1 POLÍTICA AMBIENTAL: UMA GESTÃO LOCAL DE ORGANIZAÇÃO (TOLEDO-PR). Eugênia Aparecida Cesconeto* Este trabalho pretende apresentar um programa social, denominado Programa Câmbio Verde/Lixo Útil, parte de uma política pública que busca articular a resolução de problemas urbanos, a redução da degradação ambiental e a geração de emprego e renda. De forma geral, a pobreza aparece como um fator de degradação ambiental, uma vez que apenas uma fração da população é altamente poluidora, pois se aproveita dos recursos naturais para comer, mora perto do lixo ou não cuida do lixo, da higiene, etc, excluindo assim os agentes produtores da responsabilidade pela produção da destruição. Uma proposta contemporânea na modalidade de gestão dos resíduos sólidos é a necessidade da parceria do Estado com a sociedade civil como forma de enfrentamento dos problemas sociais colocados. O principal desafio é criar condições para assegurar qualidade de vida suficiente para ser considerada aceitável, não interferindo negativamente no meio ambiente e no seu entorno. Pensar e analisar um programa social que expressa modernidade, inclusão, desigualdades e exclusão sociais é o esforço que essa aproximação procura expressar. Ao conhecer um pouco da complexidade do desenvolvimento social das sociedades do tempo presente, sem perder de vista que tais processos sociais parecem instituir segundo princípios que tanto constroem a coexistência contraditória da emancipação humana com desigualdade e integração social, como, ao mesmo tempo, engendram mecanismos de regulação social para a administração dessa desigualdade e dessa exclusão social próprias ao modo de desenvolvimento capitalismo. Palavras Chaves: Política Pública, Meio Ambiente, Pobreza INTRODUÇÃO O lixo tem uma vinculação direta com o que não serve mais, com o insalubre, com o sujo, com as epidemias e com a contaminação, aspectos que ultrapassam os limites espaciais e atingem toda a sociedade. A higienização avança com a organização das cidades, como uma estratégia dos poderes constituídos no Estado Moderno, principalmente, por ter como pano de fundo a questão sanitária. Os hábitos e as condutas familiares e * Professora do Curso de Serviço Social da UNIOESTE/ campus de Toledo, Mestre em História Social pela UFF, membro do Projeto de Pesquisa: Estudo dos indicadores de qualidade ambiental - conceitos e aplicações no Projeto de Controle da Contaminação Ambiental decorrente da Suinocultura no Estado do Paraná. Regiões Oeste e Sudoeste do Paraná. (Componente: Gestão Integrada de Ativos Ambientais – Programa Nacional do Meio Ambiente – PNMA II). Coordenação : Dra. Marli Renate Von Borstel Roesler. Rua Gal. Daltro Filho, 999A, Jardim Gisele. CEP: 85905-320, Toledo – Pr. Fone: 45-3785897. e-mail: [email protected] . 2 sociais estabelecem socialmente o lugar de cada um. As diferenças vão aos poucos sendo demarcadas pelo ideário de higiene, expressa sob a forma de limpeza, ordenação e classificação dos sujeitos e do espaço no qual estão inseridos, apartando, especialmente o limpo e o sujo. O ESPAÇO URBANO E A POBREZA O medo social inclui-se também na noção de exclusão social. Pela vigilância constante da demarcação da diferenciação da classe superior e inferior; esse medo esta “não somente no status, mas também na fala, nos gestos, nas distrações e nas maneiras”. [...] Os receios mergulham em parte, embora nunca inteiramente, nas zonas inconscientes da personalidade, delas reemergindo apenas em forma modificada, como automatismos específicos de autocontrole”(VIGARELLO, 1996). A legitimação do lugar de cada um é marcada pelo controle social, tanto interno como externo. Nessa legitimação, a prepotência, a exploração selvagem das relações de trabalho, o autoritarismo das relações de mando, a violência, o desrespeito aos direitos civis e políticos que acabam por demarcar espaços segundo um imaginário que fixa a pobreza como sinal de inferioridade e de risco social. As representações formam um código normativo de condutas que guardam muitas tensões e auto-exclusão, mas também semeiam muitas de outros significados. Segundo Vigarello (1996), o raciocínio econômico leva a uma transformação da higiene dos grupos e comunidades, caracterizando o gesto de uma organização sanitária. A prevenção começa a depender de práticas políticas, integrando aos poucos a limpeza, a ponto de atribuir-lhe um papel de salubridade pública, que até então ela não tinha. A exclusão social se constrói com a imagem dos corpos limpos e sujos. O mundo muda, mesmo quando para algumas pessoas parece ter parado. Se as novas regras sociais conferem novos sentidos às práticas e representações sociais, os comportamentos vão sendo transformados em ritmos e em tempos históricos diferentes; 3 nem sempre mudam velhos valores e atitudes e nem sempre novos são incorporados, daí tanta estranheza na distância de que nos fala Ginzburg1. A vida urbana torna-se cada vez mais complexa na medida em que concentra espacialmente as pessoas, com o agravamento das condições de higiene; em algumas situações, o ambiente torna-se insuportável. A palavra higiene2, passa a ocupar um lugar inédito: “os manuais que tratam de saúde mudam de título. Todos, até então, concentravam-se no cuidado ou na conservação da saúde. Todos definem seu terreno através dessa denominação antes pouco usual”. Um campo se especializou, a medicina contando com os vínculos estabelecidos com a fisiologia, a química, a história natural, insistindo em suas pertinências científicas, propiciaram um novo status a esse saber. Enquanto não foi associada à desordem , a sujeira não incomodava já que, não representava um perigo. Logo que associado às epidemias, o lixo, automaticamente, passou a ser encarado como impuro e vinculado à morte. Nesse sentido, transgredir as normas de higiene passa a representar uma ameaça ao padrão de ordem social estabelecido. Portanto, os hábitos populares em relação ao lixo, desde muito tempo, têm representado uma ameaça à nova ordem; é necessário, pois, eliminar as impurezas para organizar o ambiente. Esta organização supõe, segundo os administradores e médicos, limpeza, ordenação, classificação. POLÍTICA AMBIENTAL EM TOLEDO Quanto ao saneamento, esgoto e limpeza pública, pode-se dizer que o município de Toledo não teve uma preocupação inicial com os “usos sujos” da cidade: os esgotos domésticos, os dejetos humanos, as galerias pluviais, o lixo (recolhimento e armazenamento), etc. 1 Sobre estranhamento: GINZBURG, Carlo. Olhos de Madeira. Nove reflexões sobre a distância. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 2 Segundo VIGARELLO (1996, p.186), a palavra higiene “já não é o adjetivo que qualifica a saúde (hygeinos, em grego, significa “o que é são”), mas o conjunto de dispositivos e saberes que favorecem sua manutenção. É uma disciplina específica dentro da medicina. É um corpo de conhecimentos e não mais um qualitativo físico”. 4 O lixo, até final da década de sessenta, era responsabilidade individual; os moradores queimavam, enterravam ou jogavam em monturos nos terrenos baldios. Com a institucionalização do Serviço de Limpeza Pública do Município3, a área central da cidade passou a ser atendida por caminhões caçamba comuns. Em 1976, foi adquirido um caminhão compactador, ampliando lentamente o serviço público. O armazenamento era feito de forma rudimentar; o lixo era despejado na orla da Avenida Parigot de Souza, próximo ao hoje denominado Parque Ecológico Diva Paim Barth e próximo ao Recanto Municipal, sem nenhum tipo de tratamento. Em 1988, ampliou-se o número de equipamentos para limpeza de ruas (varredora e coletora) e demarcou-se o local destinado ao processo de decomposição do lixo – lixão a céu aberto, nas proximidades do Recanto Municipal, área destinada às indústrias poluentes do município. O aterro a céu aberto permite a catação marginal, normalmente às pessoas moram no próprio local do aterro ou regiões próximas em condições precárias, estão em contato direto com o lixo e, conseqüentemente susceptíveis a toda sorte de endemias. Muitas vezes, se vêem até “mulheres grávidas no local do aterro e também crianças se alimentando de restos de laranjas, salsichas, pães e manipulando materiais como seringas, ampolas de sangue, etc.” (GIACHINI, 1990). A produção diária de lixo domiciliar totaliza, em 1990, 40 toneladas, com a seguinte composição: papel e papelão 14,45%, vidro 4,46%, plástico 10,12%, trapo 3,96%, metais ferrosos 2,21%, metais não ferrosos 0,35%, latas 12,83%, madeira 3,89%, borracha 4,55%, matéria orgânica 37,13%, ossos e outros materiais 6,05%. O lixo tóxico vem causando sérios prejuízos ao meio ambiente; os agricultores têm sido informados ao longo dos anos dos cuidados que devem ter com esse material (Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SDU), 1990). Em 1992, a Secretaria da Agricultura e Meio Ambiente redimensionou o sistema de recolhimento do lixo, com a definição de novas rotas e horários de passagem dos caminhões coletores, visando a racionalização dos custos e adequação do serviço às reais 3 O Serviço de Limpeza Pública do Município foi instituído “pela Lei nº 517, de 19 de setembro de 1969”. Prefeitura Municipal de Toledo, Assessoria Jurídica, 2001. 5 necessidades da população, contando com os seguintes equipamentos: “4 novas prensas, 2 novos caminhões, 1 furgão, 20 containers e 100 carrinhos” (Revista Toledo,1992). Esta preocupação com o meio ambiente não é uma posição isolada, pois a nível internacional já vinha sendo discutida durante a década de sessenta, sob a responsabilidade de instituições como Organização das Nações Unidas - ONU, Banco Interamericano de Desenvolvimento - BIRD e das Organizações Não-Goveramentais - ONGs ambientalistas.Em 1973, foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), também conhecido pela sigla UNEP (United Nations Environment Programme), com o objetivo de coordenar as ações ambientais dos diversos organismos ligados à ONU e realizar diversas conferências mundiais. A decisão de realizar a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ficou conhecida popularmente como ECO-92. Discutiram-se os tratados sobre as alterações climáticas e sobre a biodiversidade, firmou-se a declaração sobre a proteção às florestas, a Carta da Terra e a Agenda 21: a partir daí deflagram-se as discussões em vários países. A Agenda 21 define áreas pragmáticas de ação; pretendendo tornar viável a implementação desses objetivos, foram acordados os termos das respectivas versões nacionais e locais da Agenda 21. Assim, cada país traçaria as ações que viabilizassem simultaneamente o uso sustentável dos recursos naturais disponíveis e as relações econômicas compatíveis com esta sustentabilidade, de acordo com sua realidade, levando em conta questões políticas, de desenvolvimento e econômicas, implementadas através de parcerias entre a sociedade civil e o Estado (Agenda 21, 1992). O problema ambiental urbano passa a ter centralidade nas administrações governamentais, sobretudo dos países, pobres, uma vez que a pobreza, associada à urbanização acelerada e desordenada, gera condições ambientais locais graves para os pobres urbanos. Percebe-se que a preocupação central recai sobre a necessidade de um meio ambiente urbano ecologicamente saudável. A questão urbana apareceu como um desequilíbrio gerado pela insuficiência do crescimento econômico, daí estabeleceu-se a necessidade de se desenvolver políticas compensatórias, aumentando a eficiência dos sistemas econômicos e corrigindo desequilíbrios sociais. 6 No Paraná, o governo Jaime Lerner, implantou o Programa Paraná Ambiental, e assinou convênios com 200 prefeituras entre os quais Toledo se fez presente. O programa era composto de um conjunto de medidas que previa o reflorestamento de áreas devastadas, recuperação de fundos de vale, separação do lixo reciclável (lixo que não é lixo e Câmbio Verde), criação de aterros sanitários e implantação de hortos municipais. O município de Toledo incorporou parte das medidas propostas pelo governo do Estado, entre elas o Projeto Plantar, a Recuperação do Rio Toledo, o Toledo Rural (readequação e cascalhamento das estradas do interior, construção de bueiros, construção de pontes), a habitação popular e o lixo útil. A preocupação com o meio ambiente mobiliza não só o poder público, mas também empresas privadas que procuram conjuntamente equacionar o problema. As ações marcham a passos lentos frente ao desenvolvimento sustentável que se almeja. Em 1994, o Aterro Municipal4 adotou o sistema de aterro sanitário controlado, juntamente com o Programa Caminhão de Coleta Lixo Útil e de Troca o Câmbio Verde, que, baseado em experiência de outros municípios brasileiros, objetivava a troca de material reciclável por hortifrutigranjeiros. A deposição final dos resíduos sólidos domésticos é feita através de aterro controlado com recobrimento do lixo feito semanalmente. Entende-se que esta não é a melhor maneira, ou o melhor tratamento final para o lixo. O aterro, além de ocasionar perdas de área, acarreta problemas de poluição ou de contaminação do lençol freático. Há ainda dois fatores que devem ser levados em consideração: se o aterro, não for bem controlado, favorece a proliferação de vetores, tais como ratos, moscas, baratas e etc.; se a espécie humana continuar a desperdiçar tanto, corre o risco de tornar o planeta inabitável, cedendo lugar e competindo com o lixo por ela produzido. O Programa Câmbio Verde foi implantado inicialmente em Curitiba, com o objetivo de promover a troca de lixo reciclável por alimentos. Normalmente, quatro quilos de lixo davam direito a dois quilos de alimentos. 4 Segundo a engenheira química Cláudia Ribeiro dos Santos, existem três modalidades para depósito de lixo: “lixão a céu aberto, onde desempregados catam restos; aterro sanitário controlado e aterro sanitário com cobertura diária do lixo”. Cf. SEM crianças, lixão de Cascavel é modelo. Jornal o Paraná, Cascavel, 10/10/1999, p.9. 7 Em Toledo, o Programa Câmbio Verde, incorporou as diretrizes propostas pelo programa estadual. Coordenado pela Secretaria Municipal de Ação Social e Cidadania, em 1994, teve por objetivo incentivar e promover a troca de lixo reciclável por alimentos (hortifrutigranjeiros). Um ônibus da Prefeitura foi adaptado para carregar os produtos, deslocando-se até os bairros; 16 foram beneficiados, geralmente, chegava às sedes das associações de moradores, onde aguardava os moradores para proceder à pesagem e a troca, duas vezes por semana: “para cada quatro quilos de lixo, os moradores tinham direito a uma sacola com meia dúzia de ovos e cerca de 800 gramas de batata. A média chegou a quase cinco sacolas por família” (Revista A Imprensa, nº 42, 1996, p.9). Os objetivos do Programa Câmbio Verde definiram-se como: conscientizar a população sobre a importância da reciclagem do lixo como meio de preservação do meio ambiente; promover a separação dos lixos recicláveis nos locais de troca, evitando o recebimento de materiais indesejáveis; propiciar a melhoria das condições ambientais e sanitárias; induzir a população às mudanças de hábitos alimentares, proporcionando enriquecimento nutricional; integrar o cidadão na solução dos problemas ambientais da comunidade”5. Em março de 1996, o “Programa já contava com 3.700 famílias castradas”; um funcionário da prefeitura anotava as informações sobre a quantidade de lixo numa carteirinha6 de identificação individual, juntamente com o número de sacolas de alimentos a que cada uma tinha direito. Os moradores da Vila Paulista e bairros próximos “recolheram mais de sete toneladas de lixo reciclável”, motivo pelo qual divulgou-se matéria na imprensa como feito da administração pública. Consta ainda o depoimento de alguns moradores elogiando o programa, “cerca de 400 famílias participaram desse dia de troca”. [...] “apesar do tempo de espera na fila, os moradores (homens, mulheres e crianças) aguardavam com expectativa” (Jornal Gazeta de Toledo, nº 29,1995, p.5). 5 Estes objetivos constam no projeto “Implantação – gestão de qualidade participativa. Prefeitura Municipal de Toledo”, Secretaria de Assistência Social, 1995. 6 A carteirinha é uma forma burocrática de controle dos usuários do programa, bem como para o seu melhor funcionamento. Contém os seguintes dados: nome do participante, endereço, associação (hoje postos de troca), data da troca, quantidade de lixo entregue, quantidade de retorno de alimento (sacola). E também um apelo à participação ao programa e um informativo sobre os benefícios da iniciativa. 8 Para muitas das famílias cadastradas no Programa Câmbio Verde, este funcionava como garantia de alimento em casa. Algumas recolhiam uma quantidade grande de lixo e depois, nas mercearias do bairro, trocavam parte dos alimentos que conseguiam, por outros alimentos da cesta básica. Outra forma de solidariedade existente entre as famílias era a utilização da carteirinha dos vizinhos, como declarou a secretária da Ação Social e Cidadania, Cerenita Corazza: “o número atendido não é maior, porque muitos não se cadastram e acabam utilizando a carteirinha dos vizinhos” (Revista A Imprensa, nº 42, 1996, p.29).. Paralelamente, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano implantou como projetopiloto7, o Programa Lixo Útil, em dois bairros: Jardim Porto Alegre e conjunto habitacional BNH Atílio Fontana, distribuindo cestas de plástico para a população que passou a separar o lixo reciclável em suas residências. A coleta era realizada uma vez por semana, pelo caminhão da prefeitura, - equipado para esta atividade – possui divisórias para alocar papel, vidro, plástico e metais. A empresa responsável pela coleta era a Co-serviços8, juntamente com a União Toledense das Associações de Moradores (UTAM). O material arrecadado estava sendo reunido num depósito junto à estrada Toledo – Ouro Verde do Oeste, onde o material era embalado e estocado para formar as cargas para a venda a empresas de reciclagem. Segundo os gerentes Juvenal Roque (Co-serviços) e Juarez Klaus (UTAM), uma parte do material arrecadado foi comercializado pela empresa, representando um lucro adicional de R$ 254,00 reais, que será dividido em duas partes iguais”; a prefeitura mobilizou a Guarda Municipal para vigiar o local. Provavelmente, as pessoas que realizavam os furtos trocavam esse material junto ao Programa Câmbio Verde ou revendiam aos sucateiros (Jornal Gazeta de Toledo, nº 29,1994,p.5). 7 O projeto-piloto foi iniciado em dezembro de 1994, “com visitas às casas para entrega das cestas plásticas, explicação sobre seus objetivos e entrega de um panfleto sobre o programa Lixo Útil”. Realizaram –se também reuniões nas Associações de Moradores, “propondo um mutirão de limpeza dos terrenos – pela UTAM e os moradores dos bairros – que consistia na retirada do lixo para separação do material reciclável pelos moradores e remoção do restante pela Co- serviços mediante uma taxa”. Cf. Jornal Gazeta de Toledo, nº 29, 1995, p. 5. 8 Co-serviços, “empresa cooperativa formada por ex-funcionários públicos e que faz prestação de serviços a terceiros na área de limpeza”. Cf. BARNABÉS integram-se à campanha lixo útil. Jornal Gazeta de Toledo. nº 19, Ano I, manchete de capa , 24/12/1994. 9 Em 1997, com nova administração, houve alterações nas secretarias e trabalhos desenvolvidos. Conseqüentemente, reestruturou-se o Programa, agora denominado Lixo Útil/Câmbio Verde, coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente em conjunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social, que tem como objetivo trocar materiais recicláveis por alimentos (cesta básica), nos postos fixos9 existentes nos bairros Jardim Porto Alegre, Vila Boa Esperança, Jardim Coopagro, São Francisco e Jardim Europa. A média de arrecadação permite acesso a duas cestas básicas mensais. Para isso, uma cesta equivale a seguinte medida: vidro 220Kg, papelão 100Kg, papel misto 180 Kg, plástico 100Kg, ferro 300 Kg, alumínio 30 Kg. O programa autoriza somente o cadastramento de um membro da família e apenas o titular retira a cesta. O valor da mesma gira em torno de R$ 14,00 reais e contém os seguintes itens: 5Kg de açúcar, 5Kg de farinha de trigo, 1Kg de feijão, 1Kg de farinha de milho, 1Kg de sal, 1 pacote de macarrão, 1 lata de óleo. Não é permitido o pagamento em dinheiro no Programa. Isso ocorre, porém, quando os catadores vendem diretamente para os sucateiros, que estabelecem acordos com o poder público de manter valores próximos daqueles pagos pelos produtos arrecadados. A impossibilidade do catador em vender sua mercadoria por um preço justo pode colocar a catação do lixo no rol de atividades consideradas como não-livres. A atividade de catar é uma forma contemporânea de relações de trabalho que pode estar traduzindo processos sociais recriados e atualizados o “trabalho compulsório”10, uma forma de exclusão social. Ou talvez seja bem a ilustração do processo desigual e combinado do desenvolvimento capitalista ainda pouco estudado, nele, co-existem duas faces opostas que se amalgamam na mesma atividade, o trabalho não-livre e a modernidade tecnológica da maquinaria utilizada na reciclagem. 9 Os câmbios móveis foram substituídos por pontos fixos, segundo a diretora da Secretaria do Meio Ambiente, Gerte Filipeto: “...Nós achamos que era mais produtivo, substituir os câmbios móveis por fixos, onde a gente consegue trabalhar mais diretamente com a pessoa que participa do programa...” Cf. Entrevista realizada em 19/03/1999, na Prefeitura Municipal de Toledo. 10 Sobre trabalho compulsório ver: CARDOSO, Ciro Flamarion; BRIGNOLI, Héctor Pérez. O mundo colonial (séculos XVI a XVIII). In: História econômica da América Latina: sistemas agrários e história colonial economias de exportação e desenvolvimento capitalista. Tradução Fernando Antonio Faria. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984, p. 63 a 122. 10 Junto ao Aterro, organizou-se o Centro de Separação de Material Reciclável, onde ocorre a licitação para os compradores do material reciclável arrecadado no município, mantido no local durante o prazo estabelecido pelo contrato, geralmente por um ano, sendo permitida a renovação. Fora do controle do Poder Público, existem os sucateiros que compram o material dos catadores ou pagam por dia de trabalho, porém negociam diretamente com as indústrias. Na situação atual, proliferam as pessoas – catadores – que procuram na coleta de lixo reciclável a forma de sobreviver. Tornam a cidade mais limpa e criam alternativas e estratégias de trabalho no mercado informal. Os sucateiros, ou proprietários de depósitos de compra de material reciclável, estabelecem suas próprias regras, compram ou contratam catadores para lhes prestar serviços. Há sempre conflitos por falta de pagamento dos materiais ou trabalho prestado. A relação entre os sucateiros e os catadores e ou revendedores de lixo é tensa11. Pode-se dizer que existe um código normativo de condutas entre eles, porém, este não aparece claramente. Sabe-se, por exemplo, da homogeneização dos preços em relação ao peso e ao material. Assim, o que está presente não são as relações de confiança, mas a lei do “levar vantagens”.Os catadores encontram-se subordinados aos sucateiros e ao programa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vivenciamos um momento de desmonte do sistema de proteções e garantias vinculadas ao emprego, que levam a uma desestabilização da ordem do trabalho e também um retrocesso histórico no que diz respeito à origem do bem-estar social, que sai do terreno do coletivo e passa para o âmbito privado. Os programas sociais têm assumido um caráter transitório, focalizado e de baixa cobertura, assim buscam apenas minimizar os efeitos do ajuste neoliberal sobre os mais pobres. Ou seja, o direcionamento dos gastos sociais é para programas específico, orienta- 11 Sobre relações de poder ver: BOURDIEU, Pierre. O poder Simbólico. Tradução Fernando Tomaz. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. AZEVEDO,Cecília. Identidades compartilhadas. Niterói, Programa de PósGraduação em História/NUPHEC, 2002. 11 se em relação aqueles grupos seletivamente escolhidos pela sua maior necessidade e urgência, por sua destituição de direitos sociais, situando, hoje, um dos grandes problemas a serem enfrentados pelas administrações públicas e também pela sociedade. Grande parte das populações ligadas à economia informal é também aquela destituída de direitos e a que vivencia, bem de perto, a erosão das mediações políticas entre o mundo do trabalho e as esferas públicas, por isso mesmo, cada vez mais afastadas de possibilidades de enfrentamento de conflitos e de dissensos através de mecanismos de representação e negociação políticas. Atribui-se ao mercado a responsabilidade única e exclusiva de estruturador da sociedade e da política, Isso passou a significar que, diante das tensões do mundo do trabalho, nada há de fazer a não ser administrar tecnicamente as exigências desse mercado ou, ainda, admitir suas regras como o código normativo a que a sociedade e os indivíduos devem se ajustar, no momento em que todos, agora desvencilhados das proteções tutelares dos direitos, podem finalmente provar suas energias e capacidades empreendedoras. Isso tem significado o aparecimento de outras formas de organização da produção quanto das próprias relações de trabalho, com parcelas cada vez maiores de trabalhadores excluídos de garantias trabalhistas. Tem-se acompanhado o aumento infinito da informalidade nas relações de trabalho e nas formas de inserção urbana. A busca de flexibilidade, acompanhada por formas de integração social, estimulou o trabalho por contas própria, no município de Toledo, em diferentes atividades: comércio ambulante, cultivo de lotes baldios, fretes, jogatina de carteado, estacionamentos pagos próximos às Universidades, serviços de entretenimento por transformação de pequenas propriedades em áreas de lazer – tipo “Pesque- Pague”, além de restaurantes à base de peixes-, transporte clandestino de estudantes de uma localidade à outra, construção civil – com atividades de pedreiro, bóias-frias, empregadas domésticas, marreteiro de carros e motos, catação de “lixo”, etc. Soluções e/ou alternativas de criação de espaços de inclusão não deixaram de ser buscadas. No entanto, com a criação do Programa Câmbio Verde/Lixo Útil percebeu-se um aumento considerável dos catadores na cidade, o trabalho informal contribui para ressaltar as dificuldades que afetam os sistemas de regulação social. É neste setor que os 12 trabalhadores encontram alternativas para uma remuneração necessária, por mais precária e incerta que esta seja. O Programa representa, entre outros, os objetivos do cadastro institucional (controle, classificação e seleção dos beneficiários, responsabilizando-o pelo atendimento das suas necessidades), pela raridade dos recursos a serem distribuídos, criam sues enobrecidos e seus escolhidos, ao elaborarem e sancionarem formas de distinção entre o conjunto dos pobres; desqualificam os que não podem atender, alegando distanciamento em relação ao modelo cultural organizado. Assim o cadastro constitui-se em estratégia silenciosa e dissimulada que nega o principio da redistribuição massiva e da elegibilidade dos mais carentes. As representações sobre os catadores nos fazem pensar o valor que se atribui ao ser humano nessa cumplicidade silenciosa dos cidadãos de bem para com as injustiças quanto à distribuição de riqueza, da discriminação, da violência, do precário acesso ao sistema educativo, à saúde, à cultura que excluem as maiorias do convívio social. A atividade de catar lixo em alguns momentos ganha um viés salvacionista, pois, caso os indivíduos não a desempenhem, arriscam-se a se literalmente ignorados e relegados à própria sorte.Imputa-se a eles a responsabilidade de escolhas de alternativas que os insiram na sociedade de mercado. A atividade de catar “lixo” revela práticas e formas de construção das relações atuais de trabalho, aqui em especifico entre as pessoas envolvidas no processo de reciclagem, a exploração, o baixo preço pago ao material arrecadado, o pagamento em produtos alimentícios ao invés de dinheiro, a negação da renda, restrição no exercício de seus diretos de escolher o que lhe é necessário e útil para sobreviver. Portanto questiona-se os programas sociais tem efetivamente cumprido o seu papel? É hora da humanidade retomar o verdadeiro sentido da vida e direcionar suas ações para uma nova perspectiva ética da sobrevivência redefinindo seu programa frente à égide do desenvolvimento sustentável, pois na difícil situação que se encontra o mundo de hoje, é muito usual que se perca a compreensão critica da convivência cotidiana com as grandes privações humanas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 13 A Agenda 21, abril de 1992, capítulo 7 (p.65 – 66). AZEVEDO,Cecília. Identidades compartilhadas. Niterói, Programa de Pós-Graduação em História/NUPHEC, 2002. BARNABÉS integram-se à campanha lixo útil. Jornal Gazeta de Toledo. nº 19, Ano I, manchete de capa , 24/12/1994. BOURDIEU, Pierre. O poder Simbólico. Tradução Fernando Tomaz. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. CÂMBIO Verde – em Toledo lixo vale comida. Moradores trocam sete toneladas de lixo reciclável por alimentos. Revista A Imprensa, Cascavel, nº 42, Ano IV, p. 29, mar./ 1996.. CARDOSO, Ciro Flamarion; BRIGNOLI, Héctor Pérez. O mundo colonial (séculos XVI a XVIII). In: História econômica da América Latina: sistemas agrários e história colonial economias de exportação e desenvolvimento capitalista. Tradução Fernando Antonio Faria. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984, p. 63 a 122. CARVALHO, Dayse Silva de. A favela, o lixo e a questão ambiental: um estudo do projeto favela-limpa. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado, PUC/RJ,1999. CESCONETO, Eugênia Aparecida. 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