1 Estudo Teórico de Enzimas Multinucleares de Cobre para Proposta de Materiais Biomiméticos Ximenes, M.T.1; Alves, W. A.1; Oliveira Junior, V. X.1; Fiorito, P.A.1; Honório, K. M.1,2; Homem-de-Mello, P.1 1 Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC (UFABC), Rua Santa Adélia, 166, Bairro Bangu, 09210-170, Santo André, SP, Brazil. 2 Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo (USP), Av. Arlindo Bettio, 1000, 03828-000, São Paulo, SP, Brazil Foram estudadas três lacases e uma ascorbato oxidase, as quais possuem íons metálicos em suas estruturas e são capazes de realizar a redução do oxigênio à água, em um ciclo envolvendo quatro elétrons. Os polipeptídios foram analisados de forma que fosse possível correlacionar a estrutura protéica do sítio ativo com o potencial de oxi-redução. Cálculos teóricos foram realizados de forma a identificar os aminoácidos mais relevantes para que a reação ocorresse, sendo possível gerar uma sequência de aminoácidos importantes para o processo. Palavras Chave — Ascorbato Oxidase, Lacase, DFT, Biomimético, Oxirredução. I. INTRODUÇÃO M ATERIAIS BIOMIMÉTICOS são compostos criados e sintetizados em laboratório mas que possuem uma ação análoga à de compostos naturais. Neste trabalho foram estudadas proteínas multinucleares de cobre com o objetivo de propor compostos biomiméticos que poderiam ser utilizados, por exemplo, em células a combustível. As enzimas multinucleares são estruturas peptídicas que possuem em sua estrutura um ou mais íons metálicos. Aqui foram estudadas lacases e uma ascorbato oxidase que contêm íons de cobre, que podem ser diferenciados de acordo com suas características como tipo 1, 2 ou 3. O cobre tipo 1 (Cu(I) ou T1) apresenta características espectroscópicas muito distintas, exibindo uma intensa coloração azul associada a uma grande banda de absorção na faixa de 600nm sendo esse íon é coordenado por uma Cisteína, duas Histidinas e uma Metionina axial, com um número de coordenação 3 e geometria trigonal-planar, atuando na transferência de elétrons no interior da molécula. O cobre tipo 2 (Cu(II); T2) não apresenta características de EPR distintas do Cu2+ nem bandas de absorção de luz intensas, possui número de coordenação 4 ou 5, coordenado por três histidinas, com geometria piramidal ou quadrada planar. Esse íon T2 atua na catálise e reatividade redox da proteína. O cobre tipo 3 (Cu(III); T3) se apresenta como um sitio binuclear, ou seja, é composto por dois íons cobre, apresentando uma distinta banda de absorção próxima à 330 nm e um espectro luminescente característico, sendo coordenado por três histidinas cada íon com número de coordenação 3 e geometria trigonal planar, sendo uma de suas funções a ativação de O2 para transporte e oxigenação. A combinação entre os tipos T2 e T3 cria um sítio trinuclear (T2/T3)[1]. As lacases são produzidas por várias espécies de fungos e alguns tipos de vegetais. Consiste de uma única cadeia polipeptídica com aproximadamente 500 resíduos de aminoácidos. As lacases de fungos são enzimas extracelulares que desempenham atividade na degradação da lignina. Ascorbato oxidases são proteínas presentes em alguns vegetais. A nível celular, a enzima é mais abundante na parede celular e no citoplasma, mas seu papel nos organismos vivos ainda não é bem entendido, mas pode estar envolvido no crescimento vegetal e é mais abundante no fracionamento da parede celular[2]. Figura 1 – Representação da proteína 1GYC exibindo os íons cobre. II. METODOLOGIA Seleção das proteínas 1) Pesquisa bibliográfica A pesquisa bibliográfica foi focada em proteínas que possuíssem sua estrutura cristalográfica disponível no PDB (Protein Data Bank) e, concomitantemente, dados de potenciais de oxi-redução na literatura. Os polipeptídios selecionados são três lacases, 1GYC[3] contendo quatro íons cobre, proveniente de Trametes versicolor, 1HFU[4] contendo três íons cobre, proveniente de Coprinus cinereus, 1A65[5] 2 com três íon metálicos, proveniente também de Coprinus cinereus e de uma ascorbato oxidase 1AOZ [6] proveniente de Zucchini, a qual se apresenta na forma de um dímero, contém três íons cobre em cada monômero e um entre os monômeros. A Tabela 1 apresenta os potenciais de oxi-redução obtidos experimentalmente para as enzimas em estudo. Tabela1-Potenciais das proteínas estudadas Enzima (ID PDB) Resolução (Å) Potencial (mV) [1] 1A65 1GYC 1HFU 1AOZ 2.23 1.90 1.68 1.90 540 780-800 550 344 2) Análise do Cobre tipo I Uma vez que não é possível ainda tratar por métodos ab initio enzimas como um todo, optou-se por estudar inicialmente a região que inclui o cobre do tipo I (Cu(I)) presente no sítio ativo, para clusters obtidos a partir do recorte ao redor do Cu(I) com raios iguais a 5, 6 e 7Å, analisando os aminoácidos presentes nos cortes. A seguir, foram realizados cálculos single point utilizando a Teoria de Funcional de Densidade (DFT) com os funcionais B3LYP e BHandH. Os cálculos realizados visam fornecer as propriedades eletrônicas dos íons cobre tipo 1, como as energias de HOMO (Highest Occupied Molecular Orbital) e LUMO (Lowest Unoccupied Molecular Orbital). As energias dos orbitais de fronteira (HOMO e LUMO) e a diferença entre elas (Gap) são indicativas da característica mais elétron-aceitadora ou doadora da molécula. 3) Análise do Sítio Ativo Na continuidade do estudo, foram analisados novos cortes das enzimas, de forma que todo o sítio ativo, onde estão os íons cobre, pudesse ser estudado. Os cortes envolviam os átomos metálicos, os aminoácidos presentes em um raio de 4Å em torno dos mesmos e os resíduos que, eventualmente, realizassem uma ligação entre os diferentes sítios. Após os resultados terem sido obtidos, foram selecionadas duas das proteínas estudadas, de forma a realizar uma simulação do processo redox, onde foram realizados cálculos de HOMO e LUMO variando a carga total do sítio ativo, considerando todos os íons na forma oxidada (+2 por átomo de cobre) até os íons na forma reduzida (+1 por íon metálico), assim como cálculos de carga ESP e de Spin eletrônico. III. RESULTADOS Os cálculos de energia de HOMO e LUMO realizados para os cortes em torno do Cu(I), utilizando o funcional B3LYP, resultaram nos valores expressos na Tabela 2. A Figura 2 representa os orbitais HOMO e LUMO dos cortes de 5 Å em torno do cobre do tipo I de cada proteína, com o funcional B3LYP. Tabela 2 - Propriedades eletrônicas dos clusters de Cu(I) estudados – B3LYP Raio EHOMO ELUMO Gap Enzima ET (a.u) (Å) (a.u) (a.u) (kcal.mol-1) 5 -4801.8 -0.2800 -0.2741 -3.7 1A65 6 -7197.7 -0.3597 -0.3498 -6.2 7 -8762.6 -0.2156 -0.2119 -2.3 5 -4989.8 -0.3342 -0.3257 -5.3 1GYC 6 -7508.9 -0.2785 -0.2698 -5.4 7 -9236.1 -0.2609 -0.2521 -5.6 5 -4876.7 -0.3309 -0.3192 -7.3 1HFU 6 -7567.7 -0.2847 -0.2784 -3.9 7 -9243.1 -0.2518 -0.2459 -3.7 5 -4987.3 -0.3588 -0.3473 -7.2 1AOZ 6 -7933.0 -0.3316 -0.3235 -5.1 7 -9600.0 -0.3329 -0.32266 -6.4 1A65 HOMO 1HFU LUMO HOMO LUMO HOMO 1GYC HOMO LUMO 1AOZ LUMO Figura 2 – Representação dos orbitais HOMO e LUMO. Os resultados dos cálculos de HOMO e LUMO, com o funcional B3LYP, para o sítio ativo estão representados na Tabela 3. Tabela3- Propriedades eletrônicas dos clusters que incluem todos os átomos metálicos ligados por uma ponte de aminoácidos das enzimas estudadas – B3LYP Enzima ET (a.u) EHOMO (a.u) ELUMO (a.u) Gap (kcal.mol-1) 1A65 -12271.0 -0.532 -0.523 -5,6 1GYC -10709.1 -0.7535 -0.7476 -3.7 1HFU -9800.6 -0.5938 -0.5856 -5.1 1AOZ -16880.3 -0.2977 -0.2935 -2.6 A Figura 3 representa os orbitais de HOMO e LUMO do síto ativo das proteínas 1GYC e 1HFU. 1GYC HOMO 1HFU LUMO HOMO LUMO Figura 3 – Representação dos orbitais HOMO e LUMO. 3 Como proteína 1GYC é a enzima que, segundo a literatura, possui o maior valor de potencial de oxi-redução, o sítio ativo da mesma foi submetida à cálculos com diferentes cargas, visando simular o processo redox. O mesmo processo foi utilizado para a proteína 1AOZ, de forma que seja possível a comparação entre os aminoácidos constituintes dos sítios ativos. Os cálculos para o processo redox consistiram em cálculos de carga ESP (Tabela 4) e de cálculos de Spin eletrônico. Tabela 4 – Carga ESP por tipo de cobre do sítio ativo da enzima 1GYC. Carga T1 T2 T3 (I) T3 (II) Total 8 0,41 0,48 0,28 0,64 7 0,40 0,04 0,23 0,40 6 0,31 0,03 0,19 0,42 5 0,26 -0,01 0,18 0,37 4 0,25 -0,12 0,15 0,29 Variação -0,16 -0,60 -0,13 -0,35 total Os valores indicam qual dos átomos metálicos estão mais envolvidos no processo de redução, sendo o Cu(II) o que mais sofre variação de carga (-0,6), seguido por um dos íons cobre do tipo 3 (-0,35). Uma estrutura polipeptídica foi proposta por membros do grupo, onde os aminoácidos constituintes são baseados na proteína 1GYC que tem o maior potencial redox. A sequência proposta se constitui de NH2-DHHDACK(H)HIHGGHCOOH, onde D representa o aminoácido o Aspartato, H Histidina, A Alanina, C Cisteína, K Lisina, I Isoleucina e G Glicina. A sequência ‘K(H)H’ representa que a lisina possui ligações com duas histidinas, sendo uma delas em uma cadeia lateral, de forma que a cadeia não fosse inteiramente linear, mas com uma histidina lateral, para que existisse um sítio de ligação para o átomo de cobre, como na proteína 1GYC. O próximo passo em relação a essa proteína foi a otimização de sua estrutura, ainda sem os átomos de cobre, para avaliar se sua estrutura seria deformada a ponto de não ser possível a alocar os íons de cobre na estrutura sintetizada. Outra frente tomada em relação à criação de uma estrutura com a sequência acima proposta foi a criação do polipeptídio inicialmente em torno de um íon de cobre, realizar sua otimização estrutural, adicionar outros aminoácidos, e novamente otimizar sua estrutura, prosseguindo dessa forma, até que a estrutura estivesse completa. Desta forma não é possível analisar como seria a conformação estrutural ao ser sintetizada, uma vez que os íons cobre seriam alocados nas proteínas após sua síntese, no entanto nos permitirá avaliar os resultados de orbitais de fronteira (HOMO e LUMO), e possivelmente comparar seus resultados com as proteínas estudadas. Figura 4 – Representação gráfica da estrutura proposta Figura 5 – Representação gráfica da estrutura contendo 3 histidinas e um átomo de cobre, antes da otimização. IV. CONCLUSÕES Os cálculos nos permitiram avaliar o mecanismo do processo de redução que ocorre no sítio ativo e propor alguns peptídeos. Após otimização dessas novas estruturas, as propriedades eletrônicas serão calculadas de forma a verificar se são semelhantes àquelas da proteína que se deseja mimetizar. Serão então avaliadas novas estruturas e aquelas mais promissoras serão sintetizadas. AGRADECIMENTOS: FAPESP, CNPQ E PIBIC-UFABC. REFERÊNCIAS [1] [2] [3] [4] [5] [6] Shleev, S. et al. Direct electron transfer between copper-containing proteins and electrodes. Biosensors & Bioelectronics [S.I.], v. 20, n. 12, p. 2517-2554, 2005. Bertini, I.; Sigel, A.; Sigel, H., Handbook on Metalloproteins, New York, NY. 2001, 1108p. Piontek, K. et al. Crystal structure of a laccase from the fungus Trametes versicolor at 1.90-A resolution containing a full complement of coppers J.Biol.Chem. v. 277, p. 37663-37669, 2002. Ducros, V. et al. Structure of the laccase from Coprinus cinereus at 1.68 Å resolution: evidence for different 'type 2 Cu-depleted' isoforms. Acta Crystallogr.,Sect.D v.57, p. 333-336, 2001. Ducros, V. et al. Crystal structure of the type-2 Cu depleted laccase from Coprinus cinereus at 2.2 Å resolution. Nat.Struct.Biol. v.5, p.310-316, 1998. Messerschmidt, A. et al. Refined crystal structure of ascorbate oxidase at 1.9 Å resolution. J.Mol.Biol. v.224, p.179-205, 1992.