométrico, 𝐸𝐸𝑀𝑀 , é possível estimar o módulo de deformabilidade de Young, 𝐸𝐸, associado ao nível de tensão de deformação habitualmente assumida no cálculo do assentamento das estruturas correntes. Admite-se, assim, que o valor de 𝐸𝐸 estimado corresponde a 𝐸𝐸25 a 𝐸𝐸30 , isto é, corresponde a 25 a 30% da tensão de rotura. Para obter 𝐸𝐸 Baguelin et al. (1978) definiram um factor, 𝛼𝛼, pelo qual se deve dividir o parâmetro 𝐸𝐸𝑀𝑀 , cujos valores se apresentam na Tabela 4.12. Tabela 4.12 – Parâmetro 𝜶𝜶 para a obtenção de 𝑬𝑬𝑴𝑴 (adaptado de Briaud, 1992). Silte Argila Cascalho Areia Tipo de Solo EM / p l α EM / p l α EM / p l α EM / p l α Sobreconsolidado > 16 1 > 14 2/3 > 12 1/2 > 10 1/3 Normalmente consolidado 9 - 16 2/3 8 - 14 1/2 7 - 12 1/3 6 - 10 1/4 Remexido 7-9 1/2 * * 1/2 * 1/3 * 1/4 63 Fawaz et al. (2002), utilizando o software Plaxis para simular ensaios pressiométricos, confirmaram os valores propostos para o parâmetro 𝛼𝛼. 4.3.1.5 Tensão Horizontal em Repouso A tensão horizontal em repouso em termos de tensões totais é calculada através da equação (4.37). 𝜎𝜎0𝐻𝐻 = (𝑧𝑧 × 𝛾𝛾 − 𝑢𝑢) × 𝐾𝐾0 + 𝑢𝑢 (4.37) em que, 𝑧𝑧 é a profundidade ao nível do centro da sonda; 𝛾𝛾 representa o peso unitário do solo; 𝑢𝑢 corresponde à pressão hidrostática ao nível da sonda e; 𝐾𝐾0 é o coeficiente de impulso em repouso. Note-se que o parâmetro 𝜎𝜎0𝐻𝐻 não é o mesmo parâmetro que 𝑝𝑝0 , ponto que corresponde ao volume 𝑣𝑣0 , como referido anteriormente no ponto 4.2.2. Baguelin et al. (1978) referem que, apesar de teoricamente ambos os parâmetros, 𝜎𝜎0𝐻𝐻 e 𝑝𝑝0 , serem iguais, tal não se verifica. Em ensaios em pré-furo a pressão associada ao início do trecho linear não corresponde necessariamente à magnitude de 𝜎𝜎0𝐻𝐻 , devido a efeitos de variações no estado de tensões durante a escavação, amolgamento do solo durante a execução do furo de sondagem e pressão do fluido utilizado na estabilização da escavação (Baguelin et al., 1978; Wroth, 1982; Clarke, 1995) Segundo Baguelin et al. (1978) o parâmetro 𝜎𝜎0𝐻𝐻 deve ser calculado para todas as profundidades a que se realiza o ensaio pressiométrico, apresentando como excepção o caso de solos fortemente consolidados e rochas, em que o valor de 𝐾𝐾0 não pode ser estimado. Um método gráfico iterativo para estimar o valor de 𝜎𝜎0𝐻𝐻 foi proposto por Marsland e Randolph (1977). Este método tem por base o conceito de que quando se aplica ao solo uma pressão próxima do valor da tensão horizontal em repouso, a relação 𝜀𝜀𝑐𝑐 ; 𝑝𝑝 torna-se linear, isto é, o solo responde elasticamente. O comportamento elástico finda quando a pressão na parede da cavidade é igual à resistência ao corte não drenada. 𝑝𝑝 = 𝑝𝑝0 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 O procedimento consiste em traçar gráficos (ln (4.38) Δ𝑉𝑉 𝑉𝑉 ; 𝑝𝑝) estimando um valor de 𝑝𝑝0 , de modo a obter-se um valor para 𝑣𝑣0 . Através deste gráfico conhece-se então o valor de 𝑐𝑐𝑢𝑢 correspondente à hipótese assumida para 𝑝𝑝0 . A validação deste valor é feita verificando se o ponto 𝑝𝑝0 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 corresponde ao ponto final do troço elástico linear do gráfico. Salienta-se que os métodos descritos acima fornecem apenas valores indicativos dada a impossibilidade de obter o parâmetro 𝐾𝐾0 através do pressiómetro de Ménard. 64 4.3.2 Dimensionamento de Fundações Segundo Baguelin et al. (1978) o método pressiométrico de dimensionamento de fundações baseia-se na relação entre a pressão limite e carga de colapso da fundação e na boa estimativa que o cálculo do assentamento com o módulo pressiométrico fornece. O dimensionamento de fundações superficiais com base no ensaio pressiométrico começou tendo por base dois princípios: um critério de rotura em que a capacidade resistente deve ser igual a 1�3 da pressão limite; e, um critério de assentamento diferencial aceitável baseado no módulo pressiométrico do ensaio, variabilidade do solo e factores de rigidez da estrutura. Os métodos actuais de dimensionamento de fundações baseiam-se nos métodos estudados e propostos por Ménard e os seus colaboradores. Actualmente são largamente usados em França e Bélgica, no entanto, têm pouca expressão no projecto em Portugal. Como tal, será apresentada uma pequena revisão bibliográfica dos métodos de dimensionamento de fundações consoante o tipo de problema em estudo. 4.3.2.1 Fundações Superficiais É possível estabelecer uma analogia entre o parâmetro pressiométrico pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , e a capacidade resistente às acções verticais de uma fundação superficial, 𝑞𝑞𝑟𝑟 . Ou seja, tanto o valor do parâmetro pressiométrico pressão limite, como a capacidade resistente de uma fundação superficial, são função da expansão de cavidades. Esta analogia está esquematizada na Figura 4.16. Figura 4.16 – Analogia entre o comportamento de uma fundação superficial e o ensaio pressiométrico. Como teoricamente o ensaio pressiométrico é representado pela expansão de uma cavidade cilíndrica e a penetração de uma fundação superficial no solo é análoga à expansão de uma cavidade esférica, surge um parâmetro teórico que relaciona ambos os valores de pressão limite, 𝑘𝑘. 𝑘𝑘 = 𝑝𝑝 𝑙𝑙,𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒 é𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑝𝑝 𝑙𝑙,𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐𝑐 í𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛𝑛 (4.39) 65 Segundo Briaud (1992) este parâmetro, denominado factor teórico da capacidade resistente, varia entre 1,33 para materiais argilosos, 3 para materiais arenosos densos até 4 em solos arenosos soltos. Os valores recomendados para o dimensionamento foram obtidos através de ensaios de carga em fundações e agrupados, por Ménard (1963) e outros investigadores, em ábacos como o da Figura 4.17. Figura 4.17 – Ábacos para a obtenção de 𝒌𝒌, propostos por Ménard e Baguelin et al. (adaptado de Briaud, 1992). O factor teórico da capacidade resistente depende de algumas variáveis, conforme Baguelin et al. (1978) apontam: tipo de solo, profundidade de fundação, valor da pressão limite e forma da fundação. A equação que permite obter o valor do assentamento através do ensaio pressiométrico foi proposta por Ménard e Rousseau (1962). O assentamento depende do valor do módulo pressiométrico, de um factor reológico (𝛼𝛼), e de dois factores de forma (𝜆𝜆𝑑𝑑 , 𝜆𝜆𝑐𝑐 ). O factor reológico 𝛼𝛼 depende do tipo de solo e da relação 𝐸𝐸𝑀𝑀 �𝑝𝑝∗ e é dado pela Tabela 4.12, apresentada 𝑙𝑙 anteriormente. Os factores de forma dependem da relação 𝐿𝐿�𝐵𝐵 da fundação e são lidos na Tabela 4.13. Tabela 4.13 – Valores dos factores de forma (retirado de Baguelin et al., 1978). 1 L/B 2 3 5 20 1,12 1,53 1,78 2,14 2,65 1,10 1,20 1,30 1,40 1,50 Circular Quadrada λd 1 λc 1 Segundo Baguelin et al. (1978), o método pressiométrico difere radicalmente do método clássico de previsão do assentamento. O método proposto por Ménard e Rousseau é baseado no módulo de distorção, 𝐺𝐺, obtido através do ensaio, enquanto que os métodos clássicos utilizam o valor do módulo de compressibilidade, 𝐾𝐾. 66 Vários investigadores, Briaud (1986), Guifford (1987), Baguelin et al. (1978), compararam valores de assentamento de estruturas reais com os valores estimados pelo método de Ménard, concluindo ser adequado para situações em que a deformação deviatórica seja o factor mais decisivo no processo de assentamento. 4.3.2.2 Estacas O cálculo da carga última de uma estaca pelo método pressiométrico é similar ao descrito para o cálculo da capacidade resistente numa fundação superficial. Este assunto foi estudado por vários autores pelo que existem vários métodos de dimensionamento de estacas carregadas verticalmente com base no ensaio pressiométrico. Segundo Baguelin et al. (1978) o princípio geral dos vários métodos existentes consiste em obter a carga última de carregamento da estaca a partir da pressão limite líquida do pressiómetro, 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ , e do factor da capacidade resistente, 𝑘𝑘. O primeiro método foi proposto por Ménard (1963) baseado em resultados observados em ensaios de placa, sugerindo o gráfico da Figura 4.19 para a obtenção do parâmetro 𝑘𝑘. Os métodos propostos nos anos seguintes, não revogaram o método de Ménard, trouxeram apenas ligeiras alterações nas curvas de dimensionamento do parâmetro 𝑘𝑘, como se constata pelo trabalho de Bustamante e Gianeselli (1982), para o Laboratoire Central des Ponts et Chaussées, LCPC, representado na Figura 4.18. Figura 4.18 – Ábacos para determinação da capacidade resistente, 𝒌𝒌, propostos por Ménard e pelo Laboratoire Central des Ponts et Chaussées (retirado de Baguelin et al., 1978). Note-se que o método recomendado pelo LCPC é baseado num estudo com cerca de 200 estacas instrumentadas, e depende apenas do tipo de solo e do valor da pressão 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ = 𝑝𝑝𝑙𝑙 − 𝑝𝑝0 . Os vários métodos pressiométricos para dimensionamento de estacas carregadas horizontalmente fornecem a curva P-y, em que P é a força resistente do solo por unidade de comprimento da estaca e y o deslocamento horizontal da estaca, como o da Figura 4.19. 67 Figura 4.19 – Curva P-y, com B igual ao diâmetro da estaca (adaptado de Gambin e Frank, 1995). O primeiro método, proposto por Ménard et al. (1969) e revisto por Gambin (1979), considerava a curva P-y como sendo bi linear elástica-plástica e prevê a deflexão sofrida pela estaca. Briaud (1992) refere que o primeiro declive pode ser obtido através da equação de Ménard para o assentamento de uma sapata corrida e, o segundo declive é definido como igual a metade do valor do primeiro. Devido ao interesse nesta matéria foram surgindo outros métodos de dimensionamento. A título de exemplo referem-se o método proposto por Dunand, em 1981, baseado em ensaios com pressiómetro de pré-furo, faz uso do módulo pressiométrico para determinar o declive da curva P-y; e o método proposto por Baguelin, Jézéquel e Shields (1978), incorporado no manual de dimensionamento do Instituto Francês do Petróleo em 1983, faz uso dos resultados obtidos com o pressiómetro autoperfurador. Segundo Briaud (1992) o método de dimensionamento de estacas baseado no pressiómetro de pré-furo pode ser directamente aplicável no caso de estacas moldadas, enquanto que no caso de estacas cravadas é necessário introduzir um valor correctivo. 4.3.2.3 Ancoragens O dimensionamento de ancoragens foi um tema estudado por Bustamante e Doix (1985), ao serviço do Laboratoire Central des Ponts et Chaussées. A análise de inúmeras ancoragens, em diferentes tipos de solos, permitiu-lhes observar uma relação entre a expansão da sonda pressiométrica e a expansão do bolbo de selagem da ancoragem. Estes investigadores estabeleceram várias correlações entre a pressão limite 𝑝𝑝𝑙𝑙 e o atrito na interface solo-bolbo de selagem, consoante o método de injecção utilizado e o tipo de solo. 4.3.2.4 Pavimentos O dimensionamento de pavimentos tem como critério principal a limitação do nível de deformação, ou seja, é essencial a determinação do módulo de deformabilidade para cada camada do pavimento. Tal como Briaud (1992) refere, a evolução, que levou ao desenvolvimento do pressiómetro para pavimentos teve em consideração as particularidades deste tipo de estruturas: módulo como função do estado de deformação e de tensão, velocidade do carregamento e carregamento cíclico. 68 4.3.2.5 Controlo da Compactação e Melhoramento de Terrenos O objectivo da compactação e do melhoramento de terrenos é promover a melhoria das características do solo. Briaud (1992) refere que na maioria dos casos o uso destas técnicas tem por objectivo diminuir o valor do assentamento esperado. Deste modo, o ensaio pressiométrico é um método adequado, pois permite obter o valor do módulo pressiométrico do solo e assim controlar o valor esperado do assentamento. Segundo Hughes e Withers (1974), a deformação associada a uma coluna de brita permite estabelecer uma analogia com o ensaio pressiométrico, como é visível na Figura 4.20. Figura 4.20 – Deformação associada a uma coluna de brita (adaptado de Briaud, 1992). igual a, Segundo estes autores, a carga máxima 𝑄𝑄𝑢𝑢 que uma coluna de brita isolada suporta é 𝑄𝑄𝑢𝑢 = 3 𝑝𝑝𝑙𝑙′ × 𝐴𝐴 (4.40) em que, 𝑝𝑝𝑙𝑙′ é o valor da pressão limite efectiva e 𝐴𝐴 é a dimensão da secção transversal da coluna de brita. O assentamento também pode ser estimado pela expressão (4.41). 𝑆𝑆 = 2𝐵𝐵 �1 − A relação Δ𝐵𝐵 𝐵𝐵 Δ 𝑉𝑉 � 𝑉𝑉 0 Δ 𝐵𝐵 2 �1+ �1+ 𝐵𝐵 � � (4.41) pode ser obtida directamente pelo ensaio pressiométrico pela relação correspondente à pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 ; o volume inicial envolvido na deformação, 𝑣𝑣0 , é igual a: 𝑣𝑣0 = 2𝐵𝐵 × 𝜋𝜋𝐵𝐵 2 4 Δ𝑅𝑅 𝑅𝑅0 (4.42) 69 CAPÍTULO 5 – MODELAÇÃO DE UM CASO PRÁTICO 5.1 Introdução O objectivo do trabalho apresentado neste Capítulo é caracterizar o comportamento de um material com base em resultados do ensaio pressiométrico, usando como ferramenta o método dos elementos finitos. Assim, através da modelação numérica do ensaio pressiométrico, pretendese definir um modelo de comportamento mecânico do material que se ajuste às curvas pressiométricas recolhidas. Para tal foi realizada uma recolha bibliográfica de resultados de ensaios pressiométricos realizados na região de Lisboa. Esta pesquisa foi realizada com a colaboração da empresa Geotest que disponibilizou o acesso ao seu arquivo de obras realizadas. Para além dos resultados dos ensaios pressiométricos procurava-se recolher também a restante informação disponível: resultados de outros ensaios, relatório geotécnico, registos de sondagens, tipo de obra. No entanto, tal não foi possível na maioria dos casos de obra estudados. A partir dos dados recolhidos procedeu-se a uma classificação prévia dos materiais, em função do local, com base na Carta Geológica de Lisboa. Na Tabela 5.1 apresenta-se a dimensão da amostra para cada material. Tabela 5.1 – Curvas pressiométricas analisadas para cada tipo de material. Obra Miocénico de matriz Miocénico de matriz Complexo arenosa argilosa Vulcânico de Lisboa Curvas analisadas Curvas analisadas Curvas analisadas A - 5 - B 21 - - C 22 - - D 9 - - E 26 - - F - 12 - G 3 10 - H - 6 - I 6 18 - J 35 - - L - - 18 M - 3 - N 9 - - O - 6 - P - 18 - Q 17 - - R 46 - - Total 194 78 18 Foram analisadas 290 curvas pressiométricas correspondentes a 17 obras. A localização das obras na região de Lisboa é bastante variada: zona do Parque das Nações, Telheiras, Campo Pequeno, Príncipe Real, Amoreiras, entre outros locais. Como esperado, e à excepção dum caso, todas as obras envolvem formações miocénicas. Em função do volume de resultados recolhidos escolheu-se caracterizar o comportamento da matriz arenosa do Miocénico. 70 A análise inicial dos resultados consistiu no traçado das curvas pressiométricas para avaliação da conformidade de cada curva, isto é, para apreciação das curvas associadas a materiais rochosos e a problemas tecnológicos durante a realização do ensaio. O estudo extenso dos resultados, que conduziu à escolha das curvas consideradas como não representativas da matriz arenosa, foi realizado com recurso às curvas pressiométricas normalizadas e a sua comparação em função da tensão vertical efectiva. Visto que na maior parte dos casos não existiam dados relativos ao nível de água aquando da realização do ensaio, a tensão efectiva vertical foi calculada fazendo uma pesquisa adicional para determinar o nível de água habitual nos locais dos ensaios A modelação numérica do ensaio pressiométrico foi feita no programa Plaxis por ser um dos programas mais comuns nos gabinetes de Projecto Geotécnico portugueses. Realizou-se um estudo paramétrico dos parâmetros característicos do modelo de comportamento e foram ensaiadas inúmeras hipóteses. No final apresenta-se um modelo de comportamento para a matriz arenosa do Miocénico. Este trabalho mostra que as curvas dos vários locais revelam um mesmo comportamento mecânico. 5.2 Descrição da Formação Foram estudados locais de obras, exclusivamente na região de Lisboa, em que se realizaram ensaios pressiométricos. Os materiais encontrados nesses locais pertencem a diversas unidades do Miocénico. A série Miocénica pertence à era Cenozóica na qual a bacia Tejo-Sado se enquadra geologicamente. Segundo Teixeira e Gonçalves (1980), o Miocénico da região de Lisboa está confinado a cerca de 300 metros de espessura e estende-se, na margem Norte, desde Oeiras até à Póvoa de Santa Iria e apresenta afloramentos na margem Sul. Galopim de Carvalho (1979) refere que o Miocénico é formado por arenitos com intercalações conglomeráticas e lentículas de argilas e é abundante em fósseis, como sejam os restos de conchas de moluscos que chegam a formar elevados níveis de espessura. As unidades arenosas do Miocénico encontradas na pesquisa efectuada são as referidas na Tabela 5.2. Tabela 5.2 – Formações miocénicas de matriz arenosa presentes nas obras estudadas. Formações miocénicas predominantemente arenosas Obras estudadas Areolas do Braço da Prata 1 Areolas do Cabo Ruivo 4 Areolas da Estefânia 3 Calcários de Marvila 1 Calcários da Musgueira 1 71 Resumidamente, as formações estudadas são solos miocénicos de natureza predominantemente arenosa, por vezes argilosa, com intercalações de calcários lumechálicos, normalmente designados por cascões. 5.3 Resultados dos Ensaios Pressiométricos de Ménard Do estudo das curvas pressiométricas obtidas na pesquisa bibliográfica pretende-se caracterizar a matriz arenosa das formações miocénicas. Esta análise extensiva dos resultados permitiu a detecção de curvas cujo comportamento não deverá ser característico do material em estudo. Alguns resultados são anómalos e devem-se a problemas na execução do ensaio, como a deficiente calibração da sonda, perturbação excessiva do furo ou a incapacidade de duplicar, durante o ensaio, o valor de 𝑣𝑣0 . Uma curva representativa deste tipo de situações está definida na Figura 5.1. Outras curvas revelam a existência de material rochoso no meio da matriz arenosa, como seja a frequente presença de cascões neste tipo de solos. A Figura 5.2 apresenta uma curva associada a esta situação. 8 Pressão (kPa) 6 4 2 0 0 200 100 300 400 600 500 700 Volume (cm3) Figura 5.1 – Curva pressiométrica identificada como anómala. 50 Pressão (kPa) 40 30 20 10 0 0 100 200 300 400 500 Volume (cm3) Figura 5.2 – Curva pressiométrica identificada como associada a um elemento rochoso. 72 Na Tabela 5.3 apresentam-se detalhadamente os resultados obtidos na pesquisa bibliográfica para a matriz arenosa e a classificação das curvas durante o seu estudo. Tabela 5.3 – Classificação das curvas analisadas. Miocénico de matriz arenosa Obra Curvas analisadas Curvas identificadas Curva consideradas como material como não rochoso representativas Curva identifcadas pela empresa sondadora como resultantes de ensaios mal executados Curvas tidas como representativas B 21 3 5 3 10 C 22 5 5 1 11 D 9 3 3 - 3 E 26 6 11 3 5 G 3 - 1 - 2 I 6 1 1 - 4 J 35 12 9 4 N 9 2 2 9 - Q 17 4 6 - 5 R 46 13 18 - 16 Total 194 49 61 16 65 5 Note-se que se considera que 40% das curvas analisadas não são representativas da matriz arenosa enquanto se conclui que 56% das curvas disponíveis parecem ser representativas da matriz arenosa. Para a análise e comparação directa dos resultados das várias curvas recorreu-se à seguinte representação gráfica: � Δ𝑉𝑉 𝑉𝑉 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ; 𝑃𝑃 − 𝑃𝑃0 �. Este tipo de representação permite considerar resultados obtidos em ensaios realizados com sondas de diferentes dimensões e define para todas o mesmo zero, associado à situação estimada de repouso Δ𝑉𝑉 = 0 e 𝑃𝑃 = 𝑃𝑃0 . Deste modo, e para o mesmo tipo de material, a diferença entre as diversas curvas fica apenas associada aos diferentes estados de tensão correspondentes às diferentes profundidades de realização do ensaio. No gráfico da Figura 5.3 apresentam-se todas as curvas consideradas à partida como representativas da matriz arenosa das formações miocénicas. Na figura as curvas representadas a tracejado correspondem àquelas que se verificou posteriormente não se ajustarem ao modelo final definido. 73 5 4,5 4 Curvas seleccionadas Curvas rejeitadas P - P0 (MPa) 3,5 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 0 0,2 0,4 0,8 0,6 1 ΔV / Vsonda Figura 5.3 – Curvas pressiométricas analisadas. A selecção das curvas pressiométricas características da matriz arenosa também pode ser feita analisando a evolução do módulo de Ménard e a pressão limite com a tensão vertical efectiva à profundidade a que foi realizado o ensaio. Na Figura 5.4 e na Figura 5.5 são apresentados esses diagramas. Como se pode observar, os resultados considerados representativos mostram uma mesma tendência de evolução com a respectiva tensão vertical efectiva. Este aspecto será retomado adiante, no ponto 5.6.4. 300 Módulo de Ménard (MPa) 250 200 Curvas representativas Restantes Curvas 150 100 50 0 0 100 200 300 400 500 600 Tensão vertical efectiva (kPa) Figura 5.4 – Valores do módulo de Ménard dos ensaios analisados. 74 7 Pressão limite (MPa) 6 5 4 Curvas representativas Restantes curvas 3 2 1 0 0 100 200 300 400 500 600 Tensão vertical efectiva (kPa) Figura 5.5 – Valores da pressão limite dos ensaios analisados. 5.4 Modelação Numérica do Ensaio Pressiométrico A modelação numérica do ensaio pressiométrico foi realizada no programa de cálculo baseado no método dos elementos finitos, Plaxis. Devido à natureza arenosa do material em estudo, todos os cálculos foram realizados em condições drenadas. 5.4.1 Geometria da malha de elementos finitos A modelação foi feita recorrendo a elementos com 15 nós e as dimensões da massa de solo estudada são 10 metros abaixo do fim do furo e 25 metros de largura. A análise é feita em axissimetria. A Figura 5.6 apresenta a geometria definida para análise do problema. Figura 5.6 – Geometria do problema. 75 O furo tem 3 cms como medida do raio e a sonda mede 50 cms de altura, em que os 20 cms centrais correspondem à célula de medição. O centro do eixo das coordenadas situa-se no centro do furo, a meio da célula central. Foi demarcada uma zona à volta da sonda, com 3 metros de altura e 1,5 metros de largura, com o objectivo de tornar a malha dessa área mais fina. A Figura 5.7 mostra a malha de elementos finitos utilizada. Figura 5.7 – Malha de elementos finitos. 5.4.2 Passos de Cálculo A modelação do ensaio é feita recorrendo a três passos de cálculo. O primeiro passo consiste em simular a abertura do furo, retirando os elementos que ocupam esse espaço. O solo é considerado puramente elástico e é imposto um estado de tensão inicial com o coeficiente 𝐾𝐾0 . Com a abertura do furo é activada uma tensão uniformemente distribuída nas paredes do furo que pretende simular a pressão exercida pelo pressiómetro durante o ensaio. Esta pressão distribui-se ao longo dos 50 cms da sonda, como é visível na Figura 5.8. Figura 5.8 – Zona de aplicação da tensão uniformemente distribuída. 76 Os passos de cálculo seguintes correspondem ao aumento da pressão em sucessivos incrementos. O primeiro valor aplicado corresponde ao valor previsto da tensão horizontal in situ. Simultaneamente são medidos os deslocamentos horizontais em 5 pontos igualmente espaçados ao longo da célula central, na parede do furo, tal como definido na Figura 5.9. Figura 5.9 – Pontos associados à leitura do deslocamento. A partir destes deslocamentos radiais é possível obter o volume de expansão da cavidade. O procedimento de cálculo adoptado é o Updated Mesh Analysis. 5.4.3 Resultados da Modelação A deformação imposta pelo pressiómetro ao material é modelada pela deformação associada à aplicação da pressão no interior do furo, como se constata na Figura 5.10. Figura 5.10 – Deformação provocada pela pressão do pressiómetro. 77 Os deslocamentos horizontais dos cinco pontos que servirão para obter a deformação da célula pressiométrica são retirados das curvas ( 𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑𝑑 ℎ𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜; 𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝𝑝ã𝑜𝑜 𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎) correspondentes. 5.4.4 Modelo de Comportamento do solo O modelo constitutivo adoptado é um modelo plástico com endurecimento, denominado por Hardening Soil Model, implantado no programa Plaxis por Schanz (1998), e que pode ser utilizado para modelar o comportamento de qualquer tipo de solo. É um modelo de endurecimento hiperbólico, mas no domínio da plasticidade, cujo critério de rotura é o de Mohr-Coulomb, e incorpora tanto o endurecimento por corte como o endurecimento por compressão. Por comparação com o modelo Mohr-Coulomb, este modelo permite ensaiar um comportamento mais complexo do solo pois considera a rigidez dependente do estado de tensão, a existência de deformações plásticas devido a tensões deviatóricas e devido a compressões e também a descarga/recarga elástica. Adicionalmente, tem em consideração a dilatância do solo. Tal como o modelo hiperbólico de Kondner (1963) também o modelo HS define uma relação entre a tensão deviatórica e a deformação vertical do tipo hiperbólico através duma lei de endurecimento plástico. Figura 5.11 – Relação hiperbólica tensão-deformação (adaptado de Plaxis, Material Models Manual). A lei de escoamento estabelece a relação entre a deformação deviatórica plástica, 𝑝𝑝 𝑝𝑝 𝛾𝛾 , e a deformação volumétrica plástica, 𝜀𝜀𝑣𝑣 , de acordo com a equação (5.1), em que parâmetro 𝜓𝜓𝑚𝑚 é o ângulo de dilatância mobilizado. 𝑝𝑝 𝜀𝜀𝑣𝑣 = 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠(𝜓𝜓𝑚𝑚 ) × 𝛾𝛾 𝑝𝑝 (5.1) Os parâmetros necessários à definição do modelo no programa são apresentados na Tabela 5.4 e comentados em seguida. 78 Tabela 5.4 – Descrição dos parâmetros do modelo Hardening Soil. Parâmetros do Modelo Hardening Soil 𝑐𝑐’ 𝜙𝜙′ Resistência 2 coesão efectiva [kN/m ] ângulo de resistência ao corte [°] ângulo de dilatância [°] 𝜓𝜓 potência da relação de dependência m dos módulos de deformabilidade do [-] nível de tensão módulo deformabilidade secante de referência do ensaio triaxial drenado 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸50 Rigidez para 50% da tensão deviatórica na 2 [kN/m ] rotura módulo deformabilidade tangente de 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 referência do carregamento 2 [kN/m ] edométrico módulo deformabilidade de 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 referência de descarga/recarga coeficiente de Poisson para a 𝜈𝜈𝑢𝑢𝑢𝑢 descarga/recarga 2 [kN/m ] [-] 𝑝𝑝𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 tensão de referência para a rigidez [kN/m ] 𝐾𝐾0𝑛𝑛𝑛𝑛 coeficiente de impulso em repouso [-] 𝑅𝑅𝑓𝑓 coeficente de rotura [-] 𝜎𝜎𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡 resistência de tracção [kN/m ] Outros incremento de coesão por unidade 𝑐𝑐𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖𝑖 de profundidade 2 2 3 [kN/m ] 5.4.4.1 Parâmetros de Resistência Os parâmetros de resistência do modelo HS são os associados ao modelo Mohr-Coulomb, isto é, a coesão efectiva, o ângulo de resistência ao corte e o ângulo de dilatância. Salienta-se que a relação tensão-dilatância insere-se na teoria de Rowe (1962). Assim, um material apresenta um comportamento contráctil quando o ângulo de atrito interno mobilizado é menor que o ângulo de atrito interno do estado crítico (𝜑𝜑𝑚𝑚 < 𝜑𝜑𝑐𝑐𝑐𝑐 ), e apresenta um comportamento dilatante quando o ângulo de atrito interno mobilizado é maior que o ângulo de atrito interno do estado crítico (𝜑𝜑𝑚𝑚 > 𝜑𝜑𝑐𝑐𝑐𝑐 ) (Plaxis, 2002a). O valor da dilatância define-se como, 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠(𝜓𝜓) = 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑)−𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑 𝑐𝑐𝑐𝑐 ) 1−𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑)𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑 𝑐𝑐𝑐𝑐 ) (5.2) 79 5.4.4.2 Parâmetros de Rigidez Como referido anteriormente, uma das vantagens do modelo HS é a definição da rigidez dependente do estado de tensão, o que não é conseguido apenas com a definição de um valor do módulo de deformabilidade. O parâmetro 𝐸𝐸50 é dado pela seguinte equação. 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸50 = 𝐸𝐸50 � 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)−𝜎𝜎3′ ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)+𝑝𝑝 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) � 𝑚𝑚 (5.3) Este parâmetro é dependente do módulo de deformabilidade secante, para 50% da tensão deviatórica na rotura, correspondente à tensão de confinamento de referência 𝑝𝑝𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 , o parâmetro 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸50 . O módulo de deformabilidade edométrico, 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 define-se como, 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 = 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 � 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)− 𝜎𝜎1′ ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)+𝑝𝑝 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) � 𝑚𝑚 (5.4) Analogamente ao parâmetro 𝐸𝐸50 , o módulo de deformabilidade edométrico é dependente de 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 , que se define como o módulo de deformabilidade tangente correspondente à tensão principal, igual à tensão de referência 𝑝𝑝𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 . Para troços de tensão correspondentes a ciclos de carregamento de descarga/recarga define-se o parâmetro 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 , dado pela equação (5.5). 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 = 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 � 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)−𝜎𝜎3′ ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) 𝑐𝑐×cos (𝜑𝜑)+𝑝𝑝 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 (𝜑𝜑) 𝑚𝑚 � (5.5) 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 O parâmetro 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 é o módulo de deformabilidade de referência para a descarga/recarga correspondente à tensão de referência 𝑝𝑝𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 . O valor deste parâmetro situa-se, para a maior parte 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 dos materiais, entre 3 a 5 vezes o valor de 𝐸𝐸50 . A dependência do módulo de deformabilidade da tensão é dada pelo valor da potência, o parâmetro 𝑚𝑚. Este valor pode variar entre 0,5 < 𝑚𝑚 < 1,0, segundo Von Soos (1990). 5.4.4.3.Parâmetros avançados O coeficiente de Poisson para a descarga/recarga 𝜈𝜈𝑢𝑢𝑢𝑢 é, na maior parte dos casos reais, igual a 0,2 sendo este o valor definido por defeito no programa. No modelo HS é possível definir o valor para o coeficiente de impulso em repouso 𝐾𝐾0𝑛𝑛𝑛𝑛 , no entanto, o valor padrão obedece à equação de Jaky. 𝐾𝐾0𝑛𝑛𝑛𝑛 = 1 − 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠(𝜑𝜑) (5.6) 80 Como referido no ponto anterior, 𝑝𝑝𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 é a tensão de referência para a definição dos módulos de deformabilidade. O valor standard definido no programa, é igual a 100 unidades de tensão, tendo sido este o valor usado. O coeficiente de rotura, 𝑅𝑅𝑓𝑓 , traduz o afastamento da curva tensão-deformação em relação à hipérbole. 5.5 Estudo Paramétrico A calibração do modelo de comportamento da matriz arenosa das formações miocénicas estudadas a partir dos ensaios pressiométricos, é baseada num procedimento iterativo de ajuste progressivo dos valores dos diferentes parâmetros até se conseguir obter um bom ajuste entre o modelo numérico e os resultados do ensaio. Antes de se proceder a esse ajuste progressivo realizou-se um estudo paramétrico para avaliar a influência da variação do valor dos diferentes parâmetros no comportamento global da curva de modelação do ensaio. Esta análise foi realizada variando o valor dos parâmetros escolhidos isoladamente, isto é, mantendo constantes os restantes parâmetros do modelo. Como valores base do modelo consideram-se aqueles que no final serão identificados como representativos do comportamento do material em estudo. Os resultados que se apresentam correspondem à modelação dum ensaio a uma profundidade correspondente a uma tensão vertical efectiva de 200 kPa. Nesta fase apenas serão referidos os valores que, para cada parâmetro, se vierem a revelar mais adequados para calibrar o modelo. O ajuste entre curvas da modelação numérica e resultados do ensaio será apresentado no ponto 5.6.2. 5.5.1 Coeficiente de Impulso em repouso A variabilidade do parâmetro coeficiente de impulso em repouso, 𝐾𝐾0 , tem efeito em toda a extensão da curva pressiométrica. Foram realizadas diversas modelações com valores de 𝐾𝐾0 a variar entre 0,6 e 1,5. O melhor ajuste às curvas experimentais foi obtido para os valores do coeficiente de impulso em repouso iguais a 0,8 e 0,9, como se pode constatar na Figura 5.12. 81 5 K0 = 1,5 P - P0 (MPa) 4 K0 = 1 K0 = 0,9 K0 = 0,8 K0 = 0,7 K0 = 0,6 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 (V - V0) / Vsonda Figura 5.12 – Estudo da influência do parâmetro 𝑲𝑲𝟎𝟎 no andamento das curvas. 5.5.2 Ângulo de Resistência ao Corte A análise do efeito do ângulo de resistência ao corte, 𝜙𝜙′, permite concluir que o seu valor afecta fundamentalmente a parte final da curva pressiométrica. A influência deste parâmetro foi estudada para valores entre 37° e 41°, sendo que os mais adequados ao comportamento real são os valores de 𝜙𝜙 iguais a 38° e 39°. As hipóteses estudadas apresentam-se na Figura 5.13. 5 P - P0 (MPa) 4 Ф' = 41 Ф' = 40 Ф' = 39 Ф' = 38 Ф' = 37 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 (V - V0) / Vsonda Figura 5.13 – Estudo da influência do parâmetro 𝝓𝝓′ no andamento das curvas. 82 5.5.3 Ângulo de Dilatância A variação do valor do ângulo de dilatância, 𝜓𝜓, tem um grande efeito na parte final da curva, como é visível na Figura 5.14. Deste modo, conclui-se facilmente a concordância do valor de 𝜓𝜓 igual a 5°. 5 ψ = 10 4 P - P0 (MPa) ψ=5 ψ=0 3 2 1 0 0 0,1 0,3 0,2 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 (V - V0) / Vsonda Figura 5.14 – Estudo da influência do parâmetro 𝝍𝝍 no andamento das curvas. 𝒓𝒓𝒓𝒓𝒓𝒓 5.5.4 Módulo 𝑬𝑬𝟓𝟓𝟓𝟓 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 O parâmetro 𝐸𝐸50 influencia toda a extensão da curva e a sua análise revelou-se fundamental na determinação do modelo numérico. O valor identificado como representativo foi 90 MPa. Na Figura 5.15 apresentam-se as principais hipóteses estudadas. Refira-se que os módulos 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 E50 da figura correspondem ao parâmetro 𝐸𝐸50 . 5 E50 = 120 MPa 4 P - P0 (MPa) E50 = 90 MPa 3 E50 = 70 MPa 2 E50 = 50 MPa 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 (V - V0) / Vsonda Figura 5.15 – Estudo da influência do parâmetro 𝑬𝑬𝟓𝟓𝟓𝟓 no andamento das curvas. 83 5.5.5 Parâmetro 𝒎𝒎 O parâmetro 𝑚𝑚 tem impacto em toda a curva como se constata na Figura 5.16. A concordância do valor 0,5 foi facilmente identificada. 5 m= 1 4 P - P0 (MPa) m = 0,5 3 m = 0,2 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 (V - V0) / Vsonda Figura 5.16 – Estudo da influência do parâmetro 𝒎𝒎 no andamento das curvas. 5.5.6 Restantes Parâmetros A definição dos restantes parâmetros característicos do modelo não foi realizada por ajuste aos resultados experimentais. Os valores do peso volúmico e do coeficiente de Poisson de descarga/recarga baseiam-se na noção da sua ordem de grandeza e conformidade ao tipo de material em estudo. O parâmetro coesão efectiva foi introduzido no modelo para simular o efeito da cimentação, característica deste tipo de formações. A simulação com diversos valores de coesão permitiu concluir que o andamento da curva é pouco influenciável pela variação deste parâmetro. No final optou-se por um valor de 10 kPa. Como referido na descrição do modelo de comportamento do material, o valor do módulo de deformabilidade de descarga/recarga foi definido a partir do valor do módulo de 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 deformabilidade 𝐸𝐸50 . 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 = 3 × 𝐸𝐸50 (5.7) 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 Do mesmo modo, definiu-se o valor do módulo de deformabilidade 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 a partir do valor do módulo 𝐸𝐸50 . 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 = 𝐸𝐸50 (5.8) 84 5.6 Resultados da Modelação numérica 5.6.1 Modelo Calibrado O estudo dos parâmetros do modelo Hardening Soil permitiu obter os valores apresentados na Tabela 5.5. Tabela 5.5 – Valores dos parâmetros do modelo. Parâmetro Valor 𝐾𝐾0 0,8 𝜓𝜓 (°) 5 𝜙𝜙 ′ (°) 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 38 𝐸𝐸50 (MPa) 𝑚𝑚 3 𝛾𝛾 (kN/m ) 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜𝑜 (MPa) 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 90 0,5 20 90 𝐸𝐸𝑢𝑢𝑢𝑢 (MPa) 270 𝑐𝑐 ′ (kPa) 10 𝜈𝜈 0,2 𝑅𝑅𝑓𝑓 0,95 5.6.2 Comparação entre os Resultados dos Ensaios e os Resultados Numéricos Apresenta-se, de seguida, a comparação entre as curvas reais dos ensaios pressiométricos realizados na formação em estudo e as curvas obtidas da modelação numérica realizada com base nos parâmetros identificados como característicos do material estudado. A apresentação dos resultados é feita em 19 gráficos, da Figura 5.17 à Figura 5.35. Em cada figura incluíram-se curvas associadas a ensaios realizados a profundidades correspondentes a uma mesma ordem de grandeza da tensão vertical efectiva determinada para a cota do ensaio. As 19 figuras correspondem ao desfasamento da tensão vertical efectiva em intervalos de 25 kPa: 50 kPa, 75 kPa, 100 kPa, ...., até 500 kPa. Para além das curvas estudadas neste trabalho incluem-se também as curvas dos ensaios apresentadas por Guedes de Melo (2008) nos gráficos associados à tensão efectiva correspondente. No ANEXO B apresentam-se os mesmos gráficos identificando a formação arenosa correspondente a cada curva pressiométrica. 85 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Δ V / V sonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Figura 5.17 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 50 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 ΔV / Vsonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Figura 5.18 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 75 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.19 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 100 kPa. 86 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.20 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 125 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.21 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 150 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio Guedes de Melo (2008) 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / V sonda Figura 5.22 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 175 kPa. 87 5 4 P - P0 (MPa) 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.23 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 200 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio Guedes de Melo (2008) 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.24 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 225 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 . 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.25 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 250 kPa. 88 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.26 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 275 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.27 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 300 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.28 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 325 kPa. 89 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.29 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 350 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.30 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 375 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / V sonda Figura 5.31 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 400 kPa. 90 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / V sonda Figura 5.32 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 425 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.33 – Resultado para uma tensão vertical efectiva da ordem de 450 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.34 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 475 kPa. 91 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 Modelo Guedes de Melo (2008) Ensaio 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Figura 5.35 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 500 kPa. 5.6.3 Análise dos Resultados Analisando as figuras apresentadas no ponto anterior é possível concluir que as curvas dos ensaios revelam um comportamento razoavelmente homogéneo da matriz arenosa da formação em estudo. Esta conclusão assume bastante relevância considerando o carácter espacial dos resultados: as curvas dos ensaios foram obtidas em 10 locais distintos da região de Lisboa, desde a zona do Parque das Nações até Telheiras, e abrangem profundidades muito variadas, atingindo um valor máximo de 35 m. O ajuste conseguido entre o modelo numérico e os resultados dos ensaios pode ser considerado, globalmente, muito bom. Da comparação entre as curvas dos resultados numéricos e as curvas dos ensaios observa-se que o maior afastamento se verifica para o comportamento da fase inicial do ensaio. Tal é explicado, em primeiro lugar, e principalmente, pelas reconhecidas perturbações que a abertura do furo causa no comportamento do solo envolvente. De facto, observa-se que o material exibe, na fase inicial do ensaio, um comportamento mecânico mais fraco que o traduzido pelo modelo numérico. Em segundo lugar, deve também ser referida a dificuldade do modelo, tal como definido, na reprodução do comportamento dos materiais no domínio das muito pequenas deformações. Nesse sentido são de referir as recentes alterações introduzidas no Hardening Soil Model que deram origem ao modelo Hardening Soil Model with Small-Strain Stifness – HSSmall. Este modelo apresenta todas as características do Hardening Soil Model e, adicionalmente, tem em consideração a rigidez do solo associada a muito pequenas deformações e a sua dependência não linear com a amplitude de deformações (Plaxis, 2002). Assim, o modelo necessita de dois parâmetros adicionais para a sua caracterização: o módulo de distorção inicial, 𝐺𝐺0 e, o valor da deformação deviatórica, 𝛾𝛾0,7 , em que o módulo de distorção vale 70% do valor de 𝐺𝐺0 . 92 5.6.4 Comparação dos valores dos Parâmetros do Modelo com os valores dos Parâmetros do Ensaio Pressiométrico de Ménard Depois da calibração do modelo é possível compará-lo com os valores obtidos directamente dos ensaios pressiométricos de Ménard que estiveram na base desse processo. Analisaram-se os parâmetros mais importantes do ponto de vista do dimensionamento geotécnico, o módulo de Ménard e o ângulo de resistência ao corte. 5.6.4.1 Módulo de Ménard Analisando os valores do módulo de Ménard obtidos dos ensaios analisados é possível concluir que para a tensão de referência de 100 kPa e seguindo uma via idêntica à associada à 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 definição do parâmetro 𝐸𝐸50 , o módulo de Ménard de referência, 𝐸𝐸𝑀𝑀 , é igual a 30 MPa. Como se 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 constata na Figura 5.36 existe uma tendência de evolução dos valores do módulo 𝐸𝐸𝑀𝑀 tensão vertical efectiva. com a 140 Módulo de Ménard (MPa) 120 100 80 60 40 20 0 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 Tensão vertical efectiva (kPa) Figura 5.36 – Valores do módulo de Ménard obtidos dos ensaios pressiométricos. 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 A relação entre este valor e o módulo de deformabilidade, 𝐸𝐸50 , é a seguinte, 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸50 = 2,33 × 𝐸𝐸𝑀𝑀 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 𝐸𝐸𝑀𝑀 0,43 𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟𝑟 = 𝐸𝐸50 (5.9) (5.10) 93 5.6.4.2 Ângulo de Resistência ao Corte Conforme explicado anteriormente no ponto 4.3.1.3, é possível aferir o valor do ângulo de resistência ao corte a partir do conceito de pressão limite. 𝑝𝑝𝑙𝑙∗ = 250 × 2 𝜙𝜙 ′ −24 4 (5.11) Recorrendo à equação (5.11) obtém-se então, para todos os resultados seleccionados, os valores do ângulo de resistência ao corte que se apresentam na Figura 5.37. 50 Ângulo de resistência ao corte (º) 48 46 44 42 40 38 36 34 32 30 28 26 24 22 20 0 100 200 300 400 500 Tensão vertical efectiva (kPa) Figura 5.37 – Valores do ângulo de resistência ao corte dos ensaios pressiométricos. O gráfico da Figura 5.37 evidencia uma pequena dispersão dos valores de 𝜙𝜙′, sendo possível concluir que a maioria está compreendida entre 36°e 41°. 94 CAPÍTULO 6 – CONCLUSÕES 6.1 Conclusões e Discussão dos Resultados Com o trabalho apresentado é possível concluir que o ensaio pressiométrico de Ménard é um ensaio de campo com grandes potencialidades, as quais podem ser exploradas em situação de Projecto Geotécnico corrente. A descrição exaustiva do aparelho e da técnica de ensaio, ao longo dos Capítulos 2, 3 e 4, pretende ser uma compilação de regras e estudos sobre o tema e, adicionalmente, apresentar uma discussão sobre a utilidade e as limitações deste tipo de ensaios. Como qualquer ensaio de campo, o ensaio pressiométrico de Ménard exige um bom controlo de qualidade durante a sua execução, principalmente durante a fase de abertura do furo e instalação da sonda no terreno. Estas duas fases são unanimemente apontadas como críticas para o sucesso do ensaio e a obtenção de bons resultados. O procedimento de abertura do furo deve ser escolhido cuidadosamente em função do local e condições do terreno. O ensaio pressiométrico, apesar de simples, oferece a possibilidade de determinação de inúmeros parâmetros geotécnicos. A partir da análise do método de execução do ensaio pressiométrico é possível inferir que este representa um ensaio in situ de carregamento. Deste modo, consegue-se simular a sequência de carregamento que se desejar: estágios de pressão longos para carregamentos de longa duração, ciclos de descarga/recarga para carregamentos cíclicos, entre outros. Adicionalmente, aplicando a teoria de expansão de cavidades cilíndricas, a curva pressiométrica pode ser entendida como uma curva tensão-deformação in situ. Pelo exposto, o ensaio pressiométrico deve ser considerado como uma ferramenta muito útil ao projecto geotécnico, conhecendo as limitações e problemas tecnológicos inerentes aos seus resultados e execução. A aplicação prática de resultados de ensaios pressiométricos, descrita ao longo do Capítulo 5, constitui-se como um método diferente de caracterização de materiais. O trabalho apresentado demonstra a possibilidade de modelação numérica do ensaio e a sua conformidade ao tipo de materiais estudados: matriz arenosa do Miocénico com algum grau de cimentação. A comparação com os resultados obtidos directamente dos ensaios pressiométricos e os resultados apresentados por Guedes de Melo (2008) confirmam a conformidade do modelo proposto. A simulação do ensaio pressiométrico no programa Plaxis revelou-se bastante simples dado o extenso estudo realizado com este trabalho e também pelos conhecimentos adquiridos aquando da observação da execução de um ensaio pressiométrico de Ménard, numa obra da empresa Geotest, no Carregado. 95 Os principais problemas encontrados na realização do trabalho prático foram a análise da validade dos resultados dos ensaios pressiométricos, a determinação da tensão vertical efectiva associada a cada ensaio analisado e a convergência do modelo numérico. Como descrito anteriormente, a análise das curvas pressiométricas foi um processo contínuo. A escolha inicial dos ensaios que se consideraram não característicos da formação estudada, feita com base na análise individual do andamento de cada curva, revelou-se simples face ao estudo do ensaio pressiométrico efectuado ao longo do trabalho. A ponderação global dos resultados dos ensaios foi um processo mais complexo dada a dificuldade em determinar a tensão vertical efectiva associada a cada ensaio. O elevado número de resultados rejeitados deve-se à heterogeneidade do material, à frequente presença de elementos rochosos na matriz e a problemas tecnológicos associados à realização do ensaio pressiométrico de Ménard. O andamento inicial das curvas de resultados traduz o fenómeno de perturbação durante a abertura do furo e a instalação da sonda no terreno. Este facto impede um melhor ajuste dos resultados ao modelo calibrado. No entanto, salienta-se que apesar destas limitações, foi possível utilizar os resultados de ensaios pressiométricos para a calibração de um modelo de comportamento do solo complexo. A melhoria do modelo apresentado passa pela obtenção de um maior número de resultados de ensaios pressiométricos que permita não só estender o estudo até um nível de tensão mais elevado, mas também a validação e melhoramento dos parâmetros pela comparação com resultados de outros ensaios, nomeadamente o pressiómetro autoperfurador, para o mesmo tipo de materiais. 6.2 Desenvolvimentos Futuros A evolução do trabalho apresentado passa pela pesquisa de mais resultados de ensaios pressiométricos de Ménard realizados no material estudado de modo a aperfeiçoar o modelo numérico obtido. Os desenvolvimentos futuros que se prevêem são a calibração de um novo modelo para materiais predominantemente argilosos, que exigirá a uma análise em condições drenadas, e a utilização do modelo Hardening Soil Model with small-strain stiffness (HSsmall) de modo a obter uma melhor caracterização da parte inicial da curva pressiométrica. Sugere-se também a pesquisa de resultados de ensaios pressiométricos com ciclos de descarga/recarga bem como de ensaios realizados com o pressiómetro autoperfurador que permitam avaliar a variação dos parâmetros de deformabilidade. 96 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bibliografia Principal Amar, S., Jézéquel, J. F. (1971). A propos de la réalisation de l’essai pressiométrique. Bulletin de Liaison des Laboratoires des Ponts et Chaussées, No 56 , pp. 13-15. Amar, S., Clarke, B., Gambin, M., & Orr, T. (1990). The application of pressuremeter test results to foundation design in Europe. Balkema. Anderson, J., Townsend, F., Horta, E., & Sandoval, J. (2005). Effects of modified probes and methods on Pencel pressuremeter tests. 50 ans de pressiomètress. Vol. 1, pp. 21-29. Paris: Presses de l'ENPC/LCPC. Araújo, S. (2001). O ensaio pressiométrico de Ménard e sua utilização na estimativa da capacidade de carga e recalque de fundações assentes em solo residual de gnaisse. 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As principais são: a consideração do material como homogéneo e isotrópico; a simplificação da curva tensão-deformação e da curva deformação volumétrica-deformação deviatórica; a associação de critérios de rotura simples; a consideração de que o processo de instalação do pressiómetro não causa perturbação no campo de tensões e deformações. Gibson e Anderson (1961) formularam a teoria que é hoje considerada como a base para qualquer interpretação do ensaio pressiométrico. A sua teoria dividia o ensaio em drenado e não drenado considerando, em ambos os casos, o solo como incompressível no domínio plástico. O grande contributo da sua teoria, segundo Sousa Coutinho (1988), traduz-se na obtenção dos parâmetros de resistência. No caso dos solos argilosos o ensaio tem que ser considerado como não drenado e, a maior parte das teorias de interpretação assume a priori o andamento da curva tensãodeformação: como elástica perfeitamente plástica, Gibson e Anderson (1961); hiperbólica, Denby e Clough (1980); ou com endurecimento e amolecimento (Prévost e Hoeg, 1975). Como excepção, surgem as teorias propostas por Palmer (1972), Ladanyi (1972) e Baguelin et al. (1972), que não estabelecem antecipadamente o andamento da curva tensão-deformação. Como critérios de rotura, Ladanyi (1995) aponta o critério de Tresca e de Von Mises como os mais usados, e o modelo CamClay como modelo de comportamento do solo. A interpretação do ensaio em solos granulares é consideravelmente diferente pois o ensaio é realizado em condições drenadas e no material à volta da cavidade podem ocorrer variações volumétricas não quantificáveis. À semelhança das teorias para materiais argilosos, a maior parte das teses neste domínio apresentam simplificações iniciais ao andamento da curva de dilatação: como uma relação directa, Juran e Beech (1986) e Monnet (1990); ou, utilizando a teoria da dilatância de Rowe, Windle e Wroth (1977), Hughes et al. (1977), Fahey (1986), Manassero (1989). Segundo Yu (1990), a teoria mais comum é o modelo proposto por Hughes et al. (1977). Este modelo considera o material como elástico linear até atingir a rotura, segundo o critério de Mohr-Coulomb. A partir deste ponto o material sofre deformação plástica com um ângulo de dilatância constante; e a componente elástica da deformação é desprezada por simplicidade de análise. Esta teoria incorpora ainda o conceito tensão-dilatância de Rowe e permite obter o ângulo de resistência ao corte e o ângulo de dilatância, desde que o valor do ângulo de resistência ao corte no estado crítico seja conhecido. 106 A.1 Conceitos Básicos A.1.1 Geometria Considere-se uma cavidade cilíndrica de comprimento infinito inserida numa massa de solo infinita, e que o solo é isotrópico e homogéneo. Figura A.1 – Geometria do problema (adaptado de Baguelin et al., 1978) Tal como apresentado na Figura A.1, o eixo da cavidade é vertical e está orientado segundo Oz, no estado inicial existe uma pressão 𝑝𝑝0 dentro da cavidade e na massa de solo gerase uma tensão horizontal uniforme igual a 𝑝𝑝0 e uma tensão vertical uniforme, 𝜎𝜎0𝑉𝑉 . A um aumento no valor da pressão corresponde uma expansão da cavidade e um deslocamento radial da massa de solo envolvente. Assim, uma partícula inicialmente situada a uma distância radial 𝑟𝑟 irá deformar-se para uma posição 𝑞𝑞, tal que, 𝑞𝑞 = 𝑟𝑟 + 𝑢𝑢 (A.1) em que 𝑢𝑢 é a distância percorrida pela partícula. É possível assumir o solo circundante da cavidade em condição de deformação plana, considerando que o comprimento da cavidade cilíndrica é muito superior que o valor do seu raio. Assim, para a análise do problema apenas será necessário considerar o plano horizontal, isto é, não há deformação na direcção paralela ao eixo da cavidade. O comprimento 𝑑𝑑𝑑𝑑, na direcção radial, e o comprimento 𝑟𝑟𝑟𝑟Θ, manter-se-ão perpendiculares. 107 Figura A.2 – Coordenadas cilíndricas (adaptado de Baguelin et al., 1978). Considerando que a inserção da sonda no terreno não provoca perturbações no solo envolvente, o estado inicial de tensões, 𝑝𝑝0 , corresponde à tensão horizontal in situ, 𝜎𝜎0𝐻𝐻 . A.1.2 Campo de Tensões e Deformações Tomando a cavidade como cilíndrica é possível considerar que o solo se deforma em condições de simetria axial. Como consequência, as tensões principais num elemento de solo são a radial, circunferencial e vertical. Analogamente, as deformações principais são também a radial, circunferencial e vertical. Figura A.3 – Tensões principais (retirado de Mair e Wood, 1987). As tensões radiais, circunferenciais e verticais são descritas como, 𝜎𝜎𝑟𝑟 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 (A.2) 𝜎𝜎𝑧𝑧 = 𝜎𝜎0𝑉𝑉 + Δ𝜎𝜎𝑧𝑧 (A.4) 𝜎𝜎𝜃𝜃 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 (A.3) A máxima tensão deviatórica, 𝜏𝜏𝑚𝑚 , ocorre no plano inclinado 45° da direcção principal de tensão, e é igual a, 𝜏𝜏𝑚𝑚 = 𝜎𝜎𝑟𝑟 −𝜎𝜎 𝜃𝜃 2 (A.5) 108 A deformação radial, 𝜀𝜀𝑟𝑟 , a deformação circunferencial, 𝜀𝜀𝜃𝜃 , e a deformação vertical, 𝜀𝜀𝑧𝑧 , determinam-se a partir do deslocamento 𝑢𝑢. 𝜀𝜀𝜃𝜃 = (𝑟𝑟+𝑢𝑢)𝑑𝑑𝑑𝑑 −𝑟𝑟×𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑟𝑟 ×𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝜀𝜀𝑟𝑟 = 𝑑𝑑𝑑𝑑 = 𝑢𝑢 𝑟𝑟 𝜀𝜀𝑧𝑧 = 0 (A.6) (A.7) (A.8) Estas variáveis de deformação denominam-se por deformações de Cauchy e são baseadas na seguinte relação, 𝑑𝑑𝑑𝑑 −𝑑𝑑 𝑙𝑙0 𝜀𝜀 = (A.9) 𝑑𝑑𝑙𝑙0 em que 𝑑𝑑𝑑𝑑0 é o comprimento inicial de um elemento linear e 𝑑𝑑𝑑𝑑 é o comprimento desse elemento no estado deformado. A deformação circunferencial na parede da cavidade, 𝜀𝜀θ=0 , expressa a expansão sofrida pela cavidade, e é dada pela equação (A.10). 𝜀𝜀θ=0 = 𝑢𝑢 0 (A.10) 𝑟𝑟0 No domínio das grandes deformações, Baguelin et al. (1978) demonstram que, 𝜀𝜀𝜃𝜃 = 1 𝑞𝑞 2 −𝑟𝑟 2 2 � 𝑟𝑟 2 � (A.11) o que em termos volumétricos corresponde a, 𝜀𝜀𝜃𝜃 = 1 Δ𝑉𝑉𝑐𝑐 (A.12) 2 𝑉𝑉𝑐𝑐 em que, Δ𝑉𝑉𝑐𝑐 é o aumento no volume da cavidade e 𝑉𝑉𝑐𝑐 corresponde ao volume da cavidade. A equação de equilíbrio, no plano horizontal, é dada por: 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑟𝑟 𝑑𝑑𝑑𝑑 + 𝜎𝜎𝑟𝑟 −𝜎𝜎 𝜃𝜃 𝑞𝑞 =0 (A.13) em que, 𝜎𝜎𝑟𝑟 é a tensão radial e 𝜎𝜎𝜃𝜃 é a tensão circunferencial. Na parede da cavidade a tensão radial, 𝜎𝜎𝑟𝑟 , é igual à pressão aplicada em cada instante. Para o domínio das pequenas deformações a equação (A.13) pode ser reescrita como, 𝑑𝑑𝜎𝜎𝑟𝑟 𝑑𝑑𝑑𝑑 + 𝜎𝜎𝑟𝑟 −𝜎𝜎 θ 𝑟𝑟 =0 (A.14) 109 Uma das simplificações mais importantes das teorias interpretativas do pressiómetro consiste em considerar que a cavidade cilíndrica se expande a partir de um raio inicial igual a 0. A partir desta premissa consegue-se determinar todos os valores possíveis de deformação, 0 ≤ 𝜀𝜀𝜃𝜃 ≤ ∞, sabendo que qualquer aumento na dimensão do diâmetro da cavidade se traduz por uma deformação na parede da cavidade, pois 𝑟𝑟0 = 0. 𝜀𝜀𝜃𝜃=0 = (𝑞𝑞 0 −𝑟𝑟0 ) 𝑟𝑟0 =∞ (A.15) A pressão dentro da cavidade, p, é função de 𝜀𝜀𝜃𝜃=0 , ou seja, 𝑝𝑝 = 𝐹𝐹(𝜀𝜀𝜃𝜃=0 ) (A.16) Ressalte-se que a pressão na cavidade é independente do seu tamanho. Quando a cavidade atinge um certo valor do diâmetro, os parâmetros tornam-se constantes: 𝜀𝜀𝜃𝜃=0 = ∞ e 𝜎𝜎𝑟𝑟 = 𝑝𝑝0 , considerando-se 𝑟𝑟 = ∞. Assim, o valor da pressão, p, não pode mudar denominando-se pressão limite, 𝑝𝑝𝐿𝐿 , dado que ocorre a deformação infinita. Baguelin et al. (1978) distinguem este parâmetro teórico, 𝑝𝑝𝐿𝐿 , do parâmetro pressiométrico, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , definido como o valor da pressão quando o volume inicial da cavidade é duplicado. A.1.3 Curva pressiométrica A curva pressiométrica é uma curva in situ de tensão-deformação, com 𝜎𝜎𝑟𝑟 no eixo das abcissas e 𝜀𝜀𝜃𝜃 no eixo das ordenadas. Figura A.4 – Curva pressiométrica (adaptado de Briaud, 1992). A.2 Comportamento Elástico Linear No domínio da elasticidade, as deformações são pequenas e as equações constitutivas que as determinam são: 110 1 𝜀𝜀𝑟𝑟 = �Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 − 𝜈𝜈(Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 + Δ𝜎𝜎𝑧𝑧 )� 𝐸𝐸 1 𝜀𝜀𝜃𝜃 = (Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 − 𝜈𝜈(Δ𝜎𝜎𝑧𝑧 + Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 )) 𝜀𝜀𝑧𝑧 = 𝐸𝐸 1 𝐸𝐸 (Δ𝜎𝜎𝑧𝑧 − 𝜈𝜈(Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 + Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 )) (A.17) (A.18) (A.19) O deslocamento radial, a tensão e a deformação em qualquer ponto da massa de solo valem, respectivamente: 𝑢𝑢 = 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝜀𝜀𝜃𝜃 = 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝜀𝜀𝑟𝑟 = (A.20) 𝑟𝑟 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 (A.21) 𝑟𝑟 2 (A.22) 𝑟𝑟 2 𝜎𝜎𝑟𝑟 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 2𝐺𝐺 𝜎𝜎𝜃𝜃 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 − 2𝐺𝐺 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝑟𝑟 2 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝑟𝑟 2 (A.23) (A.24) Na parede da cavidade, as equações ficam: 𝑢𝑢 = 𝑢𝑢0 (A.25) 𝜀𝜀𝑟𝑟 = (A.26) 𝜀𝜀𝜃𝜃 = − 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝑢𝑢 0 (A.27) 𝑟𝑟0 𝜎𝜎𝑟𝑟 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 2𝐺𝐺 𝜎𝜎𝜃𝜃 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 − 2𝐺𝐺 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 𝑢𝑢 0 𝑟𝑟0 (A.28) (A.29) Briaud (1992) salienta que, no domínio da elasticidade, a deformação volumétrica é nula, ou seja, não há variação de volume. Δ𝑉𝑉 𝑉𝑉 = 𝜀𝜀𝑟𝑟 + 𝜀𝜀𝜃𝜃 + 𝜀𝜀𝑧𝑧 = 0 (A.30) Note-se ainda que um aumento na tensão radial, Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 , corresponde a um decréscimo na tensão circunferencial, Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 , de valor igual. Δ𝜎𝜎𝑟𝑟 = −Δ𝜎𝜎𝜃𝜃 (A.31) O módulo de distorção in situ do solo pode ser determinado a partir do declive inicial da curva pressiométrica. O módulo inicial 𝐺𝐺𝑖𝑖 , através da relação (𝜀𝜀𝜃𝜃 ; 𝑝𝑝) é obtido pela equação (A.32) ou, analisando a relação (𝑉𝑉; 𝑝𝑝) expressa-se pela equação (A.33). 111 𝐺𝐺𝑖𝑖 = 1 𝑑𝑑𝑑𝑑 2 𝑑𝑑𝜀𝜀 0 𝐺𝐺𝑖𝑖 = 𝑉𝑉𝑜𝑜 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 (A.32) (A.33) Figura A.5 – Obtenção do módulo de distorção a partir da curva pressiométrica. Mair e Wood (1987) salientam que a linearidade de ambas as relações só é possível no domínio elástico. A partir do módulo de distorção é possível obter o módulo de Young equivalente para um solo elástico e isotrópico, através da expressão (A.34) com 𝜈𝜈 igual ao coeficiente de Poisson . 𝐸𝐸 = 2𝐺𝐺 (1 + 𝜈𝜈) (A.34) Durante a realização do ensaio pressiométrico é possível fazer um ciclo de descarga/recarga durante a fase elástica. Neste caso é possível determinar o módulo de corte de descarga/recarga, 𝐺𝐺𝑢𝑢𝑟𝑟 . 1 ou 𝑟𝑟 𝐺𝐺𝑢𝑢𝑢𝑢 = � � � 2 𝑟𝑟0 𝐺𝐺𝑢𝑢𝑢𝑢 = 𝑉𝑉 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝜀𝜀 0 � 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 (A.35) (A.36) A.3 Comportamento Elástico Perfeitamente Plástico Antes de atingir a cedência, a massa de solo comporta-se dentro do domínio elástico e a curva pressiométrica é uma linha recta. Para lá desse ponto, a curva pressiométrica é não linear e, à volta da cavidade, surge um anel de solo com comportamento plástico. À medida que a pressão na parede da cavidade aumenta, aumenta também a massa de solo na zona plástica Esta zona abrange a totalidade da massa de solo quando a pressão limite é atingida. Deste modo, Briaud (1992) refere que a teoria da plasticidade é útil pois fornece expressões para a pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , e para o valor da pressão correspondente ao início da fluência, 𝑝𝑝𝑓𝑓 . Para obter estes parâmetros é necessário um critério de cedência associado a uma lei 112 de variação de volume e um critério de fluência. A análise tem que ser diferenciada em solos coesivos e não coesivos. A.3.1 Comportamento de solos coesivos O ensaio pressiométrico em solos coesivos é considerado não drenado e o critério de cedência de Tresca pode ser aplicado. Tradicionalmente, este critério é traduzido por: 𝜎𝜎11 − 𝜎𝜎33 = 2𝑐𝑐𝑢𝑢 (A.37) em que, 𝜎𝜎11 e 𝜎𝜎33 são as tensões principais totais. Na análise que se tem vindo a desenvolver, as tensões principais correspondem a 𝜎𝜎𝑟𝑟 e a 𝜎𝜎𝜃𝜃 , respectivamente, portanto o critério expressa-se por: 𝜎𝜎𝑟𝑟 − 𝜎𝜎𝜃𝜃 = 2𝑐𝑐𝑢𝑢 (A.38) Esta lei é válida em toda a zona plastificada. A fluência ocorre quando a tensão de corte na parede da cavidade iguala a resistência ao corte não drenada. Assim, 𝑝𝑝𝑓𝑓 vale, 𝑝𝑝𝑓𝑓 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 (A.39) Depois de atingida a fluência, a massa de solo que exibe comportamento plástico não tem rigidez de corte e deformar-se-ia indefinidamente. O valor da pressão, considerando uma lei de não variação do volume, é dado pela equação (A.40). 𝐺𝐺 Δ𝑉𝑉 𝑝𝑝 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 �1 + 𝑙𝑙𝑙𝑙 � + 𝑐𝑐𝑢𝑢 �𝑙𝑙𝑙𝑙 � �� 𝑐𝑐𝑢𝑢 𝑉𝑉 (A.40) O limite da zona de solo plastificada surge com a condição Δ𝑉𝑉�𝑉𝑉 = 1, atingindo-se a pressão limite. Assim, a equação (5.39) é reescrita da seguinte maneira. 𝐺𝐺 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 + 𝑐𝑐𝑢𝑢 �1 + 𝑙𝑙𝑙𝑙 � 𝑐𝑐𝑢𝑢 (A.41) Num gráfico (ln Δ𝑉𝑉�𝑉𝑉 ; p) os resultados pressiométricos correspondentes à fase plástica correspondem a uma recta com declive igual ao valor de 𝑐𝑐𝑢𝑢 . 113 Figura A.6 – Obtenção da resistência ao corte não drenada a partir da curva pressiométrica (adaptado de Mair e Wood, 1992). Note-se que no caso de solos coesivos, o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙 deve obedecer a uma lei de variação de volume que considere a compressibilidade. A teoria de interpretação do ensaio pressiométrico é válida para materiais com comportamento não drenado desde que se considerem válidas as seguintes hipóteses: o meio coesivo e saturado é incompressível, e, existe uma única curva de corte para caracterizar o meio. Segundo Sousa Coutinho (1988), a incompressibilidade do meio é justificável pois não existe drenagem quando o material é submetido ao corte. Este facto pode ser traduzido pela seguinte equação. (1 + 𝜀𝜀θ )(1 + 𝜀𝜀𝑟𝑟 ) = 1 (A.46) A segunda condição implica que todo o meio esteja sujeito ao mesmo tipo de carregamento, isto é, carregado em condições de deformação plana sem rotação das direcções principais. Como Sousa Coutinho (1988) aponta, o campo de tensão devido ao incremento da pressão pode ser descrito pela tensão de corte que é função da distorção. Assim, na parede da cavidade é válida a seguinte equação. 𝑞𝑞𝑢𝑢 = 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑 𝑙𝑙𝑙𝑙 (𝜀𝜀 θ )0 (A.47) Palmer (1972) escreveu a mesma equação, na forma, 𝑞𝑞𝑢𝑢 = 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑 𝑙𝑙𝑙𝑙 Δ 𝑉𝑉 𝑉𝑉 (A.48) Da equação (A.47), é possível traçar um gráfico com 𝑙𝑙𝑙𝑙 (𝜀𝜀𝜃𝜃 )0 no eixo das abcissas e a pressão aplicada no eixo das ordenadas. Constata-se que uma inflexão neste gráfico corresponde a um pico na curva tensão-deformação e, para uma deformação muito grande, a curva tensãodeformação tende para o valor residual de resistência. 114 Figura A.7 – Gráficos 𝐥𝐥𝐥𝐥(𝜺𝜺𝜽𝜽 )𝟎𝟎 ; 𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑𝒑ã𝒐𝒐 𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂𝒂 (adaptado de Sousa Coutinho, 1988). A.3.2 Comportamento de solos não coesivos Para solos não coesivos, o ensaio pressiométrico é um ensaio drenado, em que o critério de Mohr-Coulomb é o critério de cedência indicado, ′ ′ = 𝑘𝑘𝑎𝑎 𝜎𝜎11 𝜎𝜎33 (A.42) ′ ′ em que, 𝜎𝜎33 e 𝜎𝜎11 são as tensões principais efectivas mínima e máxima, respectivamente, e 𝑘𝑘𝑎𝑎 é o coeficiente de impulso activo. No contexto da expansão cilíndrica em análise, o critério traduz-se por, 𝜎𝜎𝜃𝜃′ = 𝑘𝑘𝑎𝑎 𝜎𝜎𝑟𝑟′ (A.43) em que, 𝜎𝜎𝜃𝜃′ e 𝜎𝜎𝑟𝑟′ são as tensões circunferencial e radial efectivas. É possível obter o valor da pressão de fluência e da pressão limite, 𝑝𝑝𝑙𝑙 , através de uma análise análoga à dos solos coesivos. Assim, ′ (1 + 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠′) 𝑝𝑝𝑓𝑓 = 𝜎𝜎0𝐻𝐻 ′ (1 + 𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠′) � 𝑝𝑝𝑙𝑙 = 𝜎𝜎𝑂𝑂𝑂𝑂 𝐺𝐺 ′ ×𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠𝑠 ′ 𝜎𝜎𝑂𝑂𝑂𝑂 (A.44) 1 (1−𝑘𝑘 𝑎𝑎 ) 2 � (A.45) Note-se que esta expressão de 𝑝𝑝𝑙𝑙 baseia-se na adopção de uma lei de não variação de volume. No caso de areias, tal como Briaud (1992) refere, esta hipótese é apenas válida no ponto de índice de vazios crítico. Segundo Baguelin et al. (1978) em materiais compressíveis, como areias soltas, o valor de 𝑝𝑝𝑙𝑙 pode ser metade daquele dado pela expressão (A.45), enquanto em materiais dilatantes, como areias densas, o valor real de 𝑝𝑝𝑙𝑙 pode ser duas vezes superior ao obtido pela expressão. 115 ANEXO B 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 Calcários de Marvila 0,4 0,5 Δ V / V sonda 0,6 Areolas da Estefânia 0,7 0,8 0,9 1 Areolas do Braço de Prata Figura B.1 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 50 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 ΔV / Vsonda Areolas do Cabo Ruivo 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Calcários da Musgueira Figura B.2 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 75 kPa. 116 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas do Braço de Prata Areolas do Cabo Ruivo Areolas da Estefânia Figura B.3 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 100 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 Areolas do Cabo Ruivo 0,4 0,5 Δ V / Vsonda 0,6 Areolas do Braço de Prata 0,7 0,8 0,9 1 Areolas da Estefânia Figura B.4 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 125 kPa. 117 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas do Cabo Ruivo Areolas do Braço de Prata Areolas da Estefânia Figura B.5 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 150 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 Areolas do Cabo Ruivo Calcários da Musgueira 0,4 0,5 Δ V / V sonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Areolas da Estefânia Areolas do Braço de Prata Figura B.6 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 175 kPa. 118 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas do Cabo Ruivo Areolas da Estefânia Calcários de Marvila Figura B.7 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 200 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Δ V / Vsonda Areolas do Cabo Ruivo 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Areolas da Estefânia Figura B.8 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 225 kPa. 119 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Δ V / Vsonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Areolas da Estefânia Figura B.9 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 250 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 Δ V / Vsonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Areolas da Estefânia Figura B.10 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 275 kPa. 120 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas da Estefânia Calcários de Marvila Figura B.11 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 300 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas da Estefânia Calcários de Marvila Figura B.12 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 325 kPa. 121 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas do Cabo Ruivo Areolas da Estefânia Figura B.13 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 350 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas do Braço de Prata Calcários de Musgueira Figura B.14 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 375 kPa. 122 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 Areolas da Estefânia 0,5 Δ V / V sonda 0,6 0,7 Areolas do Cabo Ruivo 0,8 0,9 1 Calcários da Musgueira Figura B.15 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 400 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / V sonda Areolas da Estefânia Areolas do Braço de Prata Figura B.16 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 425 kPa. 123 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas da Estefânia Figura B.17 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 450 kPa. 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Δ V / Vsonda Areolas da Estefânia Figura B.18 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 475 kPa. 124 5 P - P0 (MPa) 4 3 2 1 0 0 0,1 0,2 0,3 0,4 Areolas da Estefânia 0,5 Δ V / Vsonda 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Areolas de Cabo Ruivo Figura B.19 – Resultados para uma tensão vertical efectiva da ordem de 500 kPa. 125