MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO SECRETARIA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA CURSO DE MESTRADO EM CIÊNCIA DOS MATERIAIS FERNANDA SANTOS DA LUZ AVALIAÇÃO DO COMPORTAMENTO BALÍSTICO DE BLINDAGEM MULTICAMADA COM COMPÓSITO DE EPÓXI REFORÇADO COM FIBRA DE JUTA Rio de Janeiro 2014 INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA FERNANDA SANTOS DA LUZ AVALIAÇÃO DO COMPORTAMENTO BALÍSTICO DE BLINDAGEM MULTICAMADA COM COMPÓSITO DE EPÓXI REFORÇADO COM FIBRA DE JUTA Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Mestrado em Ciência dos Materiais do Instituto Militar de Engenharia, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência dos Materiais. Orientador: Prof. Sérgio Neves Monteiro – Ph.D Rio de Janeiro 2014 1 INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA Praça General Tibúrcio, 80 – Praia Vermelha Rio de Janeiro – RJ CEP: 22290-270 Este exemplar é de propriedade do Instituto Militar de Engenharia, que poderá incluílo em base de dados, armazenar em computador, microfilmar ou adotar qualquer forma de arquivamento. É permitida a menção, reprodução parcial ou integral e a transmissão entre bibliotecas deste trabalho, sem modificação de seu texto, em qualquer meio que esteja ou venha a ser fixado, para pesquisa acadêmica, comentários e citações, desde que sem finalidade comercial e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do(s) autor(es) e do(s) orientador(es). 620.1 Luz, Fernanda Santos da L979a Avaliação do comportamento balístico de blindagem multicamada com compósito de epóxi reforçado com fibra de juta / Fernanda Santos da Luz, orientada por Sérgio Neves Monteiro – Rio de Janeiro: Instituto Militar de Engenharia, 2014. 119p. : il. Dissertação (Mestrado) – Instituto Militar de Engenharia, Rio de Janeiro, 2014. 1. Curso de Ciência dos Materiais – teses e dissertações. 2. Balística. 2. Blindagem. I. Monteiro, Sergio Neves. II. Título. III. Instituto Militar de Engenharia. 2 3 AGRADECIMENTOS À todas as pessoas que me incentivaram, me apoiaram e que de certa forma contribuíram para a realização desse trabalho. Em especial àquelas pessoas que despenderam de muita compreensão, carinho e paciência comigo. Aos meus pais, pela ajuda e orientação em todos os momentos da minha vida. Ao Professor Sérgio Neves Monteiro pelo apoio e orientação. À todos os amigos de Pós-Graduação, pela amizade e companheirismo, em especial, aos amigos do grupo de fibras naturais, Bruna Madeira, Renato Batista, Cap Thiago Milanezi e Verônica Scarpini pela ajuda e suporte. Ao CAEx, por disponibilizar instalações e pessoas qualificadas para a realização dos ensaios balísticos, em especial ao Ten Cel Malizia, Cap D’Megeon, Sgt Santiago, Sgt Furiati, Sgt Marcelo Alves e ao Sgt Machado, que possibilitaram a execução dos mesmos. Ao Cap Édio pelo suporte prestado nos testes balísticos. Ao SC Joel pelas análises em MEV. Aos professores da pós-graduação pelos ensinamentos e conhecimentos passados. À CAPES pelo incentivo financeiro para o desenvolvimento desse trabalho. 4 SUMÁRIO LISTA DE ILUSTRAÇÕES..................................................................................... 7 LISTA DE TABELAS.............................................................................................. 14 LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS........................................................... 16 1 INTRODUÇÃO............................................................................................. 20 1.1 Justificativa do Trabalho.............................................................................. 24 1.2 Objetivo do Estudo...................................................................................... 24 1.2.1 Objetivo Geral.............................................................................................. 24 1.2.2 Objetivo Específicos.................................................................................... 25 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA....................................................................... 26 2.1 Sistemas de Blindagens Balísticas.............................................................. 26 2.2 Fibras Naturais Lignocelulósicas................................................................. 30 2.2.1 Fibra de Juta................................................................................................ 36 2.2.2 Arranjos das FNLs e Aplicação em Proteção Balística............................... 39 2.2.3 Compósitos Poliméricos Reforçados com FNLs......................................... 42 2.2.4 Mecanismos de Fratura do Compósito Reforçado com Fibra..................... 47 2.3 Comportamento Dinâmico dos Materiais..................................................... 50 2.3.1 Interação e Reflexão de Ondas de Choque................................................ 55 3 MATERIAIS E MÉTODOS.......................................................................... 59 3.1 Aspectos Gerais.......................................................................................... 59 3.2 Preparação dos Corpos Cerâmicos............................................................. 59 3.2.1 Medições dos Corpos cerâmicos................................................................. 64 3.3 Fabricação do Compósito Epóxi-Juta.......................................................... 65 3.4 Montagem da Blindagem Multicamada....................................................... 69 5 3.5 Ensaios Balísticos........................................................................................ 70 3.6 Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV)............................................... 75 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO.................................................................. 77 4.1 Densificação e Retração Linear dos Corpos Cerâmicos............................. 77 4.2 Desempenho Balístico da Blindagem Multicamada.................................... 79 4.3 Desempenho Individual das Camadas do Sistema de Blindagem.............. 91 4.4 Interação das ondas de choque nas Blindagens Multicamada................... 95 4.5 Análise Fratográfica..................................................................................... 99 5 CONCLUSÕES............................................................................................ 108 6 SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS......................................... 110 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................... 111 6 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIG. 2.1 Sistema de blindagem multicamada (estrutura final do compósito): (a) esquemático; (b) utilizado no presente estudo.............................. 28 FIG. 2.2 Representação esquemática de uma fibrila (JOHN e THOMAS, 2008) (adaptado)................................................................................ 30 FIG. 2.3 Seções transversais típicas de FNLs: (a) sisal, (b) rami, (c) curauá, (d) juta, (e) bambu, (f) coco, (g) piaçava e (h) buriti (MONTEIRO et al, 2011).............................................................................................. 34 FIG. 2.4 Planta de juta (Disponível em: <http://panocru.com/pt/materias_primas.html>. Acesso em 16 de agosto de 2014).................................................................................. 37 FIG. 2.5 Ciclo de produção da juta: (a) Colheita; (b) Secagem; (c) Processamento; (d) Produto final (PIRES, 2009)............................... 38 FIG. 2.6 Diferentes tipos de arranjos de fibras: (a) simples; (b) sarja; (c) cetim; (d) cesta; e (e) leno (JOHN e THOMAS, 2008)........................ 40 FIG. 2.7 Gráfico de resistência à tração e módulo de resistência em função da carga em peso de tecido de juta no compósito. (MISHRA e BISWAS, 2013)(adaptado)................................................................. 46 FIG. 2.8 Gráfico de resistência à tração para os compósitos de epóxi (RAGHAVENDRA et al, 2014) (adaptado).......................................... 46 FIG. 2.9 Representação do mecanismo de dano por cisalhamento ou “Shear Plug” (ELLIS et al, 1998)..................................................................... 48 FIG. 2.10 Danos em um compósito polimérico laminado no impacto balístico: 7 (a) no momento do impacto; (b) na penetração (BHATNAGAR, 2006)................................................................................................... 49 FIG. 2.11 Micrografias em MEV do compósito de fibra de banana e amido de milho mostrando a fratura fibra e o pull out (SATYANARAYANA et al, 2009).............................................................................................. 49 FIG. 2.12 Curva tensão (σ) versus deformação (ε) (MEYERS, 1994) (adaptado)........................................................................................... 51 FIG. 2.13 Esquema de propagação da região impactada em um pistão de gás: (a) Antes do choque; (b) Após um tempo t1; (c) Após um tempo t2 > t1 (MEYERS, 1994).......................................................... 52 FIG. 2.14 Curva da probabilidade de perfuração (ZUKAS, 1982)...................... 54 FIG. 2.15 Transferência da onda de choque de um meio com baixa impedância para um meio de alta impedância: (a) Gráfico de Pressão versus Velocidade DE partícula; (b) Perfil de pressão (MEYERS, 1994)................................................................................ 57 FIG. 2.16 Transferência da onda de choque de um meio com alta impedância para um meio com baixa impedância: (a) Gráfico pressão versus velocidade de partícula; (b) Perfil de pressão (MEYERS, 1994)........ 58 FIG. 3.1 Esquema da blindagem multicamada fixada na parede de plastilina para o teste balístico........................................................................... 59 FIG. 3.2 Moinho de bolas Marconi, modelo MA 500......................................... 60 FIG. 3.3 Estufa da marca ELKA........................................................................ 61 FIG. 3.4 (a) almofariz e pistilo (b) Peneira com abertura de 0,355mm (#42)... 62 8 FIG. 3.5 (a) Balança analítica GEHAKA, modelo AG 200 (Disponível em: <http://www.gehaka.com.br/produtos/balancas>. Acesso em 16 de agosto de 2014); (b) Matriz de compactação..................................... 62 FIG. 3.6 Prensa hidráulica motorizada, NOWAK (Disponível em: <http://www.nowak.com.br/loja/prensas>. Acesso em 16 de agosto de 2014).............................................................................................. 63 FIG. 3.7 Forno INTI, modelo FE 1700.............................................................. 64 FIG. 3.8 Fibras de juta: (a) manta cardada; (b) tecido com trama simples (entremeado ortogonal e alternado)................................................... 66 FIG. 3.9 Matriz metálica utilizada na confecção das placas de compósito epóxi-fibra........................................................................................... 66 FIG. 3.10 Camada de fibra de juta: (a) manta; (b) tecido................................... 67 FIG. 3.11 Preparação da placa de compósito epóxi-juta: (a) aplicação da camada de graxa de silicone; (b) matriz envolvida com filme PVC; (c) disposição juta e epóxi dentro da matriz; (d) arranjo das fibras dentro da matriz (ex: manta); (e) matriz preenchida com metade das fibras; (f) prensagem da matriz na prensa SKAY de 15ton; (g) placa final do compósito epóxi reforçado com tecido de juta; e (h) placa final do compósito epóxi reforçado com manta de juta............. 68 FIG. 3.12 Placa de Alumínio............................................................................... 69 FIG. 3.13 Cola Cura Rápida, Marca ULTRAFLEX.............................................. 70 FIG. 3.14 Blindagem multicamada...................................................................... 70 9 FIG. 3.15 Armação do suporte de tiro totalmente preenchido com a plastilina, pronto para o ensaio........................................................................... 71 FIG. 3.16 Equipamentos para ajuste e verificação da densidade da plastilina: (a) Câmara quente, WEISS; e (b) Aparato utilizado para verificação da densidade...................................................................................... 72 FIG. 3.17 Munição 7,62mm................................................................................ 72 FIG. 3.18 (a) Provete calibre 7,62 mm com mira laser; e (b) Esquema do sistema utilizado com barreira óptica modelo B471 da HPI (SILVA, 2014)................................................................................................... 72 FIG. 3.19 (a) Ensaio de velocidade residual da placa do compósito epóxi-juta; (b) Radar Doppler, modelo SL-520P, fabricante WEIBEL.................. 73 FIG. 3.20 Sistema de blindagem multicamada fixado na plastilina. (a) Camada intermediária do compósito epóxi-tecido de juta; e (b) Camada intermediária do compósito epóxi-manta de juta.................. 74 FIG. 3.21 Microscópio eletrônico de varredura, modelo Quanta FEG 250, da FEI...................................................................................................... 76 FIG. 3.22 Sistema de deposição de filme de alto vácuo da marca LEICA, modelo EM ACE600........................................................................... 76 FIG. 4.1 Blindagem multicamada com tecido de aramida, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico....................................... 79 FIG. 4.2 Blindagem multicamada com compósito de epóxi reforçado com tecido de juta, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico............................................................................................... 79 10 FIG. 4.3 Blindagem multicamada com compósito de epóxi reforçado com manta de juta, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico............................................................................................... 80 FIG. 4.4 Medição da indentação causada na plastilina pelo impacto do projétil................................................................................................. 81 FIG. 4.5 Gráfico de distribuição de Weibull das indentações para as placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta............................ 84 FIG. 4.6 Gráfico de distribuição de Weibull do Grupo 1 das placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta............................ 85 FIG. 4.7 Gráfico de distribuição de Weibull do Grupo 2 das placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta............................ 86 FIG. 4.8 Gráfico de Weibull das indentações para as placas compósitas com tecido de juta....................................................................................... 89 FIG. 4.9 Gráfico de Weibull das indentações das blindagens com tecido de aramida............................................................................................... 89 FIG. 4.10 Gráfico de pontos experimentais do ensaio de velocidade residual do alumínio......................................................................................... 92 FIG. 4.11 Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para o compósito de tecido de juta....................................................................................... 93 FIG. 4.12 Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para o compósito de manta de juta...................................................................................... 93 FIG. 4.13 Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para a chapa de alumínio.............................................................................................. 94 11 FIG. 4.14 Esquema gráfico do casamento de impedâncias na blindagem com compósito epóxi-juta como camada intermediária.............................. 97 FIG. 4.15 Micrografia por MEV da fibra da manta de juta utilizada na fabricação do compósito. Aumento de 100x....................................... 100 FIG. 4.16 Micrografia por MEV da trama do tecido de juta com trançado grosseiro utilizado na fabricação do compósito. Aumento de 60x...... 100 FIG. 4.17 Micrografia por MEV: (a) Trama do tecido de aramida (100x); (b) Detalhe da fibra (1000x)..................................................................... 101 FIG. 4.18 Micrografia por MEV: (a) Fratura do compósito do tecido de juta (100x); (b) Partículas cerâmicas na superfície do compósito (1000x)................................................................................................ 102 FIG. 4.19 Micrografia por MEV do detalhe do fio da trama do tecido envolvido por epóxi (100x).................................................................................. 102 FIG. 4.20 Seção transversal da região danificada pelo impacto do projétil na placa compósita “porosa” de manta de juta........................................ 103 FIG. 4.21 Micrografia por MEV da região fraturada do compósito de manta de juta (100x)........................................................................................... 104 FIG. 4.22 Micrografia por MEV das partículas cerâmicas na superfície do compósito de manta de juta (1000x)................................................... 104 FIG. 4.23 Micrografia por MEV das partículas cerâmicas presas nas fibras de aramida (500x).................................................................................... 105 FIG. 4.24 Região de impacto do projétil na placa cerâmica............................... 105 12 FIG. 4.25 Fratura radial na região de impacto da camada cerâmica.................. 106 FIG. 4.26 Micrografia por MEV da cerâmica fraturada (5000x).......................... 107 13 LISTA DE TABELAS TAB. 2.1 Níveis de proteção............................................................................ 27 TAB. 2.2 Composição química e parâmetros estruturais de fibras naturais extraídas de caules........................................................................... 31 TAB. 2.3 Densidades e propriedades mecânicas de algumas fibras naturais e da aramida..................................................................................... 32 TAB. 2.4 Produção mundial das principais fibras comerciais.......................... 36 TAB. 2.5 Avaliação de peso e custo das camadas de uma multiblindagem... 39 TAB. 2.6 Propriedades mecânicas do compósito epóxi-juta e vidro-E............ 45 TAB. 3.1 Análise química da alumina.............................................................. 60 TAB. 3.2 Análise química da nióbia................................................................. 61 TAB. 3.3 Especificações do alumínio.............................................................. 69 TAB. 4.1 Valores de espessura do sinterizado, densidade, densificação e retração linear................................................................................... 77 TAB. 4.2 Profundidade da indentação na plastilina para as diferentes blindagens multicamada e condições de ensaio.............................. 81 TAB. 4.3 Valores médios obtidos no ensaio balístico...................................... 84 TAB. 4.4 Parâmetros de Weibull obtidos dos resultados balísticos das blindagens multicamadas com placa compósita reforçada com manta de juta.................................................................................... 87 14 TAB. 4.5 Volume estimado de vazios nas placas compósitas de epóxi- juta.. 87 TAB. 4.6 Relação de custo dos componentes utilizados na blindagem.......... 90 TAB. 4.7 Comparativo de custo e peso total das blindagens multicamada..... 90 TAB. 4.8 Valores das velocidades médias de impacto e residual, energia absorvida e velocidade limite para cada componente do sistema de blindagem multicamada............................................................... 95 TAB. 4.9 Valores da velocidade da onda de choque e dos parâmetros característicos de cada material....................................................... 96 TAB. 4.10 Valores do módulo de elasticidade e da onda elástica do compósito epóxi-juta......................................................................... 96 TAB. 4.11 Valores da velocidade de partícula, velocidade de onda de choque e pressão nas interfaces de cada componente da blindagem multicamada e a natureza da onda de choque................................. 98 TAB. 4.12 Natureza das ondas refletidas e impedância de choque nas interfaces da blindagem multicamada.............................................. 98 15 LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS ABREVIATURAS ABRABLIN Associação Brasileira de Blindagens CAEx Centro de Avaliações do Exército IME Instituto Militar de Engenharia MEV Microscópio Eletrônico de Varredura NIJ National Institute of Justice FNL Fibra Natural Lignocelulósica SÍMBOLOS S Constante do material ρ Densidade do material ρsint Densidade do material sinterizado Eabs Energia absorvida Vm Fração em volume da matriz Vf Fração em volume de fibra dσ/dε Inclinação da curva tensão versus deformação γ Índice adiabático Ef Módulo de elasticidade da fibra Ejuta Módulo de elasticidade da juta Em Módulo de elasticidade da matriz 16 Ecp Módulo de elasticidade do compósito Eepóxi Módulo de elasticidade do epóxi β Módulo de Weibull P Pressão θ Unidade característica Us Velocidade da onda de choque Co Velocidade da onda elástica Vp Velocidade da onda plástica Vi Velocidade de impacto Up Velocidade de partícula C Velocidade do som no material VL Velocidade limite Vr Velocidade residual V Volume específico 17 RESUMO Em sistemas de blindagem balística de alto desempenho, normalmente, são empregados diferentes tipos de materiais dispostos em várias camadas formando um sistema multicamada. Atualmente, sistemas de blindagem multicamadas contra munição de alta velocidade são compostos por um revestimento cerâmico seguido por um tecido de aramida. Neste sistema, a cerâmica tem como função destruir a frente do projétil e dissipar grande parte da energia através da sua fragmentação e o tecido de aramida tem o papel de dissipar a energia cinética dos fragmentos produzidos. No presente trabalho, o tecido de aramida foi comparado por substituição com uma camada de compósito, de igual espessura, de epóxi reforçado com fibra de juta em duas diferentes configurações, tecido e manta cardada. Ensaios de impacto balístico com munição de calibre 7,62 mm, com alta velocidade de impacto (>800 m/s), mostraram que os compósitos reforçados com fibras de juta, tanto na configuração de tecido quanto na forma de manta, atenderam a norma internacional NIJ para proteção individual. O mecanismo de proteção do compósito de fibra de juta foi analisado por microscopia eletrônica de varredura. Os resultados apontam que tanto a ruptura frágil da matriz de epóxi quanto a interação das fibras de juta com os fragmentos da camada cerâmica contribuem para dissipar a energia de impacto de entrada. A profundidade de deformação da plastilina foi usada como critério de absorção de energia e eficiência balística. Os resultados dos testes balísticos mostraram que a profundidade média de deformação da plastilina foi de 22,67 milímetros, 20,67 milímetros e 17,51 milímetros para o tecido de aramida e os compósitos reforçados com fibra de juta, na configuração de tecido e manta, respectivamente. Os resultados indicaram que o compósito reforçado com manta de juta é o componente potencialmente mais eficaz em uma blindagem multicamada para proteção balística de munição de 7,62 mm em comparação com o tecido de aramida usado como segunda camada. Ensaios balísticos individuais, utilizando a mesma munição 7,62 mm, nos diferentes componentes da blindagem multicamada confirmaram o melhor desempenho dos compósitos de tecido e manta de juta comparativamente com o tecido de aramida. Palavras-chave: teste de balístico, blindagens multicamadas, compósito de fibra de juta, análise de penetração da munição. 18 ABSTRACT High performance ballistic armor systems may typically employed several types of materials arranged in multiple layers forming a multilayer system. Nowadays, multilayered armors against high speed ammunition are usually composed of a front ceramic layer followed by aramid fabric. In these armors, the ceramic layer aims to erode the bullet and dissipate energy through fragmentation while the aramid fabric has the role to dissipate the kinetic energy of the fragments. In the present work, the aramid fabric layer was compared to and replaced by an equal thickness layer of jute reinforced epoxy composite in two different configurations, fabric and carded sliver mat. Ballistic impact tests with high speed (>800 m/s) 7.62 mm caliber ammunition showed that the jute fabric composite, in both configurations, attended the NIJ standard for body protection. The mechanism of both aramid fabric and jute fabric composite protection was analyzed by scanning electron microscopy. The results indicate that both the rupture of the brittle epoxy matrix and the interaction of the jute fibers with the fragments from the front layer contribute to dissipate the incoming impact energy. Clay witness deformation depth was used as criterion of energy absorption and ballistic performance. The ballistic tests results showed clay witness average deformation depths of 22,67, 20,67 and 17,51 mm for aramid fabric and jute fiber composite, fabric and carded sliver mat of jute, respectively. The results indicated the composite reinforced with carded sliver mat of jute is potentially a more effective component in a multilayered armor for 7.62 mm for ballistic protection, in comparison with the aramid fabric used as second layer. Individual ballistic tests, using the same 7.62 mm ammunition, for the different multilayered armor components confirmed the superior performance of the fabric and mat jute reinforced epoxy composites as compared with the aramid fabric. Keywords: Ballistic test, multilayered armor, jute fiber composite, bullet penetration analysis. 19 1 INTRODUÇÃO Segundo a Associação Brasileira de Blindagem (ABRABLIN, 2014), a blindagem balística pode ser definida como uma proteção existente contra projéteis balísticos, concebida ou incorporada a pessoas, automóveis, veículos de transportes de valores, veículos militares, fachadas e edificações. O surgimento e o crescimento de conflitos armados e guerras pelo mundo provocaram grandes alterações nas características do tipo de armamento utilizado, com artefatos e munições mais evoluídos. Isso têm impulsionado a busca, através da pesquisa e do desenvolvimento de novos materiais para emprego em blindagens balísticas, de modo a otimizar sua eficiência. Esta busca estende-se em vários países do mundo, inclusive no Brasil. A grande demanda por este tipo de blindagem decorre principalmente das necessidades do Exército Brasileiro, bem como das demais Forças Armadas e Auxiliares do Brasil, em função da necessidade de coletes contra munições de diversos calibres desde 0,38 mm de baixa velocidade de impacto (<300 m/s) até o calibre 7,62x51 mm de alta velocidade de impacto (>800 m/s) bem como de blindagem para viaturas leves contra munições ainda mais pesadas. Na presente dissertação será utilizada somente a munição de 7,62x51 mm, aqui referido como calibre 7,62 mm. Em aplicações militares, as blindagens estão compromissadas com os seguintes fatores de igual importância, que são a mobilidade, a resistência à penetração e a alta absorção de impacto. O aumento do poder de penetração das munições implica no aumento do peso da blindagem, que diminui a mobilidade. Uma camada única de aço (BORVIK et al, 1999), por exemplo, apenas fornecerá a proteção necessária se sua espessura for relativamente grande, o que acaba comprometendo o peso da blindagem e consequentemente, sua mobilidade. Portanto, torna-se necessário buscar novas soluções de engenharia para melhorar a proteção dos alvos. Neste contexto, as blindagens com componentes cerâmicos aliados a outros materiais, como compósitos poliméricos, são empregadas quando se deseja uma boa relação peso/proteção balística. Por isso, sistemas de blindagens multicamadas, os quais 20 combinam materiais mais leves estão sendo amplamente investigados (ABRATE, 1998; MEDVEDOVSKI, 2006; TASDEMIRCI, TUNUSOGLU e GUDEN, 2012) e aplicados como proteção balística individual (coletes). Esse sistema tem como função, não apenas absorver o impacto, mas também evitar a penetração de fragmentos (BROWN, 2003). Embora o desejo de melhorar a proteção balística continue a impulsionar o desenvolvimento de novos materiais, o custo de produção é um fator limitador neste mercado. Assim, um colete balístico deve ter como características a leveza, o baixo custo e resistência ao impacto (LEE, WETZEL e WAGNER, 2003). De acordo com a norma internacional de Resistência Balística de Blindagem Corporal (NIJ 0101.04, 2000), a blindagem balística é considerada eficiente quando a maior profundidade do trauma (indentação) no material apoiado atrás da blindagem, plastilina, for igual ou inferior a 44 mm. Uma penetração de profundidade superior a este valor pode causar trauma grave e até letal para o usuário da blindagem (BAZHENOV, 1997). De modo geral, os sistemas de blindagem multicamada são constituídos por uma camada frontal de cerâmica por se tratar de um material frágil e duro, com elevada resistência à compressão, que tem a capacidade de deformar e destruir a frente do projétil (ANDERSON e MORRIS, 1992; SHOKRIEH e JAVADPOUR, 2008; MEDVEDOVSKI, 2010). Uma grande parte da energia é dissipada através da fragmentação dinâmica tanto do projétil quanto da frágil camada cerâmica. Esta fragmentação envolve fenômenos como nucleação, crescimento e coalescência de micro trincas (LOURO e MEYERS, 1989). Quando um projétil de alta energia atinge o revestimento frontal de cerâmica é gerada uma onda de compressão que se propaga e atinge a parte posterior da camada (ABRATE, 2003). Em seguida, uma parcela dessa onda é refletida como um pulso de tração que rompe a cerâmica sem sofrer qualquer influência do material da camada subsequente (TASDEMIRCI, TUNUSOGLU e GUDEN, 2012). O material da camada seguinte à cerâmica pode ser selecionado como um material mais leve que tem como finalidade reduzir outra parcela de energia de impacto através da absorção da energia cinética dos fragmentos gerados tanto pelo projétil quanto pela cerâmica. Para esta camada subsequente, inicialmente, compósitos de fibras de vidro foram selecionados (CHOU et al, 1998; D’ALMEIDA, NUNES e PACIORNIK, 21 2004) e compósitos de fibras de carbono foram investigados (VAIDYA, ULVEN e HOSUR, 2003; HOSUR et al, 2004). Atualmente, outros materiais conquistaram seu espaço em aplicações para blindagens de proteção individual, tais como os tecidos de aramida Kevlar® e Twaron® (JACOBS e DINGENEN, 2001; LEE, WETZEL e WAGNER, 2003) e as fibras de polietileno de ultra alto peso molecular, como Spectra® e Dyneema® (LEE, SONG e WARD, 1994; MORYE et al, 2000). Esses compósitos têm como objetivo absorver a energia proveniente dos fragmentos gerados pela cerâmica e pelo projétil, através de mecanismos como, descolamento do tecido da matriz, estiramento da fibra, deformação por flexão e ruptura da fibra. Nesse sistema multicamada pode-se também adicionar uma terceira camada de um metal dúctil, que tem como função restringir a penetração do projétil e dos fragmentos gerados através da sua deformação plástica. Nos sistemas multicamadas a propagação de pulsos de energia nas interfaces entre diferentes materiais se dará na forma de uma onda de compressão que será refletida como uma onda trativa ou compressiva, isso dependerá das impedâncias das camadas. A impedância de choque de um material está diretamente relacionada com a sua densidade (MEYERS, 1994). Se o material da segunda camada possui impedância de choque menor do que o material da primeira camada, a energia transmitida pelo pulso de compressão atuante será menor. Portanto, para uma redução maior na energia de impacto, a segunda camada pode ser composta de materiais mais leves, pois estes apresentam menor impedância de choque. Por isso, um sistema de blindagem multicamadas é comumente constituído por um revestimento frontal de cerâmica, geralmente Al2O3 que possui densidade em torno de 3,7 g/cm³, uma camada intermediária de compósito de fibra de aramida com 1,4 g/cm³ de densidade, seguida por uma chapa de metal dúctil, alumínio, com densidade de 2,7 g/cm³ (CALLISTER e RETHWISH, 2010). Logo, a substituição do compósito da camada intermediária por um compósito reforçado com outro tipo de fibra de densidade ainda menor deve, em princípio, aumentar a absorção da energia de impacto. Fibras naturais poderiam cumprir esse papel. Atualmente, é crescente a busca para se substituir materiais sintéticos por materiais ambientalmente corretos, que tragam benefícios não só técnicos e ambientais, mas também econômicos e sociais. E é nesse cenário que entra a fibra 22 natural obtida a partir de plantas, também conhecida como Fibra Natural Lignocelulósica (FNL), que tem sua aplicação motivada por diversas vantagens, tais como, menor densidade, menor custo, menor desgaste de equipamento para seu processamento e maior flexibilidade (MONTEIRO et al, 2011), o que a torna uma potencial candidata para a utilização como reforço de compósitos poliméricos mais leves. Recentemente, compósitos poliméricos reforçados com FNL têm sido intensamente estudados (JOHN e THOMAS, 2008; MONTEIRO et al, 2009; SATYANARAYANA, ARIZAGA e WYPYCH, 2009; FARUK et al, 2012; MISHRA e BISWAS, 2013; RAGHAVENDRA, 2014) e aplicados em vários setores de engenharia, principalmente na indústria automotiva (HOLBERY e HOUSTON, 2006; ZAH et al, 2007; NJUGUNA et al, 2011). O Brasil é um dos maiores produtores de FNLs do mundo, o que o torna um potencial destaque internacional na pesquisa, produção industrial e aplicação destas fibras. Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE, 2010), desde 2005, houve um crescimento em volume de 5,5% ao ano no mercado interno nacional de fibras naturais, tanto em materiais avançados, quanto substituindo fibras sintéticas em aplicações convencionais. Sendo assim, o estudo dos benefícios e do desempenho balístico de materiais a base de FNLs, em conjunto, na forma de um sistema de blindagem multicamada, se torna interessante e pode contribuir com os avanços da tecnologia de defesa militar. Um dos primeiros estudos realizados sobre as propriedades balísticas de compósitos poliméricos reforçados com FNLs foi a pesquisa de Wambua et al (2007) que consistia na avaliação do limite balístico V50 em função da densidade e espessura do compósito. Os compósitos analisados possuíam matriz de polipropileno reforçado com 46% em volume de diferentes fibras naturais, linho, cânhamo ou tecido de juta. Wambua et al (2007) apesar de relatarem informações significativas referentes à velocidade de impacto balístico e energia relacionada com compósitos de fibra natural, não tinham como objetivo a análise do desempenho do seu sistema como uma blindagem de proteção individual. No presente trabalho, foi realizada a avaliação do desempenho balístico de blindagens multicamadas através da penetração na plastilina, material que simula a consistência do corpo humano. Esse sistema de blindagem é constituído de uma camada frontal de cerâmica (Al2O3), seguida de um compósito de epóxi reforçado 23 com fibras de juta em duas configurações (tecido e manta) e uma placa de alumínio. O desempenho balístico destas blindagens foi comparado com as de uma blindagem convencional com tecido de aramida. Foi avaliada também a contribuição de cada material através de testes balísticos individuais e analisado os aspectos de fratura por microscopia eletrônica de varredura. 1.1 JUSTIFICATIVA DO TRABALHO Atualmente, a busca de materiais alternativos para melhorar as proteções balísticas está cada vez mais crescente. Quando se pretende obter uma relação peso/proteção balística, blindagens multicamada que combinam componentes cerâmicos com materiais mais leves, como compósitos poliméricos, estão sendo muito utilizados e amplamente investigados. É nesse contexto que entram os compósitos poliméricos reforçados com FNLs, que apresentam menores densidades aliado ao baixo custo e apelo ambiental, por se tratar de um material biodegradável e um recurso renovável. Sendo assim, o estudo do desempenho balístico desses novos materiais se torna interessante e pode contribuir com os avanços da tecnologia de defesa militar. Justifica-se também este estudo pelo fato das blindagens convencionais a base de tecido de aramida envolverem um material importado e com prazo limitado de vida operacional. Estes fatores de vulnerabilidade tecnológica poderiam ser resolvidos pelo Exército Brasileiro com materiais abundantes em nosso território. 1.2 OBJETIVO DO ESTUDO 1.2.1 Objetivo Geral 24 O objetivo do presente trabalho é avaliar e comparar o comportamento balístico de sistemas de blindagem multicamada voltado à proteção balística individual, fabricados com três diferentes tipos de materiais como camada intermediária: tecido de aramida, comumente usado nesse tipo de proteção; compósito de epóxi reforçado com tecido de juta; e compósito de epóxi e manta de juta. O presente trabalho tem como finalidade traçar um comparativo entre o desempenho balístico apresentado por esses três materiais e propor a utilização desse tipo de compósito como um material alternativo para substituir o tecido de aramida, de uso convencional em blindagens multicamadas. 1.2.2 Objetivos específicos Os objetivos específicos do presente trabalho estão relacionados abaixo: 1) Verificar se a eficiência balística para cada material testado como camada intermediária da blindagem multicamada, tecido de aramida e os compósitos de epóxi-juta, atendem a norma internacional NIJ 0101.04 (2000). 2) Comparar o desempenho balístico dos três materiais utilizados como camada intermediária, assim como, o peso e o custo dos sistemas de blindagem multicamada utilizando esses materiais. 3) Comparar o desempenho individual através da velocidade limite de cada material utilizado como camada intermediária. 4) Comparar as energias cinéticas absorvidas individualmente e associar com o desempenho balístico das placas de compósito epóxi-juta e os resultados obtidos por Silva (2014) para o compósito de epóxi reforçado com 30% de curauá. 5) Associar o desempenho balístico com a impedância dos materiais testados como camada intermediária. 6) Analisar as superfícies fraturadas nos ensaios balísticos através de observações em microscópio eletrônico de varredura com o intuito de verificar os mecanismos de absorção de energia. 25 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 SISTEMAS DE BLINDAGENS BALÍSTICAS Durante a última década, diversos estudos foram focados no desenvolvimento de sistemas de blindagens leves e seu desempenho balístico para uso individual, em veículos e aplicações estruturais (ABRATE, 1998; MEDVEDOVSKI, 2006; TASDEMIRCI, TUNUSOGLU e GUDEN, 2012). A cerâmica avançada é um dos componentes principais desses sistemas de blindagem, e tem como função destruir a frente do projétil e absorver grande parte da energia proveniente do impacto. Os mecanismos de proteção balística desempenhado pela cerâmica e pelo metal são muito diferentes, pois a blindagem metálica absorve a energia do projétil através da deformação plástica, já a cerâmica, dissipa a energia cinética do projétil através da fratura e fragmentação. Os sistemas de blindagem mais eficientes são compostos, de forma geral, por camadas de diferentes materiais. A blindagem contra munições de alto impacto, normalmente, é constituída por uma placa frontal de cerâmica ou por um compósito cerâmica-metal que podem ser cobertos por uma camada de fibra de elevada resistência à tração, tais como, Kevlar®, Twaron®, Spectra®, Dyneema®, e também colocado na parte posterior dessas placas. Além disso, pode ser utilizado como um material de suporte, metais leves (por exemplo, chapas finas de alumínio). Materiais, de menor rigidez, presentes na blindagem tem como função proteger o sistema contra possíveis danos associados com vibrações (MEDVEDOVSKI, 2010). Diferentes materiais cerâmicos são comumente usados para proteção balística, dentre eles, estão o óxido de alumínio (alumina - Al2O3), o carbeto de silício, o carbeto de boro, assim como, nitretos e boretos. Embora a alumina possua uma densidade relativamente alta (>3,95 g/cm³) quando comparada com as demais cerâmicas, estas são comumente utilizadas em blindagens balísticas devido à boa relação custo/benefício, pois apresenta menor custo e propriedades físicas relativamente elevadas, além de possuir uma produção bem consolidada. 26 (MEDVEDOVSKI, 2010). A avaliação do desempenho de uma proteção balística de uso do Exército e Forças Auxiliares segue padrões internacionais, como os estabelecidos pelo Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos (NIJ – National Institute of Justice) que classifica a blindagem em diferentes níveis de acordo com o tipo de calibre que essa fornece proteção. A TAB. 2.1 mostra os diferentes níveis de proteção ao impacto em função do calibre, da massa e da velocidade do projétil. TAB. 2.1 - Níveis de proteção. Nível Calibre Massa (g) Velocidade mínima do projétil (m/s) I .22 LR .38 SPL 2,6 10,2 310 239 II-A 9 mm 357 Mag 8 10,2 320 369 II 9 mm 357 Mag 8 10,2 343 410 III-A 9 mm .44 Mag 8 15,6 411 411 III 7,62 x 51 9,7 823 IV .30-06 10,8 853 Fonte: Adaptado da NIJ 0101.04 (2000). A FIG. 2.1 apresenta o sistema de blindagem multicamada utilizado no presente trabalho, que consiste na seguinte configuração: camada frontal de cerâmica, que tem como função deformar/destruir a frente do projétil e absorver grande parte da energia; camada intermediária de compósito de epóxi reforçado com fibra de juta, para dissipar a energia cinética dos fragmentos gerados tanto pelo projétil quanto pelo material cerâmico e capturá-los; e uma camada final de alumínio, para absorver a energia residual através da sua deformação plástica. O sistema de blindagem multicamada produzido no presente trabalho objetiva a proteção contra munições de alta velocidade (calibre 7,62mm), ou seja, essa blindagem classifica-se como nível III de acordo com a TAB. 2.1. 27 (a) (b) FIG. 2.1 - Sistema de blindagem multicamada (estrutura final do compósito): (a) esquemático; (b) utilizado no presente estudo. A propagação de trincas pode ser influenciada pela natureza e pela espessura da blindagem balística, sendo importante para seu desempenho. Quanto a natureza, características como a elevada resistência à compressão dinâmica e baixa densidade fazem com que os materiais cerâmicos sejam muito aplicados em sistemas de proteção balística (LOURO, LINDFORS e MEYERS, 1988). Com o impacto do projétil na camada cerâmica uma onda de choque compressiva é gerada e propaga-se nessa camada. Quando esta onda de choque atinge a superfície livre ocorre a reflexão na forma de uma onda trativa que pode fraturar o material cerâmico se sua magnitude for maior que a resistência à tração dinâmica da cerâmica. Após o impacto inicial, são formadas trincas radiais em toda a cerâmica. A presença de aditivos pode alterar os mecanismos de fratura do material cerâmico. Por exemplo, a nióbia (Nb2O5), utilizada como aditivo da alumina no presente trabalho, faz com que o mecanismo de fratura da alumina passe de transgranular para intergranular devido à formação de precipitados nos contornos de grãos da alumina. Isso aumenta a absorção de energia durante o impacto (MADHU et al, 2005). Em um sistema de blindagem multicamada, a quantidade de ondas de tensão que será transmitida é determinada pela impedância das camadas 28 subsequentes (KRISHNAN et al, 2010). No caso da utilização de materiais dúcteis em um sistema de blindagem multicamada, esses absorverão a energia cinética dos fragmentos do projétil e do material cerâmico através de sua deformação plástica. Quanto a espessura, uma configuração com placa cerâmica, de espessura entre 7mm e 10mm, seguida por camadas de tecidos, como a aramida, podem ser eficientes contra uma série de munições. Isso irá depender do nível balístico, do tipo de tecido e do desempenho do componente cerâmico. De forma geral, quanto menor a espessura da camada cerâmica maior será a espessura necessária da camada subsequente para fornecer a proteção adequada. Em projeto mais complexos ou que exijam maior desempenho balístico são utilizada camadas adicionais de diferentes materiais que podem ser colocadas tanto na frente da placa cerâmica quanto, como no caso do tecido de aramida, em camadas posteriores (MEDVEDOVSKI, 2006). Em recente trabalho científico (MONTEIRO et al, 2014) foi comunicado que o tecido de aramida seguindo a cerâmica frontal em blindagem multicamada é capaz de dissipar cerca de 36% da energia de impacto do projétil da munição calibre 7,62 mm. Individualmente, com esta mesma munição, o tecido de aramida dissipa menos de 2% da energia de impacto. Este comportamento é devido ao mecanismo de absorção de energia cinética da nuvem de fragmentos após impacto do projétil com a cerâmica. Diferente do mecanismo de ruptura das fibras de aramida no ensaio individual, o da captura dos fragmentos por incrustação mecânica associada à forças de Van der Waals e atração eletrostática, aparenta ser muito mais eficiente contra munição 7,62 mm de alta velocidade caso seja colocado após a cerâmica em uma blindagem multicamada. Com o objetivo de reduzir peso e custo do sistema de blindagem multicamada comumente utilizado, no presente trabalho, o tecido de aramida foi substituído por uma camada de compósito, de igual espessura, de epóxi reforçado com a FNL. Na fabricação desse compósito, a fibra utilizada foi a fibra de juta em duas diferentes configurações, tecido e manta cardada, com a finalidade de traçar um comparativo com o desempenho balístico da blindagem constituída de aramida e a influência dessas diferentes configurações no desempenho balístico. 29 2.2 FIBRAS NATURAIS LIGNOCELULÓSICAS As fibras podem ser classificadas em diversos grupos, sendo os dois principais grupos: fibras naturais e sintéticas. Ainda, as fibras naturais podem ser agrupadas de acordo com sua origem; seja vegetal (lignocelulósica), animal ou mineral. As fibras naturais lignocelulósicas (FNLs) recebem esse nome devido a predominância de lignina e celulose na sua estrutura (EICHHORN et al, 2001; JOHN e THOMAS, 2008). Uma única fibra de uma planta é um composto natural complexo constituído por várias células (BLEDSKI e GASSAN, 1999; MONTEIRO et al, 2011). Essas fibras consistem basicamente em fibrilas de celulose semicristalina incorporadas em uma matriz de hemicelulose e lignina (JOHN e THOMAS, 2008). A lignina é um ligante amorfo, hidrofóbico, de alto grau de polimerização, que compreende compostos aromáticos e alifáticos, e pode ser diluída em soluções alcalinas. Esta é responsável por conferir rigidez às plantas. Enquanto que a hemicelulose é hidrofílica e consiste em polissacáridos que são facilmente hidrolisados em ácidos, porém, permanecem associados com a celulose, mesmo depois da remoção da lignina (BLEDSKI e GASSAN, 1999; MONTEIRO et al, 2011). Uma rede tridimensional é formada pelas ligações de pontes de hidrogênio entre a matriz de hemicelulose e as fibrilas. Entre essa rede de hemicelulose e fibrila, a lignina se intercala formando uma nova rede. A FIG. 2.2 ilustra o esquema de uma fibrila. FIG. 2.2 - Representação esquemática de uma fibrila (JOHN e THOMAS, 2008) (adaptado). 30 Conforme a FIG. 2.2 tem-se que a fibrila possui uma estrutura complexa, constituída de parede primária, secundária e terciária, sendo a parede secundária é subdividida em três camadas, nas quais as microfibrilas estão arranjadas de forma helicoidal. O ângulo formado entre o eixo da fibra e as microfibrilas é chamado o ângulo microfibrilar e varia de uma fibra para outra, assim como, a razão entre celulose e lignina/hemicelulose. Por isso, cada FNL apresenta propriedades distintas, pois suas propriedades mecânicas são determinadas por estes parâmetros estruturais (JOHN e THOMAS, 2008; SATYANARAYANA et al, 1990). A TAB. 2.2 apresenta a composição química e os parâmetros estruturais de algumas fibras naturais extraídas de caules. Trabalhos anteriores mostram a influência da variação desses parâmetros nos mecanismos de fratura de fibras de coco, palmyra, abacaxi e banana (SATYANARAYANA et al, 1990). Satyanarayana et al (1990) constataram que as fibras, como as fibras de coco e de palmyra, que exibem um baixo teor de celulose e um alto ângulo microfibrilar apresentaram uma fratura de modo intracelular (pull-out de microfibrilas), enquanto as fibras como banana e abacaxi, com alto teor de celulose e baixo ângulo microfibrilar, apresentaram fratura do tipo intercelular e o pull-out de microfibrilas não é observado. TAB. 2.2 - Composição química e parâmetros estruturais de fibras naturais extraídas de caules. Fibra Celulose (%p) Lignina (%p) Hemicelulose (%p) Ângulo microfibrilar Umidade (%p) Referências Juta 61 - 71,5 12 - 13 13,6 - 20,4 8 12,6 BLEDZKI e GASSAN, 1999; HON, 1992 Linho 71 2,2 18,6 - 20,6 10 10 BLEDZKI e GASSAN, 1999; HON, 1992 Cânhamo 70,2 - 74,4 3,7 - 5,7 17,9 - 22,4 6,2 10,8 BLEDZKI e GASSAN, 1999; HON, 1992 Rami 68,6 - 76,2 0,6 - 0,7 13,1 - 16,7 7,5 8 BLEDZKI e GASSAN, 1999; HON, 1992; WUPPERTAL, 1981 Kenaf 31 – 39 15 - 19 21,5 - - HON, 1992; ROWELL, 1992 31 A TAB. 2.3 mostra algumas propriedades mecânicas e a densidades para algumas FNLs e também para a aramida, fibra sintética essa convencionalmente utilizada em diversas aplicações. Através da TAB. 2.3 pode-se observar a diferença entre as fibras naturais e a aramida, principalmente em sua resistência à tração. O intervalo de valores para cada fibra corresponde aos limites máximos e mínimos obtidos nas referências. As propriedades dessas fibras se diferem entre os trabalhos citados, pois estas fibras provavelmente foram submetidas a diferentes condições de umidade, processamento e diferentes métodos de ensaio. Ao contrário das fibras sintéticas, as fibras naturais não possuem propriedades uniformes, são microestruturalmente heterogêneas e têm limitação dimensional. Uma mesma espécie de fibra pode ter suas propriedades afetadas consideravelmente dependendo da sua origem e qualidade na planta, da idade da planta e seu pré-condicionamento (MOHANTY, MISRA e HINRICHSEN, 2000; FARUK et al, 2012). TAB. 2.3 – Densidades e propriedades mecânicas de algumas fibras naturais e da aramida. Fibra Densidade ρ (g/cm³) Resistência à tração σ (Mpa) Módulo de Young (Gpa) Referências Bagaço 0,34 a 0,49 135 a 222 15 a 17 SATYANARAYANA et al, 2007 Bambu 1,03 a 1,21 106 a 204 - MONTEIRO et al, 2011 Curauá 0,57 a 0,92 117 a 3000 27 a 80 SATYANARAYANA et al, 2007; MONTEIRO et al, 2011 Cânhamo 1,07 389 a 690 35 NABI SAHED e JOG, 1999; EICHHORN, 2001 Juta 1,30 a 1,45 393 a 800 13 a 27 BLEDZKI e GASSAN, 1999; NABI SAHED e JOG, 1999; SATYANARAYANA et al, 2007; MONTEIRO et al, 2011 Linho 1,30 a 1,50 344 a 1035 26 a 28 BLEDZKI e GASSAN, 1999; EICHHORN, 2001 61 a 128 BLEDZKI e GASSAN, 1999; MOHANTY et al, 2000; EICHHORN, 2001; SATYANARAYANA et al, 2007; MONTEIRO, 2011 Rami 1,5 400 a 1620 32 Fibra Densidade ρ (g/cm³) Resistência à tração σ (Mpa) Módulo de Young (Gpa) Referências Sisal 1,26 a 1,50 287 a 913 9 a 28 BLEDZKI e GASSAN, 1999; NABI SAHED e JOG, 1999; MOHANTY et al, 2000; EICHHORN, 2001; SATYANARAYANA et al, 2007; MONTEIRO et al, 2011 Aramida 1,44 3000 a 4100 63 a 131 KLASON et al, 1984; BLEDZKI e GASSAN, 1999 Alguns artigos de revisão (MONTEIRO et al, 2011; FARUK et al, 2012) apontam que a cristalinidade da fibra tende a diminuir à medida que a planta amadurece e que a resistência mecânica e a rigidez da FNL estão correlacionadas com o ângulo microfibrilar, de modo que para pequenos ângulos, propriedades mecânicas superiores são obtidas e podem ser melhoradas com a modificação de superfície da fibra. Outro aspecto das FNLs é a variação considerável do diâmetro ao longo do comprimento dos filamentos individuais e a excentricidade, o que também impacta na não uniformidade das propriedades (MONTEIRO et al, 2011). A FIG. 2.3 apresenta as seções transversais típicas de algumas FNLs. Heterogeneidades e defeitos existem nas direções longitudinal e transversal da fibra. Isto é a principal razão para as fibras mais finas serem mais resistentes, pois em seções retas menores a densidade de defeitos e irregularidades é bem menor tanto na superfície quanto no volume da fibra (MONTEIRO, 2011). 33 FIG. 2.3 - Seções transversais típicas de FNLs: (a) sisal, (b) rami, (c) curauá, (d) juta, (e) bambu, (f) coco, (g) piaçava e (h) buriti (MONTEIRO et al, 2011). Outra diferença entre a FNL e a sintética é a interação com a água. Devido à presença dos grupos hidroxila as FNLs são hidrofílicas apresentando, assim, grande afinidade com a umidade ambiente (BLEDSKI e GASSAN, 1999). Esse teor de umidade pode variar entre 5% e 10% (NABI SAHED e JOG, 1999). A água sobre a superfície da fibra age como um agente de separação na interface de uma matriz polimérica hidrofóbica, que é caso da maioria das resinas empregadas nos compósitos. Ainda, devido à evaporação da água, podem aparecer 34 vazios na matriz, gerando perda de propriedades mecânicas. Uma solução para reduzir o teor de umidade e melhorar a adesão interfacial é a secagem da FNL e pré-tratamento das fibras, através de modificação química da superfície (BLEDSKI e GASSAN, 1999; MOHANTY, MISRA e HINRICHSEN, 2000; MONTEIRO et al, 2011). O pré-tratamento pode aumentar a rugosidade da superfície, o que contribui para uma adesão na matriz polimérica. Porém, algumas FNLs já apresentam uma rugosidade considerável sem tratamento e, neste caso, o pré-tratamento químicos pode degradar a fibra e prejudicar o reforço da matriz (MONTEIRO et al, 2011). Nestas últimas décadas um número crescente de artigos científicos, já ultrapassando o milhar, têm sido dedicados ao estudo das FNLs e seus compostos poliméricos. Vai além do escopo desta dissertação analisá-los individualmente o que vem sendo feito em diversos artigos de revisão (SATYANARAYANA et al, 1990; BLEDZKI, REIHMANE e GASSAN, 1996; BLEDZKI e GASSAN, 1999; NABI SAHED e JOG, 1999; MOHANTY, MISRA e HINRICHSEN, 2000; EICHHORN et al, 2001; MOHANTY, MISRA e DRZAL, 2002; NETRAVALI e CHABBA, 2003; CROCKER, 2008; JOHN e THOMAS, 2008; SATYANARAYANA, ARIZAGA e WYPYCH, 2009; MONTEIRO et al, 2009; MONTEIRO et al, 2011; KALIA et al, 2011; FARUK et al, 2012; THAKUR et al, 2014). Dentre as fibras citadas anteriormente, a fibra de juta tem sido bastante investigada atualmente como reforço de compósitos poliméricos (MOHANTY, KHAN e HINRICHSEN, 2000; RAY et al, 2002; SOYKEABKAEW, SUPAPHOL e RUJIRAVAMIT, 2004; KUMAR, SINGH e SARWADE, 2005; DOAN, GAO e MÄDER, 2006; MOHANTY, VERMA e NAYAK, 2006; MONTEIRO et al, 2006; ALVES et al, 2010; DOAN et al, 2012; PINTO et al, 2013; MISHRA e BISWAS, 2013; HACHEMANE et al, 2013; HOSSAIN et al, 2013; RAGHAVENDRA et al, 2014) devido sua boa relação em resistência mecânica e peso e por ser uma das fibras de menor custo. Esta fibra foi selecionada para a utilização como reforço na fabricação de compósito de matriz polimérica proposto no presente trabalho. 35 2.2.1 FIBRA DE JUTA Em diversos setores da indústria é crescente a tendência de substituição de fibras sintéticas por fibras naturais lignocelulósicas (FNLs), isto se deve ao fato destas apresentarem um custo relativamente baixo, baixa densidade, serem provenientes de fontes renováveis e serem biodegradáveis (EICHHORN et al, 2001). Um exemplo de aplicação é na indústria automotiva, a qual vem utilizando diferentes tipos de FNLs na fabricação de alguns componentes internos dos carros; como a Mercedes-Benz que utiliza fibras de banana no modelo Classe A (JOHN e THOMAS, 2008). De acordo com Bledzki e Gassan (1999) e Faruk et al (2012), podem-se classificar as FNLs nos seguintes tipos básicos, conforme sua localização na planta, sendo: fibras de caule, fibras de folhas, fibras de sementes, fibras do núcleo (floema), fibras de grama e cana (trigo, milho e arroz) e os outros tipos (madeira e raízes). A juta (Corchorus Capsularis), pertence à família Tilioideae, é originária da Índia e uma das fibras naturais mais baratas. Atualmente, é considerada a fibra de caule com o maior volume de produção (TAB. 2.4), tida como a fibra de ouro da Índia e Bangladesh. TAB. 2.4 - Produção mundial das principais fibras comerciais. Fibra Produção mundial (10³ ton) Bambu 30.000 Juta 2.300 Kenaf 970 Linho 830 Sisal 378 Cânhamo 214 Coco 100 Rami 100 Banana 70 Bagaço de cana-de-açúcar 75.000 Grama 700 Fonte: FARUK et al, 2012. 36 A planta de juta (FIG. 2.4) é predominante em climas tropicais e pode alcançar até 4 metros de altura e 20mm de espessura. Seu ciclo do plantio dura, em média, seis meses e é geralmente cultivada entre agosto e janeiro, mas depende da natureza e do clima. FIG. 2.4 – Planta de juta (Disponível em: <http://panocru.com/pt/materias_primas.html>. Acesso em 16 de agosto de 2014). Para a produção da fibra de juta, a planta passa por um processo que leva aproximadamente cinco dias. Este processo consiste, basicamente, no corte dos talos, limpeza das hastes, maceração em água corrente ou parada, desprendimento das fibras da casca, lavagem, secagem em varais e produção de bobinas ou tecidos. A FIG. 2.5 apresenta algumas das etapas deste processo. A primeira tentativa de produção de juta no Brasil foi por colonos japoneses na década de 1930, mas apenas cinco anos depois Riyota Oyama conseguiu produzir uma variedade de juta adaptada às condições da Amazônia, que se tornou uma das principais atividades econômicas das populações ribeirinhas da região (LEÃO et al 2000). A planta de juta é bastante semelhante à planta de malva que também é plantada na mesma região, alternando suas produções, pois o que difere essas plantas é que a juta é característica de várzea baixa e a malva de várzea alta (MARGEM, 2013). 37 (a) (b) (c) (d) FIG. 2.5 - Ciclo de produção da juta: (a) Colheita; (b) Secagem; (c) Processamento; (d) Produto final (PIRES, 2009). A fibra de juta, por apresentar elevado teor de umidade de 12,6%, conforme apresentado na TAB. 2.2, é muito utilizada para a fabricação de sacaria, pois evita o ressecamento e a fermentação do produto acondicionado. Outras aplicações comuns dessa fibra são para a produção de cordas, telas e tapetes. A TAB. 2.4 apresenta o custo da juta e de outros materiais utilizados na produção de blindagens multicamadas, que é abordada no presente trabalho. De acordo com a TAB. 2.5 observa-se que, para um mesmo volume, a fibra de aramida custa mais de duzentas vezes o valor da juta. Isso torna a fibra de juta um material promissor para a substituição de fibras sintéticas e utilização como reforço de materiais compósitos, pois é uma fibra abundante de baixo custo e de grande disponibilidade comercial, além de possuir uma resistência à tração relativamente elevada (SHAH e LAKKAD, 1981). 38 TAB. 2.5 - Avaliação de peso e custo das camadas de uma multiblindagem. Material Volume 3 Densidade 3 Peso Custo Custo do material (cm ) (g/cm ) (kgf) (US$/kg) (US$) Al2O3 337,5 3,72 1,256 2,12 2,66 Aramida 225,0 1,44 0,324 63,60 20,61 Referências SILVA, 2014 MOHANTY, Juta 225,0 1,3 0,292 0,30 0,09 MISRA e HINRICHSEN 2000 Al (liga 6061) 112,5 2,70 0,304 30,15 9,17 2.2.2 ARRANJOS DAS FNLs E APLICAÇÃO EM PROTEÇÃO BALÍSTICA Uma das limitações das FNLs é o seu comprimento. Para solucionar esta limitação uma das alternativas é a produção de fios contínuos que podem ser enrolados em bobinas. Assim, essas FNLs poderão ser distribuídas de forma uniforme em compósitos de matriz polimérica e fabricadas automaticamente por processos de pultrusão, prepreg ou enrolamento filamentar. Entretanto, a aplicação desse processo de fiação não é viável para fibras duras, pois gera um custo adicional, diminuindo a vantagem econômica da fibra (MONTEIRO et al, 2009). A produção de tramas (tecidos) é uma das primeiras etapas para a fabricação de um produto semi-acabado. O desenvolvimento de tecnologias têxteis, tais como fiação e tecelagem, resultou na formação de compósitos que possuem propriedades mecânicas superiores. Na maioria das técnicas de processamento descritas acima, pode-se utilizar diferentes tipos de arranjos das fibras, de forma a otimizar seu desempenho. Alguns tipos de arranjos comumente encontrados para FNLs são: simples, em que os fios são entremeados de forma ortogonal e alternados por baixo e por cima de cada fio de fibra da trama, possui propriedades mecânicas relativamente baixas em comparação com os demais arranjos; sarja, onde um ou mais fios são tecidos 39 alternadamente sobre e sob dois ou mais fios de fibras da trama de uma maneira regular e repetida, conferindo menor ondulação na trama resultando em propriedades mecânicas ligeiramente mais elevadas; cetim, que consiste basicamente na trama de sarja modificada para produzir menos interseções na trama, resultando em um tecido plano, com boa molhabilidade e alto grau de maleabilidade; cesta, similar ao arranjo simples exceto que dois ou mais fios são entrelaçados alternadamente com dois ou mais fios da trama, utilizados em tecidos pesados, com fibras grossas, para evitar a ondulação excessiva da trama; e leno, semelhante ao arranjo simples, em que os fios adjacentes são torcidos em torno de fios consecutivos da trama para formar um par espiral (JOHN e THOMAS, 2008) FIG. 2.6 mostra os diferentes tipos de arranjos citados. FIG. 2.6 - Diferentes tipos de arranjos de fibras: (a) simples; (b) sarja; (c) cetim; (d) cesta; e (e) leno (JOHN e THOMAS, 2008). A utilização de compósitos reforçados com tecido de FNLs vêm sendo cada vez mais investigada e aplicada em engenharia. Em particular, tecidos de fibras de juta tanto novos como usados que foram incorporados em compósitos de polietileno 40 mostram um aumento significativo na resistência ao impacto, tanto no ensaio destrutivo Charpy quanto Izod (LIMA et al, 2012a, 2012b). Compósitos que usam tecidos estão sendo extensivamente aplicados em blindagens de uso militar e forças auxiliares. A blindagem de proteção individual (colete) tem como finalidade impedir que o projétil o atravesse totalmente e, também, evitar que o impacto cause um abaulamento significativo na sua face distal, pois, apesar do projétil poder não perfurar totalmente o colete, essa deformação pode provocar graves lesões ao usuário. A magnitude desse trauma gerado na blindagem pode ser reduzida através da incorporação de material fibroso, como os tecidos, dentro de sua estrutura (GOPINATH, ZHENG e BATRA, 2012). Os tecidos e seus compósitos podem ter suas propriedades de resistência ao impacto e à perfuração influenciadas por uma série de fatores (AFSHARI, CHEN e KOTEK, 2012), tais como: - Propriedades do fio do tecido: resistência à tração, adesão com a matriz, estabilidade térmica e densidade; - Estrutura do tecido: tipo de trama e o número de filamentos por fio; - Parâmetros do projétil: massa, geometria e velocidade de impacto; - Atrito entre os fios e o projétil; - Tipo da resina usado como matriz. Os compósitos reforçados com tecidos apresentam cerca de 4 a 5 vezes maior resistência à fratura quando comparados com os compósitos reforçados com fibras contínuas e unidirecionais, os quais apresentam danos por delaminação no sentido das fibras. Isso porque os tecidos apresentam como características específicas: a presença de regiões ricas em resina (entre fios e tecidos); grande área de superfície de fratura devido ao padrão ondulante dos fios; aspereza inerente ao tecido; e a distribuição das tensões em várias frentes de trincas de delaminação (HOSUR et al, 2004). O desempenho balístico de um material pode ser dado por sua capacidade de absorção de energia de impacto e dissipação dessa energia de forma rápida e eficiente. Portanto, a tenacidade, a deformação de ruptura da fibra e a velocidade sônica são considerados fatores de grande importância (JACOBS e DINGENEN, 2001). 41 No presente trabalho, foi selecionado o tecido de trama simples, FIG. 2.6(a), pois este é facilmente encontrado comercialmente. 2.2.3 COMPÓSITOS POLIMÉRICOS REFORÇADOS COM FNLs Na década de 1980, as fibras naturais começaram a despertar interesse como um material sustentável, em adição ao uso têxtil, como uma solução alternativa para problemas ambientais. A Índia foi a precursora na produção e a aplicação de diferentes materiais constituídos por fibra de juta, como mostrado em muitos periódicos (SHAH e LAKKAD, 1981; MUKHERJEA et al, 1983; PAL, 1984; SANADI et al, 1985; PRASHANT, 1986) e artigos de revisão (CHAND et al, 1988; MOHANTY e MISRA, 1995). Nesse período, os principais alvos de pesquisa foram compósitos de fibras de juta usando resinas termofixas. Trabalhos recentes estudam a aplicação de fibras naturais lignocelulósicas (FNLs) em compósitos com matriz polimérica (MOHANTY, KHAN e HINRICHSEN, 2000; RAY et al, 2002; SOYKEABKAEW, SUPAPHOL e RUJIRAVAMIT, 2004; KUMAR, SINGH e SARWADE, 2005; DOAN, GAO e MÄDER, 2006; MOHANTY, VERMA e NAYAK, 2006; MONTEIRO et al, 2006; JOHN e THOMAS, 2008; MONTEIRO et al, 2009; ALVES et al, 2010; SATYANARAYANA, ARIZAGA e WYPYCH, 2009; FARUK et al, 2012; DOAN et al, 2012; MISHRA e BISWAS, 2013; RAGHAVENDRA, 2014). A fase matriz tem papel fundamental no desempenho do compósito e pode ser tanto de polímero termofixo quanto termoplástico. Essas duas categorias de polímeros são interessantes para essa aplicação, porém, elas apresentam algumas limitações. Os polímeros termofixos são mais complexos, pois exigem a adição de diversos componentes em sua preparação, tais como, agentes de cura, endurecedores, catalisadores e agentes de fluxo. Essa complexidade encarece o seu processamento. Algumas técnicas de processamento como, moldagem a frio, laminação contínua e enrolamento filamentar, tem sido usadas, porém, têm-se poucos relatos. Já os polímeros termoplásticos são facilmente processados utilizando técnicas simples como, a compressão, a extrusão, a transferência de resina, e apresentam assim, baixo custo de processamento 42 (FARUK et al, 2012). Outra vantagem dos polímeros termoplásticos é a facilidade de moldagem de peças complexas. Porém, a temperatura de processamento é um dos fatores limitantes desse tipo de polímero, pois este fica restrito a uma temperatura em torno de 200°C, já que a partir dessa temperatura as fibras podem apresentar degradação térmica (NABI SAHED e JOG, 1999). O processamento de compósitos termoplásticos envolve a extrusão dos componentes à temperatura de fusão, seguido de operações, tais como a moldagem por injeção e termoformagem. No caso de compósitos termofixos, as fibras são combinadas com epóxi ou resinas de poliéster que contêm grupos reativos, que auxiliam o desenvolvimento da interface (NABI SAHED e JOG, 1999). Outro aspecto importante dos compósitos poliméricos reforçados com FNLs são os fatores que impactam em suas propriedades finais. Dentre esses parâmetros, pode-se citar: a adesão na interface fibra-matriz, a dispersão das fibras, o prétratamento, a estabilidade térmica e os parâmetros de processamento, no caso dos termoplásticos. Como as FNLs são de caráter hidrofílico e a matriz polimérica é hidrofóbica, a adesão interfacial desse compósito fica comprometida. A adesão entre a matriz e o reforço tem um papel importante na transmissão de tensão, se esta adesão for baixa, consequentemente o compósito apresentará propriedades finais não satisfatórias. Contudo, existem diversas técnicas para promover melhor adesão entre esses dois materiais, tais como branqueamento, enxerto de monômeros, acetilação, e assim por diante (NABI SAHED e JOG, 1999). Além do tratamento de superfície das fibras é possível utilizar agentes de compatibilização ou de acoplamento. Os agentes de compatibilização podem ser polímeros com grupos funcionais enxertados na cadeia do polímero. Já os agentes de acoplamento são compostos organometálicos tetrafuncionais como o silano e o zirconato (NABI SAHED e JOG, 1999). A dispersão das fibras no interior da matriz também é um fator importante, pois irá impactar diretamente na propriedade final do compósito. Para compósitos termoplásticos utilizam-se fibras orientadas aleatoriamente dentro da matriz o que confere, por exemplo, uma resistência mecânica menor do que a apresentada pelos compósitos termofixos, no qual as fibras são dispostas de forma unidirecional e então impregnadas com resina termofixa e submetidas à cura. Outro inconveniente 43 das FNLs é que estas também tendem a agregar entre si e não se dispersar bem em uma matriz de polímero hidrofóbico, promovendo uma distribuição não uniforme das fibras na matriz (NABI SAHED e JOG, 1999). Por isso, o pré-tratamento da fibra é recomendado. Com a incorporação dos aditivos adequados, o pré-tratamento confere boa dispersão e melhora significativamente as propriedades mecânicas do compósito. Outro fator que se deve ressaltar é a estabilidade térmica destas fibras, visto que para a maior parte dos materiais termoplásticos a temperatura de processamento é elevada. Além disso, para os compósitos termoplásticos, as propriedades também são influenciadas por parâmetros de processamento. Alguns trabalhos relatam o efeito de parâmetros como o tempo de mistura, temperatura e composição de compósitos (NABI SAHED e JOG, 1999). Estudos, como o de Tobias e Ibarra (1997), mostraram que resistência à flexão de compósitos à base de poliéster aumenta com o aumento da temperatura de cura. Ainda, para facilitar o processamento, podem ser utilizados vários agentes auxiliares, tais como o ácido esteárico e óleo mineral têm sido relatados. Tem-se também que ácido esteárico, além de ajudar no processamento, é altamente eficaz na dispersão, reduzindo a interação fibra-fibra. Já o óleo mineral é absorvido pelas fibras e age como um lubrificante, pois facilita o desemaranhamento destas fibras (NABI SAHED e JOG, 1999). Devido às propriedades de resistência relativamente elevadas da fibra de juta e sua compatibilidade com polímeros, diversos estudos têm sido realizados para fabricação de compósitos de epóxi-juta, poliéster-juta e fenol-formaldeído-juta para aplicações convencionais de baixo custo, tais como componentes estruturais de habitação, silos para armazenagem e pequenos barcos de pesca (SATYANARAYANA et al,1990). No presente trabalho é utilizada a resina termofixa de epóxi como matriz a fim de traçar um comparativo com os demais trabalhos realizados com compósitos de matriz polimérica utilizando o mesmo tipo de resina, mas diferentes FNLs. Shah e Lakkad (1981) realizaram um estudo detalhado sobre a avaliação das propriedades do compósito de epóxi reforçado com fibras unidirecionais de juta e com reforço híbrido de juta e vidro-E. A TAB. 2.6 lista as propriedades mecânicas obtidas para esses materiais compósitos. O aumento nas propriedades mecânicas 44 apresentado na TAB. 2.6 indicou boa compatibilidade do reforço de juta com a matriz de epóxi. Comparando o compósito 100%p epóxi com o compósito apenas de epóxi-juta, nota-se que a resistência à tração praticamente dobrou com o reforço. TAB. 2.6 - Propriedades mecânicas do compósito epóxi-juta e vidro-E. Epóxi (%p) Juta (%p) Vidro-E (%p) Resistência à tração (MPa) Módulo de Young (GPa) Resistência à Resistência à compressão (MPa) flexão (MPa) 67,1 32,9 0,0 104,0 15,0 95,0 150,0 42,0 18,0 40,0 157,0 25,4 158,0 445,0 50,0 20,0 30,0 143,0 22,7 137,0 418,0 45,6 14,4 40,0 238,0 30,6 204,0 624,0 31,8 0,0 68,2 429,0 41,3 320,0 938,0 100,0 0,0 0,0 59,0 3,6 115,0 127,0 Fonte: Adaptado de Satyanarayana et al (1990). A influência da configuração bidirecional (tecido) de juta, em diferentes composições, nas propriedades mecânicas dos compósitos epóxi-juta foi analisada por Mishra e Biswas (2013). A FIG. 2.7 apresenta o gráfico de resistência à tração e módulo de tensão em função da carga, em peso, de tecido de juta no compósito. Neste estudo, Mishra e Biswas (2013) verificaram que algumas propriedades mecânicas são fortemente influenciadas pelo teor de vazios dentro do compósito e que esse teor diminui com o aumento da carga de fibras no compósito. Concluíram também que as propriedades como, dureza, resistência ao impacto e resistência à tração aumentaram com o aumento da carga de fibra no compósito epóxi-juta. 45 FIG. 2.7 - Gráfico de resistência à tração e módulo de resistência em função da carga em peso de tecido de juta no compósito. (MISHRA e BISWAS, 2013) (adaptado). Raghavendra et al (2014) também estudaram o compósito de epóxi reforçado com tecido de juta. Em seus estudos, fizeram a comparação entre o compósito de epóxi-juta com o compósito de epóxi reforçado com fibra de vidro e epóxi puro. Para a fabricação desses compósitos foram utilizadas quatro camadas de tecido de fibras correspondendo as porcentagens, em volume, de 16,6% e 18,5% de fibra de vidro e tecido de juta, respectivamente. O gráfico da FIG. 2.8 apresenta os resultados obtidos para a resistência a tração desses compósitos. FIG. 2.8 - Gráfico de resistência à tração para os compósitos de epóxi. (RAGHAVENDRA et al, 2014) (adaptado). 46 Os resultados obtidos mostraram que a resistência à tração, para o compósito reforçado com juta, foi de 130% e para o reforço de fibra de vidro de 410% maior do que a resistência à tração obtida pela resina de epóxi puro, de 21,03MPa. 2.2.4 MECANISMOS DE FRATURA DO COMPÓSITO REFORÇADO COM FIBRA Nos compósitos poliméricos reforçados com fibra, a sua tenacidade é influenciada pelo arranjo geométrico e pela tenacidade das fibras. Esse tipo de compósito destaca-se pela capacidade de interromper, nas interfaces existentes, a propagação de trincas internas através da alteração do estado de tensão atuante na fratura. O processo de clivagem é favorecido pelo estado triaxial de tensões presentes na ponta de uma trinca que se propaga. Na propagação dessa trinca em um compósito reforçado com camadas de fibras ocorre a inibição ou divisão dessa trinca em fraturas secundárias, que são desviadas em direções menos críticas, favorecendo a delaminação, ou seja, a divisão de duas camadas na interface (ALMOND, EMBURY e WRIGHT, 1969). No presente trabalho, o compósito polimérico é produzido com camadas de manta ou tecido de fibras de juta de forma que essas camadas são perpendiculares à direção do impacto. Para esse tipo de configuração, ocorre o alívio do estado triaxial de tensão através da delaminação na interface frente à trinca, pois a resistência na interface é menor do que a componente de tensão na ponta da trinca. Para que a propagação da trinca prossiga é preciso que uma nova trinca aguda apareça e isso demanda de uma energia maior do que a propagação continuada de uma fibra pré-existente, aumentando assim a resistência à fratura do material. Além disso, a absorção da energia de impacto é bastante influenciada pelo entrelaçamento das fibras do tecido, pois as regiões de encontro dos fios da trama atuam como pontos de reflexão e divergência das ondas de deformação que dispersam a energia de impacto. Dessa forma, características tais como, propriedades da fibra, diâmetro da fibra, tipo de trama do tecido, tipo de matriz utilizada, propriedades dessa matriz, adesão fibra-matriz e quantidade de fibra no compósito, irão influenciar o grau de absorção da energia de impacto. 47 No impacto balístico de compósitos poliméricos, diversos mecanismos são responsáveis pela absorção da energia de impacto, tais como, a delaminação entre as camadas, a deformação elástica do compósito, o cisalhamento das camadas e a tensão à fratura das fibras (MORYE et al, 2000). A energia de impacto à alta velocidade é dissipada em uma pequena região em compósitos poliméricos reforçados por camadas de tecido. Um esforço de cisalhamento corta a superfície do material (shear plug) na região de impacto que se desloca durante a penetração projétil. O diâmetro do plug aumenta à medida que o projétil penetra nas camadas subsequentes do compósito até o projétil se deformar e perder velocidade (ELLIS et al., 1998; PRAT et al., 2012). A FIG. 2.9 ilustra o mecanismo de shear plug. FIG. 2.9 - Representação do mecanismo de dano por cisalhamento ou “Shear Plug” (ELLIS et al, 1998). Conforme a velocidade do projétil reduz, a resistência ao cisalhamento das fibras aumenta, promovendo uma deformação por compressão do compósito e tração nas fibras até sua ruptura (BHATNAGAR, 2006). Os danos produzidos no compósito no momento do impacto e após a penetração do projétil estão apresentados esquematicamente na FIG. 2.10, onde, em um primeiro estágio o material compósito é comprimido pelo projétil, aumentando a sua resistência ao cisalhamento sem a ruptura da camada frontal; no segundo estágio, essa camada frontal é rompida pelo projétil e ocorre a delaminação de algumas camadas do material compósito. A delaminação, separação das camadas dos compósitos, é um mecanismo de absorção de energia de impacto que ocorre quando a adesão entre as camadas é menor que os esforços do impacto. Na delaminação, a formação de novas superfícies, devido à separação das camadas, é responsável por absorver a energia de impacto. 48 (a) (b) FIG. 2.10 - Danos em um compósito polimérico laminado no impacto balístico: (a) no momento do impacto; (b) na penetração (BHATNAGAR, 2006). Além disso, o compósito polimérico pode apresentar falha devido à baixa adesão interfacial, promovendo o descolamento da fibra da matriz, esse mecanismo é conhecido por pull out. A FIG. 2.11 mostra um exemplo de falha por pull out no compósito de fibra de banana e amido de milho (SATYANARAYANA et al, 2009). FIG. 2.11 – Micrografias em MEV do compósito de fibra de banana e amido de milho mostrando a fratura fibra e o pull out (SATYANARAYANA et al, 2009). Esses mecanismos citados podem interagir e ocorrer em conjunto, ou separadamente, quando submetidos a um impacto balístico. 49 2.3 COMPORTAMENTO DINÂMICO DOS MATERIAIS Os processos que ocorrem em situações estáticas ou quase estáticas podem ser significativamente diferentes daqueles que acontecem quando corpos estão sujeitos a cargas que variam rapidamente (MEYERS, 1994). O que define se um processo é estático ou dinâmico é a taxa da aplicação de uma força externa em um corpo. Para taxas de deformação elevadas, tem-se um comportamento dinâmico, onde o carregamento torna-se um fenômeno localizado que se propaga no sólido como uma onda de tensão, enquanto que taxas de deformação lentas caracterizam um comportamento estático em que o fenômeno de carregamento é experimentado por todo o corpo (MEYERS, 1994 e ZUKAS, 1982). Assim, a deformação quase estática, compreende uma sequência de estados de equilíbrio, isto é, o corpo responde como um todo, pois o tempo é suficiente para a relaxação de toda a estrutura, já a deformação dinâmica geralmente envolve a propagação de ondas, que varia de seção para seção do corpo. Neste caso, as tensões internas não são transmitidas instantaneamente, as tensões e deformações são transferidas átomo a átomo a uma velocidade específica, que pode ser calculada com uma boa aproximação (MEYERS, 1994, ZUKAS, 1982). O impacto de um projétil em um material resulta em altas taxas de deformação e essa resposta dinâmica pode ser considerada como comportamento balístico do material. Ainda, dependendo da resposta do material à solicitação externa, as ondas geradas podem ser dadas na forma de ondas elástica, plástica e de choque (MEYERS, 1994). A onda elástica transmite tensões abaixo da tensão de escoamento do material, ou seja, dentro do regime elástico e sua velocidade () em um meio contínuo depende da densidade do material () e do módulo de elasticidade (E), sendo obtida através da EQ. 2.1. = EQ. 2.1 No caso de materiais dúcteis, quando se ultrapassa a tensão de escoamento, o material se deforma plasticamente, seja na deformação dinâmica ou na deformação quase estática. Então, quando uma onda de tensão está se propagando no material 50 e sua amplitude excede o limite elástico, ocorre a decomposição dessa onda em uma componente elástica e outra plástica. A velocidade da onda plástica é dada pela EQ. 2.2. = EQ. 2.2 Onde /é a inclinação da curva tensão (σ) versus deformação (ε) apresentada na FIG. 2.12. A FIG. 2.12 mostra que, no regime elástico, a relação dσ/dε é constante e igual a módulo de elasticidade enquanto que no regime plástico tem-se uma redução dessa relação, já que a inclinação diminui, ou seja, as ondas elásticas propagam-se a uma velocidade maior do que as ondas plásticas. FIG. 2.12 - Curva tensão (σ) versus deformação (ε) (MEYERS, 1994) (adaptado). Quando o limite de escoamento dinâmico do material é excedido pelas ondas de tensão, as tensões cisalhantes podem ser desprezadas, já que o material passa a comportar-se como um fluido e pode ser modelado a partir da equação de um gás perfeito (EQ. 2.3). = − ∙ EQ. 2.3 Onde P é a pressão, V o volume específico e γ é o índice adiabático(MEYERS, 1994). Essas ondas são chamadas de ondas de choque, as quais são matematicamente expressas pelas equações de Rankine-Hugoniot. Para facilitar o 51 entendimento do conceito de propagação de ondas de choque e as equações de conservação envolvidas, a FIG. 2.13 apresenta um esquema de propagação da região impactada por um pistão de gás. FIG. 2.13 - Esquema de propagação da região impactada em um pistão de gás: (a) Antes do choque; (b) Após um tempo t1; (c) Após um tempo t2 > t1 (MEYERS, 1994). Na primeira etapa, FIG. 2.13(a), o pistão está parado e o gás no seu interior está com pressão P0, densidade ρ0 e velocidade U0 =0. Uma região de gás comprimido ocorre na frente do pistão quando o pistão é acelerado até a velocidade , formando a frente de choque, ou seja, um plano que separa o fluido que se move do fluido ainda estacionário. Para um tempo , Fig. 2.13(b), tem-se um deslocamento da região comprimida de ! ∙ e um deslocamento do pistão de ∙ , onde a região comprimida passa a assumir uma densidade > # e uma pressão $ > $# . Na Fig. 2.13(c) é apresentada a situação de um tempo % , que de forma conceitual não apresenta diferença de , 52 mas observa-se que há uma tendência de aumentar a região compactada em decorrência do tempo, visto que ! > (MEYERS, 1994, CARDOSO, 2005). Nas ondas plásticas quanto maior a tensão provocada pela solicitação externa menor será a sua velocidade de propagação, já para uma onda de choque o fenômeno é contrário apresentando maior velocidade para uma maior amplitude de onda. Como uma região com maior amplitude de onda desloca-se mais rápido do que a região de menor amplitude, isto conduz a uma onda de choque ser definida simplesmente como sendo uma descontinuidade de pressão, temperatura (ou energia interna) e densidade. O conceito de propagação de onda de choque requer utilizar as relações de conservação de Rankine-Hugoniot expressas pelas EQs. 2.4, 2.5 e 2.6: a) Conservação de massa: ∙ ! = ∙ (! − ) b) Conservação de momento: ($ − $ ) = ∙ ! ∙ c) Conservação de energia: & − & = ½ ∙ ($ + $ ) ∙ ( − ) EQ. 2.4 EQ. 2.5 EQ.2.6 As EQs. 2.4, 2.5 e 2.6 são aplicadas quando ocorre a propagação de uma pressão descontínua no material e apresentam cinco variáveis: velocidade da partícula (Up), velocidade de choque (Us), volume específico (V) ou densidade (ρ), pressão (P) e energia (E). Para a resolução dessas três equações com cinco variáveis torna-se necessária a adição de uma quarta equação para que seja possível calcular todos os parâmetros de interesse. Esta quarta equação (EQ. 2.7) expressa uma relação entre Us e Up obtida experimentalmente e é conhecida como equação de estado do material. ! = + ) ∙ + )% ∙ % + ⋯ EQ. 2.7 onde S1 e S2 são parâmetros empíricos e C0, a velocidade do som no material à pressão zero. Para a maioria dos materiais S2 e demais termos são iguais a zero e tem-se uma equação reduzida, EQ. 2.8. ! = + ) ∙ EQ. 2.8 Esta relação linear entre Us e Up descreve razoavelmente bem a resposta ao choque de materiais não sujeitos à transformação de fases. Os valores de C0 e S1 são frequentemente tabelados na literatura. De posse dessas quatro equações pode-se calcular as relações duas a duas. Porém, essas relações só podem ser aplicadas partindo de algumas considerações: 53 a) o choque é uma superfície descontínua sem espessura aparente; b) o módulo de cisalhamento é zero quando o material comporta-se como um fluido; c) carregamento quase estático e processo adiabático, portanto, as forças de corpo, como força gravitacional e a condução de calor na frente de choque são desprezíveis; d) não há comportamento elastoplástico; e e) o material não sofre transformações de fase. A avaliação do comportamento balístico dos materiais pode ser realizada por métodos determinísticos ou probabilísticos (ZUKAS, 1982). O método determinístico utiliza as leis de conservação de massa, de momento e de energia, além da equação de estado dos materiais para determinar a velocidade crítica de impacto. As relações descritas acima são os fundamentos desse método, onde a determinação de algumas constantes pode ser realizada empiricamente por meio de ensaios dinâmicos. O método probabilístico é um método estatístico que se baseia na probabilidade de ocorrência ou não da perfuração do alvo, adotando como critério a velocidade em que ocorre a perfuração a uma probabilidade pré-fixada. Para isso, é utilizado um grande número de série de impactos. O limite balístico V50 é o critério mais adotado, que consiste na determinação do valor que corresponde a uma probabilidade igual, 50%, do alvo ser perfurado ou não. A curva típica da probabilidade de perfuração em função da velocidade de impacto é ilustrada na FIG. 2.14. FIG. 2.14 - Curva da probabilidade de perfuração (ZUKAS, 1982). 54 Em algumas situações não se pode garantir, experimentalmente, a perfuração e a não perfuração do alvo, sendo necessário aplicar princípios físicos para determinação do valor do limite balístico. Por exemplo, para a determinação do valor desta velocidade para munições de alta velocidade como a 7,62, padrão OTAN, não é possível realizar disparos com baixas velocidades de forma a não perfurar o alvo. O disparo destas munições, mesmo após ajuste da massa propelente, é efetuado a uma velocidade relativamente alta para o cálculo do V50 e em outras situações o projétil não abandona o equipamento de disparo (provete). Porém, como a energia cinética dissipada pelo projétil durante a penetração no alvo é igual à energia total absorvida pelo alvo, é possível calcular a velocidade limite do projétil (VL). Essa velocidade limite pode ser definida como sendo a velocidade em que o alvo absorveria toda a energia cinética do projétil, não ocorrendo assim a perfuração do alvo (MORYE et al, 2000). A energia absorvida é dada pela diferença entre a energia cinética de impacto (Ei) e a energia cinética residual (Er) expressa a partir das respectivas velocidades pela EQ. 2.9. &+,! = -./% − 0% 1 % EQ. 2.9 onde m é a massa do projétil, Vi a velocidade de impacto e Vr a velocidade residual do projétil. A relação entre a velocidade limite (VL) e a energia absorvida está apresentada na EQ. 2.10. 2 = %345 6 EQ. 2.10 2.3.1 INTERAÇÃO E REFLEXÃO DE ONDAS DE CHOQUE A análise da interação de uma onda de choque em diferentes meios é realizada através do método de casamento de impedâncias. Para aplicar este método leva-se em consideração uma situação mais simples, onde o impacto ocorre entre duas superfícies planas (planar), paralelas e a direção do movimento do projétil é perpendicular à sua superfície (normal). 55 Antes do impacto o projétil viaja a velocidade V e o alvo encontra-se em repouso. Após o impacto, duas ondas de choque compressivas são geradas, uma delas viaja para dentro do projétil, com velocidade Us1, e a outra para dentro do alvo, com velocidade Us2. A porção não comprimida do projétil, ainda move-se na velocidade V, enquanto que a porção não comprimida do alvo está em repouso. Já no momento do impacto, a velocidade das partículas, na região comprimida do projétil, é reduzida de V para Up1. Há duas condições que serão usadas para estabelecer as equações que irão prever a pressão gerada tanto no alvo quanto no projétil. i) O material tem que ser contínuo através da interface de impacto, o que impõe a mesma velocidade de partícula na região comprimida, ou seja, = %. Se as velocidades de partícula fossem diferentes haveria vazios ou regiões de super alta densidade, o que não acontece. ii) A pressão tem que ser a mesma ($ = $% ), pois caso contrário ocorreria à formação de outro pulso. A aplicação deste método pode ser exemplificada para duas diferentes situações: transferência de onda de choque de um meio de baixa impedância (A) para outro de alta impedância (B); e transferência de onda de choque de um meio de alta impedância (A) para outro de baixa impedância (B). Como já mencionado, a impedância depende da densidade do material e é dada pelo produto da sua densidade pela velocidade da onda sônica (elástica) (MEYERS, 1994; BRENNAN, 2007). Portanto, para este primeiro caso, o material A possui menor densidade que o material B. A FIG. 2.15 ilustra esta primeira situação e mostra a variação da pressão P em função da velocidade de partícula para os materiais A e B. A reta pontilhada da curva do material A é a linha de Rayleigh, a qual explica a descontinuidade na pressão (ou densidade) durante o choque. A inclinação da linha de Rayleigh é dada pelo produto da densidade do material e a velocidade da onda de choque Us. Na interface entre os materiais A e B, ocorrerá a mudança da pressão P1 para que o equilíbrio seja atingido. Essa mudança pode ser calculada através do casamento de impedâncias, como apresentado esquematicamente na FIG. 2.15(a). Conforme a FIG. 2.15(a) nota-se que para o material A, de menor impedância, a inclinação da curva é menor comparando com o material B. Neste caso, o material A faz o papel do projétil e o material B o alvo, pois 56 o material A que irá impactar no material B. Sendo assim, para determinar a pressão na interface, P2, é necessário calcular a velocidade de partícula na interação entre o material A e B. Então, considera-se o momento de impacto, onde ocorre a queda de velocidade do projétil de V para Up2. Esta velocidade de interação (Up2) é dada pela interseção da curva Hugoniot do material B com a curva invertida do material A (projétil), como mostra a FIG. 2.15(a). Aplicando-se as equações de conservação e de estado do material é possível definir os valores de Up2 e P2. Para esta situação, o perfil de pressão é apresentado na FIG. 2.15(b). A pressão passa de P1 para P2 quando a frente de choque atinge a interface. Neste momento, ocorre a decomposição da onda e uma frente de pressão é propagada em A e outra em B. Então, esta frente de pressão retorna na forma de uma onda compressiva e sua pressão cai para $% − $ . O pulso continua sua propagação para a esquerda e a velocidade de partícula Up2 se mantém a mesma na região de alta pressão, em A e B. Deste modo, é assegurada a continuidade de pressão e de velocidade de partícula (MEYERS, 1994). (a) (b) FIG. 2.15 - Transferência da onda de choque de um meio com baixa impedância para um meio de alta impedância: (a) Gráfico de Pressão versus Velocidade de partícula; (b) Perfil de pressão (MEYERS, 1994). 57 No segundo caso, a transferência da onda de choque ocorre de um meio com alta impedância (A) para um meio com baixa impedância (B). A FIG. 2.16(a) apresenta a solução gráfica para esta situação. Para determinar a velocidade de partícula e pressão na interface dos materiais A e B é necessário, primeiramente, inverter a curva do material A na pressão P1 (AR). A interseção dessa curva na curva do material B ocorrerá em P2. Neste caso, a pressão P2 é menor que P1. Esta pressão libera um pulso que se propagará no material A. Admitindo que os materiais A e B são semi-infinitos e que o pulso liberado viaja livremente até encontrar a frente de onda do pulso primário. Este encontro ocorre no instante t4 que gera um pulso de tensão trativa que se propaga tanto para dentro do material B quanto para o material A. Caso a onda trativa possua uma amplitude suficientemente alta ocorre o estilhaçamento do material. (a) (b) FIG. 2.16 - Transferência da onda de choque de um meio com alta impedância para um meio com baixa impedância: (a) Gráfico pressão versus velocidade de partícula; (b) Perfil de pressão (MEYERS, 1994). 58 3 MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 ASPECTOS GERAIS A fabricação da blindagem multicamada foi dividida em três etapas. A primeira etapa consistiu na preparação do corpo de prova cerâmico, o qual passou pelos processos de preparação do pó, prensagem uniaxial e sinterização, que serão descritos na sequência. A preparação do compósito foi a segunda etapa, divida em preparação das fibras, preparação da resina, confecção e prensagem. A última etapa foi a montagem da blindagem multicamada de acordo com a configuração apresentada no esquema da FIG. 3.1. FIG. 3.1 - Esquema da blindagem multicamada fixada na parede de plastilina para o teste balístico. 3.2 PREPARAÇÃO DOS CORPOS CERÂMICOS Para a fabricação dos corpos cerâmicos foi preparada uma mistura do pó de alumina, do aditivo de sinterização (nióbia) e do ligante (polietileno glicol – PEG) em 59 um moinho de bolas de alumina, modelo MA 500 (FIG. 3.2), por 8 horas. Os materiais utilizados no preparo do pó foram: a alumina, da empresa nacional Treibacher Scheifmittel; a nióbia, da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM); e o ligante orgânico PEG, da VETEC. Essa mistura foi preparada seguindo a composição em peso de 94,53% de alumina, 3,94% de nióbia e 1,53% de PEG. Após a evaporação do ligante orgânico, a adição de nióbia passou a ser de 4% em peso, a qual apresentou melhores resultados em testes balísticos de trabalhos anteriores (GOMES, 2004). FIG. 3.2 - Moinho de bolas Marconi, modelo MA 500. As análises químicas do pó de alumina e nióbia, de acordo com os fornecedores, constam nas TAB.s 3.1 e 3.2, respectivamente. TAB. 3.1 - Análise química da alumina. Elemento Análise Especificação Al2O3 (%) 99,4 Min. 99,1 SiO2 (%) 0,04 Máx. 0,06 Fe2O3 (%) 0,04 Máx. 0,06 Na2O (%) 0,11 Máx. 0,15 umidade a 300º C (%) 0,2 Máx. 0,5 Fonte: Adaptado de TRINDADE, 2012; SILVA, 2014. 60 TAB. 3.2 - Análise química da nióbia. Elemento Análise Nb2O5 (%) 99,5 Perda ao fogo (%) 0,1 Ta (ppm) 745 Ti (ppm) 240 Fe (ppm) 136 Si (ppm) 66 Sn (ppm) 95 Fonte: Adaptado de TRINDADE, 2012; SILVA, 2014. Após a moagem, essa mistura foi colocada em estufa, da marca ELKA (FIG. 3.3), para a secagem à temperatura de 100°C, por 48 horas. Em seguida, o pó foi desaglomerado em um almofariz e peneirado em uma peneira de abertura 0,355mm (FIG. 3.4). FIG. 3.3 - Estufa da marca ELKA. 61 (a) (b) FIG. 3.4 - (a) almofariz e pistilo (b) Peneira com abertura de 0,355mm (#42). Posteriormente, foi pesado 100g desse d pó em uma balança digital, GEHAKA modelo AG 200,, com precisão de 0,0001g 0,0 (FIG. 3.5(a)) e colocado em uma matriz hexagonal (FIG. 3.5(b)) para a compactação em uma prensa hidráulica motorizada de 30 ton., NOWAK (FIG. 3.6), 3.6 , aplicando uma carga de 12 toneladas, toneladas que equivale a 60MPa de pressão. A pressão selecionada para o presente trabalho foi a que apresentou melhores resultados em trabalhos anteriores (TRINDADE, 2012) e a quantidade de pó foi determinada considerando considerando a retração da peça depois de sinterizada, a qual deve apresentar 10mm de espessura. espessura (a) (b) FIG. 3.5 – (a) Balança analítica GEHAKA, G modelo AG 200 (Disponível em: <http://www.gehaka.com. <http://www. br/produtos/balancas>. produtos/balancas>. Acesso em 16 de agosto de 2014); (b) Matriz de compactação. compactação 62 FIG. 3.6 - Prensa hidráulica motorizada, NOWAK (Disponível em: <http://www.nowak.com.br/ loja/prensas>. Acesso em 16 de agosto de 2014). Após a prensagem obteve-se os corpos verdes, nos quais foram medidas as espessuras, que foram utilizadas no cálculo de retração do corpo cerâmico sinterizado. Os corpos verdes foram, então, sinterizados no forno INTI, modelo FE 1700 (FIG. 3.7), de acordo com a seguinte rota de sinterização (TRINDADE, GOMES e LOURO, 2013): i) Aquecimento de 25oC até 158oC, utilizando uma taxa de 1oC/min; ii) Patamar de aquecimento de 158°C por 1h; iii) Aquecimento de 158°C até 375°C a uma taxa de 1°C/min; iv) Aquecimento de 375°C até 1000°C a uma taxa de 8°C/min; v) Aquecimento de 1000°C até 1400°C a uma taxa de 5°C/min; vi) Patamar de sinterização a 1400°C por 3h. As três primeiras etapas dessa rota foram responsáveis pela eliminação do ligante orgânico de forma a obter um menor diâmetro médio de poros promovendo melhor densificação na sinterização (TRINDADE, GOMES e LOURO, 2013). 63 FIG. 3.7 - Forno INTI, modelo FE 1700. 3.2.1 MEDIÇÕES DOS CORPOS CERÂMICOS A determinação da densidade do sinterizado foi feita através do cálculo da razão massa/volume (EQ. 3.1), conhecida também por densificação (EQ. 3.2) quando apresentada em termos percentuais da densidade teórica da mistura (alumina + nióbia). Essa densidade teórica foi calculada pela regra das misturas a qual considera a quantidade de cada componente presente na mistura resultando em 4,0049 g/cm3. 6 !/7890/:+# = ;<=>?@?ABçã = E 5FGHIJFK3LM N × 100% EQ. 3.1 EQ. 3.2 onde: ρ: densidade teórica; ρsinterizado: densidade do corpo cerâmico sinterizado; m: massa da amostra (g); V: volume da amostra (cm3). Como a dimensão de maior relevância é a espessura do corpo cerâmico, o cálculo de retração linear (RL) foi feito apenas nessa dimensão, conforme a EQ. 3.3. 64 R2 = 9SIJLI T95FGHIJFK3LM 9SIJLI × 100 EQ. 3.3 Onde everde é a espessura do corpo verde e esinterizado é a espessura da amostra sinterizada. 3.3 FABRICAÇÃO DO COMPÓSITO EPÓXI-JUTA Para a fabricação da placa compósita foi utilizado como matriz o polímero, termofixo, epóxi. A grande parte dos epóxis comerciais é baseada no composto de bisfenol-A. O epóxi constitui um sistema de dois componentes que passa pelo processo de cura apenas quando é misturado com um endurecedor (ASKELAND e PHULÉ, 2008). Esse tipo de resina é inerentemente frágil e após sua cura torna-se altamente reticulada e com baixa resistência ao crescimento de trincas (MAY, 1988). Para a confecção das placas de compósito epóxi-juta foi utilizada a resina epóxi comercial do tipo éter diglicidílico do bisfenol A (DGEBA), endurecida com trietileno tetramina (TETA), fabricadas pela Dow Chemical do Brasil e fornecida pela distribuidora RESINPOXY, utilizando-se a proporção estequiométrica de 13 partes de endurecedor para 100 partes de resina. A mistura do epóxi com o endurecedor foi feita ainda com a resina fria, de forma a retardar a sua cura durante o preparo da placa. A fabricação das placas do compósito epóxi-juta consiste na prensagem, em uma matriz metálica, da resina epóxi com a fibra de juta, na composição de 70% em volume de epóxi e 30% em volume de juta. As placas do compósito utilizaram as fibras de juta em duas configurações encontradas comercialmente, na forma de manta cardada (FIG. 3.8(a)) e em tecido com trama simples (FIG. 3.8(b)), fornecida pela revendedora de tecidos LEALTEX. A trama do tecido também foi apresentada anteriormente na FIG. 2.5. 65 (a) (b) FIG. 3.8 - Fibras de juta: (a) manta cardada; (b) tecido com trama simples (entremeado ortogonal e alternado). A matriz utilizada para a prensagem das placas do compósito está apresentada na FIG. 3.9. As dimensões internas dessa matriz são de 12cm x 15cm, como as placas devem apresentar 1cm de espessura, o volume final para a placa confeccionada é de 180cm³. Como o volume de fibras em cada placa é de 30% em volume, então, o volume ocupado pelas fibras é de 54cm³. De acordo com a literatura (BLEDZKI e GASSAN, 1999; MONTEIRO,2011), a densidade utilizada para a fibra de juta foi de 1,3g/cm³, logo, a quantidade de massa de fibra utilizada foi em torno de 70,2g. Para a resina epóxi a densidade utilizada foi de 1,11g/cm³ (SILVA, 2014) e, portanto, a quantidade em massa foi de 139,86g. FIG. 3.9 - Matriz metálica utilizada na confecção das placas de compósito epóxi-fibra. 66 Para a preparação das placas foi necessário, primeiramente, cortar as fibras nas dimensões da matriz, gerando várias camadas de fibras (FIG. 3.10). (a) (b) FIG. 3.10 - Camada de fibra de juta: (a) manta; (b) tecido. A FIG. 3.11 mostra as etapas do preparo da placa do compósito. É importante ressaltar que a matriz metálica foi envolvida com filme PVC e foi aplicada uma camada de graxa de silicone em toda a sua superfície de forma a evitar que a placa grudasse na matriz e facilitasse sua retirada. Após o acondicionamento dos componentes no interior da matriz, o conjunto foi prensado, utilizando a prensa SKAY de 15 ton., o qual foi deixado sob pressão para curar à temperatura ambiente por um período de 24 horas. Em seguida, foi feita a extração da placa da matriz e obtiveram-se as placas conforme apresentada nas FIG. 3.11(g) e FIG. 3.11(h). 67 Graxa (a) (b) (c) (d) (e) (f) (g) (h) Juta Epóxi FIG. 3.11 - Preparação da placa de compósito epóxi-juta: (a) aplicação da camada de graxa de silicone; (b) matriz envolvida com filme PVC; (c) disposição juta e epóxi dentro da matriz; (d) arranjo das fibras dentro da matriz (ex: manta); (e) matriz preenchida com metade das fibras; (f) prensagem da matriz na prensa SKAY de 15ton; (g) placa final do compósito epóxi reforçado com tecido de juta; e (h) placa final do compósito epóxi reforçado com manta de juta. 68 Esse procedimento foi repetido até que fossem obtidas um total 22 (vinte) placas compósitas com espessura próxima a 10mm, sendo 11 (onze) preparadas com manta de juta (FIG. 3.11(h)) e 11 (onze) com tecido de juta (FIG. 3.11 (g)). 3.4 MONTAGEM DA BLINDAGEM MULTICAMADA Na montagem da blindagem multicamada, além do corpo cerâmico e da placa compósita foi utilizada uma placa quadrada da liga de alumínio 6061, fornecida pela empresa METINOX, com espessura de 5mm (FIG. 3.12). As especificações estão apresentadas na TAB. 3.3, conforme os resultados encontrados por Chagas (2014). FIG. 3.12 – Placa de Alumínio TAB. 3.3 - Especificações do alumínio. Material Alumínio T 6061 Densidade 2,7 g/cm 3 Módulo de Módulo de Dureza Elasticidade Cisalhamento Vickers 68 GPa 25 GPa 15 Fonte: CHAGAS, 2014. A preparação da blindagem foi feita com a união do corpo cerâmico, da placa compósita e da placa de alumínio, nesta sequência, por uma fina camada de cola, cura rápida, da marca ULTRAFLEX (FIG. 3.13), que não interfere nos testes. A FIG. 3.14 ilustra a blindagem final obtida. 69 FIG. 3.13 – Cola Cura Rápida, Marca ULTRAFLEX. FIG. 3.14 - Blindagem multicamada. 3.5 ENSAIOS BALÍSTICOS Os ensaios balísticos verificam a capacidade de absorção de energia cinética de um corpo em movimento. No presente trabalho foi feita a avaliação do comportamento balístico tanto da blindagem multicamada quanto da placa compósita isolada (sem apoiar na plastilina), a fim de avaliar a energia cinética absorvida apenas pelo compósito epóxi-juta, através da sua velocidade residual; e também avaliar o nível da proteção balística alcançada, através da análise da profundidade da deformação provocada na plastilina pelo disparo. A plastilina é o material comumente utilizado para simular a consistência média similar à do corpo humano possibilitando avaliar a proteção individual em ensaios balísticos. Esse material atende a norma NIJ 0101.04 e é utilizado pelo CAEx em ensaios. 70 A massa para modelar CORFIX® (plastilina), disponível comercialmente, possui densidade aproximada de 1,7g/cm³, e está apresentada na FIG. 3.15. FIG. 3.15 - Armação do suporte de tiro totalmente preenchido com a plastilina, pronto para o ensaio. Para garantir que a densidade da plastilina esteja de acordo com a especificada pela norma NIJ 0101.04, a plastilina foi deixada em uma câmara quente, WEISS (FIG. 3.16(a)), por 2h aproximadamente. Após esse tempo, a plastilina foi retirada e sua densidade foi verificada seguindo o procedimento especificado na seção 5.7.5 da norma NIJ 0101.04, medindo-se a profundidade da indentação provocada por uma esfera de aço. A FIG. 3.16(b) mostra o aparato utilizado para essa etapa de verificação. Para a realização dos testes balísticos foram utilizadas as seguintes condições: i) Munição: calibre 7,62mm M1 (FIG. 3.17), conforme é fornecida comercialmente ao Exército; com projétil de massa de 9,7 gramas; ii) Dispositivo: provete calibre 7,62 (FIG. 3.18) e um dispositivo de fixação do alvo. iii) Distância do alvo: 15 metros, conforme previsto na norma ABNT NBR 15000 para as munições 7,62 mm; iv) Ângulo de incidência no alvo: 90°; v) Quantidade de tiros para cada situação específica: 10 (dez) disparos; vi) Local: Centro de Avaliações do Exército (CAEx). 71 Esfera de aço Plastilina (a) (b) FIG. 3.16 - Equipamentos para ajuste e verificação da densidade da plastilina: (a) Câmara quente, WEISS; e (b) Aparato utilizado para verificação da densidade. FIG. 3.17 - Munição 7,62mm. (a) (b) FIG. 3.18 - (a) Provete calibre 7,62 mm com mira laser; e (b) Esquema do sistema utilizado com barreira óptica modelo B471 da HPI (SILVA, 2014). 72 Os ensaios balísticos foram divididos em cinco grupos, sendo o primeiro grupo composto pela placa do compósito de epóxi reforçado com manta de juta, sem a plastilina como material de apoio. O segundo grupo, também foi composto apenas pela placa do compósito epóxi-juta, porém, com a juta na configuração de tecido. Esse mesmo ensaio foi realizado também para o terceiro grupo, nas placas de alumínio. Esses três primeiros grupos tiveram por finalidade avaliar a energia cinética de absorção das placas isoladas em relação ao projétil 7,62mm através de sua velocidade residual (FIG. 3.19 (a)). Para o teste desses três grupos foi montado um aparato experimental que empregou o sistema de radar Doppler, modelo SL520P, do fabricante Weibel (Fixed-Head Doppler Radar Systems), como mostrado na FIG. 3.19(b) e os disparos foram efetuados por um provete de velocidade produzido pela HPI (High Pressure Instrumentation). O quarto grupo foi formado pela blindagem multicamada com o compósito epóxi reforçado com manta de juta. E o quinto grupo constituído pela blindagem multicamada com o compósito epóxi reforçado com tecido de juta. Esses dois últimos grupos tiveram o conjunto da blindagem fixado na plastilina (Fig. 3.20). Para a avaliação do desempenho balística dos dois últimos grupos de ensaio foi adotado o critério segundo a norma NIJ 0101.04 que considera uma proteção balística eficiente se a medida da maior profundidade da deformação na massa de plastilina, após o impacto, for igual ou inferior a 44 mm. Para a medição da indentação na plastilina foi utilizado o paquímetro de profundidade Absolute, série 571, da MITUTOYO. (a) (b) FIG. 3.19 - (a) Ensaio de velocidade residual da placa do compósito epóxi-juta; (b) Radar Doppler, modelo SL-520P, fabricante WEIBEL. 73 (a) (b) FIG. 3.20 – Sistema de blindagem multicamada fixado na plastilina. (a) Camada intermediária do compósito epóxi-tecido de juta; e (b) Camada intermediária do compósito epóxi-manta de juta. Através do ensaio de velocidade residual, também foi possível estimar o limite balístico, ou seja, a velocidade crítica (VL) que o material suporta. Como não é possível determinar a V50 para projéteis de alta velocidade, como o de calibre 7,62mm, utilizado no presente trabalho, a estimativa dessa velocidade crítica foi feita através da aplicação da energia absorvida pelo material na EQ. 2.10, conforme descrito anteriormente. Para todos os dados coletados, com o propósito de realizar uma investigação prévia sobre a probabilidade estatística, foi utilizada a análise de distribuição de Weibull para correlacionar o desempenho balístico, através da profundidade da indentação na plastilina, e também a energia absorvida, com o tipo de compósito usado como camada intermediária no sistema de blindagem multicamada. Essa análise estatística se baseia na função de distribuição cumulativa de Weibull, dada pela EQ. 3.4: Y [ U (V) = 1 − <VW X− E N \ Z EQ. 3.4 onde θ e β são parâmetros estatísticos, conhecidos por unidade característica e módulo de Weibull, respectivamente. Rearranjando a EQ. 3.4 obtém-se a EQ. 3.5. ln ln E T_(Y) N = ` ∙ ln V − (` ∙ ln a ) 74 EQ.3.5 Comparando a EQ. 3.5 com a equação da reta b = B ∙ V + c tem-se que “y” é dado por ln ln E N, “x” é igual a ln V, “B” é equivalente a β (módulo de Weibull), T_(Y) ou seja, é igual ao coeficiente angular da reta e “b” dado por −` ln a . Para se apresentar graficamente estes valores, deve-se ordená-los em ordem crescente (LIPSON e SHETH, 1973). Além dessas análises, com o objetivo de comparar com resultados obtidos em trabalhos similares realizados anteriormente, foram avaliadas as interações das ondas de choque nas interfaces dos componentes das blindagens multicamadas através do método de casamento de impedâncias, levando em consideração as premissas e as equações de conservação já descritas. 3.6 MICROSCOPIA ELETRÔNICA DE VARREDURA (MEV) Como as cerâmicas e as placas compósitas foram danificadas após os tiros, as superfícies faturadas foram analisadas utilizando-se o MEV, modelo Quanta FEG 250, da FEI (FIG. 3.21), com diferentes aumentos. Através das imagens obtidas buscou-se associar o comportamento balístico com a microestrutura e a influência das diferentes configurações das fibras nas placas compósitas. Para isso, foram capturadas imagens da região danificada após o impacto tanto do corpo cerâmico, quanto da placa compósita. Além disso, foram feitas imagens da aramida após o impacto e da fibra de juta na forma de manta cardada e tecido, como recebido. Para análise em MEV foi necessário fazer deposição de platina. Essa deposição foi realizada pelo equipamento de deposição de filme de alto vácuo da marca LEICA, modelo EM ACE600, como mostra a FIG 3.22. 75 FIG. 3.21 – Microscópio eletrônico de varredura, modelo Quanta FEG 250, da FEI. FIG. 3.22 – Sistema de deposição de filme de alto vácuo da marca LEICA, modelo EM ACE600. 76 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 DENSIFICAÇÃO E RETRAÇÃO LINEAR DOS CORPOS CERÂMICOS A fim de verificar se o processamento realizado para produção dos corpos cerâmicos foi adequado foram avaliadas a densificação e a retração linear e comparadas com os valores obtidos em trabalhos anteriores (GOMES, 2004; TRINDADE, 2012; SILVA, 2014; CHAGAS, 2014). A TAB. 4.1 apresenta os valores obtidos, de densificação e retração linear, para os corpos cerâmicos utilizados nos sistemas produzidos de blindagem multicamada, assim como as respectivas espessuras e densidades dos corpos cerâmicos sinterizados. TAB. 4.1 – Valores de espessura do sinterizado, densidade, densificação e retração linear. Blindagem Multicamada Espessura (mm) Densidade do 3 sinterizado (g/cm ) Retração (%) Densificação (%) 1 10,65 3,467 11,25 86,567 2 10,45 3,523 12,92 87,972 3 10,50 3,514 12,50 87,750 4 10,50 3,535 12,50 88,257 5 10,50 3,504 12,50 87,482 6 10,70 3,448 10,83 86,095 7 10,30 3,557 14,17 88,816 8 10,40 3,547 13,33 88,566 9 10,30 3,558 14,17 88,834 10 10,35 3,560 13,75 88,895 11 10,60 3,503 11,67 87,468 12 10,60 3,503 11,67 87,459 13 10,65 3,461 11,25 86,430 77 Blindagem Multicamada Espessura (mm) Densidade do 3 sinterizado (g/cm ) Retração (%) Densificação (%) 14 10,40 3,549 13,33 88,621 15 10,70 3,451 10,83 86,181 16 10,40 3,544 13,33 88,485 17 10,35 3,553 13,75 88,713 18 10,75 3,431 10,42 85,665 19 10,45 3,533 12,92 88,215 20 10,40 3,536 13,33 88,296 21 10,00 3,702 16,67 92,447 22 10,40 3,437 13,33 85,814 23 10,45 3,464 12,92 86,490 24 10,65 3,463 11,25 86,470 25 10,60 3,478 11,67 86,833 26 10,60 3,481 11,67 86,913 27 10,55 3,482 12,08 86,934 Média 10,49 ± 0,16 3,51 ± 0,06 12,59 ± 1,35 87,65 ± 1,40 De acordo com os dados que constam na TAB. 4.1 pode-se afirmar que o processamento realizado foi adequado, apresentando uma densificação média de 87,65% e densidade média do sinterizado de 3,51 g/cm3, valores esses bastante próximos dos valores de 88,1% e 3,53 g/cm3, obtidos em trabalhos anteriores (GOMES, 2004; TRINDADE, 2012; SILVA, 2014; CHAGAS, 2014), e a retração linear média foi de 12,59%. Além disso, a espessura média obtida foi de 10,49mm, conforme o esperado. 78 4.2 DESEMPENHO BALÍSTICO DA BLINDAGEM MULTICAMADA As imagens das FIG. 4.1, FIG. 4.2 e FIG 4.3 mostram as blindagens balísticas multicamada antes e após o ensaio balístico para os três diferentes tipos de camada intermediária utilizados: tecido de aramida (FIG. 4.1), compósito de epóxi reforçado com tecido de juta (FIG. 4.2) e compósito de epóxi reforçado com manta de juta (FIG. 4.3). FIG. 4.1 - Blindagem multicamada com tecido de aramida, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico. Delaminação FIG. 4.2 - Blindagem multicamada com compósito de epóxi reforçado com tecido de juta, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico. 79 Delaminação FIG. 4.3 - Blindagem multicamada com compósito de epóxi reforçado com manta de juta, como camada intermediária, antes e após ensaio balístico. Fazendo uma análise visual das imagens apresentadas pode-se se presumir que o sistema de blindagem com camada c intermediária de compósito de epóxi reforçado com manta de juta (FIG. 4.3) apresenta maior dissipação de energia, pois esse sistema apresentou maior número de regiões de delaminação além de maior quantidade de fragmentos cerâmicos capturados. Porém, como existem outros mecanismos de dissipação de energia, tais como, a deformação elástica do compósito,, o cisalhamento das camadas e a tensão à fratura das fibras (MORYE et al, 2000),, que agem em conjunto e podem influenciar no resultado do desempenho balístico, não se pode afirmar apenas com uma análise visual que esse tipo de sistema de blindagem é mais eficiente. Para isso, foi avaliado avaliado o desempenho balístico através da a profundidade do trauma provocado após o impacto para cada tipo de sistema de blindagem. blindage Em todos odos os testes balísticos realizados na plastilina não houve a perfuração do alvo, consequentemente, o projétil foi parado e a sua energia cinética dissipada no interior da blindagem multicamada em associação com a indentação causada na plastilina. Os três materiais testados como camada intermediária no n sistema de blindagem multicamada exibiram uma profundidade de indentação abaixo do limite de 44mm estabelecido pela norma NIJ 0101.04 (2000). A TAB. 4.2 apresenta os valores médios obtidos para a profundidade profundidade da indentação, medida na plastilina (FIG. 4.4), para os diferentes tipos de sistema de blindagem multicamada 80 investigados, assim como, as condições de teste como, a velocidade de cada projétil, a energia de impacto, o tipo de camada intermediária e a espessura dessa camada. FIG. 4.4 - Medição da indentação causada na plastilina pelo impacto do projétil. TAB. 4.2 - Profundidade da indentação na plastilina para as diferentes blindagens multicamada e condições de ensaio. Camada Espessura Indentação Blindagem (mm) Multicamada Intermediária compósito (mm) Velocidade de impacto (m/s) Energia de impacto (kJ) 1 TECIDO 14,00 16,26 824,64 3,298 2 TECIDO 10,00 17,69 836,48 3,393 3 TECIDO 14,00 18,02 831,14 3,350 4 TECIDO 10,59 18,78 809,07 3,175 5 TECIDO 11,00 19,55 826,58 3,314 6 TECIDO 10,08 20,35 825,76 3,307 7 TECIDO 11,25 23,15 850,47 3,508 8 TECIDO 10,00 23,55 834,00 3,373 9 TECIDO 12,25 24,19 854,76 3,544 10 TECIDO 11,00 25,13 845,21 3,465 81 Blindagem Camada Espessura Indentação Multicamada Intermediária compósito (mm) (mm) Velocidade de impacto (m/s) Energia de impacto (kJ) 11 MANTA 17,00 12,69 815,22 3,223 12 MANTA 20,00 13,76 843,02 3,447 13 MANTA 25,00 14,07 831,06 3,350 14 MANTA 12,00 15,07 832,54 3,362 15 MANTA 20,00 17,25 829,91 3,340 16 MANTA 11,00 17,63 829,53 3,337 17 MANTA 9,50 18,02 825,98 3,309 18 MANTA 13,00 18,43 815,74 3,227 19 MANTA 11,50 20,41 829,77 3,339 20 MANTA 11,00 27,81 814,90 3,221 21 ARAMIDA 10,00 17,56 840,45 3,426 22 ARAMIDA 10,00 21,07 814,01 3,214 23 ARAMIDA 10,00 21,79 842,78 3,445 24 ARAMIDA 10,00 23,16 849,90 3,503 25 ARAMIDA 10,00 24,98 831,69 3,355 26 ARAMIDA 10,00 25,04 842,07 3,439 27 ARAMIDA 10,00 25,11 829,15 3,334 Com base na TAB. 4.2 nota-se que apesar da variação da espessura da camada compósita não houve uma tendência definida de aumento ou redução na profundidade da indentação com a variação da espessura, como evidenciado comparando as blindagens 13, 14, 15, 16 e 20, em que se têm profundidades de indentações bastante próximas quando comparamos espessuras bem diferentes, como por exemplo, a blindagem com 25 mm de espessura que apresentou uma profundidade média de indentação de 14,07 mm e a blindagem de 12 mm espessura que apresentou uma diferença de apenas 1 mm na indentação em relação a essa outra blindagem com maior espessura. Portanto, as variações apresentadas na espessura das placas compósitas não foram significativas no desempenho balístico. É importante ressaltar que, apesar da ocorrência dessa variação na espessura das 82 placas compósitas, a porcentagem em volume de fibra, em relação à resina epóxi no compósito, manteve-se na média de 30%v. Essa variação de espessura ocorreu devido ao aprisionamento de ar na placa compósita durante a sua confecção e foi mais acentuado na preparação do compósito reforçado com manta de juta, isso devido à capacidade de absorção das fibras de juta, que sugam a resina no momento da aplicação, assim como, do emaranhado da manta cardada, que dificulta a impregnação das camadas posteriores da manta durante a prensagem, resultando em placas compósitas “porosas”. A TAB. 4.3 apresenta a média aritmética dos valores obtidos no ensaio balístico. Como pode ser observado nessa tabela, as placas compósitas com manta de juta apresentaram uma espessura média maior que as demais placas, devido a sua dificuldade de preparo, e também menor indentação média (17,51mm), ou seja, melhor desempenho balístico que as demais placas compósitas, o que pode ser confirmado através do gráfico de Weibull da FIG. 4.5, no qual nota-se a presença de dois grupos distintos, de inclinação diferente da reta de ajuste, dentre as blindagens multicamada com camada intermediária de compósito de epóxi reforçado com manta de juta. Ainda, de acordo com a TAB. 4.3, nota-se que dentre os três tipos testados de camada intermediária, a aramida foi a que apresentou menor desempenho balístico, com uma maior profundidade de indentação média de 22,67mm, isto é, uma profundidade 29,5% maior que a indentação média da blindagem com compósito de manta de juta e 9,7% maior que a blindagem com compósito de tecido de juta. Uma possível justificativa para esse comportamento pode ser atribuída a menor densidade do compósito comparado ao tecido de aramida (TAB. 4.3), que em princípio, quanto menor a densidade maior deve ser a redução da energia de impacto, pois uma menor impedância de choque da camada intermediária transmitirá uma menor energia do pulso de compressão. Além disso, a matriz frágil de epóxi participa na dissipação da energia através da nucleação e propagação de trincas. 83 TAB. 4.3 – Valores médios obtidos no ensaio balístico. Camada Espessura intermediária média (mm) ρ média 3 (g/cm ) Indentação Velocidade de média (mm) impacto média (m/s) Energia de impacto média (kJ) TECIDO 11,42 1,165 20,67 833,81 3,373 MANTA 15,00 1,164 17,51 826,77 3,316 ARAMIDA 10,00 1,400 22,67 835,72 3,388 FIG. 4.5 – Gráfico de distribuição de Weibull das indentações para as placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta. Para melhor visualização foi aplicado método estatístico de Weibull nos dois grupos de pontos apresentados na FIG. 4.5, separadamente. A FIG. 4.6 e a FIG. 4.7 apresentam os gráficos obtidos para o Grupo 1 e Grupo 2, respectivamente. Os parâmetros de Weibull obtidos dos gráficos da FIG. 4.5, FIG. 4.6 e FIG. 4.7 estão apresentados na TAB. 4.4. Nesta tabela, especificamente para o presente trabalho, o parâmetro θ representa a profundidade da indentação mais 84 característica, que é diferente da simples média aritmética. O parâmetro de ajuste R2 indica o grau de precisão da análise estatística. É importante destacar que o método estatístico de Weibull impõe limitações sobre os valores paramétricos, por exemplo, o valor do módulo de Weibull, β, deve variar entre 0,5 e 15. Quanto maior o valor de β, maior confiabilidade dos resultados. FIG. 4.6 – Gráfico de distribuição de Weibull do Grupo 1 das placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta. 85 FIG. 4.7 – Gráfico de distribuição de Weibull do Grupo 2 das placas compósitas de epóxi reforçado com manta de juta. Referente a isso, os valores de módulo de Weibull na TAB. 4.4 indicam uma confiabilidade relativamente alta para todos os grupos de pontos, porém, como foi possível visualizar um comportamento bimodal apresentado na FIG. 4.5, foram separados esses dois grupos de pontos que apresentaram, individualmente, um módulo de Weibull mais elevado e, consequentemente, maior confiabilidade dos resultados. Além disso, todos os grupos exibiram excelentes ajustes, com R2 próximos de 1. Dentre esses grupos, o Grupo 1 apresentou maior valor de β, de 14,05, melhor ajuste, com R2 igual à 0,9756, e menor desvio estatístico, de 1,204, isto é, um desvio de 8,7% do valor médio. Uma possível explicação para essa mudança de desempenho balístico é que o Grupo 1, de forma geral, engloba as placas compósitas mais porosas e o ar aprisionado dentro dessas placas agem como uma barreira adicional ou atenuador de tensão, o que auxilia na absorção da energia de impacto gerada pelo projétil. A TAB. 4.5 mostra o volume estimado desses vazios associado à profundidade da indentação. 86 TAB. 4.4 - Parâmetros de Weibull obtidos dos resultados balísticos das blindagens multicamadas com placa compósita reforçada com manta de juta. Camada intermediária MANTA Pontos Módulo de Weibull (β) Unidade característica (θ) Coeficiente de correlação (R²) Média (mm) Desvio Padrão Todos 6,730 17,49 0,9454 16,33 2,845 Grupo 1 14,050 14,35 0,9756 13,83 1,204 Grupo 2 10,380 18,61 0,9357 17,73 2,060 A partir da TAB. 4.5 observa-se que, de forma geral, as placas compósitas de manta de juta com maior volume de vazios exibiram menores valores de profundidade do trauma, isto é, melhor desempenho balístico. Porém, não se pode afirmar, no presente trabalho, a presença de uma tendência bem definida, proporcionalmente direta ou indireta, da profundidade da indentação associada com o volume de vazios. Para isso, seria necessário um estudo mais detalhado da influência do volume de vazios no desempenho balístico. Ainda, na TAB. 4.5 podese observar que o volume de vazios das placas de tecido de juta foi bem menor em relação às placas de manta de juta, apresentando também maiores profundidades de indentação, no geral. TAB. 4.5 - Volume estimado de vazios nas placas compósitas de epóxi- juta. Blindagem multicamada Camada Intermediária Indentação (mm) Vazios (%v) 1 TECIDO 16,26 0,1 2 TECIDO 17,69 0,2 3 TECIDO 18,02 2,7 4 TECIDO 18,78 1,8 5 TECIDO 19,55 5,6 Pontos Todos 6 TECIDO 20,35 0,1 7 TECIDO 23,15 4,9 8 TECIDO 23,55 3,0 9 TECIDO 24,19 13,5 10 TECIDO 25,13 2,7 87 Blindagem multicamada Camada Intermediária 11 MANTA 12 MANTA Pontos Indentação (mm) Vazios (%v) 12,69 34,7 13,76 48,2 Grupo 1 13 MANTA 14,07 55,6 14 MANTA 15,07 20,8 15 MANTA 17,25 36,5 16 MANTA 17,63 4,3 17 MANTA 18,02 0,8 18 MANTA 18,43 7,4 19 MANTA 20,41 11,3 20 MANTA 27,81 0,3 Grupo 2 Os gráficos da FIG. 4.8 e FIG. 4.9 apontam um comportamento unimodal, ou seja, com apenas uma linha reta para todos os pontos de indentação, o que indica que tanto as blindagens com tecido de juta quanto blindagens com tecido de aramida pertencem a um grupo com o mesmo desempenho balístico. 88 FIG. 4.8 – Gráfico de Weibull das indentações para as placas compósitas com tecido de juta. FIG. 4.9 – Gráfico de Weibull das indentações das blindagens com tecido de aramida. 89 Portanto, os resultados obtidos no presente trabalho indicam que os compósitos de epóxi reforçado com juta, como camada intermediária no sistema de blindagem, tiveram melhor desempenho balístico em relação à blindagem com tecido de aramida. Além disso, como vantagens adicionais, os compósitos de epóxi-juta são mais leves e mais baratos que o tecido de aramida. A TAB. 4.6 apresenta o custo de cada componente das blindagens, assim como, os parâmetros utilizados para esse cálculo. Os valores utilizados para o cálculo de custo da TAB. 4.6 foram obtidos através dos fornecedores ou da literatura (SATYANARAYANA et al, 2007; CALLISTER e RETHWISH, 2010, SILVA, 2014). Outra observação que deve ser feita é que apesar da cerâmica utilizada ser hexagonal de dimensões menores que as demais placas, para fins de cálculo foi considerado o mesmo volume de 225cm3, que corresponde a situação real. A TAB.4.7 apresenta o comparativo dos custos totais e do peso entre a blindagem multicamada utilizando tecido de aramida e a blindagem com compósito epóxi-juta. Nota-se que a blindagem com compósito epóxi-juta representa mais de 3% de redução no peso total da blindagem, além de apresentar quase 39% de redução no custo total. TAB. 4.6 – Relação de custo dos componentes utilizados na blindagem. Componente da Volume 3 Densidade 3 Peso Preço por kg Custo do blindagem (cm ) (g/cm ) (kgf) (US$) componente (US$) Cerâmica (Al2O3) 225 3,70 0,833 33,00 27,49 Tecido de aramida 225 1,40 0,315 63,60 20,03 1,11 0,175 2,80 1,30 0,088 0,30 2,70 0,304 8,50 Compósito Epóxi 225 Juta Alumínio 6061 112,5 0,52 2,58 TAB. 4.7 – Comparativo de custo e peso total das blindagens multicamada. Camada Peso total Redução de intermediária (kgf) peso (%) Aramida 1,452 Custo total (US$) custo (%) 50,10 3,58 Compósito epóxi-juta Redução de 1,400 38,94 30,59 90 4.3 DESEMPENHO INDIVIDUAL DAS CAMADAS DO SISTEMA DE BLINDAGEM Para avaliar o comportamento balístico individual de cada camada intermediária utilizada nos sistemas de blindagem, foram realizados testes separadamente das camadas de tecido de aramida, das placas compósitas de epóxi com tecido de juta e epóxi com manta de juta e da placa de alumínio. Para fins comparativos, nessa avaliação também utilizou os resultados da cerâmica, da aramida e do compósito de curauá obtidos por Silva (2014). Nesses testes, ao contrário dos testes realizados na plastilina, todas as amostras ensaiadas foram perfuradas. Dessa forma, além da velocidade de impacto, a velocidade residual do projétil após a perfuração pôde também ser medida pelo sistema de radar Doppler, e através dessas velocidades pôde-se calcular a energia absorvida individualmente para cada tipo de camada intermediária aplicando a EQ. 2.9 e, assim, obter a velocidade limite a partir da EQ. 2.10. A Figura 4.10 ilustra os pontos experimentais obtidos a partir do espectro de radar de um alvo de alumínio e a curva polinomial contínua ajustada. Nessa figura, deve-se notar que em aproximadamente 840m/s ocorre uma queda abrupta de velocidade que indica o momento de impacto. Essa velocidade é definida como velocidade de impacto (Vi) e a velocidade mínima atingida nessa queda é a velocidade residual (Vr). Gráficos semelhantes foram obtidos para o compósito com tecido de juta e o compósito com manta de juta. Com base nos dados extraídos desses gráficos pôde-se determinar a velocidade limite (VL) para cada componente da blindagem multicamada. 91 FIG. 4.10 – Gráfico de pontos experimentais do ensaio de velocidade residual do alumínio. A análise de Weibull também foi aplicada nos resultados do teste de velocidade residual e os gráficos estão apresentados nas FIG. 4.11, FIG. 4.12 e FIG. 4.13, para o compósito de tecido de juta, compósito com manta de juta e para a chapa de alumínio, respectivamente. Para essa situação a unidade característica resultante da estatística de Weibull representa a velocidade limite (VL) para cada componente testado. Os valores mais característicos obtidos de VL foram de 178,3m/s para o compósito com tecido de juta, 208,9m/s para a manta e 230,1m/s para o alumínio. Com exceção do compósito de tecido que apresentou um valor razoável de R2, igual a 0,86, os demais componentes testados, compósito de manta e chapa de alumínio, exibiram um ajuste de 0,92 e 0,97, respectivamente. Esse resultado indica que os resultados obtidos para o compósito de manta de juta são mais homogêneos se comparado com o compósito de tecido de juta. Ainda, nota-se que o alumínio apresentou maior velocidade limite, o que indica uma maior absorção de energia, que pode ser explicada pela capacidade de deformação plástica desse material até a ruptura. Já nas placas compósitas, o mecanismo de absorção pode ser atribuído à 92 fragmentação frágil da matriz em conjunto com o os mecanismos atuantes da fibra e a presença de vazios. FIG. 4.11 – Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para o compósito de tecido de juta. FIG. 4.12 – Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para o compósito de manta de juta. 93 FIG. 4.13 – Gráfico de Weibull da velocidade limite (VL) para a chapa de alumínio. ih ) e A TAB. 4.8 apresenta os valores das velocidades médias de impacto ( i0 ) obtidos no teste de velocidade residual, assim como, a energia residual ( absorvida (Eabs) e a velocidade limite (VL) para cada componente do sistema de blindagem calculadas através da EQ. 2.10. Com base na TAB. 4.8 nota-se que, dentre todos os componentes da blindagem multicamada, a cerâmica apresentou maior absorção da energia de impacto, em torno de 55%, e o tecido de aramida a menor absorção, 1,7% (SILVA, 2014), ou seja, o tecido de aramida não é uma barreira tão eficaz para a munição 7,62mm em comparação com os demais compósitos utilizados como camada intermediária no sistema de blindagem, isso porque, esses compósitos possuem uma matriz frágil capaz de dissipar mais energia através da fragmentação. Além disso, o compósito de epóxi reforçado com fibras de juta apresentou maior absorção de energia que o compósito de epóxi reforçado com fibras de curauá obtido por Silva (2014), chegando até quase 6% de energia absorvida, sendo que dentre os compósitos de juta, o reforçado com manta de juta apresentou uma porcentagem maior de absorção. Embora a diferença entre essas porcentagens seja pequena, essa diferença pode ser atribuída ao volume de vazios dentro da placa compósita, sendo maior no compósito com manta de juta. Com base nesses resultados era esperado 94 que as profundidades de indentação para os compósitos de epóxi-juta, de 17,51mm e 20,67mm fossem menores que a indentação obtida por Silva (2014) para o compósito de curauá, de 16,42mm, já que os compósitos de epóxi-juta apresentaram maiores valores de energia absorvida. Uma possível justificativa para a menor indentação encontrada para o compósito de curauá pode ser atribuída às propriedades mecânicas desse compósito, como maior resistência à tração e maior módulo de elasticidade, encontradas na literatura (SATYANARAYANA et al, 2007; MONTEIRO et al, 2011). TAB. 4.8 – Valores das velocidades médias de impacto e residual, energia absorvida e velocidade limite para cada componente do sistema de blindagem multicamada. Componente da blindagem ih (m/s) i0 (m/s) Eabs (J) % Eabs VL Referência Tecido de juta 841,45 ± 6,50 822,81 ± 6,41 150,50 4,4 176,16 *PT Manta de juta 843,80 ± 4,78 819,18 ± 7,19 198,54 5,7 202,33 *PT Alumínio 6061 842,30 ± 5,75 811,36 ± 6,48 248,10 7,2 226,18 *PT Cerâmica 847,52 ± 5,51 566,67 ± 4,32 1920,41 55,1 629,25 SILVA, 2014 Curauá 30% 848,30 ± 6,36 835,29 ± 6,17 106,16 3,0 147,95 SILVA, 2014 Tecido de aramida 848,13 ± 3,44 840,99 ± 6,99 58,48 1,7 109,81 SILVA, 2014 *PT: Presente Trabalho 4.4 INTERAÇÃO DAS ONDAS DE CHOQUE NAS BLINDAGENS MULTICAMADA Com a finalidade de comparar com resultados já obtidos em trabalhos anteriores foram realizados os cálculos de impedância de choque, assim como, das velocidades de partícula e pressões de interface para os conjuntos de blindagem multicamada utilizados no presente trabalho. Para esses cálculos aplicaram-se o método de casamento de impedâncias e as equações de conservação descritas anteriormente (EQ.2.4, EQ.2.5 e EQ.2.6). 95 A TAB. 4.9 apresenta os parâmetros característicos dos materiais utilizados nesses cálculos. Para a alumina foi utilizada a velocidade da onda elástica como velocidade onda de choque, anteriormente adotada por Silva (2014). Como não foi possível obter na literatura os parâmetros específicos para o compósito epóxi-juta, a velocidade da onda de choque (Us) foi substituída pela velocidade de onda elástica, expressa pela EQ 2.1. O módulo de elasticidade do compósito epóxi-juta foi estimado a partir da regra das misturas, dada pela EQ. 4.1. &j = &6 ∙ 6 + &k ∙ k EQ. 4.1 Onde Ecp é módulo de elasticidade do compósito, Em e Ef são os módulos de elasticidade da matriz e da fibra, respectivamente, e V representa as suas frações de volume. Para esse cálculo foram utilizados os limites mínimo e máximo do módulo de elasticidade da fibra de juta retirados da literatura (TAB.2.3). Os valores calculados, mínimo e máximo, do módulo de elasticidade do compósito assim como da velocidade da onda elástica para o compósito epóxi-juta constam na TAB. 4.10. TAB. 4.9 - Valores da velocidade da onda de choque e dos parâmetros característicos de cada material. 3 Material ρ (kg/m ) C (m/s) S Us (m/s) Referência Chumbo 11300 2066 1,517 2066 + 1,517UP MEYERS, 1994 Aramida 1440 1180 2,420 1180 + 2,420UP MEYERS, 1994 Alumínio 2700 5328 1,338 5328 + 1,338UP MEYERS, 1994 Alumina 3530 - - 10375,39 SILVA, 2014 TAB. 4.10 - Valores do módulo de elasticidade e da onda elástica do compósito epóxi-juta. Ejuta (GPa) Mín. Eepóxi (GPa) 13 Ecp (GPa) C0 (m/s) 5,587 2188,03 9,787 2895,94 2,41 Máx. 27 96 A FIG. 4.14 Ilustra um esquema gráfico do casamento de impedâncias aplicado na análise da interação das ondas de choque em cada interface da blindagem multicamada. A resolução dos cálculos nas interfaces pode ser resumida em três etapas: interface projétil (chumbo) e alvo (alumina); interface alumina e compósito; e interface compósito e alumínio. Também foram consideradas as interfaces alumina/aramida e aramida/alumínio para fins comparativos. A velocidade de projétil adotada foi a mesma utilizada por Silva (2014), de 863,63 ± 9,46 m/s, para estabelecer uma base comparativa. P (GPa) 35,00 Pb Al2O3 Al2O3 (R) Epóxi-juta Epóxi-juta (R) Al 30,00 25,00 20,00 P1 15,00 10,00 P3 P2 5,00 0,00 0 162 324 Up3 Up1 486 648 810 Up2 972 1134 1296 1458 Up (m/s) Vp FIG. 4.14 - Esquema gráfico do casamento de impedâncias na blindagem com compósito epóxi-juta como camada intermediária. A TAB. 4.11 apresenta os valores obtidos nos cálculos das velocidades de onda de choque (Us), de partícula (Up), e da pressão (P) nas interfaces de cada componente da blindagem multicamada. As interfaces envolvendo o compósito de epóxi-juta apresentam valores de mínimo e máximo devido à velocidade de onda desse compósito, que foi calculada considerando os valores limites da fibra de juta que constam na literatura, conforme já apresentado na TAB.4.10. Como já mencionado, uma onda de choque ao atingir a interface de um material de menor impedância de choque, é refletida, retornando pelo caminho original, como uma onda trativa que propaga as trincas nucleadas pela passagem da onda compressiva. Na TAB. 4.12 constam as impedâncias sônicas de cada componente 97 da blindagem multicamada. Analisando essa tabela, observou-se que a aramida exibiu maior impedância dentre os materiais utilizados como camada intermediária. Esse maior valor justifica a menor redução de energia de impacto, verificada pela maior profundidade média de indentação (22,67mm) obtida no ensaio balístico, pois, em princípio, para uma maior impedância de choque da camada intermediária, maior a energia do pulso de compressão transmitida. TAB. 4.11 – Valores da velocidade de partícula, velocidade de onda de choque e pressão nas interfaces de cada componente da blindagem multicamada e a natureza da onda de choque. Up (m/s) P (GPa) Us(m/s) Natureza da onda de choque 398,14 14,58 10.375,39 Compressiva Mín. 744,38 1,90 2.188,03 Trativa Máx. 729,01 2,46 2.895,94 Trativa Mín. 210,35 3,18 5.609,45 Compressiva Máx. 263,27 4,04 5.680,25 Compressiva 2 Al2O3-Aramida 743,63 3,19 2.979,58 Trativa 3 Aramida-Al 386,24 6,10 5.844,79 Compressiva Interface 1 Pb-Al2O3 2 Al2O3-(Epóxi/juta) 3 (Epóxi/juta)-Al TAB. 4.12 – Natureza das ondas refletidas e impedância de choque nas interfaces da blindagem multicamada. Material Densidade (kg/m ) Velocidade de onda (m/s) Impedância 2 (kg/(m .s)) Aramida 1440 9.537,94 13,73 x 10 Epóxi/Juta (mín.) 1167 2.188,03 2,55 x 10 Epóxi/Juta (máx.) 1167 2.895,94 3,38 x 10 Curauá 30% 1150 2.132,56 2,45 x 10 Bagaço da cana-de-açúcar 860 2.793,26 2,40 x 10 Chumbo 11300 2.066,00 23,35 x 10 Alumina 3530 10.375,39 36,62 x 10 Alumínio 2700 5.045,92 13,62 x 10 3 98 6 6 6 6 6 6 6 6 Esse comportamento também foi observado nos demais componentes utilizados como camada intermediária. O compósito de epóxi-juta exibiu maior impedância que o compósito de curauá (30%), o que explica a maior profundidade média de indentação para o compósito tanto de manta de juta, com 17,51mm, quanto para o compósito com tecido de juta, com 20,67mm, contra a indentação média de 16,42mm obtida para o compósito de epóxi reforçado com 30% de curauá (SILVA, 2014). Embora o compósito reforçado com bagaço da cana-de-açúcar apresente menor impedância que todas as camadas intermediárias testadas, a profundidade média de indentação obtida por Silva (2014) foi de 39,24mm, isto é, a maior indentação. Esse valor elevado de indentação para a blindagem com compósito de bagaço de cana-de-açúcar é justificado por Silva (2014) como consequência dos baixos valores de resistência a tração e resistência ao impacto (ensaio de Izod) encontrado na literatura. 4.5 ANÁLISE FRATOGRÁFICA A caracterização morfológica da fratura nos materiais é muito importante na definição das causas de sua falha. Essa análise serve para confirmar ou remover suspeitas sobre os modos de falhas e geralmente é feita com auxílio do equipamento de MEV. As imagens de MEV podem ser formadas por diversos mecanismos de contraste, como o contraste topográfico e o contraste de número atômico. No presente trabalho foi utilizado o contraste topográfico. Dada à baixa condutividade elétrica dos materiais ensaiados, foi necessária a deposição de platina ou mesmo carbono sobre as superfícies de fratura para a realização das imagens no MEV. A FIG. 4.15 apresenta uma micrografia por MEV da fibra da manta de juta utilizada na fabricação do compósito. Nessa figura pode-se observar a presença de fibrilas já rompidas. O detalhe da trama do tecido de juta, também usado na confecção das placas compósitas, está ilustrado na FIG. 4.16 obtida por MEV, com aumento de 60x. Com base nessa figura, notam-se espaços formados entre as fibras do trançado da trama 99 do tecido de juta que podem ter favorecido a impregnação do tecido pela resina epóxi durante o processamento do compósito. É possível visualizar também a existência de fibrilas já rompidas. Para comparativo, a FIG. 4.17(a) exibe a trama do tecido de aramida utilizado na fabricação das blindagens. Observa-se que a trama da aramida é bem fechada e a uniformidade das fibras pode ser vista na FIG. 4.17(b). Ainda, é possível notar, na superfície da trama, algumas fibrilas da aramida já rompidas, em decorrência provável do armazenamento ou manuseio das mesmas. Fibrila rompida FIG. 4.15 - Micrografia por MEV da fibra da manta de juta utilizada na fabricação do compósito. Aumento de 100x. Fibrilas rompidas FIG. 4.16 - Micrografia por MEV da trama do tecido de juta com trançado grosseiro utilizado na fabricação do compósito. Aumento de 60x. 100 Fibrilas rompidas (a) (b) FIG. 4.17 - Micrografia por MEV: (a) Trama do tecido de aramida (100x); (b) Detalhe da fibra (1000x). O aspecto típico da superfície de fratura das amostras compósitas de tecido de juta pode ser visualizado nas micrografias de MEV da FIG. 4.18. Na FIG. 4.18(b), percebe-se a separação das fibras de juta, em fibrilas mais finas, o que é um aspecto da ruptura mecânica desse tipo de fibra (MONTEIRO et al, 2011). Isto contribui significativamente para absorver a energia de impacto. Ainda, a fratura frágil da matriz de epóxi, FIG. 4.18(a), é outra fonte de dissipação de energia. Adicionalmente, o entrelaçamento dos fios do tecido de juta também auxilia no aprisionamento da matriz de epóxi. Nota-se também a presença de pequenas partículas na superfície do compósito provenientes da fragmentação da cerâmica (FIG. 4.18(b)). Além disso, o tecido de juta apresentou uma adesão relativamente boa, como mostrado na FIG. 4.19, onde é possível observar o fio da trama do tecido de juta totalmente impregnado pela resina epóxi. Essa boa adesão entre a fibra e matriz foi responsável pela boa resistência à propagação de trincas durante o ensaio balístico. 101 (a) (b) FIG. 4.18 - Micrografia por MEV: (a) Fratura do compósito do tecido de juta (100x); (b) Partículas cerâmicas na superfície do compósito (1000x). FIG. 4.19 - Micrografia por MEV do detalhe do fio da trama do tecido envolvido por epóxi (100x). A FIG. 4.20 apresenta a imagem da seção transversal da região danificada pelo impacto do projétil na placa compósita “porosa” de manta de juta. A partir dessa figura pode-se observar que a manta de juta contribui de maneira efetiva para aumentar a resistência da matriz de epóxi através dos mecanismos de delaminação, descolamento e rompimento das fibras. 102 Delaminação Rompimento das fibras FIG. 4.20 - Seção transversal da região danificada pelo impacto do projétil na placa compósita “porosa” de manta de juta. A FIG. 4.21 mostra a região de fratura do compósito de manta de juta após a penetração por fragmentos gerados pela cerâmica e pelo projétil. Nessa figura é possível observar a presença de vazios resultantes da etapa de preparo do compósito. Como abordado anteriormente, os resultados indicam que esses vazios têm forte influência no desempenho balístico das placas compósitas. Verifica-se também que houve uma boa adesão entre as fibras da manta e a matriz, além da presença de pequenas partículas cerâmicas na superfície do compósito, que são destacadas na FIG. 4.22. Essa impregnação de pequenas partículas cerâmicas também foi verificada no tecido de aramida danificado, FIG. 4.23, que mostra pequenas partículas brancas presas nas fibras de aramida. 103 Vazios FIG. 4.21 - Micrografia por MEV da região fraturada do compósito de manta de juta (100x). Partículas Cerâmicas FIG. 4.22 - Micrografia por MEV das partículas cerâmicas na superfície do compósito de manta de juta (1000x). 104 FIG. 4.23 - Micrografia por MEV das partículas cerâmicas presas nas fibras de aramida (500x). A FIG. 4.24 ilustra a região de impacto do projétil na placa cerâmica. Verifica-se Verifica que na área próxima ao impacto ocorreu uma fragmentação intensa, porém observam-se se pedaços grandes do material, praticamente intactos, nas n extremidades da cerâmica. Essa concentração pronunciada da energia de impacto próxima próxim ao eixo de penetração do projétil projét enfraquece essa região, gerando maior profundidade de penetração, isto é, maior profundidade de indentação na plastilina. FIG. 4.24 - Região de impacto do projétil na placa cerâmica. cerâmica. 105 Na FIG. 4.24 também fica evidente a formação de trincas radiais a partir do ponto de impacto, que são características de materiais frágeis. A micrografia da FIG. 4.25 destaca essa formação. Essas trincas radiais são geradas pelo deslocamento do projétil ao atingir essa região e propiciam a propagação das trincas internas, ramificando-as e promovendo a subdivisão do material em várias partes. Como já mencionado, o estilhaçamento do material pode ocorrer quando a onda de choque encontra uma superfície livre e reflete uma onda trativa capaz de romper o material. Este mecanismo de falha é caracterizado pela projeção de vários fragmentos. (BACKMAN e GOLDSMITH, 1978; MOSS et al., 1995). Ainda na FIG. 4.25 é possível visualizar um fragmento do projétil no ponto de impacto. Fragmento do projétil FIG. 4.25 – Fratura radial na região de impacto da camada cerâmica. A imagem da FIG. 4.26 indica que a fratura da cerâmica foi predominantemente intergranular, devido à adição da nióbia que forma precipitados nos contornos de grãos da alumina e modifica o mecanismo de fratura da alumina de transgranular para intergranular, aumentando a absorção de energia de impacto (MADHU et al, 2005). 106 FIG. 4.26 – Micrografia por MEV da cerâmica fraturada (5000x). 107 5 CONCLUSÕES 1) Para os três tipos de materiais testados como camada intermediária na blindagem multicamada, a eficiência balística atendeu a norma internacional NIJ 0101.04 (2000), ou seja, a profundidade de indentação foi abaixo do limite de 44 mm especificado em norma. 2) Dentre os materiais testados, o compósito com manta de juta apresentou melhor desempenho balístico, com uma profundidade média de indentação de 17,51 mm. Já a aramida exibiu o menor desempenho balístico, com uma profundidade média de indentação de 22,67 mm, ou seja, profundidade 29,5% maior que a indentação média da blindagem com compósito de manta de juta e 9,7% maior que a blindagem com compósito de tecido de juta (20,67 mm). Além disso, como vantagens adicionais, a blindagem multicamada com compósito de epóxi-juta é quase 4% mais leve e quase 39% mais barata quando comparada com a blindagem com tecido de aramida. 3) No desempenho individual de cada material utilizado como camada intermediária, o compósito com manta de juta apresentou maior velocidade limite, de 208,9 m/s, o que indica uma maior absorção de energia. O valor mais característico obtido para a velocidade limite do compósito com tecido de juta foi de 178,3 m/s. Já a aramida exibiu o menor valor de velocidade limite, 109,81 m/s e o compósito reforçado com 30% de curauá um valor intermediário de 147,95 m/s. 4) O compósito de epóxi-juta apresentou uma absorção de energia de quase 6%, e o compósito de epóxi-curauá, obtido por Silva (2014), uma absorção de energia de 3%. Porém, a profundidade de indentação, de 16,42mm (SILVA,2014), obtida para o compósito epóxi-curauá foi 6,2% menor que a apresentada pelo compósito reforçado com manta de juta e 20,6% menor que a indentação exibida pelo compósito com tecido de juta. Enquanto o tecido de aramida, individualmente, exibiu a menor absorção de energia de 1,7%. As possíveis justificativas para a menor indentação encontrada para o compósito de curauá pode ser atribuída às propriedades mecânicas desse compósito, como maior resistência à tração e maior módulo de elasticidade. 108 5) Dentre os materiais utilizados como camada intermediária o tecido de aramida exibiu maior impedância (13,73x106 kg/m².s). Esse maior valor justifica a menor redução de energia de impacto, verificada pela maior profundidade média de indentação obtida no ensaio balístico de 22,67 mm. 6) Através da análise das superfícies fraturadas do compósito, verificou-se que a fibra de juta contribuiu de maneira efetiva para aumentar a resistência da matriz de epóxi através dos mecanismos de delaminação, descolamento e rompimento das fibras. Observou-se, também, que para todos os materiais testados como camada intermediária houve a impregnação de pequenas partículas cerâmicas nas fibras, o que indica que todos esses materiais contribuem para a dissipação de energia através da captura dos fragmentos gerados pelo impacto do projétil. 109 6 SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS • Avaliar a influência causada no comportamento balístico pela variação da fração em volume de fibra de juta no compósito epóxi-juta, utilizando as configurações de tecido e manta. • Estudar detalhadamente a influência da fração de vazios do compósito epóxi- manta de juta no comportamento balístico e nas propriedades mecânicas desse compósito. • Avaliar e comparar o desempenho balístico do compósito polimérico reforçado com 30%v de juta utilizando outro tipo de matriz, como por exemplo, poliéster. • Analisar e comparar a eficiência balística de uma blindagem multicamada utilizando um compósito de epóxi reforçado com 30%v de outro tipo de fibra, ainda não investigada, como por exemplo, piaçava. • Avaliar o comportamento balístico de uma blindagem multicamada utilizando apenas manta de juta prensada ou costurada. 110 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABNT NBR 15000. 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