ORGANIZADOR
FRANCISCO EDVIGES ALBUQUERQUE • ORGANIZADOR
FRANCISCO EDVIGES ALBUQUERQUE
A EDUCAÇÃO ESCOLAR APINAYÉ NA PERSPECTIVA
BILÍNGUE E INTERCULTURAL
A EDUCAÇÃO ESCOLAR APINAYÉ NA PERSPECTIVA BILÍNGUE E INTERCULTURAL
Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior
Programa do Observatório da Educação
Escolar Indígena
A EDUCAÇÃO ESCOLAR APINAYÉ
NA PERSPECTIVA BILÍNGUE
E INTERCULTURAL
A EDUCAÇÃO ESCOLAR APINAYÉ NA PERSPECTIVA
BILÍNGUE E INTERCULTURAL
Reitor: Alan Barbiero
Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários - PROEX: Marluce Zacariotti
Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação - PROPESQ: Márcio Antônio da Silveira
Diretor do Campus de Araguaína: Luiz Eduardo Bovolato
Coordenação do Projeto de Educação Escolar Apinajé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural:
Francisco Edviges Albuquerque
Diretor de Educação Básica Presencial/DEB/CAPES: João Carlos Teatini
Coordenação Geral da CGC/DEB/CAPES/MEC: Carmem Moreira de Castro Neves
Coordenadora de Fomento da CGC/DEB/CAPES: Fernanda Litvin Villas Boas
Equipe Técnica/CAPES: Carine Pereira Mariani, Janaina Cássia Carvalho e Sílvia Helena Rodigues
Coordenação Regional/FUNAI/ Palmas: Cleso Fernandes de Moraes
Chefe do NPPDS
FUNAI/ Palmas: Corina Maria Rodrigues Costa
Coordenação Técnica da FUNAI/ Tocantinópolis: Josevan da Cruz Vilanova
Diretoria de Educação Indígena e Diversidade/SEDUC/TO: Maximiano Bezerra
Supervisor Pedagógico Indígena / DERET / Tocantinópolis: João Joviano de Medeiros Neto
Grão Chanceler: Dom Washington Cruz, CP
Reitor: Wolmir Therezio Amado
Editora da PUC Goiás
Pró-Reitora da Prope e Presidente do Conselho Editorial: Sandra de Faria
Coordenador Geral da Editora da PUC Goiás: Gil Barreto Ribeiro
Conselho Editorial: Regina Lúcia de Araújo; Aparecido Divino da Cruz; Elane Ribeiro Peixoto;
Heloisa Capel; Maria do Espírito Santo Rosa Cavalcante; Cristóvão Giovani Burgarelli; Heloísa Helena
de Campos Borges; Iúri Rincon Godinho; Maria Luísa Ribeiro e Ubirajara Galli.
A Educação
Escolar Apinayé na
Perspectiva Bilíngue
e Intercultural
Francisco Edviges Albuquerque
organizador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS
Goiânia, 2011
© 2011 Universidade Federal do Tocantins
Editora da PUC Goiás
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Coordenação (62) 3946-1816, Livraria (62) 3946-1080
www.pucgoias.edu.br/editora
Comissão Técnica
Biblioteca Central da PUC Goiás – Normalização
Romeu Henkes – Revisão
Félix Pádua – Editoração Eletrônica
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, GO, Brasil
E21
A Educação escolar Apinayé na perspectiva bilíngue e intercultural /
Francisco Edviges Alburquerque, (org). – Goiânia: Ed. da PUC
Goiás, 2011.
240 p.
ISBN 978-85-7103-722-9
1. Alfabetização – Índios Apinayé. 2. Educação – Índios Apinayé. 3. Educação – indígenas. I. Albuquerque, Francisco Edviges. II. Título.
CDU 37.02 (= 1- 82)
Índice para catálogo sistemático
1. Educação Escolar Indígena Apinayé
2. Educação Escolar Bilíngue e Intercultural
Todos os direitos reservados aos autores: Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio
de processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos, videográficos, internet, notebook. A violação dos direitos autorais é punível como crime
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conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (art. 102, 103 parágrafo único, 104,
105, 106 e 107 itens 1, 2 e 3 da Lei nº 9.610 de 19/06/98. Lei dos Direitos Autorais).
Todos os trabalhos de autoria, comentários, opiniões, conclusões ou recomendações são do(s)
autor(es), e não necessariamente refletem as opiniões do editor.
Impresso no Brasil
Esta publicação foi viabilizada com recursos do Programa do Observatório da Educação Escolar
Indígena/CAPES/SECAD/INEP - Edital 001/2009 - Projeto 014.
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes)
APOIO:
PROEX - Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários
PROPESQ - Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
LALI - Laboratório de Línguas Indígenas / Campus de Araguaína
NEPPI - Núcleo de Estudo e Pesquisa com Povos Indígenas / Campus de Araguaína
Coordenação Geral de Educação Indígena
FUNAI – Fundação Nacional do Índio
Diretoria de Educação Indígena e Diversidade/SEDUC/TO
Professores Indígenas Apinajé colaboradores do Projeto: Amindor Corredor Almeida Apinajé, Ana
Rosa Ribeiro Salvador Apinajé, Carlos Tep-Krut Fernandes Apinajé, Cassiano Sotero Apinajé, Davi
Waimimem Chavito Apinajé, Emílio Dias Apinayé, Eloíza Apinajé, Eva Apinajé, Francisco R. da Costa
Apinajé, Gilberto Dias Morais, Gilberto Pereira Apinayé, Iramar Dias de Sousa Apinajé, Itamar kamàt
Apinajé, Ivan Corredor Apinajé, José Dorico Apinajé, José Eduardo Dias Pereira Apinayé, Josué Dias de
Sousa Apinayé, Júlio Kamêr Apinayé, Jurandy Pereira Apinayé, Lucas Dias Laranja Apinajé, Maria Célia
Dias de Souza Apinajé, Maria Cipand Apinajé, Maria Dos Reis Corredor, Paulo Laranja Apinayé, Percília Dias Morais, Roberto da Mata Apinajé, Rogério Evangelista Dias Apinajé, Rosana Dias Apinajé, Silivan Oliveira Apinayé, Vanderlei Sotero Apinajé, Vílson Corredor Apinajé, Willian Dias Laranja Apinajé.
Assessoria Linguística: Francisco Edviges Albuquerque
Equipe do Projeto:
Coordenação: Francisco Edviges Albuquerque
Professores Colaboradores: Miguel Pacífico Filho e Thelma Pontes Borges
Bolsistas de Graduação: Alex Dias da Conceição Silva, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira, Ediléia
Maria da Sila, Fernanda de Oliveira Fernandes e Gustavo Carvalho Viveiros.
Bolsista de Mestrado: Severina Alves de Almeida
Professoras de Educação Intercultural (Bolsistas): Ana Rosa Ribeiro Salvador Apinayé e Maria Célia
Dias de Sousa Apinayé
Capa: Francisco Edviges Albuquerque e Josévaldo Bringel da Cruz
Diagramação e Digitação: Josévaldo Bringel da Cruz
Imagem da Capa: Professores Indígenas da Aldeia São José
Apresentação
Quando o Professor Doutor Francisco Edviges Albuquerque nos convidou para fazer o Prefácio deste livro, um misto de alegria e temor nos
acometeu. Alegria porque é um privilégio o fato de que, dentre tantas pessoas em seu rol de convivência acadêmica e pessoal, ele tenha se lembrado
de nós. E temor porque o peso da responsabilidade aumenta na proporção
em que vamos tomando conhecimento de sua trajetória, não apenas como
pesquisador dedicado à causa da Educação Escolar dos Povos Indígenas do
Tocantins, mas também pela sua generosidade e desprendimento para com
todos aqueles que têm o privilégio de compartilhar de sua convivência. Tomar para nós a responsabilidade de prefaciar um livro sobre Educação Escolar Indígena organizado por esse Professor é uma tarefa desafiadora, mas
é também uma rara oportunidade que não podemos nem devemos deixar
passar, e começamos expressando com humildade nossos agradecimentos.
No tocante ao livro, acreditamos que seus indícios são remanescentes
do ano de 2009, quando a CAPES - Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - em parceria com a SECAD - Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade e o INEP
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
- visando ao fortalecimento da formação dos profissionais da Educação Básica Intercultural Indígena, bem como ao estímulo à produção acadêmica e
à formação dos alunos de graduação e pós-graduação em nível de mestrado
e doutorado, publicou o edital para a criação do “Observatório da Educação
Escolar Indígena”.
Ao tomar conhecimento do referido edital, o Professor Doutor Francisco Edviges Albuquerque, idealizou, implantou e coordenou o “Projeto
de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural”, cujo
resultado está neste livro. O objetivo principal foi a realização de cursos
de aperfeiçoamento para os professores indígenas que atuam nas escolas
de suas comunidades como professores do Ensino Fundamental e Médio,
dando continuidade às ações de extensão desenvolvidas pelo Projeto de
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Apresentação
Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, que foi implantado nas
escolas das aldeias Apinayé em 2000, também sob sua coordenação. Ações
estas voltadas para a organização de material didático com participação
efetiva dos professores indígenas, visto que na execução do projeto, o material didático-pedagógico está em permanente construção, levando em consideração a sistematização dos conhecimentos sociohistóricos, culturais e
linguísticos das comunidades indígenas Apinayé.
A finalidade do livro é contribuir para o fomento a pesquisas em Educação Indígena no Brasil, a partir da produção teórica dos agentes envolvidos no Projeto, dando ênfase às experiências vivenciadas pelos pesquisadores. A temática versa sobre questões voltadas para Interculturalidade,
Bilinguismo e Educação Escolar Indígena Bilíngue e Diferenciada. O livro
focaliza também as práticas pedagógicas utilizadas pelos Professores de
Língua Materna que atuam nas escolas das aldeias onde o Projeto foi desenvolvido, e está organizado em dez artigos assinados por professores de
diferentes áreas, professores indígenas de Educação Biblíngue e Intercultural, acadêmicos da graduação e uma aluna de Mestrado.
A coletânea inicia com o artigo Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: Relatos e Experiências Apinayé, de autoria dos Profºs.
Dr. Francisco Edviges Albuquerque, Maria Célia Dias de Souza Apinayé e
Ana Rosa Salvador Apinayé. Nele são tecidas considerações sobre a área
de concentração do Programa do Observatório, apresentando a trajetória
percorrida pelos autores durante todo o processo de execução do Projeto,
de forma sucinta e clara. O texto apresenta as Escolas Indígenas das aldeias
São José e Mariazinha, onde se centralizaram as atividades, traçando o perfil dos professores indígenas que lá atuam, refletindo acerca do material de
apoio pedagógico que eles utilizam. Num dos momentos importantes do
texto traz-se os relatos e as experiências dos Professores Indígenas Apinayé,
apresentando o falar e o pensar daqueles que foram os grandes parceiros na
realização do trabalho. Outra abordagem bastante relevante diz respeito à
realização das oficinas pedagógicas, enriquecidas com as aulas de campo,
vistas como estratégia para subsidiar conhecimentos para docentes e discentes indígenas, que tiveram a oportunidade de refletir sobre o trabalho
didático-pedagógico, indo além de conhecimentos teóricos e práticos utilizados em sala de aula.
No artigo intitulado O sentido e a função da leitura e da escrita para as
crianças Apinayé de Mariazinha, o Professor Dr. Francisco Edviges Albuquerque discute o que representa a leitura e a escrita para os alunos Apinayé
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Apresentação
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em fase de alfabetização, considerando que a escoa desta aldeia trabalha o
Bilinguismo como prática pedagógica visando à efetivação de uma Educação Bilíngue e Intercultural. A aldeia e a escola são apresentadas com
detalhes pelo autor. A facilidade linguística no que tange ao uso das línguas
Apinayé e Portuguesa é um tema bastante instigante, que responde ao pertinente questionamento: “Para que o indígena Apinayé quer aprender português?” A relação entre domínio da escrita e desenvolvimento cognitivo
também estão na pauta do texto, assim como reflexões acera da importância da leitura no cotidiano da criança indígena Apinayé. Para concluir, o autor discute sobre a produção do material didático que subsidia as atividades
pedagógicas dos professores indígenas na condução das aulas, em turmas
do primeiro e segundo anos do Ensino Fundamental da Escola Estadual
Indígena Tekator da aldeia Mariazinha.
A aquisição da escrita pelas crianças Apinayé de São José, é também
assinado por Francisco Edviges Albuquerque. Aqui o autor discute a prática de sala de aula de uma professora indígena do 3º ano do Ensino Fundamental na escola Mãtyk, da aldeia São José. O texto reflete sobre a situação escolar da aldeia São José, cujo foco central é a criança Apinayé, tendo
em vista o processo de aquisição da escrita. As práticas alfabetizadoras da
professora, os aspectos teórico-metodológicos de sua pedagogia e a relação
envolvendo a fala e a escrita no tocante à aquisição pelas crianças indígenas
Apinayé, são aspectos relevantes do artigo.
No quarto artigo da coletânea, Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no contexto escolar Apinayé: o Professor de Língua Materna em
perspectiva, os autores Severina Alves de Almeida e Francisco Edviges Albuquerque comentam com bastante propriedade a Educação Escolar Apinayé, fazendo uma discussão histórica desde a década de 1960 até os dias
atuais. A Educação e a Alfabetização Bilíngues, assim como a Interculturalidade, são temas recorrentes no texto, trazendo informações precisas sobre
os Apinayé e a Educação Escolar, sendo que o professor de língua materna
e sua prática pedagógica adquirem lugar de destaque nas salas de aula das
escolas das aldeias São José e Mariazinha.
Outro artigo assinado pela mestranda Severina Alves de Almeida e
pelo professor Dr. Francisco Edviges Albuquerque, intitulado Letramento
Literário na Escola Indígena Tekator da aldeia Apinayé Mariazinha: uma
análise introdutória é um texto bastante significativo, trazendo para debate a questão da leitura, por alunos indígenas, de teorias literárias no
contexto do letramento escolar indígena Apinayé. Referendados, de um
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Apresentação
lado, por uma pesquisa teórica consistente e, por outro, por uma pesquisa empírica que contemplou três professores de literatura e cinco alunos
indígenas do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Tekator, os autores levantam uma discussão bastante pertinente acerca da produção de
textos literários numa realidade específica, isto é, uma escola indígena,
constatando que os alunos Apinayé da Escola Estadual Tektor da aldeia
Mariazinha, não apenas são capazes de ler uma poesia, mas também de se
apoderar de seu teor literário e poético, com capacidade de produzir seus
próprios poemas, o que se configura como Letramento Literário na escola
indígena de Mariazinha.
A Educação Escolar Indígena Apinayé na perspectiva Bilíngue e Intercultural: implicações a partir da lei 11.645/08 é um texto assinado por Severina Alves de Almeida e pelos acadêmicos bolsistas de graduação que
participaram do Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: Fernanda de Oliveira Fernandes, Alex Dias da Conceição Silva, Ediléia
Maria da Silva, Gustavo Carvalho Viveiros e Carlos Joeverson Azevedo de
Oliveira. O objetivo dos autores é descrever e analisar a Educação Intercultural e sua aplicabilidade na sala de aula, tendo por base a Lei 11.645 de 10
de março de 2008. A grande contribuição desse trabalho está na divulgação
da Lei que possibilitará a sensibilização em torno de uma problemática que
envolve as relações inter-étnicas nas escolas não-indígenas, o etnocentrismo. Afinal, é papel da escola, promover uma educação para uma convivência além das fronteiras étnicas.
Thelma Pontes Borges e Miguel Pacífico Filho são os autores do artigo
Observações acerca da Educação Apinayé: resultados de oficinas e observações na Escola Mariazinha. O texto descreve as atividades dos pesquisadores no transcorrer do andamento das atividades desenvolvidas pelo “Projeto de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural”,
chamando a atenção para a problemática enfrentada pela Escola Tekator,
em função se sua classificação em último lugar no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio de 2008 divulgado em 2009. Dentre outros aspectos,
os autores chamam a atenção para a importância de se efetivarem medidas
na tentativa de reverter o problema, bem como para a necessidade de se
buscar uma integração entre a comunidade indígena, os professores não
indígenas e o governo nas diversas esferas, na tentativa de tornar o espaço-subjetivo escolar como um local de construção de representações do povo
Apinayé, auxiliando na identidade de sua cultura, no fortalecimento de sua
Língua Materna e na mediação de debates políticos.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Apresentação
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O artigo Alfabetização das crianças Apinayé: subsídios para o processo
educativo, escrito por Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros e
Mayco Pereira Coimbra, discute as características da alfabetização Apinayé
como suporte para se pensar todo processo educativo. Os autores partem
do pressuposto de que a alfabetização em escolas indígenas é um processo, e que sua efetivação vai mais além do que fazer levantamentos de dificuldades específicas e suas problemáticas. Antes, deve-se pensar até que
ponto a inserção das escolas nas aldeias atende de fato às necessidades das
comunidades, considerando que a inserção das crianças para viver outras
aprendizagens, poderia de fato contribuir para a preservação da língua e da
cultura de um povo. Concebido a partir de entrevistas com professoras alfabetizadoras e mães indígenas, além de observações nas aldeias Mariazinha e
São José, o texto analisa seus resultados, os quais permitem apontar fatores
interessantes, como a opção por alfabetizar primeiro na Língua Materna e
só posteriormente em Língua Portuguesa e as situações que merecem ser
debatidas pelas comunidades, como o fato da língua de instrução/ensino
na escola não ser o Apinayé, configurando um Bilinguismo de transição.
Por outro lado, verifica que existe um interesse político da comunidade em
preservar seus aspectos de identidade étnica, e para isto algumas medidas já
são tomadas, como é o caso da formação de professores indígenas pertencentes às comunidades e elaboração de material didático na língua Apinayé.
O texto Resistência e construção do cotidiano entre os Apinayé, dos autores Miguel Pacífico Filho e Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira, também é bastante significativo. Nele são tecidas considerações acerca de atos
de resistência observadas a partir de práticas cotidianas dos sujeitos históricos, e interpretados à luz de conceitos desenvolvidos por teóricos como
Michel de Certeau e Michel Maffesoli. O objetivo dos autores é visualizar as
táticas utilizadas pelos Apinayé para desenvolver práticas cotidianas de resistência no sentido de preservar traços de sua identidade e observar como
se dá a apropriação e o manuseio de referenciais não indígenas no contexto
Apinayé. O trabalho acontece nas aldeias Apinayé São José e Mariazinha,
a partir de entrevistas e observação do cotidiano com representantes dos
diversos segmentos das comunidades, a saber: Caciques, Professores e habitantes das aldeias.
Elisângela Aparecida Pereira de Melo com o artigo Etnomatemática
e Investigação Matemática em Contextos Indígenas fecha a coletânea. Inicialmente a autora apresenta os saberes tradicionais dos povos indígenas
do Estado do Tocantins, descrevendo os indígenas Xerente e discutindo as
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Apresentação
práxis educativas e cotidianas dos indígenas nos contextos próprios das aldeias, evidenciadas nos saberes tradicionais, aliados às teorias de formação
de professores de Matemática e da Etnomatemática, por ocasião do Curso
de Magistério Indígena. Em seguida a autora analisa as ações colaborativas junto ao Projeto do Observatório de Educação Indígena Apinayé na
área de Educação Matemática e Etnomatemática com os professores das
escolas Mãtyk e Tekator das aldeias São José e Mariazinha. Tendo como
aporte teórico as referências da Educação Matemática e da Etnomatemática, é possível vislumbrar, nas práticas culturais distintas, a possibilidade de
relacionar os saberes e os fazeres indígenas com o ensino de Matemática,
em diferentes espaços de aprendizagem, favorecendo um projeto educativo
que atenda às expectativas dos Apinayé.
Concluímos afirmando que a pesquisa que originou os textos desta
coletânea, contou com apoio financeiro da CAPES. O desenvolvimento das
ações se deu nos anos de 2010/2011, e contou com uma equipe de professores e acadêmicos pesquisadores da UFT – Universidade Federal do
Tocantins, campus de Araguaina, sob a coordenação do Professor Doutor
Francisco Edviges Albuquerque. Teve também a colaboração valiosa dos
Professores Indígenas Apinayé, de suas lideranças, e da população das aldeias São José e Mariazinha. Acreditamos, ademais, que esta publicação é
de extrema relevância, uma vez que traz o relato de atividades in loco, e se
apresenta como fonte de consulta para trabalhos desenvolvidos em contextos indígenas Apinayé.
Severina Alves de Almeida (SISSI)
Mestranda do PPGL – Programa de Pós Graduação em Letras da UFT
– Universidade Federal do Tocantins, e bolsista da CAPES/Observatório da
Educação Indígena Apinayé
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
SUMÁRIO
Apresentação............................................................................................................... 07
1.
Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena:
relatos e experiências Apinayé.................................................................15
Francisco Edviges Albuquerque, Ana Rosa Salvador Apinayé e
Maria Célia Dias de Souza Apinayé
2. O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças
Apinayé de Mariazinha.............................................................................41
Francisco Edviges Albuquerque
3. A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José................65
Francisco Edviges Albuquerque
4.
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade
no Contexto Escolar Apinayé: o professor de língua materna
em perspectiva............................................................................................95
Severina Alves de Almeida Sissi e Francisco Edviges Albuquerque
5. Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia
Apinayé Mariazinha: uma análise introdutória.................................. 123
Severina Alves de Almeida e Francisco Edviges Albuquerque
6. A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue
e Intercultural: implicações a partir da Lei 11.645/08........................ 151
Severina Alves de Almeida Sissi, Fernanda de Oliveira Fernandes,
Alex Dias da Conceição Silva, Ediléia Maria da Silva, Gustavo
Carvalho Viveiros e Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
7. Observações acerca da Educação Apinayé: resultados
de oficinas e observações na escola Mariazinha................................. 171
Thelma Pontes Borges e Miguel Pacífico Filho
13
14
Sumário
8. Alfabetização das Crianças Apinayé: Subsídios para
o Processo Educativo.............................................................................. 183
Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros e
Mayco Pereira Coimbra
9. Resistência e construção do cotidiano entre os Apinayé................... 193
Miguel Pacífico Filho e Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
10. Etnomatemática e Investigação Matemática
em Contextos Indígenas......................................................................... 207
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
1
Programa do Observatório
da Educação Escolar Indígena:
relatos e experiências Apinayé
Francisco Edviges Albuquerque1
Ana Rosa Salvador Apinayé 2
Maria Célia Dias de Souza Apinayé 3
Introdução
O Projeto A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural/CAPES/SECAD/INEP do Edital nº 001/2009 pretende dar continuidade às ações de extensão implantadas através do Projeto de Apoio
Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, que vem sendo desenvolvido
ao longo de onze anos e já resultou em diversas publicações. Este projeto
foi implantado nas escolas Apinayé e apresenta como objetivo principal a
escrita Apinayé conjunta, entre o professor coordenador dessa proposta e
membros da comunidade Apinayé, sobretudo na organização de material
didático de apoio à educação escolar indígena e à realização de curso de
aperfeiçoamento e capacitação que habilite os professores indígenas a atuarem nas escolas de suas aldeias como professores do Ensino Fundamental
e Médio. Tais ações surgiram a partir de uma proposta dos próprios professores indígenas que atuam nas escolas dessas comunidades, no sentido de
contribuir para minimizar as dificuldades que os professores e alunos indígenas vinham/vêm enfrentando em relação à escrita ortográfica Apinayé,
1.Coordenador do Projeto A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e
Intercultural/ Programa do Observatório de Educação Indígena, CAPES/SECAD/INEP
do Edital nº 001/2009.
2. Professora Indígena Apinayé da escola Mãtyk da Aldeia São José e bolsista do Projeto
de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do
Observatório de Educação Indígena CAPES/SECAD/INEP do Edital nº 001/2009.
3. Professora Indígena Apinayé da escola Tekator da Aldeia Mariazinha e bolsista do Projeto
de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do
Observatório de Educação Indígena/ CAPES/SECAD/INEP do Edital nº 001/2009.
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
bem como na elaboração do material didático pelos próprios professores e
alunos indígenas, objetivando a revitalização e a manutenção da língua e
da cultura dos Apinayé, numa perspectiva de educação bilíngue, intercultural e de base diferenciada, levando em consideração os saberes próprios,
aspectos socioculturais, históricos e linguísticos desses povos. O trabalho
que vem sendo efetivado nas escolas Apinayé já resultou na publicação dos
livros História e Geografia Apinayé, Matemática e Ciências Apinayé, Narrativas e Cantigas Apinayé, Receitas da Medicina Tradicional Apinayé, Inicia
em Jaó e Finaliza em Raposa e Português Intercultural.
A proposta atual visa ampliar o trabalho de extensão já existente, culminando com as atividades de pesquisa e de ensino, garantido, assim, o
tripé de qualidade da universidade pública. Diante dessa premissa, dois
fatores nos levam a apresentar e defender a proposta aqui estruturada. O
primeiro deles: consideramos que a Universidade Federal do Tocantins está
geograficamente localizada numa região que sabidamente permaneceu por
longos anos alheia às ações do Estado, sustentando assim alguns dos mais
baixos índices de desenvolvimento humano observáveis no Brasil. O segundo: a escola da aldeia Mariazinha, localizada na reserva indígena Apinayé, obteve a última colocação no ENEM do ano 2008.
Considerando o exposto, a pesquisa tem como objetivo geral auxiliar
e investigar fatores preponderantes na educação do povo Apinayé. Dentro do objetivo geral, teremos quatro pesquisas com objetivos específicos:
Pesquisa: Auxiliar a construção conjunta de material de apoio pedagógico,
entre eles, livro de alfabetização, sistematizando as dificuldades linguísticas
e gramaticais no uso da língua Apinayé escrita. Pesquisa: Trabalhar com
professores alfabetizadores Apinayé, numa perspectiva psicopedagógica,
levantando características próprias da aquisição da escrita da língua materna; - Investigar famílias de crianças de até 2 anos de idade para verificar o
processo de aquisição de língua materna com pais que são bilíngues/ multilíngues. Pesquisa: Demonstrar as estratégias através das quais os povos
Apinayé constituem meios de resistência cotidiana, a fim de preservar traços culturais identitários diante do contínuo processo histórico de contato
com a sociedade não índia e ao extermínio das línguas e das populações
indígenas. Ademais, a UFT campus de Araguaína contribuiu com um programa de Mestrado em Letras, destinando uma vaga para a efetivação de
uma pesquisa ligada às comunidades indígenas.
O trabalho terá como público alvo as escolas das aldeias Mariazinha e
São José, do povo Apinayé, que fazem parte do PIN - São José: Patizal, CoA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque, Ana Rosa Salvador Apinayé, Maria Célia Dias de Souza Apinayé
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calinho, Buriti Comprido, Aldeinha, Abacaxi, Prata, Palmeiras, Serrinha,
Boi Morto, Areia Branca, Mata Verde, Ouro Verde, Bacabinha e Brejinho
do PIN- Mariazinha: Bonito, Riachinho, Brejão, Botica, Girassol, Macaúba,
Barra do Dia e Mata Grande, localizado no norte do Estado do Tocantins,
próximo aos municípios de Tocantinópolis, Lagoa do São Bento, Riachinho
e Maurilândia.
Desta forma, faz-se necessária uma breve descrição do processo de
implantação da Universidade Federal do Tocantins, para justificar que,
com a curta existência Universidade, não dispomos, ainda, de um núcleo
formalizado e de um programa de doutorado. A Universidade Federal do
Tocantins (UFT) foi criada no ano de 2000 com o auxílio da Universidade
de Brasília (UNB). Seu primeiro concurso para professores aconteceu no
ano de 2003, com a posse dos primeiros professores. Desde então a Universidade vem se estruturando em termos físicos e administrativos. Somente
este ano iremos debater e aprovar nossa primeira estatuinte. A que está
em vigor é adaptada da UNB. Ainda assim, temos uma Universidade que
em oito anos de funcionamento conseguiu grandes avanços. Somos multi
campi, presentes em sete cidades do estado do Tocantins (Araguaína, Arraias, Gurupi, Miracema do Tocantins, Palmas, Porto Nacional e Tocantinópolis). Em Araguaína possuímos doze cursos de graduação, um curso de
mestrado e um doutorado em Ciências Animais e, recentemente, o campus
de Araguaína aprovou o curso de mestrado de Letras, Estudos Linguísticos
e Ensino de Língua com início no primeiro semestre de 2010.
Com base nesses pressupostos, a presente proposta parte do Laboratório de Línguas Indígenas da UFT/Araguaína e do núcleo de Estudo e
Pesquisas com Povos Indígenas/NEPPI. O coordenador do laboratório tem
domínio nas línguas Apinayé e Krahô e trabalha a mais de uma década com
estes povos indígenas, tendo inclusive realizado seu trabalho de mestrado e
doutorado com os Apinayé. Os dois professores colaboradores deste projeto tiveram contato nos últimos semestres com os povos indígenas Apinayé
e Krahô, tendo estabelecido contato com estas populações indígenas, auxiliando na elaboração do livro de alfabetização apinayé e no diagnóstico
prévio da escola da aldeia Mariazinha, para identificação de fatores que
auxiliem na compreensão das dificuldades vividas por esta escola.
Acreditamos, assim, que, apesar de não atendermos por completo as
expectativas do edital, visto o processo em curso da estruturação da UFT,
temos a nosso favor material humano capacitado para o trabalho, além da
proximidade geográfica com estes povos. Assim, nosso trabalho já foi valiA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
dado pela FUNAI e Secretaria Estadual de Educação do Estado do Tocantins, e o mais importante é que temos desenvolvido uma relação de aceitação e cooperação com os povos Apinayé, o que viabilizou a implantação do
projeto nas referidas aldeias.
Escolas Indígenas das aldeias São José e Mariazinha
Em 1989 foi feito um levantamento sociolinguístico dos diferentes
povos indígenas do então Estado de Goiás a fim de verificar o estado linguístico das comunidades indígenas (Braggio, 1992b, p. 2) para, a partir
dos dados obtidos, atuar nos seus programas educacionais, quando foram
pesquisados os seguintes povos: Krahô, Apinayé, Karajá/Javaé, Xerente,
Avá-Canoeiro e os autodenominados “Tapuia”, nas comunidades de Manoel Alves pequeno, Mariazinha, Santa Isabel do Morro, Canoanã, Porteira,
Carretão e Cachoeira. A pesquisa foi realizada por Membros da Secretaria
de Assuntos Indígenas, do Setor de Etnolinguística do Museu Antropológico e por duas educadores e uma antropóloga da FUNAI local.
De cada comunidade, foram selecionados proporcionalmente, segundo a autora supracitada, (1992a, p. 2), vinte por cento (20%) da população
(com exceção dos Avá-Canoeiro, cuja população total, na época, (9 membros,) foi contactada na aldeia dos Javaé. A pesquisa contou com a participação de 431 informantes assim distribuídos: 113 Karajá, 79 Javaé, 89
Xerente, 68 Krahô, 48 Apinayé e 25 Tapuia.
Braggio (1992b, p.2) afirma que, em 1989, todos esses povos eram
atendidos por 34 escolas. A população atendida era de 1.379 alunos, embora 1.947 estivessem em idade escolar, havendo um total de 77 professores.
Com exceção dos Avá-canoeiro e dos Tapuias, todas as escolas já contavam
com escolas bilíngues.
Os Karajá, segundo Braggio (1992 b, p.2), são os que mais possuem
material escrito na própria língua e também são os que possuem escolas
bilíngues há mais tempo. Os Krahô, por exemplo, têm utilizado uma cartilha feita para os Canela, do Maranhão, o que tem acarretado problemas na
comunidade. Com poucas exceções, os materiais escritos foram elaborados
pelos membros do Summer Institute of Linguistics. Naquela época a maioria
das escolas atendia da alfabetização à 4ª série, embora fosse desejo das comunidades que se ampliasse o atendimento até a 8ª série do ensino fundamental.
Nas palavras de Braggio (1992b, p. 6), para que os indígenas tenham
uma educação que reflita os anseios e necessidades das suas comunidades,
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que esteja colocada no seu contexto cultural, linguístico, social, político e
econômico, e que sirva de instrumento de luta pela sua autodeterminação,
torna-se necessário, entre muitos outros aspectos, o conhecimento e a análise da realidade sociolinguística das comunidades. Este conhecimento é de
importância fundamental, pois fornecerá subsídios para que se possa realmente implementar ou repassar um programa educacional mais adequado
a cada comunidade indígena do Estado do Tocantins.
Partindo dessa premissa, as atitudes dos povos indígenas pesquisados,
segundo Braggio (1992b, p.6), são altamente favoráveis à educação escolar
e à educação bilíngue em particular, havendo mesmo o desejo de revitalização da língua indígena. Portanto, dentro dessa perspectiva, o tipo de
programa já implementado, ou a ser implementado, importa não somente
no que se refere às suas características linguísticas, mas as ideológicas são
igualmente relevantes.
Braggio (1992b, p. 57) ratifica seu ponto de vista afirmando que não
bastam programas bilíngues transicionais de dois anos. O ideal é que, ao
lado da instrução por um período mínimo de quatro anos, seja implementado o uso funcional da linguagem escrita na comunidade, pois sem que
isto ocorra, corre-se o risco de limitar a língua indígena escrita às quatro
paredes da sala de aula. Ou seja, é necessário que a língua indígena tenha
significado e função na sua forma escrita para a comunidade, aspectos estes
ainda restritos no momento atual para as comunidades do Tocantins.
O levantamento sociolinguístico dos povos indígenas de Goiás e Tocantins, realizado por Braggio em 1989, teve fundamental importância
para implantação do Projeto de Educação Indígena para o Estado do Tocantins, através do convênio tripartite, ocorrido em 1991, entre FUNAI/
SEDUC–TO e UFG/GO.
A partir da implantação do Projeto, as políticas governamentais do
Estado do Tocantins, com relação aos povos indígenas, voltadas para os
fatores educacionais, têm sido definitivas, não só em relação ao estado linguístico, mas também em relação à sobrevivência da língua e da cultura dos
povos indígenas, que visam a uma prática pedagógica que contemple os
anseios e desejos dos povos indígenas, entre os quais está o de manutenção
das escolas dentro de suas próprias comunidades, para assim garantir que
essas escolas tenham professores de sua própria etnia.
Os relatórios da SEDUC/2004 informam que a maioria das aldeias indígenas do Tocantins possuía escolas de 1º ao 4º ano, com o corpo docente
formado por professores índios e não índios (os professores índios atuam
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
nos quatro primeiros anos: alfabetização, 1º, 2º e 3º anos escolares). Nas
turmas iniciais, o ensino de leitura e escrita é ministrado em língua materna. A Língua Portuguesa é introduzida a partir da 4º ano, na maioria dos
casos, ministrada também por professores indígenas.
Ao longo da convivência com professores indígenas do Estado do Tocantins, pudemos constatar que a língua materna é dominante em todas as
escolas. Os professores indígenas usam-na para se comunicar com os alunos nas atividades de leitura e escrita desenvolvidas em sala de aula. Mesmo
as atividades de leitura e escrita em português, nos anos iniciais, na maioria
das escolas, exceto os Karajá-Xambioá e Krahô-Kanela, são explicadas em
língua materna pelo professor indígenas. Os alunos indígenas preferem a
língua materna para produzir seus textos, inclusive os alunos que cursam
do 4º ano em diante.
Deve-se ressaltar que, em atendimento aos dispositivos constitucionais, fazendo validar uma educação bilíngue, pluralista e intercultural, o
Estado do Tocantins tomou medidas legais para a adoção do ensino da
língua materna relativa à educação dos povos indígenas a partir de 1998,
através da Lei Estadual no 1.038 de 22/12/98, que dispõe sobre o sistema
estadual de educação para o Estado do Tocantins, na Seção VII, que trata
da educação para as comunidades indígenas.
Em cumprimento a essas prerrogativas, as escolas indígenas Apinayé
também foram incluídas no cenário das políticas de Educação Escolar Indígena do Estado do Tocantins, tais como reforma e construções de novas
escolas, além da oferta de cursos de Formação Continuada, realização de
concurso público para os professores indígenas, bem como a contratação
de novos professores indígenas para preenchimento do quadro de professores paras escolas indígenas Apinayé.
Neste cenário, a escola da aldeia São José foi construída com uma arquitetura moderna, com espaço apropriado para as aulas, boa iluminação,
ventilação adequada, com salas de aula espaçosas, biblioteca, sala de professor, sala da coordenação, cozinha, alojamento masculino/feminino para
professores e banheiros masculino/feminino para os alunos, além de uma
sala de computação com seis computadores.
Atualmente, esta escola conta com um corpo docente de 16 professores, sendo 11 indígenas e 05 não indígenas. Possui também um corpo
administrativo formado por 01 (um) diretor indígena, 01(um) coordenador financeiro, 01(um) coordenador pedagógico, 01(um) coordenador
de secretaria, 01(um) auxiliar de secretaria. Possui ainda 02 (dois) vigias,
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04(quatro) merendeiras e 03(três) auxiliares de serviços gerais; todos índios. Atende ao maior número de alunos de todas as aldeias Apinayé, do
Ensino Fundamental, 353 alunos, e do Ensino Médio, 63 alunos, perfazendo um total de 416 alunos.
Nesta escola, os professores índios atuam nas quatro primeiras séries
iniciais, com o ensino de leitura e escrita em língua materna. A língua portuguesa escrita é vista a partir da 3º ano, que também está sob a coordenação dos professores Apinayé.
Já os professores não indígenas estão atuando a partir da 4º ano; ainda assim os professores Apinayé dão aulas de língua materna cinco vezes
por semana, para explicar os conteúdos aos alunos, por causa da barreira
linguística.
A situação Escolar de Mariazinha, em termos estruturais, difere bastante da aldeia São José. A escola desta aldeia atende a 268 (duzentos e
sessenta e oito) alunos, sendo 228(duzentos e vinte e oito) alunos do Ensino
Fundamental e 40(quarenta) alunos do Ensino Médio. Possui um corpo
docente composto por 13 professores, sendo 06 (seis) indígenas e 07(sete)
não indígenas. Conta ainda com 01(diretor) indígena, 01(um) auxiliar de
secretaria, 01(um) coordenador de secretaria, 1(um) coordenador financeiro, 02(dois) auxiliares de serviços gerais, 02(duas) merendeiras e 02(dois)
vigias, todos indígenas
Esta escola passou por uma reforma, ampliando o número de salas de
aula, mas possui pouca ventilação. Possui secretaria, sala de computação,
cozinha, sala de professor, mas mesmo assim ainda é inadequada para atendimento ao número de alunos, visto que a partir do 5º ano do Fundamental
e do 3º ano do Ensino Médio, esta escola atende aos alunos das aldeias Mariazinha, Riachinho, Brejão, Bonito, Botica, Mata Verde, Macaúba, Barra
do Dia e Girassol.
Os professores Apinayé usam a língua materna para se comunicar
com os alunos durante as atividades de leitura e escrita em sala de aula.
Tanto as atividades de escrita em língua portuguesa, quanto às atividades
extra classe relacionadas à cultura indígena são também explicadas para os
alunos em Apinayé. Segundo Albuquerque (1999, p. 57), nesta escola havia
pouco material escrito em língua Apinayé: cartilhas de alfabetização, livros
de lendas e bíblias. Estas cartilhas foram elaboradas há mais de trinta anos
e não foram produzidas por professores índios, e sim por membros do SIL.
Todavia, Albuquerque (1999, p. 59) constatou que o material didático
produzido pelo SIL apresentava uma linguagem artificial e fragmentada,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
visto que esse material não foi produzido pelos próprios professores indígenas. Não obstante, o material didático que é construído na língua da criança indígena, não reflete a verdadeira língua materna da sociedade Apinayé,
pois não leva em consideração os aspectos sociolingüísticos, históricos e
culturais desse povo.
Perfil dos professores indígenas Apinayé
Os atuais cursos de formação de professores, em sua maioria, são
frequentados por professores indígenas jovens, embora participem também muitos professores idosos, com capacitação profissional e experiência
como professor bilíngue. Muitos deles estão envolvidos com movimentos
políticos partidários do governo ou de seu município, ou entidades educacionais, como Associação de Professores, Conselho de Educação Indígena,
dentre outras.
Matos e Monte (2006, p. 87) discutem a importância das línguas indígenas no currículo da escola diferenciada e sua inter-relação com o uso
e o estudo das línguas na formação de professores indígenas, afirmando
que merecem uma maior atenção, visto que a escrita em diferentes línguas
tornou-se um dos resultados dos projetos educacionais bem sucedidos.
Destacam também que, infelizmente, as línguas utilizadas para a transmissão e construção dos conhecimentos curriculares durante os cursos de
formação de professores indígenas não são as línguas indígenas faladas em
suas sociedades, visto que há insuficiente conhecimento aplicado, domínio
oral e escrito das línguas indígenas brasileiras pelas universidades e pelos
profissionais engajados nos programas de formação.
Para Silva (2003, p. 108), nos cursos de formação indígena, as aulas
são geralmente heterogêneas, no que se refere a quantos alunos dominam
suas línguas maternas ou o português. Assim, uma das atividades mais difundidas nos cursos de capacitação indígena é a elaboração de textos e livros que serão mais tarde utilizados como material didático específico nas
escolas de aldeias frequentadas por crianças e adolescentes.
De acordo com Relatórios da SEDUC (2005), a primeira etapa do
Curso de Formação para professores indígenas iniciou-se de 01 a 16/07/98,
do qual participaram 99 professores/cursistas de diferentes etnias, com um
total de 140 horas-aula, distribuídas nas diferentes disciplinas. Portanto, o
curso de formação para professores é específico para o magistério indígena, com sua proposta diferenciada, com um total de 2.700 horas/aula, tenA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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do como principal meta formar professores que possam assumir o projeto
educacional em suas unidades escolares, na 1ª fase do ensino fundamental,
que hoje contempla as 72 unidades escolares indígenas.
Neste mesmo Relatório (2005) é afirmado que, dadas as diretrizes da
LDB, 9394/96, surge a necessidade de viabilizar o Curso de Formação de
Professores Indígenas, uma vez que só as capacitações já não eram mais
suficientes para a proficiência em educação.
Em 11/03/2005, uma turma de 19 alunos concluiu o curso de formação e recebeu seus diplomas em solenidade, nesse mesmo dia, no auditório
do INSS, em Palmas.
Ainda segundo este Relatório (2005), foi concluída a 11ª etapa do curso em dezembro de 2005, com a participação de 137 professores indígenas
e supervisores pedagógicos das Diretorias Regionais de Ensino, havendo
previsão de conclusão de quatro turmas em dezembro de 2006; uma turma
em julho de 2008 e uma em dezembro de 2008.
É importante ressaltar que, de acordo com Relatório SEDUC (2006),
será realizado um levantamento da quantidade de alunos que estiverem
cursando o 3° ano do ensino médio, podendo, a partir deste, ser criada outra turma de formandos que cursarão apenas as disciplinas específicas, se
isto contribuir para a limitação de tempo em disciplinas presenciais.
O conteúdo curricular desses programas reflete as necessidades e interesses das comunidades, com uma visão de pensamento sobre o futuro das
populações indígenas, como afirma Silva (2003, p.109):
[...] esses programas também divulgam entre os índios a informação
sobre seus direitos consagrados legalmente, promovendo o debate de
seus problemas do momento, reiterando o valor de suas práticas e conceitos tradicionais e legitimando seu direito consagrado de empreender
e conquistar autonomia.
Partindo desses pressupostos, o Projeto de Formação de Professores
Indígenas do Estado do Tocantins tem como princípio básico a conquista
da autonomia sócio-econômico-cultural de cada povo, na recuperação de
sua memória histórica, na reafirmação de sua identidade étnica e no estudo
e valorização da sua própria língua (SEDUC-TO, 2006).
Nesse sentido, Braggio (1997, p. 35) afirma que o Projeto de Capacitação de Professores Indígenas do Estado do Tocantins, implantado em 1998,
pretende dar continuidade ao Projeto de Formação para os Professores InA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
dígenas do Estado do Tocantins, tendo como objetivo principal a realização
de cursos de formação que habilitem o indígena dos diversos grupos do Tocantins (Karajá, Javaé, Xambioá, Apinayé, Krahô e Xerente) a ser professor
da 1ª fase de Ensino Fundamental dentro de uma proposta diferenciada,
bilíngue, específica e intercultural.
Assim, para assegurar a necessária autonomia pedagógica, o Estado
do Tocantins vem, ao longo dos anos de implantação do Projeto de Formação de Professores, implementando uma política de educação em que os
professores índios estão comprometidos com uma prática pedagógica que
almeja respeitar os aspectos socioculturais e preservar as tradições culturais dos povos indígenas, através da elaboração do material didático-pedagógico, levando em consideração a realidade sócio-histórica e cultural de
cada povo.
Dados da SEDUC (2005) informam que a Secretaria de Educação do
Tocantins atende a 3.791 índios matriculados em 72 escolas, instaladas nas
as aldeias Xerente, Karajá Xanbioá, Javaé, Krahô e Apinayé, perfazendo um
total de 189 professores, sendo 114 professores índios e 75 professores não
indígenas.
Os dados apresentados no quadro geral dos professores do curso de
formação de professores indígenas evidenciam um crescimento significativo do número de professores índios que atuam nas escolas indígenas do
Tocantins, bem como do número de professores que fazem parte do Curso
de Formação de Professores, se levarmos em consideração os dados apresentados por Braggio (1997).
Além dos professores que participam/participaram do curso de Formação de Professores Indígenas do Estado do Tocantins, há aqueles que
são formados nos cursos de licenciatura da UNITINS - Universidade do
Tocantins, UFT – Universidade Federal do Tocantins e os que cursam a
Licenciatura Interucltural da UFG – Universidade Federal de Goiás.
Com base nessa premissa, os Apinayé estão se capacitando e se preparando para assumir as gestões de suas escolas, visto que nessas escolas
os diretores, professores de língua materna, auxiliares de serviços gerais e
vigias são todos indígenas.
Porém com a Implantação do Programa do Observatório da Educação
Escolar nas Aldeias Apinayé e com a Implementação das ações do Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Escolar Indígena Apinayé, houve, por
parte dos professores indígenas, um grande incentivo à renovação e produção de materiais didáticos, visto que os professores indígenas utilizam
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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bastante, nas suas aulas, os livros publicados e organizados por eles, uma
vez que esse material reflete os aspectos socioculturais, históricos e linguísticos desses povos.
Para isso, a equipe do Programa do Observatório da Educação Escolar
realizou oficinas pedagógicas e aulas de campo para catalogação de dados
para auxiliarem na composição e organização do material didático/pedagógico a ser publicado, através das ações do Programa do Observatório da
Educação Escolar Indígena, para ser utilizado em sala de aula, nas escolas
Apinayé, como suporte didático/pedagógico visando a auxiliar os alunos
indígenas na aquisição da língua materna escrita.
Materiais de apoio pedagógico
De modo geral, o que vem acontecendo nas escolas indígenas do Tocantins é o mesmo que acontece na maioria das escolas indígenas brasileiras: o uso frequente de material escrito em língua indígena, que são as
cartilhas pedagógicas e os livros de História, Estudos Sociais, Matemática,
Ciências, dentre outros. As cartilhas, de uma forma geral, foram elaboradas
há mais de trinta anos, porém, o maior agravante é o fato de essas cartilhas
não terem sido produzidas pelos professores indígenas e, por isso, não refletirem a realidade sociocultural e linguística das comunidades, em vista
de terem sido formuladas tomando como base apenas alguns informantes.
Tais cartilhas contrariam a atual proposta de política pedagógica da Educação Indígena brasileira que, segundo o RCNEI (1998), é de uma alfabetização construtiva que leve em consideração a participação significativa de
professores e representantes das sociedades, a fim de assegurar uma educação que atenda aos anseios das comunidades indígenas.
Portanto, para que as escolas indígenas sejam respeitadas de fato e
possam oferecer uma educação escolar verdadeiramente específica e intercultural, integradas ao dia-a-dia dos povos indígenas, conforme os PCN
(2005, p. 46), torna-se necessária a criação da categoria de escola indígena
nos sistemas de ensino do País. Mediante essa categoria, será possível assegurar às escolas indígenas autonomia, no que se refere ao projeto pedagógico e ao uso de recursos financeiros públicos para a manutenção do cotidiano escolar, garantindo plena participação de cada comunidade indígena
nas decisões relativas ao funcionamento da escola.
Em conformidade com o princípio de reconhecimento da diversidade
cultural, o PCN (2005, p. 46) preconiza que a Lei de Diretrizes e Bases da
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
Educação, LDB 9.394/96, estabelece como um dos princípios norteadores do
ensino nacional o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, garantindo às escolas indígenas um processo educativo diferenciado e respeitoso
de sua identidade cultural e bilíngue. De acordo com o artigo 78, a educação
escolar para os povos indígenas deve ser intercultural e bilíngue, visando à
reafirmação de sua identidade, à recuperação de suas memórias históricas, à
valorização de suas línguas e ciências, além de possibilitar o acesso às informações e aos conhecimentos valorizados pela sociedade nacional.
O material didático em língua portuguesa, adotado nas escolas do
Tocantins após os três primeiros anos, é completamente dissociado da realidade sociolinguística dos alunos indígenas. Muitos desses alunos ainda
estão em fase do processo de aquisição da língua portuguesa oral e, ao se
defrontarem com esse tipo de material didático, ficam desmotivados e sem
vontade de estudar, o que vem contribuindo para a evasão escolar, como
acontece, por exemplo, em algumas escolas Apinayé.
Por outro lado, os materiais didáticos, em língua materna, utilizados
nas escolas indígenas são os mesmos da década de 1950, produzidos pelo
Summer Institute of Linguistics, que também não refletem os aspectos sociolinguísticos, históricos e culturais das comunidades indígenas do Estado do Tocantins, visto que é um material artificial, constituindo para as
crianças um mero reconhecimento das letras, das sílabas ou de palavras em
frases descontextualizadas.
Albuquerque (1999, p. 59) identifica neste material didático aspectos
de uma prática pedagógica que não toma como ponto de referência o conhecimento anterior do aluno. Logo, não há sistematização do conhecimento sociocultural e histórico das crianças. Assim, o professor não precisa
ter formação, já que seu papel se limita ao de repassador do material didático previamente elaborado.
Portanto, entendemos que a criança indígena se alfabetiza e adquire
sua língua oral e escrita em razão de outros recursos utilizados pelos professores indígenas, bem como pelo seu desejo e interesse de aprender a ler
e a escrever.
Segundo Monserrat (2001, p. 137), o Estado Brasileiro não tem realmente uma política linguística específica para as sociedades indígenas.
“Ele tem, sim, no nível de discurso, uma política de educação escolar indígena qualificada como ‘bilíngüe’, intercultural, específica e diferenciada”
(adjetivação que provoca muitas dúvidas e desalento em grande parte dos
envolvidos, especialmente nos índios, por não se entender bem o que queA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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rem). Para a autora (2001, p. 137), é dentro desse contexto restrito que se
trata das línguas indígenas, como línguas a serem utilizadas basicamente na
alfabetização “bilíngüe” e, sempre que possível, na elaboração de materiais
“bilíngües” a serem utilizados na escola.
O projeto de Formação de Professores Indígenas para o Estado do
Tocantins, segundo Braggio (1997, p. 35-37), prevê, na prática pedagógica,
o material didático em permanente construção. Assim, a sistematização do
conhecimento sócio-histórico e cultural do grupo é condição e conteúdo
da prática pedagógica. A linguagem é natural; o texto é o material por excelência, dentro de seus mais diversos tipos, formas e origens. O sentido e a
função precedem a forma, ou seja, adquiri-se a forma através da construção
do sentido.
A Comunidade Apinayé, de modo geral, demonstra muito interesse
pela produção de materiais didáticos, como os livros de Narrativas, de História e Geografia, Matemática e Ciências, Dicionário, Livros de Redação.
Surgem nesse contexto, o Livro de Alfabetização, a Gramática Pedagógica
Apinayé e o Livro de Coletânea de textos, com resultado das ações do Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena.
Com base nas prerrogativas acima citadas, nas escolas indígenas Apinayé, atualmente, vários recursos são utilizados, com o objetivo de favorecer a elaboração e organização do material didático de autoria dos próprios
professores indígenas e da própria comunidade. Reunidos no Programa do
Observatório de Educação Escolar Indígena/CAPES/SECAD/INEP, através
das ações do Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé,
os professores indígenas, indígenas mais velhos, comunidade em geral e
os cantadores vêm organizando oficinas de produção de materiais como a
Gramática Pedagógica Apinayé, Livro de Alfabetização em Língua Materna, juntamente com o Livro de Coletânea de textos, para serem utilizados
como material de apoio pedagógico nas escolas das aldeias Apinayé e como
resultados da pesquisa do Programa do Observatório.
Nessa perspectiva, a pesquisa de campo foi importante para que se
confirmasse a elaboração dessas obras, uma vez que foi realizada a partir de
um roteiro pré-estabelecido em função do material linguístico necessário
ao estudo descritivo da Gramática dessa língua. Os professores indígenas
consideraram que a Gramática e o Livro de Alfabetização contemplam um
grande número de informações sobre a língua indígena, o que facilita aos
professores e alunos Apinayé o acesso a um material de apoio pedagógico
bastante rico sobre os aspectos gramaticais Apinayé.
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
Portanto, a necessidade de obras como essas significa para os professores e alunos uma importante ferramenta para auxiliar nas atividades de
ensino de línguas, consistindo em um registro escrito de possibilidades de
construções de conhecimento sobre a estrutura gramatical, assim como ao
acesso tanto por parte dos alunos quanto dos professores indígenas para
eximir suas dúvidas. Desta forma, o propósito de uma gramática bilíngue
reside exatamente nesse ponto de partida. Assim, as habilidades de leitura e
escrita requerem um aporte específico que possa consubstanciar as atividades didático/pedagógicas nas escolas das aldeias Apinayé.
Desta forma, foi produzida, em anos anteriores, através do Projeto de
Apoio Pedagógico à Educação Escolar Apinayé, uma variedade de material
didático ligado à Geografia, História, Ciências e Matemática Apinayé, apresentando uma maior reflexão sobre o meio ambiente, sobre a fauna e flora
da reserva Apinayé; além desses, há também o material didático constituído das narrativas históricas voltadas para os mitos e músicas. Em relação
ao aspecto musical, vale destacar a realização de três festivais de músicas
Apinayé, que contaram com a participação de cantadores velhos, jovens e
adultos de todas as 24 aldeias.
Segundo o RCNEI (1998, p. 69), essas práticas se expandem para além
do espaço da escola e da palavra escrita, dando lugar a outras linguagens,
como por exemplo, os desenhos e dramatização. E mais:
[...] a nova proposta de escola, cujo objetivo é fortalecer a luta pela
autodeterminação dos povos indígenas e de outros povos, dentro dos
princípios da pluralidade cultural, muda essa lógica de avaliação. Ela
deixa de ser um instrumento de negação e exclusão para ser um instrumento positivo de apoio, incentivo e afirmação dos novos projetos educativos das diversas sociedades. Desta forma, busca-se melhor garantir
os objetivos da escola naquele lugar, para aquelas pessoas, reintegrando
as ações do ensino às de aprendizagem, evitando suas descontinuidades
e rupturas (RCNEI, 1998, p. 70).
Com a atual implantação do Programa do Observatório da Educação
Escolar Indígena aliado à implementação do Projeto de Apoio pedagógico
à Educação Indígena Apinayé, o material didático nos anos iniciais do ensino fundamental é produzido pelos próprios professores indígenas, com
a participação da comunidade e dos alunos. Apresenta a língua indígena
de forma não fragmentada e contextualizada, de sorte que as crianças se
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apropriam do aspecto formal e convencional, bem como de estruturação de
forma gradual e inteligente. Os textos partem da realidade sociocultural e
linguística de cada sociedade, permitindo o desenvolvimento pleno de personagens, temas, tramas, conflitos, apresentando textos voltados para a cultura indígena. Desta forma, a língua é vista como constitutiva da identidade
do sujeito, do seu pensamento, da sua consciência. Segundo Bakhtin (1995,
p. 16), “a consciência só adquire forma e existência nos signos criados por
um grupo organizado no curso de suas relações sociais, e só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico)”.
A produção de textos indígenas em língua portuguesa contribui também para que a sociedade envolvente conheça melhor as sociedades indígenas e, assim, se enriqueça culturalmente. Desta forma, os textos produzidos
em língua portuguesa, nas escolas e comunidades indígenas, têm sido uma
maneira privilegiada de divulgação dos conhecimentos tradicionais e de
afirmação para as sociedades indígenas. Esses materiais fornecem dados
importantes sobre as diferenças culturais indígenas e suas tradições permitindo que, através deles, a diversidade cultural no país torne-se mais evidente e possa, assim, ser mais respeitada
Esse tipo de textos também pode ser explorado por meio de desenho, solicitando dos alunos que desenhem sobre o que leram e, em seguida,
escrevam sobre o que desenharam. Alunos iniciantes podem aprender a
sequenciar fatos, localizar eventos e organizar ideias. Portanto, uma discussão oral, seja em língua indígena, seja em língua portuguesa, deve sempre
preceder o trabalho com leitura e produção de texto. Deste modo, os alunos
deverão, na escola, entrar em contato com a maior diversidade de textos
possíveis em ambas as línguas para que possam aprender, tirando deles o
melhor proveito para sua necessidade e interesse.
Exercícios desse tipo, além de despertar a vontade de aprender a ler
e escrever, estimulam o aluno indígena a observar melhor, a pensar, a tirar
conclusões e a verificar se suas conclusões estavam corretas. Esses elementos são muito importantes para que, mais tarde, o aluno seja capaz de compreender textos mais complexos.
Como se pode constatar in loco, as crianças Apinayé estão se alfabetizando em consequência de outros recursos didáticos usados pelos professores indígenas. Os professores organizam suas aulas com uma variedade
de materiais específicos, ligados à reflexão sobre o meio ambiente, as espécies da fauna e da flora da região, bem como às historias (relatos da história
de seu povo), cantigas, danças, os mitos e outras partes de sua tradição oral.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
Entretanto, os livros didáticos, (Português, Geografia, História e Ciências), adotados nas escolas Apinayé, após as séries iniciais (pré-leitura
e alfabetização), estão totalmente afastados da realidade sócio-histórica,
cultural e linguística das crianças Apinayé. Como resultado, a maioria das
crianças indígenas que ultrapassa os estágios iniciais de aprendizagem, ao
se defrontarem com esses materiais ficam completamente desestimuladas e
abandonam a escola.
Em síntese, o sucesso ou fracasso da criança seja na escola, seja na
aquisição de uma segunda língua, não está associada à origem social, mas
ao contexto socio interacional no qual se processa a aquisição. O processo
de aquisição, para Braggio (1992a, p. 62-63) pressupõe a aceitação das diferenças socioculturais e linguísticas, tanto por parte do professor quanto do
aluno na construção do conhecimento a partir das experiências anteriores,
da interação entre professor e aluno, da funcionalidade da língua e da relação do aluno e o meio social.
Acreditamos que essas dificuldades somadas a outras, trazem para o
aluno sentimentos de incapacidade, levando-o a desistir da escola, conforme veremos a seguir.
Pelo que pudemos constatar durante nossa pesquisa, o número de alunos matriculados do 1° ao 4° ano é bem maior do que nas séries seguintes.
Isto se justifica porque, nas séries iniciais, o ensino é ministrado em língua
indígena. Após esse período, o ensino passa a ser em língua portuguesa,
e isso tem contribuído para a evasão escolar. O ideal é que se use a língua
indígena como meio de instrução por um período mínimo de quatro anos
e que seja implementado o uso funcional da linguagem escrita na comunidade, pois, sem que isso ocorra, corre-se o risco de limitar a língua indígena
escrita apenas à sala de aula. Ou seja, é necessário que a língua indígena
tenha significado e função social na sua forma escrita para a comunidade.
Como se trata de sociedade minoritária, que não tem tradição de escrita, ou que tem uma tradição de escrita muito recente, perceber “por que”
e “para que” a leitura e a escrita existem, é algo que acontecerá mais lentamente. Algo que acontecerá, especialmente, se essa escrita for em língua indígena, à proporção que as funções sociais importantes para leitura e escrita
forem sendo criadas. Como na vida real nunca se lê ou se escreve palavras
ou sentenças descontextualizadas, ou seja, fora de contextos específicos, os
alunos das escolas indígenas poderão perceber mais facilmente que a língua
escrita pode ser útil e pode se tornar importante para eles, se as atividades
desenvolvidas nas escolas girarem em torno da leitura e escrita de textos.
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Segundo o RCNEI (1998, p. 34-135), independentemente de sua extensão,
o texto deve ser entendido como uma unidade linguística, oral ou escrita
produzida em determinado contexto com um objetivo comunicativo.
Para que a escrita faça sentido para os alunos, é preciso, pois, que eles
se envolvam em atividades em que a linguagem escrita apareça contextualizada e sirva para comunicar alguma coisa, como por exemplo, apresentar-se e apresentar outra pessoa, cumprimentar e despedir-se, dar, pedir e
entender informações pessoais, convidar, aceitar ou recusar um convite,
expressar verbalmente sentimentos e sensações de alegrias, tristeza, dor,
raiva etc.
Relatos e experiências dos professores Apinayé
A pesquisa consiste em um relato de experiência vivenciado pelos
professores indígenas das aldeias São José e Mariazinha, no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2011, bolsistas do Observatório da Educação
Escolar Indígena /CAPES/SECAD/INEP, aprovado no âmbito do Edital
nº 001/2009; o Projeto nº 014, intitulado, A Educação Escolar Apinayé na
Perspectiva Bilíngue e Intercultural, coordenado pelo Professor Dr. Francisco Edviges Albuquerque, com a participação dos professores indígenas
colaboradores do Projeto
Este trabalho apresenta uma experiência dos professores indígenas
Apinayé com ênfase nas práticas pedagógicas aplicadas nas salas de aula
das escolas das Aldeias Mariazinha e São José, como incentivo ao exercício
de bases para a coleta de dados referentes ao Livro de Alfabetização, Gramática Pedagógica Apinayé e a Coletânea de textos completos, para publicação como materiais didático/pedagógicos que refletirão nos resultados
desta pesquisa, de forma a contribuir significativamente para as práticas
pedagógicas dos professores Apinayé. Esta prática se faz presente nas escolas indígenas e tem despertado, cada vez mais, o interesse dos professores
que visam a melhorar suas práticas em sala de aula. O trabalho aqui proposto apresenta a vivência dos professores Apinayé nas escolas em estudo,
as quais abrangem as disciplinas de Língua Materna, Arte e Cultura, Língua
Portuguesa, Meio Ambiente e Ciências.
A implantação do Projeto do projeto nessas escolas tem por objetivo
melhorar o desempenho dos alunos indígenas na sala de aula, bem como
auxiliar esses alunos na aquisição dos conhecimentos em Língua Materna e
em Português, visto que os alunos vêm passando por uma série de probleA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Programa do Observatório da Educação Escolar Indígena: relatos e experiências Apinayé
mas relacionados à alfabetização. Como relato de nossa experiência em sala
de aula, os professores indígenas abordaram atividades de leitura e escrita
em língua indígena para os alunos, em forma de oficinas, como incentivo
para os alunos usufruírem melhor o material didático disponível na escola
e na comunidade em que estão inseridos.
OBJETIVOS - Incentivar e estimular os alunos indígenas na utilização dos recursos disponíveis no espaço escolar e mesmo fora dele, onde
as crianças se sentem mais à vontade e demonstram maior interesse em
aprender com os animais e a natureza que os cercam, como foi comprovado através das oficinas e das aulas de campo realizadas pelos professores
de alfabetização, fora da escola, nas matas, nos rios e córregos próximos às
aldeias.
METODOLOGIA dos professores - Trabalho de pesquisa da Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural, seguido da
aplicação de oficinas , onde foram apresentados algumas técnicas por parte
dos professores Apinayé, destacando o papel da alfabetização como uma
experiência rica, pois possibilitou uma visão geral dessa prática, além de
proporcionar o conhecimento do cotidiano dos professores indígenas no
que diz respeito a todo ambiente pedagógico. Essa vivência coloca os alunos e professores indígenas frente a frente com a ação da docência Apinayé.
Fato esse que é de fundamental importância para identificar quais as práticas pedagógicas utilizadas pelos professores indígenas nas salas de aulas de
suas escolas que deram certo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS – A disseminação dessa metodologia de
aulas, através de oficinas, para outras escolas das aldeias Apinayé, como
resultado dessas vivências e experiências em sala de aula das escolas indígenas, será de fundamental importância para aplicação e ampliação dos
conhecimentos por parte dos professores indígenas Apinayé, envolvidos no
Projeto, possibilitando o conhecimento dos alunos indígenas e incentivá-los a adquirir esses conhecimentos, utilizando os materiais didáticos que
lhes são disponíveis, tanto na biblioteca da escola como na comunidade. A
vivência dos professores indígenas e das professoras bolsistas praticada nas
disciplinas trabalhadas integra o entendimento, a assimilação e a interpretação de como trabalhar a alfabetização e a aquisição da escrita em língua
materna pelas crianças indígenas Apinayé.
Nesse contexto, nos anos de 2010 e 2011, as disciplinas de alfabetização em Língua Materna, Português, Estudos Sociais, Meio Ambiente e
Ciências passaram a ser trabalhadas numa perspectiva bilíngue e interA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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cultural. Desta forma, os professores e alunos indígenas se reuniram para
organizar as oficinas pedagógicas, com o objetivo de melhor subsidiar os
discentes na sistematização dos conhecimentos adquiridos em disciplinas
anteriores com o intuito de desenvolver habilidades e conhecimentos no
campo da alfabetização e aquisição de novos conhecimentos, bem com
socializar experiências bem sucedidas na realização de oficinas pedagógicas. Os docentes das disciplinas relataram, de forma bastante positiva, o
processo de elaboração e implementação das oficinas que se configuraram
como estratégias adotadas para subsidiar o processo de aprendizagem dos
discentes indígenas.
Oficinas pedagógicas: estratégias na construção
do conhecimento Apinayé
As oficinas pedagógicas foram direcionadas para as ações pedagógicas dos professores indígenas, bolsistas e colaboradores do Projeto, para a
efetivação do processo de alfabetização em Língua Materna das crianças
Apinayé. Para tanto, foram trabalhados conteúdos acerca das disciplinas de
Língua Materna, Meio Ambiente, Ciências e Português, preconizados pelas
ações do Observatório de Educação Escolar Indígena. Além das oficinas,
foram realizadas várias aulas de campo pelos professores e alunos indígenas, com o objetivo de verificar o grau de interesse dos alunos indígenas
por outros conhecimentos e saberes culturais, além das atividades de leitura e escrita dentro da escola.
A metodologia utilizada nas oficinas pedagógicas se constituiu como
estratégia que valoriza a construção de conhecimentos de forma participativa, questionadora e, sobretudo, baseada na realidade da situação sociolinguística, histórica e cultural desses povos. Para tanto, foram desenvolvidas várias atividades de leitura e escrita, pinturas, desenho, gravuras e
dinâmicas de grupos com as crianças indígenas em sala de aula e nas aulas
de campo, como cantigas, brincadeiras populares, jogos educativos, dentre
outros, conforme discriminamos a seguir:
A professora Ana Rosa Apinayé, bolsista da escola da aldeia São José,
reuniu as duas turmas de primeiro ano e entregou aos alunos várias gravuras e desenhos sobre as histórias do cotidiano Apinayé, solicitando para que
eles, em forma de desenho, recontassem essas histórias. Todas as crianças
fizeram seus desenhos, recontado as histórias sob seus pontos de vista. O
professor Cassiano, colaborador, que trabalha com Ensino Fundamental,
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fez uma aula de campo com seus alunos. Levou-os para a mata perto da
escola e trabalhou com as plantas medicinais que existem na reserva, explicando para os alunos para que tipo de doença servem e como utilizá-las. Além dessa atividade, o professor também explicou a importância da
preservação das matas, córregos e rios que existem na reserva, pois sem as
matas e rios, os indígenas não têm com sobreviver.
O professor Itamar Kamàt Apinayé levou os alunos para o pátio da
aldeia e falou da importância da preservação da limpeza da aldeia e dos
rios que cortam a aldeia. Levou as crianças ao rio, fez a coleta de lixo, pôs
numa sacola plástica, falando da importância da coleta de lixo nas aldeias,
para não poluir, tanto a aldeia como os rios, pois é nos rios que eles tomam
banho, lavam roupa e usam a água para cozinhar, quando falta água na
caixa da aldeia. As crianças ajudaram o professor a coletar o lixo que existia
na aldeia e no rio.
Após as aulas de campo, cada professor retornou para a sala de aula
com seus alunos e foi praticar, nas oficinas, os conteúdos que havia trabalhado nas aulas de campo. Todos os alunos voltaram entusiasmados com as
informações do professor e fizeram questão de anotar todas as informações
que foram coletadas e trouxeram essas informações para a sala de aula,
utilizado-as nas oficinas.
Os professores colaboradores e a professora bolsista da aldeia Mariazinha também trabalharam com oficinas e aulas de campo. A professora
Maria Célia, bolsista, juntamente com os outros professores de língua materna, Vilson e Valdir, colaboradores do projeto, juntaram os alunos e trabalharam as oficinas. Esses professores trabalharam a produção textual, o
ditado e os recortes de gravuras. Para recontar as histórias, trabalharam
com cartazes contendo palavras escritas na língua Apinayé e com histórias
e desenhos feitos pelos próprios professores. Após esse momento, todos os
professores solicitaram aos alunos que recontassem as histórias e fizessem
desenhos ilustrando-as.
No dia seguinte, foram com os alunos para uma aula de campo, onde
trabalharam os conhecimentos de História, Geografia, Matemática e Ciências. Levaram os alunos para as matas, chegando lá mostraram os rios,
matas, pássaros, insetos, plantas e a extração do coco babaçu, fruto esse que
tem muita importância para a sobrevivência dos Apinayé de Mariazinha.
Falaram da importância das matas, dos animais, da preservação dos rios
e da reserva. Informaram os alunos sobre a importância do babaçu, afirmando que dele tudo se aproveita: a casca serve apara fazer carvão vegetal,
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da amêndoa faz-se o óleo para utilizar nas comidas, a palha e o talo são
utilizados para a fabricação das casas, a palha também serve para fabricar
cofo e esteiras, além disso, o babaçu é comercializado na cidade de Tocantinóplois para fabricação de óleo e sabão. Portanto, o babaçu é uma fonte de
riqueza e subsistência pra os povos Apinayé. Após esse momento, todos os
professores e alunos indígenas retornaram para a escola e foram trabalhar
esses conhecimentos em forma de oficinas.
Nesse sentido, acreditamos que, construindo estratégias para a ação
docente, com metodologia de ensino, permite-se um verdadeiro pensar e
repensar da prática cotidiana dos professores indígenas que enriquece o
processo de construção de conhecimento, já que é parte de uma interação
de diferentes olhares e que, favorece a reflexão dessa prática, no intuito de
melhor preparar docentes e discentes indígenas para a atuação junto a ao
mercado de trabalho, tento na aldeia indígena como fora dela. Assim, compreendemos que a liberdade de expressão que as oficinas pedagógicas proporcionaram e contribuíram significativamente para a formação de profissionais críticos e abertos a mudanças que ocorrem a todo o momento na
sociedade indígena. Percebemos, ainda, que a metodologia adotada atingiu
as expectativas dos professores e alunos indígenas, enfatizando a importância dos diversos atores sociais que construíram as matizes de um sistema
de educação voltado para os aspectos socioculturais e linguísticos dos Apinayé. Assim, torna-se fundamental atentarmos para o caráter participativo
que envolve profissionais indígenas e comunidade, onde não existe saber
mais importante, mas diferentes saberes que possuem igual valor. Nesse
sentido, as oficinas pedagógicas foram os espaços que apontaram novas
descobertas e caminhos, uma vez que consistiu num processo em construção de todos os atores envolvidos, tornando-se espaço oportuno para a
comunicação, para a contextualização, para o estabelecimento de vínculos,
de reflexão, de mudanças, de construção coletiva de um saber. A ação docente indígena aqui buscou a formação de profissionais com habilidades e
competências aliadas ao senso crítico e transformador.
Deste modo, o desenvolvimento da metodologia das oficinas pedagógicas configurou-se como uma experiência diferente da formação técnica
ou instrumental, realizando trabalhos com o significado de agir em sintonia com os discentes, tornando-se um aprendiz com eles. Fazer oficinas
significa aventurar-se na busca do conhecimento, respeitando os processos
mentais dos sujeitos cognoscentes, aproveitando cada participação com
atenção concentrada e posterior intervenção adequada. Portanto, a realizaA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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ção de oficinas favoreceu uma oportunidade de reconstrução de conceitos,
posturas e soluções diante da realidade que se apresenta no cotidiano dos
professores Apinayé no intuito de melhorar o processo de trabalho na escola e, consequentemente, assegurar uma educação de qualidade junto às
escolas Apinayé.
Resultados e Discussão
Durante o período de realização das oficinas pedagógicas em cada escola, observamos que os discentes não apresentavam nenhuma resistência
à metodologia utilizada, demonstrando facilidade em construir coletivamente o conhecimento. Essa postura deu lugar a um fazer coletivo prazeroso e de grande relevância para todos os professores e alunos indígenas,
pois eles passaram a identificar suas fragilidades de atuação e, a partir daí,
começaram a compreender que o importante não são os conhecimentos
apenas adquiridos nas escolas, nem os comportamentos corretos, mas o
aumento da capacidade do discente como agente da transformação social,
para detectar os problemas reais e buscar soluções originais e criativas.
Perceberam que foi possível proporcionar melhor sistematização do
conhecimento adquirido nas diversas disciplinas trabalhadas nas oficinas
e aulas de campo, uma vez que no desenvolvimento de todas essas atividades foram valorizados os conhecimentos e saberes próprios dos indígenas,
deixando claro para os professores que apenas lhes faltava estabelecer o elo
entre o saber e o fazer pedagógico, possibilitando, assim, o desenvolvimento de uma consciência crítico-reflexiva com a finalidade de transformação
do sujeito inserido no contexto das políticas linguísticas do povo Apinayé.
A partir da realização das oficinas pedagógicas, foi observado por parte
dos professores que a estratégia adotada contribuiu significativamente no
progresso dos trabalhos realizados nas escolas.
Portanto, através da avaliação docente, constatou-se um melhor desempenho das atividades executadas pelos discentes nas aulas de campo.
Os professores acompanharam com facilidade o ritmo dos discentes e relataram que os mesmos estavam atuando nas oficinas de forma mais tranquila, o que facilitou o bom desempenho dos trabalhos e demonstrou maior
interesse em implementar ações que foram relevantes para a equipe de professores. Para os docentes, ficou evidente o quanto as oficinas pedagógicas
contribuíram para a formação dos alunos indígenas, tornando as atividades
escolares mais consistentes, uma vez que foram fundamentadas para os coA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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nhecimentos previamente discutidos e socializados. Os discentes afirmaram que essas oficinas foram primordiais e extremamente válidas para a
consolidação de novos conhecimentos e para o bom desempenho nos estudos e, consequentemente, na aquisição da língua indígena oral e escrita.
Considerações Finais
Através da realização das oficinas pedagógicas e das aulas de campo
como estratégia para subsidiar conhecimentos para os discentes indígenas,
os professores indígenas tiveram a oportunidade de refletir sobre a prática docente, indo além de conhecimentos teóricos e práticos. Todavia, isso
perpassa pelo âmbito do compartilhar conhecimentos, de reconhecer fragilidades, de estabelecer um compromisso com a sociedade Apinayé, de
desenvolver potencialidades, de enfrentar suas limitações, de saber que não
se sabe tudo, mas que juntos, docentes e discentes, podem ir além do que
foi aprendido em sala de aula e nas aulas de campo. Identificaram que o
desenvolvimento dessa estratégia favoreceu uma postura crítica e pró-ativa
dos professores e alunos indígenas, vez que as políticas de educação escolar
indígena têm exigido dos professores que atuam nas escolas de suas aldeias
uma nova postura, onde o conhecimento técnico-científico esteja aliado
aos saberes próprios dos Apinayé.
Constatou-se que, por meio das oficinas pedagógicas, ocorreu um
grande avanço na implementação da disciplina de Língua Materna e das
demais trabalhadas através do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena, com a formação dos professores indígenas comprometidos
com a reorientação do modelo de educação escolar bilíngue e intercultural,
bem como uma proposta de redefinição das práticas pedagógicas com ênfase na promoção da educação escolar específica, diferenciada e de qualidade para as escolas indígenas Apinayé.
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Bonito com o português: aspectos da situação sociolinguística. Goiânia, 1999,
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Curricular, Lei n 9394/96, da Gerência de Educação Indígena. SEDUC. Palmas-TO.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque, Ana Rosa Salvador Apinayé, Maria Célia Dias de Souza Apinayé
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18. ______. Relatório Geral da Gerência de Educação Indígena. SEDUC. 2004.
Palmas-TO.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
2
O Sentido e a Função da Leitura
e da Escrita para as Crianças Apinayé
de Mariazinha
Francisco Edviges Albuquerque 1
Introdução
O cenário da educação indígena no Brasil atualmente reflete a ação dos
órgãos responsáveis pela elaboração de políticas públicas voltadas para a efetivação de um ensino que contemple as conquistas proporcionadas por documentos normativos, como é o caso do Art. 210 da Constituição Brasileira
(CRF/1988). Além desse, destacamos o Art. 78 da atual LDB – Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional 9394/96, que determina que “O Sistema
de Ensino da União desenvolva ações integradas de ensino e pesquisa para
a oferta de educação escolar bilíngüe e intercultural aos povos indígenas”.
Nesse sentido, este artigo traz o resultado de uma pesquisa realizada
com crianças indígenas Apinayé que estão em processo de alfabetização,
sendo que o estudo se deu mediante as ações do Projeto de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do Observatório de Educação Indígena, CAPES/SECAD/INEP/UFT 2010/2011, cuja
proposta foi investigar como se efetiva a educação infantil em duas turmas,
uma do primeiro e outra do segundo ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Indígena Tekator da aldeia Apinayé Mariazinha, identificando
qual o sentido e a função da leitura e da escrita para os alunos alfabetizandos, considerando que esta escola trabalha o bilinguismo como prática
pedagógica visando à efetivação de uma Educação Bilingue e Intercultural.
Os resultados constatam que, na educação das crianças indígenas
Apinayé da escola Tekator da aldeia Mariazinha, os processos de leitura e
a escrita levam em consideração os aspectos sociolinguísticos e culturais
1 Professor adjunto da UFT – Universidade Federal do Tocantins e coordenador do Projeto
de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue/Programa do Observatório de
Educação Indígena”, CAPES/SECAD/INEP/UFT 2010/2011.
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O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
dos Apinayé. Desta forma, no processo de aquisição da leitura da escrita
pelas crianças indígenas, os aspecptos culturais se apresentam como fator
primordial no processos de esnino/aprendizagem, visto que estes são produzidos por relações sociais, por formas históricas e culturais que delas se
apossam e que definem seus modos de transmissão e de assimilação. Com
isso, percebemos que é preciso também discutir as concepções sobre o caráter universal de certos processos cognitivos envolvidos na aquisição da
leitura e da escrita pelos indivíduos da sociedade, em geral, e pelas crianças
indígenas Apinayé, em particular.
A aldeia
Localizada às margens da TO - 126, que liga Maurilândia a Tocantinópolis, nas proximidades do Rio Tocantins, a aldeia Apinayé Mariazinha
possui uma população aproximadamente de 257 indígenas, sendo 68 famílias formadas por pai e mãe Apinayé. Nessas famílias, todos falam a língua
materna nas interações do dia-a-dia. Esta língua continua sendo a mais
usada para comunicação em todos os domínios sociais Apinaé e, em geral,
é a primeira língua adquirida pelas crianças.
Nesta aldeia há 04(quatro) famílias formadas por pai Apinayé e mãe
Krikati. Como os Krikati entendem e falam a língua Apinayé e vice-versa,
tanto os pais como as mães usam ambas as línguas na interação com seus
pares. Os filhos desses casais adquirem tanto o Apinayé como o Krikati. As
outras 14 famílias são constituídas de pais não indígenas e de mães Apinayé. Há uma família constituída por pai Guajajara e mãe Apinayé. Os filhos dessas famílias adquirem, simultane amente, o Apinayé e o português
nas interações com seus pais. Isso, de certa forma, está contribuindo para o
enfraquecimento da língua indígena no domínio familiar e, consequentemente, favorecendo o uso da língua portuguesa neste domínio social, que
antes era de exclusividade da língua Apinayé.
Por permitir o casamento de indígenas com não indígenas, e devido
à proximidade com as cidades de Tocantinópolis e Maurilândia, esta aldeia
vem ao longo dos anos, por contato com a sociedade envolvente, perdendo
seus aspectos socioculturais e linguísticos, pois não pratica mais a corrida
da tora, da flecha, as festas da batata, do milho, dentre outras. Apenas pratica o corte do cabelo, a festa do “paparuto” (bolo de massa de mandioca com
carne vermelha) e a nomeação das crianças, que é de responsabilidade das
madrinhas (ALBUQUERQUE, 1999).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
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Um local muito frequentado pela comunidade é o pátio da aldeia. É
neste local que a socialização acontece e as decisões políticas da aldeia são
anunciadas, como podemos perceber no enunciado a seguir:
O Pátio da aldeia é muito importante pra nós, porque, é nele que o cacique faz
reunião com a comunidade. Todas as notícias são faladas no Pátio. No Pátio é
onde, nós, Apianyé fezemos a festa da tora, do milho, da batata. É onde cantamos e dançamos à noite. Tudo isso acontece no Pátio. (PAULO LARANJA
APINAYÉ).
A Escola
A escola Tekator da aldeia Mariazinha atende a 268 alunos, sendo 228
do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental e 40 alunos da 1ª à 3ª série do
Ensino Médio. Possui um corpo docente composto por 13(treze) professores, sendo 06 indígenas e 07 não indígenas. Conta ainda com 1(um) coordenador de secretaria, 1 (um) coordenador financeiro, 1(um) secretário,
03(três) auxiliares de serviços gerais, 02(duas) merendeiras indígenas. Sua
arquitetura antiga possui apenas quatro salas de aulas e um sistema de ventilação inadequado. Os professores Apinayé usam a língua materna para
se comunicar com os alunos durante as atividades de leitura e escrita em
sala de aula. Tanto as atividades de escrita em língua portuguesa quanto as
extraclasse relacionadas à cultura indígena são também explicadas para os
alunos em Apinayé.
Segundo Albuquerque (1999, p. 57), nesta escola havia pouco material escrito em língua Apinayé: cartilhas de alfabetização, livros de lendas
e bíblias. Estas cartilhas foram elaboradas há mais de trinta anos e não
foram produzidas pelos próprios professores indígenas. Foram produzidas por membros do SIL. Ainda de acordo com Albuquerque (1999, p.
59), o material didático produzido pelo SIL apresenta uma linguagem
artificial e fragmentada, visto que esse material não foi produzido pelos
próprios indígenas. O material didático, que não é construído na língua
da criança indígena, não reflete a verdadeira cultura e língua materna
da sociedade Apinayé, pois não considera os aspectos sociolinguísticos
desse grupo.
A seguir, analisamos um recorte extraído da lição 16 da cartilha Apinayé no 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU, que ilustra muito bem essa prática pedagógica.
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O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
Recorte da 12a lição da cartilha no 1
“Wakõ na ja” (este é o quati)
“Wakõ ja pumu””(olha o quati)
“Na pa wakõ ja pĩ”(matei o quati)
“Wakõ nhĩ na ja”(isto é carne de quati)
“Wakão nhĩja pumu”(olhe a carne de quati)
“Panhõ wakõ nhĩ na”(isto é nossa carne de quati)
A referida artificialidade também é comprovada, a seguir, nos exemplos retirados da cartilha Apinayé n° 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU N° 1.
Recorte da 19a lição da cartilha no 1
“Põpõ na pa kupĩ”(matei a garça)
“Na pa kupĩ ka ĩ ka ”(eu matei e você assou a carne)
“Na panhĩja anhĩnhu”(O índio viu teu nariz)
“Pumu nẽ akunha” (e deu risada)
Porém com a implantação do Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, a partir de 2.000, os professores indígenas juntamente com a coordenação do Projeto elaboraram materiais de apoio pedagógico para serem usados nas salas de aula de língua materna e português, uma
vez que o referido material leva em consideração os aspectos socio-históricos e linguísticos dos povos Apinayé, conforme podemos comprovar nos
recortes abaixo extraídos dos livros da Alfabetização e Narrativas Apinayé
(Albuquerque, 2007) a seguir:
O Gavião
O gavião vive no mato e no cerrado.
Ele se alimenta de carne, de alguns animais e de pássaros pequenos
Ele anda durante o dia e, às vezes, à noite.”(Josué Apinayé)
Os professores Apinayé usam a sua língua de origem para se comunicar com os alunos durante as atividades de leitura e escrita em sala de aula.
Tanto as atividades de escrita em língua portuguesa quanto as atividades
extraclasses, com aulas de campo, relacionadas à cultura indígena, são também explicadas para os alunos em Apinayé.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
45
Facilidade de entender e falar Apinayé
Os Apinayé de Mariazinha entendem e falam a sua língua indígena,
embora a porcentagem de homens que entendem e falam fluentemente
Apinayé em todas as faixas etárias seja bem menor que a das mulheres. Os
homens dizem entender e “falar um pouco essa língua”. Isto significa que
estes falantes estão usando mais o português do que o Apinayé nas suas
interlocuções. Já as mulheres desta aldeia, independente do gênero e idade,
entendem e falam a língua indígena. Porém, com relação à língua portuguesa, a situação é um tanto diferente, como veremos a seguir.
Facilidade de entender e falar Português
Todos os Apinayé pesquisados neste estudo têm contato com o português. Neste contexto as variáveis de sexo e idade não são muito significativas, pois, como existem muitos não indígenas casados com indígenas,
tanto as mulheres quanto as crianças, na sua maioria, são bilíngues receptivos, isto é, entendem, porém falam muito pouco português. Todas elas são
unânimes em afirmar que precisam aprender a falar português para se comunicar com os maridos e com os filhos. Isto, portanto, justifica o quadro
linguístico que se apresenta em Maraizinha.
A aquisição da língua portuguesa pelos Apinayé se dá através de contatos diretos ocasionais, frequentes, ou mais permanentes com falantes da
língua, na aldeia ou fora dela. Esses contatos ocorrem de modo diferenciado entre os membros dessas aldeias. Os homens adultos e os estudantes se
relacionam diariamente com habitantes das cidades vizinhas. Já a interação
dos demais membros com os moradores dessas cidades é menos frequente.
Muitos deles, principalmente as crianças e as mulheres, têm mais contato
com os diferentes tipos de falantes da língua portuguesa, tais como pesquisadores, visitantes e funcionários da FUNAI, do IBAMA, da FUNASA/
SEDUC/TOBASA etc.
O contato com a língua portuguesa e a exposição a ela tiveram e ainda
têm uma incidência desigual no grupo e nos diferentes segmentos, dependendo de fatores diversos, entre os quais se incluem os de ordem histórica:
presença de diferentes agências nas aldeias, como a FUNAI, o SIL, CIMI, as
Missões Indígenas e aproximidade com o centro urbano de Tocantinópolis. Existem, também, as de ordem sociocultural: gênero, idade, posição do
indivíduo no grupo; os de ordem econômica: venda e compra de produtos;
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
46
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
os de ordem política: prefeitos e vereadores visitam as aldeias em época de
campanha eleitoral. Os de ordem religiosa: celebração de cultos, de missa e
terço em homenagem ao santo padroeiro das aldeias; e os de ordem social:
festas dançantes (atividades dos não indígenas).
Em nossa pesquisa, constatamos que há nessa aldeia pessoas não
indígenas monolíngues em português. Portanto, as informações coletadas permitem-nos afirmar que nas interações intergrupo, Apinayé e não-Apinayé, a língua portuguesa é a mais usada. Já nas interações intragrupo,
Apinayé-Apinayé, a língua materna é a mais usada, mesmo nos assuntos
que envolvem a cultura não indígena, como é o caso das conversações sobre
esporte, programas de televisão e até mesmo assuntos referentes à política
dos municípios locais, especialmente a de Tocantinópolis e Maurilândia.
Para que o indígena Apinayé quer aprender português?
Historicamente, a educação escolar indígena, de modo geral, sempre
teve por objetivo integrar as populações indígenas à sociedade nacional.
Desta forma, a função da escola era ensinar os alunos indígenas a falar e a
escrever em português. Somente há pouco tempo começou-se, na maioria
das escolas, a utilizar as línguas indígenas na alfabetização, ao se perceber as
dificuldades de alfabetizar alunos em uma língua que eles não dominavam,
o português. Entretant o, logo que os alunos aprendiam a ler e a escrever, a
língua indígena era retirada da sala de aula. É claro que, tendo sido essa a
situação, a escola contribuiu muito para o enfraquecimento e, consequentemente, para o desaparecimento de muitas línguas indígenas no Brasil.
Nessa perspectiva, se a escola pode contribuir para o processo de desaparecimento de uma língua indígena, ela, por outro lado, também pode
ser mais um elemento que, significativamente, incentive e favoreça a sua
manutenção ou revitalização. Para isto, a língua indígena deverá ter papéis
na escola, ou seja, ela deverá ser utilizada, na sala, como a língua de instrução oral para produzir conceitos, dar esclarecimentos e explicações. A
língua materna será, nesse caso, a língua através da qual os professores e os
alunos discutem matemática, história, geografia, meio ambiente, ciências.
Esse tipo de procedimento permite que os alunos que têm pouco domínio
do português possam adquirir melhor os novos conhecimentos de fora, que
são necessários devido ao contato com a sociedade envolvente. Mas, além
disso ele traz outras vantagens, isto é, os alunos aumentam sua competência oral em língua indígena pois aprenderão a usá-la também para falar
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
47
sobre novos conhecimentos, em vez de terem que recorrer ao português
para isso. Assim, a língua indígena ficará mais forte, uma vez que terá uma
função mais importante, alem daquela própria da sala de aula.
Para Albuquerque (1999), a língua materna deverá se tornar, também,
a língua de instrução escrita predominante naquelas situações que dizem
respeito aos conhecimentos éticos e científicos tradicionais. Da mesma forma que acontece com a oralidade, os alunos aumentarão sua competência
escrita em língua indígena. Esse tipo de procedimento poderá contribuir
também para os usos e funções sociais da escrita nessas línguas.
Neste sentido, uma prática pedagógica voltada para a sistematização
do conhecimento sociohistórico e cultural da comunidade será de suma
importância. Uma alfabetização em que todos os aspectos da linguagem
têm a mesma importância na medida em que o que se deseja é a construção de um sentido para o que se lê e se escreve. Desta forma, a educação é
um dos instrumentos para alcançar a autonomia desejada, habilitando os
Apinayé a ler, escrever e analisar seus discursos para reagir diante da ação
controladora da linguagem da sociedade dominante. Soares (1994) destaca
o conflito que a escola vem gerando como resultado de distância cultural
e linguística entre os alunos. Para ela, a problemática que se coloca para a
escola, em relação à linguagem, é o de definir o que pode ela fazer, diante
do conflito linguístico que nela se criou, pela diferença existente entre a
linguagem das camadas populares, as quais conquistam, cada vez mais, o
direito de escolarização, e a linguagem que é instrumento e objeto dessa
escola, que é a linguagem das classes dominantes.
Entretanto, a problemática da alfabetização indígena não será resolvida com o critério de simples alfabetização. Antes, ela tem que levar em
consideração as condições pedagógicas aplicadas na escola indígena, bem
como a situação linguística do estudante que está sendo alfabetizado. A
escola, nessa perspectiva, deve reconhecer e manter a diversidade sociocultural e linguística, promovendo uma situação de comunicação entre experiências socioculturais, linguísticas e históricas, não considerando uma
cultura superior à outra.
O Bilinguismo na aldeia Mariazinha
Os dados coletados e analisados em nossa pesquisa mostram-nos que
na comunidade Apinayé de Mariazinha existem diferentes tipos de bilinguismo, ou seja, os Apinayé não são bilíngues do mesmo modo, e também
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
adotam costumes não indígenas diferenciados. Esses costumes são absorvidos nas interrelações com a sociedade não indígena, através da interação
dos mais velhos com os mais novos dentro da comunidade indígena. Em
relação ao bilinguismo, constatamos, em Mariazinha, as seguintes situações: bilinguismo receptivo. O indígena fala a língua materna e entende
português, porém não fala esta língua, como é o caso das crianças com
faixa etária entre 1(um) e 7(sete) anos e de algumas mulheres. Já os bilíngues ativos falam as duas línguas, Apinayé e português, de forma adequada,
dependendo dos interlocutores, da ocasião, dos tópicos da conversação e
dos domínios sociais.
As características apresentadas pelos Apinayé repercutem numa educação que reflita os anseios e as necessidades das comunidades indígenas,
que esteja calcada no seu contexto sociocultural e linguístico, no modelo
bilíngue-intercultural mantido nas condições atuais, ou seja, a permanência do Apinayé como primeira língua adquirida e do português como segunda, pelos graus diferenciados de instrumentalidades e importância que
ambas as línguas ocupam nos domínios sociais Apinayé.
Segundo Albuquerque (1999), no que diz respeito à manutenção e
revitalização da própria língua indígena, a atitude dos Apinayé será decisiva. Se mantida sua identidade de grupo, a probabilidade é de que também
mantenham sua própria língua. Todavia, há inúmeras outras variáveis que
podem atuar sobre sua atitude e levar o grupo a deslocar a língua indígena
das funções que ela ora ocupa. Certamente, o tipo de contato com a sociedade majoritária será fator decisivo e, pelas observações anteriores apontadas, esse fator reflete negativamente para a manutenção de sua língua e
identidade de grupo.
Além dessas situações, existem aqueles que falam a língua portuguesa
e alguns a Krikati e a Guajajara. Neste cenário, existem pessoas que escrevem tanto em Apinayé quanto em língua portuguesa. São pessoas que
foram alfabetizadas depois da implantação da educação escolar bilíngue.
Em nossas investigações, pudemos constatar que os falantes masculinos estão contribuindo significativamente para as mudanças dos padrões linguísticos nas comunidades Apinayé. A língua portuguesa vem
gradativamente ocupando os espaços que outrora eram da língua Apinayé. Esse processo pode levar ao desaparecimento da língua materna.
Isto tem causado preocupação nos Apinayé, pois eles não querem que tal
fato ocorra.
Segundo o RCNEI (1998, p. 25),
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
49
As tradições culturais, os conhecimentos acumulados, a educação das
gerações mais novas, as crenças, o pensamento e a prática religiosa, as
representações simbólicas, a organização política, e a reprodução sociocultural das sociedades indígenas são na maioria dos casos, manifestados através do uso de mais de uma língua. Mesmo os povos indígenas
que são hoje monolíngües em língua portuguesa continuam a usar a
língua de seus ancestrais como símbolo poderoso para onde confluem
muitos de seus traços identificatórios, constituindo, desse modo, um
quadro de bilingüismo simbólico importante.
Para contribuir com os Apinayé na manutenção e revitalização da língua indígena, considerado por todos os membros como língua do grupo, é
de vital importância a ação escolar. Para Krashen (1982), uma língua tanto
pode ser adquirida num ambiente natural, como numa situação de ensino
que tenha como objetivo a aquisição da mesma.
No caso dos Apinayé, a língua a ser adquirida é a própria língua do
grupo. Embora os mais jovens não a estejam usando em todos os domínios
sociais, eles a consideram como a sua língua. Isto significa que as atividades
de incentivo à aquisição dessa língua, bem como o uso dela pela criança,
devem ser através de assuntos referentes à sua cultura e nas interações espontâneas dessas crianças com os membros de sua comunidade.
Práticas de leitura e escrita entre as crianças Apinayé de Mariazinha
Nos últimos anos temos assistido no cenário brasilleiro à retomada
de uma série de questões que voltam à tona através dos estudos realizados
na área da alfabetização das crianças das escolas indígenas Com base nessa
premissa e considerando as teses da suposta ausência de experiências culturais entre as crianças de camadas populares, como uma das principais
causas do seu mau desempenho escolar, as políticas educacionais brasileiras vêm promovendo uma “verdadeira revolução no campo da alfabetização” (CICLO BÁSICO, 1990; PCN, 1997).
De acordo com os RCNEI (2005, p. 124), outra função da escola é
desenvolver nos alunos indígenas a competência necessária para que eles
possam entender e falar sobre os novos conhecimentos introduzidos pelo
próprio sistema escolar. Essa competência oral deverá ser desenvolvida inicialmetne em língua indígena, se essa for a primeira língua dos alunos, ou
caso contrário, em língua portuguesa.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
50
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
Se a linguagem oral, em suas várias manisfestões, faz parte do di-a-dia
de quase todas as sociedades humanas, o memso não se pode afirmar sobre
a linguagem escrita. Segundo os RCNEI, as atividades de leitura e escrita
podem ser exervidas apenas pelas pessoas que puderam frequentar a escola
e nela encontraram condições favoráveis para perceber as importantes funções sociais das práticas de leitura e escrita.
A Importância da Escola para os Apinayé
É inegável a importância que assumem as escolas no contexto indígena, assumindo mesmo um papel primordial no desenvolvimento de trabalhos junto às comunidades e a seus alunos. Um dos professores entrevistados na aleia São José diz o seguinte:
Geralmente esse papel está relacionado ao resgate da cultura, dos rituais,
das danças e das músicas. Sendo assim, a escola oferece grandes vantagens para o futuro das crianças, como saber quais seus direitos, custumes
e culturas. A comunidade também participa dos eventos que acontecem
nas escolas. A escola, aqui na aldeia São José, também tem o seu papel de
resgatar as pinturas corporais. Isso demonstra que na atualidade estão
sendo resgatadas às pinturas que estavam acabando. Graças às escolas
instaladas na aldeia, conseguimos levantar o peso de uma pedra que já
estava afundando. Através da escola são desenvolvidos vários trabalhos
que permanecem na aldeia São José. Precisamos da escola, pois ela é
importante para o nosso futuro. (PROF. GILBERTO DIAS APINAJÉ).
O uso da língua escrita em português tem para os Apinayé de Mariazinha funções muito claras, tais como defesa e possibilidades de exercerem
sua cidadania e acesso a conhecimentos das outas sociedades. Segundo os
RECEI (2005, p. 126), não basta a escola ter como objetivo simplesmente
alfabetizar seus alunos; ela tem o dever de criar condições para que eles
aprendam a escrever textos adequados às suas intenções e aos contextos em
que serão lidos e utilizados.
Relação entre domínio da escrita e desenvolvimento cognitivo
A assimilação da escrita pelas cianças indígenas demanda níveis de
educação própria, específia e diferenciada, tese sobre a qual se apoiam as
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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51
políticas de educação escolar indígena no Brasil. Portanto, segundo os RCNEI (2005), como na vida real nunca se lê ou se escreve à toa, sem um
motivo para tanto, e também nunca se lê ou se escreve palavras ou sentenças soltas, fora de contextos específicos, os alunos das escolas indígenas
poderão mais facilmetne perceber que a linguagem escrita pode ser mais
útil e pode se tornar importante para eles, se as atividades desenvolvidas na
escola girarem em torno da leitura e escrita de textos. Nesse caso, o texto,
independente de sua extensão, é uma unidade linguística, oral ou escrita,
produzida em determinado contexto com um objetivo comunicativo.
Para Cagliari (1997), a linguagem é uma das formas mais sofisticadas
de abstração, construída sobre conceitualizações e generalizações presentes
em todos os falantes de uma língua, sejam eles alfabetizados ou não. Desse modo, a criança que sabe falar e conversar dá provas de que já atingiu
o estágio lógico-formal da ontogênese, pois conversar é uma das formas
mais sofisticadas de organização da experiência e da manifestação da inteligência superior dos humanos. A noção de tempo, espaço, linearidade,
causalidade são ingredientes necessários ao uso da linguagem e estão nela
enraizados. Vejamos o seguinte texto escrito por um professor Apinayé
A Chuva
Quando chove todas as pessoas da aldeia ficam alegres. Durante a chuva, todos os índios ficam dentro de casa, discutindo sobre os trabalhos.
Enquanto está chovendo, algumas crianças brincam debaixo da chuva à
vontade . Quando a chuva diminiu, alguns homens vão para a caçada.
Os mais idosos falam que a época de chuva tem muitas caças, porque as
pegadas não se apagam. Eles vão rastejando até encontrar a caça e matar,
portanto a chuva é importante para qualquer pessoa, princiupalmente
para os povos Apinayé (JÚLIO KAMÊR – IN ALBUQUERQUE, 2008).
Segundo Cagliari (1997), a escrita seria uma das formas de representação da linguagem verbal, isto é, ela traz a linguagem oral nela embutida,
conforme se pode observart no texto acima. Outros estudos argumentam
pela falta de evidências de que a forma escrita afete a mente. Muitas das
mudanças linguísticas, cognitivas e sociais, atribuídas à aquisição da escrita, também foram encontradas nas culturas de tradição oral: como a existência de um sistema de recitação, memorização e acumulação de textos;
a criação de instituições para usos dos textos; a aquisição de uma metalinA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
52
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
guagem para a interpretação e explicação dos textos; e instituições e escolas
para a introdução dessas práticas orais como na tradição védica da Índia e
entre os narradores da África. (PATTANAYAK, 1995, P.118).
Para o antropólogo inglês Jack Goody (1987), o pensamento abstrato,
racional e lógico é inerente à capacidade humana de pensar, mas as formas
e os usos que assumem são o produto da cultura. Não é a aprendizagem das
habilidades de leitura e escrita que asseguram usos superiores da escrita,
mas a produção de uma cultura escrita, da imprensa, a potencialização de
determinados usos quando ela se associa às formas de pensamento científico, aos quais se atribui papel decisivo nas mudanças sociais e cognitivas
da modernidade. Mesmo porque, como esclarece esse autor, não há vínculo causal entre escrita e pensamento. E o desenvolvimento das formas
de pensamento científico, aos quais se associam certos usos da escrita que
levariam as formas cognitivas mais avançadas, não penetram na mente dos
indivíduos nem são necessárias à aquisição das habilidades de leitura e escrita dos primeiros anos escolares.
A leitura e a escrita são produtos da cultura, que faz dela certos usos,
que define seus modos de ensino e seus processos de esnino/aprendizagem. Elas são, portanto, produzidas por relações sociais, por formas históricas e culturais que delas se apossam e definem seus modos de transmissão e assimilação. Desse modo, é preciso também discutir as concepções
sobre o caráter universal de certos processos cognitivos envolvidos na assimilação da leitura e da escrita pelos indivíduos da sociedade. E atribuir
valor negativo àqueles que não se relacionam com os textos escritos da
mesma maneira.
É preciso considerar também que as formas de ensino da língua escrita, que caracterizam o trabalho escolar da língua escrita (a cópia, o ditado,
os exercícios, as formas de compreensão do texto etc.), são uma construção
teórica sobre a língua, produzida pelos gramáticos, pelas relações de poder
e interesses políticos. E o aprendizado da leitura e da escrita na escola é
apenas uma das formas de introdução das crianças ao mundo da cultura
escrita. As investigações sociais e históricas têm vindo questionar a existência de certas constantes na apropriação da leitura e da escrita, revelando
a grande variedade histórica e social das práticas que implicam a leitura e
a escrita, mesmo dentre aqueles que não dominam as técnicas de leitura e
escrita (Chartier, 1987). Desse modo, não se podem generalizar as formas
de relação com a escrita das crianças que vivem em diferentes contextos
sociais, antes da sua entrada na escola.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
53
A importância da leitura na prática cotidiana Apinayé
O ato de ler proporciona a descoberta do mundo da leitura, um mundo totalmente novo e fascinante. Entretanto, a sua apresentação à criança
deve ser feita de forma atrativa, estabelecendo uma visão prazerosa sobre
a mesma, de modo que torne um hábito contínuo. A leitura desenvolve a
capacidade intelectual do indivíduo devendo fazer parte de seu cotidiano e
desenvolvendo a criatividade e a sua relação com o meio externo.
A criança que faz parte do universo da leitura é ativa e está sempre
pronta a desenvolver novas habilidades, ao contrário daquelas que não possuem contato com esse universo, pois esta se prende dentro de si mesma
com “medo” de tudo que a cerca. “A leitura, como o andar, só pode ser
denominada depois de um longo processo de crescimento e aprendizado.”
(BACHA, 1975, P.39).
O ser humano, sem que perceba, está rodeado pelo mundo da leitura. A criança, desde cedo, faz a leitura do mundo que a rodeia, sem ao
menos conhecer palavras, frases ou expressões, pois é próprio do ser humano desejar conhecer, decifrar a curiosidade, de modo a apreender novos
conhecimentos. Assim, o processo de leitura e a escrita iniciam-se antes
da escolarização. A criança adquire no âmbito familiar e em seu convívio
no meio social o interesse pelo ato de ler e de escrever. Para tanto, elas são
inseridas no meio escolar, na verdade sem ao menos saber o porquê de ter
que frequentá-lo, ou seja, para elas é uma relação obrigatória, cuja escolha
é feita pelos adultos que os mandam passar grande parte de seu dia em
um ambiente até então desconhecido, onde tudo é planejado e organizado
pelos adultos.
Quando se inicia a leitura, todas as instruções e referências são ministradas pelo professor e ao aluno cabe se adaptar cumprindo as exigências
e os processos de trabalho que lhe são impostos. Isto causa desmotivação,
pois os discentes não possuem opções para construir uma leitura criativa
que tende a inseri-los no fantástico mundo da leitura, e consequentemente
no mundo da escrita. É lendo que nos tornamos leitores e não aprendendo
primeiro para poder ler depois: não é legítimo instaurar uma defasagem
nem no tempo, nem na natureza da atividade entre “aprender a ler” e “ler”.
Não se ensina a ler só com a nossa ajuda. A ajuda vem do confronto
com as proporções dos colegas com quem se está trabalhando. Porém é
ela quem desempenha a parte inicial de seu aprendizado (Jolibert, 1994,
p.14). Entretanto, os primeiros contatos da criança com a leitura são de
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
54
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
fundamental importância para suas percepções futuras, pois interferem na
formação do ser humano crítico, capaz de encontrar as possíveis resoluções
para os problemas sofridos pela sociedade a que se pertence.
Segundo Freire (1982), uma vez que a leitura é apresentada à criança, ela deve ser minuciosamente decifrada, trabalhada, pois na maioria das
vezes as crianças têm um contato imediato com a palavra, mas a compreensão da mesma não existiu. Para tanto se faz necessário apresentar o que
foi descrito por tal palavra, de forma que esse objeto proporcione sentido
a ela, pois dessa maneira a busca e o gosto pelo mundo das palavras, isto é,
da leitura e da escrita se intensifica. Logo, a leitura ganha vida e a criança
adquire o hábito de sua prática. Portanto, o contato com a realidade é fielmente de extrema relevância para dar significado à importância do ato de
ler, já que este se faz necessário no cotidiano de cada indivíduo, pois através
dele adquirem-se meios de combater as imposições decretadas pela classe
dominante, onde os dominados se encontram atados perante tanta brutalidade intelectual, pois para a mesma é conveniente que assim continuem.
Contudo, a prática cotidiana da leitura significativa é uma das armas que
o cidadão possui para lutar contra tantas injustiças por ele sofridas. Enfim,
eis a importância do ato de ler, a efetiva participação social.
Produção do Material didático em Mariazainha
Na escola Apinayé de Mariazinha, alguns recursos são utilizados, com
o objetivo de favorecer a criação coletiva por parte dos professores indígenas, dos agentes de saúde e da comunidade para a elaboração do material escolar de suas próprias autorias. Integrados ao Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, os professores indígenas, agentes
de saúde, indígenas mais velhos e os cantadores vêm organizando oficinas de produção de materiais didáticos tais como Livros de Alfabetização,
Matemática e Ciências, Geografia e História Apinayé; livros de Narrativas
e Músicas Apinayé; Dicionário, Gramática Pedagógica, livro de aspectos
culturais Apinayé; livros de receitas da medicina tradicional. Desta forma,
está sendo produzido um material didático para ser utilizado na escola de
Mariazinha, apresentando uma maior reflexão sobre os aspectos socio-históricos e culturais, meio ambiente, sobre a fauna e flora da reserva desses
povos; além desses, há também o material constituído das narrativas históricas voltadas para os mitos e músicas. Em relação ao aspecto musical, vale
destacar a realização de três festivais de músicas Apinayé, que contaram
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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com a participação de cantadores velhos, jovens e adultos de todas as 24
aldeias.
Para o RCNEI (1998), essas práticas se expandem para além do espaço
da escola e da palavra escrita, dando lugar a outras linguagens, como por
exemplo, os desenhos e dramatização:
A nova proposta de escola, cujo objetivo é fortalecer a luta pela autodeterminação dos povos indígenas e de outros povos, dentro dos princípios da pluralidade cultural, muda essa lógica de avaliação. Ela deixa
de ser um instrumento de negação e exclusão para ser um instrumento
positivo de apoio, incentivo e afirmação dos novos projetos educativos
das diversas sociedades. Desta forma, busca-se melhor garantir os objetivos da escola naquele lugar, para aquelas pessoas, reintegrando as
ações do ensino às de aprendizagem, evitando suas descontinuidades e
rupturas (RCNEI, 1998, P. 70).
A seguir, apresentaremos alguns textos escritos pelos professores indígenas Apinayé para mostrar a forma como os indígenas adquirem a linguagem escrita, a partir do sentido, na inter-relação com os aspectos formais
estruturais e funcionais, segundo os aspectos sociolingíticos Apinayé. Os
textos foram extraídos dos livros de Matemática e Ciências, História e Geografia (ALBUQUERQUE, 2007b, p. 41), e do livro de Medicina Tradicional
(ALBUQUERQUE, 2007c).
Texto A: Tarefa dos Homens
As tarefas dos homens Apinayé são a construção das casas, trabalhar
na roça, cortar lenha, caçar e pescar. Essas são tarefas dos homens na
aldeia. As tarefas das mulheres Apinayé são cuidar das casas, fazer comida, fazer cofo, esteira, lavar roupa, costurar, varrer a casa, cuidar dos
meninos, pegar lenha, quebrar coco de babaçu, para tirar o azeite e
fazer artesanato. Essas são tarefas dos homens e das mulheres Apinayé
realizadas nas aldeias dia-a dia. Essas duas tarefas têm a mesma origem
para os povos Apinayé. (Profª Rosana Dias Apinayé.
Texto B: O Funeral Apinayé
Quando os Apinayé morrem, os parentes pagam a madrinha para levar
os enfeites para ele. Depois que termina o funeral daquela pessoa, os
parentes dele combinam para realizar a festa da Tora Grande. Depois
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56
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
marcam o mês e o dia para realizarem a festa para aquelas pessoas que
morreram. Este ritual vem resgatando a cultura Apinayé. Por isso, é
sempre assim nas aldeias quando alguém morre.(Profª Eloíza Dias Apinayé).
Texto C: Colheita de frutas
Em junho começa o tempo das frutas que são pequi, bacaba, buriti e
manga. Muitas frutas são colhidas para vender, como manga, buriti,
que são colhidas em todo o mês. As frutas também são colhidas para
vender. Todas essas frutas têm vitamina. O caju só começa em setembro. Em abril é a comemoração do dia do índio. Em janeiro é tempo de
colher bacuri, que serve para remédio e muitas outras coisas. Existem
outras frutas que têm na nossa reserva indígena. A importância do uso
dessas frutas é que faz parte de nossa cultura. Em janeiro é a colheita do
arroz e mandioca, março é a colheita do feijão. (Prof. Manoel Corredor
Apinayé).
Texto D: Calendário de Plantio de Cereais
Nós plantamos na nossa roça de toco, porque nós dependemos da roça.
E dela tiramos o nosso sustento, para nossa família. Nós dependemos
da nossa mata, da terra e da natureza, que nós tiramos os recursos naturais. Como plantar, fazer limpeza no local, onde vamos plantar. Depois
que o local estiver limpo, plantamos as sementes, mandioca, fava, feijão
e batata. Tudo isto é planatdo em nossa roça. (Prof. Carlos Tep-Krut
Apinayé).
A elaboração de textos em língua portuguesa contribui também para
que a sociedade não indígena conheça melhor as sociedades indígenas e,
assim, enriqueça-se culturalmente. Os textos produzidos em língua portuguesa, na escola de Mariazinha têm sido uma forma de divulgação dos
conhecimentos tradicionais e de afirmação para a sociedade Apinayé. Esses
materiais fornecem dados importantes sobre as diferenças culturais indígenas e suas tradições permitindo que, através deles, a diversidade cultural no
Tocantins torne-se mais evidente e possa, assim, ser mais respeitada.
Tais textos foram explorados através de gravuras, onde os professores
solicitaram aos alunos que desenhassem sobre o que leram e, em seguida,
escreveram sobre o que desenharam. Alunos indígenas iniciantes podem
aprender a sequenciar fatos, localizar eventos e organizar ideias. Desta forA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
57
ma, uma discussão oral, seja em língua Apinayé, seja em língua portuguesa,
deve sempre preceder o trabalho com leitura e produção de texto, Assim, os
alunos indígenas deverão, na escola, entrar em contato com a maior diversidade de textos possíveis em ambas as línguas, para que possam aprender,
tirando deles o melhor proveito para sua necessidade e interesse.
Exercícios desse tipo, além de despertar a vontade de aprender a ler
e escrever, estimulam o aluno indígena a observar melhor, a pensar, a tirar
conclusões e a verificar se tais conclusões estavam corretas. Esses elementos
são muito importantes para que, mais tarde, o aluno seja capaz de compreender textos mais complexos.
Como se pode constatar, as crianças Apinayé de Mariazinha estão se
alfabetizando em consequência de outros recursos didáticos usados pelos
professores Apinayé. Os professores indígenas organizam suas aulas com
uma variedade de materiais específicos, ligados à reflexão sobre os aspectos
culturais, históricos e linguísticos, o meio ambiente, as espécies da fauna e
da flora da região, bem como às historias (relatos da história de seu povo),
cantigas, danças, os mitos e outras partes de sua tradição oral.
Entretanto, os livros didáticos, (Português, Geografia, História e Ciências), adotados na escola de Mariazinha, após as séries iniciais (pré-leitura
e alfabetização), estão totalmente afastados da realidade sócio-histórica,
cultural e linguística das crianças Apinayé. Como resultado, a maioria das
crianças que ultrapassa os estágios iniciais de aprendizagem, ao se depararem com esse material, fica completamente desestimulada e abandona a
escola, ocasionando a evasão escolar.
Assim, o sucesso ou fracasso da criança, seja na escola, seja na aquisição de uma segunda língua, não está associada à origem social, mas ao
contexto sociointeracional no qual se processa a aquisição. O processo de
aquisição, para Braggio (1992a, p. 62-63) pressupõe a aceitação das diferenças socioculturais e linguísticas, tanto por parte do professor quanto do
aluno na construção do conhecimento a partir das experiências anteriores,
da interação entre professor e aluno, da funcionalidade da língua e da relação do aluno e o meio social. Acreditamos que essas dificuldades somadas
trazem para o aluno sentimentos de incapacidade, levando-o a desistir da
escola, conforme veremos a seguir.
Pelo que pudemos constatar durante nossa pesquisa, o número de alunos matriculados do 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental é bem maior do
que nas séries seguintes. Isto se justifica porque, nas séries iniciais, o ensino
é ministrado em língua materna. Após esse período, o ensino passa a ser
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
58
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
ministrado em língua portuguesa e isso, de certa forma, tem contribuído
para a evasão escolar. O ideal é que a escola use a língua indígena como
meio de instrução por um período mínimo de quatro anos e que seja implementado o uso funcional da linguagem escrita na aldeia, pois sem que
isso aconteça, corre-se o risco de limitar a língua indígena escrita apenas à
sala de aula. Ou seja, é necessário que a língua indígena tenha significado e
função social na sua forma escrita para a comunidade de Mariazinha.
Como se trata de sociedade indígena, que não tem tradição de escrita,
ou que tem uma tradição de escrita bem recente, perceber “por que” e “para
que” a leitura e a escrita existem, é algo que acontecerá mais lentamente.
Algo que acontecerá, especialmente, se essa escrita for em língua Apinayé, à
proporção que as funções sociais importantes para a leitura e escrita forem
sendo criadas. Como na vida real nunca se leem ou se escrevem palavras
ou sentenças descontextualizadas, isto é, fora de contextos específicos da
escola ou da aldeia, os alunos da escola de Mariazinha poderão perceber
mais facilmente que a língua escrita pode ser útil e pode se tornar importante para eles, se as atividades desenvolvidas nas escolas girarem em torno
da leitura e escrita de textos. Segundo o RCNEI (1998, p. 34-135), independentemente de sua extensão, o texto deve ser entendido como:
[...] uma unidade lingüística, oral ou escrita produzida em determinado contexto com um objetivo comunicativo. Para que a escrita faça
sentido para os alunos, é preciso, pois, que eles se envolvam em atividades em que a linguagem escrita apareça contextualizada e sirva para comunicar alguma coisa, como: apresentar-se e apresentar outra pessoa,
cumprimentar e despedir-se, dar, pedir e entender informações pessoais, convidar, aceitar ou recusar um convite, expressar verbalmente,
sentimentos e sensações de alegrias, tristeza, dor, raiva etc.
Atualmente, na escola de Mariazinha, o material didático para alfabetização é produzido pelos próprios indígenas e apresenta a língua de forma
não fragmentada e contextualizada, de forma que as crianças se apropriem
do aspecto formal e convencional, bem como de estruturação de forma gradual e inteligente. Os textos partem da realidade de cada sociedade, permitindo o desenvolvimento pleno de personagens, temas, tramas, conflitos,
apresentando as estruturas textuais subjacentes. Assim, a linguagem é vista como constitutiva de identidade do sujeito, do seu pensamento, da sua
consciência, onde, segundo Bakhtin (1995, p. 16), “a consciência só adquire
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
59
forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso
de suas relações sociais, e só se torna consciência quando se impregna de
conteúdo ideológico (semiótico).”
Apresentaremos, a seguir, um texto escrito por uma professora indígena da escola da aldeia Mariazinha, procurando mostrar a forma como
os alunos indígenas adquirem a linguagem escrita, a partir do sentido, na
inter-relação com os aspectos formais, estruturais e convencionais, conforme os textos abaixo:
Texto E: O que a história Apinayé ensina
A história passa o conhecimento para o povo Apinajé.Os mais velhos
contam as histórias para as criancas e para os adolescentes. Na escola,
o professor conta história do livro para os alunos. Assim as crianças
não vão se esquecer das histórias que eles aprendem. Eles vão contar
essas histórias para seus filhos, passando de geração para geração.(Prof.
Silivam Oliveira Apinayé)
Ãmnepêm na hte Tyjre mẽ pa mã Ujarẽnh o pa
Na hte mẽ kagà jakrexà kamã kagà jakre ne hte mẽ kãm kagà kamã
mẽ kãm ujarẽnh o pa. Hãmri nhũm mẽhprĩrejaja kuma nẽ akryk mar
o kri. (PROF. SILIVAM OLIVEIRA APINAYÉ)
Na prática pedagógica da escola de Mariazinha, o material didático está
em permanente construção, respeitando os aspectos da sistematização do conhecimento da língua indígena. Os textos produzidos em língua portuguesa,
na escola de Mariaiznha, têm sido uma forma privilegiada de divulgação dos
conhecimentos tradicionais Apinayé e de afirmação para esse povo. Esses
materiais fornecem dados importantes sobre as diferenças culturais Apinayé
e suas tradições, permitindo que, através deles, a diversidade cultural e linguísitica no Tocanitns torne-se mais evidente e possa ser mais respeitada.
De certa forma, esses aspectos não são levados em consideração nas
cartilhas do SIL, visto que apresentam uma linguagem artificial e fragmentada, pois esse material não é produzido pelos próprios indígenas. Todo
esse material didático foi construído na língua criança indígena, porém de
forma artificial e não reflete a verdadeira língua e cultura Apinayé. Conforme podemos observar no recorte abaixo, extraído da lição 30 da cartilha
Apinayé n.º 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU, ele ilustra muito bem os aspectos
dessa prática pedagógica.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
60
O Sentido e a Função da Leitura e da Escrita para as Crianças Apinayé de Mariazinha
Wakõ ma na pa umĩ. (assei o fígado do quati.)
Akra na wakõ ja pĩ. (seu filho matou o quati.)
Na kupẽ pa ma kapa nẽ umĩ. (matou e eu tirei o fígado e assei.)
Mĩ anhõ wakõ ma. (leve o seu fígado de quati.)
Na pa kuka. (tudo bem. Vou assar.)
Na panhĩ kra akra kamĩ. (o filho do índio jogou areia na sua filha.)
Na kamĩ nhűm akunha. (ele jogou areia nela e ela deu risada.)
Pu mõ nẽ anhõ krĩ pumu. (vou ver sua aldeia.)
Pu mõ nẽ anhu. (vamos esquentar-nos.)
Enfim, são aspectos de uma prática pedagógica que não toma como
ponto de referência o conhecimento anterior do aluno: da linguagem oral
e escrita (nem em forma alfabética ou de grafismo), de mundo etc. Logo,
não há sistematização do conhecimento sociocultural e histórico do aluno.
O professor não precisa ter formação, já que o seu papel limita-se ao repassador do material didático previamente elaborado.
A referida artificialidade também é comprovada a seguir, nos exemplos retirados da cartilha Apinayé nº 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU No 1.
Recorte da Lição 2 da Cartilha No 1
Põpõ na ja - esta é a garça
Põ na ja - isto é capim
pĩ na ja - este é um pau
Recortte da lição 3 da Cartilha No 1
Põpõ ja pumu - olhe a garça
Põpõ nhĩ na ja - esta é a carne de garça
Põpõ nhĩ na pumu - olhe a carne de garça
Além dessa prática pedagógica, pudemos constatar que algumas escolas indígenas Apinayé não têm respeitado a diversidade entre os alunos, tais
como gênero, idade, conhecimento escolar, de experiência e de inserção
no mundo social, cultural e do trabalho. O regime seriado, que agrupa os
alunos pelo conteúdo da série, tem sua aprendizagem limitada ao tempo do
calendário do ano letivo de fevereiro a dezembro, que também acaba por
negar essa diversidade. Nessa prática pedagógica, uma criança de oito anos
ou um jovem de dezesseis que não sabem ler estão todos matriculados na
mesma série, iniciando seu processo de aprendizagem, ou seja, homogeneiA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
61
zando a lógica seriada e anulando a rica diversidade linguística presente em
qualquer sala de aula.
Reflexões Finais
Neste trabalho apresentamos os resultados de uma pesquisa realizada
com a educação das crianças indígenas Apinayé que estão em processo de
alfabetização e que se efetivou a partir de ações desenvolvidas pelo Projeto
de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do
Programa do Observatório de Educação Indígena, CAPES/UFT 2010/2011.
A investigação se realizou nas turmas do primeiro e segundo anos do
Ensino Fundamental da Escola Estadual Indígena Tekator da aldeia Apinayé Mariazinha e teve como objetivo estudar qual o sentido e qual a função da leitura e da escrita para os alunos alfabetizandos.
Os resultados indicam que a leitura e a escrita na educação das crianças Apinayé são resultado de uma prática pedagógica bilingue que revelam os aspectos culturais de seu povo. Isso porque a interculturalidade se
manifesta nas relações pedagógicas, desde que são utilizados materiais de
apoio pedagógico produzidos pelos próprios indígenas, contextualizados
de acordo com a realidade sócio-histórica e cultural em que estão inseridas
as crianças Apinayé, objeto deste estudo.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
3
A Aquisição da Escrita pelas
Crianças Apinayé de São José
Francisco Edviges Albuquerque 1
Introdução
A educação escolar nas comunidades indígenas brasileiras teve seu
início em 1956, quando o Summer Institute of linguistics (SIL) implantou
o programa de estudo aqui no Brasil, em convênio como o Museu nacional (1959), posteriormente com a Universidade de Brasília (1963) e com
a FUNAI (1967). Segundo Leitão (1997, p. 59), esse Instituto desde então
realiza trabalhos de análise e comparação das línguas indígenas brasileiras.
Os estudos do SIL objetivavam criar para as línguas indígenas um sistema
de escrita e traduzir para elas materiais escritos de “educação moral e cívica
e de caráter religioso”. Pretendia ainda, desenvolver “programas de educação e assistência social”, a fim de proporcionar aos indígenas melhores
condições de vida.
De acordo com Cunha (1990, p. 87), a partir da década de 1970, o
governo brasileiro, preocupado em estabelecer uma prática escolar indígena dentro das diretrizes das instituições internacionais, buscando melhorar
sua imagem mediante a opinião pública mundial, incluiu a prática escolar
indígena e o uso das línguas maternas no seu projeto de integração. A partir
desta década, então, a FUNAI adota oficialmente a metodologia do ensino
bilíngue, além de iniciar uma reavaliação dos programas de educação escolar indígena anteriormente existentes.
Leitão (1997, p. 59) afirma que, até aquele momento, a educação escolar indígena brasileira baseava-se nas tentativas de alfabetização das crianças indígenas na língua portuguesa.
1 Professor adjunto da UFT – Universidade Federal do Tocantins e Coordenador do
Projeto A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural/ Programa
do Observatório de Educação Indígena, CAPES/SECAD/INEP do Edital nº 001/2009.
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66
A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
Cunha (1990, p. 95) informa que os técnicos do Serviço de Proteção
ao Índio (SPI), na década de 1970, chegaram a discutir a questão de escola
indígena, no que se refere à sua necessidade de adequação às particularidades de cada grupo. Segundo o autor, a inviabilidade da implantação do
ensino bilíngue nas escolas indígenas era justificada pelos técnicos do SPI,
com base na dificuldade de oferecimento de um tratamento linguístico diferenciado a todos os grupos indígenas brasileiros, visto que seria necessário um grande número de especialistas que pudessem elaborar gramáticas
nas línguas indígenas, bem como de professores preparados para trabalharem com material didático bilíngue.
A mencionada dificuldade para aplicação de uma política escolar
indígena que atendesse às prerrogativas de uma educação que realmente
contemplasse todos os povos indígenas de nosso país levaram a FUNAI
a firmar convênio com o SIL, visto que esta entidade dispunha de pessoal capacitado para realizar trabalhos linguísticos e para formar professores monitores, para atuarem nas áreas indígenas, de acordo com os
desejos e necessidades apresentadas pelas autoridades de cada país onde
viessem a atuar.
Surge daí a figura do monitor bilíngue, alfabetizado em português e
na língua materna e preparado pelos linguistas do SIL, para atuar nas séries
iniciais nas quais ensinavam leitura e escrita na língua indígena, daí surge
também o “escritor bilíngue” responsável pela produção de textos em língua materna.
A educação escolar indígena entre os Apinayé foi introduzida na década de 1960, nas aldeias de São José e Mariazinha, por Patrícia Ham, membro do SIL, no então Estado de Goiás. Naquela época, as políticas educacionais, voltadas para os Apinayé, não eram diferentes daquelas oferecidas aos
demais grupos indígenas, que eram compatíveis às práticas pedagógicas
desenvolvidas pelas escolas das comunidades rurais brasileiras.
Após alguns anos da implantação da educação indígena nas escolas
das comunidades Apinayé, segundo o relatórios da FUNAI, os primeiros
materiais escritos nessa língua foram elaborados pelo SIL na década de 70.
De acordo com o referido relatório, à proporção que os estudos avançavam,
novas cartilhas e novas versões das cartilhas, já existentes, eram elaboradas.
Esta data marca a primeira edição da “Cartilha de História Apinayé”. Além
deste volume, foram publicados outros cinco: Livro de Lendas 1, Livro de
Lendas 2, Leitura Suplementar das Cartilhas e Introdução à Leitura e Livro de Caligrafia. Após essas publicações, vieram outras cinco cartilhas de
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
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alfabetização (PUMẼ KAGÁ PUMU), Livro de Canções Novas na Língua
Apinayé (livro de cunho religioso) e Aspectos da Língua Apinayé.
Muitos monitores Apinayé foram alfabetizados pelos linguistas do
SIL, para produzirem novos materiais escritos, que foram publicados posteriormente. Esses livros foram utilizados nas escolas Apinayé pelos professores da FUNAI e pelos missionários que atuaram como professores nessas
escolas até o ano de 2001, continuando a ser usados por muitos professores,
especialmente, por aqueles ligados às religiões evangélicas.
Segundo Albuquerque (1999), a situação escolar Apinayé, ao longo
dos anos de contato com a sociedade majoritária, vinha acontecendo de
modo contrário aos anseios e interesses da comunidade. Esses indígenas
têm vivido um processo de perda étnica, com seus valores culturais subjugados pela sociedade majoritária. Fatos como esses são apontados por
Braggio (1989, p. 155), apoiada em Coelho dos Santos (1975, p. 43), quando
aponta problemas com a educação escolar indígena (com algumas exceções) até por volta do fim dos anos 80:
Um dos mais contundentes problemas com relação à educação indígena
é o de que o processo educacional utilizado nas comunidades indígenas
é um dos principais vínculos de dominação de sociedade majoritária,
já que está sujeita a um sistema educacional concebido e inspirado por
aquela sociedade, portanto, carregado de seus valores ideológicos.
Desta forma, a escola ao invés de promover a autonomia desejada,
vinha gerando conflito, fazendo com que muitas crianças desistissem da
escola. Isto contribuía de modo significativo para que algumas séries deixassem de existir.
Albuquerque (1999) afirma que no ano de 1999 apenas a aldeia São
José possuía a 4ª série. No seu total, esses povos eram atendidos por 7 escolas. A população atendida era de 350 alunos. Havia um total de 21 professores, sendo 12 índios e 9 não-índios.
No entanto, com a implementação de uma política pedagógica adotada pelo Estado do Tocantins, com o princípio básico da conquista da autonomia socioeconômica e cultural dos povos indígenas, e com a implantação do Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, este
quadro tem mudado muito nos últimos anos, uma vez que o número de
escolas tem aumentado e o número de evasão e reprovação vem diminuindo significativamente.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
Atualmente, todos os estudantes Apinayé têm o privilégio de estudar em escolas de suas próprias aldeias, uma vez que possuem duas
escolas com Ensino Fundamental e Médio funcionando nas aldeias de
São José e de Mariazinha. Das vinte e quatro aldeias Apinayé, treze possuem escolas bilíngues, embora ainda não estejam funcionando regularmente. As aldeias São José e Mariazinha são as que mais possuem
material escrito em Apinayé e são as que possuem educação bilíngue há
mais tempo.
A partir de 2001, com a implantação das ações do Projeto de Apoio
Pedagógico e Educação Indígena Apinayé, os próprios professores Apinayé passaram a elaborar o material didático em sua língua e em português para os anos iniciais do ensino fundamental. Esta realidade é mostrada através das informações gerais sobre as escolas Apinayé, tais como
o nome das aldeias, o número de escolas de cada aldeia, o município a
que elas pertencem, o número de professores índios e não índios e número de alunos matriculados nas escolas das aldeias Apinayé, por série
e gênero.
O Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Apinayé vem promovendo nas escolas Apinayé, no sentido de garantir aos professores, aos próprios
alunos e membros da comunidade, ações que envolvem os conhecimentos
socio-históricos e culturais e linguísticos dessas comunidades. Em tais ocasiões, os Apinayé discutem temas referentes à língua, à cultura e à história
do seu povo. Isto acontece, especialmente, durante as atividades de elaboração do material didático a ser utilizado na escola como, por exemplo, na
elaboração dos livros didáticos de alfabetização, narrativas, músicas e do
livro sobre a medicina tradicional Apinayé, além dos livros de Matemática,
Ciências, História e Geografia desses povos.
Por outro lado, as ações do projeto vêm acontecendo duas vezes por
ano nas aldeias Mariazinha e São José, uma vez que as escolas dessas aldeias
possuem uma estrutura física mais adequada para atender a todos os professores indígenas e não indígenas envolvidos no referido projeto.
As ações do Projeto de Formação de Professores Indígenas do Tocantins, com o suporte do Projeto de Apoio Pedagógico e agora com o Projeto
do Observatório de Educação escolar Indígena/CAPES, através do Projeto A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural,
diante do número crescente das aldeias e da criação de novas escolas, vêm
contribuindo para minimizar os problemas relativos à educação escolar
Apinayé.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
69
Situação escolar de São José
De acordo com nossas pesquisas ao longo de quinze anos de trabalho
junto às comunidades Apinayé, podemos afirmar que, mesmo diante de
conflitos de ordem sócio-histórica, cultural e econômica, as comunidades
Apinayé vêm resistindo a tudo isto, numa tentativa de manter vivas sua
língua e sua cultura. E a escola tem sido um espaço muito importante, onde
essas comunidades vêm discutindo os seus problemas e tentando, através
dos processos de leitura e escrita, resgatar seus processos culturais, com
a escrita do material didático realizada pelos próprios professores índios,
com a participação efetiva dos alunos e da comunidade, em especial, dos
indígenas mais velhos, contando seus mitos e suas histórias .
A escola da aldeia São José foi recentemente construída. É uma escola
de arquitetura moderna, com espaço apropriado para as aulas, boa iluminação, ventilação adequada, com salas de aulas espaçosas, biblioteca, sala
de professor, sala da coordenação, cozinha, alojamento masculino/feminino para professores e banheiros masculino/feminino para os alunos, além
de uma sala de computação com seis computadores.
Atualmente, esta escola conta com um corpo docente de 16 professores, sendo 11 indígenas e 05 não indígenas. Possui também em corpo
administrativo formado por 01 (um) diretor indígena, 01(um) coordenador financeiro, 01(um) coordenador pedagógico, 01(um) coordenador
de secretaria, 01(um) auxiliar de secretaria. Possui ainda 02 (dois) vigias,
04(quatro) merendeiras e 03(três) auxiliares de serviços gerais todos índios. Atende ao maior número de alunos de todas as aldeias Apinayé, do
Ensino Fundamental, 353 alunos e do Ensino Médio, 63 alunos, perfazendo
um total de 416 alunos.
Nesta escola, os professores indígenas atuam nas quatro primeiras séries iniciais, com o ensino de leitura e escrita em língua materna. A língua
portuguesa escrita é vista a partir da 3º ano, que também está sob coordenação dos professores Apinayé.
Já os professores não indígenas estão atuando a partir da 5º ano; mesmo assim, nessas turmas, os professores Apinayé dão aulas de língua materna cinco vezes por semana, para explicar os conteúdos aos alunos indígenas, por causa da barreira linguística.
O currículo desta escola, atualmente, é organizado de acordo com
a matriz curricular da SEDUC-TO, tanto para o Ensino Fundamental e
Médio
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
70
A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
Desta forma, a Matriz Curricular 9394/96 (SEDUC, 1996) contempla
todas as disciplinas que estão voltadas para os aspectos socio-históricos e
cultural da língua indígena, segundo o próprio ementário da referida matriz curricular. A exceção é apenas para língua estrangeira moderna que
será ofertada de acordo com o profissional habilitado (Inglês, Espanhol ou
Francês).
Porém, verificamos em nossas investigações que, em algumas escolas
Apinayé, não se tem respeitado a diversidade de ritmos, de processos de
idade e de inserção do aluno em sala de aula. De acordo com o RCNEI
(1998, p. 78), a categoria “aluno”, na verdade, muitas vezes é usada para homogeneizar e anular a rica diversidade presente em qualquer sala de aula.
O regime seriado, que procura agrupar os alunos pelo conteúdo da série,
tendo sua aprendizagem limitada ao tempo do ano letivo, de março a dezembro, também acaba por negar essa diversidade. Na lógica, uma criança,
um jovem de quinze ou um adulto que não sabem ler estão todos na 1ª
série, ou seja, começando seu processo de aprendizagem.
Segundo o RCNEI (1998, p. 42), para que a educação indígena seja
realmente específica e diferenciada, é necessário que os profissionais que
atuam nas escolas pertençam às sociedades envolvidas no processo escolar.
É preciso, portanto, instituir e regulamentar, no âmbito das secretarias de
Educação, a carreira do magistério indígena, que deverá garantir aos professores indígenas, além das condições adequadas de trabalho, remuneração compatível com as funções exercidas e isonomia salarial com os demais
professores da rede pública.
Partindo desses pressupostos, os Apinayé vêm lutando para que a
educação escolar, em suas aldeias, seja realmente diferenciada. Dentre as
propostas apresentadas por eles, está a proposta do calendário diferenciado, que já foi levada para apreciação junto ao conselho de Educação Indígena do Estado do Tocantins e da Associação dos professores Indígenas do
Tocantins.
Segundo Albuquerque (1999, p. 57), naquela época, nestas escolas havia pouco material escrito em língua Apinayé: cartilhas de alfabetização,
livros de lendas e bíblias. Estas cartilhas foram elaboradas há mais de trinta
anos e não foram produzidas pelos próprios professores índios. Foram produzidas por membros do SIL.
Para Albuquerque (1999, p. 59), o material didático produzido pelo
SIL apresenta uma linguagem artificial e fragmentada, visto que esse material não é produzido pelos próprios indígenas. O material didático, que é
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Francisco Edviges Albuquerque
construído na língua da criança indígena, não reflete a verdadeira cultura
e língua materna desse povo, pois não considera os aspectos sociolinguísticos desse grupo. A seguir, recorte extraído da lição 2 da cartilha Apinayé
n° 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU, ilustra muito bem essa prática pedagógica.
Recorte da 2ª lição da Cartilha no 1
“Põpõ na ja”(esta é uma garça)
“Põ na ja”(isto é capim)
“Pĩ na ja”(este é um pau)
A referida artificialidade também é comprovada, a seguir, nos exemplos retirados da cartilha Apinayé n° 3 – PUMẼ KAGÀ PUMU N° 3.
Recorte da 1ª lição da Cartilha no 3
“Nhũm Ire hkraja ma utĩ kamã mõ
nẽ mãti pumu. Kupĩ nẽ kutu”
(O filho de Ire andou no mato e viu
uma ema. Matou e carregou-a)
“Ta nhũm utĩ nhũm kumẽ. Kumẽ
nẽ ma tẽ nẽ Kunmũm to mã:”
(Mas era tão pesada que ele deixou
cair. Ele a deixou cair e foi ao irmão de
Kunũm e disse:)
“Na pa mãtija pĩ. Nhũm utĩ jakamã
pa kumẽ.”
(Eu matei uma ema, Mas era tão pesada
que eu deixei cair e está lá deitada.)
“Anẽ nhũm kuma nẽ akunha. ”
(Ele ouviu e riu)
“Nẽ Ire hkraja mã: pa ma mõ nẽ
amã kutu”
(Eu e a Ire traremos para você)
Recorte da 6ª lição da Cartilha no 1
“Kõk nhĩ na ja”(isto é carne de camaleão)
“Kõk nhĩja pumu”(olhe a carne de camaleão)
“põpõ nhĩ na ja”(isto é carne de garça)
“põpõ nhĩ a pumu”(olhe a carne de garça)
Mas nos últimos anos, esse cenário tem mudado nas escolas indígenas
Apinayé, pois vários recursos didático/pedagógicos são utilizados com o
objetivo de favorecer a criação coletiva dos alunos, professores e comunidade na elaboração do material escolar de suas próprias autorias. Reunidos
no Projeto de Apoio Pedagógico à Educação Indígena Apinayé, os profesA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
72
A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
sores, agentes de saúde, índios mais velhos e os cantadores vêm organizando oficinas de produção de materiais como Cartilhas Pedagógicas de
Alfabetização, Matemática e Ciências, Geografia e História Apinayé; vídeos
documentários; livros de narrativas e músicas Apinayé; livro dos Aspectos
culturais Apinayé; livros de Receitas da Medicina Tradicional.
Desta forma, está sendo produzida uma variedade de material didático ligado à geografia, à história, às ciências e à matemática Apinayé,
apresentando uma maior reflexão sobre o meio ambiente, sobre a fauna e
flora da reserva desses povos; além desses, há também o material didático
constituído das narrativas históricas voltadas para os mitos e músicas. Em
relação ao aspecto musical, vale destacar a realização de três festivais de
música Apinayé, que contaram com a participação de cantadores velhos,
jovens e adultos de todas as 24 aldeias.
Para o RCNEI (1998, p. 69), essas práticas se expandem para além
do espaço da escola e da palavra escrita, dando lugar a outras linguagens,
como por exemplo, os desenhos e dramatização:
[...] a nova proposta de escola, cujo objetivo é fortalecer a luta pela
autodeterminação dos povos indígenas e de outros povos, dentro dos
princípios da pluralidade cultural, muda essa lógica de avaliação. Ela
deixa de ser um instrumento de negação e exclusão para ser um instrumento positivo de apoio, incentivo e afirmação dos novos projetos educativos das diversas sociedades. Desta forma, busca-se melhor garantir
os objetivos da escola naquele lugar, para aquelas pessoas, reintegrando
as ações do ensino às de aprendizagem, evitando suas descontinuidades
e rupturas (RCNEI, 1998, p. 70).
Com a implementação do Projeto de Apoio Pedagógico à Educação
Indígena Apinayé, o material didático é produzido com a participação efetiva dos próprios professores indígenas, com ajuda da comunidade e alunos,
visto que apresenta a língua de forma não fragmentada e contextualizada,
de forma que as crianças se apropriam do aspecto formal e convencional,
bem como de estruturação de forma gradual e inteligente. Os textos partem
da realidade sociocultural e linguística de cada sociedade, permitindo o
desenvolvimento pleno de personagens, temas, tramas, conflitos, apresentando textos subjacentes. Desta forma, a língua é vista como constitutiva
da identidade do sujeito, do seu pensamento, da sua consciência. Segundo
Bakhtin (1995, p. 16), “a consciência só adquire forma e existência nos sigA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
73
nos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais, e
só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico)”.
A seguir, apresentaremos alguns textos escritos pelos alunos Apinayé
das escolas das diversas aldeias, tentando mostrar a forma como os indígenas adquirem a linguagem escrita, a partir do sentido, na inter-relação
com os aspectos formais estruturais e funcionais da sociedade em que estão
inseridos.
Texto A: A História dos Animais
Os animais são muito importantes para os indígenas e para os brancos. Os indígenas vão caçar em grupo de três pessoas para cuidarem uns
dos outros. Quando acontece alguma coisa de ruim com alguém, os outros
o levam logo pra aldeia. Os não indígenas também gostam de caçar na reserva, mas os índios não aceitam e vão atrás deles e por pra fora da reserva.
(Zezinho Tekator Apinayé).
Texto B: A História do Homem e do Cachorro
Quando um índio não tem nada em casa para comer, ele chama o cachorro e vão caçar na chapada. Ele não matou nada e se perdeu na chapada
e não levou água para beber e se perderam um do outro e ficaram com sede
o dia inteiro. Andaram muito até encontrar uma estrada que ia direto ao
ribeirão, eles beberam água e voltaram pra aldeia sem matar nada. (VALDIR APINAYÉ).
A produção de textos elaborada por professores e alunos indígenas,
mesmo que seja em língua portuguesa, contribui também para que a sociedade não indígena conheça e entenda melhor as sociedades indígenas e se
enriqueça culturalmente. Assim, os textos produzidos em língua portuguesa, nas escolas Apinayé, têm sido uma maneira privilegiada de divulgação
dos conhecimentos tradicionais e de afirmação para as sociedades desses
povos. Esses materiais fornecem dados importantes sobre as diferenças culturais indígenas e suas tradições permitindo que, através deles, a diversidade cultural do Estado do Tocantins torne-se mais evidente e possa ser mais
respeitada e divulgada nacionalmente
Textos desse tipo, além de despertar a vontade de aprender a ler e escrever estimulam o aluno a observar melhor, a pensar, a tirar conclusões e
a verificar se suas conclusões estavam corretas. Esses elementos são muito
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
importantes para que, mais tarde, o aluno indígena seja capaz de compreender textos mais complexos.
Como se pode constatar, as crianças Apinayé da aldeia São José estão
se alfabetizando também em consequência de outros recursos didáticos
utilizados pelos professores indígenas. Os professores Apinayé organizam
suas aulas com uma variedade de materiais específicos, ligados à reflexão
sobre seus aspectos geográficos, o meio ambiente, as espécies da fauna e da
flora da região, bem como às historias e relatos de seu povo, suas cantigas,
danças, os mitos, bem como outros aspectos que fazem parte da tradição
oral Apinayé
Por outro lado, os livros didáticos adotados nas escolas Apinayé, após
as séries iniciais, na sua maioria, estão totalmente afastados da realidade
sócio-histórica, cultural e linguística das crianças Apinayé. Como resultado, a maioria das crianças que ultrapassa os estágios iniciais de aprendizagem, ao se defrontar com esses materiais, fica completamente desestimulada e abandonam a escola.
Pelo que pudemos verificar durante nossa pesquisa, o número de alunos matriculados do 1º ao 4º ano é menor do que nas séries seguintes, embora, nas séries iniciais, o ensino seja ministrado em língua indígena. Após
esse período, o ensino passa a ser em língua portuguesa, e isso também tem
contribuído para a evasão escolar. O ideal é que se use a língua indígena
como meio de instrução por um período mínimo de cinco anos e que seja
implementado o uso funcional da língua escrita na comunidade, pois sem
que isso ocorra, corre-se o risco de a língua indígena estar limitada apenas
à escrita em sala de aula. Para isso, é necessário que a língua Apinayé tenha
uso e função social na sua forma escrita para a comunidade em que esse
povo está inserido.
É importante salientar que algo de bom acontecerá, especialmente,
se essa escrita for em língua indígena, à proporção que as funções sociais
da leitura e escrita forem sendo criadas fora do ambiente escolar. Como na
vida real nunca se leem ou se escreve palavras ou sentenças descontextualizadas, ou seja, fora de contextos específicos, os alunos das escolas indígenas
poderão perceber também mais facilmente que a língua escrita pode ser
útil e pode se tornar importante para eles, se as atividades desenvolvidas
nas escolas girarem em torno da leitura e escrita de textos que levem em
consideração os aspectos linguísticos Apinayé.
Segundo o RCNEI (1998, p. 34-135), para que a escrita faça sentido
para os alunos, é preciso, pois, que eles se envolvam em atividades em que
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Francisco Edviges Albuquerque
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a linguagem escrita apareça contextualizada e sirva para comunicar alguma coisa, como apresentar-se e apresentar outra pessoa, cumprimentar e
despedir-se, dar, pedir e entender informações pessoais, convidar, aceitar
ou recusar um convite, expressar verbalmente sentimentos e sensações de
alegrias, tristeza, dor, raiva etc.
A Criança Apinayé e o Processo de Aquisição da Escrita
Para a Linguística que vem, há muito tempo, conquistando o seu espaço nas discussões relativas ao ensino de língua materna, uma vez que seu
objeto de estudo é a estrutura e o funcionamento das línguas naturais, deve
ser adequadamente conhecido por quem, na escola, acompanha e orienta
o processo de aquisição e domínio da modalidade escrita por parte dos falantes nativos de uma determinada língua. Nota-se, atualmente, a constante
(e indispensável) presença dos linguistas nos eventos em que se discute a
alfabetização, principalmente das línguas indígenas. Tal fato, talvez, constitua-se na principal contribuição para a ressignificação da alfabetização
nas escolas indígenas, onde a compreensão de teorias sobre os processos de
aquisição da leitura e da escrita passa a ser fator principal para a escolha de
uma metodologia adequada.
O professor lançando mão de conhecimentos da Linguística, passa
a ver a criança como sujeito do processo de aquisição da leitura e da escrita em língua materna e português, isto é, um sujeito que, ao chegar à
escola, ainda não traz uma representação do que seja ler e escrever, visto
que possui uma tradição de língua oral. Já para Cagliari (1999, p.8), ler e
escrever são atos linguísticos e, portanto, a compreensão da natureza da
escrita, de suas funções e usos é indispensável ao processo de alfabetização.
Compartilhando dessa mesma ideia, Vilas Boas (1994, p.12) afirma que o
desconhecimento dos princípios gerais da ciência da linguagem pode levar a consequências bastante negativas no processo geral da aprendizagem
escolar. A autora compartilha da ideia de Cagliari e afirma que a criança,
para aprender a falar, não precisou de ditados, memorização de regras, repetição de fonemas e sílabas; que nenhuma mãe se preocupa em ensinar à
sua criança a ordem das palavras nas frases e, no entanto, toda criança sabe
qual ordem é possível ou não usar.
Deste modo, julgamos que é importante fazer uma investigação sobre as tentativas que as crianças indígenas Apinayé fazem na escola da
aldeia, para aprender a ler e escrever tanto em língua materna como em
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
português, buscando entender como ocorre esse processo e como se pode
encarar os chamados erros na alfabetização. Ao chegarem à escola, as
crianças indígenas já contam com uma grande capacidade de análise da
linguagem materna oral, uma vez que o fazem como exercícios constantes,
desde o momento em que começam a falar com seus pais, avós, irmão e
familiares, num esforço diário na organização dos elementos da fala para
se comunicarem.
Com as crianças indígenas também se tem essa impressão de que elas
perdem essa capacidade, à proporção que vão aprendendo a ler e escrever.
Segundo Cagliari (1999.), essa questão, aponta a própria escola como responsável por essa perda, porque .ensina a língua materna e o português,
tomando a escrita ortográfica como base para tudo. (p. 29). É ingênua a
postura de ensinar o abecedário, as famílias silábicas e a associação de letras
para a composição de palavras e frases, como se isto garantisse a aprendizagem da leitura e da escrita. Tal aprendizagem depende da compreensão
de como funciona a estrutura da língua e o seu uso no meio social. Os
conhecimentos linguísticos são, portanto, imprescindíveis para o professor
indígena, em uma tarefa tão complexa como a de alfabetizar.
A escola indígena, muitas vezes, esquece também de fundamentar-se
nas necessidades naturalmente desenvolvidas nas crianças e na sua própria
atividade e impõe a elas uma escrita vinda de fora( da sociedade não indígena), que não tem sentido por não lhes permitir avançar nas suas próprias
tentativas e hipóteses. Chega-se, às vezes, a considerar a escrita simplesmente como uma complicada habilidade motora.
As crianças indígenas refletem sobre a sua língua. Desde muito cedo,
as crianças indígenas contam com uma grande capacidade de analisar a
linguagem, aliás, é isto que elas fazem o tempo todo quando estão aprendendo a falar. Muitas são as oportunidades em que podemos observar a sua
criatividade para encontrar soluções quanto ao arranjo da linguagem para
comunicar-se. Fato como esse foi observado durante nossa pesquisa, como
o caso de uma criança Apinaye de sete anos correndo para encontrar uma
criança não indígena que estava na aldeia e ia jogar bola e, num esforço
para se fazer a outra esperar, começou a gritar:
Kupẽ! Kupẽ! Kupẽ! pera! pera por eu!
Ao perceber que seu apelo não era atendido, continuou:
Kupẽ!, Kupẽ, tu num tem perança!
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
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Sob essa ótica, Cagliari (1997, p. 29) afirma que, de fato, as crianças
manipulam a linguagem e compõem palavras novas, a partir da análise dos
processos de formação de palavras, às vezes criando formas surpreendentes, revelam a incrível capacidade que têm de manipular fatos semânticos
de alta complexidade. A criança que está aprendendo a falar, faz tentativas a
partir de hipóteses que elabora, baseada no que já conhece. É nesse sentido
que entendemos que ela reflete.
A cada tentativa que resulta em êxito na sua comunicação com os outros, a criança indígena também vai adquirindo confiança e vai avançando,
sentindo-se gratificada pelas aprendizagens que realiza. Sente prazer a cada
nova descoberta e percebe quão gostoso é aprender, isto é, ela pode sentir prazer se houver resposta de incentivo por parte, principalmente, dos adultos,
que são seus modelos. Na escola, esse processo pode ter continuidade para
ela, desde que ali se valorize a sua experiência como ponto de partida para
a aprendizagem da escrita. Se, ao contrário, a escrita ortográfica for tomada
como base para tudo no processo de ensino, essa capacidade natural de análise
da linguagem, que a criança tem, pode ser sufocada, havendo grandes chances
de insegurança, bem como a dúvida sobre o que seja aprender a ler e escrever.
De certa forma, repetir modelos, mesmo sem entendê-los, ou memso memorizá-los, pode ser muito chato e complicado. Mas Cagliari (1997)
afirma que a escola não valoriza o conhecimento que a criança tem da própria fala e da fala dos seus colegas para, a partir daí, ensinar a escrever e, por
isso, não consegue perceber que tipo de reflexão o aprendiz está fazendo
quando comete seus erros. Partindo desse princípio, consideramos de fundamental importância que o professor indígena identifique junto com os
alunos as hipóteses elaboradas por ele para ter chegado a determinadas respostas. Portanto, em volta de cada “erro ou tentativa de escrita”, existem critérios inteligentes de organização dos elementos da linguagem, que devem
ser valorizados. Durante o processo de interação com a criança indígena
que aprende a falar, os adultos e os velhos que a rodeiam preocupam-se em
entender o que elas querem dizer com os termos que usam e as tentativas
que fazem, interagindo com elas. Na alfabetização, a maioria das escolas
indígenas também faz o contrário, porque enfatiza a forma, porque exige
a realização de fonemas soltos, porque dá a regra pronta e impede que as
tentativas de escrita aconteçam.
Para que os alunos indígenas avancem nas habilidades de uso, tanto
na modalidade falada quanto escrita da língua, é fundamental que eles a
exercitem concretamente, comparando elementos, observando semelhanA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
ças e diferenças, nos mais diversos contextos e situações (dentro ou fora
da escola). O importante, no momento em que as crianças indígenas estão
aprendendo a escrever, é refletir sobre o funcionamento da língua materna
e do português nos diversos domínios sociais da aldeia. E para que essa reflexão seja possível, não há como pensar em alfabetizar as crianças apenas
silabando as palavras.
Uma das dificuldades que as crianças indígenas também podem apresentar é a questão da variação na abertura, arredondamento ou não da
vogal, bem como a mudança que ocorre na palavra, pela combinação de
letras diferentes (embora não desconsideremos a questão do gênero) com
consequência da silabação, refere-se à escrita de palavras como kawà ou
kawa. Isto porque, no caso, todas as sílabas se tornam tônicas, e a distinção,
que é evidente na fala natural e espontânea dos alunos, desaparece na fala
artificial do professor.
Observando cuidadosamente a escrita das crianças indígena na alfabetização, podemos notar que, quando elas erram na forma ortográfica,
estão, na verdade, baseando-se na forma fonética. Os “erros” cometidos revelam contextos possíveis, conforme demonstra Cagliari (1997, p. 61), nos
exmplos a seguir: um aluno pode escrever talveis (talvez), mas não escreve
eileifante (elefante); não escreve vei (vê), mas escreve veis em lugar de vez.
É impressionante como os erros dos alunos revelam uma reflexão sobre os
usos linguísticos da escrita e da fala. Só a escola não reconhece isso, julgando que o aluno é distraído, incapaz de discriminar.
Para poder compreender a produção escrita das crianças indígena,
identificando as suas hipóteses e a reflexão que elas estão fazendo, o professor alfabetizador precisa observar atentamente a sua fala. Somente assim, é
possível que se cumpra efetivamente o seu papel de mediador no processo
de aprendizagem das crianças Apinayé.
Portanto, permitir que elas escrevam textos espontâneos para serem
analisados em conjunto, significa oportunizar-lhes que façam de forma
tranquila e segura a passagem da fala para a escrita e da escrita para a ortografia. Cabe considerar, também, que um texto é, antes de tudo, significação, o que nos leva a entender que as análises não devem ser só formais,
porque se forem, corre-se o risco de reduzir a fala à pronúncia e a escrita à
grafia (mecanicismo).
O desenvolvimento da alfabetização que ocorre no ambiente escolar
Apinayé vem adotando as práticas sociais que não são recebidas passivamente pela criança, ao contrário elas tentam compreender e transformar os
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conhecimentos de forma a preservar a função social da escrita, visto que a
língua indígena está viva, nos textos orais e escritos, verbais e não verbais
produzidos pelos professores e alunos indígenas,
De certa forma, hábito da leitura não faz parte do dia-a-dia das crianças indígenas, o que não possibilita um melhor desenvolvimento da oralidade da escrita e de suas relações sociais na aldeia São José. De acordo com
Soares (2001, p.20), “as atividades de leitura e escrita proporcionadas pelos
eventos de letramento permitem que os sujeitos percebam diversas formas
de escritas presentes no mundo e entendam o seu funcionamento”.
Assim, segundo Ferreiro (2001, p. 9), “para que uma pessoa faça uso
social da leitura e da escrita, é necessário fazer uso das práticas reais que envolvam esses dois conhecimentos”. A interação social favorece a oralidade
e consequentemente a escrita. Uma criança que não faz uso da linguagem
oral terá bastante dificuldade na aquisição da escrita, pois uma complementa a outra.
Partindo dessa premissa, é importante tomar o conceito de alfabetização, levando-se em consideração que essa conceituação tem sido pontuada
por diferentes análises e enfoques, privilegiando, em alguns momentos, a
abordagem mecanicista do processo de aquisição da língua escrita pelas
crianças Apinayé, fundamentada na racionalidade técnica, cuja preocupação central é o como fazer, ao invés de direcionar-se para o aspecto de como
o aluno indígena aprende. E, em muitos casos, destacando tanto o caráter
processual, complexo, quanto a necessidade de articulação entre os diferentes enfoques sobre a temática, considerando a contribuição da Linguística e
da Sociolinguística, para alfabetização das crianças indígenas.
Para Soares (1999, p. 52), o processo de alfabetização, a partir da década de 80, leva em consideração dois principais fatores – a influência das ciências lingüísticas e a concepção psicogenética da aprendizagem da escrita
– em duas faces do processo ensino e aprendizagem da língua escrita, aqui
apontadas, para fins de melhor clareza da exposição, já que não representam momentos sucessivos, mas contemporâneos, não são processos independentes, mas inseparáveis: uma face é a aquisição do sistema de escrita, a
outra face é a ‘utilização’ do sistema de escrita para interação social, ou seja,
o desenvolvimento de habilidades de produzir textos.
Os aspectos observados neste trabalho permitem também caracterizar a alfabetização Apinayé como um processo sócio-histórico e cultural de
várias dimensões, exigindo as análises e os enfoques numa perspectiva mais
ampla, sem contudo, negar a especificidade da língua Apinayé, levando em
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
consideração as contribuições das ciências Linguísticas, da Psicologia, da
Antropologia, da Sociologia. Essa abordagem contribui para o estudo da
alfabetização na totalidade de suas especificidades dentro do processo ensino-aprendizagem Apinayé.
De acordo com as bases teóricas de Vigotski (1998), cuja contribuição
tem sido valiosa no campo da educação, elas esclarecem a discussão sobre
o aprendizado da escrita, relatando o processo de apropriação da escrita
como processo cultural, de caráter histórico, envolvendo práticas interativas. A aprendizagem da escrita refere-se, portanto, à aquisição de um sistema de signos que, assim como os instrumentos, foram produzidos pelo
homem em resposta às suas necessidades socioculturais e linguísticas.
A escrita, então, não deve ser considerada como mero instrumento de
aprendizagem escolar, mas como produto sociocultural. Assim entendida,
possibilita a exploração, no contexto da sala de aula, de diferentes textos,
explicitando os variados usos e funções que lhes são inerentes tanto na sociedade Apinayé, como na sociedade não indígena
Apesar dos avanços significativos dos estudos sobre o processo de
alfabetização Apinayé, verifica-se, em alguns casos, que a prática da escola indígena parece distanciada da funcionalidade da escrita no contexto
da sociedade, limitando-se aos usos mecanicista e descontextualizados,
conforme afirma Vigotski (1998, p.139), até agora, a escrita ocupou um
lugar muito estreito na prática escolar, em relação ao papel fundamental
que ela desempenha no desenvolvimento cultural da criança. Ensinam-se as crianças a desenhar letras e a construir palavras com elas, mas
não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se, de tal forma, a mecânica
de ler o que está escrito que se acaba obscurecendo a linguagem como
tal. Como podemos observar no recorte extraído da lição 2 da cartilha
Apinayé n° 1 – PUMẼ KAGÀ PUMU, ele ilustra muito bem essa prática
pedagógica.
Recorte da 2ª lição da Cartilha no 1
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Desta forma, o que se percebe é que a alfabetização transcende a prática do ler e do escrever, isto é, a alfabetização é um processo sócio-histórico multifacetado, envolvendo a natureza da língua escrita e as práticas
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culturais de seus usos. Segundo Frago (1993, p. 27), alfabetizar não é só
ler, escrever, falar sem uma prática cultural e comunicativa, uma política
cultural determinada. Percebe-se, dessa forma, que a concepção de alfabetização tem se ampliado no cenário socioeducacional, estimulando práticas
escolares diferenciadas visto que tais questões, de uma forma ou de outra,
chegaram às escolas indígenas Apinayé.
É importante observar que a criança indígena, no decorrer de seu dia-a-dia, vivencia usos de escrita apenas na escola, percebendo que se escreve
para comunicar alguma coisa, para auxiliar a memória, para registrar informações. Assim, recorremos à escrita, através da leitura, para obter informações e buscar entretenimento. Portanto está na hora de a escola indígena
parar também de ensinar apenas a escrita, para dar espaço a outra prática,
explorando as ideias, as emoções, as inquietações dos alunos indígenas, escrevendo e deixando-as escrever.
Partindo desse princípio, a escola indígena também precisa pensar a
alfabetização como processo dinâmico, como construção social da escrita,
fundadamentada nos diferentes formas de participação das crianças Apinayé nas práticas culturais de uso da escrita, transcendendo a visão linear,
fragmentada e descontextualizada presente nas salas de aula onde se ensina/aprende apenas a ler e a escrever. De acordo com Oliveira (1998, pp. 7071), a prática alfabetizadora de aquisição da língua escrita como processo
sociocultural é de fundamental importância para que, desde o início, a alfabetização se dê num contexto de interação pela escrita. Assim, deveria ser
banido da prática alfabetizadora escolar Apinayé todo e qualquer discurso
(texto, frase, palavra e palavras isoladas) que não esteja relacionado com o
dia-a-dia ou o imaginário das crianças indígenas,
O processo de alfabetização, ao longo dos anos, nas escolas Apinayé
tem sido organizado e orientado por metodologias propostas nas cartilhas
do SIL. Essas metodologias supõem que as crianças indígenas detêm os
mesmos conhecimentos e as mesmas experiências com a escrita, ou seja,
espera-se que as crianças indígenas cheguem à escola sem nenhuma construção teórico-prática acerca do ato de ler e de escrever. Por isso, a proposta
escolar de alfabetização indígena tem o mesmo ponto de partida das escolas não indígenas sem levar em consideração os diferentes níveis ou graus
de inserção da criança no mundo escrita.
Por outro lado, vale relembrar que dentro do contexto social Apinayé
e do contexto familiar da criança indígena não ocorrem práticas e usos da
escrita, de forma natural e espontânea, das quais ela participa direta ou
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
indiretamente. O letramento da criança indígena não decorre dessa participação, da vivência de situações em que o ler e o escrever possuem uma
funcionalidade, uma significação, visto que isso ocorre apenas no contexto
escolar. Essas crianças não possuem atos cotidianos, corriqueiros, de ler
um jornal, redigir um bilhete, ler um livro, fazer anotações, isto é, usar
textos escritos como fonte, seja de informação, seja de entretenimento, que
contribuam para que as crianças percebam as diferentes formas de apresentação do texto escrito, bem como para que identifiquem seus diferentes
sentidos e funções na escola ou fora dela.
Para Vigotski (1998, p. 110), o ponto de partida dessa discussão é o
fato de que o aprendizado das crianças começa muito antes de elas frequentarem a escola. Qualquer situação de aprendizagem com a qual a criança
se defronta na escola tem sempre uma história prévia. Assim, as crianças
começam a estudar aritmética na escola, mas muito antes tiveram alguma
experiência com quantidades. Tiveram que lidar com operações de divisão, adição, subtração e determinação de tamanho. Consequentemente, as
crianças têm sua própria aritmética pré-escolar, que somente os psicólogos
míopes podem ignorar.
Com base nessas premissas, vale ressaltar que o aprendizado da escrita, na escola indígena, coloca a criança diante de alguns dilemas referentes
à natureza desse objeto cultural, ou seja, a própria escrita. Citamos, por
exemplo, a arbitrariedade presente na representação gráfica de palavras, a
segmentação da escrita e a organização espacial da grafia. Quanto à representação gráfica das palavras, a criança indígena, a partir de hipóteses construídas na escola Apinayé acerca da relação fala/ escrita, especialmente na
fase de escolarização, leva a criança s escrever como fala. Segundo afirma
Cagliari:
Desde os primeiros contatos com a escrita, o aluno ouve o professor
dizer que o nosso sistema é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. Nosso sistema usa
letras, às quais são atribuídos valores fonéticos. Mas o uso prático desse
sistema não se reduz a uma transcrição fonética. Portanto, o professor
não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala, as
vogais, as consoantes, e representá-las na escrita por letras. Esse é o primeiro passo, mas não é tudo. Feito isso, o aluno precisa aprender que,
se cada um escrevesse do jeito que fala, seria um caos. (CAGLIARI:
1998, p. 354).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Desta forma, é preciso lembrar a existência da ortografia, orientando,
padronizando e a forma de escrever. As regras ortográficas, a natureza da
ortografia, devem ser socializadas com os alunos indígenas, a fim de permitir a compreensão da natureza das relações entre fala e escrita. Algumas
orientações iniciais, no processo de alfabetização, poderão ajudar o aluno
Apinayé a perceber regras que orientam a grafia das palavras em sua língua
materna e em português. Essas orientações, aliadas a usos funcionais da
escrita na escola e fora dela, constituem-se mais eficazes que os tradicionais
ditados e tarefas de cópias intermináveis.
A aquisição da escrita ortográfica, no entanto, constitui-se campo fértil em dificuldades para a criança. Comumente, no processo de alfabetização, as normas da convenção ortográfica não são socializadas, prevalecendo
como mecanismo importante na aprendizagem da ortografia as atividades
de alfabetizadora: a aquisição da língua escrita como processo sociocultural, cópias e ditados. É fundamental, então, a compreensão de que a aquisição da escrita ortográfica não ocorre passivamente, não se constitui em
armazenamento/memorização de formas corretas de grafar palavras, mas
pressupõe e requer um processo ativo de aprendizagem. (MORAIS, 2000).
Considerando a segmentação da escrita, vale ressaltar que as crianças
Apinaye, notadamente no processo de aquisição, encontram-se em constante conflito quanto às relações entre as pausas na fala e as pausas na escrita: “As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas
ou sinais de pausas (vírgulas, pontos) da escrita. A segmentação das palavras na escrita, indicada pelo espaço em branco, corresponde menos ainda
a pausas ou segmentações na fala.” (CAGLIARI, 1998, p. 127).
Para esse autor, não se escreve como se fala, considerando que existe
uma normalização ortográfica. Escreve-se da esquerda para a direita, e de
cima para baixo. Parece óbvio. Mas não é, tendo em vista que a descoberta
da escrita pelas crianças não ocorre homogeneamente, elas não aprendem
no mesmo ritmo e, como foi afirmado anteriormente nesse estudo, possuem diferentes níveis e graus de letramento. Esses aspectos, portanto, devem ser enfatizados na alfabetização de forma que os alunos possam construir concepções de escrita, coerentes com a natureza desse objeto cultural.
No que concerne à atitude do professor perante as “dificuldades” das
crianças indígenas na aquisição da escrita, via de regra, essas dificuldades
relacionam-se à escrita ortográfica, ocorrendo a troca de letras, supressão
de letras( visto que a maioria das vezes, a alfabetização acontece nas duas
línguas Apenai e português) e costumam deixar o professor alfabetizador
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
em estado de ansiedade por não saber como agir e, em determinados casos,
lançando mão daquilo que a intuição lhe diz.
A medida que a turma vai se tornando mais heterogênea, muitas são
as indagações suscitadas pelo professor. Indagações que vão ao encontro da
necessidade de um trabalho de alfabetização que se configure homogêneo
e mecânico. Numa alfabetização dessa natureza (mecânica) todos os alunos
indígenas são submetidos ao mesmo processo linear de alfabetização, apesar de se encontrarem em níveis diferentes de letramento e de alfabetização.
Essa prática contribui também para a perpetuação da desigualdade
na escola indígena, considerando que os alunos que encontram “dificuldades” permanecem no mesmo ponto, sem muitas chances de avançar, para
angústia de quem alfabetiza. Desta forma, as supostas dificuldades representam, na verdade, o nível de compreensão da criança em relação à escrita,
constituindo-se, na visão vigotskiana, o conhecimento potencial do aluno,
numa perspectiva de um conhecimento da realidade da criança indígena a
ser construída.
Desta forma, as interpretações da criança indígena na apropriação da
leitura e da escrita representam, de fato, o prenúncio de um conhecimento
futuro. Decorre, daí a importância de se considerar as experiências que os
alunos possuem, porquanto é imprescindível que a escola indígena perceba
e aproveite os saberes que os alunos construíram fora da escola, nos campos
da cultura, do aspecto sociocultural e linguístico.
Na verdade, as crianças que chegam às classes de alfabetização, na escola indígena, são crianças reais, capazes de aprender a ler e a escrever.
Resta que a escola identifique o seu percurso no processo de aquisição da
língua escrita, organizando suas atividades de modo que a vivência do ler
e do escrever, na sala de aula, seja rica, útil, podendo informar, transmitir
conhecimentos, entreter e, enfim, tenha a gama de usos e funções socioculturais que a caracterizam na sociedade indígena.
Nesta percepção, estão implícitas concepções de língua e de linguagem, pressupondo ambas na condição de artefatos culturais e de instrumentos de mediação do indivíduo com o outro e com o mundo. Língua e
linguagem constituem-se sistemas simbólicos, de natureza histórico-social,
permeando as interações sociais, tendo, portanto, como propósitos situações linguísticas significativas. (OLIVEIRA, 1992; MATÊNCIO, 1998; GERALDI, 1997.
Observar o desenvolvimento da escrita das crianças Apinayé nos anos
iniciais de sua escolarização, faz-se necessário um melhor entendimento
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
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acerca do nível das habilidades cognitivas, metacognitivas e motoras dessas
crianças. Com o objetivo de estabelecer relações entre elas e expressá-las de
uma maneira adequada. Além de constituir um dos principais instrumentos para o registro de contextualização, do processo de ensino/ aprendizagem das crianças indígena. Deste modo, adquire-se uma visão particular
de cada criança indígena e ao mesmo tempo integral. Para os professores
Apinayé é de extrema importância rever os métodos de alfabetização que
estão sendo aplicados na escola da Aldeia São José, a fim de evitar o fracasso no ensino e na aprendizagem da leitura e da escrita. E principalmente
do fracasso escolar que é um tema e um desafio que ainda permanece na
educação escolar Apinayé.
Prática Alfabetizadora: Aspectos Teórico-Metodológicos
As discussões feitas ao longo deste estudo dão conta de importantes
avanços nas produções teóricas a respeito do processo de alfabetização. Esses avanços estão, portanto, a requerer do professor alfabetizador indígena
um repertório de conhecimentos relacionados à especificidade do processo
de aquisição da língua escrita. São conhecimentos que se referem tanto aos
saberes concernentes à natureza da alfabetização das crianças indígenas,
quanto à ação didático/pedagógica empregada na escola dessa aldeia.
Os cursos de formação de professores indígenas para as séries iniciais
do ensino fundamental devem levar em conta que a ação pedagógica nas
referidas séries está diretamente ligada ao ensino da língua escrita. De certa
forma, o professor estará lidando com crianças em processo de alfabetização, algumas em fase de aquisição e outras na fase de desenvolvimento
de habilidades de escrita ou, ainda, com crianças em diferentes graus de
letramento.
Essa prática exige uma intervenção didática centrada na construção
de saberes linguísticos das crianças indígenas, entre eles a leitura e a escrita.
Para que essa intervenção didática ocorra de forma coerente e dinâmica,
o professor alfabetizador necessita construir competências para a organização e execução de uma prática pedagógica que se caracterize como um
saber-fazer-bem, envolvendo reflexão crítica sobre sua ação. Cagliari, ao se
referir à competência técnica do alfabetizador, afirma:
Os cursos de formação de professor têm se preocupado muito com
outros aspectos da escola, dando muitas vezes um valor indevido aos
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
aspectos pedagógicos, metodológicos e psicológicos. Como educador,
o professor precisa ter uma formação geral, e esses conhecimentos são
básicos. Como professor alfabetizador precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos. [...] Para ensinar alguém a ler e escrever, é
preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e como a escrita e a fala se relacionam. (CAGLIARI 1999, P. 130).
É importante, pois, que a formação do professor indígena alfabetizador privilegie também os aspectos ligados à importância da linguagem
oral na alfabetização, esclarecendo que a variação linguística deve ser parte
da prática pedagógica alfabetizadora e a aquisição da língua escrita como
processo sociocultural respeitada e tomada como ponto de partida nas
construções sobre o escrever na escola indígena. A aprendizagem da escrita
possui certas peculiaridades que envolvem o conhecimento linguístico, o
uso da fala e sua relação abstrata com a escrita.
Com base nesses pressupostos, o Curso de Formação em Magistério Indígena do Estado do Tocantins, ao longo de sua implantação, tem levado em
consideração as práticas pedagógicas centradas na construção dos saberes
dos povos indígenas do Tocantins, considerando a especificidade, a realidade sociolinguística e cultural de cada povo, numa tentativa de minimizar os
problemas relacionados a alfabetização nas escolas indígenas do Tocantins.
Portanto, compreender as peculiaridades presentes na aprendizagem
da escrita pelas crianças indígenas Apinayé, pode assegurar ao professor alfabetizador indígena determinadas intervenções pedagógicas. Assim, torna-se mais fácil para o alfabetizador entender que a escrita infantil possui
uma lógica própria, resultante de suas experiências com o universo letrado,
que não se coaduna com a lógica da escrita ortográfica. A análise da lógica
da escrita infantil pode mostrar ao professor o caminho percorrido pela
criança, evidenciando suas interpretações e hipóteses na leitura e na escrita,
bem como indicar a ação didática adequada a cada situação.
Na verdade, sem a adequada formação, na visão do professor a lógica
infantil na escrita passa a ser percebida como erro, devendo ser corrigida
através de tarefas estereotipadas que envolvem apenas o treino, a repetição,
sem permitir uma relação dinâmica entre o sujeito que escreve, ou tenta
escrever. A esse respeito afirma Soares:
Quanto às dificuldades enfrentadas pela criança nesse processo, se, anteriormente, eram consideradas erros que era preciso corrigir, e para
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isso os recursos eram, de novo, os exercícios ou “treinos” de imitação,
repetição, associação, cópia; hoje, no quadro de uma nova concepção
do processo de aquisição do sistema de escrita os erros são considerados construtivos (SOARES, 1999, P. 53).
Na prática tradicional da escola Apinayé, o professor alfabetizador,
por haver construído conhecimentos sobre a prática da escrita, de certa
forma, sente uma segurança no direcionamento de seu trabalho organizado
dentro da lógica do controle da aprendizagem dos alunos Apinayé. Por essa
razão, resiste, de certo modo, às novas propostas. Essa resistência talvez se
dê, também, como resultado de uma formação inadequada ou como decorrência da falta de espaço, dentro da escola indígena para as discussões,
estudo e reflexão sobre a prática alfabetizadora, tanto de língua materna
(Apinayé) com o de língua portuguesa.
Com relação às práticas construtivistas ou socioconstrutivistas utilizadas nas escolas indígenas, percebe-se que algumas propostas inseridas neste
ponto de vista estão sendo usadas nas escolas indígenas e, consequentemente, pelos professores indígenas. Essas propostas, de certa forma, buscam o
rompimento com as práticas tradicionais de alfabetização, porém o professor indígena não participa dos momentos de planejamento delas e, tampouco, parece convenientemente preparado para aplicá-las nas suas aulas.
Com base nessa premissa, Oswald (1997), ao analisar as implicações
pedagógicas das diferentes correntes teóricas em relação ao aprendizado da
leitura e da escrita, aponta objetivamente que elas delineiam práticas escolares dicotômicas. A vertente de cunho tradicional, por exemplo, orienta a
ação pedagógica baseando-a na transmissão de conhecimentos, situando o
aluno como sujeito passivo. Neste caso, a aprendizagem da escrita é orientada, inicialmente, pelo treino de habilidades perceptivo-motoras. Parte-se do pressuposto de que a criança não detém conhecimentos relativos
ao objeto de sua aprendizagem, necessitando, portanto, ser submetida a
um processo de preparação. Ao analisar as contribuições da teoria construtivista, a autora enfatiza, entre outros aspectos: o papel do aluno como
sujeito que age sobre a escrita, construindo hipóteses e concepções acerca
do que representa esse objeto sociocultural e sobre como representa. Nesse
sentido, a aprendizagem tem contornos diferentes das práticas tradicionais,
pois valoriza a produção espontânea da criança, libertando-a dos treinos
mecânicos de leitura e de escrita. Outra contribuição importante, oriunda
dos estudos construtivistas, refere-se à concepção de erros de escrita. Tais
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
erros, nas práticas tradicionais, representam sérios problemas, servindo,
em muitos casos, para rotular o aluno como disléxico ou algo similar.
O papel do professor indígena, nesta perspectiva, tomando o aluno
como ser social que se apropria da escrita nas interações com diferentes
interlocutores ( na escola), refere-se à organização de práticas interativas de
ensino-aprendizagem, que provoquem o desenvolvimento de suas concepções sobre o objeto de conhecimento. Essa compreensão do aprendizado
da escrita implica interpretar também os erros ortográficos das crianças
indígenas, na alfabetização, como conhecimento potencial acerca da escrita, indicando um conhecimento real a ser construído, visto que, segundo
Vigotski:
A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda
não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções
que amadurecerão, mas que estão presentes em estado embrionário.
Essas funções poderiam ser chamadas de ‘brotos’ do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento mental, retrospectivamente, enquanto
a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento
prospectivamente. (VIGOTSKI, 1998, P. 113).
Deste modo, vale ressaltar que o professor indígena alfabetizador
pode compreender a dinâmica da aprendizagem das crianças indígenas,
percebendo o significado da prática escolar na condução desse processo e
no desenvolvimento das funções psicológicas superiores da criança. Dessa
forma, a ênfase nos princípios da racionalidade técnica pode limitar a escrita à mera habilidade motora, fragmentando e fossilizando o saber escolar da criança Apinayé.
Dessa forma, o fato de não estar preparado, do ponto de vista teórico-metodológico, para o desenvolvimento das novas propostas, provocou e
tem provocado sérios equívocos na prática pedagógica do professor indígena alfabetizador. Esses equívocos referem-se ao papel do professor indígena na sala de aula que, em razão da aplicabilidade dessa proposta, sem a
sua adequada preparação, termina por deixar a turma entregue a situações
espontâneas de aprendizagem, tanto em língua materna, como em língua
portuguesa. Fato como esse tem se repetido nas escolas Apinayé, uma vez
que muitas vezes o professor indígena não está preparado para essa prática
e conta apenas com a prática tradicional, decorrente de sua experiência do
dia-a-dia.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Francisco Edviges Albuquerque
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Portanto, diante desse cenário, é importante tratar de repensar a formação do professor indígena, para o início da escolarização, situando a
escrita tanto em língua materna com em português como um sistema de
signos culturalmente construídos, de modo que a aprendizagem se caracterize como processo de desenvolvimento de funções intelectuais, mediado
pelo fator histórico, sociocultural e linguístico, pelo signo e por outros. Por
outro lado, trata-se de compreender que a formação do professor indígena alfabetizador necessita considerar os saberes próprios das crianças que
emergem na prática alfabetizadora
A Relação Fala × Escrita na Escola de São José
É evidente que a linguagem oral difere da linguagem escrita, visto que
cada uma segue um esquema distinto. Não podemos transcrever para a escrita exatamente como falamos, uma vez que a escrita é a representação da
fala, não é a transcrição dela. Porém, as duas se encontram e se completam
no processo de alfabetização e letramento. A análise acerca da linguagem
oral e escrita é descrita por Marcuschi (2001, p.20) da seguinte forma:
A relação oralidade e escrita não pode ser mais vista de forma dicotômica, porque "ambas permitem a construção de textos coesos e coerentes", permitindo a elaboração de pensamentos abstratos e variações
estilísticas sociais e dialetais. As limitações e alcances de cada uma são
fornecidas pelos meios básicos de sua realização, ou seja, som e grafia.
ensino da língua portuguesa nos anos iniciais: eventos e práticas de
Letramento.
A fala e a escrita representam realidades diferentes da língua que, conforme Cagliari (1997), estão intimamente ligadas em sua essência, embora tenham uma realização própria e independente nos usos dessa língua.
Quando falamos, nem sempre pronunciamos as palavras da mesma forma
como as escrevemos. Cabe aqui considerar a questão dos alunos que são
imediatamente corrigidos pelo professor, quando usam formas como barde, na fala e, consequentemente, na escrita. Pensamos ser necessário refletir
sobre alguns pontos fundamentais relativos a esse fato, visto que fato como
esse também ocorre na língua Apinayé.
É importante que a atitude do professor alfabetizador diante do aluno
que fala diferente da variedade padrão (e que às vezes ou muitas vezes nem
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
sequer é a fala padrão da professora) seja a de quem entende o valor cultural e histórico das variedades inguísticas dos falantes indígenas. Partindo
disso, conduz o aluno a uma reflexão que lhe possibilita dominar, também,
a variedade padrão para usá-la quando necessária. Por isso, é possível, por
exemplo, explicar que nas diversas aldeias Apinayé as pessoas também falam de formas diferentes, embora em todas elas escrevam da mesma forma,
como é o caso da palavra gutõj que pode ser pronunciada pelos Apenayé,
usando-se o som de k para a letra g, assim como em diferentes aldeias Apinayé a palavra pàtre pode aparecer pronunciada, conforme o uso proveniente da sua cultura, utilizando-se o som de l para a letra r. Além disso,
é importante notar que, na fala, essa palavra, comumente, aparece como
pàle, o que não é usado na norma escrita dessa língua. A esse respeito,
Franchi (1999, p.180) recomenda que, .em vez de entrar no esquema das
.correções da fala, o professor deve reorientar os alunos de uma questão
normativa para uma questão de fato: que é interessante descobrir como as
palavras podem ser usadas de modos diferentes pelas pessoas.
Identificar com o aluno o valor cultural da variedade usada por ele é
fundamental para que, a partir da compreensão de como ocorre o uso da
língua, ele possa apropriar-se de mais uma variedade: a padrão que, segundo Suassuna (1995), lhe permitirá ter acesso aos bens culturais por ela
veiculados. Outro ponto fundamental a considerar é que se o aluno percebe
a escrita como transcrição da fala, em casos como o citado acima, um aluno
Apinayé ao escrever pàle não comete nenhum erro, uma vez que a grafia
corresponde à forma de falar.
Ao referir-se a essa questão, Cagliari (1997, p.31) defende que, se a escola distinguisse claramente os problemas de fala dos problemas de escrita,
veria essas escritas como escritas de fala e feitas com uma propriedade fonética tão grande que chega a ser comovente a consciência que as crianças
têm do modo como falam. O autor prossegue esclarecendo que é preciso
levar os alunos a perceber que eles não falam de uma única maneira, mas
de várias, conforme os dialetos de cada um, e que não é possível que todos
escrevam as palavras como as falam, porque isto causaria uma confusão e
tornaria a leitura muito difícil entre os falantes de tantos dialetos. Ele assevera: se a escrita funciona assim, ninguém está obrigado a ler as palavras de
uma única forma. (CAGLIARI, 1997, P. 32).
Para esse autor, a escrita ortográfica é o único uso da língua portuguesa que não admite variação e é evidente que os alunos devem chegar a dominar esse uso, porém é preciso que as crianças possam escrever utilizando
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o conhecimento de que elas dispõem. Isto oportuniza ao professor alfabetizador o ensino da distinção entre fala e escrita e lhe possibilita prestigiar a
fala e a escrita convenientemente, mostrar as variações dialetais e explicar
por que se usa a forma ortográfica convencionada. Se tivéssemos símbolos
gráficos únicos correspondentes a cada unidade da fala e se cada símbolo
gráfico representasse apenas um fonema, seria muito fácil ensinar a ler e
escrever, porém talvez não seria possível organizar a escrita de forma que
todos entendessem. Não há uma correspondência termo a termo na relação
entre língua falada e língua escrita, o que, de certa forma, a torna mais rica.
Há livros para alfabetizar que, segundo Cagliari (1999,) apresentam erros
grosseiros de fonética porque confundem fatos da fala com fatos da escrita.
O exemplo citado pelo autor refere-se à interpretação dos valores fonéticos da letra x em que se pretende distinguir os sons s e ss, quando na
verdade eles representam um único som. Outro equívoco apontado por
ele é o das propostas de atividades que consideram como sendo a mesma
coisa o ba de banho e o ba de batata. Quando a criança está adquirindo a
escrita, observa muito a própria fala, porque esta se constitui como única
referência de conhecimento já adquirido. Ocorre que os livros ou as chamadas cartilhas não consideram isso e propõem que os alunos interpretem
os fenômenos fonéticos da fala, usando como modelo a forma escrita e não
a realidade fonética das palavras. É preciso aproveitar a habilidade que as
crianças têm de refletir sobre a própria fala para, explorando a linguagem
oral, fazer com que as análises que elas fazem se tornem conhecimentos
estabelecidos.
Considerações finais
Neste trabalho, refletimos sobre os aspectos que envolvem a questão da
alfabetização indígena Apinayé. Sem a pretensão de esgotarmos tal assunto,
visto que a temática abordada é de grande complexidade, julgamos ser importante considerar que a aprendizagem da escrita pela criança indígena não
se limita apenas ao exercício de grafias, mas também se caracteriza como um
momento de abertura e estímulo para que a criança indígena reflita sobre
a própria linguagem e atue sobre ela e sobre as formas socializadas de sua
representação. Portanto é de fundamental importância que o professor alfabetizador conheça a realidade lingüística da criança, para que essa abertura
aconteça. Assim, a variedade linguística usada por ela deve ser valorizada
como ponto de partida para reflexão sobre o funcionamento da língua.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Aquisição da Escrita pelas Crianças Apinayé de São José
Na verdade é o conhecimento dessa variedade que permitirá ao professor alfabetizador entender os “erros.”, identificando, através deles, as hipóteses acerca do processo de alfabetização das crianças indígenas em sala
de aula, através de pequenos grupos de alunos trabalhando e elaborando
textos feitos por toda a turma, junto com o professor, no quadro, respectivamente, para então, ajudá-las a progredir. A maioria desses ”erros” revela
ligações possíveis da relação letra e som/fala.
Crianças indígenas que, desde o início, têm liberdade para escrever,
da forma como imaginam que seja, acabam alcançando, na escrita, a mesma competência e autonomia que alcançaram quando aprenderam a falar.
Refletir sobre a linguagem falada, que a criança indígena já domina com
segurança, para, a partir disso, ensinar a escrita em língua materna ou em
português é, sem dúvida, o caminho mais seguro para o sucesso na alfabetização dessas crianças. É necessário, pois, que se estabeleça uma forte conexão entre a oralidade e a escrita, numa relação que marque as especificidades de cada uma enquanto modos de significação verbal, não apenas com
exercícios de transcrição de expressões orais, mas, inclusive, trabalhando
com as unidades mínimas da escrita em atividades que as contextualizem e
as carreguem de significação, como é o caso das modificações e reorganizações de letras e de palavras.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Educação Bilíngue, Bilinguismo e
Interculturalidade no Contexto Escolar
Apinayé: o professor de língua materna
em Perspectiva1
Severina Alves de Almeida 2
Francisco Edviges Albuquerque 3
Introdução
Quando falamos em bilinguismo imediatamente nos remetemos a
ideia de que numa sociedade existem sujeitos com competência para se
comunicar em duas línguas. Em relação à interculturalidade, se pressupõe
que duas ou mais culturas estão, de alguma forma, se relacionando. Tanto
uma situação quanto a outra se imbricam na educação escolar. O diferencial está no contexto em que ocorre cada uma dessas manifestações.
A categoria “Escola Indígena”, que baliza nosso estudo, tem no binômio
“bilinguismo e interculturalidade” sua mais expressiva identidade. Agregada
a essa “Escola Indígena”, se sobrepõe a interculturalidade, considerada por
alguns teóricos, por exemplo, Paula (1999), Maher (2006), Grupioni (2006),
como condição primordial para que seja respeitada a especificidade da educação escolar indígena, sendo os fenômenos “bilinguismo” e “interculturalidade” elementos constitutivos dessa educação que pretende ser “diferenciada”.
Com efeito, essa “educação diferenciada” é uma conquista dos povos
indígenas brasileiros, garantida por instrumentos jurídicos nacionais e
1Projeto de pesquisa: Interculturalidade e Educação Escolar Apinayé: uma experiência
bilíngue nas escolas das aldeias São José e Mariazinha, vinculado ao Mestrado em Língua
e Literatura, do PPGL/UFT/ Campus de Araguaína.
2Mestranda e bolsista do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena,
vinculado à CAPES/SECAD/INEP.
3Professor Adjunto da Universidade Federal do Tocantins – UFT – Campus de Araguaína,
e orientador da pesquisa e coordenador Programa do Observatório de Educação Escolar
Indígena, vinculado à CAPES/SECAD/INEP/UFT.
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Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
internacionais e, segundo Grupioni (2001), tem apresentado avanços importantes. Para esse autor, a diversidade das culturas e a riqueza de conhecimentos, saberes e práticas associadas à educação dos povos indígenas,
tantas vezes negada pelo saber hegemônico e pelo poder autoritário, hoje é
reconhecida e valorizada, abrindo espaço para o reconhecimento e a aceitação da diferença e do pluralismo.
Ademais, uma educação que valorize a cultura dos grupos indígenas
brasileiros é um direito assegurado pela Constituição Federal do Brasil
(CRF/1988) que, em seus artigos 210 e 215 faz alusão ao uso da língua materna, simultaneamente com a língua portuguesa. Esses dispositivos favorecem a construção de um projeto educativo que se constitua num instrumento de valorização da cultura indígena, e não uma imposição dos costumes e
saberes concebidos segundo os interesses da sociedade nacional.
Nesse sentido o RCNEI (200) no capítulo que trata dos objetivos da
Educação Escolar Indígena, certifica que a educação escolar deve ser um
instrumento de afirmação da cultura indígena e também da preparação
desses povos para se relacionarem com a sociedade de fora conforme o
interesse de cada comunidade. Portanto, a escola indígena deve ser um instrumento de preparação de alunos indígenas para que possam fazer cursos
universitários e ter domínio sobre saberes da sociedade envolvente para
transmitir seu conhecimento e defender seu povo (RCNEI 2002).
A educação escolar, nessa perspectiva, assume o papel de não apenas promover a aquisição dos conhecimentos, mas de agenciar o diálogo
(Freire, 1997) entre povos de culturas diferentes, assegurando para que os
indígenas conquistem a autonomia sobre os assuntos que são relevantes
para o grupo e mantenham, com os demais povos brasileiros, uma relação
de alteridade.
Tais proposições dão a dimensão da importância que assume esse
trabalho que discute o bilinguismo e a interculturalidade tendo em vista
o contexto escolar Apinayé, uma vez que a diversidade das culturas admite, em cada contexto, uma situação de bilinguismo com características
específicas. O Professor de Língua Materna, isto é, o professor bilíngue das
escolas indígenas Apinayé Mãtyk e Tekator situadas nas aldeias São José e
Mariazinha estão no centro do estudo.
A “Educação Bilíngue e Intercultural” inicia nossa discussão quando,
em diálogo com nossos interlocutores, os teóricos, fazemos um diagnóstico
dessa categoria educacional, aprofundando conceitos e formulando conjecturas, enfatizando, também, as línguas indígenas no geral e a alfabetização
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
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bilíngue em particular. Na sequência, a discussão versa sobre o “Professor
de Língua Materna”, identificando em suas práticas pedagógicas fatores que
promovem a interculturalidade nas escolas estudadas.
Por último, fazemos uma retrospectiva histórica da educação escolar
nessa sociedade, focalizando os acontecimentos desde a década de 1960,
com o trabalho de Patrícia Ham, até os dias atuais, com as pesquisas desenvolvidas pelo professor Francisco Edviges Albuquerque, que coordena o
Projeto de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do Observatório de Educação Indígena/ CAPES/SECAD/
INEP/UFT.
Educação Bilíngue e Intercultural
O que vem a ser uma “Educação Bilíngue e Intercultural”, e como ela
se manifesta? Inicialmente é importante que se distinga “bilinguismo” de
“educação bilingue”. Para Saunders (1988, p.8) "Bilinguismo simplesmente
significa possuir duas línguas". Segundo Quadros (1999) o bilinguismo é
uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Esse conceito mais geral de
bilinguismo é determinado pela situação sócio-cultural e histórico da comunidade como parte do processo educacional. O bilinguismo atravessa a
fronteira linguística e inclui o desenvolvimento da pessoa dentro da escola
e fora dela, numa perspectiva sociocultural.
A Educação Bilíngue é aquela que ocorre simultaneamente em duas
línguas, sendo uma a língua materna e a outra, uma segunda língua. Dessa
forma, a educação indígena Apinayé é bilíngue desde que se efetive um
ensino na língua indígena (materna) e em português. Para Harmers e Blanc
(2000:189) Apud Megale (2005:24) a Educação Bilíngue pode ser entendida
como “qualquer sistema de educação escolar no qual, em dado momento
e período, simultânea ou consecutivamente, a instrução é planejada e ministrada em pelo menos duas línguas”. E uma educação intercultural? É
aquela que se desenvolve num ambiente onde interagem diferentes culturas
ou, segundo Grupioni (2002:87), “é uma educação onde se faz presente a
diversidade de culturas e a riqueza de conhecimentos, saberes e práticas a
elas associadas”.
Segundo Ouellet (1991), o conceito de educação intercultural designa
toda a formação sistemática que visa a desenvolver melhor compreensão
das culturas nas sociedades modernas; maior capacidade de comunicação
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
98
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
entre pessoas de culturas diferentes; atitudes mais adaptadas ao contexto
da diversidade cultural, através da compreensão dos mecanismos psicossociais e dos fatores sociopolíticos capazes de produzir racismo; maior capacidade de participar na interação social, sendo esta vista como criadora
de identidades e promotora de sentido de pertença comum à humanidade.
Podemos dizer que a educação intercultural, enquanto instrumento
que nos ajuda a interferir e a intervir no mundo que nos rodeia, inscreve-se
numa perspectiva mais ampla, como é o caso da educação para a cidadania,
em que a coesão social aparece associada à valorização da diversidade. As
iniciativas que promove correspondem a cinco preocupações e/ou valores:
coesão social (procura de uma pertença coletiva); aceitação da diversidade
cultural; igualdade de oportunidades e equidade; participação crítica na
vida democrática; preocupação ecológica (Ouellet, 2002). Já Banks (1993)
define-a como uma ideia, um movimento de reforma educativa e um processo, cujo objetivo é a mudança estrutural das instituições educativas de
modo que os alunos de diversas etnias e grupos culturais venham a ter
oportunidades iguais para alcançarem o sucesso escolar. Na medida em que
a educação intercultural se constitui como um instrumento para que todos
os alunos possam realizar o seu potencial, Banks também a chama de educação para a liberdade. (BANKS, 1993).
Com efeito, quando falamos de educação intercultural, estamos nos
referindo a um conjunto de dimensões presente nos múltiplos contextos
educacionais que, preferencialmente, devem permear a escola como um
todo e a vida social no seu conjunto. Segundo Banks (1993), a educação ou
é intercultural ou não é uma boa educação4, de sorte que a interculturalidade envolve, em última análise, um movimento e um processo de conscientização pessoal e de criação de novas oportunidades de inclusão para todos.
Nesse sentido, Henriques et. alli (2007) assinalam que a interculturalidade considera a diversidade cultural no processo de ensino e aprendizagem e, sendo assim, a escola deve trabalhar com os valores, saberes tradicionais e práticas de cada comunidade e garantir o acesso a conhecimentos
e tecnologias da sociedade envolvente relevantes para o processo de interação e participação cidadã na sociedade majoritária. Com isso, as atividades
curriculares devem ser significativas e contextualizadas às experiências dos
estudantes e de suas comunidades.
Outra constatação importante feita por Henriques et. al. (2007), é que
4. Tradução livre disponível http://www.entreculturas.pt. Acesso dia 27-Jul-2010.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
99
as escolas indígenas se propõem a ser espaços interculturais, onde se debatem e se constroem conhecimentos e estratégias sociais sobre a situação de
contato e, sendo assim, podem ser conceituadas como escolas de fronteira
- espaços públicos em que situações de ensino e aprendizagem estão relacionadas às políticas identitárias e culturais de cada povo indígena. Portanto, a educação escolar indígena problematiza enfaticamente a relação entre
sociedade, cultura e escola, reassociando a escola a todas as dimensões da
vida social, e estabelecendo novos sentidos e funções a partir de interesses
e necessidades particulares a cada sociedade indígena. Assim, a escola indígena será específica a cada projeto societário e diferenciada em relação a
outras escolas, sejam de outras comunidades indígenas, sejam das escolas
não indígenas.
Com efeito, o direito a uma educação intercultural para as sociedades indígenas é contemplado também na esfera internacional, evidenciado
através de instrumentos jurídicos. Sobre isso Grupioni assim se manifesta:
[...] Uma série de instrumentos e convenções internacionais estabeleceram
princípios relativos ao reconhecimento ao respeito e à valorização dos modos
de vida e das visões de mundo de grupos minoritários que precisam ser reconhecidos e levados em consideração pelas políticas públicas voltadas à oferta de
programas educacionais em áreas indígenas e pelos técnicos governamentais
responsáveis por sua implementação. Conhecer esses instrumentos, estudá-los,
compreendê-los e torná-los efetivos como parâmetros que podem subsidiar e
gerar novas práticas é tarefa urgente, tanto para os povos indígenas no Brasil
quanto para os técnicos governamentais responsáveis por sua proteção e assistência. O primeiro passo é conhecê-los (GRUPIONI 2001:91).
Percebe-se, assim, o caráter de política pública que assume a educação
ofertada aos povos indígenas, cabendo ao Estado levar a essas comunidades
os avanços advindos de pactos e conferências internacionais que contemplam reivindicações importantes aclamadas por etnias espalhadas mundo
afora, promovendo e ratificando um diálogo entre os indígenas das diferentes nações e as demais sociedades, ao mesmo tempo em que se exercita a
experiência inquietante da alteridade.
Referindo-se às conquistas educacionais alcançadas pelos povos indígenas no Brasil, Lopes da Silva (2001) constata que estas são inegáveis.
Entretanto, ela admite que existe uma distância considerável separando a
escola rural ou missionária e catequética, presente entre os povos indígenas
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
100
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
ainda no século XX, do reconhecimento oficial e legal da especificidade da
escola e da educação escolar indígena, defendidas como necessárias e legitimamente diferenciadas em relação às demais escolas brasileiras. Segundo
a autora, essas conquistas são largamente contempladas em deferentes instâncias legais, pois os povos indígenas brasileiros têm
[...] no plano jurídico, o reconhecimento ao direito, à diferença sociocultural e à valorização de suas línguas, modos e concepções; no plano
político, o surgimento de associações locais ou regionais de professores índios, que realizam encontros de trabalho, discussão, reciclagem
e revisão crítica de sua atuação. [...] no plano pedagógico, a criação de
escolas indígenas autônomas mas reconhecidas pelo sistema nacional
de educação, tendo regimento, currículo e pedagogia próprios, defendidos de acordo com as particularidades de cada situação local, por
obra do trabalho de professores e comunidades indígenas, e os cursos
específicos de formação de professores índios (LOPES DA SILVA 2001,
p.103-4).
Entretanto um aparato jurídico e normativo, por mais abrangente que
seja, não é garantia efetiva de uma educação diferenciada, intercultural e
bilíngue para as sociedades indígenas brasileiras. Isso porque, em nossa
pesquisa com os Apinayé, identificamos que os currículos encaminhados
às escolas das aldeias são os mesmos utilizados nas escolas não indígenas e,
portanto, descontextualizados de sua realidade. Constatamos também que
os professores não índios enfrentam a barreira linguística, tendo que lecionar falando numa língua que não é compreendida pela imensa maioria dos
alunos. Não bastasse isso, existe o fato de os alunos indígenas serem obrigados a se submeter a avaliações externas de abrangência nacional, atendendo
às exigências corporativas, consequência das políticas neoliberais presentes
em todo sistema educativo brasileiro, mas com maior intensidade no Ensino Fundamental4, comprometendo a interculturalidade, razão de ser das
escolas indígenas.
Nessa perspectiva, Lopez e Sichra (2007, p.110) sustentam que a Educação Bilíngue e Intercultural não pode ser entendida como um modelo
rígido, que tenha que ser aplicado de forma padronizada. Antes, deve se
apresentar como uma estratégia educativa que deve ser adequada e diferenciada, em sua execução, às características sociolinguísticas e socioculturais dos educandos e de suas comunidades. Sua flexibilidade e sua abertura
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
101
também estão relacionadas com a importância da participação indígena
na construção de propostas educativas, especialmente no aspecto cultural.
Para isso é preciso incorporar visões e conhecimentos tradicionais e depois
estabelecer pontes para o diálogo e a interação com a sociedade nacional,
com suas visões e conhecimentos.
Línguas Indígenas e Alfabetização Bilíngue
A década de 1990 veio consolidar os dispositivos da Constituição Federal do Brasil (CFB/1988), quando foi promulgado um Decreto Lei5 que
delegou ao MEC - Ministério da Educação - a execução de políticas públicas voltadas para a educação escolar indígena em substituição à FUNAI
– Fundação Nacional do Índio - órgão responsável pelo setor até então no
País. Esse Documento Legal transfere a organização da educação indígena
aos Estados e Municípios, a qual passa a figurar nos documentos educacionais posteriores: LDB - Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional
(1996); PDE - Plano Nacional de Educação (1998) e no RCNEI - Referencial Nacional para as Escolas Indígenas (2002).
No tocante à situação linguística no Brasil, ao contrário do que reza o
senso comum, nós somos um país multilíngue. O idioma português é apenas a língua oficial. Além desta, temos as línguas faladas pelos imigrantes
que aqui chegaram para trabalhar na lavoura e também as línguas nativas
dos povos que já habitavam essas terras antes da chegada dos europeus6.
Segundo Teixeira (2000:291), há pelo menos 200 outras línguas que são
faladas pelas famílias brasileiras, de forma regular, como uma segunda língua que se fala em casa, ou às vezes até como primeira língua, por exemplo,
espanhol, alemão, italiano, romeno, sírio, krahó, waiâpi, kaingng, tikuna,
makuxi, apianyé, etc. As cinco primeiras são línguas trazidas para o Brasil
5. O Decreto Presidencial n° 26, de 1991, atribuiu ao MEC a incumbência de integrar a
educação escolar indígena aos sistemas de ensino regular, bem como coordenar as ações
referentes a estas escolas em todos os níveis de ensino. Essa tarefa foi, nas três décadas
anteriores, atribuída ao órgão tutor, a Fundação Nacional do Índio – FUNAI.
6. O Brasil tem hoje uma população de 270.000 índios remanescentes de uma população que
pode ter sido de 6 a 10 milhões!. Este contingente está distribuído entre mais ou menos
200 povos que falam cerca de 180 línguas. Há mais povos do que línguas porque alguns
desses povos perderam completamente suas línguas. Outros as mantêm integralmente
de forma a atender a todas as suas necessidades. Na verdade, eles só passam a precisar do
português no momento em que o contato com o branco se torna obrigatório e sistemático
(Teixeira, 2000:296).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
no início da colonização, e as outras seis já eram faladas no Brasil antes
da chegada dos colonizadores. Na época em que os europeus chegaram ao
Brasil, falavam-se mais ou menos 1500 línguas indígenas, mas atualmente
falam-se apenas 180, afirma Grupioni (2001). Para Teixeira (2000), apesar
do violento processo de destruição a que foram submetidos, ainda hoje há
grupos indígenas que só falam sua língua materna, enquanto há outros que
já perderam a língua materna e só falam o português.
Em relação às línguas indígenas no Brasil, Teixeira (2000, p. 296) informa que estas se dividem em três troncos já identificados pelos linguistas e dois troncos que permanecem sem identificação. Os troncos principais são:
Tupi: com as famílias tupi-guarani, juruna, ariqueme, tupari, mundurucu, ramarama e mondé. Estas famílias geraram dezenas de línguas,
entre elas tupi, guarani, aveti, cinta-larga, apiacá dos tapajós e puruborá. Exemplos de dialetos destas famílias são o tupari, mequém, urucu,
aruá e asurini.
Macro-jê: com as famílias jê, camacã, maxacali, coroado, cariri e bororo. Entre as línguas destacamos timbira, caiapó, pataxó, botocudo, puri
e apinayé.
Aruaque: com as famílias aruác e aravá que falam, entre elas, as línguas
paresi, aruã, maniteri e manauá. Entre as dezenas de dialetos estão o
terêna, guaná, apurinã, vainumá, tatu e tapuia.
Nos dois troncos ainda não identificados encontram-se as famílias: caribe, tucano, nhambiquara, pano e mura; e as línguas: ianomâmi, sanumá, pimenteira, paravá, oti e tucumá. Entre os dialetos oriundos dessas
línguas estão o pariri, apiacá, vaimiri, txuna, macu, mura, torá, maxubi
e canoê.
Ainda de acordo com Teixeira (2000, p.300), o tronco Tupi é o maior
e mais conhecido das línguas indígenas brasileiras, mas há o tronco Macro-Jê, o qual é constituído por aproximadamente quarenta línguas agrupadas
em mais ou menos 12 famílias. A Autora afirma que os constituintes do
Tronco Macro-Jê situam-se principalmente em regiões de campos cerrados
que vão desde o sul do Maranhão e Pará em direção ao sul do país passando
por Tocantins, Goiás e Mato Grosso, indo até os campos meridionais dos
estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
No que concerne à alfabetização em língua indígena, seus primeiros
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
103
indícios datam do ano de 1956 quando se instalou no Brasil o SIL, Summer
Institute of Linguistics7, que tinha como propósito a conversão dos gentios
ao cristianismo e a domesticação das diferenças, conforme Silva e Azevedo (2000). Para esses autores, não se tratava mais de negar às populações
indígenas o direito de se expressarem em suas línguas, mas de “impor-lhes
o dever de adotar normas e sistemas ortográficos gerados in vitro que, de
resto, nunca funcionam bem” (SILVA E AZEVEDO 2000, p.151).
O que esses autores estão nos relatando é que as línguas indígenas
passaram a representar um meio de educação desses povos a partir de valores e conceitos “civilizados”, pois ao invés de abolir as línguas e as culturas
indígenas, “a nova ordem passou a ser a documentação desses fenômenos
em caráter de urgência sob a alegação dos famigerados riscos iminentes de
desaparecimento” (Silva e Azevedo 2000, p.151-2), e a diferença deixou de
representar um obstáculo para se tornar um instrumento do próprio método civilizatório.
É notável a conotação política desse tipo de ação, quando se percebem intenções de alienação. Porém, esses autores advertem que não se deve
esquecer que não por acaso a escola bilíngue do SIL é responsável pelo
surgimento de um personagem essencialmente problemático e ambíguo,
o “monitor bilíngue, que não é outra coisa senão um professor indígena
domesticado e subalterno e é, portanto, muito menos alguém que monitora do que alguém que é monitorado por outro, assim como os capitães de
areia8" (SILVA E AZEVEDO 2000, p. 152).
Esses autores admitem também, que o modelo de escola bilíngue que
utiliza as línguas indígenas como meio de alfabetizar ganharam projeção
ainda na década de 1970. Para eles, a defesa pura e simples do Bilinguismo,
feita de maneira acrítica, acarreta problemas para os próprios professores e
comunidades indígenas, uma vez que alguns professores têm manifestado
preocupação com o sentido do termo “bilíngue”, pois este se tornou frequente em diversos documentos sobre educação escolar indígena, produzidos por entidades indigenistas e mesmo em projetos de leis, muitos deles
7. O SIL é um organismo ligado a uma fundação norte-americana cujo objetivo principal é
a tradução da Bíblia em diferentes línguas. No Brasil, desde 1991, se intitula Sociedade
Internacional de Lingüística. (Silva e Azevedo, 2000, p. 151).
8. “Capitães de Areia” foi uma figura criada na época do Serviço de Proteção aos Índios, para
servir de interlocutor entre a comunidade e o SPI e, posteriormente, a FUNAI. Hoje em
dia, em várias regiões do Brasil, as lideranças indígenas se auto-intitulam capitães e, não
mais, pelo nome na língua nativa do grupo. (Silva e Azevedo, 2000, p. 152)
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
elaborados com a assessoria de especialistas em línguas indígenas. Todavia,
Silva e Azevedo (2000, p.153) acreditam que por razões inerentes à própria
estrutura social de cada grupo indígena em particular, como, por exemplo,
os que habitam o Alto do Rio Negro, onde praticamente toda a população
fala mais de uma língua indígena, qual delas deve ser eleita a língua materna e qual delas deve ser esquecida, já que bilíngue, no contexto da discussão
sobre educação escolar brasileira, sempre quer dizer uma língua indígena
e o português.
Ainda de acordo com Silva e Azevedo (2000), outros professores têm
preocupação oposta. Se as escolas indígenas devem ser bilíngues, o que fazer com as escolas indígenas dos povos que, por razões históricas, falam
exclusivamente o português? Segundo esses autores, são muito numerosos
os povos que, por força da violência exercida no passado pelas agências
da sociedade brasileira, não tiveram alternativa senão o abandono de suas
línguas tradicionais (como é o caso de muitos dos povos indígenas do nordeste). São povos que saíram de uma situação monolíngue em sua língua
materna, passaram pelo bilinguismo e se ternaram monolíngues na língua
portuguesa. Estes três estágios evidenciam muito bem a situação vulnerável
dos povos indígenas brasileiros em relação à situação de contato.
Porém, os indígenas que se tornam monolíngues em português sempre enfrentam problemas. Segundo Silva e Azevedo (2000, p.153), um desses problemas está justamente no sentido que o adjetivo “indígena” adquiriu nesse debate, e admitem que a definição da categoria “índio”, com base
em critérios culturais, é bastante problemática. “Mas é precisamente uma
definição desse tipo que está subjacente à noção de língua indígena, acriticamente por um povo indígena e não vice-versa. Portanto, o português
pode ser uma língua indígena, como é, por exemplo, o caso de alguns povos
do Médio Solimões” (SILVA E AZEVEDO 2000, p.153).
A teoria desses autores nos leva a algumas reflexões pertinentes. Por
exemplo: os indígenas brasileiros se sentem estigmatizados, quer pela sua
condição étnica, quer pela língua que falam, quer pela posição subalterna em que se encontram em relação à sociedade nacional, sociedade essa
com extratos sociais bem definidos que mais se aproximam de algumas
castas da índia do século passado. Por isso, esses povos sempre foram,
nos últimos quinhentos anos de sua história, exilados no seu próprio país.
Padecem de identidade em todos os seus domínios, sendo a identidade
linguística apenas uma delas. Somado a esses fatores, há também a problemática identidade de pertencimento. Por mais paradoxal que pareça,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
105
esses povos, que paulatinamente vão perdendo o domínio sobre a língua
de seus ancestrais, apoderam-se da língua portuguesa, mas esta não lhes
pertence. Todavia, essa situação, no mínimo estranha, pode ser enfrentada
desde que se invista na edificação de uma educação bilíngue, intercultural
e diferenciada.
Um Olhar acerca do Professor de Língua Materna Apinayé
A alfabetização bilíngue, isto é, a aquisição da leitura e da escrita pelos
povos indígenas brasileiros, em sua maioria sociedades ágrafas, surge em
razão da necessidade de se estabelecer formas de comunicação entre estes
e a sociedade nacional, o que requer a formação de professores capazes de
sistematizar a transposição da oralidade para a escrita na fronteira étnica,
ou seja, exige profissionais com domínio de leitura e escrita das línguas materna e portuguesa. Lopez e Sichra (2007) advertem que é preciso levar em
conta a formação desses professores, adequado-a às exigências da educação
indígena, com ênfase na recuperação e na sistematização das práticas de
criação, geração e construção de conhecimentos das comunidades indígenas para, dessa forma, estarem em melhores condições de desenvolver conteúdos e didáticas interculturais nas diversas áreas do currículo, visando à
efetivação de uma educação diferenciada e intercultural.
Devemos considerar, no entanto, que o corpo docente que atende às
comunidades indígenas, em grande parte, é formado também por professores não indígenas. Dessa forma, a interação desses professores deve se
pautar nos princípios da interdisciplinaridade (Fazenda, 2006), envolvendo
todos os agentes que interagem em sua estrutura tanto pedagógica e administrativa quanto social. Tais proposições devem alcançar áreas como:
gestão, organização administrativa, planejamento pedagógico, currículo,
avaliação institucional e da aprendizagem, conselhos escolares, participação da comunidade nos assuntos da escola etc.
Grupioni (2003) afirma que o professor bilíngue e intercultural que
atua na realidade indígena deve ser formado também como pesquisador.
Porém, não só dos aspectos relevantes da história e da sua cultura, mas
também dos assuntos considerados significativos nas várias áreas de conhecimento. Para esse autor, dessa atividade de pesquisa e estudo podem
resultar materiais utilizáveis tanto no processo de formação desse professor
como na escola, para o uso didático com seus alunos. Aliás, este é um dos
encaminhamentos que daremos ao final de nossa pesquisa com as escolas
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
106
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
indígenas Apinayé.
Com efeito, a expectativa em torno da formação desse profissional
é a de que ele, além de ser professor de sua escola, deve ser também um
pesquisador, o que não deixa de ser um grande desafio que envolve, de um
lado, investimentos na sua formação individual e específica e, do outro, a
comunidade indígena que ele representa. Esta, por sua vez, deve participar
ativamente das discussões, dos objetivos e das práticas da escola indígena
local, bem como dos programas de formação e qualificação de seus professores. Afinal, uma das excelências da educação intercultural indígena é o
envolvimento dos mais velhos e lideranças da aldeia nos assuntos da escola,
porquanto estes são figuras centrais na educação de sua população que se
dá de forma efetiva também fora da sala de aula, ou seja, na comunidade.
De modo geral, esses processos de formação possibilitam que os professores de língua indígena desenvolvam competências que lhes permitam
atuar, de forma responsável e crítica, nos contextos interculturais e sociolinguísticos nos quais as escolas indígenas estão inseridas. Entretanto, em
diversas situações, cabe aos professores que lecionam nessas escolas atuarem como mediadores e interlocutores da comunidade com os representantes do mundo de fora da aldeia, e com a sistematização e organização
de novos saberes e práticas (Grupioni, 2003). Consequentemente compete
a esses professores a tarefa de refletir criticamente sobre sua própria formação, criando estratégias para que se promova a interação dos diversos tipos
de conhecimentos que se apresentam e se entrelaçam no processo escolar,
observando que, de um lado, encontram-se os conhecimentos ditos universais, a que todo estudante, indígena ou não, deve ter acesso e, de outro, os
conhecimentos étnicos próprios de seu grupo que, se antes eram negados,
hoje assumem importância crescente nos contextos escolares.
Todavia, como temos duas categorias de professores bem específicas
atuando nessa realidade, ou seja, o professor de língua materna nativo da
aldeia e o professor que não é indígena, é preciso considerar alguns fatores.
Primeiro, há o professor indígena que faz parte da comunidade e que domina plenamente seu idioma, mas não domina inteiramente o português. Segundo, existe o professor que vem de fora o qual, por sua vez, nada sabe da
língua falada por seus alunos, conforme observamos em nossa pesquisa nas
escolas Mãtyk e Tekator das aldeias Apinayé. Dessa forma, percebe-se que a
situação do professor que vem de fora é mais complicada, pois a comunicação, fator primordial para que a aprendizagem ocorra, está comprometida.
Sendo assim, é imperioso que exista algum planejamento no sentido de
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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preencher essas lacunas, ou seja, um intercâmbio entre as escolas indígenas
e os órgãos responsáveis pelo monitoramento e avaliação dessas instituições, realizando um trabalho de preparação prévia visando à consecução
de uma escola que cumpra no mínimo sua missão básica, que é alfabetizar.
Henriques et all (2007) entendem que o perfil profissional a ser buscado na formação desse professor corresponda, necessariamente, ao de um
ator social que age nas dimensões sociais, políticas, culturais e educativas,
considerando a mediação intercultural entre a comunidade e os agentes
da sociedade majoritária e vice-versa. Sendo assim, sua formação precisa
ser ininterrupta e de qualidade, e a pesquisa deve ser um condicionante
para fundamentar sua prática pedagógica, valorizado os saberes tradicionais, dialogando com os conhecimentos da outra sociedade, buscando o
novo. Esta conjuntura favorece uma reflexão acerca do papel da escola no
contexto interétnico vivido pela comunidade, ancorado no compromisso
de se transformar a escola em espaço de diálogo intercultural e na difusão
do conhecimento sobre os direitos e a valorização da língua e da cultura
indígenas.
Portanto, o desafio posto é o de que se estabeleçam diretrizes capazes de auxiliar na formação dos professores, num cenário onde interagem
contextos sociais e linguísticos tão heterogêneos, como é o caso dos Apinayé objeto desta pesquisa, na dinâmica de interação entre os professores da comunidade e os que vêm de fora, na busca da edificação de uma
alfabetização intercultural e bilíngue que atue de forma amancipatória na
formação dos alunos, considerando que estes dominam apenas a língua
materna e que terão que ser alfabetizados, também, em língua portuguesa.
Não obstante, os professores que não são da aldeia precisam transpor a
tênue fronteira das intencionalidades postas por duas realidades que valorizam aspectos filosóficos, atitudinais e axiológicos tão diferentes, pois
os alunos e professores falam línguas diferentes, são de culturas diferentes,
mas precisam efetivar um diálogo.
Ao fazer um diagnóstico sobre a educação ofertada aos povos indígenas brasileiros, Luciano (2006) constata que o modelo de ensino das escolas indígenas no país atualmente reproduz o sistema escolar da sociedade
majoritária e que normalmente as diretrizes, os objetivos, os currículos e
os programas são inadequados à realidade das comunidades indígenas. “O
material didático-pedagógico utilizado é insuficiente e inadequado, prejudicando as ações educativas” (Luciano, 2006, p.134). Esse mesmo autor admite a inexistência de supervisão pedagógica adequada e eficaz nas escolas
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
das aldeias, e que as atividades educacionais são prejudicadas diante da dificuldade de se fixar os professores nas comunidades, agravada pela falta de
programas de formação de professores indígenas locais. Além disso, “precisa-se enfrentar a barreira linguística, pois os professores encontram sérias
dificuldades no desenvolvimento de seus trabalhos didático-pedagógicos e,
consequentemente, o processo de alfabetização é prejudicado” (LUCIANO
2006, p. 135).
Com efeito, o bilinguismo se caracteriza por ser um processo vinculado às práticas sociais da comunidade; práticas de preservação e manutenção da língua indígena, na medida em que possibilita o seu desenvolvimento, contribuindo para a sua permanente afirmação e para o reconhecimento
étnico diante da sociedade não indígena. Nesse sentido, consideramos
primordial a construção de um projeto escolar que potencialize uma educação diferenciada, bilíngue e intercultural, a ser construída na realidade
educacional da sociedade Apinayé, valorizando o trabalho dos professores,
tanto os de língua materna quanto os que vêm de fora, numa ação coordenada, favorecendo o trabalho interdisciplinar, edificado por bases sólidas,
construídas na convivência com a diferença, sobretudo com respeito a esta
diferença.
Os Apinayé e a Educação Escolar
Os Apinayé pertencem ao Tronco Linguístico Macro-Jê e à Família
Linguística Jê que habitam nas terras Apinayé, uma área indígena demarcada pelo decreto 90.960 de 14/02/1985, com extensão de 141.904 ha. Nestas
terras, existem 24 aldeias, situadas no norte do Estado de Tocantins, nos
municípios de Tocantinópolis, Maurilândia, lagoa do São Bento e Cachoeirinha, localizados na região do Bico do Papagaio. Segundo Albuquerque
(1999, p.20), “antes da demarcação da área Apinayé, os indígenas eram distribuídos apenas em duas aldeias, São José e Mariazinha. Porém, após a
demarcação, eles se distribuíram pelo território, formando novas aldeias e,
deste modo, passando a ter um maior controle sobre a área”.
Para esse autor, o nome da comunidade foi citado pela primeira vez
na forma de pinarés e pinagés, passando, posteriormente, para Apinayé.
Nimuendajú (1983, p.3) Apud, Albuquerque (2007, p. 25), afirma não ter
nenhuma explicação para esse nome, de sorte que o sufixo pessoal -yé, das
línguas Timbira orientais, soa no próprio Apinayé como ya. Todavia,
[...] Há uma hipótese de que o nome tenha sido dado pelos Timbira,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
109
não sendo, portanto, uma autodenominação primitiva dessa tribo.
Além do nome tribal Apinayé, existem outros - tanto na própria comunidade como entre os Timbira Orientais - derivados da palavra que
significa “Canto” ou “Pontal”. Apinayé: “ôd”, “ôdo”; Timbira oriental:
“hot”, “hôto”, referindo-se à sede no pontal formado pelos Rios Araguaia e Tocantins. Os próprios Apinayé usam a forma “ôti” para Pontal
Grande; os outros Timbira usam “hôti Ahôtiyé”. Os Kayapó Setentrionais, porém, referem-se aos Apinayé, usando o termo “Ken-tug”, que
significa pedra preta ou serra negra (ALBUQUERQUE 2007, p.25).
No tocante à integração dos povos Apinayé à sociedade envolvente,
Albuquerque assim se manifesta:
[...] Os índios Apinayé começaram a ser integrados à história do Brasil
com a ocupação do sertão nordestino e com a intensificação da navegação do rio Tocantins. A ocupação do sertão do Maranhão, da Bahia e
do Piauí é conseqüência da criação extensiva de gado que, no período
Colonial, servia para alimentar as populações dos engenhos litorâneos.
Esse gado, porém, avançou pelos sertões até chegar ao sertão goiano,
atual Tocantins, na região onde se achavam os índios (ALBUQUERQUE 1999, p.8).
Segundo Nimuendajú (1983, p.1), os Apinayé consideram sua tribo
uma ramificação dos Timbira, a leste do Tocantins (Rio) e, em particular,
dos Krikati – Caracaty – conhecidos nesse meio por Makráya, sendo que o
território da tribo se localizava entre o Rio Tocantins e o Baixo Araguaia,
estendendo-se para o sul, ultrapassando possivelmente esses limites pelo
lado do Noroeste. Esse autor informa que a tradição Apinayé não confirma
se essa zona por eles ocupada teve anteriormente outros habitantes, porém
são unânimes em afirmar que a noroeste da aldeia Gato Preto encontram-se
muitos fragmentos, o que comprova que este lugar foi povoado por índios
de outra cultura, sendo mesmo utilizados tais fragmentos para a fabricação
de rodas de fuso pelos Apinayé. Sendo assim,
Os primeiros civilizados a alcançar essas alturas foram os jesuítas Pe.
Antônio Vieira, Francisco Velloso e Manuel Nunes, que, entre 1633 e
1658 empreenderam quatro entradas, Tocantins acima, a fim de descerem índios para além da boca do Araguaia. A entrada do P. Manoel,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
110
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
realizada com 450 índios das missões e 45 soldados, no ano de 1658,
foi além de 6º. de latitude sul, portanto, precisamente, até o território
dos Apinayé. Porém, nenhuma das indicações, extremamente escassas,
sobre os índios encontrados – sobretudo Tupinambá e depois Inheyguara (ou Potiguara?) – faz supor que tivesse encontrado os Apinayé ou
alguma tribo aparentada (NIMUENDAJÚ 1983, p.1):
Nesse sentido, o contato dos Apinayé com a sociedade não indígena,
descrito por Nimuendajú, compreende o período que vai desde os primeiros contatos com o não índio, ou seja, 1633 até 1932 quando ele descreve
sua última jornada nas terras habitadas por esse grupo imdígena. Entretanto, os contatos entre índios e não índios deu-se pelas missões religiosas
quando o poder colonizador buscava, por meio da religião, cooptar os nativos para servirem aos seus interesses de mão de obra escrava, e o que sucede é o extermínio de populações inteiras não apenas em terras brasileira,
mas em todo continente americano.
A Educação Escolar Apinayé
A educação indígena no Brasil tem seus indícios ainda no século XVI,
quando se efetivou a posse das terras conquistadas pelos europeus, sendo
que em 1549 os Jesuítas iniciaram o processo de catequese visando à conversão dos nativos ao cristianismo, ou mesmo ao seu aliciamento para o trabalho escravo. Entre os Apinayé, a educação escolar só é introduzida no ano de
1962 quando Patrícia Ham e mais duas colaboradoras Helen Waller e Linda
Koopman (1979) visitam essa sociedade indígena e lá se instalam por seis
meses, estudando seus aspectos sociolinguísticos e produzindo os primeiros
materiais didáticos e pedagógicos sobre a educação e língua Apinayé.
Entretanto deve-se fazer uma distinção entre educação indígena e educação escolar indígena. Meliá (1979) Apud Henriques et. all (2007) evidenciou, nos processos de aprendizagem de diferentes povos, uma dimensão
ignorada pelas políticas assimilacionistas que não reconheciam os padrões
de transmissão dos conhecimentos tradicionais para a formação de jovens
e crianças de acordo com suas concepções sobre sociedade e formação da
pessoa humana. Para esses autores, as práticas socializadoras da comunidade, em diversificados momentos, por meio de diferentes personagens e ao
longo de toda a vida são educacionais por natureza, se valem da oralidade
e têm estratégias próprias. A essa atividade, a educação escolarizada foi imA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
111
posta intentando substituir e neutralizar esses processos de formação.
Nessa perspectiva, percebe-se que um dos fundamentos da educação
escolar indígena é a valorização dos saberes e práticas culturais próprios
da comunidade indígena, o que também é identificado pelo RCNEI – Referencial Nacional da Educação Indígena (2002), ao reconhecer que essas
sociedades possuem sua sabedoria para ser comunicada, transmitida e distribuída por seus membros, de sorte que se apresentam mesmo como valores e mecanismos da educação tradicional dos povos indígenas que podem
e devem contribuir na formação de uma política e práticas educacionais
adequadas.
No tocante às escolas Mãtyk e Tekator, estas estão vinculadas à DRET
– Delegacia Regional de Educação de Tocantinópolis - que supervisiona
estas escolas e é responsável pela avaliação dos trabalhos. Estas unidades
escolares, por estarem localizadas nas duas aldeias mais importantes, a São
José e a Mariazinha, têm sob sua responsabilidade as escolas de outras aldeias Apinayé, funcionando mesmo como “escolas sede”. A escola Mãtyk da
aldeia São José tem instalações modernas e uma arquitetura que contrasta
com o ambiente e mantém sob sua coordenação as escolas das aldeias Abacaxi, Palmeiras, Patizal, Bacabinha, Prata, Serrinha e Boi Morto, sendo que
a escola sede atualmente tem 416 alunos matriculados no Ensino Fundamental e Médio, mas somando as outras escolas, o total chega a 500. Nestas
escolas os alunos falam a língua materna e português e são alfabetizados,
também nas duas línguas, visto que os professores são bilíngues em língua
indígena e Português. No entanto existem classes multisseriadas no 1º e 2º
anos e também no 5º e 6º anos. Segundo Maher,
[...] A multisseriação é um fenômeno muito presente nas escolas indígenas. Porque as comunidades são pequenas, suas escolas têm poucos
professores e alunos e, portanto, em uma mesma sala de aula, têm-se, freqüentemente, alunos de faixas etárias e níveis de escolarização diferentes
e competências variadas. O que eu tenho observado é que a sala de aula
multisseriada não chega a ser um problema tão dramático para os professores indígenas como o é para a maioria de nós. Os professores indígenas parecem saber lidar melhor com isso. Eles dão uma atividade para os
pequenininhos e aí vão trabalhar um pouco com os alunos mais adiantados; aquele que já acabou a tarefa espera, pacientemente, sua vez de ter a
atenção do professor, na maior parte das vezes desenhando. Impressiona
ver como tudo é feito com muita calma, muito vagar, sem estresse. Aliás,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
112
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
se há uma coisa que parece caracterizar o cotidiano das escolas indígenas
- pelo menos as com as quais estou familiarizada - é que nele há muito
menos estresse do que nas nossas (MAHER 2005, p. 94-95).
Não há como não concordar com essa autora. Ao observarmos os
professores das escolas Apinayé em suas atividades, testemunhamos aulas
com duas turmas diferentes. Lembramos de um dia em que a professora
do primeiro ano juntou na mesma classe alunos do segundo e do terceiro
anos totalizando 45 alunos. Chamou-nos a atenção o fato de a professora
conduzir as atividades com tranquilidade. No final da aula, a avaliação, que
consisti em reproduzir o que tinham apreendido por meio de um texto
que tanto poderia ser escrito como desenhado, cuja atividade podia ser
desenvolvida em duplas, causou certo entusiasmo entre os alunos. Todos
chamavam a professora ao mesmo tempo, mas sem nenhum tumulto. E
ela, pacientemente, a todos atendia sem se aborrecer. Percebemos que a
dinâmica da ação docente numa sala de aula Apinayé é bem diferente da
escola não indígena. As crianças interagem com maior entusiasmo diante
das atividades propostas pela professora, visto que demonstram um grande
interesse em aprender algo novo.
Sobre esta e outras funções específicas da escola indígena, Maher retoma a discussão da citação anterior dizendo que numa escola indígena
O estresse, quando ocorre, vem de cobranças de fora: culturalmente
insensíveis, alguns técnicos de secretarias de educação pressionam os
professores indígenas pelo "cumprimento do programa", por exemplo,
sem considerar que os princípios da pedagogia indígena estão assentados em outra noção de tempo de ensino e tempo de aprendizagem.
Em outras ocasiões, a cobrança refere-se ao cumprimento do “ano letivo”. Ora, o modelo de escola indígena pressupõe, entre outras coisas, a
construção de um calendário escolar culturalmente específico: em época de colheita e dos rituais a ela associados, por exemplo, as atividades
têm que ser interrompidas na escola de modo a permitir que os alunos
possam acompanhar os adultos nessa importante esfera de socialização. (MAHER 2005, p. 95).
Evidentemente a educação nas aldeias indígenas está associada à categoria tempo em todas as suas fases. As escolas precisam se adaptar ao
cotidiano da comunidade, e os programas educacionais ter um calendáA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
113
rio que considere os aspectos sociais e as manifestações culturais de cada
povo. Deve-se, igualmente, estar atento à dinâmica sazonal, observando as
estações da chuva, pois esse é um momento em que a comunidade se mobiliza para plantar, o que requer a disponibilidade e o comprometimento de
todos. O momento da colheita também deve ser contemplado no planejamento desse calendário.
Outros momentos que não podem ser negligenciados são aqueles dedicados aos rituais ligados ao universo cosmológico dos indígenas. Nesse
momento, os mais velhos transmitem para os mais jovens os valores que
por gerações são preservados. Essa é uma das faces do processo educacional que esses povos desenvolveram em sua história e que deve ser incorporada à educação que a escola promove. Uma educação intercultural,
bilíngue e diferenciada, atenta às singularidades do povo a quem ela se destina, promotora da unidade e de uma convivência harmoniosa em meio à
diversidade. É esse tipo de educação que as escolas Apinayé se propõem a
realizar.
Assim como a escola Mãtyk da aldeia São José, a Escola Tekator da
aldeia Mariazinha funciona como “sede” de outras escolas em outras aldeias, tais como Bonito (Tankak); Riachinho (Pemenhoryk); Botica (Pepkro); Girassol (Kokre); Mata Grande (Extensão da Pepkro); Barra do Dia
(Extensão da Tekator). No total estas sete escolas atendem 268 alunos no
Ensino Fundamental e Médio. As condições físicas dessa escola são bem
precárias. O prédio da escola possui quatro – e os professores precisam improvisar classes no pátio da escola. Mesmo assim, os professores de língua
materna ministram as aulas bastante contextualizadas, considerando os
aspectos culturais Apinayé. Constatamos esse fato, ao presenciarmos uma
atividade pelo entorno da aldeia – na mata e no ribeirão - com três turmas,
simultaneamente. Ali os professores, calmamente, ministravam uma aula
onde se discutia Ciência, Matemática, Geografia, Língua Materna e Língua
Portuguesa.
Naquele momento, o tema em estudo variava entre pássaros, plantas e
algum animal que passava no local. Interessante frisar que a aula acontece
num clima de descontração e quase lúdica. Nesse período do ano, as plantas estão florindo e muitas abelhas e formigas estão “trabalhando”. Os professores aproveitam esse “laboratório a céu aberto” para realizar uma aula
que realmente tenha significado no cotidiano de cada uma daquelas crianças. Elas aprendiam matemática, apanhando e contando cocos babaçu que
estavam num saco para ser comercializado na Cidade de Tocantinópolis.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
114
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
Além desses conhecimentos, aprendem outros como Geografia, Ciências
e Conhecimentos sobre o Meio Ambiente quando o professor explica que
determinada planta é nativa da região e não é encontrada no “sul”, mencionando os quatro pontos cardeais. Ou ciências, diante de algumas abelhas
que, ao colherem o néctar das flores em plantas rasteiras são alcançadas
pelas crianças e pelos professores que aproveitam para explicar que a abelha
“é um “inseto invertebrado”, e conceitua isso tanto em Apinayé quanto em
português. No entanto, para as crianças, aquilo que parece ser pura diversão é ao mesmo tempo, um grande aprendizado.
O retorno à sala de aula é também um momento muito especial. Muito animadas, as crianças produzem textos com ilustrações onde constam
plantas, flores, insetos. Tudo transcorre num ambiente descontraído e os
alunos insistem em “ver” o que os outros desenham o que para elas é motivo de muita risada. São desenhos onde se percebe a capacidade criativa
de cada criança, ao mesmo tempo em que se constata que as aulas numa
escola indígena podem ser bem prazerosas. É o lúdico em ação, aspecto tão
defendido por teóricos como Piaget (1971) e Vigotsky (1982).
Quanto ao aspecto pedagógico das brincadeiras das crianças indígenas e sua aprendizagem das coisas que são da escola, pudemos constatar
sua relevância ao desenvolvermos uma pesquisa com as crianças Apinayé9
nas escolas Mãtyk da aldeia São José e Tekator da aldeia Bonito. Ali comprovamos que as brincadeiras, mesmo quando são utilizadas como prática pedagógica requerem atividades “sérias”, sem perder o teor lúdico. E é
nesse intercâmbio, onde brincadeira e seriedade se fundem, que reside o
teor pedagógico do ato de brincar. Segundo Nunes (2002a), as atividades
lúdicas realizadas no âmbito da educação escolar indígena são atividades
produtivas e para as crianças são de verdade, ou seja, elas as desempenham
utilizando instrumentos de verdade e o resultado final também é verdadeiro, uma vez que tudo é permeado por um significado real e tem uma
aplicação concreta. Entretanto, o fato de ser tudo de verdade não impede
a presença do componente lúdico, ainda que, por vezes, esteja dissimulado
pela responsabilidade que também é preciso assumir.
O que apreendemos na pedagogia dos professores que se deslocam
com seus alunos mata adentro para realizar uma aula significativa para eles
9. Projeto de Pesquisa de Iniciação Científica PIVIC/CNPQ/UFT “Educação, Cultura,
Infância e Ludicidade: Um Estudo da Cultura Apinayé”, desenvolvido entre agosto de
2008 e julho de 2009 e publicado nos anais do V Seminário de Iniciação Científica UFT
Palmas: 2009.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
115
é que, ao serem instruídos enquanto profissionais formados nas escolas não
indignas, são “obrigados” a seguir um currículo no qual não tiveram nenhuma participação. Esses professores fazem uso de elementos intrínsecos
da aldeia, dialogando com elementos da sociedade não indígena para, a
partir daí, fazerem uma aula realmente contextualizada. Segundo Maher
(2005), como a escola concebida nos padrões ocidentais entra nas aldeias
em decorrência do contato com o outro, com os não índios, a questão da
interculturalidade, isto é, “do conseguir fazer dialogar comportamentos e
conhecimentos construídos sob bases culturais distintas e frequentemente
conflitantes, é atualmente entendida como o esteio, a razão de ser da escola
indígena” (MAHER 2005, p. 94).
Para essa autora, o desafio posto pela interculturalidade não pode,
nesse contexto, ser entendido como um enriquecimento, como um bônus como parece ser o caso na maior parte das escolas não indígenas - porque
o investimento no estabelecimento do diálogo intercultural é o alicerce, é
o que justifica mesmo a existência dessa escola, é o que dá a ela relevância política. Ainda refletindo junto com Maher (2005, p. 94) perguntamos:
será que em um mundo tão globalizado como o de hoje, as escolas não
indígenas – principalmente aquelas dos grandes centros urbanos - também
não deveriam adotar mais categoricamente a interculturalidade como tema
transversal, para melhor preparar nossas crianças e jovens para o sempre
difícil encontro com o outro, com o diferente, com a alteridade?
Não obstante o currículo das escolas Apinayé ser reproduzido pela
SEDUC/ e ser o mesmo das escolas não indígenas, a interculturalidade e o
bilinguismo são práticas pedagógicas presentes nas ações dos seus professores nos anos iniciais do ensino fundamental. Isso porque existe um material de apoio pedagógico confeccionado pelos próprios professores, sob
a coordenação do Professor Francisco Edviges Albuquerque, contemplando Matemática e Ciências Apinayé, História e Geografia Apinayé, Livro de
Narrativas e Cantigas Apinayé, Revista de Medicina Tradicional Apinayé
e um Livro de Alfabetização muito bem contextualizado. Ademais, Albuquerque tem se dedicado ao estudo da língua Apinayé, considerando os
seus aspectos sociolinguísticos, fonéticos e fonológicos10, sendo mesmo
uma referência sobre estudos indígenas no Estado do Tocantins11.
10.Mais informações podem ser obtidas eu sua tese de doutorado “Contribuição da
fonologia ao processo de educação indígena apinayé” / Francisco Edviges Albuquerque/
– 2007 disponível: www.uff.edu.br.
11.Além dos livros de apoio pedagógico à educação Apinayé organizados e coordenados pelo
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
116
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
Os livros organizados pelos professores Apinayé, sob a coordenação
do Professor Albuquerque, e utilizados como material de apoio para os as
aulas nos anos iniciais do Ensino Fundamental apresentam, além da boa
qualidade de seus textos, uma expressiva contribuição para a educação escolar Apinayé. Ao folhear os livros, nos deparamos com uma sequência
de desenhos temáticos os quais enriquecem seu conteúdo, sendo estes desenhos de autoria dos professores e também de outras pessoas da aldeia.
Essa produção, de excelente qualidade, revela o talento de um povo que, em
razão da estigmatização e do preconceito com que tem lidado, surpreende
pela criatividade, aptidão e capacidade de se expressar também através da
arte e da cultura, mesmo que isso, na maioria das vezes, não tenha o reconhecimento que merece por parte da sociedade não indígena.
Nesse sentido, acreditamos que as metodologias próprias dos professores bilíngues Apinayé são o diferencial em seu fazer pedagógico. Acionam mecanismos que favorecem intervir na complexa situação que envolve
a proposta de uma educação escolar intercultural, bilíngue e diferenciada,
que existe numa região fronteiriça de duas culturas tão distintas (Apinayé
x Não Indígena), e transpõem as barreiras linguísticas. Estes professores
estão conseguindo superar suas próprias imanências12, na dinâmica da sala
de aula, no fazer pedagógico contextualizado, na busca por uma educação
que seja realmente significativa para os alunos indígenas, na sua capacidade
de superação de obstáculos muitas vezes intransponíveis. Fatos como esses
justificam a qualidade dos trabalhos desenvolvidos pelos professores Apinayé nas escolas de suas aldeias.
Considerações Finais
Neste artigo foi discutida a Educação Indígena no contexto Apinayé,
ora denominada Educação Bilíngue e Intercultural. O texto faz alusões à
interculturalidade, ao bilinguismo, da alfabetização bilíngue e aos professores indígenas. Tudo isso contextualizado na realidade vivenciada pelos
Apinayé das aldeias São José e Mariazinha, as quais são analisadas pela orProfessor Francisco Edviges Albuquerque ele publicou também um livro de português
intercultural. Atualmente, ele tem três livros aceitos pelo MEC – Ministério da Educação
– para publicação ainda em 2010.
12.O significado de imanência a que nos referimos está vinculado ao contexto da teoria de
Kant do conhecimento de imanência significando “manter nos limites da experiência
dentro do possível”.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
117
ganização social e política dessa sociedade. O estudo se reporta sistematicamente aos aspectos educativos, socioculturais e linguísticos, considerando
a obrigatoriedade de que os alunos indígenas devem ser alfabetizados em
sua língua materna e no português enquanto segunda língua.
Apesar de o texto estar vinculado a um projeto de mestrado que está
em fase de execução, os resultados apresentados, são também conclusivos.
Conclusivos não no sentido de que a pesquisa já esteja pronta, mas por trazerem reflexões que abordam fatos comprovados, mediante nossa pesquisa
no campo e pela contribuição dos dados coletados até então.
Ao longo do texto evidencia-se que a Educação Bilíngue e Intercultural é uma realidade na sociedade Apinayé, visto que professores se desdobram no sentido de fazer com que as aulas sejam significativas para os estudantes. Apesar das adversidades visivelmente presentes nas formas como
são “recebidos” os currículos e o material didático oficial, as escolas Mãtyk
e Tekator, através de seus professores bilíngues, apresentam alternativas,
pois utilizam um material de apoio pedagógico concebido por eles mesmos
com a participação de outros habitantes da comunidade. Nesse material
são intercalados elementos da cultura Apinayé e da língua portuguesa, evidenciando a preocupação em se edificar uma aprendizagem que atenda aos
pressupostos da interculturalidade.
Constatamos, também, que as aldeias São José e Mariazinha apresentam peculiaridades bem significativas, confirmando opiniões de alguns
teó­ricos, Grupioni (2001; 2003), Lopes da Silva (2000; 2001), Nunes (2002ª;
2002b; 2002c; 2003), Albuquerque (2007), entre outros, que corroboram
a heterogeneidade dos povos indígenas. Para esses autores, os membros
de uma mesma sociedade, desde que vivam em aldeias diferentes, podem
apresentar comportamentos distintos e diferenças importantes. E isto foi
possível identificar nas duas aldeias onde se localizam as escolas objeto do
estudo, o que nos faz concordar com esses autores que são unânimes ao
admitirem que um dos sérios problemas do nosso sistema de ensino é trabalhar com a concepção de uma única nação indígena, como se entre esses
povos não houvesse nenhuma diferença.
No tocante às aldeias em estudo, é visível que na São José, os indígenas
continuam preservando muitos aspectos da cultura indígena, presentes na
confecção de artesanatos, na pintura corporal e na língua materna, que é
falada por toda a comunidade. As crianças nos primeiros anos são monolíngues em língua materna. Os mais velhos, muito embora falem o português com alguma facilidade, na intragrupos só se comunicam em língua
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
118
Educação Bilíngue, Bilinguismo e Interculturalidade no Contexto Escolar Apinayé...
indígena. Os jovens que dominam o português priorizam a língua materna
em suas conversações. Já na aldeia Mariazinha, a realidade sociolinguística
é bem diferente Os aspectos socioculturais da sociedade não indígena aos
poucos vão se incorporando aos domínios sociais que antes eram apenas
ocupados pelos Apinayé. Certos rituais, confecção de artesanato e pinturas
não são mais praticados nas aldeias pertencentes a essa aldeia. As crianças
adquirem o português desde cedo, principalmente as filhas de casamentos
mistos, resultado da união entre casais Apinayé e não indígenas.
Com base nesses pressupostos, acreditamos que não é apenas fator imperativo, mas urgente e necessário, que se desenvolvam projetos de educação
escolar bilíngue, voltados para a manutenção, revitalização da língua e da
cultura Apinayé, através de projetos capazes de efetivar a interculturalidade
enquanto prática pedagógica escolar, voltada para o fortalecimento das relações entre os Apinayé da aldeia Mariazinha e a sociedade envolvente.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
5
Letramento Literário na Escola
Indígena Tekator da Aldeia Apinayé
Mariazinha: uma análise introdutória1
Severina Alves de Almeida 2
Francisco Edviges Albuquerque 3
Introdução
Atualmente o sistema educativo brasileiro e suas instituições travam
um embate contundente na busca de mecanismos que favoreçam a emergência de uma escola onde se formem não apenas alunos alfabetizados,
mas letrados. E por alunos letrados entendemos aqueles que se apropriam,
de forma intencional e crítica, das teorias e práticas que constituem as diferentes áreas do conhecimento e delas fazem uso, numa concepção interdisciplinar, tais como letramento em matemática, letramento em ciências,
letramento em leitura4 e, mais recentemente, o letramento literário. Segundo Cosson (2006:23) “o letramento literário é uma prática social e, como
tal, responsabilidade da escola”.
No cerne das teorias que tratam da literatura, do letramento em leitura e do letramento literário escrevemos este artigo, o qual dialoga com a
1.Trabalho vinculado ao Projeto de Dissertação de Mestrado “Interculturalidade e
Educação Escolar Apinayé: uma experiência bilíngue nas escolas das aldeias São José e
Mariazinha”, UFT/CAPES/SECAD/INEP-2010-2011.
2. Mestranda do MELL – Mestrado em Língua e Literatura do PPGL – Programa de Pós
Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins, Campus de Araguaína e
bolsista do Programa do “Observatório de Educação Escolar Indígena” CAPES/SECAD/
INEP.
3. Professor Adjunto da Universidade Federal do Tocantins – UFT – Campus de Araguaína,
e orientador da pesquisa.
4. O letramento em Leitura é definido como o uso e compreensão de textos escritos e
como reflexão sobre os mesmos, com vistas a alcançar objetivos pessoais, desenvolver o
conhecimento e potencial individuais visando à participação plena na vida em sociedade.
(RELATÓRIO PISA, 2001:29)
123
124
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
arte, a estética, a estesia e, mais acentuadamente, com a poesia. Tudo isso
associado à educação escolar bilíngue e diferenciada, estando situada no
âmbito da interculturalidade, na realidade específica da comunidade indígena Apinayé.
No tocante ao letramento em leitura, este se apresenta, segundo Ciola
(2008) como a base para o desenvolvimento do ser humano e sua individualidade, notadamente por seu papel decisivo na aquisição autônoma
de conhecimentos e enquanto cidadãos, pois viabiliza sua participação na
moderna sociedade do conhecimento e da informação. Já em relação ao
letramento literário, este ocorre quando se tem contato com uma obra literária, oral ou escrita, poesia ou prosa, ocorrendo um processo de interação
entre o sujeito–leitor e o objeto–obra literária, de modo que, por meio da
experiência estética e da fruição, ocorra uma transformação que possa ser
traduzida em estesia.
Este trabalho tem por objetivo fazer um estudo sobre o ensino de literatura na Escola Indígena Tekator da aldeia Apinayé Mariazinha. Buscamos
identificar na ação docente e na produção escrita dos alunos, elementos
que possam caracterizar o “letramento literário”, na concepção daquilo que
determinam as Orientações Curriculares do Ensino Médio, ou seja, o “estado ou condição de quem não apenas é capaz de ler poesia ou drama, mas
dele se apropriar efetivamente por meio da experiência estética, fruindo-o”
(BRASIL, 2006:55).
Metodologia: Uma proposta Transdisciplinar
Transdisciplinaridade, conforme Nicolescu (2008), diz respeito àquilo
que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina, sendo seu objeto de estudo a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do
conhecimento. Nessa perspectiva, situamos a proposta metodológica deste
trabalho numa concepção transdisciplinar, atendendo aos pressupostos da
pesquisa qualitativa (André, 2000), etnográfica (Cardoso, 2009), e pesquisa
participante (Brandão, 1982); (Ezpeleta e Rockell, 1989), respectivamente.
Priorizamos a etnografia com observação participante desde que estes
procedimentos permitam investigar um fenômeno dentro de seu contexto
real, observando-o, mas nele não interferindo diretamente. Não obstante,
este tipo de pesquisa tem um forte cunho descritivo, no qual o pesquisador não pretende intervir sobre a situação, mas dá-la a conhecer, tal como
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
125
ela lhe surge, podendo utilizar vários instrumentos e estratégias. Entretanto, tais procedimentos não precisam ser meramente descritivos. Antes,
podem ter um profundo alcance analítico, podendo interrogar a situação,
confrontando-a com outras já conhecidas e/ou com as teorias existentes.
Pode, também, ajudar a gerar novas teorias e novas questões para futura
investigação.
Em relação ao corpus investigado, este incidiu sobre três professores
que lecionam a disciplina de Literatura e cinco alunos do Ensino Médio da
Escola Indígena Apinayé Tekator. Quanto aos professores, buscamos investigar como ocorre a didática nas aulas de literatura. Para a coleta dos dados,
utilizamos questionários sociolinguísticos e entrevistas. No que se refere
aos alunos indígenas, além da aplicação de um questionário, são feitas considerações sobre alguns textos no gênero poesia, os quais foram produzidos
visando à participação num evento cultural promovido pela própria comunidade e com a participação de indígenas de outras aldeias, sendo que um
destes poemas foi contemplado com o primeiro lugar.
A escolha dos professores deu-se em função de serem os únicos que
lecionam a disciplina de literatura na escola. Já os alunos foram indicados
pelos professores por se destacarem nas avaliações de produção de texto e
são considerados “escritores” de poesias. Com efeito, esse material servirá
como objeto de análise do fazer docente no que diz respeito ao conhecimento de literatura, assumindo, portanto, um caráter diagnóstico, visando
a identificar na atividade dos professores e no desempenho dos alunos, elementos que possam ser interpretados como letramento literário.
Fundamentação Teórica: Diálogos Literários
Tendo em vista uma tradição que vem desde os tempos da Grécia Antiga, a literatura é vista como útil tanto para ensinar a ler como para escrever, favorecendo a formação cognitiva, intelectual e cultural do indivíduo,
tornando-o pleno. Portanto, a seguir, promovemos um diálogo com nossos
interlocutores, os teóricos, formulando conceitos e estabelecendo conjecturas acerca da literatura enquanto arte e suas variantes, a estética e a estesia.
Nesse sentido, indagamos: O que é literatura? Como defini-la? O que
são arte, poesia, estética, estesia? O que é letramento? O que é letramento
literário? Como aplicar seus conceitos na consecução de uma educação
que privilegie a formação dos indivíduos “letrados”? Responder coerentemente a esses questionamentos não é tarefa fácil. Todavia podemos conA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
126
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
jecturar que literatura é, acima de tudo, arte. E que poesia é literatura e,
por conseguinte, arte. E que enquanto arte, pertence à esfera da estética.
Não obstante, arte e estética são termos polissêmicos, não sendo possível
definições conclusivas. Nessa área os conceitos ainda são muito fluidos,
mas, mesmo assim, é possível identificar algumas características básicas.
Luft (2008) nos auxilia ao sustentar que, se a literatura é uma arte,
então, muito mais que uma atitude contemplativa, ela provoca uma fruição estética em que não só o belo e o prazer tranquilo e sereno têm lugar,
mas, também, o incômodo e o desconforto oriundos de uma experiência
impactante, engendrando processos internos extremamente salutares e catárticos, que possibilitam a elaboração e (re)elaboração do sujeito, de sua
subjetividade e da realidade em que se encontra.
No tocante à estética, partimos do pressuposto de que, antes de ser
apologia ao belo, às formas perfeitas, a um estado contemplativo-passivo
de apreciação de uma obra de arte ou a um estado de pura inspiração para
sua execução, antes de tudo isso, ela está associada aos sentidos, à percepção através dos sentidos. A estética tem sua gênese na estesia, ou seja, na
sensação, na sensibilidade, nos sentidos. Em contraposição, temos a palavra anestesia, que é a negação de estesia, em que os sentidos, as sensações e
sensibilidades encontram-se adormecidos.
Segundo Oliveira (2002), o sentir as coisas do/no mundo pode ser
visto como uma “revelação”. Para Greimas (2002), este sentir pode ser traduzido como “estésico”, no sentido de “estremecer o sujeito” causando-lhe
um impacto que desperte seus sentidos para o oculto, o camuflado. Dessa
forma, o sentir está no texto, e nesse despertar as sensações são percebidas e
transferidas da esfera da estética para o sensível, causando uma “revolução
interior” promotora da estesia.
Com efeito, os sentidos são uma forma imediata de aproximação, de
compreensão do mundo. Porém, nem por isso, impedem um posterior
aprofundamento reflexivo, pensado e lógico sobre ele. Segundo Luft (2008),
o poeta, o escritor literário são aqueles que sentem; aqueles que penetram
na realidade e desenvolvem seus conhecimentos não apenas pela via da
razão e da lógica, mas, também, pela sensibilidade, pela emoção e pela intuição, aspectos recorrentes da estética. São formas outras de se apropriar
do mundo e do conhecimento. A estética é também uma forma de compreensão da realidade, conclui Luft. Kant (1993) interpretou a experiência
estética a partir do olhar do sujeito, de sorte que a beleza deslocou-se do
objeto para o sujeito.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
127
Buscando identificar elementos que possibilitem o diálogo entre literatura, estética e semiótica, nomeadamente em relação à significação e aos
sentidos que assumem as diferentes faces de um texto, recorremos à semiótica Greimasiana vista sob a lente de Oliveira (2002). Tecendo a edificação
de uma teoria do significado, Greimas (2002) propõe uma estética produtora da estesia, sendo esta vista como “percepção, através dos sentidos, do
mundo exterior, “faculdade que possibilita a experiência do prazer (ou do
seu contrário) assim como de todas ‘as paixões’ – aquelas da ‘alma’ e também aquelas físicas, do corpo, da sensualidade” (OLIVEIRA, 2002:231).
Para Oliveira (2002), é necessário penetrar no escrito e vivê-lo como
figura de papel, misturando a vida e as representações da vida, para compreender que tudo é linguagem, tudo é construção humana para, a partir
daí, poder encontrar sentido na singeleza dos pequenos acontecimentos,
examinando a possibilidade de a experiência estética ser (re)produzida,
também, por arranjos e (re)arranjos das coisas simples do mundo que
fazem parte de nosso viver cotidiano. Kant (1993) trabalha com o termo
estética, segundo o significado de conhecimento sensível no campo da teoria do conhecimento. Para ele, a estética designa uma importante parte da
teoria do conhecimento, que trata das formas puras da intuição, o espaço e
o tempo. Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado e sem entendimento nenhum objeto seria pensado.
Greimas (2002), naquilo que ele determina como “fratura”, oferece-nos uma interpretação pessoal da função que o acontecimento estético
ocupa na vida dos sujeitos, propondo romper o seu cotidiano, acionando
atos corriqueiros que haviam perdido o sentido, tornando-se simples encadeamento de insignificâncias. No sentido oposto, ele apresenta as “escapatórias”, fazendo uma conjunção pertinente entre sujeito e objeto, dependente de um tempo “possível”, no qual os próprios sujeitos construam
momentos em que a realidade, de forma intencional ou não, se transforme
aos seus olhos, num tempo e espaço que necessariamente não precisam
ser unívocos. Esse autor retoma considerações de natureza histórica para
discutir pontos de vista ocidentais sobre a noção de estética e estesia, valorizando, sobremaneira, a última.
Letramento e Letramento Literário
Para a reflexão acerca do letramento em leitura e do letramento em
literatura, encontramos em Soares (2002; 2004; 2009), Rangel (2007),
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
128
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
Ciola (2008) e Magalhães e Barbosa (2009) as bases necessárias para fundamentar nossas argumentações neste artigo. Segundo Soares (2004), o
termo letramento vem do inglês literacy. Muito embora a palavra literacy
seja dicionarizada nos Estados Unidos e na Inglaterra desde o final do
século XIX, é na década de 1980 que se percebe uma preocupação mais
avançada e complexa com a leitura, que vai além do saber a ler e escrever
resultantes do processo de alfabetização. Com efeito, no final do século XX ocorre em diferentes países a adoção de termos utilizados para
denominar fenômenos distintos da alfabetização: “letramento, no Brasil,
illettrisme, na França, literacia, em Portugal”. “Na Alemanha, o termo
adotado é Lesekompetenz, ou seja, ‘competência' em leitura” (CIOLA,
2008:21).
Nesse sentido, entendemos por letramento a capacidade de ler um
texto e entendê-lo, num contexto social específico, sendo, pois, uma ampliação do conceito de alfabetização que compreende basicamente saber ler
e escrever, independentemente da conjuntura. Sendo assim, concordamos
com Soares (2009), ao inferir um conceito de letramento configurado como
o ato de ler e escrever dentro de uma situação onde a escrita e a leitura tenham sentido e façam parte da vida do indivíduo.
No tocante ao letramento literário, recorremos a Ciola (2008) que
considera este, em princípio, como o conjunto de práticas sociais que se
utilizam da escrita literária, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia em contextos específicos, para fins específicos. A autora assinala que,
ao considerarmos a literatura como um tipo de escrita específica diferente
dos outros gêneros, o conceito de letramento proveniente da linguística,
adaptado às especificidades da literatura, torna-se adequado ao entendimento de alguns aspectos que tangem os modos de produção, recepção e
circulação da literatura e, consequentemente, seu ensino.
Magalhães e Barbosa (2007), citando Zilberman (1990) e Rangel
(2005), entendem que a literatura, ao ser ensinada, também educa e consideram o texto literário primordial para o ensino e a aprendizagem da leitura e, não obstante, para a formação do gosto por leitura de textos literários.
Nesse sentido, é importante enfatizar a relevância da cultura no processo
de letramento, sendo que o letramento literário pode ser definido como “o
conjunto de formas pelas quais uma determinada cultura ao mesmo tempo dá uma existência social e serve-se da escrita, atribuindo-lhe diferentes
sentidos e diferentes funções” (RANGEL, 2005, p. 130) (APUD, MAGALHÃES E BARBOSA, 2009, p. 153).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
129
Partindo desses pressupostos, acreditamos que a literatura nos ajuda
a entender o mundo que nos rodeia e nos incentiva a desejar e a expressar
esse mundo por nós mesmos, provocando uma situação onde liberdade e
movimento se fundem, numa convergência de sentidos provocados pela
estética. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada,
anunciadora de um conhecimento a ser elaborado, permitindo a incorporação dos outros em nós, sem renúncia da nossa própria identidade, mas
antes promotora de nossa subjetividade.
Nesse sentido, é possível conjecturar acerca da importância que assume a autonomia dos estudantes enquanto co-participantes da literatura a ser estudada, de sorte que eles sejam “seduzidos” pela leitura. Aqui
identificamos um procedimento que nem sempre tem sido contemplado
pelo professor em sua atividade docente, ou seja, permitir aos alunos que
compartilhem da escolha do tipo de literatura que deve ser lida na sala de
aula. Esse processo pode ser também uma estratégia muito interessante no
sentido de despertar o estudante para o exercício da autonomia (Freire,
1997), ingrediente fundamental na consecução da competência necessária
à condição de letrado.
Sobre a importância que assume a liberdade de participar da escolha do material a ser lido pelos alunos visando ao letramento, Magalhães
(2008:3) afirma que “a primeira demanda do letramento literário é criar o
gosto pela leitura, primeiro passo para se instituir o hábito da leitura”. Nesse
sentido, o letramento em literatura pode ser definido como “a apropriação
das competências e habilidades que constituem o hábito de ler, ou seja, o
prazer de ler, a capacidade de fruição, a autonomia do leitor na escolha de
suas leituras (MAGALHÃES, 2008, p. 3).
Notadamente, existem professores comprometidos com a arte de
ensinar literatura e evocar sua condição estética possibilitando o letramento literário, mesmo diante da inércia dos currículos oficiais e da
problemática que envolve a ação neoliberal em suas formulações, ao
unificar os conteúdos desconsiderando as particularidades das comunidades que deles se servem, como é o caso da Escola Indígena Tekator, objeto desse estudo. Nesta escola, os professores criam estratégias
e mecanismos que acreditamos favorecer o letramento literário de seus
alunos, o que será apontado na discussão dos resultados da nossa pesquisa, a seguir.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
130
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
Professores e alunos indígenas Apinayé: o letramento literário em pauta
- análise e discussão
Os Apinayé habitam no extremo norte do estrado do Tocantins numa
região conhecida como Bico do Papagaio . Pertencem ao Tronco Macro-Jê e à Família Linguística Jê. Sua população atualmente está estimada em
1.793 indígenas, distribuídos em 24 aldeias, dentre estas a Mariazinha, objeto desse nosso estudo. Todavia, os habitantes desta aldeia encontram-se
sob um eminente processo da transculturação5, fenômeno cada dia mais
presente nas sociedades indígenas. No entanto, acreditamos que a educação
escolar assume um papel importante no sentido de intervir nessa situação.
Sendo assim, passamos a discutir os resultados da pesquisa realizada
com três professores de literatura e cinco alunos do ensino médio da escola
Indígena Tekator da aldeia Mariazinha. A análise incide sobre o trabalho
docente e as práticas didáticas e pedagógicas desses professores, desde que
a realidade indígena requer preparo teórico e prático para lidar com as especificidades de um ambiente bilíngue e intercultural.
No tocante ao trabalho com os alunos, analisamos produções escritas realizadas para um evento cultural em 2009. Os textos são do gênero
poesia, e resultam de uma prática adotada pelos professores não indígenas
nas aulas de literatura. Essa prática pedagógica se configura como interdisciplinar (Albuquerque, 2009), uma vez que esses professores, atendendo às
necessidades da escola, se revezam para lecionar diferentes disciplinas e,
para fazer frente aos desafios encontrados, se unem e criam estratégias e
metodologias, buscando enfrentar suas próprias imanências6.
Os Professores e o ensino de literatura para alunos indígenas
Como nosso objetivo é investigar a as práticas didáticas e pedagógicas
5. Transculturação é o processo que ocorre quando um indivíduo adota uma cultura diferente
da sua, podendo ou não implicar uma perda cultural. A transculturação está ligada à
transformação de padrões culturais locais a partir da adoção de novos padrões vindos
através das fronteiras culturais em encontros interculturais ou migrações transacionais,
envolvendo sempre diferentes etnias e elementos culturais. É a transformação de padrões
a partir do elemento externo (JAPIASSU E MARCONDES 1990).
6. O significado de imanência a que nos referimos, está vinculado ao contexto da teoria
de Kant, significando de caráter indissociável, que existe sempre em algo e é inseparável
dele. Característico. Próprio. Intrinsecamente ligado.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
131
nas aulas de literatura da Escola Indígena Tekator, entrevistamos os três professores responsáveis pela disciplina. Antes de se submeterem ao questionário,
esses professores gentilmente atenderam à nossa solicitação para uma breve
entrevista, quando foi possível adiantar o propósito de nossa pesquisa e acertarmos como seriam os procedimentos da investigação. Visando a preservar
a identidade de nossos entrevistados, optamos por um nome fictício no decorrer das discussões, sendo: Professoras Andréia e Arlene e Professor Pedro.
A professora Andréia é pedagoga com licença para atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental e em Administração Educacional, tendo sido
formada pela UFT – Universidade Federal do Tocantins. Essa professora
leciona as disciplinas de Português, Literatura, Matemática e Física. Arlene
também é pedagoga com licença para atuar nos anos iniciais do Ensino
Fundamental e Administração Educacional e também se formou na UFT.
Ela ministra as disciplinas de Ciências, Inglês, Português, Literatura e Filosofia. Assim como essas duas professoras, o professor Pedro também é
pedagogo com licença para os anos iniciais do ensino fundamental e administração educacional e leciona as disciplinas de Português, Literatura,
Geografia e Inglês. Ele também fez sua graduação na UFT.
Com efeito, observamos que a formação dos professores não é necessariamente adequada às disciplinas que lecionam. Este é um problema
enfrentado com bastante dificuldade pelos agentes educacionais das escolas
das aldeias indígenas Apinayé. Isso porque os professores são “improvisados” para ministrar determinadas disciplinas, e neste momento percebemos que a criatividade e a autonomia de cada um deles farão a diferença.
Mesmo diante da imposição de um currículo unificado, que precisa ser
seguido à risca, eles se unem na busca de alternativas que permitam levar
os alunos a aprender algo que seja relevante para suas vidas, priorizando a
escolha de textos que despertem o desejo de ler, agucem sua imaginação e
provoquem fruição estética.
Inicialmente perguntamos aos professores que material era utilizado
para as aulas de literatura: se apenas o livro didático ou se existia outro
material de apoio pedagógico. As respostas dos professores foram análogas.
Ressaltaram o fato de terem que ministrar diferentes disciplinas e de terem
em comum as disciplinas de português, literatura e inglês. Eles veem com
bastante preocupação o fato de precisar lecionar disciplinas para as quais
não têm a formação específica.
No tocante à disciplina de Português e também de Literatura, esses professores acreditam que o fato de serem formados em pedagogia ajuda. ObserA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
vamos que eles trabalham com uma metodologia que pode ser identificada
como interdisciplinar (Albuquerque (2009). Atuando em parceria e ministrando diferentes disciplinas para as mesmas turmas, eles buscam, dentro do
possível, promover um diálogo entre cada uma dessas disciplinas. O material
didático utilizado é o oficial, mas também têm livros e textos que eles utilizam
em seu cotidiano, principalmente de autores que são poetas. Eles se autodenominam “ratos de internet” e “amantes” de Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa.
Nesse sentido, percebemos que o gênero literário poesia é utilizado
por estes professores em suas práticas na sala de aula. Constatamos, também, que os docentes veem na poesia uma forma de “seduzir” seus alunos
para a prática da leitura de textos literários. Sobre a poesia e sua importância na vida, recorremos ao seguinte trecho de A República, no qual Sócrates
assevera que:
[...] Concederemos certamente aos seus defensores, que não forem poetas, mas forem amantes da poesia, que falem em prova, em sua defesa,
mostrando como é não só agradável, como útil, para os Estados e a
vida humana. E escutá-lo-emos favoravelmente, porquanto só teremos
vantagem, se se vir que ela é não só agradável como também útil (PLATÃO, 2006, 607e).
Sócrates convoca a todos os cidadãos atenienses, que nutrem gosto
pela poesia, a defenderem sua importância na construção da cidadania na
Polis Grega. Trazendo tais proposições para a realidade da escola Apinayé
Tekator e seus professores de literatura, é possível conjecturar que, ao iniciarem seus alunos na arte de apreciar, apreender e (re)produzir textos poéticos em versos, eles estão também introduzindo-os num processo criativo
e autônomo que favorece a construção da cidadania, sendo esta um direito
adquirido pelos indígenas brasileiros, contemplado no Art. 210 da Constituição Federal Brasileira (CRF/88).
Indagamos, também, se a literatura brasileira, notadamente no que
diz respeito ao livro didático, dialoga com a literatura indígena brasileira.
Constatamos que os professores nem sequer sabiam da existência de uma
literatura indígena no Brasil. Contudo, essa desinformação se estende também para os professores das escolas da sociedade nacional, apresentando
uma lacuna que precisa ser preenchida por meio de uma educação que
promova um diálogo intercultural.
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133
Quanto à dinâmica das aulas de literatura, os professores entrevistados admitiram que estas ocorrem em consonância com a aula de português,
nunca separadamente. Para eles, o fato de o português ser uma segunda língua para os alunos, é um desafio a mais que todos têm que enfrentar. Nesse
sentido, são realizadas leituras em grupo e também individual, priorizando
os livros com poemas, desde que os alunos se interessam mais por esse
tipo de texto, principalmente aqueles que falam de amor e da natureza. Por
serem poemas permeados por um forte apelo emocional, os professores
resolveram focar as aulas neste tipo de literatura e perceberam que, a cada
aula, alguns alunos solicitavam novos conteúdos. O resultado foi que, sem
nenhuma interferência dos professores, os alunos começaram a produzir
seus próprios poemas. Daí os professores passaram a utilizar esse tipo de
produção textual nas avaliações.
Notamos que, com essa metodologia, esses professores despertam nos
seus alunos o gosto pela leitura de textos literários, aguçando suas sensibilidade e imaginação, despertando-lhes prazer, o que identificamos como fruição
estética provocada pela arte da literatura poética, o que favorece a concepção
de letramento literário que aqui defendemos. Neste sentido, encontramos
em Magalhães e Barbosa (2009) reflexões que corroboram tais observações.
Sobre a fruição estética no texto literário essas autoras sustentam que,
Considerando a natureza e as funções da literatura, sobre a função estética, que aguça a sensibilidade e causa prazer, o letramento literário
deve possibilitar ao aluno não apenas o reconhecimento das manifestações literárias no tempo e no espaço, mas, sobretudo, o desenvolvimento da sensibilidade, da imaginação e da capacidade de fruição estética
(SILVA; MELO, 2009, p. 153-154).
Na leitura, na apreensão e na fruição do texto literário, bem como
na (re)produção desse tipo de gênero da literatura, encontramos o senso
de nós mesmos. Consequentemente, esse senso possibilita a construção de
nossa identidade e a projeta para um mundo ao qual buscamos pertencer.
Considerando o aspecto prazeroso que desencadeia todo o processo de leitura feita sem imposição, essa identidade em interação com esse mundo
exterior nos leva à fruição estética, que nos conduz à estesia.
Todavia, esses professores admitem dificuldades em relação à apreensão imediata dos textos lidos, principalmente pela barreira linguística.
Visando a enfrentar essa problemática, eles investem numa aula onde se
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134
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
fundem diálogo (Freire, 1997), e cumplicidade. Aqueles alunos que têm
mais facilidade ajudam aos que não têm. Os professores planejam as aulas
sempre em parceria com os professores de língua materna, o que evidencia
a interdisciplinaridade (Fazenda, 2006; Albuquerque, 2009).
Quanto aos conteúdos obrigatórios contidos no livro didático, principalmente em relação à cronologia e aos movimentos literários, são trabalhados conteúdos privilegiando autores que de alguma forma mantêm
vínculo com a realidade indígena, como por exemplo, José de Alencar,
Gonçalves Dias e, com mais ênfase, Castro Alves, devido aos seus escritos
serem poesias. Também aqui é dada muita importância ao gosto dos alunos, e mesmo diante do livro didático, a preocupação com um texto que
cause prazer ao leitor é uma preocupação para esses professores.
Sobre o papel que assume o professor nesse cenário, Cosson (2006)
assinala que este tem um papel fundamental no processo de letramento em
literatura. Isso porque a leitura que possibilita tal evento é realizada a partir da forma como se apreende a leitura na escola. Para esse autor, cabe ao
professor cuidar para que o processo de leitura dos textos pelos alunos seja
algo satisfatório. Porém, o ensino da literatura nas escolas brasileiras se encontra comprometido, desde que sua formulação encontra-se fragmentada
em atividades específicas do livro didático sem ser considerada a opinião
dos alunos, suas percepções, seus anseios, suas subjetividades.
Perguntamos aos professores se existe alguma conexão entre as aulas
que eles ministram e os mitos indígenas Apinayé. Eles responderam que
não conhecem esses mitos. Todavia, mesmo entre os professores de língua
materna existe essa desinformação, conforme pudemos observar ao acompanharmos aulas em língua materna.
Como sabemos, os mitos são uma forma de literatura de tradição oral
muito importante nas sociedades indígenas brasileiras. Portanto, podem ser
utilizados nas aulas de literatura, desde que sejam conhecidos e estudados também pelos professores não indígenas. Ademais, a literatura é palco ideal para
essa manifestação, pois sua condição artística permite que todo potencial expressivo e imaginário seja explorado, possibilitando outras formas de experiência na convivência entre povos de culturas diferentes e diferentes realidades.
Literatura e Prática Docente na Escola IndígenaTekator
O que faz um professor de literatura para despertar no aluno o interesse em ler textos literários, nomeadamente numa escola indígena? AcreA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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ditamos que um passo importante é dado quando este professor demonstra
um interesse que vai além do utilitarismo tão presente nas práticas pedagógicas atualmente. Neste momento a formação inicial e continuada desse
professor irá fazer toda diferença. E esta formação se dá com mais qualidade quando ele cria meios para enfrentar as dificuldades, principalmente em
relação à aquisição de material didático atualizado e acesso a eventos como
seminários e congressos. No caso de nossa pesquisa, buscamos saber dos
professores como eles, no seu dia-a-dia, criam mecanismos que favoreçam
o trabalho na sala de aula, principalmente em relação ao seu preparo teórico e prático.
Procurando identificar elementos que caracterizem o letramento literário em suas atividades na sala de aula, perguntamos aos professores qual
é a importância da literatura em sua prática docente. A professora Andréia
diz que “a literatura na sala de aula pode ajudar muito. Tem leituras que a
gente faz com os alunos e eles fazem uso dela na sua vida cotidiana. Isso
é o que mais me anima”. Para a professora Arlene “a literatura ajuda o aluno a aprender. Ajuda até nas outras matérias como filosofia, sociologia e
história”. Já o professor Pedro acredita que a importância da literatura é
que faz com que o aluno seja criativo. “Ao ler uma história ele precisa criar
um cenário, uma situação e se sentir parte da história. Ao ler uma poesia
ele sente. Pra mim isso é literatura, aquilo que faz com que quem ler sinta
alguma coisa”, afirma esse professor.
Observamos que a percepção dos professores vai ao encontro da literatura em sua conotação estética, promotora da estesia, o que estabelece uma conexão com a semiótica de Greimas (2002). Segundo Teixeira
(2002:261), a teoria Greimasiana nos conduz ao campo do sensível, sendo
que sua semiótica se apresenta não só como busca metateórica de fontes
fenomenológicas, mas também como apelo à entrada do corpo sensível no
universo da produção do sentido. Portanto, estendendo a análise ao conjunto dos canais sensoriais pelos quais o sujeito vivencia o acontecimento
estético, a literatura passa a ser compreendida e pode tornar-se modo de
existir no mundo.
Perguntamos aos professores se eles gostam de ler literatura nas horas
vagas, e que tipo de literatura eles preferem. Andréia diz que lê de tudo, mas
prioriza a literatura brasileira que ajuda nas aulas. “Os escritores regionalistas como Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa
são os que mais leio. Mas leio muitos autores que escrevem poesias como
Vinicius de Morais e Carlos Drumond de Andrade”. Ela admite ler também
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136
Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
literatura estrangeira e que gosta muito de Gabriel Garcia Marques e Pablo
Neruda. Arlene afirma que ler sempre que pode. Todavia, “não temos biblioteca, mas eu tenho acesso à internet e sempre faço copia de livros no
site do domínio público. Principalmente os de poesias que é o que mais
os alunos gostam. E aproveito e leio o que eu posso aproveitar nas aulas”.
Percebemos que essas professoras utilizam a literatura poética como forma
de apoio didático. Entretanto, Cosson (2006) defende a didatização da literatura, principalmente através do próprio livro didático.
Por sua vez, o professor Pedro diz gostar de ler qualquer coisa que seja
boa. “Mas me interessa muito a literatura poética, gosto muito de escrever
e de ler poemas, pois vejo nesse gênero literário um forte teor pedagógico
e porque acredito que lendo e praticando poesias podemos nos tornar pessoas melhores, mais sensíveis, mais tolerantes.” Nesse sentido encontramos
na filosofia da Grécia Antiga a fundamentação necessária para validar a fala
desse professor. Segundo Platão, a poesia só teria valor caso possuísse valor
pedagógico, ou seja, fosse capaz de transmitir valores.
Perguntamos também como esses professores avaliam as leituras literárias que passam para os alunos. Todos foram unânimes ao dizer que
pedem sempre para que eles produzam um texto sobre o que foi aplicado
na aula. E que este texto é sempre em forma de poesia. “É possível identificar na produção dos alunos algo como que se eles se despissem e deixassem
que lêssemos a sua alma”, afirma Andréia. "Eu faço uma avaliação oral e
também escrita, quando é oral o resultado não é bom, mas quando eles
escrevem se saem bem melhores”, diz Arlene. Pedro alega que faz uma avaliação que chama de “momentos de avaliação literária”, sendo que “após as
aulas sentamos numa roda e cada um fala o que sentiu ao ler determinado
texto, e depois verbalizam isso por escrito”.
Mais uma vez identificamos a questão do “sentir” como aspecto que
evidencia a prática da leitura literária na ação desses professores, o que
nos leva a retomar os conceitos de estética e estesia propostos por Greimas
(2002) em sua semiótica. Para Greimas (2002, p. 21) esta “sensação” rompe com uma postura estática do sujeito, elevando-o a uma nova dimensão
onde o belo se faz presente de diferentes modos, no sentir, no fluir, no fruir,
naquilo que pode ser identificado como “ruptura” ou “fratura”. Esse autor
nos oferece uma interpretação pessoal da função que o acontecimento estético ocupa na vida dos sujeitos, propondo romper o seu cotidiano, acionando atos corriqueiros que haviam perdido o sentido, ao mesmo tempo
em que os conduz à contemplação e à estesia.
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137
Quais são as atividades que os alunos mais gostam de fazer, e as que eles
menos gostam numa aula de literatura, foi outra pergunta feita aos professores. Outra vez as respostas foram similares, apontando que o trabalho com
poesias é o que mais interessa às classes. Dentre as atividades de que eles
menos gostam estão os textos que tratam da história da literatura, nomeadamente, os movimentos literários. Eles também não gostam das leituras do
livro didático. “Mas acabamos utilizando o livro didático porque na prova os
alunos são avaliados pelo conteúdo desse livro. E também porque não temos
outros livros. Outra coisa que eles não gostam são as provas”, afirma Pedro.
No tocante ao livro didático e sua relação com a literatura, Soares
(2002) diz que há o papel ideal e o papel real do livro didático neste cenário. Para essa autora,
O papel ideal seria que o livro didático fosse apenas um apoio, mas não
o roteiro do trabalho [do professor]. Na verdade isso dificilmente se
concretiza, não por culpa do professor, mas de novo vou insistir, por
culpa das condições de trabalho que o professor tem hoje. Um professor hoje nesse país, para ele minimamente sobreviver, ele tem que dar
aulas o dia inteiro, de manhã, de tarde e, frequentemente, até a noite.
Então, é uma pessoa que não tem tempo de preparar aula, que não tem
tempo de se atualizar. A consequência é que ele se apoia muito no livro
didático. Idealmente, o livro didático devia ser apenas um suporte, um
apoio, mas na verdade ele realmente acaba sendo a diretriz básica do
professor no seu ensino. (SOARES, 2002, [s.p.]).
Nesse sentido, o professor, ao utilizar o livro didático como principal
ferramenta na condução das aulas, deve estar consciente de que pode ocorrer o fato de os alunos terem aversão pela leitura literária. Isso porque a
concepção de literatura se reduz ao material didático que é desinteressante
e sem nenhum atrativo. Tal situação compromete a fruição enquanto elemento da estética, presente num texto de teor literário, bem com da estesia
provocada pelo ato da leitura.
No entanto o trabalho com o livro didático numa aula de literatura
é necessário. Os conteúdos são cobrados posteriormente, principalmente
nos exames vestibulares. Por essa razão, o professor precisa fazer com que
essas aulas sejam atraentes para os alunos. Aqui a metodologia e a sensibilização do professor farão o diferencial, e a “sedução” desses alunos para a
aula de literatura acontecerá.
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
Os Alunos Indígenas e as Práticas de Letramento Literário
A necessidade de criar alternativas para que o texto literário adentre
nas instituições educativas como arte, e que a apreensão estética se realize,
promovendo a fruição, é um dos mais sérios desafios enfrentados pelo corpo educativo das escolas brasileiras. No tocante à poesia, a preocupação é
criar um espaço de circulação, pois, segundo Nietzel e Duarte (2007), este
gênero literário vem sendo objeto de discriminação nas instituições educativas, principalmente porque ela não tem uma função utilitária.
Essas autoras questionam como ensinar literatura por meio da poesia, sendo este um gênero que busca tão somente o desenvolvimento da
percepção do leitor. Para elas aspectos como apelo poético, fruição estética, recursos estilísticos, uso intensivo de metáforas, bem como a exigência de um leitor mais desprendido com voos imaginativos mais altos,
são aspectos indispensáveis, pois a poesia é um texto mais aberto a interferências. Ademais, a poesia é jogo, é construção lúdica, o que exige do
leitor maior participação na construção de significações, exigindo clareza
dos docentes acerca da concepção de literatura que norteia suas práticas
pedagógicas.
Nesse sentido, e após dialogar com os professores sobre sua prática
didática e pedagógica nas aulas de literatura do Ensino Médio na Escola
Indígena Tekator, passamos a discutir um questionário aplicado a cinco estudantes indígenas. Para que sejam preservadas suas identidades, daremos
nomes fictícios, quais sejam: Maria, Marta, Sara, João e Lucas.
Inicialmente perguntamos se eles gostam de ler, o que preferem ler e o
porquê desta preferência. Assim eles se manifestaram:
Não, eu não gosto de ler porque a professora manda a gente ler livros
grandes e demora muito. Mas quando ela traz poesias eu gosto. Mas eu
gosto mesmo é de escrever, principalmente poesia. E também historias.
Eu não gosto de ler muito não, mas gosto quando tem um livro que tem
poesia e eu gosto da poesia que fala de amor, que deixa a gente feliz
(MARIA).
Gosto, eu adoro ler. Mas gosto mais de escrever. É que quando eu escrevo me sinto grande, igual a minha professora. E quando leio poesia eu
me sinto como se eu fosse que escreveu. É como se eu fosse uma pessoa
diferente, e não tivesse mais aqui. (MARTA).
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Depende do que é pra gente ler. Quando a professora manda ler aqueles livros grandes é ruim. O bom é quando ela traz livro de poesia e manda
a gente ler. E depois a gente escreve o que quer. (SARA).
Gosto. Gosto de ler tudo, minha professora diz que a gente tem que ler
para pensar. Eu adoro ler poesias, eu gosto porque eles fazem a gente
ficar bem. Tudo na vida é difícil de viver. Mas nas poesia tudo é bonito.
Tem aquelas de Castro Alves que fala de coisa ruim. Mas assim mesmo é bom que a gente aprende também história e também geografia
(LUCAS).
Eu gosto pouco, quando é uma história boa, eu gosto. Quando é um
livro de poesia também. Principalmente as que fala da terra e dos rio,
do céu, da lua e das estrelas. Mas o que eu mais gosto quando leio é que
eu saio daqui. (JOÃO).
Percebemos que esses alunos indígenas têm uma relação com a leitura
bastante diversificada. Uns gostam muito de ler, outros pouco e alguns nem
tanto. Contudo, observamos que todos, em algum momento, demonstram
gosto pela leitura de poesias. Isso demonstra que de alguma forma eles apreenderam os conteúdos aos quais foram expostos nas aulas de literatura. E
essa apreensão evidencia uma prática de letramento literário, pois ocorreu
aquilo que as Orientações Curriculares do Ensino Médio (BRASIL, 2006)
determinam como essa prática, ou seja, os alunos, em algum momento,
tiveram contato com uma obra literária poética e dela se apropriaram por
meio da fruição.
Notamos, também, que o discurso desses alunos indígenas apresenta
elementos bastante significativos que aproximam suas percepções à teoria
literária de Greimas (2002). A semiótica Greimasiana nos fala de uma estética promotora de estesia, sendo esta o sentimento do belo. A estesia é
identificada nas alocuções dos alunos, já que sentimentos e sensações se
fundem de forma mais eloquente, fazendo-os se distanciarem da realidade cotidiana. Seriam, portanto, “as escapatórias” propostas por Greimas
(2002), quando ele acena para a possibilidade de que os próprios sujeitos
construam momentos em que a realidade, de certa forma, se transfigure
aos seus olhos. Aproxima-se também de Aristóteles e sua poética, uma vez
que sua teoria assinala uma arte que imita as emoções e as ações. Ou então
na proposta de Tatit (1997, p. 49), quando nos diz que “entre o encanto
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
da matéria tratada pelas linguagens artísticas e a eficácia da comunicação
praticada nas linguagens utilitárias, modelam-se os afetos subjetivos e os
efeitos objetivos que imprimem maior ou menor aprofundamento em nossa existência”.
Nesse sentido, é importante situar o pensamento de Magalhães e Barbosa (2008) que expõem a necessidade imperiosa que assume a “sedução”
do sujeito pelo objeto de leitura. Para essas autoras, “o ser humano está
preparado para gostar de ler porque a literatura estimula a imaginação e a
subjetividade do leitor, preenchendo, portanto, uma necessidade vital do
indivíduo, que é a de exercitar a imaginação e obter, por este meio, prazer
estético” (MAGALHÃES E BARBOSA, 2008, p. 154-5).
Mas afinal, o que é literatura para esses alunos indígenas? Para Maria,
“são esses livro que não têm muito haver, com palavra difícil. São aqueles
livros que a professora manda a gente ler para fazer a prova. Mas a professora falou que poesia também é literatura, dessa eu gosto. Gosto porque me
deixa feliz.” Marta diz o seguinte: “Pra mim, literatura é de dois jeito. Tem a
que a professora manda ler para fazer a prova. Que é do livro da aula. Dessa
eu não gosto. Tem aquela que é a poesia. Dessa eu gosto porque é como se
fosse algo pra ajudar a gente, que nos ajuda a se entender, a ver as coisas de
outro jeito, é como se fosse algo que ensina mas que também é bom”.
Sara afirma que literatura “é um tipo de livro que conta histórias e é
as poesia que ensina a escrever certo que as vezes faz a gente viajar, ir para
outros lugares, mas tem umas histórias que são ruim, tem umas que a professora trás e eu não leio toda porque o livro e grande e eu não gosto porque
demora muito”. A opinião de Lucas é que literatura “são livros com história
e também livros com poesia”. “Literatura é livro, os livros de poesia e os
livro de história e o material que a professora traz que ela traz da internete”,
afirma João.
Percebemos que os alunos veem a literatura pela sua conotação didática e que está vinculada ao que a professora encaminha em suas atividades
na sala de aula. Toda a fruição que é apreendida por eles no momento das
leituras e que os levam a “saírem de si”, não é associada ao que eles entendem por literatura. Antes, esta se apresenta apenas como uma disciplina a
mais, e uma disciplina não muito agradável. Todavia, eles acreditam que
através da leitura literária podem “aprender a escrever certo”, atestando o
seu teor pedagógico, o que vai ao encontro da teoria de Platão.
Você gosta das aulas de Literatura e por quê foi outra pergunta que
fizemos. Maria diz: “só gosto quando a professora deixa a gente fazer nossos
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poemas ou quando ela fala de coisa da vida da gente, que realmente tem
haver com o que gente vive, mas na maioria das vezes não gosto não. Já
Marta dia que “sim, porque a professora trás um monte de textos bons, ela
também explica bem. Mas tem as leitura do livro da aula que eu não gosto.
Gosto sim é quando a professora manda escrever. Aí eu escrevo o que me
deixa feliz que é poesia”. “Eu gosto, mas tem umas aula que a professora fala
de datas e nomes difíceis. E às vezes tem umas coisas boas, e as vezes são
umas com palavras difíceis, mas gosto quando a aula é sobre poesia que fala
de amor” afirma Sara. Lucas assinala que só gosta “quando as história são
boa como a de Peri e Ceci e as poesia são de lugar e de viagem”. João afirma
que gosta apenas “quando a gente ler e faz poesia, eu adoro escrever. Me
sinto como se eu fosse quem escreveu todos as poesia que a professora traz
da internete e dos livro também”.
Mais uma vez observamos que os alunos têm uma preferência pelo
gênero poesia e prazer de ler e escrever poemas. Para Magalhães a leitura
que interessa ao primeiro nível do letramento (o prazer de ler) equivaleria
à leitura comprometida, ou seja, aquela em que o leitor “deixa sua imaginação funcionar sem regras: concretamente, a leitura comprometida se
traduz por uma identificação com as personagens, uma projeção na ação,
uma espécie de diálogo permanente entre o livro e o leitor” (FARIA, apud
MAGALHÃES, 2008, p. 4).
Buscamos saber dos alunos se eles leram algum livro nos últimos meses e quais foram. Todos responderam que leram “Vidas Secas de Graciliano Ramos, O Guarani e Iracema de José de Alencar”, sendo que tais leituras
foram feitas por exigência da professora, mas que gostaram. Sobre a importância da leitura em suas vidas, obtivemos as seguintes respostas:
Eu acho que aprender a ler é muito bom porque consigo ler, e saber de
coisas que eu não sabia, faz a gente mais inteligente. (MARIA).
É muito bom ler. Gosto mesmo das poesias que são pequenas e a gente
entende pois fala dos sentimentos da gente. Mas não tenho livro pra ler.
Só quando a professora traz. Mas depois tenho que devolver para ela
pois os outros precisam ler também. Gostaria de ter um livro de Vinicius de Morais meu (MARTA).
A leitura é muito importante porque quando a gente aprende a ler, a
gente conhece outros lugares, mundos, a gente aprende um monte de
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
coisas que não sabia, então é muito bom aprender a ler. Assim eu posso
um dia trabalhar e ser professora. Posso também ajudar meus irmãos
na lição de casa (SARA).
É bom porque a gente aprende mais, aprende outras coisas que não são da
aldeia. E lendo eu posso ser um professor. Eu vou ser professor (LUCAS.
É muito importante, eu adoro ler, ainda bem que eu aprendi a ler, porque dá uma vida melhor para a gente, a gente fica mais inteligente, consegue aprender mais. Parece que eu sempre sabia ler (JOÃO).
Notamos que a utilização prática da leitura assume um lugar de destaque na vida desses jovens indígenas. Considerando que estamos diante de
uma sociedade em que a escola só chegou na década de 1960, e que a leitura
é uma atividade exclusiva das sociedades letradas e que é, portanto, algo
muito recente entre os Apainyé, nos impressiona o fato deles incorporarem
os valores adquiridos pela leitura em suas expectativas de vida e de futuro.
Magalhães (2008, p. 5) em diálogo com Zilberman (2003) discute
quais seriam as motivações que, de um modo geral, levariam crianças e
adolescentes a lerem e se apropriarem dessa leitura na vida prática. Essa
autora identifica como fator relevante a relação com a realidade que surgem
os elos entre leitor e obra. Para ela, além da motivação, há uma demanda interna que está ligada às necessidades existenciais de cada um. Nesta mesma
direção a autora argumenta que “a valorização da leitura só pode se apoiar
sobre a existência de interesses pessoais que encontram sua satisfação no
ato de ler: éticos, práticos, profissionais, lúdicos” (FARIA, Apud MAGALHÃES, 2008, p. 5).
Acerca das atividades na aula de literatura de que esses alunos mais
gostam, estão aquelas em que a professora trabalha o gênero poesia, mas
tais atividades devem necessariamente conter um momento em que eles
possam expressar-se por meio da escrita, pois escrever poemas é poder viajar para lugares distantes” (JOÃO). Essa “quebra” que ocorre quando o aluno tem contato com a literatura equivale ao que Greimas (2002) apresenta
como “ruptura”, onde o sujeito, ao romper com sua cotidianeidade, é conduzido através da estética, rumo à estesia, elemento facilitador do processo
de sinestesia7. Sobre as atividades de que menos gostam estão as aulas onde
7. Sinestesia (do grego συναισθησία, συν- (syn-) "união" ou "junção". É a relação de planos
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são “obrigados” a lerem o livro didático onde estão todos os movimentos
que fazem a história da literatura brasileira e portuguesa.
Finalmente, buscamos saber dos alunos o que eles fariam se fossem
professores de literatura.
Eu mandava todos escrever o que eles gostasse. Não essas coisas de ler e
depois ficar escrevendo coisas assim sem sentido (MARIA).
Mandava que todo mundo escrevesse só o que quisesse e lesse só o que
quisesse também (MARTA).
Vou dar muitas aulas sobre todos os poetas do mundo e mandar ler
muitos livros de historias como a de Peri e Ceci. Também pedir para
ler livros de poesias. A poesia deixa a gente mais inteligente (SARA).
Eu não fazia prova. Só pedia para eles escreverem coisas que eles sentem. Assim todos podem ser feliz (LUCAS.
Fazia muitas atividades para meus alunos escreverem, mas não só poesia não. Escrever o que eles querem escrever historias, poesias, tudo. E
que tivesse muitos livros para escolher e não ler sempre o mesmo livro
que a professora manda (JOÃO).
Mais uma vez esses alunos indígenas demonstram que têm noção clara do que é uma leitura que proporciona prazer. E veem o fato de serem
“obrigados” a ler e escrever apenas porque a professora “mandou” como
algo negativo. Para eles, o prazer de ler está associado à liberdade de escolha, muito embora enfrentem a problemática de não encontrar muitas
opções, tendo que ler a mesma obra repetidas vezes.
Ao projetarem suas expectativas enquanto professores de literatura,
eles traduzem o pensamento da maioria dos estudantes das nossas escolas. Eles revelam a necessidade que têm de serem agentes ativos na condução das aulas, na escolha do material utilizado, assunto este discutido por
Magalhães (2008). Para essa autora, “o mundo do livro deve ser familiar
para que o leitor possa fazer dele um caso pessoal” (Faria, apud, Magalhães,
2008, p. 5). Contudo, haveria necessariamente uma escolha livre? A autora
recorre a Cosson (2006, p. 31) e Versanini (2006:32) afirmando que “não,
pois o leitor está sempre agindo sob influências e, quando é solicitado a
sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o olfato. O termo
é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados
por uma condição neurológica (JAPIASSU E MARCONDES, 1990).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
escolher um livro literário, é influenciado pelos amigos, resenhas, propagandas, listas etc” (Apud Magalhães, 2008, p. 5). No caso desses alunos indígenas, quem escolhe é a professora e, como não tem muita opção, acaba
indicando sempre os mesmos livros, o que é visto como um problema.
Os Alunos Indígenas Apinayé e Suas Produções Literárias
Neste momento, passamos a refletir sobre alguns textos em forma de
poesia, produzidos pelos alunos. Conforme mencionamos anteriormente,
foram selecionados cinco poemas concebidos visando à participação num
evento cultural envolvendo as escolas indígenas Apinayé.
“A História do meu amor”
Quando eu vejo você
Meu coração bate muito forte
Quando fico perto de você,
Sinto saudade
Quando eu não te vejo, fico sozinha triste
Eu não existiria sem você.
Autora: Maria Sipãx Apinayé
“Sentir saudade”
Fiquei sabendo
Senti algo muito bom dentro de mim.
Este sentimento dentro de mim é como se fosse uma flor.
Que cuida de mim.
Este sentimento que está dentro de mim
É como se fosse uma chave que abre a porta
E aparecem todas as coisas maravilhosas.
Como se fosse meu pequeno sonho.
Eu senti algo tão grande e fiquei muito feliz.
Eu senti uma grande felicidade.
E eu senti uma grande felicidade
E os meus olhos brilharam
E meu rosto ficou muito alegra
E eu disse pra mim
Esta minha felicidade é verdadeira.
Autora: Andressa Iremex Apinayé
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“Amor”
Amor, desde que te conheci, logo me apaixonei.
E quando fecho os olhos, eu penso em você.
Amor, toda vez que ouço a sua voz no silêncio do meu coração.
Te amo cada vez mais.
E cada flor que se abre lança no ar uma grande notícia que te amo.
Sim, a lua e o céu sabem que a sua estrala sou eu, brilhando à sua espera.
Doida pra dizer que eu amo você.
Autora: Sueli Jàtkamrêk Apinayé
“Saudade”
Quando estiver sozinha bem longe, na solidão.
Pense em mim, em nós.
Abra o coração!
Deixe que a saudade bata
À porta da esperança guardada,
Quem espera sempre alcança.
Hoje sou todo seu!
Amanhã serei mais
Há sempre um coração perdido
Por esses erros gerais
Autor: Vilson Pàrkahi Apinayé
“A Natureza”
A Natureza é como uma mulher
Ela é frágil
E por isso não tem como se defender
Mas quando ela se revolta
Não existe ninguém que domine.
Autor: Edvaldo Sugi Apinayé
Observando a produção textual desses alunos indígenas Apinayé, é
possível fazer uma análise a partir do que armaram os professores. Em todos os textos é notável a presença do romantismo próprio dos jovens de
nossa sociedade, mas que também está presente em alguns dos autores trabalhados nas aulas de literatura.
Em relação à temática predominante que é o amor, percebemos a influência de Vinícius de Morais e Cecília Meireles. Outro aspecto a ser conA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Letramento Literário na Escola Indígena Tekator da Aldeia Apinayé Mariazinha
siderado é o fato de esses alunos, ao adentrarem neste vasto e rico universo
da escrita de textos literários, encontrarem a fonte para uma literatura que
estabelece uma comunhão entre leitor e poesia, primando pelo prazer, pela
apreciação do belo e pela liberdade de criação, promotora das subjetividades.
Segundo Azevedo (2005), falar em literatura significa falar em fruição
e discurso poético, mas muito mais do que isso. Significa abordar assuntos vistos, invariavelmente, do ponto de vista da subjetividade. Significa
a motivação estética. Significa remeter ao imaginário. Significa entrar em
contato com especulações e não com lições.
Nota-se, portanto, que esses alunos conseguiram apreender com muita propriedade os elementos que compõem o gênero poético, resultado do
trabalho docente. Eles demonstram que sabem o que é poesia, que têm
noção da versificação. Contudo, em sua produção, eles não se apresentam
como indígenas. Nos seus poemas não há traços de uma identidade indígena que possa marcar os textos. Existe, sim, uma evidente subjetividade e a
alma apaixonada que existe dentro de cada poeta.
Entretanto, percebemos que a natureza está presente nos escritos desses alunos. O sol e a lua são elementos muito significativos para os indígenas, porquanto o universo cosmológico por eles vivenciado se utiliza desses
astros para explicar a criação do mundo e da vida. Talvez aí estejam, mesmo
que acentuadamente, alguns aspectos da vida na aldeia. Lua, sol, céu, flores
são vocábulos recorrentes em meio às reflexões acerca do amor e da paixão
que permeiam cada verso, e também fazem parte do dia-a-dia de cada um
destes estudantes.
Fazendo uma análise do estado da arte no tocante à literatura indígena no Brasil, constatamos com agradável surpresa que existe um grande
número de autores indígenas que escrevem poesia e que são recorrentes
eventos nacionais divulgando o trabalho desses povos. E isso não se limita
ao gênero poético, mas também a romances e narrativas voltadas para o público infanto-juvenil, com uma boa aceitação da crítica literária brasileira.
Considerações Finais
É inegável que existe uma grande preocupação dos sistemas educacionais brasileiros, seja em nível Federal, Estadual ou Municipal, acerca da
efetivação de uma educação que não apenas alfabetize, mas que eleve os
estudantes à condição de letrados, conforme evidenciou o diálogo com o
corpo teórico que sustenta este trabalho.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina Alves de Almeida, Francisco Edviges Albuquerque
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O estudo sobre letramento literário que aqui se desenvolveu, vem ao
encontro do que rezam as Orientações Curriculares do Ensino Médio no
tocante ao estudo de literatura, entendendo por alguém letrado em literatura não apenas o leitor de uma obra literária, mas aquele que, ao lê-la, dela
se apodera, fruindo-a por meio da fruição estética e da estesia.
Constatamos que as práticas didáticas e pedagógicas dos professores de
literatura nas escolas indígenas incorporam elementos conceituais do letramento literário, muito embora, ao serem indagados sobre o que entendem
por letramento literário, os professores demonstrassem desconhecer do que
se tratava, evocando superficialmente o letramento em leitura. Isso corrobora o que os autores consultados dizem sobre esta prática, ou seja, que, para
que alguém seja considerado letrado em literatura, basta ser um leitor que
consegue extrair das obras que lê elementos que de certa forma o torne impregnado de seu conteúdo, ocorrendo uma espécie de encantamento.
No caso dos alunos indígenas que participaram com seus textos, ficou
evidente que eles detêm conhecimento prévio de elementos próprios de sua
cultura, mas poderiam ser mais relevantes no estudo da literatura, como por
exemplo, os mitos Apinayé. No entanto, partindo do conceito de literatura
adotado neste trabalho, ou seja, de que a literatura refere-se à fruição estética, e de que essa fruição implica no estabelecimento de um tipo de relação
entre leitor e texto marcada pela gratuidade, o letramento literário passa a
envolver não só as práticas sociais de uso da escrita literária, num sentido
mais especializado dos textos canônicos, mas todas as práticas sociais da
escrita ficcional usada com a finalidade de se obter prazer, gratuidade e evasão, ou seja, de fuga da realidade para um mundo bem mais agradável.
Para finalizar, retomamos o trabalho junto aos professores e alunos da
aldeia Mariazinha, aprovando a atitude dos professores que, na busca por
mecanismos que os auxiliem na árdua tarefa de ensinar literatura para alunos indígenas, encontraram uma metodologia eficaz. E essa metodologia, ao
proporcionar que os alunos se apoderem de seu teor, de moda a traduzirem
os conhecimentos adquiridos em forma de textos poéticos tão salutares, nos
leva a avaliar a prática docente nesta escola como letramento literário. Utopia
ou não, esta é uma prática possível também na educação escolar indígena.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Indígena Apinayé
na Perspectiva Bilíngue e Intercultural:
implicações com base na Lei 11.645/081
Severina Alves de Almeida2
Fernanda de Oliveira Fernandes3
Alex Dias da Conceição Silva4
Ediléia Maria da Silva5
Gustavo Carvalho Viveiros6
Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira7
Introdução
A interculturalidade no âmbito da educação escolar tem se apresentado como fonte de preocupação dos sistemas de ensino não apenas do
Brasil, mas em todos os países que historicamente se encontram envolvidos
com a questão indígena. Essa realidade não permite mais a indiferença,
1. Trabalho vinculado ao Projeto de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e
Intercultural do Programa do Observatório de Educação Indígena, coordenado pelo Prof
Dr. Francisco Edviges Albuquerque. CAPES/SECAD/INEP/UFT 2010/2011.
2.Mestranda do PPGL – Programa de Pós Graduação da Universidade Federal do
Tocantins, Campus de Araguaína, no MELL - Mestrado em Língua e Literatura e bolsista
do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/CAPES/SECAD/INEP.
3. Bolsista de Graduação do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/
CAPES/SECAD/INEP.
4. Bolsista de Graduação do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/
CAPES/SECAD/INEP.
5. Bolsista de Graduação do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/
CAPES/SECAD/INEP.
6. Bolsista de Graduação do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/
CAPES/SECAD/INEP.
7. Bolsista de Graduação do Programa do Observatório de Educação Escolar Indígena/
CAPES/SECAD/INEP.
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A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
nem tampouco o descaso com as sociedades que, por séculos, exerceram/
exercem hegemonia sobre os povos colonizados, buscam mecanismos de
resgate de uma dívida que perdura há mais de cinco séculos. Além disso, é
preciso que se efetivem os dispositivos legais assegurados em documentos
normativos, como é o caso dos Art. 210 e 215 da Constituição Federal do
Brasil (CRF/1988).
Nesse sentido, realizamos um estudo que tem por objetivo promover um estudo acerca da Educação Escolar Indígena Apinayé na perspectiva
bilíngue e intercultural, fazendo um diagnóstico acerca da interculturalidade na educação escolar, tanto na esfera da escolarização dos povos indígenas, quanto da nossa sociedade, considerando a necessidade de se estabelecer redes de convivência que permitam diálogos interculturais, tendo em
vista a realidade vivenciada na fronteira étnica. Isso porque acreditamos ser
papel da educação escolar promover e efetivar a interculturalidade, desde
que o processo educativo se dê num campo privilegiado onde interagem
diferentes culturas em meio a diferentes realidades.
Esta pesquisa se realiza a partir das ações do Projeto de Educação
Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do
Observatório de Educação Indígena, coordenado pelo Professor, Francisco
Edviges Albuquerque, com a CAPES/UFT 2010/2011, equipe de pesquisadores, nomeadamente dos estudantes de graduação contemplados com
bolsas do referido Projeto. Além disso, realizamos uma pesquisa bibliográfica. Esta se deu quando dialogamos com as bases teóricas que contemplam
estudos acerca da interculturalidade, da educação escolar indígena e não
indígena, sobre os Apinayé e, com mais veemência, o texto que trata da
Lei 11.645/08. Autores como Francisco Edviges Albuquerque, Terezinha
Maher, e Luiz Donizete Benzi Grupioni, no conjunto de suas obras, tiveram
importância relevante, sendo que os resultados alcançados, em grande parte, são creditados aos estudos destes teóricos. A parte empírica da pesquisa
se deu nos domínios sociais Apinayé das aldeias São José e Mariazinha.
Com efeito, o texto está estruturado em dois momentos que se imbricam na contextualização da questão da interculturalidade na sala de
aula, num cenário que comporta realidades distintas, tanto cultural quanto socialmente. Primeiro, fazemos uma reflexão sobre interculturalidade
e educação escolar indígena, analisando e descrevendo conceitos e especificidades que cada termo comporta, tendo como foco os resultados da
pesquisa realizada pelo Programa do Observatório de Educação Escolar
Indígena Apinayé. Em seguida, são tecidas considerações acerca do contexA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina A. de Almeida, Fernanda de O. Fernandes, Alex Dias da C. Silva, Ediléia Maria da Silva
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to educacional e intercultural dos Apinayé, tendo como ponto de partida a
Lei 11.645 de 8 de março de 2008. Concluímos com algumas conjecturas,
apontam para a necessidade de regulamentar o que traz a Lei em estudo.
Interculturalidade e Educação Escolar Indígena na Perspectiva
Bilíngue e Intercultural: os Apinayé
O Brasil é um dos países com maior número de diferenças étnicas
do mundo. Apesar de as questões de diversidade cultural serem discutidas
por diversas entidades que se preocupam com essa abordagem, sabe-se que
ainda existem atitudes preconceituosas quanto a isso.
Durante o período colonial, os povos indígenas eram vistos como incapazes de criar seu próprio sistema educacional. Sendo assim, a sociedade majoritária controlava todo esse processo dentro das aldeias. Não havia
métodos diferentes para o ensino indígena: o que se estudava em uma escola de não indígena também se aprendia numa escola indígena. Segundo
Gruzinsk (2001), historicamente, a educação escolar entre os povos indígenas, no Brasil, representou um recurso fundamental à construção de identidades colonizadas. Isso, por sua vez, favoreceu a emergência de um sistema
unificado incapaz de assistir diferentes culturas dentro da escola.
Todavia, nas últimas décadas do século XX, e neste início do século
XXI, as comunidades indígenas, contando com o apoio de algumas ONG’s
– Organizações Não Governamentais - conseguiram ressonância de suas
reivindicações, ainda na Constituição de 1988, a qual garante uma educação indígena específica e diferenciada, assegurando que “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras,
e das de outros grupos participantes do processo de civilizatório nacional”.
(Art. 215).
Contudo, vinte e dois anos após a promulgação da Carta Magna, essas
comunidades ainda são despojadas do processo educacional do governo,
isto é, de uma política pública onde professores/as e alunos/as não são pressionados a frequentar um ambiente escolar totalmente descontextualizado
de suas realidades socioculturais e linguísticas. Realidades estas presentes
nas aldeias Apinayé de São José e Mariazinha, povos indígenas que habitam
no extremo norte do estado do Tocantins. Nestas escolas, constatamos que
o currículo escolar é inadequado ao processo de aprendizagem de alunos
do 2º ano do ensino fundamental, no qual as crianças são obrigadas a estudar em ambiente fechado, em um ambiente diferente do pátio da aldeia
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
onde elas brincam e adquirem os conhecimentos sobre sua história e sua
cultura.
Porém, os estudantes Apinayé, assim como os demais povos indígenas
brasileiros, têm assegurado pela Constituição Federal do Brasil (CRF/1988),
o direito de “o ensino fundamental regular ser ministrado em língua portuguesa, bem como a utilização de suas línguas materna e processos próprios
de aprendizagem”, (Art. 210), favorecendo a emergência de uma educação
específica, bilíngue e diferenciada das demais escolas, quer sejam urbanas
ou indígenas, conforme Maher (2005). Entretanto, percebemos que na escola Tekator da aldeia Mariazinha os professores dos anos iniciais do ensino fundamental se revezam na tentativa de promover uma aula “diferente”.
Isso ocorre quando esses professores se juntam aos demais que lecionam
em classes de alfabetização e se deslocam com os alunos para uma “aula de
campo”, quando a aldeia e seu entorno se apresentam como palco de uma
aula contextualizada, onde a cultura indígena está presente e a interação
entre escola e comunidade se efetiva.
Essa prática educativa encontra ressonância em Fornet (2007), o qual
assegura que toda cultura desenvolve sistemas referenciais próprios que se
condensam em tradições que, por sua vez, servem como últimas fronteiras
para tudo o que resulta familiar e compreensível no interior desta cultura.
Não obstante, todo esse processo intercultural é uma forma de inserção,
capaz de dar oportunidades a diferentes grupos, em diferentes e múltiplas
realidades.
Com efeito, a interculturalidade pode ser vista de diversas maneiras,
como, por exemplo, incentivadora da tolerância na diversidade; da valorização da pluralidade cultural e na revisão das tradições, negando a existência de uma única cultura, de uma única força dominante, buscando assim
equilíbrio entre o pluralismo linguístico
Não obstante, a interculturalidade, quando pensada no cotidiano de
uma escola indígena, está intrinsecamente ligada à questão do conhecimento. Não se propõe, por exemplo, que para garantir o caráter intercultural deva haver necessariamente professores não indígenas e indígenas trabalhando lado a lado na sala de aula. Ou que o prédio da escola deva conter
características arquitetônicas indígenas e ocidentais, ao mesmo tempo.
Já vimos como a escola, no modelo assimilacionista (MAHER, 2005),
lidava com essa questão – os conhecimentos adequados às suas finalidades
eram os trazidos pelos europeus. Os povos indígenas foram considerados
como incapacitados, em consequência, teriam de receber tudo dos que aqui
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina A. de Almeida, Fernanda de O. Fernandes, Alex Dias da C. Silva, Ediléia Maria da Silva
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chegavam. Gandavo (apud Paula, 1999, p. 78), um dos cronistas quinhentistas, ao comentar o idioma dos indígenas, assim se expressou: “não se
acha nele F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm
Fé, nem lei, nem rei”.
A ausência de autoridades políticas fortemente centralizadas, de códigos escritos e de ídolos aos quais devotassem cultos, isso tudo acrescido
do fato de a língua dos grupos tupi, com os quais os portugueses entraram
em contato por primeiro, não possuir os fonemas /f/, /l/ e /r/, levou à conclusão de que os povos indígenas não possuíam nem leis, nem reis, nem fé
e, é claro, nem conhecimentos, nem educação! É óbvio que o modelo de
comparação pautava-se por parâmetros europeus, transparecendo nesses
comentários uma visão de mundo marcadamente etnocentrista.
Com efeito, Paula (1999, p. 78-79) acredita que essa concepção do indígena como alguém incapacitado, sem conhecimentos e que, por isso, tem
de receber tudo de alguma outra sociedade, de outros povos que, por sua
vez, se consideram “superiores”, caracteriza um processo de escolarização
desenvolvido para atender aos interesses colonialistas, notadamente no que
concerne à invasão e posse da terra, à “domesticação” desses povos para o
trabalho escravo etc. “Infelizmente, essa concepção se encontra ainda bastante presente nas relações entre o Estado brasileiro e os povos indígenas, sobremaneira nos assuntos ligados à educação escolar”. (PAULA, 1999, p. 79).
Assim, se inicia um longo período em que a educação foi planejada
para os indígenas, seguindo um modelo transplantado de outros povos, de
outro mundo, sem considerar a realidade dos povos indígenas, seus conhecimentos, suas cosmovisões, suas culturas, seus costumes, enfim, suas vidas.
Paula (1999) acredita que em detrimento da violência, do desrespeito
e da ausência de alteridade, que têm marcado as ações dos colonizadores
perante os povos indígenas nesses últimos cinco séculos, “constata-se que
essas sociedades – as que, felizmente, sobreviveram ao extermínio físico –
desenvolveram estratégias para resistir aos invasores,” (ibid. p. 80), e cita
Melià enfatizando que:
Estos pueblos no sólo superaron la prueba del período colonial, sino
también el de los embates de la asimilación e integración de tiempos
más recientes. ¿Cómo lo lograron? Y ¿hasta qué punto conseguirán
mantener esa alteridad e identidad diferente? Los pueblos indígenas
han mantenido su alteridad gracias a estrategias, de las cuales una es
la acción pedagógica. En otros términos: ha seguido habiendo en estos
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
pueblos una educación indígena que permite que el modo de ser y la
cultura se reproduzcan en las generaciones nuevas, pero también se
encare con relativo éxito nuevas situaciones. (PAULA, 1999, p. 80).
Nesse sentido entendemos, assim como Paula (1999), que essas ações
pedagógicas, promotoras da interculturalidade, têm possibilitado a manutenção das alteridades e, não obstante, revestem-se de características diferenciadas segundo a cultura própria de cada sociedade indígena.
Dessa forma, a educação escolar para os povos indígenas deve, necessariamente, ser diferente em teor e convergir para a afirmação das identidades de cada povo, quer seja linguística, política ou cultural, sinalizando
sempre para a autodeterminação, autogestão e autoafirmação, respeitando
suas diferenças e singularidades.
Os Apinayé e a Escola
Os Apinayé, segundo Albuquerque (2007, p. 21), consideram-se uma
ramificação dos Timbira do Leste do Rio Tocantins, especialmente dos Krikati, chamados por eles Makráya, que viviam nas margens do rio Pindaré.
Para Nimuendaju (1983:1) apud (Albuquerque 2007:21), se essa tradição
realmente corresponde aos fatos históricos, a separação das duas comunidades deve datar de muitos séculos, uma vez que os Apinayé se distinguem
tanto linguística como culturalmente daqueles que consideram seus parentes, ao Leste, aproximando-se mais dos Kaypó setentrionais.
Para Albuquerque (1999:5), a existência dos Apinayé no extremo norte do Tocantins é conhecida desde o século XVIII, quando os rios Araguaia
e Tocantins começaram a ser navegados pelos jesuítas e bandeirantes. Esse
autor assegura que os indígenas Apinayé eram considerados como os mais
poderosos da região, possuíam aldeias bastante numerosas, praticavam a
agricultura e produziam seus próprios artefatos como, por exemplo, canoas. Atualmente a população Apinayé é de aproximadamente 1.793 indígenas, distribuídos por 19 aldeias situadas numa área delimitada pelo decreto
90.960 de 14/02/1985, com extensão de 141.904 ha.
No tocante à educação escolar indígena entre os Apinayé, Albuquerque (2007:83) nos informa que esta teve início na década de 1960, nas aldeias de São José e Mariazinha, introduzida por Patrícia Ham, membro do
Summer Institute of Linguistc (SIL), no então Estado de Goiás. Para esse
autor, naquela época, as políticas educacionais para os Apinayé, não eram
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Severina A. de Almeida, Fernanda de O. Fernandes, Alex Dias da C. Silva, Ediléia Maria da Silva
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diferentes daquelas oferecidas aos demais grupos indígenas, que eram compatíveis às práticas pedagógicas desenvolvidas pelas escolas das comunidades rurais brasileiras.
Após alguns anos da implantação da educação indígena nas escolas
das comunidades Apinayé, segundo os relatórios da Fundação Nacional do
Índio (FUNAI), os primeiros materiais escritos nessa língua foram elaborados pelo Summer Institut of Linguistc (SIL) em 1962. De acordo com o
referido relatório, à proporção que os estudos avançavam, novas cartilhas e
novas versões das cartilhas, já existentes, eram elaboradas. Esta data marca
a primeira edição da “Cartilha de História Apinayé”. Além deste volume,
foram publicados outros cinco: Livro de lendas 1, Livro de lendas 2, Leitura
Suplementar das Cartilhas e Introdução à Leitura e Livro de caligrafia. Após
essas publicações, vieram outras cinco cartilhas de alfabetização (PUME
KAGÁ PUMU), Livro de Canções Novas na Língua Apinayé (livro de cunho
religioso) e Aspectos da Língua Apinayé. (ALBUQUERQUE, 2007, p. 84).
Atualmente a escola tem se apresentado como um elo para aproximação dos Apinayé com a sociedade de seu entorno, facilitando a situação de
contato desse grupo indígena com os demais brasileiros. As aldeias são José
e Mariazinha e suas escolas, Mãtyk e Tekator, respectivamente, funcionam
como sede das escolas de outras aldeias. Porém, das 24 aldeias Apinayé,
apenas 13 possuem escolas, sendo que 11 escolas atendem aos alunos do
primeiro ao quarto ano do Ensino Fundamental. As escolas das aldeias Mariazinha e São José possuem Ensino Fundamental e Médio e, juntamente
com as outras escolas que a estas se agrupam, contam atualmente com 899
alunos matriculados regularmente.
Em relação à escola da aldeia São José, esta foi construída com uma
arquitetura moderna, conta com espaço apropriado para as aulas, boa iluminação, ventilação adequada, com salas de aulas espaçosas, biblioteca, sala
de professor, sala da coordenação, cozinha, alojamento masculino/feminino para professores e banheiros masculino/feminino para os alunos, além
de uma sala de computação com seis computadores. Já na escola da aldeia
Mariazinha, o prédio é antigo e as instalações são precárias. São 4(quatro)
salas de aula com ventiladores que não funcionam; 1(uma) sala da aula improvisada no pátio da escola; 1 (uma) sala onde funciona a secretaria, com
computador, não tem ar condicionado, apenas um ventilador; 1(uma) sala
para os professores; 1(uma) cantina sem água na pia; 2(dois) banheiros, um
feminino e um masculino; não tem telefone, nem mesmo comunitário em
forma de orelhão no pátio da escola; não tem biblioteca.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
Apesar de toda essa situação que em nada favorece uma ação educativa eficaz, o corpo administrativo e docente da escola se esforça para que
as aulas sejam prazerosas. Pelo menos foi isso que observamos ao acompanhar 3 (três)turmas dos anos iniciais do ensino fundamental. Esses professores unem-se no sentido de promover aulas nas quais as crianças saiam
das quatro paredes da sala de aula e no pátio da aldeia e em seu entorno, valendo-se de um ambiente favorecido pela natureza, fazem com que
alunos e alunas apreendam os conteúdos ministrados vivenciando in loco,
numa demonstração em que o professor e sua metodologia podem fazer a
diferença, mesmo num ambiente desfavorável.
Nesse sentido, Maher (2006) entende que a escola indígena se configura como uma situação limite em termos de educação.
Nela, parece-me, as dificuldades, os dilemas são sempre colocados de
forma muito contundente, o que obriga o educador a ter que olhá-los
prontamente de frente. Porque creio que problemas semelhantes apareçam de forma mais sutil, ou não são postos com a mesma urgência, em
outras esferas educativas, suspeito ser freqüentemente mais fácil contemporizar a busca de soluções para esses problemas ou até mesmo não
reconhecê-los como tais. (MAHER, 2006, p. 11-12).
Pudemos observar que a educação desenvolvida pelos professores indígenas, notadamente os indígenas Apinayé, pode ser enquadrada no “Paradigma Educacional Emergente” (MORIN, 2001), ou seja,
uma educação que rompe com a barreira do que tradicionalmente se
exerce em nossas escolas: uma educação restrita ao espaço físico da
escola, entre quatro paredes e com aplicação de conteúdos previamente
estabelecidos, numa menção clara de uma aprendizagem baseada na
“Educação Bancária” (FREIRE, 1997). Ademais, essa nova concepção
de educação pode ser vista como “Transdisciplinar”, (NICOLESCU,
2008), desde que a metodologia desses professores extrapole os limites pré-estabelecidos e direcionem suas aulas aglutinando as diferentes
áreas do conhecimento, pois a aldeia e seu entorno oferecem elementos
para se trabalhar disciplinas como matemática, língua materna, geografia e ciências etc.
Nesse sentido a educação, numa concepção transdisciplinar, perpassa
e ultrapassa o campo interdisciplinar, propiciando modos de compartilhar
saber, reconhecendo os diferentes níveis de realidade, ultrapassando o terA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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159
ritório científico, criando espaços de diálogos multirreferenciais com as diversas culturas, com a vida de cada grupo humano, abrindo possibilidades
de visões plurais a respeito de um fenômeno ou conceito, ou a respeito da
complexidade da própria vida (MORIN, 2001).
Segundo Batista (s/d. p.6), este educar cria e recria espaços de afetividade, de amor, de sensibilidade, de transgressões no processo educativo.
Constrói pontes dialógicas vivas com o conhecimento, não havendo uma
hierarquização de saberes, de sorte que
[...] O essencial na transdisciplinaridade e na educação indígena reside na postura de reconhecimento de que não há espaço nem tempo
culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar como mais
corretos (...) os mais diversos complexos de explicações e de convivência com a realidade. A transdisciplinaridade repousa sobre uma atitude
mais aberta, de respeito mútuo e mesmo humildade em relação a mitos, religiões, sistemas de explicação e de conhecimentos, rejeitando
qualquer tipo de arrogância ou prepotência: O essencial na transdiciplinaridade reside na postura de reconhecimento de que não há espaço
nem tempo culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar
como mais corretos (...) os mais diversos complexos de explicações e
de convivência com a realidade. A transdiciplinaridade repousa sobre
uma atitude mais aberta, de respeito mútuo e mesmo humildade em
relação a mitos, religiões, sistemas de explicação e de conhecimentos,
rejeitando qualquer tipo de arrogância ou prepotência. (D’AMBRÓSIO,
1997: 80) apud (BATISTA, S/D. P.6).
Não obstante, a educação transdisciplinar rompe com a forma fragmentária de pensar e tratar o conhecimento, aproximando a práxis pedagógica do mundo das (inter)relações que se configuram no processo educativo, que se configuram na arte de aprender.
A práxis pedagógica, portanto, mediada pela educação transdisciplinar, vivencia o educar sem interromper sua heterogeneidade, pressupondo o exercício da flexibilidade, pois possibilita a vazão de um amplo
espectro de referenciais, promovendo uma travessia do eu para o nós, da
constituição do sujeito singular para o sujeito plural, (re)vitalizando uma
pedagogia crítica que tenha como esteio a autonomia de raciocínio do
educando, a solidariedade, o entrecruzar entre o saber epistêmico e o saber da comunidade.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
160
A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
A Lei 11.645 de 10 de Março de 2008
Com efeito, a necessidade de ampliação do diálogo, ancorado numa
educação intercultural, voltado para a implementação da Educação para
as Relações Etnicorraciais, veio à tona mediante a edição da Lei 11.645 de
10 de março de 2008. Essa lei modificou o mesmo dispositivo da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), alterado pela Lei
10.639/2003, estendendo a obrigatoriedade do “estudo da história e cultura
afro-brasileira e indígena” em todos os estabelecimentos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, públicos e privados. Também estão na ordem
dessa Lei as modalidades de Educação Infantil, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Instituições de Ensino Superior (IES). O texto da Lei 11.645/08:
Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei
no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases
da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira
e Indígena.
Art. 1o. O art. 26-A da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa
a vigorar com a seguinte redação:
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino
médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e
cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1o. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação
da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como
o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos
povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas
contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
§ 2o. Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos
povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura
e história brasileiras. (NR).
Nessa perspectiva, a Lei 11.645/08 precisa ser sistematizada da mesma
forma que o foi a Lei 10.639/03. Sendo assim, os sistemas de educação, quer
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161
seja nas esferas federal, estadual ou municipal, devem, necessariamente,
produzir material de orientação e apoio aos professores, além de disponibilizar cursos de capacitação, na condição de “Formação Continuada”, no
sentido de preparar o docente para uma efetiva assimilação do conteúdo
da Lei. Ademais, nesta proposta, devêm estar implícitos os objetivos, bem
como as implicações que advém de tal proposta, uma vez que é importante
não apenas a conscientização como também a sensibilização de todo corpo
educativo da instituição educativa.
É importante ressaltar que o fato de a Lei 11.645/08 estar vinculada à Lei 10.639/03 deixa margem para que a temática “indígena” fique em
segundo plano. Isso porque verificamos que não se encontra em nenhum
documento oficial alusão específica à modalidade de ensino “Educação Indígena”, quanto à prática da referida Lei. Isso pode ser corroborado já no
documento “Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares
Nacionais para Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de
História E Cultura Afrobrasileira e Africana”. Este documento oficial, editado em 2009, no item VIII, trata das “Modalidades de Ensino” nas páginas
51 â 54, explicita “8.1 – Educação de Jovens e Adultos; 8.2 – Educação Tecnológica e Formação Profissional; e IX – Educação em áreas remanescentes
de quilombos”. Mas nada é dito sobre a Lei 11.645/08.
Como se percebe, em cada um desses subitens estão contidas as diretrizes didático-pedagógicas que irão direcionar cada um dos sistemas educacionais na promoção de ações para implantação dos dispositivos da Lei
11.645/08. Contudo, a modalidade “Educação Indígena” está fora, o que
nos leva a acreditar que este seja um assunto tratado de forma secundária.
Apenas nos preâmbulos do referido Plano se faz alusão à Lei 11.645/08, e
sempre de maneira generalizada.
Contudo, percebemos que o texto do Plano faz a seguinte advertência:
[...] A necessidade de ampliação do diálogo para implementação da
Educação para as Relações Etnicorraciais foi dada também pela edição da Lei 11645/2008, que tornou a modificar o mesmo dispositivo
da LDB alterado pela Lei 10639/2003, estendendo a obrigatoriedade
do “estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena” em todos os
estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos
e privados. Uma vez que a Lei 11645/08 ainda não recebeu a sistematização que foi objeto a Lei 10639/03, este Plano, sempre que couber,
orienta os sistemas e as instituições a adotar os procedimentos adeA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
162
A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
quados para sua implementação, visto que a Lei mais recente conjuga
da mesma preocupação de combater o racismo, desta feita contra os
indígenas, e afirmar os valores inestimáveis de sua contribuição, passada e presente, para a criação da nação brasileira. (PLANO NACIONAL
DE IMPLEMENTAÇÃO DAS DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ETNICORRACIAIS
E PARA O ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA AFROBRASILEIRA
E AFRICANA, 2009:21).
Como se percebe, a Lei 11.645/08 precisa ser regulamentada e, assim
como a Lei 10.639/03, deve ter seu próprio plano de implementação. Porém, o que não está muito claro é até que ponto uma lei é desvinculada da
outra, pois o que parece é que se trata de uma mesma lei, e não de duas leis
separadas. Mas ao lermos o Plano acima descrito, fica claro que estamos
tratando de duas leis distintas. Sendo assim, um trabalho a mais para as secretarias de educação é ler o referido Plano, transferindo suas proposições
paro o âmbito da Lei 11.645/08.
Com efeito, essa dúvida que nos acometeu ao refletirmos mais demoradamente quando analisamos a Lei 11.645/08 e sua regulamentação,
certamente se estenderá aos professores e professoras que buscam uma interação maior acerca do referido texto. Ademais, como sabemos das dificuldades que professores e professoras enfrentam cada vez que precisam
incorporar às suas práticas pedagógicas uma nova resolução, com esta não
é diferente. Além de uma adequada capacitação, existe a necessidade de
material didático correspondente. Sem uma diretriz que auxilie os docentes, a situação fica bem mais difícil.
A noção que cerca o sentido da interculturalidade na educação está
fortemente vinculada ao confronto entre duas ou mais culturas no âmbito
de uma determinada sociedade. No caso da educação escolar dos povos
indígenas brasileiros, esta noção está bem presente. Afinal, esses povos precisam se relacionar com a sociedade de seu entorno para poder estabelecer
vínculos sociais que se estendem para o campo do trabalho, da educação
escolar, da saúde etc. A partir do momento em que um indígena nasce, sua
dependência em relação à sociedade envolvente é efetivada. Quando essa
criança atinge a idade de frequentar a escola, esse atrelamento se acentua
mais ainda. Isso porque a escola para os indígenas, além de intermediar
uma inevitável interculturalidade, se apresenta como uma imposição da
cultura dos não indígenas sobre aquelas sociedades de menor poder.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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163
Segundo Maher (2007), desde que a escola nos moldes ocidentais entra nas aldeias indígenas como decorrência do contato com a sociedade
envolvente, isto é, com os não índios, a questão da interculturalidade, ou
seja, de conseguir fazer dialogar conhecimentos e comportamentos construídos sob bases culturais distintas e frequentemente conflitantes, deve ser
entendida como o esteio, como a razão de ser da escola indígena. Para essa
autora, o desafio posto pela interculturalidade não pode, nesse contexto,
ser entendido como um plus, como um bônus, porque o investimento no
alicerce é o que justifica a existência dessa escola, é o que a ela dá relevância
política (MAHER, 2006).
Nesse sentido, a Lei 11.645/08, ao determinar que a história e a cultura
dos povos indígenas brasileiros devem ser contempladas no currículo oficial dos nossos sistemas de ensino, públicos e privados, está acenando com
a possibilidade se estabelecer mecanismos que favoreçam a unidade em
meio à diversidade. Diversidade essa que se apresenta também no âmbito
da sociedade majoritária.
Com efeito, a Constituição Federal do Brasil (CRF/1988), foi um marco
na redefinição das relações entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas. Segundo Fleuri (2004), esse documento normativo passou a assegurar o
direito das comunidades indígenas a uma educação escolar diferenciada, específica, intercultural e bilíngue. Para esse autor, os indígenas brasileiros deixaram de ser considerados categoria social em vias de extinção e passaram a
ser respeitados como grupos étnicos diferenciados, com direito a manter sua
organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. A Constituição
Federal assegurou a esses povos o uso de suas línguas maternas e processos
próprios de aprendizagem, devendo o Estado “proteger” suas manifestações
culturais. Ademais, fica garantido às comunidades indígenas o acesso a uma
escola com características específicas, que busque a valorização do conhecimento tradicional vigente em seu meio, ao mesmo tempo em que forneça
instrumentos necessários para enfrentar o contato com outras sociedades.
Tudo isso será facilitado a partir do momento em que as escolas coloquem em prática o que reza a Lei 11.645/08. Afinal, é com o advento dessa
Lei que as escolas de nossa sociedade, assim como já acontece nas escolas
dos territórios indígenas, irão efetivar práticas pedagógicas que contemplem e valorizem a história dos povos que já habitavam as terras brasileiras
mesmo antes da invasão dos europeus.
Como visto anteriormente, essa lei por si só não garante uma relação dialógica rumo à interculturalidade. Mecanismos de aperfeiçoamento,
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
164
A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
bem como o empenho dos órgãos competentes, responsáveis pelas políticas
públicas voltadas para a educação escolar, são inegociáveis. Nesse sentido
Grupioni (2001) assinala que, por mais que um país detenha uma vasta
legislação que garanta aos indígenas direitos inalienáveis, isso não é sinal
de sua efetivação. Antes, precisa-se divulgar e cobrar sua execução para, a
partir daí, criar formas de sua aplicabilidade, na prática. Sensibilizar a todos que se encontram envolvidos com a questão é fundamental.
Segundo Fleuri (2004), o amadurecimento da sensibilidade para com
o tema das diferenças culturais é uma conquista recente, mas é primordial.
Entretanto, o problema do encontro e do conflito entre culturas é antigo
e tem sido enfrentado e resolvido geralmente valendo-se de perspectivas
etnocêntricas, que pretendem impor o próprio ponto de vista como o único
válido. “De modo particular, no mundo ocidental a cultura européia tem
sido considerada natural e racional, erigindo-se como modelo da cultura
universal. Desse ponto de vista, todas as outras culturas são consideradas
inferiores, menos evoluídas”, (FLEURI, 2004 18), justificando-se, assim, o
processo de colonização cultural. Daí a importância de se promover ações
como essa que trouxe à tona a Lei 11645/08.
O Programa do Observatório de Educação Indígena Apinayé
e a Lei 11.645/08
A UFT – Universidade Federal do Tocantins campus de Araguaina
– através da atuação do Prof. Francisco Edviges Albuquerque e sua equipe
de pesquisadores- desenvolve um trabalho com a Sociedade Indígena Apinayé denominado “Projeto de Educação Escolar Apinayé na Perspectiva
Bilíngue e Intercultural do Programa do Observatório de Educação Indígena”, CAPES/UFT 2010/2011. As ações deste pesquisador têm contribuído
sobremaneira na consecução de práticas interculturais, atuando principalmente na realidade das fronteiras étnicas e linguísticas, o que favorece o
entendimento acerca do que determina a Lei 11.645 de março de 2008.
Com sabemos, uma educação que atenda aos anseios das sociedades
modernas precisa pautar-se nos pressupostos da interculturalidade, promotora e executora de redes e teias dialógicas que se encontra na agenda das políticas públicas voltadas para a questão das minorias étnicas brasileiras. Todavia,
essa prática educativa deve acontecer em todos os ambientes onde dialoguem
diferentes povos com suas diversificadas culturas, o que reflete a importância
de trabalhos como o projeto coordenado pelo Prof. Albuquerque.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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165
Nesse sentido consideramos pertinente apresentar um depoimento
de um dos alunos de graduação que atua como bolsistas do Projeto, uma
vez que, por estarem iniciando sua vida acadêmica, notadamente sua atuação como jovens pesquisadores, é importante registrar suas impressões,
principalmente porque praticar o que determina a Lei 11.645/08 depende
também da atuação destes enquanto futuros professores da Educação Básica. Todavia, e visando preservar a identidade do informante, optamos por
apresentá-lo como Bolsista I.
Sabe-se que a Universidade é um campo aberto, cheio de oportunidades para os acadêmicos poderem aprimorar ideias, expandirem conhecimento e ao mesmo tempo, adquirir novos conhecimentos. E é isso
que o Observatório de Educação Indígena apoiado pela Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES proporciona. Muito além do apoio financeiro que é cedido para a fomentação do
projeto, está a oportunidade de crescimento do estudante, gerando uma
maior aproximação do aluno com o universo acadêmico/cientifico. Esse
caminho acadêmico/cientifico pode ser o mais longo e até mesmo o mais
difícil, porém, é o mais gratificante, pois estimula o crescimento pessoal
do aluno e formação profissional. A oportunidade de se estar em tipos
de bolsa como a do Observatório de Educação Indígena é única, nos dá a
chance de conhecer outra cultura e ao mesmo tempo aprender com ela.
E acima de tudo, poder contribuir para a comunidade através dos resultados da pesquisa. Dessa forma, essa experiência, poderá ser utilizada
em benefício próprio para o acadêmico. Pois assim está-se aumentando
o conhecimento em uma determinada área, que poderá ser um ramo
de atuação futura. Portanto, é notável que, quando o aluno se envolve
nesse tipo de projeto, ocorre um grande amadurecimento, tanto pessoal,
pelo fato de ter que escrever, discutir, participar de reuniões, palestras,
deixando de ser desinibido como profissional, dando-lhe oportunidades
para desenvolver próprios projetos futuramente.(BOLSISTA I).
A fala dessa aluna bolsista é expressiva, ao mesmo tempo em que ela
reflete sobre a importância da iniciação científica para seu futuro acadêmico ela exalta a proposta do Projeto chamando a atenção para o fato de que
o apoio financeiro do qual se beneficia, além de significativo, pois apoia o
estudante em suas demandas pessoais, tem no fortalecimento de sua formação aspecto preponderante.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
166
A Educação Escolar Indígena Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural...
Considerando que um dos objetivos da Lei 11.645/08 é promover o
diálogo entre as culturas, com ênfase na divulgação, em nossas escolas,
dos aspectos culturais dos povos indígenas brasileiros, nomeadamente no
tocante à contribuição que esses povos tiveram na construção da Nação
Brasileira, percebemos que a grande contribuição do Projeto de Educação
Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural do Programa do
Observatório de Educação Indígena, CAPES/UFT 2010/2011, reside na
promoção de uma rede de diálogo que transpassa a realidade vivenciada
por indígenas e não indígenas na região da fronteira étnica.
Considerações Finais
Neste artigo foram tecidas considerações acerca da educação intercultural tendo como pano de fundo a Lei 11.645 de 10 de março de 2008.
Mediante um estudo teórico, isto é, bibliográfico, buscamos conceituar a
interculturalidade no âmbito da educação escolar, considerando a especificidade das escolas de educação indígena, tendo em vista o contexto escolar
Apinayé. Uma parte empírica também esteve no horizonte do trabalho.
Com efeito, a educação intercultural encontra na Lei 11.645/08 uma
aliança salutar. Através de sua divulgação e posterior implementação, essa
lei possibilitará um diálogo mais estreito entre a educação escolar, dentro e
fora dos domínios indígenas. Tal constatação se faz a partir do momento em
que as escolas de nossa sociedade incorporem em seu currículo, de forma
intencional e crítica, assuntos ligados à questão da aceitação das diferenças
culturais e também sociais. Nessa situação encontram-se os indígenas brasileiros e os afrodescendentes, uma parcela considerável de brasileiros que
historicamente estiveram à margem da sociedade não indígena.
Nesse nosso estudo, foram possíveis algumas conclusões. Primeiro,
é notório que a educação intercultural, inicialmente, é vista como um atributo exclusivo dos povos minoritários. Segundo, que essa mesma interculturalidade precisa ser incorporada às escolas de nossa sociedade, pois a
relação entre as culturas, no âmbito escolar, deve permear todos os povos
envolvidos.
Com base nesses pressupostos, citamos a Lei 11.645/08, documento
de importância vital para que se estabeleçam redes e teias de diálogos interculturais, com a capacidade de efetivar outros dispositivos contidos em
documentos oficiais, como é o caso dos Art. 210 e 215 da Constituição
Federal do Brasil (CRF/1988). Apesar de não se notar com tanta clareza
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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167
efetivamente os efeitos dessa Lei, uma vez que precisamos regulamentar
sua aplicação na prática, nota-se um esforço coletivo no sentido de se fazer
conhecer seu teor, o que já é um considerável avanço pra sua efetivação.
Claro está que a educação intercultural é um caminho sem volta. Não
é possível mais as sociedades conviverem com a intolerância e uma aversão
que por vezes beira o etnocentrismo e a xenofobia. O diálogo precisa ser visto como um imperativo. E a Lei 11.634 de 10 de março de 2008 se apresenta
como o elo que poderá fazer essa união. Afinal, indígenas e não indígenas,
com sua força e vitalidade, formam uma única nação, a nação brasileira.
Referências
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dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que
estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo
oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura
Afro-Brasileira e Indígena. Disponível em: <http://legislacao.planalto.gov.br/
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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scielo.br/pdf/cedes>. Acesso em: 01 out. 2010.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
7
Observações Acerca da Educação
Apinayé: resultados de oficinas e
observações na escola Mariazinha
Thelma Pontes Borges 1
Miguel Pacífico Filho 2
A escolha dos povos Apinayé e especificamente da escola Mariazinha
ocorreu por conta da publicidade que foi dada ao resultado desta escola
na prova do ENEM/2009. O último lugar na colocação rendeu a esta população a divulgação em jornais escritos e televisivos retratando seu mal
desempenho, conforme aparece no Jornal Gazeta do Povo3
“Os índios ficaram com a pior do Enem
A Escola Indígena Tekator, em Tocantinópolis (TO), ficou com a nota
mais baixa no Enem 2008 em todo o país: 25,11, na média da prova objetiva e de redação. O colégio estadual funciona na aldeia Mariazinha,
a cerca de 40 quilômetros de Tocantinópolis, ao norte de Tocantins, em
área de reserva dos índios apinajé.”
Por conta disso, o Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade
Federal do Tocantins – Campus de Araguaína – efetivou uma visita à aldeia
com uma equipe multidisciplinar com o objetivo de identificar possíveis
dificuldades advindas dos professores desta escola que pudessem auxiliar
1 Professora de Psicologia do colegiado de Gestão de Cooperativas e membro do
Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade Federal do Tocantins, Campus de
Araguaína.
2 Professor Adjunto II do curso de Gestão de Cooperativas e e membro do Laboratório de
Línguas Indígenas da Universidade Federal do Tocantins, Campus de Araguaína.
3 GAZETA DO POVO. Escolas pelo país repercutem o resultado do ENEM. Disponível
em: <http://www.gazetadopovo.com.br/ensino/ conteudo.phtml?tl= 1&id=881837&tit=
Escolas-pelo-pais-repercutem-o-resultado-do-Enem>, acessado em: 05 mai. 2011.
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Observações Acerca da Educação Apinayé...
na melhoria da qualidade do ensino ofertada tanto aos alunos do ensino
médio quanto aos alunos de uma maneira em geral. É preciso ressaltar que
não entraremos na discussão acerca da inadequação da prova do Enem às
comunidades indígenas, por conta das diferenças de cultura, língua, conhecimento de mundo etc, mas que tal questão é importante e oportuna para
quem investiga a educação escolar indígena.
A visita à aldeia ocorreu por interesse bilateral, tanto dos membros do
Laboratório quanto dos professores indígenas de tal localidade que estavam solicitando auxílio para compreender o que estava acontecendo. Para
realizar este trabalho de investigação dialética e coletiva, permanecemos
uma semana na aldeia. Neste período as aulas foram suspensas e tivemos
contato permanente com os professores indígenas. O trabalho se dividiu
entre reuniões com os professores indígenas e não indígenas, observação
do ambiente da escola, oficina da língua Apinayé para organização de livro
didático e oficina de diagnóstico das dificuldades percebidas pelos professores da escola Mariazinha. Para complementar os primeiros resultados,
foram realizadas mais duas visitas à aldeia para observações e entrevistas.
Para melhor visualizarmos o trabalho, apresentamos os aspectos mostrados pelos professores índios e não índios da escola Mariazinha que mais
se destacaram. É importante ressaltar que tais pontos aparecem de elaborações feitas pela própria comunidade por meio de atividades de oficinas
de grupo. Compreendemos as oficinas de grupo como um espaço em que
questões relevantes possam ser elaboradas e trabalhadas de forma a produzir não somente um efeito-diagnóstico, como também conscientizador de
seu papel e de sua forma de atuação no social (Afonso, 2002, p. 11) “oficina
é um trabalho estruturado com grupos, independentemente do número de
encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o grupo
se propõe a elaborar, em um contexto social.” Parte de sua efetividade se
dá pelo fato de que em oficinas o tema é tratado de forma afetiva e envolve
elaborações das vivências, podendo gerar um efeito de resgate de identidade e de predisposição para a solução dos problemas.
Foram apontados oito pontos cruciais, a saber, a) alfabetização e currículo; b) divergências entre os professores índios e não índios; c) professor
polivalente; d) professor indígena; e) falta de material didático e de apoio;
f) transporte, estrutura e recursos; g) trabalho infantil; h) alcoolismo e doenças sexualmente transmissíveis.
a) Alfabetização. A educação escolar Apinayé é bilíngue, as crianças são
alfabetizadas primeiro na língua materna e somente depois na língua
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Miguel Pacífico Filho
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portuguesa, contudo no currículo elas dispõem do mesmo tempo para
se alfabetizar em duas línguas o que se torna um agravante. O processo
de alfabetização do Apinayé ocorre primeiro e é realizado por professores indígenas, e a alfabetização da língua portuguesa é feita posteriormente por professores não indígenas.
Devemos ressaltar que os professores não indígenas não conhecem a
língua apinayé, o que impossibilita relações escritas e faladas entre as duas
línguas durante o processo de ensino e aprendizagem. A impossibilidade de
os professores não índios utilizarem a língua das crianças é contrária a uma
série de conhecimentos que a pedagogia desenvolveu ao longo dos anos
com relação a adequação do professor ao ensino de seus alunos. Mesmo os
jesuítas, em seu processo de catequização dos povos indígenas, sabiam da
necessidade de falar a língua local: “Mais de um jesuíta esteve encarregado
de aprender a língua da terra para colaborar no aprendizado dos demais,
e produzir “doutrinas” na língua indígena, para melhor fruto da catequese” (D’angelis, 2007, p. 6).
As crianças apinayé vêm de uma cultura que se propaga pela oralidade, o ensino e o acesso da língua escrita são um processo recente e, ainda
assim, elas precisam se alfabetizar em duas línguas num curto espaço de
tempo, com o agravante de que na há correspondência na alfabetização das
duas línguas. Em decorrência destas e outras dificuldades que aparecem
nos processos de alfabetização das crianças, os professores, que assumem
depois, reclamam que as crianças chegam sem saber ler e escrever.
Percebemos neste primeiro ponto que, apesar dos problemas em decorrência da forma como são ensinadas as duas línguas, há um predomínio
em termos de importância ao se ensinar primeiro o Apinayé. Isto se mostra mais relevante ainda quando sabemos que a escola é um ambiente em
que há o predomínio da língua portuguesa conforme nos aponta Almeida,
2011, p. 3995: “(...)a escola, se percebe que a língua portuguesa está mais
presente. Tal fenômeno é explicado por ser esse um espaço onde convivem
mais sistematicamente falantes monolíngues em português, no caso, os
professores que não são indígenas.” Apesar de a escola ser um projeto do
homem branco, tornar o ensino da língua materna apinayé a primeira a ser
ensinada é uma forma de valorizar a própria cultura e uma maneira de minimizar as dificuldades de adaptação das crianças a um universo educativo
diferente do de seu costume. Além disso, leva-as gradativamente à cultura
escrita, que é diferente da lógica da oralidade dos povos indígenas.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Observações Acerca da Educação Apinayé...
Ainda Almeida (2011) nos diz que aprender língua portuguesa como
segunda língua, não é para o indígena uma opção, ela é estruturada como
obrigatória no sistema de ensino e é considerada por alguns líderes da aldeia como a única forma de manter viva sua cultura e seu povo, pois através
do uso da língua do povo branco é possível debater, negociar e lutar pelos
próprios direitos. Segundo Novaes (2011), ao adquirir a capacidade de comunicação com os brancos, os povos indígenas conquistam seu lugar na
luta pelos seus direitos, e são ouvidos pelas suas vozes e não pela representação que se faz deles. O bilinguismo passa a ser a forma mais eficaz de luta,
resistência e preservação, é a forma mais eficaz de evitar manipulações,
“O bilingüismo tornou-se uma necessidade para as comunidades indígenas à medida em que os contatos e relações com a sociedade dominante foram intensificando. Este processo, que algumas comunidades e
povos indígenas vivem hoje, a maioria já experimentou há meio século,
um século ou vários. A intensificação das relações também modifica
as exigências do domínio bilíngüe, de modo que, de um primeiro momento em que à comunidade basta ter um único ‘interprete’ chega-se a um ponto em que todo membro da aldeia precisa ser bilíngüe.”
(D’angelis, 2007, p. 13)
b) Divergência entre os professores índios e não índios. Durante nossa
permanência na aldeia, esta questão apareceu de maneira incipiente.
Havia o descontentamento dos professores índios quanto à forma de
trabalhar e se portar dos professores não índios e vice-versa. E o tempo
todo, trocas de acusações de que ambos os lados não cumpriam adequadamente o seu papel no processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente há uma separação cultural e profissional entre os professores
indígenas e os não indígenas. Isto se torna um agravante, uma vez que
os professores não índios dão prosseguimento ao processo de ensino
realizado pelos professores indígenas. Há uma clara necessidade de um
trabalho pedagógico, político e de desenvolvimento humano de pessoal que permita a integração da equipe educativa e o diálogo em prol da
educação das crianças.
A falta de interação entre os professores índios e não índios e a alfabetização da língua portuguesa efetivada por professores não índios, não
bilíngues, que não falam o apinayé, é contrário ao RECNEI (2005, p. 22)
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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175
(Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas) que diz em
seus princípios “(...)pensar a escola a partir das concepções indígenas do
mundo e do homem e das formas de organização social, política, cultural,
econômica e religiosa desses povos.” O bom professor indígena é tido por
este documento como aquele apoiado e indicado pela comunidade, pois
desta forma as expectativas da aldeia podem ser integradas às da escola.
Esta integração comunidade-escola deveria acontecer com os professores
não índios como uma forma de garantir o desenvolvimento dos alunos. A
participação do professor numa aldeia está para além do ensinar conteúdos
específicos, ele deve se comprometer com a identidade do povo, adquirir
conhecimentos de sua cultura, aprender sua língua e suas interpretações
para questões de sociedade, mundo e universo, para, assim, efetivar junto
com eles seu papel sociopolitico-pedagógico. Apesar destas dificuldades,
podemos ressaltar que a existência de um diretor apinayé, como ocorre
nesta escola, pode servir como mediador nas relações de grupo e minimizar tais questões no universo da escola.
Voltamos aqui, novamente, à necessidade de se pensar em professores
não índios e que não falam o apinayé. É inconcebível um processo educativo em que a língua se torna a principal barreira de trabalho. Tal fato é
contrário inclusive aos debates sobre inclusão que diz da necessidade do
outro de se adequar para poder ensinar. É nesta lógica que os professores
aprendem libras e braille. E é nesta lógica que os professores não índios
devem aprender o apinayé. Se por um lado é essencial o bilinguismo para
a comunidade indígena, por outro lado é essencial para o professor-educador saber a língua da população para a qual irá ensinar.
As divergências entre os professores índios e não índios são amenizadas pela presença, nesta escola, de um diretor indígena que consegue em
seu trabalho mediar as relações em prol da qualidade da educação para as
crianças.
c) Professor polivalente. Os professores não índios que trabalham nas séries finais do ensino fundamental e ensino médio precisam ser polivalentes e se desdobrar para efetivar seu trabalho educativo, uma vez
que eles assumem uma série de disciplinas que necessitam de formação
específica. Por exemplo, uma professora com formação básica em Pedagogia que leciona as disciplinas de história e matemática; outra professora também formada em Pedagogia lecionando língua portuguesa,
sociologia e filosofia entre outros que lecionam disciplinas fora de área.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Observações Acerca da Educação Apinayé...
Outra questão para os professores não índios: é que há um discurso
permanente de que eles trabalham nas aldeias, provisoriamente, uma
vez que os próprios professores indígenas estão em processo de formação para assumir a educação escolar de suas aldeias.
Temos dois problemas de origens e soluções diferentes. O primeiro diz
respeito a uma prática muito comum na educação brasileira que é de considerar que o professor está apto a dar aula de qualquer conteúdo. Este fato
não é exclusividade das aldeias indígenas. Nas cidades e até mesmo nas universidades vemos professores assumindo cadeiras para as quais não possuem
nenhum tipo de formação específica. Mais recentemente, o governo federal
se preocupou com tal fato criando um programa4 de formação docente para
professores que não tinham nenhuma formação e para aqueles que, apesar
de terem uma formação específica, estão trabalhando fora de área. Talvez tal
política governamental venha a coibir estas práticas, melhorando o ensino
de nossas escolas públicas. O segundo se refere à desmotivação provocada
pela política de desenvolvimento das escolas indígenas, processo importante,
porém ainda em construção. Apesar da expectativa de que, com o tempo, as
escolas nas aldeias sejam formadas somente por professores índios capacitados, existe a necessidade de professores não índios e índios compreenderem
o seu papel social e sua importância para este momento da educação dos
povos indígenas, o que diminuiria os conflitos e aumentaria a adesão e o investimento subjetivo na escola, nos alunos e em todo o processo educacional.
Quando as escolas indígenas alcançarem o objetivo de ter uma instituição pensada, organizada e trabalhada somente por pessoas da própria
aldeia, provavelmente a instituição se torne um espaço de firmação da
identidade e de lutas por direitos. Mas até o momento a escola indígena é
palco da sociedade não índia, como nos aponta Albuquerque (2008, p. 87)
“Um dos mais contundentes problemas com relação à educação indígena é o de que o processo educacional utilizado nas comunidades
4PARFOR – Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica –“ é resultado
de um conjunto de ações do Ministério da Educação - MEC, em colaboração com as
secretarias de educação dos estados e municípios e as instituições públicas de educação
superior neles sediadas, para ministrar cursos superiores gratuitos e de qualidade a
professores em exercício das escolas públicas sem formação adequada à Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional – LDB, de dezembro de 1996”. Disponível em: <http://
www.capes.gov.br/educacao-basica/parfor>. Acessado em: 09 maio 2011.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Miguel Pacífico Filho
177
indígenas é um dos principais vínculos de dominação da sociedade
majoritária, já que está sujeita a um sistema educacional concebido e
inspirado por aquela sociedade, portanto, carregado de seus valores
ideológicos.”
d) Professor indígena. O professor indígena é contratado mediante a indicação da comunidade, o que vem gerando, segundo eles, uma série de
problemas em relação à liderança da aldeia e à da escola. Nem sempre
o interesse do cacique se ajusta aquilo que a escola precisa. E muitas
vezes a indicação não é feita com base no mais qualificado e sim nas
relações sociais que se estabelecem dentro da aldeia.
Esta forma de contratação dos professores indígenas está amparada
pelo RCNEI (2005), diz que o professor indígena deve ser apoiado pela
sua comunidade. Contudo o próprio grupo levantou os conflitos de interesse e a dificuldade de se chegar a soluções para tal fato. Segundo Novaes
(2011, p. 9)
“o professor deve desenvolver sua capacidade bilíngüe e realizar pesquisas, tornar-se gradativamente um intelectual que reflete e faz refletir
criticamente sobre a realidade do seu povo trocando experiências com
outros professores indígenas e não indígenas .”
Falta, ainda, de uma forma geral, a comunidade compreender a função da escola e o papel social que ela tem na luta pela firmação da identidade indígena e pela conquista de instrumentos de mediação com outros
povos. Contudo a indicação ainda passa pela ideia de favoritismo de alguns
líderes e até pela necessidade de se ter uma renda. D’angelis (2007, p. 16)
dia que as escolas nas aldeias vêm sendo almejadas “como um ponto de carreira pessoal bem sucedidas”, como uma forma de resolver individualmente
problemas que são de todos.
e) Falta de material didático e de apoio. Outro ponto apresentado pelos
professores é a falta de material pedagógico adaptado à língua e à cultura apinayé. Não existem livros didáticos e de literatura apropriados
a esta população, o que dificulta o trabalho dos professores em sala de
aula e a construção de um ambiente alfabetizador que favoreça o contato com a cultura escrita.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
178
Observações Acerca da Educação Apinayé...
A falta de material apropriado talvez seja um problema recorrente
nestas comunidades, contudo, como nos aponta Albuqueque (2008), tal
escola conta com a vantagem de estar instalada na própria aldeia, de possuir um ensino bilíngue e de ser uma das que mais possui material escrito
em apinayé, apesar de ser insuficiente. Além disso, os apinayé na última
década vêm sendo acompanhados pelo Laboratório de Línguas Indígenas5
da Universidade Federal do Tocantins, que, através de apoio pedagógico,
está conseguindo ao longo do tempo minimizar as dificuldades e oferecer
condições pedagógicas mais adequadas de trabalho. Este Laboratório, com
o apoio financeiro do Observatório da Educação Escolar Indígena/CAPES,
estará em breve lançando o livro de alfabetização apinayé. Talvez um próximo ponto a ser pensado é a preparação destes professores para aprender
a utilizar o material pedagógico que está sendo construído e o desenvolvimento de outros materiais a pedido da comunidade.
f) Transporte, estrutura e recursos. A escola Mariazinha tem uma estrutura física adequada, contudo falta assumir a identidade indígena. No
momento de nossa visita, não havia nenhuma placa nem avisos escritos
em apinayé, todos eram em língua portuguesa. A escola é pintada e tem
o mesmo layout das escolas do governo na zona urbana. Falta um para
apropriar-se da construção de forma a imprimir a identidade Apinayé,
como, por exemplo, o uso de suas pinturas e a presença de instrumentos e objetos típicos da população local. Com relação à locomoção, a
escola recebe alunos de outras aldeias apinayé, mas foi relatado que o
ônibus oferecido permanecia mais tempo quebrado que funcionando,
prejudicando assim a frequência dos alunos à escola.
O espaço físico precisa ser ressignificado subjetivamente. Enquanto a
escola for vista como do não índio, a população local não se sentirá no direito de se apropriar do espaço como pertencente a seu povo e à sua cultura.
Para que os alunos consigam ser bem sucedidos na escola, precisam se ver
nela. O espaço educativo formal deve representar o que eles são, até como
uma forma de diminuir as barreiras culturais existentes entre os membros
participantes da comunidade escolar, que incluem índios e não índios.
5 A existência do Laboratório e todo trabalho desenvolvido devem-se ao trabalho
incessante de seu coordenador diante das questões indígenas prof. Dr. Francisco Edviges
Albuquerque.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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g) Trabalho infantil. Um ponto importante ressaltado pelo professores
indígenas foi o uso das crianças indígenas na coleta de coco babaçu.
Elas saem de manhã nos caminhões da empresa e retornam no final da
tarde em cima dos caminhões lotados de coco.
Entramos num assunto delicado, mas podemos dizer que esta não é
apenas uma prática dos apinayé. No último censo, o IBGE (2009) divulgou
dados mostrando que o Tocantins é o estado que tem mais crianças trabalhando, no total de 15,7% de sua população entre 5 e 17 anos de idade. O que
menos tem crianças trabalhando é o estado do Rio de Janeiro, com 3,93%.
Apesar de existir uma discussão acerca de mudança no Estatuto da Criança
e do Adolescente para incluir a visão indígena de trabalho infantil, gravidez
precoce etc., devemos ressaltar que sair com os mais velhos para aprender
a caçar, pescar, plantar, ajuda a criança a conhecer e ter contato com a cultura de seu povo, não configurando como exploração do trabalho infantil.
Porém o que nos foi apresentado, pelos próprios professores índios, é que tal
trabalho é degradante e que tem características de exploração de seu povo.
h) Alcoolismo e doenças sexualmente transmissíveis. Os professores indígenas trouxeram com grande preocupação estes dois pontos. O primeiro deles, o alcoolismo, afeta diretamente o andamento das aulas na
escola, primeiro pelo fato de que em muitos momentos alguns professores índios vão trabalhar alcoolizados e, em segundo, pelo fato de a
escola ser dentro da aldeia, outras pessoas alcoolizadas acabam interferindo no andamento da rotina escolar. O alcoolismo aparece como um
grande mal e com tentativas por parte da comunidade de controlar a
situação, porém todas as medidas tomadas foram inócuas. Outro fator
que aparece é o crescente surgimento das doenças sexualmente transmissíveis, com uma preocupação focada no aumento dos portadores do
vírus HIV. Existe uma demanda para que esclarecimentos, informações
adentrem a aldeia para se evitar o aumento da propagação da doença.
Dalgalarrondo nos diz que os etnopsiquiatras do século XIX já apontavam que um dos problemas do contato dos povos indígenas com o mundo ocidentalizado era o uso de substâncias abusivas e a crescente entrada
de doenças da alma e do corpo. Em 1907 o psiquiatra Juliano Moreira, um
dos iniciantes no estudo psiquiátrico no Brasil, em uma viagem de 6 meses
às selvas amazônicas, para estudar o alienismo nos povos indígenas, consA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
180
Observações Acerca da Educação Apinayé...
tatou os problemas advindos do álcool e da neurossífilis. Vemos que, desde
que se tem estudos sobre o tema, se faz presente o problema do álcool e das
doenças sexualmente transmissíveis, sendo necessário um trabalho mais
específico da FUNASA no sentido de reverter tal quadro e prevenir o crescente problema nesta e em outras comunidades indígenas, mesmo porque
já observamos a entrada do crack nos Apinayé.
O diagnóstico feito pela própria comunidade escolar apinayé nos leva
a crer que os problemas são visíveis a todos, o que por um lado facilita o
problema, contudo eles vão muito além da capacidade isolada da escola
de resolvê-los, necessitando de apoio externo para tal. Segundo Albuquerque (2008, p. 87) “esses indígenas têm vivido um processo de perda étnica,
com seus valores culturais subjugados pela sociedade majoritária.” Isto é
perceptível na falta de material didático, na presença de professores não
índios que não conhecem a língua apinayé, na entrada de álcool e de outras
substâncias psicoativas.
Percebemos já algumas alternativas como a construção de material
didático, o apoio da Universidade Federal do Tocantins, através de seu Laboratório, e da criação de cotas no vestibular para indígenas, o que vem
garantindo sua entrada nos mais diversos cursos de graduação desta instituição, a permanente presença da Secretaria Estadual de Educação, que
fornece capacitação e tem demonstrado grande preocupação e interesse na
solução dos problemas, a FUNAI de Araguaína que oferece apoio logístico
e de pessoal para o trabalho do Laboratório da Universidade, a formação de
professores indígenas nos cursos de graduação intercultural da Universidade Federal de Goiás e a consciência deste povo com a sua história e a sua
educação. No entanto existe a necessidade de se fazer mais e buscar uma
integração com a comunidade indígena, professores não índios, governo
nas diversas esferas, na tentativa de tornar o espaço subjetivo escolar como
um local de construção de representações do povo apinayé, auxiliando na
identidade de sua cultura, no fortalecimento de sua língua e na mediação
dos debates políticos.
Atualmente, o Governo do Tocantins, por meio da Secretaria da Educação, mantém 104 escolas que atendem 5.180 alunos de 140 aldeias nas
diversas regiões do Estado. A educação indígena no Tocantins contempla
as etnias Krahô, Xambioá, Apinajé, Karajá, Javaé e Xerente. Os professores
que lecionam nas escolas indígenas passam por uma formação de licenciatura intercultural, utilizam a língua indígena como meio de instrução e o
português como segunda língua.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Miguel Pacífico Filho
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No campo federal, o sistema de cotas foi uma conquista. Na UFT –
Universidade Federal do Tocantins – são destinadas 5% de suas vagas para
os indígenas, como reserva de vagas (cotas). Segundo informações da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários (Proex), na UFT,
atualmente somam-se 142 alunos indígenas nos mais variados cursos de
graduação da universidade. Para este ano de 2011, estão em andamento
quatro projetos do campus de Miracema, Palmas e Araguaína, tais como
Grupo de Trabalho Indígena, apoio às Organizações Indígenas Xerentes,
reconstrução de sua imagem e o Ensino de Matemática nas escolas indígenas Apinajé Mariazinha e São José - Na Perspectiva da Etnomatemática.
No Tocantins, esses povos estão distribuídos em oito grupos indígenas predominantes, que habitam essas terras desde tempos imemoriais:
Apinajé, Avá-Canoeiro, Guarani, Javaé, Karajá, Krahô, Tapirape e Xerente,
que atualmente correspondem a uma população de 12.155 indivíduos, de
acordo com a Funai - Fundação Nacional do Índio.
Referências
1. ALBUQUERQUE, Francisco Edviges. A situação sociolingüística dos Apinayé
de Mariazinha. In: Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: preconceito lingüístico e cânone literário. Rio de Janeiro, nº36, 1º semestre de 2008.
2. ALMEIDA, Severina Alves de. Bilingüismo e Educação bilíngüe Intercultural:
os apinayé e o uso das línguas apinayé e portuguesa nos seus domínios sociais.
In: Anais do VII Congresso Internacional da Abralin. Curitiba, 2011.
3. BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria da Educação Continuada, alfabetização e diverdidade. Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas. Brasília: Mec/SECAD, 2005.
4. DALGALARRONDO, Paulo. Civilização e loucura: uma introdução à História
da Etnopsiquiatria. São Paulo: Lemos, [Ca.2000].
5. D’ANGELIS, Wilmar da Rocha. Como nasce e por onde se desenvolve uma tradição escrita em sociedades de tradição oral? Campinas: Curt Nimuendajú, 2007.
6. NOVAES, Gabriela Pontin Novaes. Uma reflexão sobre a educação escolar indígena ao longo da história. Disponível em: <http://www.histedbr.fae.unicamp.
br/acer.../Gabriela%20pontin%20novaes.pdf>. Acessado em: 9 mai. 2011.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Alfabetização das Crianças Apinayé:
subsídios para o processo educativo
Thelma Pontes Borges 1
Gustavo Carvalho Viveiros 2
Mayco Pereira Coimbra 3
O Brasil vem se preocupando nas últimas décadas com a entrada e
permanência de todas as crianças na escola como uma maneira de atender às pressões políticas e econômicas internas e externas. O aumento das
crianças na escola culminou com o aparecimento de um dos grandes problemas de nossa educação que é a (im)possibilidade de todos aprenderem a
ler, escrever e fazer contas. Hoje nos deparamos não só com o analfabetismo, mas também com o analfabetismo funcional e a incapacidade da maior
parte das pessoas de conseguirem entender a mensagem lida. Tal problema
não está distante das comunidades indígenas de nosso país, uma vez que
nos últimos anos houve um aumento significativo na oferta da educação
indígena (Nascimento, 2011), com o agravante de que a aprendizagem escolar indígena traz em seu bojo a difícil missão de auxiliar no processo de
recuperação, manutenção e preservação da língua e da cultura indígena.
Discutir a alfabetização em escolas indígenas é ir mais além do que
fazer levantamentos de dificuldades específicas e/ou problemáticas no processo, é pensar até que ponto a inserção das escolas nas aldeias atende de
fato às necessidades daquelas comunidades e como a retirada das crianças
para viver outras aprendizagens e de uma forma eminentemente pensada
1 Professora Assistente II do curso de Gestão de Cooperativas da Universidade Federal do
Tocantins. Membro do projeto aprovado pelo edital Observatório da Educação Escolar
Indígena/CAPES.
2 Discente do curso de Biologia, bolsista de iniciação cientifica Observatório da Educação
Escolar Indígenas/CAPES.
3 Discente do curso de Gestão de Cooperativas, bolsista modalidade Permanência da
Universidade Federal do Tocantins, campus de Araguaína.
183
184
Alfabetização das Crianças Apinayé: subsídios para o processo educativo
pelos não índios poderia de fato contribuir com a preservação da língua e
da cultura de um povo. Segundo Nascimento
“(...)uma vida de bricolage – para um espaço de organização sócio temporal diferente: outra lógica, outro lócus de saber, outras relações (afetivas, de poder, hierarquias...) ainda que haja uma preocupação com a
diferença e a especificidade” (2011, p. 40).
Pensar a educação indígena como um espaço de fronteira, como nos
propõe este autor baseado em Barth (2000), é considerar que, uma vez na
escola, a criança se distancia de seu mundo espacial, temporal, interrelacional, cultural e emocional. O deslocamento subjetivo provocado pela entrada na escola pode colocar à prova suas crenças, seus valores e sua visão de
mundo, uma vez que o que a escola valoriza passa em muitos momentos
como algo distante do que a comunidade considera como importante.
A cosmovisão da criança sofre fissuras e até rupturas por entrar em
contato com elementos distantes de seu cotidiano e visão de mundo. Sabemos que a infância é em definição o momento de formação da identidade
e da personalidade e que a escola assume boa parte dos laços identificatórios que irão compor tal processo (Freud, 1996). Devemos considerar o seguinte: se a escola não representa um elemento vivo da cultura, se escrever
diverge da tradição oral de seu povo e se parte das figuras de referência,
no caso os professores, não são indígenas, como formar uma identidade
calcada nos valores de seu povo? Como negociar com outras culturas, no
espaço típico de fronteira (Barth, 2000), sem antes mesmo ter adquirido e
sedimentado a própria?
O tempo que permaneci nas aldeias pesquisando e observando, o contato que tenho com alunos indígenas na Universidade4, a participação no
encontro de Línguas Tupi5 me fizeram presenciar discursos feitos por lideranças e professores indígenas na tentativa de problematizar justamente
isto, até que ponto as escolas nas aldeias se caracterizam por projeto que valoriza a cultura indígena e como a escola, lugar formal de educação, altera o
processo educativo promovido pelos mais velhos nas aldeias. A bibliografia
sobre o tema ainda não nos permite responder estas indagações, mas aponta outro lado da situação, que é a necessidade destes povos conseguirem
4 A Universidade Federal do Tocantins destina 2% de suas vagas para alunos indígenas.
5 VII Macro-Jê e III Encontro Internacional sobre Línguas e cultura Tupi.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros, Mayco Pereira Coimbra
185
entender o mundo no qual suas comunidades estão inseridas a fim de não
serem engolidas por ele. Falamos de comunidades que ficam próximas de
regiões urbanas, como nos casos das aldeias Apinayé. Agora, conseguir definir qual o limite que permite conhecer sem se perder, dialogar, participar
e interferir em prol de sua cultura, de seu povo e de sua língua já se torna
mais difícil. Chegamos a outro questionamento: qual o limite entre conquistar instrumentos de negociação com outras culturas e ser absorvido
por ela, justamente por ser ela ideologicamente mais forte e definidora das
políticas educacionais e sociais?
Barth (2000) vai nos mostrar que as fronteiras são dadas pelos próprios autores nos jogos interacionais e que as relações vão se moldar pela
identidade étnica de um povo. Contudo esta identidade não é estática, ela
se movimenta conforme o contexto e as interações. A escola como espaço
de fronteira vai alterar a identidade étnica pela simples existência, e as práticas ali dentro irão determinar o espaço do ‘eu’ (meu grupo étnico, minhas
características) e do outro, estranho a mim. A autodefinição de quem eu
sou, no caso as crianças indígenas, irá determinar qual é a minha fronteira
étnica, contudo, para isso ela precisa passar por um processo de construção
e sedimentação de sua própria cultura, ou o que teremos será(se já não é)
um grande amálgama de culturas que se reorganizam e se autodefinem.
Não que isso seja ruim, mas esta mudança deve passar pelo desejo destas
comunidades, e o que vemos em seus discursos é uma grande batalha na
preservação de seus traços culturais identificatórios, tais como a língua, visão de mundo, hierarquias etc.
Foi com todos estes questionamentos que iniciamos nosso trabalho
de verificar como os professores alfabetizadores realizam e pensam seus (a)
fazeres nas escolas das aldeias Apinayé Mariazinha e São José. Para tanto
realizamos quatro visitas de uma semana a cada aldeia, realizando observações e entrevistas, além de dois cursos ministrados na Universidade Federal
do Tocantins por duas professoras índias com o objetivo de demonstrar
como elas alfabetizam as crianças apinayé. Com este material elaboramos
algumas discussões baseadas na análise de sentidos (Mendes, 2007) como
forma de melhor visualizarmos os resultados.
Podemos a princípio entrar numa discussão já desenvolvida e apontada por outros autores como D’Angelis (2007), sobre as dificuldades em se
desenvolver uma tradição escrita em povos com eminente tradição oral. O
que percebemos é que a escrita não tem função social. Em entrevista com
as professoras alfabetizadoras percebemos que em momento algum no coA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Alfabetização das Crianças Apinayé: subsídios para o processo educativo
tidiano das aldeias eles utilizam da escrita; somente na escola. Não se mandam bilhetes, não se fazem listas de compras, não se enviam cartas, não se
escrevem histórias. Todo este processo ocorre de maneira oral, as histórias
são contadas e não lidas, os recados são falados. Diante disso as professoras precisam se desdobrar na tentativa de aproximar a escrita da realidade
das crianças. Para isto elas trabalham relacionando as vogais, consoantes e
palavras a desenhos de animais e objetos conhecidos pelas crianças. Ainda
assim temos que contextualizar que estas crianças chegam à escola e precisam se adequar a uma série de regras institucionais e educativas, que até
então lhes eram desconhecidas. Ficar confinada dentro de quatro paredes,
sentada no mesmo lugar e ter que utilizar da capacidade imaginativa para
aprender se distancia de toda e qualquer experiência que ela havia experimentado até então.
Segundo Nunes (2002) as crianças aprendem nas aldeias de forma livre, no cotidiano, observando as experiências e realizando pequenas tarefas
condizentes com a sua realidade e costumes de seu povo. Quase tudo é
vivenciado, livre e com autonomia para que se possa conhecer a vida e as
responsabilidades da vida na aldeia. A escola limita seus movimentos, seu
espaço de ação e sua capacidade de experimentar. Solicita que imagine, relacione e adquira uma docilidade do corpo, nunca antes sofrida. A criança
na escola terá que se adaptar a estes fatores e aprender os conteúdos previstos. É isto que se espera de uma educação indígena adequada aos interesses
de sua comunidade? Nos parece, que essa educação é moldada com base
em parâmetros conhecidos - docilidade dos corpos, esquadrinhamento do
espaço e tempo, preparação para a obediência e para a produção (Foucault,
2004). Como nos lembra Nascimento & Brand (2011, p. 1) “esta educação
é calcada no contexto da urbanização e no objetivo explícito de disciplinar
para o trabalho dentro de valores sociais dominantes.”
Num outro contexto, Paulo Freire (1980), ao trabalhar com a alfabetização de adultos através dos ‘círculos de cultura’, nos lembra da necessidade daquelas pessoas vencerem não somente os aspectos cognitivos, mas
também os ideológicos para se situar de forma menos ingênua no mundo e
desvelar seu pertencimento, podendo assim se expressar numa nova forma
de linguagem – a escrita. Freire escreve (1976, p. 49)
“enquanto ato de conhecimento, a alfabetização que leva a sério o problema da linguagem deve ter como objeto também a ser desvelado as
relações dos seres humanos com seu mundo”.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros, Mayco Pereira Coimbra
187
Existe a necessidade de tornar a alfabetização um ato político, como
bem coloca Freire (1980). A consciência de si, de pertencimento a um povo
e a uma cultura, transforma o ato de ler e escrever em bandeira de (re)
situação no mundo e diminui a resistência frente a participação na escola.
D’Angelis (2000) em seus debates, caminha no mesmo sentido que Freire (1980), quando propõe que a política de alfabetização está diretamente
atrelada a política linguistica de um povo.
Muitos pais tem medo de enviar os filhos para a escola, existe uma
percepção de que aprender a língua portuguesa pode prejudicar na manutenção da própria língua e cultura,
“alguns pais não querem que os filhos estudem, já a maioria querem
que eles aprendam a ler, escrever a língua apinayé e o portugues. Tem
pais que são contra os filhos aprenderem o português porque acabam
esquecendo o apinayé” (professora indígena alfabetizadora).
Devemos perceber que a entrada nas aldeias da língua portuguesa não
é algo que se processa somente via escola, quase todos os lares apinayé possuem aparelhos de televisão e de rádio, nos finais de semana acontecem
forrós com a presença de não índios, gerando uma despersonalização do
uso da língua no cotidiano das aldeias. Um líder da comunidade aponta
“as crianças conhecem e falam a palavra pica-pau do desenho que passa
na TV, mas não sabe na própria língua o nome pica-pau, apesar de ter
vários pássaros destes por aí.” (líder apinayé, professor da escola Mariazinha)
O medo dos pais e dos mais velhos se justifica, a entrada maciça da
língua portuguesa nas aldeias é um fator preocupante e que merece atenção
de todos. D’Angelis (2000:1) escreve
“quando uma comunidade indígena vê que a língua portuguesa começa
a ser falada cada vez mais pelos seus membros, que se tornam bilíngües, ela tem razão de se preocupar e pensar numa política lingüística
para defender e manter sua lingua.
D’Angelis (2000) aponta que decidir continuar falando a própria língua ou optar pela língua dominante é uma decisão política que cabe à coA Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
188
Alfabetização das Crianças Apinayé: subsídios para o processo educativo
munidade. Nos parece que os apinayé optaram politicamente pela manutenção e fortificação de sua língua, mas ainda estão sem direção no sentido
de verificar quais caminhos mais apropriados a seguir a fim de se alcançar
tal objetivo. Contudo, apesar de não terem traçado metas, conseguem visualizar aspectos que podem colaborar com a fortificação de seu povo, como
a participação de membros na graduação intercultural da Universidade Federal de Goiás e nos cursos regulares da Universidade Federal do Tocantins, a crescente entrada de professores indígenas nas escolas das aldeias,
diminuindo a participação dos não índios, a elaboração de material didático próprio e adequado à língua e cultura apinayé,6entre outras medidas.
A escola, por sua vez, pode se tornar um instrumento de fortalecimento
da própria cultura, uma vez que a escrita da própria língua, longe de competir com a língua falada, pode ser pensada como mecanismo de fortalecimento e perpetuação (D’Angelis, 2000), mas para tanto os indígenas precisam
assumir e discutir quais os rumos que querem dar para a educação de suas
crianças. Enquanto não assumem as rédeas da situação, jogam com o sistema
e burlam aquilo que foi colocado como projeto enquanto política de governo
“é incabível os alunos das séries iniciais aprenderem nove disciplinas
de uma vez: matemática, português, ciências, geografia, história, artes,
estudos religiosos, educação física e língua materna (...) mas diga-se de
passagem que isto acontece só no programa de ação da Secretaria de
Estado’. (professora do ensino médio, não indígena)
As professoras alfabetizadoras confirmam tal informação:
“leciono só a língua materna, ensino o alfabeto apinayé e coordenação
motora”
O trabalho dos professores das séries iniciais vai além de alfabetizar,
eles precisam aproximar as crianças de materiais escolares distantes de sua
cultura, lápis, caneta, caderno, livros, são objetos novos e devem ser incorporados ao cotidiano escolar. No relato das professoras, aparecem em
6 O laboratório de Línguas Indígenas, coordenado pelo professor Dr. Francisco Edviges
Albuquerque e ao qual este trabalho encontra-se vinculado, ao longo da última década
prestou acessoria pedagógica aos povos apinayé e desde então vem desenvolvendo
material didático juntamente com estas comunidades, estando prevista a publicação do
livro de alfabetização apinayé (Observatório da Educação Escolar Indígena/CAPES)
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros, Mayco Pereira Coimbra
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diversos momentos a dificuldade de se pegar no lápis, de realizar movimentos finos e de adequar as condições motoras necessárias à escrita. O pegar
nas mãos e cobrir desenhos são recursos didáticos constantes na tentativa
de apurar o corpo para o trabalho escolar.
O interesse e esforço das professoras responsáveis pela alfabetização impressionam, a disposição em ensinar e a forma como tentam, sem muito conhecimento, garantem, com certeza, a permanência da maior parte das crianças na
escola. Contudo, o resultado nem sempre é o esperado. Uma professora indígena alfabetizadora, quando indagada do que as crianças gostam mais, responde
“gostam mais da língua, gostam mais de pintar e brincar, tem vezes que
eu libero elas para brincar a vontade dentro da sala de aula. Eu quero
que eles aprendam a ler e a escrever a língua materna, porque os alunos
do sexto ano A e B não sabem, e eu não quero que aconteça o mesmo
com estas crianças”.
Para tentar garantir a alfabetização da língua materna, os professores
optaram por alfabetizar primeiro na língua e somente depois em português, o que segundo D’Angelis (2000, p. 2) favorece o processo de aprendizagem da língua materna
“(...) e é mais do que provado que, emocional e cognitivamente, é muito mais fácil e produtivo alfabetizar em uma só língua (a língua materna). (...) deve-se ressaltar também a importância política disso, pelo
reforço da imagem positiva da língua perante as crianças.”
Falta ainda aos Apinayé reivindicarem politicamente o direito de processar o currículo desta maneira e não permitir que a política de educação seja pensada e decidida fora da realidade e do debate da comunidade.
Apesar da decisão aparentemente acertada, caberiam outras investigações
a fim de se verificar o porquê de as crianças passarem pelos anos iniciais
e continuarem sem aprender a escrever, conforme aparece na fala da professora sobre os alunos da sexta série e na fala de vários outros professores
da escola. A princípio tentamos compreender isso à luz da função que a
ignorância7 pode assumir nesta comunidade: não aprender é uma forma de
7 Para conhecer um pouco mais do debate sobre a função da ignorância ver: LIMA,
Raymundo. Sobre a ignorância: efeitos na educação contemporânea. In: Revista Espaço –
Acadêmico. Maringá: Revista da UEM, Nº 120, maio de 2011.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Alfabetização das Crianças Apinayé: subsídios para o processo educativo
resistência cultural ou de sintoma social? Ou é simplesmente dificuldade
no processo em decorrência de falta de material adequado e metodologia
mais apropriada? Também devemos considerar que os indígenas estão experimentando uma categoria social desconhecida em suas comunidades
– a de professor. Que representações isto pode ter na comunidade? Como
se processa este saber especializado com o saber tradicional nestas comunidades? Será que o não aprender não tem relação direta com o suposto lugar
do saber (dos mais velhos ou dos professores)? (Franchetto, 2001).
Aparentemente optar pela alfabetização da língua materna num primeiro momento e posteriormente na alfabetização da língua portuguesa
parece ser um processo interessante, mas cabe ainda analisarmos que rumos seguirá a educação apinayé e que forças políticas conseguirão determinar os modelos de educação bilíngue que ali se encontram. Temos que
considerar que no discurso vigente nas aldeias apinayé, existe uma tentativa de valorização da língua e da cultura e uma defesa política de uma
educação que favoreça tal situação, o que nos leva a considerar que existe
um bilinguismo de vitalização lingüística. Contudo na prática, existe uma
ruptura marcadamente complicada: a alfabetização da língua portuguesa
é realizada por professores não indígenas e que não falam o apinayé, e os
professores de matemática, história, geografia, entre outros, que desconhecem a língua materna destes povos. “(...) a escola não pode simplesmente
alfabetizar na língua indígena; a língua indígena tem que ser, de fato, língua
de instrução, isto é, de ensino8” (D’Angelis, 2000, p. 3)
Evidenciamos uma situação política delicada: se, por um lado, o discurso é de preservação, por outro, até o momento, a língua de instrução (de
ensino) é feita em português, o que contraria a ideia de bilinguismo de vitalização e se apresenta muito mais como o bilinguismo de transição, que tem
por objetivo a substituição da língua materna num curto espaço de tempo.
Por outro lado, se diz que tal situação é temporária, pois politicamente se
espera que com o tempo os próprios professores indígenas assumam todas as
disciplinas das escolas. Assim, esperamos que a formação dos professores indígenas nas graduações, que a elaboração de material didático na língua, que
o apoio da Universidade Federal do Tocantins auxiliem na passagem para
um processo educacional mais apropriado aos anseios destas comunidades.
O espaço escolar, dentro das aldeias, se configura como o fio da navalha. Sua essência marca a assimilação e a integração cultural e mesmo num
8 Grifo meu.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Thelma Pontes Borges, Gustavo Carvalho Viveiros, Mayco Pereira Coimbra
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momento de total debate de participação e respeito à diversidade, a escola é
o local de “neutralização da diversidade, inclusive lingüística” (Franchetto, 2001, p. 77). A definição e a luta política deste povo devem marcar que
rumo suas escolas seguirão e isto estará diretamente atrelado ao futuro de
seu povo.
Referências
1. BARTH, Fredrik. Guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de
Janeiro: Contra Capa, 2000.
2. D’ANGELIS, Wilmar da Rocha. Como nasce e por onde se desenvolve uma
tradição escrita em sociedade de tradição oral? Campinas: Curt Nimuendajú,
2007.
3. D’ANGELIS, Wilmar da Rocha. Alfabetizando em comunidade indígena.
(2000) Disponível em: <http://www.portalkaingang.org/alfabetização.pdf>.
Acessado em: 23 de jun. 2011.
4. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Rio de Janeiro: Vozes,
2004.
5. FRANCHETTO, Bruna. Assessor, pesquisador: reflexões em torno de uma experiência em educação indígena. In: Práticas pedagógicas na escola indígena.
São Paulo: Global, 2001.
6. FREIRE, Paulo. A ação cultural para a liberdade. E outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
7. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
8. FREUD, Sigmund. Psicologia do escolar. (1914).Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
9. LIMA, Raymundo. Sobre a ignorância: efeitos na educação contemporânea. In:
Revista Espaço – Acadêmico. Maringá: Revista da UEM, Nº 120, maio de 2011.
10. MENDES, Ana Magnólia. Pesquisa em psicodinâmica: a clínica do trabalho.
In: Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisa. São Paulo: casa do
Psicólogo, 2007.
11. NASCIMENTO, Adir Casaro; AGUILERA URQUIZA, Antonio H. Entender
o outro – a criança indígena e a questão da educação infantil. Texto publicado na página da ANPED/29ª. Disponível em: <http://www.anped.org.br/
reunioes/29ra/trabalhos/.../GT07-2355-int.pdf>. Acessado em 15 jun. 2011.
12. NUNES, Angela (org.). Crianças indígenas; ensaios antropológicos. São Paulo:
Global editora, 2002.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Resistência e Construção do Cotidiano
entre os Apinayé
Miguel Pacífico Filho 1
Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira 2
1 – Construindo um Cenário: o Campo do Outro
Mesmo que consideremos as sucessivas políticas não oficiais de extermínio das populações indígenas levadas a cabo pelo Estado português e
posteriormente pelo Estado brasileiro, ainda é possível afirmar que o Brasil
é um país composto por um número extremamente significativo de povos
etnicamente diferenciados quer por suas línguas próprias, quer por seus
fazeres e saberes, histórias e visões de mundo. De acordo com dados fornecidos pela FUNAI, o Brasil conta atualmente com 230 povos indígenas falantes de aproximadamente 180 línguas diferentes. O censo de 2000 revelou
ao IBGE 734.127 pessoas que se auto identificam como indígenas.
Inúmeros são os problemas que, historicamente, envolvem estas populações, os indivíduos que as compõem e sua relação com as sociedades
não indígenas. A percepção que significativas parcelas das populações não
indígenas têm sobre as populações indígenas certamente é desencadeadora de diversas outras questões, abordadas por pesquisadores de diferentes
áreas do conhecimento. Tal interpretação, historicamente construída, estruturou-se a partir de referenciais fornecidos pela historiografia e pelas ciências jurídicas contribuindo para a formação de uma imagem atrelada ao
atraso tecnológico e consequente inaptidão à nova realidade imposta pelos
colonizadores europeus. Somente durante as três últimas décadas torna-se
perceptível uma mudança de foco nos estudos que envolvem as populações
1 Professor Adjunto II da Universidade Federal do Tocantins – Campus Araguaína.
Professor do curso de Gestão de Cooperativas.
2 Aluno do curso de Gestão de Logística. Bolsista / CAPES – Observatório da Educação
Escolar Indígena.
193
194
Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
indígenas. É dentro desse contexto que buscamos situar nosso trabalho.
A perspectiva que busca visualizar as populações indígenas como agentes
capazes de influenciar diretamente a construção de suas relações com a sociedade não indígena, capazes de mensurar a importância da manutenção
de determinadas práticas sociais, referenciais atrelados a saberes e fazeres,
as percepções de mundo e de práticas culturais.
Um breve histórico se faz necessário para situarmos nossa proposta
dentro de um vasto campo de discussões que permeia diversos setores da
academia. O entendimento que grande parte da sociedade brasileira tem
dos povos indígenas, ainda nos dias de hoje, está baseado na ideia de sua
inadequação ao trabalho escravo, sua indolência e impossibilidade de lidar
com a nova realidade mercantil trazida pelos colonizadores. Em suma, está
vinculada à sua incapacidade de influenciar historicamente os rumos da
sociedade na qual foram inseridos. Podemos afirmar que tal compreensão
encontrou, ao longo da história do Brasil, fundamentação em referenciais
historiográficos e jurídicos. Francisco Adolfo de Varnhagen (1854-1857)
defendia em meados do século XIX, com sua História Geral do Brasil, a
ideia de que as populações indígenas não tinham história; que seria possível tão somente fazer-lhes a etnografia. Notamos que tal interpretação
encontra-se como sustentação de uma visão que só muito recentemente
recebeu críticas no meio acadêmico. O Código Civil brasileiro de 1916
(Brasil, 1916) consolida a ideia de incapacidade ao propor a perspectiva de
tutela das populações indígenas pelo estado brasileiro.
Os anos 80, com a multiplicação dos programas de pós-graduação
em História pelas universidades brasileiras e sua consequente consolidação nos anos 90, trouxeram a construção de uma percepção diferente
daquela em vigor, quer através de dissertações e teses, quer através de
grupos de pesquisa voltados ao tema. A participação do indígena como
agente histórico veio à tona através de diversos estudos que se utilizaram
não só de novos métodos como de novas fontes de investigação. Como
exemplo, podemos citar o Núcleo de História Indígena e Indigenismo
(NHII) da Universidade de São Paulo, fundado no ano de 1990. Também no ano de 1990 foi publicado o trabalho História Geral do Brasil,
organizado pela professora Maria Yedda Linhares (1990), em cujo capítulo Conquista e Colonização da América Portuguesa o autor Francisco
Carlos Teixeira da Silva nos diz o seguinte a respeito das práticas das populações indígenas, quando do processo de ocupação de seus territórios
pelos portugueses:
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
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“as guerras, cruentas e exterminadoras, foram conseqüência direta da
implantação agrícola do colono. A resistência indígena foi mais forte
no Rio de Janeiro, a cargo dos tamoios, e no nordeste, para onde convergiam inúmeras nações, opondo-se duramente à penetração européia” (Teixeira, 1990, p. 66)
Outros fatores também influenciaram na construção dessa nova forma de interpretação:
no final dos anos e 1970 e início dos anos de 1980 multiplicam-se as organizações governamentais e não-governamentais de apoio aos índios.
Nasce também a primeira organização indígena de âmbito nacional,
a (UNI), a partir da qual se formam outras organizações regionais ou
étnicas. São freqüentes os “Encontros de Educação Indígena”. Foram
escritos muitos documentos desses encontros, com reivindicações por
escolas diferenciadas e Declarações de Princípios. (ALBUQUERQUE
apnd MARFAN, 2003, p. 46)
É possível apontar também uma série de estudos que corroboram
nossa proposta; para outras regiões do país e outros povos indígenas preocupações semelhantes são temas de pesquisas, entre as quais, citamos o
seguinte trecho:
neste sentido, a partir do caso Terena, pretendemos ver como se dão
os processos de resistência étnica diante das diversas formas de dominação que diferentes setores da sociedade brasileira e o Estado exercem sobre os povos indígenas. A análise da relação entre as formas de
poder exercidas sobre as populações indígenas caminha assim lado a
lado com a reflexão acerca das formas de resistência construídas pelos
próprios grupos indígenas como estratégia de sobrevivência e fortalecimento. Mas também consideramos as formas de dominação operantes dentro dos próprios grupos indígenas. Uma história Terena é
necessária e também uma compreensão da história dos pontos de vistas
indígenas. (Ferreira, 2007, p. 19).
Tão recente quanto os estudos acima apontados é possível destacar,
sem qualquer sombra de dúvida, a questão da educação escolar indígena.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
Atualmente o tema é objeto de estudo de pesquisadores com formação nas
mais diversas áreas e, como exemplo, podemos citar o grupo de antropólogos e educadores cujos trabalhos foram organizados por Maria Aparecida
Bergamschi (2008) e os trabalhos do linguista-indigenista Wilmar da Rocha D’Angelis (2007). Inserido nesse contexto, o presente trabalho é resultado de dois fatores determinantes.
O primeiro deles diz respeito à localização geográfica da instituição
que originou esta proposta de pesquisa. A Universidade Federal do Tocantins está situada geograficamente em local de forte presença de povos
indígenas. O campus dessa mesma universidade, no qual se desenvolve a
pesquisa que ora discutimos, situa-se na cidade de Araguaína e encontra-se
próximo de povos como os krahô, os Krikati, os Karajá e os Apinayé. Estes
últimos foram selecionados como objeto dessa pesquisa e concentramos os
esforços de investigação nas aldeias Mariazinha e São José. Cabe dizer que
nosso critério de escolha baseou-se, entre outros fatores, nos baixíssimos
resultados apresentados por uma das escolas localizadas entre os Apinayé
no ENADE de 2008.
O segundo diz respeito ao trabalho de pesquisa que desenvolvemos,
e aqui demonstramos os resultados. Atrelada a um contexto investigativo
mais amplo, a saber, às outras duas pesquisas que compõem a proposta
aprovada no Edital n° 001/2009 do Observatório da Educação Escolar Indígena; com o título A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e
Intercultural podemos dizer que nosso objetivo primeiro é fornecer subsídios para uma educação escolar bilíngue e intercultural.
Faremos agora a exposição da estrutura desenvolvida para dar cabo
das discussões levantadas até aqui. Em primeiro lugar, demonstraremos
uma breve contextualização da história das sociedades apinayé. Em segundo
lugar, discutiremos nossos referenciais teóricos buscando dialogar com outros estudos, com objetivos semelhantes, e suas respectivas opções teóricas.
Em terceiro e último lugar, apresentaremos a metodologia proposta para a
obtenção e análise das informações obtidas durante o trabalho de pesquisa.
2. Os Apinayé: informações sócio-históricas
Para contextualizar historicamente os apinayé, recorreremos a uma
recapitulação que busca não apenas apontar seus traços identitários, mas
sobretudo expor como foram retratados pelos pesquisadores que se dedicaram a estudar suas mais diversas características. A partir de diferentes
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
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pontos de vista narrativos, científicos, teóricos e metodológicos, viajantes,
antropólogos e linguistas se dedicaram à observação e estudo das sociedades apinayé. Citaremos quatro nomes que, não necessariamente nessa
ordem, fornecem-nos subsídios para a contextualização das populações
apinayé: Curt Nimuendaju, Roberto da Matta, Odair Giraldin e Francisco
Edviges Albuquerque; os dois últimos professores da Universidade Federal
do Tocantins. Além desses pesquisadores, devemos também mencionar a
presença dos viajantes que, durante o século XIX, fizeram registros significativos das diversas características dos povos que aqui viviam.
Pode-se afirmar que um dos primeiros contatos dos apinayé com a
sociedade não indígena se deu com os viajantes, e o naturalista inglês Francis de La Porte de Castelnau (2000) registra esses momentos em sua obra
Expedições às Regiões Centrais da América do Sul, de 1844. Citado por
Nimuendaju (1983, p. 3), Castelnau registrara a utilização de embarcações
fluviais pelos apinayé “Castelnau, em 1844, também menciona plusieurs
pirogues no porto dos Apinayé, no Rio Araguaia”.
As relações conflituosas entre os Apinayé e as populações não indígenas são também mencionadas por Nimunedaju:
A partir de 1707 entraram os apinayé em contato permanente com os
civilizados. Neste ano o governo do Pará fundou na boca do Araguaia o
posto militar de São João das Duas Barras ( hoje São João do Araguaia).
Porém, ao invés de se estabelecer uma paz permanente, começaram
desde logo lutas sangrentas entre os Apinayé e a guarnição do posto.
Silva e Sousa relata que os apinayé mantiveram-se em paz, mas ao encontrarem alguns soldados da guarnição destruindo suas plantações,
os mataram, sendo então as suas aldeias cercadas e destruídas com auxilio de peças de artilharia. (Nimuendaju 1983, p. 3).
Roberto da Matta, que num dado momento de suas pesquisas se dedicou pontualmente a estudar os apinajé e suas relações com as sociedades
não indígenas, também destaca a natureza desses contatos. Segundo ele,
as questões envolvendo a disputa pela terra teriam influenciado significativamente a estruturação das sociedades apinayé. Para Da Matta (1976) os
problemas envolvendo controle e ocupação das regiões beneficiadas pelos
Rios Araguaia e Tocantins com a finalidade de ampliação das fronteiras
destinadas a bovinocultura impôs às populações apinayé questões envolvendo fazendeiros, posseiros e meeiros.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
Envoltos num contexto de ocupação de terras proposto pelo Regime
Militar, os apinayé viram suas terras transformar-se em palco involuntário
de uma das maiores disputas por terras já vistas pela sociedade brasileira
bem como a repressão a um dos mais destacados movimentos de oposição
ao regime militar. Segundo Oliveira,
Zona de confluencia dos rios araguaia – tocantins e região de fronteira
entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins, o bico do papagaio nas
décadas de 1960/70 do século passado foi porta de entrada para toda a
amazônia legal constituindo-se numa região de intensos conflitos envolvendo posseiros, grileiros e fazendeiros durante todo o Regime Militar (1964-1985). Não obstante, a questão fundiária era um problema
de segurança nacional (...) estava em curso um projeto que não considerava a realidade sócio cultural da maioria da população do Bico do
Papagaio, um “espaço vazio” a ser explorado por homens e mulheres da
cidade. (Oliveira, 2008, p. 1)
É nesse contexto que se situa nosso objeto de pesquisa. Certamente
influenciada por toda essa gama de acontecimentos, as populações apinayé
possuem sua visão própria de todos esses acontecimentos. Como lidar com
eles? Haveria algum grau de aproximação possível com tais acontecimentos? Quais os mecanismos e visões de mundo construídos pelos apinayé
para lidar com esse contexto?
3 – Referenciais teóricos
Situamos nossa proposta dentro do campo de estudos históricos conhecido como história do cotidiano que, grosso modo, pode ser assim
compreendido:
“em termos bem gerais, os estudos sobre cotidiano tendem a valorizar,
como foco de atenção, as ações individuais frente às circunstâncias da
vida, sobretudo no plano da intersubjetividade. Para alguns, importam
menos as “estruturas do cotidiano” que os tipos de ação observados em
seu interior”. (Guarinello, 2004: 32 ).
Noções de resistência observadas a partir de ações cotidianas dos sujeitos históricos podem ser interpretadas à luz de trabalhos desenvolvidos
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
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por autores como Michel de Certeau (1994) e Michel Maffesoli (2001), que
ora passam a ser, através de determinados conceitos que propuseram, a sustentação teórica para abordagem que apresentamos. Discutiremos então, os
conceitos de tática e socialidade e a forma como serão empregados.
Não por acaso selecionamos nosso referencial teórico. Podemos dizer
que a percepção dos povos indígenas sobre seu atual posicionamento na
sociedade brasileira nos levou a cogitar a possibilidade de visualizar suas
práticas cotidianas de resistência. Aílton krenak, destacada liderança indígena e coordenador da Rede Povos da Floresta assim percebe a situação dos
povos indígenas no Brasil:
“nós estamos assistindo de uma maneira imperativa, participando nem
sempre de uma maneira que resulte para nós em conquistas efetivas.
Muitas vezes a gente participa desse processo mais como vítima – é
ruim adotar essa condição – mas, na maioria das vezes, as comunidades indígenas estão à margem do processos de decisão e sofrendo a vitimação movida por uma cultura. Eu estou fazendo essa referência um
pouco incisiva no aspecto do conflito de territórios de um povo e ocupação desse território por uma outra tradição, por uma outra maneira
de viver, por uma outra forma de expressar uma cultura. Estou procurando com isso iluminar este passado recente, pois acho importante
que nós nos esforcemos daqui para frente no sentido de reconhecer que
o que sobreviveu destas culturas à revelia, longe do esforço do Estado
ou da sociedade regional em proteger, respeitar, preservar, ou qualquer
coisa que tenha semelhança com solidariedade, merece respeito e deverá ser reconhecido” (Krenak, 1992, p. 202).
Fica explícita tanto a consciência de todo um conjunto de práticas
culturais que sobreviveu sem mecanismos de proteção do Estado quanto
a compreensão de que não muito dessa mesma cultura restou. As perguntas que fazemos são sustentadas por essa percepção: quais os mecanismos
utilizados por esses povos para resistir e preservar traços culturais? Quais
procedimentos cotidianos foram adotados para fazer frente a essa imposição de outras visões de mundo? Diversas perguntas são feitas acerca desse
processo histórico, segundo Bessa Freire:
“ qual a versão da sociedade brasileira, por exemplo, sobre o embate histórico da conquista e de todo o processo de contato? Em que
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
200
Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
contexto, sob quais condições e com base em quais fontes foi produzido esse saber? Em que medida a difusão de um conhecimento
assim produzido contribui para uma relação positiva dos índios com
a sociedade nacional ou reforça preconceitos discriminatórios? Qual
a contribuição indígena para a formação da identidade nacional? Afinal, o que é que a atual sociedade brasileira sabe sobre as experiências passadas dos povos que habitaram milenarmente seu território?
Como reconstruir a história de sociedades sem escrita?” (Bessa Freire, 2010, p. 4)
Os dois autores que utilizamos como suporte teórico têm suas proposições acerca do cotidiano entendidas como complementares, pois enquanto De Certeau (1994) se preocupa com os procedimentos dos sujeitos dentro do território do outro, Maffesoli (2001) demonstra como esses mesmos
sujeitos colaboram de maneira furtiva dentro das condições impostas pelo
outro como objetivo de construção de espaços próprios.
Vejamos os conceitos utilizados. Michel De Certeau (1994) propõe
a tática como procedimento adotado por aqueles que necessitam operacionalizar o jogo cotidiano dentro de referenciais estabelecidos pelo outro,
dentro de determinados padrões que não raro lhes são estranhos. Sabe-se
que, atualmente, muitos povos indígenas vivem em permanente contato
com a sociedade não indígena. Para observar as diversas nuances dessa
relação e, consequentemente nela buscar as resistências cotidianas, buscaremos as proposições de De Certeau (1994). Assim ele estrutura e expõe
aquilo que entende como tática:
“um cálculo que não pode contar com um próprio, nem portanto com
uma fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática
só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua, fragmentariamente, sem
apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância. Ela não dispõe
de base onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e
assegurar uma independência em face das circunstâncias. O próprio é
uma vitória do lugar sobre o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu não-lugar, a tática depende do tempo, vigiando para captar no vôo possibilidades de ganho. O que ela ganha, não o guarda. Tem constantemente
que jogar com os acontecimentos para os transformar em ocasiões.
Sem cessar o fraco deve tirar partido de forças que lhe são estranhas.”
(De certeau, 1994, p. 78).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
201
Uma outra possibilidade de observação encontra-se no conceito de
socialidade proposto por Michel Maffesoli (2001). Este autor nos expõe os
mecanismos através dos quais aqueles que, em desvantagem no jogo social, assimilam parcial e aparentemente determinados valores somente para
efetuar pequenas trapaças em relação àquilo que traz o traço do controle
social. Na construção de seu cotidiano e consequentemente na aproximação com práticas e percepções de mundo divergentes das suas, os apinayé
constroem maneiras de lidar com o outro e lhe observar as práticas. Buscamos nas proposições de Maffesoli (2001) ferramentas para dimensionar
características dessa aproximação. Particularmente trabalhamos o conceito
de socialidade:
“tudo a que chamamos a socialidade está resumida numa fórmula: pratica-se o sistema D em relação a tudo o que parece exterior, seja o oficial
ou o dominante, e, ao mesmo tempo, se é firmemente fiel aos valores do
grupo ou da rede. A lealdade ao local admite muito bem pequenas trapaças em relação a tudo o que traz o controle social, da ajuda pública, do
trabalho, da propriedade privada ou pública”. (Maffesoli, 2001, p. 61.).
4 – As aldeias apinayé Mariazinha e São José: seleção de informantes
e obtenção de dados.
Estruturamos a metodologia de pesquisa objetivando observar não
somente através da fala membros das aldeias, mas também seus comportamentos dentro das questões cotidianas que se apresentavam. Realizamos
quatro visitas à aldeia São José e quatro visitas à aldeia Mariazinha, com
permanência de uma semana em cada uma das visitas, durante as quais
desenvolvemos procedimentos de seleção de informantes e coleta de dados.
Buscamos referenciais em vários setores da organização social das aldeias.
Autoridades políticas, como os caciques e vice-caciques, professores indígenas e indivíduos sem qualquer destaque político, religioso ou educacional.
Foram realizadas entrevistas de aproximadamente 60 minutos com cada
um dos selecionados e procuramos, dentro do tempo em que permanecemos nas aldeias, observar as atitudes cotidianas desses mesmos sujeitos.
Os objetivos dizem respeito à busca de interpretação de formas cotidianas de resistência e da percepção dos apinayé acerca das questões envolvendo a relação entre estes e a população não indígena. A resistência
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
202
Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
interpretada como atos de conquista de um dia a dia que deve ser vivido
que, na percepção de Michel Maffesoli (2001), deve passar pela chamada
conquista do presente.
Obtivemos, nas entrevistas e observações, respostas que nos possibilitam realizar uma série de discussões acerca daquilo que propusemos como
objeto de pesquisa. Nas respostas dadas por um vice-cacique da aldeia
São José, é possível visualizarmos um pouco da visão dos apinayé sobre
essas questões. Questionado acerca da relação estabelecida entre a cultura
apinayé e as práticas não indígenas, nos mencionou a preocupação com
a compreensão e manuseio de referenciais de origem externa. Disse-nos
ainda que há uma inegável importância no aprendizado de referenciais não
índios, que são necessários para um melhor viver. No entanto, prossegue:
é preciso haver um cuidado para que esses referenciais não subjuguem os
dos indígenas, que sirvam somente como uma ponte para as relações que
devem se estabelecer entre índios e não índios.
A percepção de que há a necessidade de compreensão e utilização de
determinados mecanismos utilizados pelas sociedades não indígenas bem
como o conhecimento de um passado marcado por conflitos expõem a
ampla capacidade de visualização das questões envolvendo o processo de
relação entre índios e não índios. Diz o vice-cacique : “antigamente os mais
velhos sempre lutavam e brigavam através das burdunas, arco e flecha, mas
hoje não. Nós jovens sempre brigamos através da caneta, e hoje esse mundo
muito tecnológico, avançado, nós temos que acompanhar essa tecnologia
avançada”.
Entendimento oposto ao verificado acima podemos encontrar nas
palavras de um dos mais velhos habitantes da aldeia São José. Segundo
ele, as práticas não indígenas exerceram tal poder de influência entre os
apinayé que tornaram-se elementos de desconfiguração de seus hábitos.
Diz ele: “a questão da cultura é o seguinte os novos não querem mais saber é por isso que eu tava brigando com os caciques, que os caciques que
entraram não interessam também de ativar a rapaziada, a mãe e o pai das
pessoas, que é para cantar no pátio, porque fizemos uma festa aí no dia do
índio, aí os mais novos não querem porque vocês já ensinaram a cultura
de vocês para eles, aí eles querem acompanhar a cultura de vocês, eles não
querem acompanhar a nossa cultura, eu tava cantando para um vizinho
que se acabou, a eu disse quando os mais velhos se acabar tudo, vocês não
sabem nem mais a cultura de vocês as cantigas de vocês, vocês vão ficar aí
que nem os Carajá (...)”.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
203
Essa descontinuidade é igualmente verificada nas palavras de uma das
professoras indígenas da aldeia São José. No entanto, há a percepção de
que o papel exercido pela escola pode auxiliar no estancamento e reversão
desse processo. Segundo ela: “a cultura já está enfraquecendo porque quando acontece alguma festa os mais velhos é que participam os jovens não
tão nem aí, alguns jovens participam, por isso que nós estamos querendo
incentivar as crianças para aprender mais, por que assim se os professores
não ensinar acaba senão, não vão participar das festas culturais”.
De acordo com o entendimento do diretor da escola da aldeia São José
tal aproximação entre os apinayé e as sociedades não indígenas não ocorre
livre de qualquer tensão. Percebe-se que ela carrega vestígios daquele passado conhecido e apontado por um dos informantes anteriormente citados.
Perguntado sobre a relação dos apinayé com a sociedade não índia e suas
consequências para a manutenção de traços identitários, nos demonstrou
plena capacidade de contextualizar o atual estágio dessas relações com o
seu continuum histórico. É possível também verificarmos a percepção de
que houve um processo de quase desaparecimento de muito daquilo que
os define como apinayé. O diretor nos diz o seguinte: “sempre tem conflito,
através da discriminação, preconceitos, sempre existe. Interfere, por que vemos que todas as aldeias têm energia, têm televisão, têm o som, então com
isso interfere na cultura, por isso, a escola está buscando resgatar o pouco
que restou, para não perder. Por que se ficar só na televisão, DVD, assistindo só essas coisas, perde a cultura, perde a língua”. Referenciais externos
são vistos, a partir de sua utilização exclusiva, como algo desestruturador.
A necessidade permanente de posicionamento combativo junto às
estruturas políticas não indígenas e o conhecimento de sua dinâmica de
funcionamento são perceptíveis na fala do vice-cacique da aldeia Mariazinha e conselheiro de educação escolar indígena do estado do Tocantins,
representante da área apinajé. Questionado sobre a atuação da gestão política não indígena acerca das escolas, nos disse o seguinte: “sempre eu fui
lutador, comecei jovem e até essa idade eu estou lutando. Sou conselheiro
de educação escolar indígena do estado do Tocantins, representando essa
área apinayé. Sempre busquei muito alguma forma de melhoria também na
qualidade da escola, então é por isso que a gente luta, por que hoje sempre
muda principalmente os políticos que mandam; os governantes que manda
nesse país. Então a gente sempre luta, a gente cobra para o bem da escola e
da comunidade, também pela partes dos governantes eles têm que sempre
olhar para a escola indígena”.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
204
Resistência e Construção do Cotidiano entre os Apinayé
A percepção de que a escola é uma importante ferramenta não indígena capaz de auxiliar os apinayé na concretização de suas visões de mundo
bem como na equalização de sua relação com a sociedade externa surge
nas palavras de uma das professoras apinayé: “é importante que a escola vá
para frente para não acabar, de primeiro não tinha nem professor índio que
ensinava a língua, mas agora já tem professor que está ensinando a língua,
eu acho importante eles aprenderem a língua para não acabar”. A escola é
entendida como local de transmissão e continuidade para a língua apinayé
considerando que a apropriação de seu espaço, através da figura do professor indígena, permitiria direcionar seu uso.
5 – Discussões finais
Durante nossa permanência nas aldeias apinayé, pudemos colher diferentes posicionamentos de seus integrantes no que diz respeito às nossas
indagações, o que fica explícito nas falas apresentadas no tópico anterior.
Porém , é possível traçar um fio condutor que se faz presente nas respostas
dadas pelos sujeitos, formado por quatro referenciais, presentes em praticamente todas as falas. O primeiro deles diz respeito ao entendimento de
que muitos dos traços definidores dos apinayé foi substituído por práticas
alheias. Segundo: a necessidade de apropriação de elementos externos à cultura apinayé e seu correto manuseio, a fim de que venham a ser utilizados
em favor de suas visões de mundo. Devemos destacar que a escola faz parte
desse conjunto de referenciais externos. Terceiro: a identificação dos agentes
externos responsáveis pela descontinuidade de muitas das praticas sociais
dos apinayé. Quarto: o entendimento de que há a necessidade de permanência de determinados traços identitários, sendo a língua o suporte principal.
É fato presente na quase totalidade dos estudos que se dedicam às
populações indígenas questões formuladas a partir de preocupações cujas
respostas integrarão e definirão um devir, cuja concretização depende de
variáveis históricas, cuja herança vem sendo apropriada e alterada, em
maior ou menor grau, pelas diversas populações indígenas do Brasil. Questões populacionais, educacionais, linguísticas, estruturação social e relações parentais exemplificam as questões mencionadas. Optamos por uma
outra via, por questões cujas respostas devem ser construídas dia a dia. Nos
interessamos pela construção do cotidiano dessas populações, por respostas que devem ser formuladas e dadas às diversas situações do presente.
Resistir? Flexibilizar? Assimilar? Pelo que pudemos verificar, suas ações
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Miguel Pacífico Filho, Carlos Joeverson Azevedo de Oliveira
205
cotidianas são construídas a partir de diferentes gradações dessas variáveis
e o devir de suas sociedades será fortemente influenciado por essas ações.
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
10 Etnomatemática e Investigação
Matemática em Contextos Indígenas
Elisângela Aparecida Pereira de Melo1
Os Contextos Investigados
Os Indígenas Xerente
As comunidades indígenas do estado do Tocantins estão em contato
com a sociedade não indígena há mais de 250 anos. Esse contato tem se intensificado por meio dos processos de aculturação e enculturação, ou seja,
do mesmo modo que os indígenas adquirem os conhecimentos dos povos
não indígenas por meio da relação intercultural, lutam internamente para
manterem vivas as suas tradições culturais.
A intencionalidade dos povos indígenas em preservar suas tradições
e manifestações como povos distintos culturalmente nos conduz a olhar a
cultura do outro na perspectiva de investigar e descrever o ambiente próprio e específico do ser indígena. No ambiente em questão encontram-se
práticas culturais próprias, vivenciadas unicamente por povos indígenas.
Entretanto, em dias atuais, os indígenas de modo geral vivenciam seus etnoconhecimentos em constantes processos de formação e assimilação em
relação aos conhecimentos que são e estão sendo adquiridos por meio do
contato com o não indígena. Vale ressaltar que há empreendimento de esforços de diferentes atores ao longo dos anos em manterem a preservação e,
em outros momentos, a revitalização de seus hábitos e costumes.
Diante da posição dos que ensinam e dos que aprendem adentramo-nos no mundo peculiar dos indígenas de modo a observar o não observado, as sutilezas que subjazem suas práticas, de registrar o não registrado,
1 Professora da Universidade Federal do Tocantins, Campus Universitário de Araguaína,
Colegiado de Matemática, Tutora do Programa de Educação Tutorial – PET/Conexões
de Saberes para Estudantes Indígenas – e Colaboradora do Projeto Observatório da
Educação Escolar Indígena.
207
208
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
de vivenciar o não vivenciado. Com tais intencionalidades, nos períodos
de 2006 e 2007 realizamos a pesquisa de campo, por meio da observação
participante e direta junto ao povo Xerente, buscando então vivenciar sua
cultura por meio da realização de atividades laborais, abstraindo as informações inerentes às suas práticas culturais e verificando a possibilidade de
vinculá-las ao ensino de Matemática na escola indígena.
Em relação a esse contexto, Melo (2007) descreve a etnografia do
povo Xerente na perspectiva de estudos e pesquisas em Etnomatemática e toma como referência de investigação os moradores da Aldeia
Porteira, a Escola Indígena, os professores e suas práticas educativas,
envolvendo o protagonismo dos alunos, dos jovens e de seus saberes
e fazeres. Tais saberes e idosos fazeres em parte se caracterizam como
atividades cotidianas e laborais as quais muitas vezes são compartilhadas com outros indivíduos que indiretamente ou diretamente convivem
com os Xerente.
Para Melo (2007), os Xerente constituem-se como uma comunidade
singular, com traços de formação étnica e de afirmação da identidade indivíduos em um contexto sociocultural de contato direto e indireto com a
sociedade não indígena. Em tal situação, eles buscam a cada dia a sua auto-afirmação, que ora emerge como um fator propício para aculturação de
seus saberes tradicionais.
Enfatizo ainda que os Xerente são um povo conhecido e autodenominado Akwẽ, que significa “indivíduo” e/ou “gente importante”. Com
mais de duzentos e cinquenta anos de contato, os não indígenas têm levado-os a elaborar e reelaborar os seus valores culturais, bem como incorporar em suas tradições religiosas muitos dos valores das religiões protestantes e católicas. Tal situação evidencia-se nitidamente nas Aldeias
e nas cidades circunvizinhas, uma vez que os indígenas frequentam ou
moram nos municípios de Tocantínia e Miracema do Tocantins. Apesar
dessa influência, a cultura mítica religiosa dos Xerente, ainda é muito forte e a prova disso é a participação direta dos pajés na vida social e política
da comunidade.
Outros fatores que também referenciam as expressões de rituais
são as curas com ervas medicinais, os rituais fúnebres, os casamentos
de acordo com os padrões estabelecidos pela tradição, os ritos de nominação, os mitos, a cosmologia, a simbologia da pintura corporal, entre
outras expressões que, de algum modo, fortalecem os valores e saberes
tradicionais Xerente.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
209
Práticas Socioculturais do povo Xerente: um estudo de ideias
matemáticas
O mundo Xerente é um grande espaço, de ensinamento e aprendizagem no qual nos adentramos de modo a evidenciar as ideias matemáticas
desenvolvidas ou praticadas cotidianamente pelos indígenas. De que forma
estas poderiam contribuir metodologicamente com os professores no exercício de suas ações didático-pedagógicos em sala de aula, em especial, para
o ensino de Matemática, que ora é vivenciado de forma desarticulada com
as manifestações deste povo?
Nessa perspectiva, Melo (2007) focaliza sua investigação em alguns
traços culturais, tradicionais, simbólicos e de atividades laborais. Entretanto, vale mencionar que, neste trabalho, nos reportaremos aos aspectos
simbólicos da pintura corporal e faremos a descrição de dois tipos de artesanatos: as cestas/fruteiras, confeccionadas com a matéria-prima do capim
dourado e o cofó, de produção artesanal com a palha de buriti.
Contudo a busca da evidência tdas ideias matemáticas praticadas em
diferentes espaços de vivência e de aprendizagem não deve se restringir
apenas à descrição destas, mas também possibilitar a discussão, a interação
e a reflexão entre os saberes próprios e os instituídos por meio da educação
escolar. Com esse paciente, a etnomatemática possibilita uma conexão entre a matemática e as ideias ou formas de pensamentos matemáticos desenvolvidos por culturas distintas, por considerar que
O pensamento matemático desenvolvido por diferentes sociedades
emerge, hoje, como rica fonte de conhecimentos, com a qual professores devem trabalhar partilhando da premissa fundamental de compartilhar, com as pessoas envolvidas, o processo coletivo e holístico da
construção de conhecimentos (LEAL FERREIRA, 2002, p. 13).
Em sua atual conjuntura, etnomatemática, um programa de ações e
pesquisas, em que as interações entre o empírico e o científico entrelaçam,
as ideias e atitudes daqueles que buscam o diferencial na educação escolar.
Assim esse programa converge para os espaços da escola, por meio de um
currículo dinâmico e participativo, no qual os povos culturais e de minorias articulam e utilizam seus saberes.
Saberes estes que são constituídos em suas essências como “ser” em
seus próprios ambientes de aprendizagem.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
210
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
A compreensão que temos da etnomatemática como um programa
que visa possibilitar aos que o exercem o papel de educador e formador,
um novo fazer em sala de aula, nos dá uma das características básicas deste
programa, que pode ser definido com uma
[...] ação pedagógica que irá atuar como mediador entre o conhecimento matemático, adquirido pelo grupo cultural, e o conhecimento
matemático acadêmico. [...] Partindo destes pressupostos, o programa
etnomatemática oferece aos professores e aos educadores as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de um trabalho pedagógico direcionado [...]. (ROSA; OREY, 2006, p. 31-33).
Nessa perspectiva, tanto as cestarias como os cofós dos Xerente mostram a exemplificação de uma riqueza de saberes e fazeres próprios, evidenciados por meio de conceitos de uma matemática não vivenciada pelos
indígenas, uma vez que a criação e/ou confecção dos artesanatos tem em
si a cientificidade e sim a manutenção desta tradição herdada de geração
a geração.
Neste ponto do nosso estudo comungamos com Almeida (2010), no
que se refere à complementaridade entre a régua e o compasso, entre a reta
e o círculo, haja vista que
[...] o lugar, ou não-lugar a partir do qual a etnomatemática pode inaugurar uma atitude cognoscente e um modelo epistemológico capazes
de religar a Matemática considerada universal com os saberes das matemáticas culturais diversas (ALMEIDA, 2010, p. 124).
A esse olhar que diríamos crítico e ao mesmo tempo ousado e instigador de Ceiça Almeida que consideramos a diversidade das práticas
culturais dos indígenas Xerente e os conhecimentos tradicionais por
eles praticados, desenvolvidos e representados em seus artefatos, o que
evidencia nitidamente alguns conceitos matemáticos, em particular, a
Geometria.
Esses conhecimentos tornam-se evidentes, quando observamos os indígenas em suas atividades laborais de confecção de seus artesanatos, onde
podemos notar no manuseio das palhas de buriti ou das fibras do capim
dourado a vida estética que estes vão ganhando através dos traçados. Conforme indicam as seguintes figuras.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
211
Figuras 1 e 2: Confecção de cofós com a palha de buriti.
Imagem: Elisângela Melo
Figuras 4 e 5: Artesanato com capim dourado
Imagem: Elisângela Melo
Enfatizamos que nesses traçados estão contidas praticamente todas as
simetrias estudadas em escolas não indígenas e hoje também nas escolas
indígenas com o uso dos livros didáticos2 no contexto da sala de aula, ressaltando que a escola indígena não pode negar o conhecimento matemático
aos seus alunos, haja vista que é concebida com as seguintes características:
comunitária, intercultural, bilíngüe/multilíngue e específica e diferenciada
(BRASIL, 1998, p. 24).
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
212
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
Ainda no tocante a esses artefatos, observamos também a formação
de ângulos no cruzamento entre uma palha e outra, formação de triângulos
e, no caso, das cestas ou fruteiras, notamos ainda na elaboração dos potes
e dos porta-jóias as várias formas geométricas, desde as arredondadas às
retangulares, conforme a sua utilidade. Observamos também as dimensões
destes artefatos, quer profundidades, larguras, comprimento, quer detalhes
coloridos que são adquiridos com o tingimento das fibras de buriti, como
podemos visualizar nas figuras anteriores.
Na análise do contraste dessas atividades artesanais, emergem alguns
questionamentos, por exemplo, se você perguntar a uma indígena se ela
sabe que conceitos ou conteúdo matemáticos estão sendo abordados nos
artesanatos, elas dirão que são apenas cestas ou cofós e que elas aprenderam
com suas mães, ou seja, são aprendizados que são repassados de geração
a geração de Xerente, por meio da oralidade, da observação participante
do fazer destes que ocorre desde os primeiros indivíduos deste povo. Na
particularidade do ensinar e do aprender a fazer entre os povos indígenas,
Maher (2006, p. 17) nos coloca que
Uma característica que chama a atenção na Educação Indígena tradicional é o fato de, nesse tipo de educação, o ensino e a aprendizagem
ocorrerem de forma continuada, sem que haja cortes abruptos nas atividades do cotidiano. Entre nós, o ensino e a aprendizagem se dão em
momentos e contextos muito específicos: ‘Está na hora de levar meu
filho para a escola para que ele possa ser alfabetizado’; ‘Minha filha está
fazendo um curso, em uma escola de informática, das 4:00 às 5:30 da
tarde’. Nas sociedades indígenas, o ensinar e o aprender são ações mescladas, incorporadas a rotina do dia a dia, ao trabalho e ao lazer e não
estão restritas a nenhum espaço específico. A escola é todo espaço físico da comunidade. Ensina-se a pescar no rio evidentemente. Ensina-se
a plantar no roçado. Para aprender, para ensinar, qualquer lugar é lugar,
qualquer hora é hora...
Mas, no que se refere à geração de ideias matemáticas que nos são
evidenciadas nos artesanatos ou em outras atividades laborais, o indígena
não está preocupado em transmitir para as crianças que o observam em
sua arte qualquer conhecimento, além daquele da tradição e manutenção
de sua cultura, sendo esta uma das formas de identificação, diferenciação e
caracterização de cada etnia brasileira. A esse contexto saberes da tradição
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
213
e a geração a nosso ver de ideias matemáticas, geométricas, história, cultura
etc., que de acordo com Gerdes (1991, p. 22), [...] “quer ele/ela queira ou
não. Inicialmente ele não terá, talvez, consciência da ideia de simetria, mas
em todo o caso o desenvolvimento do conceito de simetria já começou”.
Dessa perspectiva e imersa em tantos conhecimentos próprios, cujo
contato com a sociedade não indígena não foi capaz de aculturar tamanhos
conhecimentos da tradição de um povo, entretanto, não vale afirmar que
estes saberes não tenham passado por processos de enculturação. Haja vista
que o contato, seja ele intracultural intercultural, favorece aquisição de novos conhecimentos que muitas vezes estão sendo incorporados paulatinamente aos já vivenciados e apreendidas anteriormente durante o processo
de formação da identidade étnica do povo.
Todavia são esses e outros saberes e fazeres dos indígenas Xerente que
nos instigam a pensar o ensino da Matemática, a formação dos professores,
sendo estes os investigadores de sua cultura tradicional. Assim, buscamos
juntamente com os professores Xerente da Escola Indígena Srêmtôwẽ, Aldeia Porteira, o diálogo e a reflexão acerca da possibilidade de uso em sala
de aula dos artefatos, ou seja, dos artesanatos em questão.
A princípio, delineamos algumas ações tanto didáticas como pedagógicas com professores para que eles pudessem realizar a pesquisa de campo,
pois não nos interessava apenas os conceitos matemáticos presentes nos
artesanatos, mas a história, a importância dos artesanatos, além da cultura,
como também a geração e produção destes como um meio de subsistência.
Detemos em investigar se ocorreu alguma mudança na confecção destes,
quais são as matérias-primas utilizadas, considerando a natureza como a
principal fonte dos recursos materiais de confecção dos artesanatos, e, por
fim, a transmissão oral destes saberes, como vem se dando as gerações presentes e futuras de Xerente.
Deste modo, saímos a campo com a intenção de investigar o não investigado, de registrar o não registrado, de tornar visível o invisível, entre
outros, que pudessem contribuir de algum modo com elementos da cultura
favoráveis ao processo de ensino e aprendizagem em Matemática e demais
disciplinas da estrutura curricular.
De posse das respostas das perguntas de pesquisa descritas anteriormente, passamos à análise dos dados coletados (ver figuras 1, 2, 3 e 4).
Para tanto, adotamos a pesquisa qualitativa e suas técnicas, assim, traçamos
algumas ações didáticas para que os professores posteriormente pudessem
desenvolvê-las com seus alunos.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
214
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
Da análise da produção dos artesanatos tanto os de capim dourado
como os de palha de buriti, optamos por realizar juntamente com os alunos uma descrição dos mesmos. Partindo da natureza, ou seja, de onde se
encontra e extrai as matérias-primas para a confecção destes, o seu uso e
manuseio, considerando a escassez futura do produto em questão.
Em seguida, procuramos enfatizar a importância dos artesanatos que,
em tempos passados, eram usados como utensílios domésticos, em que os
indígenas guardavam alimentos, objetos de uso pessoal, ferramentas, ervas
medicinais e, muitos destes, por exemplo os cofós, serviam também como
meio alternativo de transportar os objetos adquiridos nas cidades circunvizinhas às aldeias.
As descrições dos artesanatos apontam entre estes e outros caminhos
a serem trilhados pelos professores em direção a um fazer diferenciado em
sala de aula por meio da revitalização e constituição de tantos outros saberes e fazeres Xerente que ora adormecem no espaço e no tempo da cronologia dos indígenas.
A esse contexto de saberes tradicionais que nos reportamos à escola e ao seu papel social, político e de formação de cidadãos, em especial
a escola indígena que tem como cerne de discussão e reflexão a geração de conhecimentos formalizados. Entretanto, ressaltamos ainda que
a escola é um ambiente favorável para a reconstituição e disseminação
de saberes que se constituem por meio da agregação entre o novo e já o
conhecido.
O Programa Etnomatemática percebe seus encaminhamentos filosóficos e educativos, pautados em conhecimentos científicos e conhecimentos
advindos das práticas culturais dos mais diversos grupos socioculturais.
Assim este Programa [...] oferece aos professores e aos educadores as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de um trabalho pedagógico
direcionado (ROSA, OREY, 2006, p. 33).
Contudo, a abordagem didática a ser dada ao uso em sala de aula dos
saberes e fazeres da tradição de um povo deverá ser uma construção coletiva e eletiva entre os envolvidos com o processo educativo, cabendo eles
articularem-se de forma consciente e harmônica entre os saberes da tradição e os conhecimentos instituídos de modo a beneficiar novas formas
de conhecer e de fazer acontecer a melhoria na qualidade do ensino que
certamente viabilizará o redimensionamento da ação didática e pedagógica
dos professores e com isso da escola em contextos indígenas, cumprindo,
dessa maneira, o seu papel social e educativo.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
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Magistério Indígena: uma ação favorável ao ensino de Matemática
O magistério indígena é uma ação de formação dos professores indígenas de responsabilidade social e política da Secretaria Estadual de Educação e Cultura do Estado do Tocantins/SEDUC, cujo objetivo é formar o
indígena professor para atuar nas séries iniciais da Educação Básica.
O curso de formação dos professores indígenas ocorre nos meses de
julho e janeiro (períodos estes de férias dos professores). O curso atualmente é realizado na cidade de Paraíso do Tocantins. Durante o curso as
disciplinas são ofertadas de forma modular, de modo que os professores
possam cursar todas as disciplinas previstas no curso e sem causar prejuízo
de carga-horária para os alunos.
Nossa atuação no curso de magistério indígena ocorre como formadora
dos indígenas professores na área do ensino de Matemática, no qual buscamos efetivar um ensino de Matemática aliado às vivências dos professores em
sala, considerando suas experiências, seus anseios, suas necessidades e suas
dificuldades em relação à didática, em especial no que tange ao uso das práticas culturais indígenas e o conteúdo da Matemática escolar. Tal caracterização se dá ao fato de que os professores indígenas almejam em suas práticas
educativas o congregar dos saberes tradicionais indígenas em sala de aula.
Pensar a formação do indígena professor a partir de suas necessidades
didáticas e pedagógicas é voltar o olhar para a constituição e concepção do
saber indígena no seu próprio contexto de aldeamento e as vias do fazer da
sala de aula da escola indígena, haja vista que
[...] é extremamente importante reconhecer que os povos indígenas
mantêm vivas as formas de educação tradicional, que podem contribuir na formação de uma política e prática educacional adequada,
capaz de atender aos anseios, interesses e necessidades diárias da realidade hoje. [...] onde a relação entre os conhecimentos tradicionais
e os novos conhecimentos poderão se articular de forma equilibrada
(SILVA, 2002, p. 113-114).
Por isso, torna-se extremamente importante considerar e respeitar os
desejos e anseios dos professores no que tange a sua formação inicial e continuada, estes sim, tem sido um dos principais objetivos que temos buscado
concretizar ao longo dos anos de atuação no curso de magistério indígena
e de formação continuada dos professores indígenas.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
216
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
Reportando-nos às atividades do curso de magistério indígena temos
desenvolvido ações didáticas e pedagógicas com os professores dos povos
Krahô e Krahô Kanela, Xerente, Apinajé, Karajá da Ilha e de Xambioá e
Javaé. Assim, no início de cada módulo, buscamos junto aos alunos professores conhecer as suas ações educativas e as suas dificuldades, tanto
metodológicas quanto de cunho conceituais, no que tange aos conteúdos
matemáticos. Esse momento é promovido por meio dos relatos e diálogos
que são constituídos entre os professores indígenas e nós, os formadores.
A riqueza destes momentos está na fala dos professores, como, por exemplo, ao dizerem:
Nossas escolas são diferentes das escolas da cidade, aqui tem muitos
materiais (livros, computadores, energia...), Em muitas de nossas Aldeias as escolas são de palhas, falta material (caderno, merenda escolar...). Por isso estamos aqui para aprender novas coisas para ensinar
para as nossas crianças indígenas. [...] A matemática é muito importante e nós não sabemos como lidar com ela, muitos de nós não sabe fazer
contas. O livro de matemática é o mais difícil, por isso o usamos muito
pouco na escola.
E, são a partir das reflexões dos professores que as tomamos como respostas aos nossos questionamentos e passamos então a atuar diretamente
com eles, tendo-os como os sujeitos do ensino e da aprendizagem, ou seja,
os professores indígenas são envolvidos como pesquisadores de sua própria
formação inicial, “[...] como criador de estratégias didáticas com base em
seu saber, em elementos de sua cultura, expressos segundo sua própria visão de mundo, sua sensibilidade e criatividade” (CORRÊA, 2004, p. 331).
Dessa forma, a cada atividade que propomos tomamos como referência o conteúdo matemático e juntamente com os professores buscamos as
interações e conexões entre os aspectos culturais próprios e os conhecimentos ora apreendidos, por meio do contato com o não-indígena e com
professores indígenas de outros povos que frequentam o mesmo curso de
formação. Isso nos induz a caminhar rumo à ação pedagógica alicerçada
na interculturalidade e na intraculturalidade, de tal modo que os alunos
professores possam, “[...] representam o potencial criativo da espécie”
(D’AMBROSIO, 2004, p. 42).
De modo a despertar o interesse e a criatividade do indígena professor,
buscamos na realização das atividades de ensino a expressão da identidade
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Elisângela Aparecida Pereira de Melo
217
cultural por meio de elementos que viessem a configurar os conteúdos matemáticos estudados. Por exemplo, quando o conteúdo ensinado se referia
a sistemas de medidas, solicitávamos aos professores que discutissem entre
si e posteriormente descrevessem os seus sistemas de medidas tradicionais.
Na sequência da atividade, propiciávamos um momento para que registrassem suas informações, promovendo situações para que, a partir destas
criassem e recriassem outras atividades em suas aulas com os seus alunos.
Na socialização das informações, os professores resolviam os exercícios propostos e criavam e recriavam seus exercícios. Em muitos destes que
se observam por meio da ilustração a seguir a forma de evidenciar os seus
etno-conhecimentos.
Fotos 5 e 6: Atividades realizadas no Curso de Magistério Indígena em julho de 2010.
Imagem: Elisângela Melo
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
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Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
A elaboração, a constituição e a realização destas e a outras atividades tiveram como objetivo proporcionar a leitura didática e pedagógica de
saberes da tradição que se constitui na visão de mundo do indígena, por
meio da cosmologia, da simbologia, da história de vida, da formação do
ser indígena em uma sociedade étnica e de interação com o outro, pois,
por meio destas se observa geração de conceitos/ideias matemáticas que se
configurou nas ilustrações e na socialização da atividade realizada.
É nesse campo de interação de conhecimentos que se destaca o real propósito da escola, em especial da escola que deve entre outros o congregarem da
diversidade em que vivem os alunos e a própria comunidade indígena, por meio
da interação com a cultura, com a tradição, com a educação indígena ou escolar,
com outros indígenas ou com indivíduos não indígenas, cabendo, então,
[...] a escola como transmissora do conhecimento oficial, e a tradição,
como detentora de um saber milenar, prova nos sujeitos o direito a outras
verdades, sem, necessariamente, negar a verdade contrária para se afirma.
[...] O estabelecimento de um intercâmbio entre esses saberes e o conhecimento científico, disseminado pela escola, constitui-se em uma das novas
vertentes pelas quais se nutrem as discussões teóricas que apostam em uma
ciência da complexidade, aberta e mais dialogal (FARIAS, 2006, p. 22-23).
A análise das atividades desenvolvidas ao longo de nossa atuação no
magistério indígena e em cursos de formação continuada que se pode observar a riqueza do quão são expressivas as manifestações indígenas e que
tais manifestações emergem como fonte de pesquisa para o indígena professor e que certamente favorecerá uma reorientação por parte da escola
como um todo rumo a uma nova ação didática e pedagógica daqueles efetivam a educação escolar indígena específica e diferenciada.
A Investigação Matemática nas Escolas Indígenas Apinayé
de Mariazinha e São José
No presente momento estamos investigando as práticas culturais do
Povo Indígena Apinayé, em especial os professores e alunos, por meio de
um projeto de extensão2 que tem por objetivo a formação do indígena pro2 Com o título “O Ensino de Matemática nas Escolas Indígenas Apinayé Mariazinha e São
José na Perspectiva da Etnomatemática”, coordenado pela Profa. Elisângela Aparecida
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
219
fessor em contexto próprio. Este projeto foi idealizado com base em minha
atuação como colaboradora do “Projeto Observatório da Educação Escolar
Indígena3”, na área do ensino da Matemática.
As atividades delineadas para as nossas ações neste projeto estão voltadas para a extensão e cultura e visam, entre outros aspectos, propiciar ao
indígena professor uma sustentação teórica em sua formação pedagógica e
didática, por meio de estudos e pesquisa em Educação Matemática e Etnomatemática, a partir do ensino da Matemática, tendo por base a educação
escolar indígena, sendo esta permeada pelo bilinguismo, a interculturalidade, a intraculturalidade e a cultura indígena em sala de aula.
Mas, para que possamos proporcionar ao indígena professor a interação entre suas práticas culturais, a sua formação e a sua atuação em sala
de aula e, em especial, o ensino da Matemática em contexto sociocultural
de aprendizagem, faz-se necessário conhecer o outro, no caso deste estudo,
os Apinayé, no tempo e no espaço, considerando nesse contexto a própria
constituição deste povo.
Assim, tomamos como referência os estudos e pesquisas que vêm sendo realizadas por Albuquerque (2007; 2008), que há mais de 12 anos vem
atuando em Projetos de Apoio Pedagógico à Educação Apinayé.
Os Apinayé estão localizados em terras indígenas, no município de
Tocantinópolis, estado do Tocantins. Pertencem ao tronco Macro-Jê e à família linguística Jê, falada por aproximadamente 1 800 pessoas, são bilíngues e mantêm com vitalidade seus hábitos e costumes tradicionais, mesmo
com a imposição cada vez mais acirrada imposta pelo contato direto com
os nãos indígenas, como descreve Albuquerque (2007, p. 212):
Ao longo dos anos de contato com a sociedade envolvente, os povos
Apinayé vêm tentando manter-se enquanto comunidade minoritária,
enfrentando conflitos tanto de ordem social quanto linguística, religiosa e cultural. Mesmo diante de tal situação, os Apinayé têm aumentado
suas aldeias e consequentemente a sua população.
Os Apinayé são organizados socialmente pelo dualismo, ou seja, por
meio de duas metades cerimônias ou clânicas Kooti e Koore que se complePereira de Melo. Ação cadastrada na Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos
Comunitários, registrada com o código PE.EDU.096.07.32-2010.
3 Projeto Coordenado pelo Prof. Dr. Francisco Edviges Albuquerque, Colegiado de Letras,
Universidade Federal do Tocantins/UFT – Campus de Araguaína.
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
220
Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
tam no próprio movimento e ritmo dos Apinayé, tendo em si o sol e a lua
como elemento de criação, conforme indica Albuquerque (2007, p. 217),
De fato, para os Apinayé, o sol e a lua são as duas entidades que criaram
o universo e a humanidade, quando resolveram descer para a terra que
estava imersa no caos. Entretanto, os Apinayé sempre se referem ao sol
como o principal elemento. Foi ele quem teve a iniciativa de vir para a
terra e é ele quem, geralmente, tem a primazia nas ações do mito que
relata a criação do universo.
A partir destes e em conformidade com a atuação didática e pedagógica do professor e pesquisador Albuquerque junto às comunidades Apinayé, cujo cerne de estudo e proposição está na contribuição da “revitalização da Língua e da Cultura das comunidades Apinayé, e educação bilíngüe
intercultural, que envolve toda a sociedade indígena” (ALBUQUERQUE,
2008, p. 72).
Neste processo de constituição e formação da ação didática são também ponderados os limites ora impostos pela própria situação dinâmica
do povo e do contato, mas, estes não são determinantes, como afirma o
próprio autor:
[...] mesmo diante de conflitos de ordem sócio-histórica, cultural e
econômica, as comunidades Apinayé vêm resistindo a tudo isto, numa
tentativa de manter vivas sua língua e sua cultura. E a escola tem sido
um domínio social muito importante, onde essas comunidades vêm
discutindo os seus problemas e tentando, através dos processos de leitura e escrita, resgatar seus processos culturais, com a escrita do material didático realizada pelos próprios professores índios, com a participação efetiva dos alunos e da comunidade, em especial, dos índios
mais velhos, contando seus mitos e suas histórias (ALBUQUERQUE,
2008, p. 73).
Nessa perspectiva e em consonância ao delineamento do “Projeto do
Observatório de Educação Escolar Indígena”, temos corroborado com os
professores no que tange ao ensino de Matemática via o uso da manifestação cultural e tradicional do Povo Apinayé em sala de aula. Tal contribuição
visa possibilitar tanto aos professores como aos alunos um olhar educativo em relação às suas práticas socioculturais, as quais são transmitidas de
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
221
geração a geração por meio da oralidade e da representação simbólica e
vivenciadas cotidianamente nas Aldeias.
Deste modo estamos colaborando com os professores e alunos das
Escolas Indígenas Apinayé Mariazinha e São José, uma vivência entre os
saberes e fazeres tradicionais indígenas e os conceitos matemáticos ora
apreendidos no ambiente da sala de aula, na perspectiva da Etnomatemática. Tal ação é norteada por meio de estudos, pesquisas e da realização de
oficinas temáticas, a partir das investigações realizadas pelos professores no
contexto de suas Aldeias.
As Ações de Extensão e Cultura nas Escolas Indígenas Apinayé
de Mariazinha e São José
Objetivando promover o diálogo e o estabelecimento de ações que
possibilitem aos professores redimensionarem a sua prática pedagógica e
didática no tocante ao ensino da Matemática, tomando como referência os
princípios que norteiam a Educação Escolar Indígena, assim se faz necessário conhecer e reconhecer os valores socioculturais, as práticas e os saberes
dos professores, para que possamos não apenas identificá-los, mas, principalmente, problematizá-los. Dessa maneira delinearemos uma proposta de
ensino em conjunto com os mesmos.
Enfatizamos ainda que, nesta proposta, contemplaremos o diálogo, o
respeito, os quereres, as vontades, as dificuldades, as comunidade, as escola,
os alunos e a tradição cultural, pois, de acordo com Gerdes (2002), p. 222),
“o processo de estudar as suas ideias em contextos culturais diversos permite aprofundar o entendimento do que constitui a atividade matemática.
O pensamento matemático só é inteligível ao adotarmos uma perspectiva
intercultural”.
Com essa intencionalidade, as ações de extensão e cultura são desenvolvidas em três momentos diferentes, porém convergentes entre si. Assim,
em um primeiro momento, realizamos reuniões nos espaços do Laboratório de Línguas Indígenas, Câmpus Universitário de Araguaína/UFT. As
reuniões são coordenadas pela professora coordenadora, juntamente com
os acadêmicos participantes do projeto4. Nessas reuniões, traçamos nossas linhas de trabalhos, ou seja, selecionamos os textos para serem lidos e
4 Márcia Ferreira da Silva; Fabiane Martins Lima e Haylla Rodrigues de Aguiar.
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Etnomatemática e Investivação Matemática em Contextos Indígenas
discutidos com os professores, elaboramos as oficinas a partir de temas ou
conteúdos indicados pelos professores e, por fim, realizamos as análises do
material didático desenvolvido com os professores e alunos indígenas.
O segundo momento se caracteriza pela visitação in loco às Aldeias
Mariazinha e São José, onde realizamos pesquisa de campo, de modo a elencar elementos da cultura Apinayé que possam favorecer a relação de ensino e
aprendizagem. Conversamos com os professores registrando as suas dificuldades, limitações, anseios e desejos e, com base nessas informações, estruturamos as oficinas que estamos realizando atualmente com os professores.
O terceiro momento está mais direcionado a ações de cunho didático
e pedagógico, realizadas nos espaços das escolas indígenas, com a participação dos professores indígenas, alunos e demais pessoas da comunidade
interessadas em participar, como ouvintes ou contribuindo no tocante aos
usos dos saberes e fazeres Apinayé em sala de aula.
Certamente que todos os momentos são importantes para a execução
do projeto, mas devemos ressaltar que tem sido no terceiro momento que
temos notado a efetiva participação da comunidade no projeto e no seu
desenvolvimento. Percebemos que, durante as atividades propostas, muitos
participantes da pesquisa buscam respostas para as suas dúvidas, procurando um ancião ou outra pessoa para sanar tais questões.
Interessante também destacar que, durante os momentos de realização das oficinas realizadas nas aldeias, observa-se o quanto os professores
compartilham suas dificuldades e aprendizagem em relação aos conteúdos
ensinados, evidenciando, assim, a interação despertando-os para que sejam
eles próprios os pesquisadores de sua cultura e formação inicial.
Notamos ainda que, por meio destas e de outras ações desenvolvidas
em diferentes contextos de aprendizagem, ocorre a construção de novos
conhecimentos, a agregação de saberes escolarizados ou instituídos aos
empíricos, a revitalização de saberes e fazeres que estejam adormecidas no
tempo e no espaço do mundo do indígena. Esse processo de educação escolar desperta também o interesse e a criatividade do indígena professor
na realização das atividades de extensão as quais foram e ainda estão sendo
propostas, com a participação direta deles.
Das Análises Preliminares: Alguns Encaminhamentos
As análises são realizadas em todas as etapas de investigações descritas anteriormente, de forma qualitativa e quantitativa, desde a organização
A Educação Escolar Apinayé na Perspectiva Bilíngue e Interculural
Elisângela Aparecida Pereira de Melo
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das atividades, sendo pontuado, analisado e ponderado o grau de dificuldades na execução por parte dos envolvidos, o ritmo e o tempo dos indígenas na assimilação e na compreensão dos textos e no desenvolvimento das
oficinas.
São também analisadas, discutidas e refletidas as atividades elaboradas e desenvolvidas no contexto das escolas indígenas, no desenvolvimento
das atividades didáticas do curso de magistério indígena, de modo a sabermos se os objetivos propostos estão sendo atingidos pelos participantes
e o que precisa ser alterado ou ajustado para que todos tenham uma real
captação do que está sendo solicitado.
Além destas, temos procurado realizar uma avaliação reflexiva com
os envolvidos para que tenhamos conhecimento das suas necessidades no
que se refere à proposição de novas ações educativas, não só para o ensino
da Matemática, mas para que estas sejam evidenciadas e discutidas nos espaços da sala de aula, de forma articulada e interdisciplinar entre o ensino
formalizado e saberes e fazeres tradicionais indígenas, bem como da formação do indígena professor.
De igual modo temos buscado, em cada encontro com os professores
indígenas, seja no Curso de Magistério Indígena ou nos contextos das Aldeias Xerente e Apinayé, motivar os professores para a investigação da diversidade cultural que os cercam e se apresenta como uma riqueza infinita
de pesquisas, em que diálogo entre o ensino da matemática na perspectiva
da etnomatemática e da Educação Escolar Indígena poderá ser cada vez
mais estabelecido e ampliado.
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