Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Projeto de Iniciação Científica EFEITO DE ENVELHECIMENTO A 550°C NAS PROPRIEDADES MECÂNICAS DA LIGA CUPRONÍQUEL Cu14Ni COM ADIÇÕES DE ALUMÍNIO E FERRO Relatório Final Bolsista: RAFAEL NOBRE e-mail: [email protected] Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Departamento de Engenharia Mecânica - FEI e-mail: [email protected] Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto 0 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Resumo Através do estudo do envelhecimento a 550°C por até 720 horas o presente trabalho procurou relacionar a cinética de precipitação da liga Cu14Ni - com adições de alumínio e ferro – às suas propriedades mecânicas. As análises microestruturais, os ensaios de dureza e os ensaios de tração realizados indicaram um perfil no qual atinge-se um valor máximo para a dureza e para a resistência mecânica à tração através do envelhecimento por 16 horas. Até este período de tempo a precipitação ocorre de forma a orientarse primordialmente nos contornos de grãos e acima deste tempo de envelhecimento há o coalescimento continuo dos precipitados intergranulares, o que diminui as propriedades de dureza e resistência mecânica à tração, caracterizando um processo de superenvelhecimento indesejável. Constatouse também, através da correlação entre micrografias e ensaios de dureza, indicações de precipitação intragranular finamente dispersa a partir de 4 horas de precipitação, já que a este período de tratamento térmico observou-se o início do coalescimento de precipitados intergranulares acompanhado de um aumento de dureza do material até 16 horas de envelhecimento. Verificou-se ainda que os principais mecanismos de endurecimento atuantes são a precipitação de fase Ni3Al e a presença de Ni, Al e Fe em solução sólida na matriz. Palavras-chave: cuproníquel, envelhecimento, precipitação, coalescimento, ensaios de dureza, ensaios de tração. 1 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Objetivos O presente trabalho se propôs a estudar a influência do envelhecimento a 550°C por até 720 horas nas propriedades mecânicas da liga cuproníquel Cu14Ni com adições de ferro e alumínio, obtendo-se 24 amostras diferentes. O material, após tratamentos térmicos e caracterização microestrutural por microscopia óptica, foi submetido a ensaios de microdureza e mecânicos de tração. Foram determinadas as propriedades mecânicas do material, relacionando-as às diferentes microestruturas obtidas, e foi avaliada a cinética de envelhecimento da liga em estudo. 2 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Índice I. Revisão Bibliográfica ................................................................................ 5 I.1) Comportamento mecânico ............................................................. 5 I.1.1) Comportamento Tensão-Deformação .............................. 7 I.1.2) Ductilidade ......................................................................... 9 I.1.3) Resiliência ......................................................................... 11 I.1.4) Tenacidade ........................................................................ 12 I.1.5) Curva Tensão-Deformação e Eq. de Hollomon ................. 13 I.1.6) Dureza ............................................................................... 16 I.2) O Cobre ........................................................................................... 17 I.2.1) Cuproníquel ....................................................................... 19 I.3) Soluções Sólidas ............................................................................. 21 Fases Intermediárias .................................................................. 22 Soluções Sólidas Substitucionais e as regras de Hume-Rothery ............................................................. 24 Como os elementos de liga afetam as propriedades do cobre .. 28 Resistência mecânica ...................................................... 28 Condutividade térmica e elétrica ...................................... 29 Discordâncias ............................................................................. 30 Vetor de Burgers e Circuito de Burgers ........................... 32 Atmosferas de átomos de soluto em discordâncias ........ 34 Arraste de atmosferas em discordâncias em movimento. 37 I.4) A Precipitação como mecanismo de endurecimento ...................... 42 Cinética de Precipitação ............................................................. 42 3 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Nucleação heterogênea versus nucleação homogênea ............ 51 Endurecimento por precipitação ................................................ 52 Endurecimento por precipitação em ligas de cobre ................... 57 II. Materiais e métodos .................................................................................. 61 II.1) Materiais ........................................................................................ 61 II.2) Métodos ......................................................................................... 61 II.2.1) Fundição da liga ............................................................... 61 II.2.2) Preparação da chapa ....................................................... 62 II.2.3) Solubilização .................................................................... 63 II.2.4) Envelhecimento ................................................................ 63 II.2.5) Preparação metalográfica ................................................ 63 II.2.6) Microdureza ..................................................................... 64 II.2.7) Análises Metalográficas ................................................... 65 II.2.8) Ensaios de Tração ........................................................... 66 III. Resultados Experimentais ....................................................................... 68 III.1) Microdurezas ................................................................................. 68 III.2) Caracterização microestrutural ..................................................... 69 III.3) Ensaios de Tração ........................................................................ 79 III.4) Determinação da fração em massa do precipitado ...................... 83 IV. Discussão dos resultados ....................................................................... 85 V. Conclusões ................................................................................................ 93 Referências Bibliográficas ............................................................................ 95 4 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto REVISÃO BIBLIOGRÁFICA I.1) Comportamento mecânico O comportamento mecânico de um material reflete a relação entre a sua resposta, medida como deformação, a uma carga ou força que esteja sendo aplicada. Algumas das principais propriedades mecânicas são a resistência, a ductilidade e a rigidez. Se uma carga é estática ou se há alteração desta de uma maneira relativamente lenta ao longo do tempo, e é aplicada uniformemente sobre uma seção reta, o comportamento mecânico pode ser verificado mediante um simples ensaio tensão-deformação. Um dos ensaios mecânicos de tensão-deformação mais comuns é executado sob tração. Este ensaio pode ser utilizado para avaliar diversas propriedades mecânicas dos materiais utilizados em diversos tipos de projetos. Uma amostra é deformada, geralmente até sua fratura, mediante uma carga de tração gradativamente crescente que é aplicada uniaxialmente ao longo do eixo mais longo de um corpo-de-prova. Durante os ensaios, a deformação fica confinada à região central e mais estreita do corpo-de-prova, que possui uma seção reta uniforme ao longo do seu comprimento. A máquina de ensaios de tração é projetada para alongar o corpo-de-prova a uma taxa constante, além de medir contínua e simultaneamente a carga instantânea aplicada (com uma célula de carga) e os alongamentos resultantes (usando um extensômetro). Tipicamente, um ensaio de tração leva vários minutos para ser executado e é 5 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto destrutivo, isto é, a amostra testada é deformada de maneira permanente, sendo geralmente fraturada[1]. O resultado de um ensaio de tração deste tipo é registrado na forma de carga ou força em função do alongamento. Essas características cargaalongamento são dependentes do tamanho da amostra. Por exemplo, se a área da seção reta do corpo-de-prova for dobrada, será necessário o dobro da carga inicial para produzir o mesmo alongamento. Para minimizar estes fatores geométricos, a carga e o alongamento são normalizados de acordo com seus respectivos parâmetros de tensão de engenharia e deformação de é definida pela relação[1] engenharia. A tensão de engenharia σ = F Ao (1.1) onde F é a carga instantânea aplicada em uma direção perpendicular à seção reta da amostra, em unidades de newton (N) ou libras-força (lbf), e A0 representa a área da seção reta original antes da aplicação de qualquer carga (m² ou pol.²). As unidades da tensão de engenharia são megapascals, MPa (SI) (onde 1MPa ≈ 106N/m²) e libras-força por polegada ao quadrado, psi (Unidade usual nos Estados Unidos). A conversão de um sistema de unidades para outro é obtida pela relação: 145psi = 1MPa[1]. A deformação de engenharia ε= é definida de acordo com a expressão[1] li − lo ∆l = lo lo (1.2) onde lo é o comprimento original antes de qualquer carga ser aplicada, e li é o comprimento instantâneo. Algumas vezes a grandeza li – lo é simbolizada por l, e representa o alongamento ou a variação no comprimento a um dado 6 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto instante, com referência ao comprimento original. A deformação de engenharia não possui unidades, assim, o valor da deformação é independente do sistema de unidades. A deformação pode também ser expressa como uma porcentagem, onde o valor da deformação é multiplicado por 100. I.1.1) Comportamento Tensão-Deformação O grau ao qual uma estrutura se deforma ou se esforça depende da magnitude da tensão imposta. Para a maioria dos metais que são submetidos a uma tensão de tração em níveis relativamente baixos, a tensão e a deformação são proporcionais entre si, de acordo com a relação[1]: σ = E.ε (1.3) Esta relação é conhecida por Lei de Hooke, e a constante de proporcionalidade E é o módulo de elasticidade ou módulo de Young. Para o alumínio, cobre e níquel, este módulo de elasticidade corresponde a 69 GPa (10x106 psi), 110 GPa (16x106 psi) e 207 GPa (30x106 psi) respectivamente [1]. O processo de deformação no qual a tensão e a deformação são diretamente proporcionais é chamado de deformação elástica. Na Figura 1.1, é exibida esquematicamente uma curva do tipo tensão-deformação, exemplificando o regime elástico descrito e o regime plástico, que ainda será detalhado. 7 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig 1.1 Comportamento tensão-deformação típico para um metal, mostrando as deformações elástica e plástica, o módulo de elasticidade e os limites de escoamento, de resistência à tração e de ruptura. Para a maioria dos materiais metálicos, o regime elástico persiste apenas até deformações de aproximadamente 0,005 [1] . À medida que o material é deformado além deste ponto, a tensão não é mais proporcional à deformação, ocorrendo então uma deformação permanente não recuperável, ou deformação plástica, exemplificada na Fig.1.1. A transição do comportamento elástico para o plástico é uma transição gradual para a maioria dos metais; existe a ocorrência de uma curvatura no ponto de surgimento da deformação plástica, a qual aumenta mais rapidamente com o aumento da tensão[1]. A partir de uma perspectiva atômica, a deformação plástica corresponde à quebra de ligações com os átomos vizinhos originais e em seguida a formação de novas ligações com novos átomos vizinhos, uma vez que um grande número de átomos se move em relação uns aos outros; com a remoção da tensão, eles não retornam às suas posições originais. Nos sólidos cristalinos, a deformação ocorre mediante a um processo de escorregamento, que envolve o movimento de discordâncias. 8 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A maioria das estruturas é projetada para assegurar que apenas deformação elástica irá resultar quando da aplicação de uma tensão. Torna-se então desejável conhecer o nível de tensão onde a deformação plástica tem início, ou onde ocorre o fenômeno de escoamento. Para metais que experimentam transição elastoplástica gradual, o limite de escoamento pode ser determinado como sendo o ponto onde ocorre deformação plástica de 0,002 [1] . Após o escoamento, a tensão necessária para continuar a deformação plástica em metais aumenta até um valor máximo e então diminui até a fratura do material. O limite de resistência à tração é a tensão no ponto máximo da curva tensão-deformação. Este corresponde à tensão máxima que pode ser sustentada por uma estrutura que se encontra sob tração com a deformação ocorrendo uniformemente até a fratura. Se essa tensão for aplicada e mantida, o resultado será a fratura, no ponto de ruptura. I.1.2) Ductilidade A ductilidade é uma importante propriedade mecânica. Ela é a medida do grau de deformação plástica ocorrida até a fratura. Um material que experimenta uma pequena ou nenhuma deformação plástica é denominado frágil. Esta propriedade pode ser expressa quantitativamente como porcentagem de alongamento ou porcentagem de redução de área. A porcentagem de alongamento %EL é a porcentagem de deformação plástica até a fratura, ou[1] % EL = lf − lo .100 lo 9 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto onde lf é o comprimento final do corpo-de-prova depois da fratura e lo é o comprimento original do corpo-de-prova. A porcentagem de redução de área é definida como[1] % AR = Ao − Af .100 Ao onde Ao é a área original da seção transversal do corpo-de-prova e Af é a área da seção transversal no ponto de fratura. Os valores das porcentagens de redução de área são independentes tanto de lo quanto de Ao. Além disso, para um dado material, as magnitudes de %EL e %AR serão geralmente diferentes. A maioria dos materiais possui ao menos um grau moderado de ductilidade em temperatura ambiente, no entanto, alguns se tornam frágeis à medida em que a temperatura decresce. O conhecimento da ductilidade dos materiais torna-se importante para basicamente duas razões principais. Primeiramente, ela indica ao projetista o nível de deformação plástica sofrida por uma estrutura antes da fratura. Em segundo lugar, ela especifica o nível de deformação permitida durante operações de fabricação. Materiais considerados frágeis são aqueles que apresentam uma baixa deformação (5% ou menos) antes da fratura[1]. A figura 1.1.2 demonstra esquematicamente a representação da curva tensão-deformação de um material dúctil e um frágil até a fratura. Figura 1.1.2. Representações esquemáticas dos comportamentos dúctil e frágil na curva tensão x deformação para materiais tencionados até a fratura. 10 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto I.1.3) Resiliência Resiliência é a capacidade de um material em armazenar energia quando deformado elasticamente e então, quando descarregado, devolver esta energia. A propriedade associada é o módulo de resiliência, Ur, que é a energia de deformação por unidade de volume requerida para tensionar um material, partindo de um estado sem carregamento até atingir o limite de escoamento. Analiticamente, o módulo de resiliência de um corpo-de-prova submetido a uma tensão uniaxial é a área abaixo da curva tensão x deformação até o limite de escoamento. (Fig.1.1.3), ou [1] εy Ur = σ .dε 0 Admitindo uma região elástica linear,[1] 1 Ur = .σy.εy 2 onde y é a deformação no limite de escoamento e y o limite de escoamento. As unidades de resiliência são o produto das unidades de cada um dos dois eixos do diagrama de tensão x deformação. Para unidades no Sistema Internacional (SI), estas são representadas em joules por metro cúbico (J/m³, equivalente a Pa), enquanto que no Sistema Americano são polegadas-libra força por polegada ao cubo (in.-lbf/in.³, equivalente a psi)[1]. Tanto joules quanto polegadas-libra força são unidades de energia, e portanto, a área abaixo da curva tensão-deformação representa o armazenamento de energia por unidade de volume (em metros cúbicos ou polegadas cúbicas) do material. 11 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Pela lei de Hooke, a região inicial da curva tensão-deformação pode ser considerada linear e, portanto, σ = E.ε onde é a tensão aplicada, é a deformação causada e E é o módulo de elasticidade (ou módulo de Young). Assim, a resiliência pode ser expressa da seguinte forma[1]: 1 1 σy σy ² Ur = .σy.εy = σy. = 2 2 E 2E Assim, materiais resilientes são considerados como sendo os que apresentam alto limite de escoamento e baixo módulo de elasticidade. A figura 1.1.3 representa esquematicamente o módulo de resiliência a partir de uma curva tensão-deformação. Figura 1.1.3. Representação esquemática mostrando como o módulo de resiliência (correspondente à área sombreada) é determinado a partir do comportamento tensão-deformação de um material. I.1.4) Tenacidade Tenacidade é um termo mecânico utilizado em diversos contextos. Basicamente, ela é a medida da habilidade de um material de absorver energia até a fratura. A geometria do corpo-de-prova, assim como forma da aplicação de carga são de grande importância na determinação da tenacidade. Para 12 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto condições de aplicação de carga dinâmica (alta taxa de deformação) e quando um entalhe (ponto de concentração de tensões) está presente, a tenacidade no entalhe é determinada através de testes de impacto. Além disso, a tenacidade na fratura é uma propriedade indicativa da resistência do material ao sofrer uma fratura quando trincas estão presentes, por exemplo. Para situações estáticas (baixa taxa de deformação), a tenacidade pode ser determinada como sendo o resultado de um ensaio tensão x deformação. A tenacidade é a área abaixo da curva tensão-deformação até o ponto de fratura. As unidades de tenacidade são as mesmas apresentadas para a resiliência (energia absorvida por unidade de volume de um material, por exemplo). Para que um material possa ser considerado tenaz, este deve apresentar resistência mecânica elevada assim como alta ductilidade e, geralmente, materiais dúcteis são mais tenazes do que materiais frágeis. Esta proposição é demonstrada na Fig.1.1.2, na qual as curvas tensão-deformação estão plotadas para estes dois tipos de material. Assim, apesar de um material frágil possuir maior limite de escoamento e resistência à tração, este possui uma menor tenacidade do que o material dúctil, devido à sua falta de ductilidade. Isto pode ser deduzido ao se comparar as áreas ABC e AB’C’ na Fig.1.1.2. I.1.5) Curva Tensão-Deformação Real e Equação de Hollomon Deve-se destacar que as características de deformação de um metal não são corretamente indicadas pelo estudo da curva tensão-deformação de engenharia, já que a mesma é baseada nas dimensões originais do corpo-deprova e na realidade estas dimensões são alteradas durante um ensaio de 13 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto tração, por exemplo. Desta forma, a tensão real é definida como sendo o quociente entre a carga em qualquer instante e a área da secção transversal do corpo-de-prova neste mesmo instante. Sendo assim, a tensão real ( r) e a deformação real ( ) podem ser escritas da seguinte forma: onde r é a tensão real imposta ao material, sendo A a área da secção transversal à direção de aplicação da força F no corpo-de-prova e é a deformação real sofrida pelo material, sendo L o comprimento instantâneo do corpo-de-prova e L0 o comprimento inicial do mesmo. Usualmente, utiliza-se a equação de Hollomon [2] para descrever a relação entre tensão e deformação reais no regime plástico dos materiais metálicos: σ r = H .ε np onde H é o coeficiente de resistência e n o expoente de encruamento. Desta forma, tem-se que a tensão e a deformação real podem ser escritas da seguinte forma: ε r = ln A L = ln o Lo A e σ = S .e ε r Ao = eε r A S = σ .e −ε r Sendo o limite de resistência um valor de máximo de tensão convencional, pode-se escrever: dS dε =0 14 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Portanto, dS = dε r dσ r − ε r .e + σ r . − e −ε r d ε r dε r [ ( )] dS 1 = εr dε r e =0 dσ r −σr = 0 dε r Verifica-se, através da análise da figura I.1.5, que demonstra a diferença entre as curvas tensão-deformação de engenharia e tensão-deformação real, que: Tensão (MPa) dσ LR = σ LR dε u Deformação Figura I.1.5: Curvas tensão-deformação real e convencional (de engenharia). deformação de engenharia uniforme. u é a deformação real uniforme e eu é a Desta forma, obtém-se a seguinte igualdade: H .n.ε u n −1 = H .ε u n 15 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Assim, para que tal igualdade seja válida, tem-se que: n = εu Esta igualdade permite que se possa analisar o comportamento de deformação plástica uniforme através do coeficiente de encruamento (n) do material, obtido geralmente através de ensaios de tração. I.1.6) Dureza Uma propriedade de bastante importância é a dureza, que é uma medida da resistência de um material a uma deformação plástica localizada (por exemplo, uma pequena impressão ou risco). Os primeiros ensaios de dureza eram baseados em minerais naturais, com uma escala construída unicamente em função da habilidade de um material em riscar um outro mais macio. Técnicas quantitativas foram desenvolvidas ao longo dos anos, nas quais um pequeno penetrador é forçado contra a superfície de um material a ser testado, sob condições controladas de carga e taxa de aplicação. Faz-se a medida da profundidade ou do tamanho da impressão resultante, a qual por sua vez é relacionada a um número índice de dureza; quanto mais macio o material, maior e mais profunda é a impressão e menor é o número índice de dureza. Uma das técnicas amplamente utilizadas para o ensaio de dureza é a de microdureza Vickers (algumas vezes também chamada de pirâmide de diamante). Para cada ensaio um penetrador de diamante muito pequeno, com geometria piramidal, é forçado contra a superfície do corpo-de-prova. As cargas aplicadas normalmente variam entre 1 e 1000g para este tipo de ensaio. A impressão resultante é observada sob microscópio e medida; essa medição 16 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto é então convertida em um número índice de dureza (HV= 1,854P/d1² , onde P é a carga aplicada ao penetrador, em kgf e d1 é a média das diagonais do quadrado impresso no corpo-de-prova, em milímetros)[1]. É necessária uma preparação cuidadosa da superfície do corpo-de-prova (lixamento e polimento), a fim de assegurar uma impressão bem definida, que possa ser medida com precisão. Este método é bem adequado para a medição da dureza de regiões pequenas e selecionadas do corpo-de-prova. I.2) O Cobre O cobre é possivelmente o metal há mais tempo utilizado pela humanidade. Registros históricos citam a utilização do bronze (liga cobreestanho) nos primórdios da civilização, anterior mesmo à descoberta e ao uso do ferro. Entretanto, atualmente o cobre é apenas o terceiro metal mais usado, atrás do ferro e do alumínio, sendo que este último ultrapassou o cobre somente nas últimas décadas, após a Segunda Guerra Mundial. Diversos fatores podem explicar esse fenômeno, mas provavelmente o mais consistente está relacionado com o custo, uma vez que o cobre está presente na crosta terrestre em quantidades muito menores do que os dois metais mais utilizados. Entretanto, para determinadas aplicações, o cobre comercialmente puro e as ligas de cobre ainda são insuperáveis, devido às suas características físicas e químicas muito peculiares. O cobre puro é um metal de transição cuja densidade (massa específica) é 8,94x10³ kg/m³, o que permite dizer que é um metal ainda mais “pesado” do que o ferro (7,87x10³ kg/m³) e muito mais denso que o alumínio (2,71x10³ kg/m³)[4]. Seu ponto de fusão é de 1083 ºC, mais baixo do que o do ferro 17 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto (1538°C) e mais alto do que o do alumínio (660,4°C)[4]. Mas sua propriedade física mais importante é, sem dúvida, sua elevada condutibilidade elétrica, que é tomada como referência e estabelecida como sendo 100 % IACS (International Annealed Copper Standard), uma vez que o cobre puro, no estado recozido, tem uma resistividade elétrica de apenas 0,15328 ohm.g/m² a 20 ºC. Esse valor é bem mais baixo do que o do alumínio comercialmente puro no mesmo estado e incomparavelmente mais baixo do que o ferro puro no mesmo estado [7] . Dentre os metais conhecidos, somente a prata poderia superar a condutibilidade elétrica do cobre, porém seu elevado custo comercial inviabiliza seu uso industrial na mesma escala em que o cobre é atualmente usado. Existem vários tipos de liga de cobre. Os elementos de liga são adicionados ao cobre com o intuito de melhorar a resistência, a ductilidade e a estabilidade térmica, sem causar prejuízos à formabilidade, condutividades elétrica e térmica e resistência à corrosão característicos do cobre. As ligas de cobre apresentam excelentes ductilidade a quente e a frio, ainda que um pouco inferiores às do metal puro. As ligas de cobre são divididas nos grandes grupos listados abaixo: • Cobre comercialmente puro • Ligas de alto teor de cobre • Latões • Bronzes • Ligas de cobre-níquel ou cuproníqueis 18 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto As ligas de cobre podem ser encontradas como produtos trabalhados mecanicamente, fundidos e produzidos por metalurgia do pó. Entre os produtos trabalhados estão os arames, os planos (placas, chapas, tiras e folhas), tubos, fios-máquina, perfis extrudados e forjados. Já os produtos fundidos podem ser produzidos por vários métodos de fundição, tais como molde de areia, fundição contínua, centrífuga, sob pressão, por cera perdida, em gesso ou coquilha. Dentre suas aplicações, pode-se destacar a utilização do cobre e suas ligas em equipamentos industriais, geralmente por oferecerem uma combinação particularmente benéfica de condutividade elétrica e/ou térmica, resistência à corrosão, resistência à tração e à fadiga. As ligas de cobre têm sido os materiais preferidos para a utilização em trocadores de calor e condensadores de água fresca e marinha [8]. As ligas mais utilizadas para estes fins são as cuproníqueis, bronzes de alumínio e latões. As ligas são escolhidas de acordo com suas resistências à corrosão e suas habilidades de suportar um fluxo de fluido em alta velocidade (resistência à corrosão-erosão). Igualmente importante é também a habilidade das ligas de cobre em inibir o crescimento de organismos marinhos (biofouling) que, se desprezado, pode reduzir a taxa de fluxo, promover corrosão e degradar a transferência de calor, havendo a necessidade de manutenção do equipamento, que geralmente é bastante onerosa. I.2.1) Cuproníquel A denominação de cuproníquel aplica-se às ligas constituídas essencialmente por cobre e níquel. Essas ligas binárias se caracterizam por 19 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto apresentarem em qualquer temperatura solubilidade sólida total, ou seja, em qualquer temperatura o níquel é completamente solúvel no cobre, tanto no estado sólido como no estado líquido, e a variação do teor de níquel apenas acarreta modificação no valor das temperaturas solidus (abaixo da qual a liga é totalmente sólida) e liquidus (acima da qual a liga é totalmente líquida), havendo no diagrama de fases mostrado na figura 1.2.1 tão somente um campo bifásico sólido (alfa) + líquido. Essa peculiaridade se deve entre, outros fatores, à proximidade do diâmetro atômico do cobre e do níquel como também de seus números atômicos (29 e 28, respectivamente)[5]. Fig.1.2.1. Diagrama de Fases Cu-Ni[10] As propriedades mecânicas dessas ligas atingem seu valor máximo para cerca de 65 % de níquel, enquanto a resistividade elétrica atinge seu valor máximo para cerca de 55 % de níquel. Embora tanto o cobre como o níquel apresentem elevado coeficiente de aumento da resistividade elétrica com o aumento da temperatura, a liga Cu-Ni que contém 45 % de níquel possui a 20 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto particularidade de ter esse coeficiente praticamente nulo, sendo conhecida pelo nome comercial de constantan e largamente utilizada para a fabricação de resistências elétricas, termopares elétricos e instrumentos elétricos em geral. Embora os teores de níquel das ligas Cu-Ni variem entre 2,5 e 30 %, na prática industrial são mais usadas as que contêm de 10 a 30 % de níquel. Como tanto o cobre como o níquel são dois elementos que se caracterizam por apresentarem alta resistência à corrosão e os cuproníqueis também apresentam essa característica, sendo que a adição de níquel melhora ainda mais essa propriedade. Tanto a liga com 20 % de níquel como a liga com 30 % de níquel resistem bem a qualquer tipo de atmosfera, a águas industriais e salgadas, assim como a muitos ácidos minerais e orgânicos. A liga com 20 % de níquel pode ser usada em lâminas de turbina e em peças que necessitem de boa resistência à corrosão e à abrasão. Quando o ambiente corrosivo for ainda mais agressivo, passa a ser recomendável o uso da liga com 30 % de níquel, que é usada em aplicações marítimas e em tubos de condensadores, além de possuir a característica de impedir na água salgada o crescimento de fungos e organismos marinhos em geral, sendo que essa característica estende bastante o seu uso na construção naval. I.3) Soluções Sólidas Quando misturas homogêneas de dois ou mais tipos de átomos ocorrem no estado sólido, estas são conhecidas como sendo soluções sólidas. Estas soluções são bastante comuns e equivalentes às soluções líquidas e gasosas, onde as proporções dos componentes variam dentro de certos limites para que 21 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto as substâncias misturadas não se separem naturalmente. O termo solvente refere-se à forma atômica mais abundante e soluto a menos abundante. As soluções sólidas são normalmente cristalinas. Soluções sólidas ocorrem em qualquer um dos dois tipos distintos a seguir. O primeiro é conhecido como solução sólida substitucional. Neste caso, uma substituição direta de um tipo de átomo por outro ocorre de maneira que os átomos de soluto entram no cristal para ocupar posições normalmente ocupadas por átomos de solvente. A Figura 1.3.1(A) ilustra esquematicamente um exemplo contendo dois tipos de átomos (Cu e Ni). O outro tipo de solução sólida é mostrado na Figura 1.3.1(B). Aqui, o átomo de soluto (carbono) não desloca o átomo de solvente, mas sim entra nos espaços, ou interstícios, entre os átomos de solvente (ferro). Este tipo de solução é conhecido como solução sólida intersticial. Figura 1.3.1: tipos de soluções sólidas [5]. Fases intermediárias Em muitos sistemas metálicos, as estruturas cristalinas ou fases intermediárias são normalmente diferentes daquelas dos componentes elementares (metais puros). Se estas estruturas ocorrem em uma gama de 22 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto diferentes composições, estas serão, em todos os sentidos, soluções sólidas. No entanto, quando as novas estruturas cristalinas ocorrem como compostos estequiométricos (1 átomo de cobre para 1 átomo de zinco, 1 átomo de ferro para 2 átomos de carbono etc) , estes serão compostos intermetálicos [5]. A diferença entre soluções sólidas e compostos intermetálicos pode ser mais facilmente entendida através de exemplos. Quando cobre e zinco são fundidos para formar o latão, um grande número de novas estruturas é formado com diferentes composições. A maioria ocorre em composições que não possuem nenhum valor comercial, mas a composição na qual ocorre uma composição de um átomo de zinco para um de cobre é encontrada em algumas formas utilizáveis de latão. A estrutura cristalina desta nova fase é cúbica de corpo centrado, enquanto a estrutura do cobre é cúbica de face centrada e a do zinco é hexagonal [5] . Como esta estrutura de corpo centrado pode existir em uma faixa de composições (é a única fase estável em temperatura ambiente entre 47 e 50 por cento em massa de zinco), não é um composto, mas sim uma solução sólida [5] . Por outro lado, quando carbono é adicionado ao ferro em uma quantidade que excede uma pequena fração de um milésimo percentual em temperatura ambiente, um composto intermetálico definido é observado. Este composto, a cementita, possui uma composição fixa (6,67% em peso de carbono) e uma estrutura cristalina complexa, que é bem diferente da estrutura tanto do ferro (CCC) ou do carbono (grafite) [5]. 23 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Soluções sólidas substitucionais e as regras de Hume-Rothery Na Figura 1.3.1(A), os átomos de cobre e níquel foram ilustrados como tendo diâmetros iguais. Na verdade, os átomos num cristal de cobre puro têm um diâmetro aparente (0,2551 nm) cerca de 2 por cento maior do que o diâmetro de um átomo em um cristal de níquel puro (0,2487 nm) [5] . Esta diferença é pequena e apenas uma leve distorção ocorre no reticulado quando um átomo de cobre entra em um cristal de níquel, ou vice-versa, e não é surpreendente que estes dois elementos são capazes de cristalizar-se simultaneamente em um reticulado cúbico de face centrada em todas as suas proporções. Níquel e cobre formam um excelente exemplo de uma série de ligas com completa solubilidade (fig.1.2.1). A prata, assim como o cobre e o níquel, cristaliza em uma estrutura cúbica de face centrada [5] . Ela é também quimicamente similar ao cobre. No entanto, a solubilidade do cobre na prata, ou da prata no cobre, equivale a apenas uma fração de 1 por cento em temperatura ambiente. Esta é, portanto, uma diferença fundamental entre os sistemas cobre-níquel e os sistemas cobre-prata. Esta dissimilaridade é devida, primariamente, à grande diferença nos tamanhos relativos dos átomos nas ligas cobre-prata. O diâmetro aparente dos átomos de prata é 0,2884 nm, ou cerca de 13 por cento maior do que o do cobre [5] . Assim, pode-se notar que esta diferença fica bem próxima aos limites observados por Hume-Rothery, que apontou que a solubilidade extensiva de um metal em outro apenas ocorre quando os diâmetros dos átomos destes metais diferem em menos de 15 por cento. Este critério de solubilidade é 24 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto conhecido como fator de tamanho e está diretamente relacionado com as tensões produzidas no reticulado do solvente pelos átomos de soluto. O fator de tamanho é apenas uma condição necessária para um alto grau de solubilidade. Não é uma condição suficiente, já que outros requisitos devem ser satisfeitos. Um dos mais importantes requisitos é a posição relativa dos elementos na série eletromotiva. Dois elementos distantes desta série, não formam liga da maneira usual, mas se combinam de acordo com as regras de valência química. Neste caso, o elemento mais eletro-positivo cede seus elétrons de valência para o elemento mais eletro-negativo; como resultado, é formado um cristal com ligação iônica. Um exemplo típico deste cristal é encontrado no NaCl. Por outro lado, quando metais estão próximos uns aos outros na série eletromotiva, estes tendem a agir como se fossem quimicamente os mesmos, o que leva à ligação metálica, ao invés de iônica. Existem dois outros fatores de importante relevância, especialmente quando se trata de sistemas completamente solúveis. Mesmo se o fator de tamanho e as posições da série eletromotiva são favoráveis, estes sistemas somente serão possíveis se ambos os componentes (metais puros) têm a mesma valência e se cristalizam num mesmo reticulado. Isto pode ser verificado ao analisar-se uma liga de composição binária Cu-Fe, por exemplo. Apesar de ambos os elementos (puros) possuírem raios atômicos semelhantes (0,124 nm para o Fe e 0,128 nm para o Cu), o ferro possui valência +2 ou +3, enquanto que a valência do cobre é +2 ou, em alguns casos, +1. Além disso, o ferro cristaliza-se no reticulado formando uma estrutura cúbica de corpo centrado (CCC) até 912ºC, enquanto que o cobre 25 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto forma uma estrutura cristalina cúbica de face centrada (CFC) [4] . Outro fator de importante relevância é a posição relativa dos elementos na série eletromotiva, onde há um maior distanciamento do ferro em relação ao cobre, se compararmos ao níquel em relação ao cobre, por exemplo. Desta forma, as regras estabelecidas por Hume-Rothery indicariam uma baixa solubilidade entre o ferro e o cobre, já que as proposições para uma boa solubilidade não foram satisfeitas completamente. Pode-se verificar esta baixa solubilidade através da análise do diagrama de fases Cu-Fe, mostrado na figura 1.3.2. Assim, há a possibilidade de formação de fase (Fe), que em determinada temperatura (Tc) possibilitaria a formação de uma estrutura CCC magnética, por exemplo. Fig. 1.3.2: Diagrama de fases Cu-Fe [10]. 26 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Por outro lado, apesar de a solubilidade do ferro no cobre ser baixa, a solubilidade do níquel no cobre é extremamente elevada (fig. 1.2.1), já que os fatores estabelecidos pelas regras de Hume-Rothery são obedecido entre estes dois elementos. Ambos cristalizam-se formando estrutura CFC, seus raios atômicos diferem em apenas 2% aproximadamente, ambos possuem valência +2 e suas posições na série eletromotiva são próximas. Assim, as ligas Cu-Ni são reconhecidas por sua extensa solubilidade. A solubilidade do alumínio no cobre, por sua vez, também é reduzida, como pode-se comprovar no diagrama de fases Al-Cu (fig. 1.3.3). Analisando esta baixa solubilidade, pelos critérios de Hume-Rothery, apesar de ambos se cristalizarem com estrutura CFC, os raios atômicos do cobre (0,128 nm)e do alumínio (0,143 nm) diferem-se em aproximadamente 10%, ou seja, relativamente próximo ao limite proposto para a solubilidade (15%) além de possuírem valência diferente (+3 para o alumínio e +2 para o cobre, geralmente). Fig.1.3.3: Diagrama de fases Al-Cu [10]. 27 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Como os elementos de liga afetam as propriedades do cobre Geralmente, alguns elementos são adicionados aos metais para que certas características sejam melhoradas. As ligas podem aumentar a resistência, a dureza, condutividade térmica e elétrica, resistência à corrosão, mudanças na coloração dos metais etc. Porém, a adição de uma substância para melhorar uma propriedade pode ocasionar efeitos não intencionados em outras propriedades. A seguir, serão demonstrados alguns destes efeitos proporcionados pela realização de ligas de cobre em propriedades específicas. • Resistência mecânica Um método comum para o aumento da resistência mecânica do cobre é através da realização de soluções sólidas. Pequenas quantidades de elementos de liga adicionados na fundição do cobre irão dissolver completamente e formar uma microestrutura homogênea, com uma só fase. A um determinado ponto, quantidades adicionais do elemento de liga podem não dissolver; esta quantidade exata é dependente da solubilidade sólida deste elemento particular adicionado ao cobre. Quando este limite de solubilidade é excedido, duas microestruturas distintas se formam com composições e durezas diferentes. O cobre, por si só, é relativamente mole, se comparado com outras estruturas metálicas comuns. O bronze (adição de estanho ao cobre), por exemplo, é mais resistente e duro do que os dois metais puros separadamente. O mesmo ocorre quando zinco é adicionado ao cobre, formando o latão. O estanho é mais eficiente do que o zinco no aumento da resistência do cobre, 28 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto porém é mais caro e possui um efeito mais prejudicial na condutividade elétrica e térmica do que o zinco. Alumínio (formando o bronze de alumínio), manganês, níquel e silício podem também ser adicionados no intuito de aumentar a resistência mecânica do cobre. Outro método de aumento de resistência do cobre é através do endurecimento por precipitação. Este processo envolve a realização de uma têmpera, gerando uma solução sólida supersaturada, e então o reaquecimento a uma temperatura mais baixa que a de solubilização (envelhecimento), para permitir a precipitação do excesso de soluto e formar uma segunda fase. Este processo é geralmente utilizado para ligas de cobre contendo berílio, cromo, níquel e alumínio em conjunto ou zircônio. O endurecimento por precipitação oferece distintas vantagens. A fabricação e usinagem de peças é relativamente fácil quando são usadas soluções recozidas moles. O processo de envelhecimento pode ser realizado utilizando fornos relativamente baratos e não muito sofisticados. Frequentemente, o tratamento térmico pode ser conduzido em ar, com temperaturas de fornos moderadas e resfriamento com pouco ou sem nenhum controle específico. Muitas combinações de ductilidade, resistência ao impacto, dureza, condutividade e resistência mecânica podem ser obtidas variando as componentes tempo e temperatura do tratamento térmico [9]. • Condutividade térmica e elétrica A melhor maneira de aumentar as condutividades térmica e elétrica do cobre é através da redução dos níveis de impurezas. A existência de 29 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto impurezas e todos os elementos de liga, com exceção da prata, irá diminuir as condutividades térmica e elétrica do cobre. Adicionalmente, conforme a quantidade de impurezas e elementos de liga aumenta, a condutividade elétrica diminui. O cádmio é o elemento que infere o menor efeito na condutividade elétrica em ligas de cobre, seguido pelos efeitos produzidos pelo zinco, estanho, níquel, alumínio, manganês, silício e fósforo. Apesar de diferentes mecanismos estarem envolvidos na condutividade térmica, a adição contínua de quantidades de elementos ou impurezas também produzem uma queda na condutividade térmica. A adição de zinco é a que produz o menor efeito na condutividade térmica do cobre, seguido pelo níquel, estanho, manganês, silício e o efeito mais acentuado do fósforo. O fósforo é geralmente utilizado para desoxidar o cobre, o que pode aumentar a sua dureza e resistência mecânica, porém afeta severamente a condutividade. No entanto, o silício pode também ser utilizado na desoxidação do cobre, quando a manutenção da condutividade é importante. Devido à este fato, através do endurecimento por precipitação das ligas Cu-Ni-Al, retira-se alumínio e níquel da solução sólida, aumentando desta forma as condutividades térmica e elétrica além do aumento da resistência mecânica do material [9]. Discordâncias Uma discordância é um defeito em linha do cristal, cuja presença significa que um grande número de átomos foram deslocados de suas posições iniciais no reticulado. Esta desordem de átomos ao redor do centro de uma 30 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto discordância resulta em um padrão complexo bidimensional de tensões com a linha de discordância no centro. As geometrias das discordâncias podem ser bastante variadas e as mais comuns são as discordâncias em cunha e discordâncias em hélice. As discordâncias em cunha são formadas quando há a aplicação de uma tensão no reticulado cristalino, de maneira a provocar uma distorção elástica neste. Assim, há um rompimento entre as ligações de átomos vizinhos, criando uma separação entre estes, de tal sorte que um plano extra de átomos pode ser inserido neste espaço [6] . A figura 1.3.4(b) demonstra esquematicamente esta situação. Figura 1.3.4: (a) Modelo de um reticulado cúbico simples. (b) Discordância em cunha formada pela inserção de um plano extra. (c) Discordância em hélice formada pelo escorregamento relativo entre duas faces do reticulado [6]. As discordâncias em hélice, por sua vez, são formadas através da aplicação de tensões de cisalhamento entre faces do reticulado cristalino, criando uma superfície helicoidal simples e não um plano extra no reticulado, 31 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto como na discordância em cunha. A figura 1.3.4(c) ilustra a discordância em hélice ou helicoidal. É importante enfatizar que tanto a discordância em cunha quanto a discordância em hélice podem ser formadas a partir de um reticulado cristalino de mesma geometria (por exemplo, figura 1.3.4(a)), diferindo assim apenas pela tensão aplicada e a possibilidade ou não de formação de planos extras. As discordâncias (tanto em hélice quanto em cunha) criam no reticulado cristalino campos de tensões, já que as interações entre os átomos do reticulado são alteradas. No caso das discordâncias em cunha, através da inserção de um plano extra de átomos ocorrem tensões compressivas onde o plano extra se encontra e trativas na região oposta, de maneira a balancear a energia interna do sistema, como representado na Fig. 1.3.5. Fig.1.3.5. Campos de tensões trativas e compressivas ao redor de uma discordância em cunha. Vetor de Burgers e Circuito de Burgers A definição mais usual para uma discordância é dada em termos de circuito de Burgers. Um circuito de Burgers é um caminho realizado pela movimentação de átomo a átomo no cristal contendo discordâncias, formando um circuito fechado. Tal caminho é demonstrado pela figura 1.3.6(a) como sendo MNOPQ. Se a mesma seqüência de átomo a átomo for realizada em um 32 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto cristal livre de discordâncias e o circuito não tiver um fechamento, então sabese que o primeiro cristal contém uma ou mais discordâncias. O vetor necessário para completar o circuito é denominado vetor de Burgers. Como está ilustrado na figura 1.3.6(b), o vetor de Burgers é representado por QM. O vetor de Burgers em uma discordância em cunha é normal à linha da discordância, enquanto que em uma discordância em hélice é paralelo à linha da discordância[6]. Figura 1.3.6: (a) Circuito de Burgers ao redor de uma discordância em cunha o defeito no fechamento do circuito é o vetor de Burgers. (b) O mesmo circuito em um cristal perfeito [5]. Por definição, como o circuito de Burgers é obtido através de movimento de átomo a átomo, a falha em seu fechamento na presença de uma discordância será sempre entre dois átomos no cristal perfeito e, portanto, será um vetor do reticulado. Uma discordância definida desta forma é denominada de perfeita ou discordância unitária. Uma notação conveniente foi adotada para determinar o vetor de Burgers b de uma discordância, como por exemplo, a magnitude e direção do vetor. Por exemplo, o vetor do reticulado, partindo da origem ao centro de uma célula cúbica de corpo centrado é definido tanto em magnitude quanto em direção através de distâncias de a/2 na direção x , a/2 na 33 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto direção y e a/2 na direção z. A notação usada é então b= (1/2)[111]. A magnitude do vetor b é, então [6]: b= a² a² a² a 3 + + = 4 4 4 2 Portanto, tem-se que o vetor de Burgers é utilizado para definir o tipo de discordância e a intensidade do defeito no reticulado cristalino. Atmosferas de átomos de soluto em discordâncias Quando um cristal contém tanto discordâncias quanto átomos de soluto, interações podem ocorrer. É de interesse particular a interação entre solutos substitucionais e discordâncias em cunha. Se o diâmetro de um átomo de soluto é ou maior ou menor do que o do átomo de solvente, o reticulado do último é tensionado. Um átomo de soluto maior que o solvente expande os arredores do reticulado (Fig. 1.3.7(a)), enquanto que um átomo menor contrai(Fig.1.3.7(b)). Figura 1.3.7. (a) Tensões compressivas causadas por átomo de soluto substitucional cujo raio é maior do que o raio dos átomos de solvente. (b) Tensões de tração causadas por átomo de soluto substitucional menor do que os átomos de solvente. Estas distorções podem ser aliviadas se o átomo de soluto encontra-se em seu local adequado, perto do centro de uma discordância [5] . Assim, a 34 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto energia livre do cristal será diminuída quando um átomo de soluto menor que o solvente substitui um átomo de solvente na região de compressão de uma discordância em, ou perto do plano extra da discordância. De fato, isto pode ser demonstrado quando o campo de tensão de uma discordância atrai pequenos átomos de solvente para esta área. Similarmente, átomos de soluto grandes são movidos para posições no reticulado na região expandida pela discordância. Átomos substitucionais não reagem fortemente com discordâncias em hélice, onde o campo de tensão é praticamente de cisalhamento puro [5] . A distorção do reticulado associada com átomos substitucionais podem ser admitidas como sendo esféricas em forma. A Figura 1.3.8 mostra que um estado de cisalhamento puro é equivalente a dois estados de tensões normais (tensões principais) – um trativo e outro compressivo. Tensões no reticulado deste tipo não reagirão fortemente com a tensão esférica associada com átomos de soluto substitucionais. Figura 1.3.8 [5] Átomos de soluto são direcionados às discordâncias como o resultado das interações de seus campos de tensões. No entanto, a taxa de movimentação 35 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto destes átomos de soluto sob estas forças atrativas é controlada pela taxa de difusão destes átomos no reticulado. Em temperaturas altas, as taxas de difusão são maiores e os átomos de soluto concentram-se rapidamente ao redor das discordâncias. Se os átomos de soluto possuem atração mútua, a precipitação de uma segunda fase cristalina pode começar nas discordâncias. Neste caso, as discordâncias agem como calhas para átomos de soluto e pode-se admitir que o fluxo tenha resultante em direção às discordâncias. Espera-se que movimentos desta natureza ocorram até que a concentração de soluto no cristal é esgotada (reduzida até o ponto em que esteja em equilíbrio com a nova fase formada). Por outro lado, se os átomos de soluto não combinam para formar uma nova fase, um estado de equilíbrio deve se desenvolver com um mesmo número de átomos de soluto entrando e saindo em um volume finito contendo uma discordância. Sob estas condições, um estado estável de concentração de átomos de soluto, maior do que a concentração ao redor do reticulado, se desenvolve ao redor da discordância[5]. Este excesso de átomos de soluto associado com a discordância é denominado como sendo uma atmosfera. O número de átomos na atmosfera depende diretamente da temperatura. Um aumento da temperatura tende a separar os átomos de soluto das discordâncias e a aumentar a entropia do cristal. Além disso, este aumento de temperatura diminui as concentrações de soluto ao redor das discordâncias e, a uma temperatura alta o suficiente, as concentrações podem ser reduzidas a um ponto onde se pode considerar que as atmosferas de discordâncias não existam mais. 36 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto O arraste de atmosferas em discordâncias em movimento Quando uma discordância se movimenta a uma temperatura alta o suficiente para que os átomos de soluto possam se movimentar, sua atmosfera tende a mover-se junto. O movimento de uma discordância fora de sua atmosfera gera uma tensão efetiva nos átomos de soluto que os arrasta de volta para suas distribuições de equilíbrio. Este movimento pode apenas ocorrer através de “pulos” termicamente ativados dos átomos de uma posição para outra [5] . Como resultado, a atmosfera tende a ficar para trás da discordância. Ao mesmo tempo, a distribuição de átomos na atmosfera também muda. Isto se deve à estrutura da atmosfera que agora é influenciada por diversos fatores adicionais. O mais importante destes é provavelmente que o movimento das discordâncias através do cristal tende a trazer átomos de soluto adicionais à atmosfera. Enquanto isso, um número correspondente de átomos de soluto deve deixar a atmosfera no lado oposto à direção do movimento. Neste processo, pode-se considerar que o movimento da discordância através do cristal tende a realinhar estes átomos de soluto que se encontram logo acima de seu plano de escorregamento para posições abaixo deste plano. A atmosfera associada com uma discordância em movimento é, portanto, um conceito dinâmico, mas sua existência pode ter uma forte influência no movimento de uma discordância. As tensões de interação entre os átomos de soluto na atmosfera e a discordância fazem com que seja mais difícil mover esta discordância e estas tensões têm que ser vencidas para que a discordância possa avançar. A 37 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto tensão de arraste devido à atmosfera de discordância é um dos importantes componentes do fluxo de tensões de um metal. Esta componente de tensão é uma função da velocidade de deslocamento da discordância. A natureza qualitativa de sua dependência da velocidade pode ser facilmente visualizada. Em velocidades tanto muito altas como muito baixas a tensão de arraste tem que ser muito pequena. Em velocidades de deslocamento extremamente altas a discordância ultrapassa os átomos de soluto em uma taxa tão rápida que não há tempo suficiente para que os átomos se rearranjem. Sob estas condições, os átomos de soluto podem ser considerados como sendo obstáculos fixos através dos quais a discordância se movimenta [5] . Uma atmosfera de átomos de soluto não deve existir sob estas condições. Por outro lado, quando a discordância está em repouso, não existe uma rede de tensões entre a discordância e sua atmosfera. Se a discordância começa a se movimentar a uma velocidade pequena, o centro de sua atmosfera irá mover-se para uma posição para trás da discordância. A distância de separação entre a discordância e o centro de sua atmosfera aumenta de acordo com o aumento da velocidade. Isto acarreta em um aumento na tensão de arraste que é proporcional à velocidade de deslocamento da discordância [5] . Contudo, eventualmente, uma tensão máxima de arraste pode ser alcançada, já que a velocidades bem altas a própria atmosfera torna-se cada vez menos definida. A Figura 1.3.9(A) demonstra a natureza da dependência da tensão de arraste na velocidade de deslocamento de uma discordância. 38 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig.1.3.9 [5]: Variação da tensão de arraste com (A) velocidade de deslocamento da discordância, (B) velocidade de deslocamento de discordância a duas temperaturas diferentes, (C) taxa de deformação e (D) temperatura a uma taxa de deformação constante. É apropriado agora considerar o efeito da temperatura na relação entre as tensões de arraste e a velocidade de deslocamento de discordâncias. A tensão de arraste é, em efeito, uma manifestação da relação entre uma discordância em movimento e um conjunto de átomos de soluto que também devem se mover de maneira a ambos formarem e manterem uma atmosfera. De fato, pode-se admitir que a máxima tensão de arraste corresponde à relação direta entre a velocidade de deslocamento de uma discordância e a taxa de difusão dos átomos de soluto [5]. Um aumento na temperatura acarreta em um aumento na taxa na qual os átomos de soluto se movimentam e como resultado, a velocidade da discordância correspondente à máxima tensão de arraste também deve aumentar. Isto está representado na Figura 1.3.9(B). Nota-se que a maiores temperaturas, a velocidade vc2 é maior. No entanto, a máxima tensão de arraste dm continua a mesma. Isto está de acordo com o tratamento teórico de Cotrell e Jawson[5]. 39 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Pela equação de Orowan tem-se [5]: γ = ρ .b.v onde é a densidade de discordâncias, é a velocidade de deformação de cisalhamento, v é a velocidade média da discordância e b é o vetor de Burgers. No entanto, a uma densidade de discordâncias constante, a velocidade média de deslocamento deve ser diretamente proporcional à taxa de deformação. Portanto, é plausível assumir que quando a deformação ocorre a um valor praticamente constante de a relação entre a taxa de deformação e a tensão de arraste componente do fluxo de tensões deve ser similar à mostrada na Figura 1.3.9(C). Finalmente, devido à inter-relação entre a taxa de deformação e a temperatura, pode-se deduzir que uma relação similar exista entre a temperatura e a tensão de arraste quando a taxa de deformação é mantida constante. Isto está ilustrado na Figura 1.3.9(D). Nota-se que neste caso a temperatura decresce conforme a coordenada da abscissa aumenta. Isto se deve ao fato de que uma temperatura muito baixa a uma taxa constante de deformação é equivalente à uma alta taxa de deformação a uma temperatura constante. Em ambos os casos, o soluto torna-se imóvel em relação à discordância em movimento. Pode-se então dizer que os átomos de soluto substitucionais causam deformação no reticulado cristalino, imprimindo neste, campos de tensões. Por outro lado, as discordâncias também interferem nos campos de tensões do reticulado. Ocorre então uma interação entre o campo de tensões introduzido pelo soluto e os campos de tensões associados às discordâncias. Esta interação, como já descrita anteriormente, ocorre através do posicionamento 40 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto dos átomos de soluto em posições particulares ao redor das discordâncias. Desta forma, os átomos de soluto conferem maior resistência mecânica, já que ancoram os movimentos das discordâncias, através da redução da energia total do sistema causada pelo balanceamento dos campos de tensões. Dentro da faixa de temperaturas onde ocorre o envelhecimento dinâmico após deformação, o fluxo de deformação plástica geralmente tende a se tornar instável. Este fato é manifestado através de irregularidades no diagrama de tensão x deformação. Estas descontinuidades podem ser de diversos tipos. Em alguns casos, a carga tende a aumentar abruptamente e depois cair. Em outros, o fluxo plástico é demonstrado no diagrama com alguns “solavancos”. No entanto, quedas bruscas de carregamento são também frequentemente observadas. Assim, o gráfico tensão x deformação passa a apresentar um aspecto serrilhado (Fig.1.3.10). Esse serrilhamento, que aparece em ensaios com ligas de alumínio, por exemplo, foi estudado inicialmente por Portevin LeChatelier e hoje comumente se denomina o fenômeno associado ao serrilhamento de efeito Portevin-LeChatelier. O aumento e a queda abrupta da carga no diagrama tensão x deformação, caracterizado pelo efeito Portevin-LeChatelier ocorre através da movimentação das discordâncias e suas atmosferas no reticulado cristalino. Ao se mover, uma discordância arrasta consigo a atmosfera de soluto a ela associada. No entanto, estes átomos de soluto reduzem o movimento das discordâncias, já que os campos de tensões entre estes átomos e a discordância são inversos e a energia interna do sistema decresce. 41 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto No reticulado cristalino encontram-se diversas calhas de átomos de soluto [5] , que constituem barreiras progressivas às discordâncias em movimento. Desta forma, no instante em que uma discordância se depara com uma calha de átomos de soluto a sua frente obtém-se uma configuração estável na qual a energia do sistema é baixa. A discordância “cai” então nesta calha e para que esta possa continuar a se movimentar, é necessário que haja um acréscimo de energia no sistema que proporcione à discordância vencer o obstáculo imposto pela calha. Portanto, para que haja este acréscimo de energia deve-se aumentar a tensão imposta. Esta variação de energia e tensão explica o serrilhamento observado por Portevin-LeChatelier. Figura 1.3.10: O escoamento plástico descontínuo é um aspecto comum do envelhecimento dinâmico após deformação. O diagrama acima apresenta um tipo de serrilhamento observado. I.4) A Precipitação como mecanismo de endurecimento • Cinética de precipitação Um dos processos mais importantes de endurecimento dos metais é o endurecimento por precipitação, ou envelhecimento. Esse tipo de 42 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto endurecimento é mais freqüentemente usado em ligas não-ferrosas, principalmente ligas de alumínio, cobre e ligas de magnésio. A cinética de precipitação ocorre em cada sistema de ligas de maneira diferenciada, dependendo diretamente, dentre outros fatores, da linha solvus no diagrama de fases. Essa linha delimita a solubilidade de um metal no outro e, desta forma, estabelece limites também para a precipitação de partículas saturadas no processo de envelhecimento. Anterior ao processo de envelhecimento, no entanto, é necessário obterse uma solução sólida supersaturada, partindo-se de uma solução sólida homogênea. Para isso, a liga deve ser aquecida a uma temperatura em que uma segunda fase dissolve-se na fase mais abundante. O metal é mantido nessa temperatura até que se obtenha uma solução sólida homogênea e, a seguir, é resfriado rapidamente até uma temperatura mais baixa para que se atinja uma condição supersaturada. Esse ciclo de tratamento térmico é chamado de tratamento de solubilização. Partindo da fase supersaturada, para que a precipitação ocorra, inicia-se o tratamento de envelhecimento a uma temperatura mais baixa que a de solubilização ou seja, abaixo da temperatura solvus. A partir daí, ocorre então um processo de nucleação e crescimento. Inicialmente, é necessário que se formem os primeiros cristais de precipitado, o que se dá por um processo chamado de nucleação. Após a nucleação, partículas de precipitado crescem por difusão dos solutos. Esse processo é chamado de crescimento. Nenhuma precipitação pode ocorrer até que se inicie a nucleação, mas, uma vez iniciada, a solução sólida pode perder seus átomos de soluto de dois modos, tanto pelo 43 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto crescimento das partículas já formadas como pela formação de núcleos adicionais. Em outras palavras, a nucleação pode continuar a ocorrer simultaneamente com o crescimento das partículas já formadas. Este mecanismo de precipitação é denominado de “precipitação descontínua”, já que a reação pode ocorrer pela decomposição de uma matriz supersaturada em uma estrutura bifásica contendo uma fase com a mesma estrutura cristalina da original, porém empobrecida em soluto e uma fase precipitada. Esta reação é controlada por difusão interfacial e gera uma descontinuidade abrupta na concentração do soluto através do contorno de interfase [11]. O desenvolvimento da precipitação a uma dada temperatura é intimamente dependente do tempo. Em geral, a precipitação não se inicia imediatamente, sendo detectável somente após um determinado tempo. Este intervalo de tempo é chamado de tempo de incubação ou nucleação e representa o tempo necessário para a formação de núcleos estáveis. Além disso, pode-se destacar também o fato de que normalmente o processo de precipitação termina muito lentamente; esse efeito é esperado, em vista da perda contínua de soluto pela solução. A estrutura de um metal é modificada devido a forças motrizes para que tal mudança possa ocorrer. Assim sendo, para que ocorra a precipitação, o sistema deve possuir uma força motriz (ou driving force). Esta força existe através da diferença de energia interna de um sistema (por exemplo, a diferença de energia interna entre uma matriz composta por solução sólida supersaturada e outra composta por uma matriz saturada e precipitados [12] , como indicado na figura 1.4.1. 44 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig.1.4.1: Esquema demonstrativo da relação entre a energia interna de dois sistemas (matriz composta por solução sólida supersaturada e matriz e precipitados), a driving force e a energia de ativação requerida para que ocorra uma mudança de fase e/ou estrutural (no caso, o aquecimento a 550°C, provocando precipitação). Com o decréscimo da diferença de energia interna, ocorre conseqüentemente o decréscimo da força motriz requerida para que o processo de precipitação continue. Assim sendo, quanto mais precipitados são formados, e portanto, quanto mais ocorre a perda de soluto da solução sólida supersaturada, menor é a força motriz e portanto, mais próximo de seu término o processo de precipitação estará. No entanto, o sistema tenta reduzir sua energia interna continuamente e assim uma das formas de se realizar este trabalho livre é reduzindo a energia da interface matriz x precipitado. Esta energia está intimamente relacionada com a área de contato entre o precipitado e a matriz. Logo, a diminuição desta área de contato ocasionará aumento da força motriz e, portanto, do trabalho livre requerido para tal. A diminuição desta área de contato se dá através do coalescimento de precipitados, no qual pequenos precipitados encolhem, e eventualmente 45 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto desaparecem, enquanto grandes precipitados crescem às custas desta diminuição dos pequenos. Isto ocorre através de difusão no estado sólido. Assim sendo, o coalescimento permite a geração de trabalho livre e força motriz, ao final do processo de precipitação, porém este processo torna-se geralmente indesejável, já que ocorre uma diminuição contínua da dureza no metal. Tendo em vista que o processo de precipitação é realizado para que a dureza máxima do metal ou liga seja alcançada, deve-se tomar em consideração que o início do processo de coalescimento representa o tempo máximo de envelhecimento da liga sem que ocorra o superenvelhecimento. A velocidade de precipitação, enquanto isso, está diretamente relacionada com a temperatura do processo. A temperaturas muito baixas são necessários longos períodos de tempo para completar a precipitação, pois a velocidade de difusão é muito pequena. Neste caso, a velocidade da reação é controlada pela de migração dos átomos. A velocidade de precipitação é também muito pequena em temperaturas logo abaixo da linha solvus. Neste caso, a solução é pouco supersaturada e o decréscimo de energia livre resultante da precipitação é muito pequeno. Assim, a nucleação é muito lenta e controlada pela velocidade com que os núcleos se formam. As altas velocidades de difusão que existem a essas temperaturas podem não ser operacionais se os núcleos não se formarem. Em temperaturas médias, entre os dois extremos mencionados, a velocidade de precipitação aumenta até um máximo, onde o tempo para completar a precipitação é muito curto. Nesse intervalo, a combinação de velocidades moderadas de difusão e nucleação torna mais rápida a precipitação. 46 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Tais fatos podem ser comprovados através da análise de diagramas TTT (Temperatura-Tempo-transformação) ou TTP (Temperatura-Tempo- Precipitação) para a liga de trabalho. A figura 1.4.2 ilustra um diagrama TTP para o aço UNS S31803 [17] , porém, para outros sistemas de ligas, diagramas semelhantes podem ser obtidos. Fig.1.4.2: Diagrama de precipitação isotérmica de fase sigma (tempo-temperatura-precipitação, TTP) para o aço UNS S31803 [17]. Estes diagramas são obtidos experimentalmente, através de um grande número de corpos-de-prova que são submetidos para reagir em diferentes intervalos de tempo e a diferentes temperaturas, determinando-se então a transformação ocorrida (a precipitação, por exemplo) em cada corpo-de-prova. Assim, para a figura 1.4.3 pode-se perceber que a temperaturas muito altas o tempo requerido para que uma transformação (ou precipitação) dê início é extremamente longo, bem como o tempo para que tal transformação termine. 47 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig.1.4.3: Diagrama de precipitação isotérmica de fase sigma (tempo-temperatura-precipitação,TTP) para o aço UNS S31803. Nota-se que a temperaturas muito altas, o tempo de envelhecimento necessário para que a precipitação de fase sigma ocorra é extremamente alto. A temperaturas próximas a 900°C a formação de 50% de fase sigma é extremamente dificultosa [17]. Analogamente, em temperaturas muito baixas o mesmo fato pode ser observado (Fig.1.4.4). Em contrapartida, em temperaturas intermediárias, o tempo requerido para que uma transformação de fase ocorra é menor e tal transformação se completa em um intervalo de tempo muito inferior ao tempo requerido em temperaturas muito altas ou muito baixas (Fig.1.4.5). 48 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig.1.4.4: Diagrama de precipitação isotérmica de fase sigma (tempo-temperatura-precipitação, TTP) para o aço UNS S31803. Em temperaturas muito baixas (neste caso, próximas a 700°C) o processo de precipitação é bastante lento. Notas-e que atinge-se o início de formação de 50% de fase sigma após cerca de 90 horas de envelhecimento [17]. Fig.1.4.5: Diagrama de precipitação isotérmica de fase sigma (tempo-temperatura-precipitação, TTP) para o aço UNS S31803. Em temperaturas intermediárias (no caso, próximas a 800ºC) o processo de precipitação ocorre de maneira mais rápida, sendo que a fase sigma do aço em questão atinge 50% após cerca de 8 horas de envelhecimento [17]. 49 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Além da temperatura, outra variável que influencia diretamente o processo de envelhecimento é o efeito da variação de composição do material. Para baixas concentrações de soluto, o grau de supersaturação é pequeno no final do tratamento de solubilização, e a energia livre do sistema é, quando muito, pouco maior que a da concentração de equilíbrio. Sob essas condições, a nucleação da segunda fase é difícil e a precipitação ocorre lentamente em temperatura constante. Portanto, a dureza máxima que pode ser obtida será relativamente pequena porque a quantidade total de precipitados não é grande, pois em geral, quanto menor for a quantidade de precipitados, menor será a dureza máxima. Por outro lado, quanto mais soluto estiver disponível maior será a quantidade de precipitados e maior será a dureza. Além disso, com maiores concentrações de soluto, a dureza máxima será atingida em um tempo menor, pois as velocidades de nucleação e de crescimento serão superiores. A velocidade de nucleação aumenta devido à maior diferença de energia livre entre os estados supersaturado e de equilíbrio, enquanto a velocidade de crescimento aumenta em virtude da maior quantidade de soluto disponível para a formação do precipitado. Todavia, esses efeitos são limitados pelo máximo teor de soluto que se pode ser dissolvido no solvente durante o tratamento de solubilização. É de grande interesse também a compreensão do processo de nucleação dos precipitados, sua formação e o início de crescimento dos núcleos durante a precipitação. Trata-se, porém, de um processo extremamente complicado. Em muitos casos, a fase precipitada não se origina com sua estrutura final, mas pode apresentar várias estruturas cristalinas 50 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto intermediárias, antes que se desenvolva o precipitado final estável. Assim, por exemplo, uma liga de alumínio contendo 4% de cobre pode passar por três estágios intermediários de precipitação antes que seja obtida a fase final CuAl2. Os estágios iniciais de precipitação são mais difíceis de serem analisados, devido ao tamanho extremamente pequeno das partículas precipitadas e de sua distribuição relativamente uniforme. Essas partículas, que são conhecidas como zonas de Guinier-Preston (zonas de G.P.), têm composição e estrutura definidas, que não são as mesmas do precipitado estável final. Essas partículas são evidentemente mais fáceis de nuclear do que o precipitado final e, assim, se formam primeiro. Eventualmente, elas desaparecerão quando surgirem fases mais estáveis (em geral intermediárias). Essas também podem desaparecer, sendo substituídas por outras fases ainda mais estáveis. Nucleação heterogênea versus nucleação homogênea Uma partícula precipitada pode nuclear-se de dois modos básicos. Ela pode se formar nos defeitos cristalinos, tais como discordâncias, nós de discordâncias (interseções de discordâncias), partículas de impurezas ou descontinuidades nos contornos de grãos. Esse processo, conhecido como nucleação heterogênea consiste na formação mais fácil de uma partícula de segunda fase em defeitos cristalinos. Por outro lado, a nucleação homogênea é a formação espontânea do núcleo, através de flutuações de composição do soluto. Nela, os átomos de soluto se agrupam no reticulado da matriz e iniciam o crescimento da partícula da segunda fase. 51 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A nucleação homogênea ocorre sempre com considerável dificuldade. A solidificação de um líquido é, por exemplo, um processo de nucleação e crescimento, e portanto é predominantemente heterogênea, iniciando-se nas paredes do molde ou em partículas de impurezas existentes no próprio líquido. Assim, água muito pura não congela homogeneamente até que seja superresfriada a temperaturas próximas de –40°C. A principal dificuldade para a formação homogênea de núcleos é a necessidade de formação de uma superfície quando uma partícula de segunda fase se nucleia, o que necessita de uma maior força motriz. Na solidificação da água pura, esta força motriz é dada pelo “super-resfriamento constitucional”, representado pelo superresfriamento a –40°C citado, aumentando a diferença entre energia interna do sistema e o ambiente no qual este se encontra e, portanto, gerando trabalho livre e força motriz para que a solidificação possa ocorrer. Assim, devido ao fato de que descontinuidades possuem um campo de tensões associado, temse uma alta força motriz para que a nucleação comece a ocorrer, já que a energia interna do sistema é alta. Esta energia associada a contornos de grãos, impurezas e defeitos cristalinos, por exemplo, explica o fato de que os precipitados se formam primeiramente nestas regiões do retículo cristalino. Portanto, a nucleação heterogênea ocorre de maneira mais fácil, podendo ser constatada com maior freqüência. Endurecimento por precipitação A natureza cristalográfica dos precipitados que se formam durante os vários estágios de precipitação é hoje em dia mais conhecida do que há 52 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto poucos anos atrás. No entanto, a natureza exata do processo de endurecimento ainda não está totalmente estabelecida. Existem vários mecanismos de endurecimento, e o predominante em determinada liga não é necessariamente importante em outra. Contudo, de um modo geral, pode-se dizer que um aumento de dureza é sinônimo de uma maior dificuldade de movimentação das discordâncias. Em sua trajetória, uma discordância deve passar por precipitados ou se movimentar entre eles. Em qualquer um dos casos, pode-se demonstrar que deve haver um aumento de tensão para que as discordâncias se movimentem em um reticulado que contenha partículas precipitadas. O mecanismo da figura I.4.6 foi proposto por Orowan, e nesse caso, supõe-se que a discordância tenha se curvado, formando anéis em torno dos precipitados. Quando os anéis adjacentes se encontram, eles se cancelam. Essa ocorrência permite que a discordância continue a se movimentar, mas deixa atrás de si um anel de discordâncias em torno do precipitado, cujo campo de tensões irá aumentar a resistência à movimentação da próxima discordância. Fig.I.4.6.: Mecanismo de Orowan para a movimentação de discordâncias em um cristal que contenha precipitados 53 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Uma discordância se movendo em um plano de escorregamento contendo uma distribuição de partículas pode atravessar essas partículas ou evitá-las movendo-se para fora de seu plano de escorregamento ou dobrandose entre as partículas, deixando um anel de discordância ao redor de cada precipitado. Para todos esses processos, é necessário o dispêndio de energia. Cada processo, no entanto, depende da tensão aplicada e da natureza do precipitado. Para uma discordância romper uma partícula deve-se fornecer energia suficiente para romper as ligações favoráveis entre as partículas, aumentando assim sua área superficial. A energia (J/m²) da interface produzida quando uma zona é dividida por uma distância atômica é estimada do calor de reversão para Al-Ag por Kelly e Fine [1957] como sendo cerca de 0,1 J/m². Neste caso, os precipitados são completamente coerentes com a matriz e há poucas lacunas entre Ag e Al. No outro extremo, se as partículas são completamente incoerentes e com estruturas cristalinas diferentes, será da ordem de energia do contorno de grão, por exemplo, 1 J/m². Assim, pode se calcular a tensão para forçar uma discordância extremamente retilínea através uma distribuição de partículas de precipitado (“zonas”) de distância = ( .r) / (b. ) e raio r como [13]: [13] Desta forma, conclui-se que a distribuição e a geometria dos precipitados influi diretamente nas propriedades mecânicas do material. Uma precipitação extensa de precipitados pequenos (e, portanto, com distâncias pequenas) acarretará em uma maior tensão para movimentar uma discordância, logo, propriedades como dureza e resistência à tração por 54 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto exemplo, tendem a aumentar. Do mesmo modo, quanto maior a energia de interface, também maior é a tensão necessária para mover a discordância. Assim, há um compromisso entre coerência/incoerência e fração de precipitados na matriz para que a máxima dureza possa ser alcançada. Na condição de máxima dureza pode-se concluir que a quantidade de precipitados atinge sua parcela máxima no processo de envelhecimento e assim, a distância ( ) entre os precipitados é mínima. Paralelamente, deve-se esperar uma condição de precipitação incoerente, onde se possa obter uma alta energia de interface ( ). No entanto, para que se possa obter o maior número de precipitados possível, estes devem apresentar morfologia fina, o que acarreta num aumento de coerência dos precipitados, diminuindo o endurecimento. Neste caso, torna-se necessário, portanto, que haja um balanceamento entre o nível de incoerência e a quantidade de precipitação do material, de maneira que se possa atingir uma condição ideal de máxima dureza. Por outro lado, enquanto a precipitação, realizada pelo tratamento térmico de envelhecimento pode funcionar como um mecanismo de endurecimento, o superenvelhecimento é o amolecimento resultante de um envelhecimento excessivo. Em algumas ligas endurecidas por precipitação, ele ocorre simultaneamente com a perda de coerência dos precipitados. Porém, a perda de coerência aumenta a energia de interface e portanto, aumenta a tensão necessária para mover as discordâncias aumentando desta forma, a dureza. Paralelamente, o superenvelhecimento acarreta no coalescimento dos precipitados e, desta forma, aumenta a distância entre eles. Pode-se afirmar que o superenvelhecimento se relaciona com o crescimento contínuo dos 55 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto precipitados que ocorre se o metal for mantido na temperatura de tratamento. Isso não significa que todas as partículas continuam a crescer, o que é impossível uma vez que o soluto tenha atingido a concentração de equilíbrio, mas sim que certas partículas (as maiores) continuam a crescer, enquanto outras (as menores) desaparecem. Com o progresso do envelhecimento, o tamanho da partícula média aumenta, mas o número de partículas decresce. O máximo endurecimento está associado a um pequeno tamanho de precipitado e um grande número de partículas, enquanto o superenvelhecimento está associado a poucos precipitados relativamente grandes. O crescimento das partículas se relaciona diretamente com a tensão superficial da interface entre a matriz e os precipitados. Devido à energia de superfície do contorno, a energia livre por átomo de um precipitado grande é menor que a de um pequeno. Essa diferença de energia livre é a força motriz que provoca a dissolução dos precipitados pequenos e o crescimento dos maiores. Em muitas ligas a nucleação ocorre tanto homogênea como heterogeneamente. Os locais preferenciais para a nucleação heterogênea nessas ligas são os contornos de grão e os planos de escorregamento. Como a nucleação heterogênea é mais fácil, a precipitação tende a ocorrer mais rapidamente nesses locais. Isso introduz um lapso de tempo entre a resposta ao envelhecimento de áreas sob nucleação heterogênea e homogênea e, assim, freqüentemente ocorre superenvelhecimento nos contornos de grãos, antes que a precipitação na matriz tenha tido a chance de se completar. Outra conseqüência da rápida precipitação nos contornos de grão é que as partículas 56 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto precipitadas podem crescer, resultando em um empobrecimento de soluto nas regiões adjacentes aos contornos. Então, desenvolve-se uma faixa de metal isenta de precipitados, em cada lado do contorno. Esse efeito pode ser bastante ampliado se a liga for solubilizada e a seguir resfriada lentamente. No resfriamento lento, a nucleação se inicia em temperaturas logo abaixo da linha solvus, em locais de fácil nucleação, como por exemplo, os contornos de grão. Ao mesmo tempo, a nucleação homogênea é bloqueada, devido à velocidade desprezível dessa forma de nucleação em temperaturas próximas à linha solvus. Continuando o resfriamento lento, o precipitado em contorno de grão cresce pela difusão de soluto da matriz para o precipitado. Ao mesmo tempo, a concentração de soluto da matriz se reduz continuamente e a solução nunca se torna muito supersaturada. Dessa maneira, praticamente todo o soluto encontra-se na segunda fase em contornos de grão e, em geral, não ocorre precipitação generalizada na matriz [14]. Endurecimento por precipitação em ligas de cobre As ligas de cobre que são endurecidas através de tratamentos térmicos apropriados são divididas basicamente em duas categorias gerais: aquelas que são amolecidas através de têmperas a altas temperaturas e endurecidas por tratamentos a temperaturas baixas; e as que são endurecidas através da têmpera a partir de altas temperaturas através de reações do tipo martensíticas ou pela formação de soluções sólidas supersaturadas. Ligas que endurecem durante tratamentos térmicos a temperaturas baixas ou intermediárias logo após uma têmpera incluem o endurecimento por 57 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto precipitação, endurecimento espinoidal e endurecimento ordenado. O endurecimento após têmpera abrange ligas bronze alumínio, cuproníqueis e algumas ligas de cobre-zinco [9]. A maioria das ligas de cobre que endurecem por precipitação é comumente utilizada em aplicações elétricas e de transferência de calor. O tratamento térmico deve então ser projetado para desenvolver a resistência mecânica e a condutividade elétrica. A dureza resultante e a resistência mecânica dependem tanto da eficiência da solução sólida quanto do controle do tratamento de precipitação (ou envelhecimento). As ligas de cobre são mais freqüentemente endurecidas através de envelhecimento artificial do que através do envelhecimento em temperatura ambiente. A condutividade elétrica aumenta continuamente com o tempo até que um máximo é alcançado, normalmente na condição de precipitação total. A condição ótima do processo geralmente resulta de um tratamento de precipitação com temperatura e duração pouco abaixo daquelas que correspondem ao pico de dureza pelo processo de envelhecimento. O trabalho da liga a frio (encruamento) antes do envelhecimento (precipitação) tende a melhorar a dureza, já que esta gera um número maior de discordâncias e assim há uma maior ocorrência de nucleação em toda a matriz, seguida por uma precipitação mais homogênea e refinada no final de todo o processo [9]. A utilização de cuproníqueis já vem sendo estudada e desenvolvida há alguns anos. Marinel® (uma marca registrada da “Langley Alloys Ltd.”) é uma liga cuproníquel cujas propriedades mecânicas distinguem-se de outros tipos 58 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto de ligas por suas propriedades mecânicas e excelente resistência à todas as formas de corrosão em água salgada [15]. A liga Marinel® foi desenvolvida partindo de uma base cuproníquel, já que esta possui uma boa resistência à corrosão inerente. A resistência adicional requerida para operações em ambientes altamente corrosivos foi alcançada através da adição de diversos elementos de liga, como demonstrados na Tabela I.4.1. O resultado é uma liga endurecida por envelhecimento, que obtém sua resistência mecânica máxima através de um tratamento térmico rápido após seu forjamento a quente. As principais propriedades mecânicas desta liga são resistência à tração de 930 MPa e ductilidade de 18% até a fratura. Não há indicativos na literatura [15] do tratamento térmico empregado. Tabela I.4.1 : Composição nominal da liga Marinel® % massa Cu Ni Mn Al Fe Nb Cr Si 72.3 19.0 4.5 1.8 1.2 0.7 0.4 0.1 Foi constatado ainda que ocorre precipitação de Ni3Al dispersa em toda a matriz, cuja morfologia revela precipitados equiaxiais e alongados. Estes precipitados foram estudados e constatou-se que são enriquecidos com Nb, Si, Fe e Cr, em comparação à composição da matriz. Mn e Cu estariam presentes, porém em concentrações baixas. Foram verificados ainda, altos índices de cobre nos precipitados, comprovados pela significante solubilidade deste elemento em Ni3Al. 59 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A identificação da fase endurecedora foi constatada através de ensaios de dureza, que apontaram 151 HV (300) para a liga solubilizada contra 301 HV (300) para a liga não solubilizada. Além disso, o tratamento térmico de solubilização não apresentou efeitos mensuráveis na microestrutura a não ser a dissolução de precipitados. Desta forma, concluiu-se que o principal mecanismo de endurecimento é a precipitação de Ni3Al. A precipitação na liga Marinel® é similar às encontradas em outras classes de liga, particularmente em superligas do níquel. Em muitos casos, uma dispersão de precipitados endurece a matriz fcc de níquel, que contém parâmetros similares de reticulado cristalino à matriz encontrada na liga Marinel®. Os precipitados endurecem através de dois mecanismos principais: endurecimento por ordem e endurecimento por coerência. O endurecimento por ordem ocorre pela estrutura dos precipitados Ni3Al, na qual as discordâncias se movem em pares para minimizar a criação de contornos antifásicos. O endurecimento por coerência ocorre porque o campo de tensões ao redor de um precipitado interage com o campo de tensões de uma discordância, impedindo o movimento desta e provocando desta forma o endurecimento do metal. Os estudos desta liga concluem que a liga Marinel é endurecida pela dispersão de precipitados coerentes, que são baseados em Ni3Al. 60 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto II. Materiais e métodos II.1) Materiais O material metálico a ser utilizado nas análises e ensaios foi extraído de chapas da liga Cu14Ni previamente fundida, laminada e devidamente cortada para a extração de corpos-de-prova para o envelhecimento e ensaios de tração. A Tabela II.1 representa a composição química da liga em questão. Esta análise química foi realizada através de espectrometria de emissão atômica (plasma acoplado indutivamente) pelo Centro de Pesquisas Químicas do IPEI. Tabela II.1: Composição química (% em massa) da liga em estudo Elementos (%) Amostra Ni Fe Al Cu Cu-14Ni 13,74 1,13 2,02 83,02 II.2) Métodos II.2.1) Fundição da liga O primeiro processo realizado foi a fundição da liga Cu14Ni através da adição de quantidades apropriadas de cada elemento de liga em um cadinho partindo de briquetes compactados de cobre, níquel, alumínio e ferro. O cadinho contendo todos os elementos de liga foi então colocado em um forno poço, elevando-se a sua temperatura até 1200°C, em atmosfera controlada com nitrogênio puro (99,99%N2) após esta temperatura ser atingida. A 1200ºC 61 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto obtém-se a fundição do cobre e do alumínio, enquanto o níquel e o ferro são dissolvidos no líquido formado. Paralelamente, realizou-se a preparação das lingoteiras metálicas, colocando uma camada fina de cal virgem e em seguida, submetendo-as por aproximadamente 3 horas a 300°C e 3 horas a 800°C (este procedimento torna-se importante para que não haja a formação de muitas trincas de solidificação, quando o material fundido for vazado na lingoteira). Após fundida e devidamente colocada na lingoteira, a liga teve seu resfriamento de forma lenta e natural, sem que houvesse um procedimento para acelerar este resfriamento. Em seguida foi realizada uma homogeneização do lingote a 900°C por 3 horas e o resfriamento posterior foi realizado em água. Isto garantiu a realização de uma solução sólida supersaturada, com estrutura de grãos grandes e conseqüente amolecimento da liga, facilitando a etapa seguinte, de laminação. II.2.2) Preparação da chapa Após a obtenção do lingote, realizou-se a laminação a frio da liga, obtendo-se uma chapa de aproximadamente 2 mm de espessura. Desta foram extraídos corpos-de-prova para posteriores análises da secção longitudinal da chapa laminada. 62 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto II.2.3) Solubilização Os corpos-de-prova extraídos da chapa laminada foram submetidos a solubilização em forno tubular a 900°C por 1 hora, com atmosfera controlada através da adição contínua de nitrogênio. Desta forma, é possível a obtenção de uma microestrutura homogeneizada, reduzindo as tensões no reticulado cristalino, além da criação da supersaturação necessária ao envelhecimento posterior. II.2.4) Envelhecimento Com a obtenção dos corpos-de-prova, estes foram submetidos ao processo de envelhecimento artificial a 550°C em forno com atmosfera controlada através de adições de nitrogênio, pelos seguintes períodos de tempo: 0,5 ; 1 ; 2 ; 4 ; 8 ; 16 ; 48 ; 72 ; 100 ; 196 ; 404 e 720 horas. Estes corpos-de-prova foram seccionados em duas partes, embutidos e polidos, para as análises metalográficas e de microdurezas em cada intervalo de tempo descrito. II.2.5) Preparação metalográfica Com o material previamente embutido em resina termofixa de cura a quente (Baquelite) e identificado de acordo com os tempos de envelhecimento impostos, os corpos-de-prova foram lixados e polidos de acordo com a seqüência indicada na Tabela II.2, com a utilização da politriz automática Struers Abramin (Fig. II.1). O processo de lixamento utilizou lixas com granulações #220, #320 e #500, utilizando-se água como fluido lubrificante. As 63 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto etapas de polimento foram feitas com pasta de diamante de diâmetros 6 m, 3 m e 1 m, sendo o álcool etílico absoluto o fluido lubrificante. Figura II.1: Máquina Struers Abramin utilizada nos procedimentos de lixamento e polimento. LabMat FEI. Tabela II.2: Procedimento de lixamento e polimento em máquina automática Struers Abramin para ligas cuproníqueis. Material: Liga cuproníquel Cu-14Ni Etapa 1 2 3 4 5 6 7 8 Dispositivo Lixa Lixa Lixa Diamante Diamante Diamante Diamante OP-S Abrasivo # 220 # 320 # 500 6 m 3 m 1 m 0,25 m - Lubrif. água água água álcool álcool álcool álcool - Força (6 am.) 90 N 90 N 90 N 150 N 150 N 120 N 120 N 90 N Tempo 2 min. 3 min. 4 min. 4 min. 5 min. 5 min. 5 min. 5 min. rpm 300 300 300 150 150 150 150 150 II.2.6) Microdureza Foram realizados 30 pontos de microdureza Vickers em cada amostra, na sua secção longitudinal, para a constatação da variação deste parâmetro ao longo do processo de envelhecimento. Para estas medições foi utilizado um microdurômetro Shimadzu (Fig. II.2) com a aplicação de carga de 1 kg (aprox. 64 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto 9,8 N) por 15 segundos, representando a aplicação HV 1. Procurou-se realizar medidas em toda a espessura, para avaliar possíveis diferenças de dureza Fig. II.2: Microdurômetro Shimadzu. LabMat FEI. II.2.7) Análises Metalográficas Partindo de corpos-de-prova previamente embutidos, lixados e polidos como descrito no item II.2.5, realizou-se para cada intervalo de tempo de envelhecimento um ataque químico apropriado para a revelação e caracterização das microestruturas. Para isto, foi necessária a solução GRADE 7 (cuja composição é 200 mL de água destilada, 25 mL de ácido clorídrico e 8,0 g de cloreto de Ferro III), além de água destilada para diluição da solução e microscópio óptico. Os ataques químicos foram realizados em diferentes condições, já que para cada tempo de envelhecimento notou-se que tempo de ataque se modificava, como indica a Tabela II.3. Estes foram interrompidos com água e a superfície de observação foi seca utilizando-se álcool etílico e jato de ar quente. 65 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Tabela II.3. Tempos aproximados dos ataques químicos realizados. Diluição de 50% de reativo GRADE 7 e 50% de água destilada para todas as amostras. Tempo de envelhecimento Solubilizada 0,5 1 2 4 8 16 48 72 100 196 404 720 (horas) Tempo do ataque 20 10 7 5 5 5 5 4 3 3 3 2 2 (segundos) A caracterização microestrutural, após os ataques químicos apropriados, dispôs-se da utilização do microscópio Leica DMLM (Fig. II.3). Figura II.3: Microscópio LEICA e analisador de imagens. LabMat FEI. II.2.8) Ensaios de tração Os ensaios de tração foram conduzidos na máquina universal de ensaios MTS (Fig. II.4), em corpos-de-prova (Fig. II.5) usinados a partir da chapa fundida, solubilizada e laminada. Para este ensaio foram escolhidos tempos de envelhecimento de acordo com a análise feita previamente nos ensaios de dureza. Como será mostrado a seguir, os valores mais representativos para o estudo da liga e seu comportamento em virtude do tempo de envelhecimento foram as amostras solubilizada e as envelhecidas por 2, 4, 16 e 720 horas. 66 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig. II.4.: Máquina universal de ensaios MTS, com capacidade máxima de 250 kN, servo-controlada, dotada de controlador Teststar II. LabMat –FEI. Fig. II.5.: Dimensões dos corpos-de-prova utilizados nos ensaios de tração (valores em milímetros). 67 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto III. Resultados experimentais III.1) Microdurezas Após o envelhecimento da liga nos tempos previamente estabelecidos foram realizadas medições de microdureza em cada amostra, para compor a caracterização dos efeitos deste envelhecimento. Foram medidos 30 pontos de dureza Vickers , com carga de 1 kg (HV 1), aplicada por 15 segundos. Os pontos de microdureza foram dispostos na seção longitudinal dos corpos-de-prova, em diagonal, para que a caracterização pudesse ser mais abrangente. A Figura III.1 ilustra a disposição de alguns dos pontos de microdureza. Figura III.1: Pontos de microdureza HV 1 dispostos na diagonal da seção longitudinal de um corpo-de-prova. Através dos dados obtidos pelas medições de microdureza pode-se traçar o gráfico de dureza em função do tempo de envelhecimento (Fig.III.1.2) ilustrando a variação desta propriedade ao longo do processo de envelhecimento a 550°C. A dureza máxima foi obtida a 16 horas de envelhecimento. 68 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Figura III.1.2. Gráfico obtido a partir dos ensaios de microdureza HV1, com os valores obtidos e seus respectivos desvios-padrão. A amostra solubilizada é representada pela área hachurada. III.2) Caracterização Microestrutural A análise metalográfica para caracterização microestrutural foi realizada após ataque químico apropriado com reativo GRADE 7 diluído com água destilada em todas as amostras envelhecidas da liga cuproníquel Cu14Ni, nos intervalos de tempo de 0,5 ; 1 ; 2 ; 4 ; 8 ; 16 ; 48 ; 72 ; 100 ; 196 ; 404 e 720 horas, em forno com atmosfera controlada a 550°C, além de uma amostra inicialmente solubilizada a 900°C por 1 horas. Na amostra solubilizada (Figura III.2.1) nota-se a presença de inclusões e trincas, provenientes do processo de fundição e laminação. Estas trincas devem-se ao fato de que a fundição ocasionou no lingote alguns vazios que na laminação tornaram-se fissuras. Desta forma, pode-se esperar uma considerável perda na ductilidade de algumas amostras, caso que foi verificado e analisado através dos ensaios de tração. 69 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A B Figura III.2.1: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra solubilizada Cu14Ni, atacada por 20 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 200x (A) e 500x (B). Pode-se notar algumas fissuras, inclusões, definição de grão e maclas. A figura III.2.2 contém as micrografias da amostra envelhecida por 0,5 hora. Estas representam o início do processo de envelhecimento. Pode-se perceber que há uma notável precipitação praticamente exclusiva nos contornos de grãos. A B C D Figura III.2.2: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 0,5 hora, Cu14Ni, atacada por 10 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 50x (A), 100x (B), 200x (C) e 500x (D). Nota-se o início do processo de precipitação nos contornos de grãos. 70 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A figura da amostra envelhecida por 1 hora (Fig.III.2.3) demonstra claramente o processo intergranular de prcipitação, além de ser possível a definição dos grãos e das maclas. A B C Figura III.2.3: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 1 hora, Cu14Ni, atacada por 7 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). As maclas são bem definidas, assim como os contornos de grãos e é visível a precipitação intergranular. 71 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Nas micrografias da amostra envelhecida por 2 horas (fig.III.2.4) nota-se que o processo de precipitação continua a ocorrer de maneira seletiva nos contornos de grãos. Há um ligeiro aumento no tamanho dos grãos e a fração de precipitado aumenta. O mesmo ocorre nas micrografias da figura III.2.5, para o envelhecimento de 4 horas. Contudo, a comparação das figuras III.2.4.(c) e III.2.5.(c) indicam o início de coalescimento dos precipitados intergranulares. A B Figura III.2.4: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 2 horas, Cu14Ni, atacada por 5 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). Nota-se uma estrutura granular bem definida, extensa precipitação intergranular e maclas. 72 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto B C Figura III.2.5: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 4 horas, Cu14Ni, atacada por 5 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). 73 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto As micrografias da amostra envelhecida por 8 horas (fig.III.2.6) começam a indicar o coalescimento dos precipitados intergranulares, além de um aumento significativo no tamanho dos grãos e maclas grandes e definidas. A B Figura III.2.6: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 8 horas, Cu14Ni, atacada por 5 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). Nestas figuras, pode-se perceber que o processo de precipitação intergranular sofre um ligeiro decréscimo, que será verificado nas figuras subseqüentes. 74 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Até o envelhecimento por 16 horas, nota-se que a precipitação ocorre principalmente nos contornos de grãos, porém este tipo de precipitação vai ocorrendo cada vez menos. Pode-se notar o coalescimento dos precipitados intergranulares ao longo do tempo. A figura III.2.7 demonstra este fato. A B C Figura III.2.7: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 16 horas, Cu14Ni, atacada por 5 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). Nota-se o início do coalescimento dos precipitados intergranulares, além de grãos não tão bem definidos e maclas. 75 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A partir de 48 horas, os precipitados que se formavam nos contornos de grão vão coalescendo (Fig. III.2.8) mas somente a partir deste tempo de envelhecimento a dureza começa efetivamente a diminuir (Fig. III.1.2). A B Figura III.2.8: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 48 horas, Cu14Ni, atacada por 4 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 200x (A) e 500x (B). Nestas micrografias, pode-se notar o decréscimo da precipitação intergranular. A B Figura III.2.9: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 72 horas, Cu14Ni, atacada por 3 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 200x (A) e 500x (B). 76 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A B Figura III.2.10: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 100 horas, Cu14Ni, atacada por 3 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 200x (A) e 500x (B). A B Figura III.2.11: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 196 horas, Cu14Ni, atacada por 3 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 200x (A) e 500x (B). As micrografias da amostra envelhecida por 404 horas (fig.III.2.12) demonstram um grande coalescimento dos precipitados intergranulares e grãos maiores. Na figura III.2.13, de envelhecimento por 720 horas, nota-se que a precipitação ocorre no interior dos grãos e em seus contornos, que já não estão bem definidos e a microestrutura formada é bastante desordenada. Isto indica um processo de superenvelhecimento, iniciado após um período de 16 horas de envelhecimento e acentuado à medida em que o processo continuou até as 720 horas. 77 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A B C Figura III.2.12: Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 404 horas, Cu14Ni, atacada por 2 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500x (C). Nestas figuras pode-se notar claramente a diminuição de precipitado intergranular e o aparecimento de uma superfície rugosa no grão, o que é indício de uma possível precipitação dentro dos grãos. A B C Figura III.2.13 Micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial da amostra envelhecida por 720 horas, Cu14Ni, atacada por 2 segundos com reagente GRADE 7 diluído. Aumentos de 100x (A), 200x (B) e 500 x (C). 78 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto III.3) Ensaios de tração Os ensaios de tração foram realizados com o equipamento MTS 810.25 Material Test System em corpos-de-prova descritos na figura II.5. Foram escolhidos para este ensaio a condição solubilizada, a condição de máxima dureza, duas condições intermediárias às duas inicialmente citadas e a condição superenvelhecida. Desta forma, foram ensaiados os corpos-deprova solubilizado e os envelhecidos por 2, 4, 16 e 720 horas. Os resultados obtidos são demonstrados na Figura III.3.1. 900 Solubilizada 2 horas 4 horas 16 horas 720 horas 800 Tensão (MPa) 700 600 500 400 300 200 100 0 0 5 10 15 20 25 30 Deformação (%) Fig. III.3.1.: Curva de tração da liga Cu14Ni nas condições solubilizada e envelhecida. 79 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Como se pôde observar, o ensaio de tração apresentou uma situação atípica, com o rompimento dos corpos-de-prova envelhecidos influenciado por trincas presentes no mesmo provenientes do processo de fundição e laminação, com as fraturas mostradas na figura III.3.2. Devido a este fato, serão considerados apenas os valores obtidos para os limites de escoamento (LE) e módulo de elasticidade (E) na discussão dos resultados, sendo os demais valores obtidos apenas apresentados com caráter ilustrativo. A Tabela III.3.1 indica os resultados obtidos por este ensaio. Cu14Ni Tabela III.3.1.: Propriedades mecânicas da liga Cu14Ni. E é o módulo de elasticidade, LE é o limite de escoamento, LR é o limite de resistência, AT é o alongamento total em 25 mm. Os valores em itálico possuem apenas caráter ilustrativo, devido a trincas pré-existentes nos corpos-de-prova. Amostras Solubilizada 2 horas 4 horas 16 horas 720 horas E (GPa) 83 107 117 127 149 LE (MPa) 155 567 570 605 517 LR (MPa) 393 AT (%) 39,8 709 795 725 663 6,0 16,5 4,3 4,5 80 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto 2 horas 4 horas 16 horas 720 horas Figura III.3.2.: Trincas observadas nos corpos-de-prova de tração da liga Cu14Ni, após os ensaios de tração, mostrando trincas oxidadas, e portanto oriundas do processo de laminação. Através da determinação da tensão e deformação reais obtidas nos ensaios de tração, foi possível a obtenção dos valores dos coeficientes de resistência (H) e do expoente de encruamento (n), partindo das curvas tensão x deformação, mostradas na Fig. III.3.1. A figura III.3.3 indica a extração destes valores para cada amostra ensaiada e estes valores foram resumidos na tabela III.3.2. 81 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto 700 Tensão real ( ) Tensão real ( ) 250,00 200,00 y = 350,73x0,1391 150,00 100,00 650 600 y = 879,25x0,0746 550 500 0 0,005 0,01 0,015 0,02 0,025 0,03 0 0,005 Deformação plástica real ( p) (A) Solubilizada 0,015 0,02 0,025 (B) 2 horas 700 750 650 600 Tensão real ( ) Tensão real ( ) 0,01 Deformação plástica real ( p) y = 931,69x0,0831 550 500 0 0,005 0,01 0,015 0,02 700 650 y = 961,69x0,0768 600 550 0,025 0 0,005 Deformação plástica real ( p) 0,01 0,015 0,02 0,025 Deformação plástica real ( p) (C) 4 horas (D) 16 horas Tensão real ( ) 700 650 600 y = 897,79x0,089 550 500 0 0,005 0,01 0,015 0,02 0,025 0,03 Deformação plástica real ( p) (E) 720 horas Figura III.3.3.: Extração dos valores dos coeficientes de resistência (H) e dos expoentes de encruamento (n) para as amostras solubilizada, com 2, 4, 16 e 720 horas de envelhecimento para a liga Cu14Ni. As equações indicadas são do tipo: y= H. xn . 82 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Tabela III.3.2: Valores dos coeficientes de resistência (H) e dos exponentes de encruamento (n) para as amostras solubilizada, com 2, 4, 16 e 720 horas de envelhecimento para a liga Cu14Ni Tempo de envelhecimento (h) Coef. De Resistência (H, MPa) Expoentes de encruamento (n) Condição Solubilizada 2 4 16 720 350 879 932 962 898 0,139 0,075 0,083 0,077 0,089 III.4) Determinação da fração em massa do precipitado Além dos ensaios mecânicos realizados, foi necessária, para a discussão dos resultados, a constatação da fração de precipitado na liga em estudo. Para isso foram utilizadas simulações realizadas no programa ThermoCalc. Os resultados destas simulações encontram-se na figura III.4.1 e na tabela III.4.1 onde se pode notar que o único precipitado formado a 550ºC é o Ni3Al, para a liga Cu14Ni. A esta temperatura obtém-se uma fração em massa de Ni3Al de aproximadamente 0,09. Nota-se ainda que esta precipitação deve ocorrer apenas em temperaturas abaixo de 790°C. É identificada na tabela III.4.1 a composição da matriz, que apresenta Fe, Ni e Al em solução sólida. 83 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Fig.III.4.1: Fração em massa do precipitado Ni3Al formado na liga Cu14Ni, a 550°C calculada com auxílio do programa Thermo-Calc. Tabela III.4.1: Composição química da matriz a 550°C através de simulações realizadas com auxílio do programa Thermo-Calc. Elemento % em massa Cu Ni Fe Al 91,21 6,63 1,24 0,92 84 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto IV. Discussão dos resultados Através dos ensaios realizados pôde-se verificar que há uma contínua precipitação de partículas de Ni3Al ao longo do processo de envelhecimento. Estes precipitados influenciam diretamente na correlação entre as propriedades mecânicas obtidas nos corpos-de-prova em diferentes estágios de envelhecimento, no qual se pode observar que há um tempo ótimo para que determinados valores sejam atingidos. O primeiro ensaio realizado, o de microdureza Vickers, apontou um perfil de valores no qual se atinge um valor de dureza máximo para a liga Cu14Ni envelhecida por 16 horas (aproximadamente 257 HV1). No entanto, a partir deste tempo, notou-se um decréscimo nesta propriedade diretamente proporcional à quantidade de horas em que a liga foi submetida ao envelhecimento. Assim, chegou-se a um valor de aproximadamente 193 HV1 para a amostra envelhecida por 720 horas. Adotando como parâmetro de pesquisa esta propriedade (a microdureza), pode-se aferir que a partir de 16 horas, inicia-se um processo de superenvelhecimento e, portanto, as propriedades mecânicas ficam comprometidas. Observou-se também que a amostra envelhecida por 4 horas obteve um acréscimo praticamente insignificante (levando em consideração o desvio padrão obtido a partir dos resultados) em relação à dureza da amostra envelhecida por apenas 2 horas. Este perfil poderia levar à conclusão de que em determinadas situações, onde se espera uma dureza de aproximadamente 230 a 240 HV1, poderia ser mais vantajoso trabalhar com o envelhecimento por 85 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto apenas 2 horas, já que este proporciona uma propriedade semelhante ao envelhecido por 4 horas. Porém, adicionalmente a este ensaio foram realizados outros testes de maneira a determinar a real influência do envelhecimento nas propriedades mecânicas, tais como os limites de resistência, limite de ruptura e ductilidade. Através de ensaios de tração, foi verificado que os limites de escoamento aumentam gradativamente com o tempo de envelhecimento e, assim como foi determinado nos ensaios de microdureza, os limites de escoamento também adquiriram um perfil onde há aumento até 16 horas de envelhecimento (LE= 605 MPa) e então esta propriedade cai até o tempo de 720 horas (LE= 517 MPa), caracterizando o processo de superenvelhecimento, como indicado na figura IV.1. Fig IV.1: gráfico do tempo de envelhecimento (horas) versus os limites de escoamento obtidos (MPa) e durezas (HV1). 86 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto As análises das micrografias por microscopia óptica com contraste diferencial das amostras envelhecidas indicam que o início do processo de coalescimento dos precipitados intergranulares ocorrre após aproximadamente 4 horas de envelhecimento (figura III.2.5(C)). No entanto, a dureza do material continua aumentando até 16 horas de envelhecimento (fig.IV.1). O aumento de dureza, portanto, pode ser creditado à precipitação intragranular finamente dispersa. Desta forma, a hipótese da ocorrência de precipitação intraganular torna-se mais evidente, embora não seja visível por microscopia óptica com contraste diferencial. Assim, apesar do coalescimento dos precipitados intergranulares acarretar em diminuição da dureza, paralelamente a precipitação intragranular faz com que tal propriedade continue a aumentar até 16 horas de envelhecimento. Por ser um processo mais lento e difícil, os precipitados intragranulares são bastante finos e dispersos, sendo de difícil visualização por microscopia óptica. A figura III.2.10(C) indica a microscopia óptica por contraste diferencial de uma amostra envelhecida por 100 horas e mesmo após este longo período os precipitados intragranulares não são visíveis, no entanto os mesmos tornam-se visíveis na amostra envelhecida por 720 horas (figura III.2.13(C)). A ductilidade, no entanto, não pôde ser verificada com muito critério devido à presença de trincas e outros defeitos nas amostras, o que invalidou esta medição. No entanto, sabe-se que a fração de precipitado presente nas amostras tem grande influência nesta propriedade. Para que se pudesse estimar o comportamento dúctil do material, analisou-se os valores de n (expoentes de encruamento) obtidos a partir dos ensaios de tração. Estes 87 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto expoentes possuem relação com a máxima deformação plástica real do material e, desta forma, pode-se concluir um perfil aproximado de ductilidade. A figura IV.2 demonstra um gráfico com os valores de n e H (expoente e coeficiente de resistência, respectivamente) obtidos nos ensaios de tração. Fig.IV.2: Gráfico do tempo de envelhecimento (horas) versus H (coeficiente de resistência) e n (expoente de encruamento). Os valores foram obtidos através dos ensaios de tração da liga Cu14Ni. A análise da figura IV.2 demonstra que a ductilidade da liga Cu14Ni possui um valor máximo na condição solubilizada. Ao se iniciar o processo de envelhecimento, a precipitação ocorrida ocasiona aumento da dureza e diminuição da ductilidade. Tal fato comprova-se através da diminuição dos valores de n até 2 horas. Porém, ao atingir 4 horas de envelhecimento, foi observado um pequeno aumento do expoente de encruamento da liga, o que levaria à hipótese de um ligeiro aumento da ductilidade do material durante o processo de envelhecimento. Deve-se lembrar que a partir de 4 horas de 88 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto envelhecimento, foi verificado o começo do processo de coalescimento dos precipitados intergranulares, o que acarretaria em diminuição da resistência mecânica e conseqüente aumento na ductilidade. No entanto, o coeficiente de resistência (H) e a dureza, após o período de 4 horas, continuaram a aumentar, o que constataria a presença de precipitação intragranular. Assim sendo, notase que o início do processo de coalescimento de precipitados intergranulares é acompanhado de um ligeiro aumento da ductilidade do material, porém o início da provável precipitação intragranular acarreta em aumento da dureza e perda de ductilidade. Isto é comprovado pelo contínuo aumento da dureza até 16 horas de envelhecimento (Fig.IV.1) e da queda de ductilidade logo após o leve aumento em 4 horas de envelhecimento (Fig.IV.2). Após 16 horas de envelhecimento, a dureza do material diminui e a ductilidade aumenta, caracterizando um comportamento típico nos materiais metálicos em geral. A figura IV.3 indica as metalografias obtidas para diferentes tempos de envelhecimento, inseridas num gráfico com o perfil das durezas, mostrando as diferenças existentes na microestrutura da liga à medida em que o envelhecimento ocorre. Pode-se notar nas micrografias das amostras envelhecidas por 2 e 4 horas o início do processo de coalescimento dos precipitados intergranulares apesar da dureza a estes períodos de tratamento térmico aumentar gradativamente. Observa-se também indícios de precipitação intragranular nas amostras envelhecidas por 196 e 720 horas. 89 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Dureza x Tempo 196 h 300,00 4h Dureza (HV 1) Dureza (HV-1kg) 250,00 0,5 h 200,00 150,00 16 h 100,00 2h 720 h 50,00 Solubilizada 0,00 0,01 0,1 1 10 100 1000 Tempo (horas) Figura IV.3: Perfil das durezas obtidas (HV 1) e as respectivas micrografias para diversos tempos de envelhecimento. 90 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto A análise do diagrama ternário Cu-Ni-Al (fig.IV.6), com seção isotérmica a 500°C pode servir de parâmetro para a determinação da precipitação ocorrida na liga Cu14Ni. Fig.IV.6. Diagrama de Fases ternário Cu-Ni-Al com seção isotérmica a 500°C [10] Apesar da liga Cu14Ni ser composta por 4 elementos principais (Cu – 83,02%, Ni – 13,74%, Al – 2,02% e Fe – 1,13%) e que o envelhecimento aplicado se dá a 550°C, este diagrama ternário indica que ao se estabelecer uma liga composta basicamente por Cu, Ni e Al (componentes em maiores frações mássicas) a 500°C, ter-se-á a presença de uma matriz e precipitados de Ni3Al, validando as simulações de Thermo-Calc realizadas (figura III.4.1). 91 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Além da análise do diagrama, há também a ocorrência de estudos previamente realizados para a liga comercial Marinel®, um cuproníquel desenvolvido para utilização em ambientes extremamente corrosivos, cuja composição contém Cu, Ni, Al, Fe, Mn, Nb, Cr, Si. Nesta liga observou-se, após tratamentos térmicos semelhantes ao realizado para a Cu14Ni, a precipitação de fase Ni3Al [15]. Deve-se destacar ainda que a presença de Ni, Al e Fe em solução sólida na matriz (tabela III.4.1) acarreta em aumento na dureza da liga, como discutido anteriormente. Desta forma, pode-se afirmar que o endurecimento da liga ocorre basicamente por dois mecanismos distintos: a precipitação de fase Ni3Al e a presença de Ni, Al e Fe em solução sólida na matriz. 92 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto V. Conclusões Após os ensaios e análises realizadas, pode-se concluir do presente trabalho que: • A liga Cu14Ni apresenta como principais mecanismos de endurecimento a precipitação da fase Ni3Al e a presença de Ni, Al e Fe em solução sólida. • O processo de envelhecimento da liga atinge um valor máximo próximo a 16 horas de envelhecimento, cujas propriedades avaliadas foram: dureza 257 HV 1 e limite de escoamento de 605 MPa. Após este período de tempo ocorre o superenvelhecimento, acarretando na perda das principais propriedades mecânicas adquiridas pelo material. • O processo de precipitação é predominantemente heterogêneo, ocorrendo através da difusão de átomos de Ni e Al primordialmente, pelos contornos de grãos, sendo portanto a precipitação intergranular mais atuante. Através de análises por microscopia óptica por contraste diferencial e dos valores obtidos de dureza para diversos tempos de envelhecimento, foi constatado indícios de precipitação intragranular atuando paralelamente à precipitação intergranular, já que mesmo com a visualização de precipitados intergranulares coalescendo (fato que acarretaria em redução na dureza), foi constatado aumento na dureza. Isto significa que há ocorrência de precipitação intragranular através do agrupamento de átomos no reticulado da matriz, porém este tipo de precipitação ocorre em menor escala. 93 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto • A morfologia extremamente fina dos prováveis precipitados intragranulares é de difícil visualização por microscopia óptica. Tal precipitação poderia ser melhor evidenciada através da análise por microscopia eletrônica de transmissão. • As análises das propriedades mecânicas indicaram que pode existir uma relação de custo / benefício quando da necessidade de determinadas propriedades. Tal fato é comprovado comparando-se as amostras envelhecidas por 2 e 4 horas, por exemplo. A amostra envelhecida por 2 horas adquire dureza de 234 HV 1, enquanto que a envelhecida por 4 horas alcança 239 HV 1. Assim, nota-se que o acréscimo desta propriedade é muito pequeno em relação à quantidade de horas acrescidas no tratamento de envelhecimento. 94 Efeito de envelhecimento a 550°C nas propriedades mecânicas da liga Cuproníquel (Cu14Ni) com adições de alumínio e ferro Aluno: Rafael Nobre nºFEI: 10.202.442-9 Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Magnabosco Colaborador: Rodrigo César Nascimento Liberto Referências Bibliográficas 1. CALLISTER, WILLIAN D., “Materials Science and Engineering – An Introduction”. 4.ed. 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