O sintético e o carnavalesco: a construção biográfica de dois encenadores do teatro brasileiro1 Lucimara de ANDRADE2 Resumo Os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa são considerados figuras exponenciais do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Com estéticas distintas os dois encenadores são conhecidos pelo seu rigor e por renovarem a cena Teatral Brasileira. A reportagem “Os Inventores do Teatro Brasileiro”, da edição comemorativa de dez anos da Revista Bravo de março de 2008, traz uma abordagem comparativa entre Antunes Filho e Zé Celso. O interessante da abordagem trazida na reportagem foi a forma como foram construídas a trajetória, a personalidade e a estética desses dois ícones. Antunes é tratado como “O Econômico” enquanto Zé Celso é tido como “O Partidário do Excesso”. O presente artigo analisa de que maneira se dá a construção biográfica dos dois encenadores na reportagem em questão. Para isso, a reportagem será analisada em sua totalidade: levando-se em consideração tanto o texto, como as imagens e a diagramação. Palavras-chave: Antunes Filho; Zé Celso; escrita biográfica; Teatro Brasileiro. Abstract The directors Antunes Filho and José Celso Martinez Corrêa are considered prominent figures of Brazilian Contemporary Theatre. With distincts aesthetics the two directors are known for their rigor and to renew the Brazilian theatrical scene. The report “Os Inventores do Teatro Brasileiro”, from the anniversary edition of ten years of the magazine Bravo in March 2008, brings a comparative approach between Antunes Filho and Ze Celso . The interesting of the approach was brought into the report was the way how were constructed the history, the personality and the aesthetic of these two icons. 1 Inicialmente esse trabalho foi elaborado como trabalho de conclusão da disciplina “Literatura e interdisciplinaridade”, do Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), ministrada pela Profª Drª Eneida Maria de Souza. 2 Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), orientanda da Profª Drª Leda Maria Martins e bolsista CAPES. CEP:31270-000, Belo Horizonte, Minas Gerias, e-mail: [email protected]. Antunes is treated as “The Economic" while Zé Celso is regarded as "The Partisan of Excess”. This article analyzes how it gives the biographical construction of two directors in the report in question. To do this, the report will be analysed in its entirety: taking into account both the text, as the images and layout. Keywords: Antunes Filho; José Celso; biographical writing; Brazilian Theatre. 1. Introdução: uma proposta de construção Falar em construção biográfica é também falar em representação e criação, pois o biógrafo, segundo o jornalista Alberto Dines, “não é um mero colecionador de informações, inéditas ou não, mas um reconstrutor de existências, narrador de vidas, como dizia Virgina Woolf” (apud SCHMIDT, 2000, p. 65). Os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa, figuras exponenciais do Teatro Brasileiro Contemporâneo, conhecidos pelo seu rigor e por renovarem a cena Teatral Brasileira, foram o tema da reportagem “Os inventores do teatro brasileiro”, da edição comemorativa de dez anos da Revista Bravo de março de 2008. O texto, da repórter Gabriela Mellão, traz uma abordagem comparativa entre os encenadores. Na época, ambos estavam trabalhando com a montagem da peça Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues. A versão de Antunes estrearia no dia 28 do mesmo mês, enquanto Zé Celso preparava sua encenação para o final do ano citado. O interessante da abordagem trazida na reportagem foi a forma como foram construídas a trajetória, a personalidade e a estética desses dois ícones. Antunes é tratado como “O Econômico” enquanto Zé Celso é tido como “O Partidário do Excesso”. Partindo do pressuposto que o gênero biografia é chamado ora de híbrido3 ora de fronteira4, por perambular entre o real e o imaginário, entre história e ficção, pode-se dizer que o biografado é uma espécie de personagem fragmentado. Como uma colcha de retalhos, em que retalhos do tecido da vida se unem ganhando um sentido e 3 MOISÉS, Massaud. Outras Expressões Híbridas. In: MOISÉS, Massaud. A criação Literária. São Paulo: Melhoramentos, 1979, p. 281 – 291. 4 AGUIAR, Flávio; MEIHY, José Carlos Sebe Bom e VASCONCELOS, Sandra Guardini T. (orgs). Gêneros de fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. São Paulo: Xamã, 1997. apud Schmidt (2000). uma forma à medida que a linha do imaginário transpassa a agulha manuseada pelo fazedor de histórias. 2. Sobre Antunes Filho José Alves Antunes Filho, mais conhecido como Antunes Filho, nasceu em 12 de dezembro de 1929, no Bairro da Bela Vista, o Bexiga, em São Paulo e pertencente à primeira geração de encenadores brasileiros. É famoso pela adaptação teatral da obra do escritor Mário de Andrade Macunaíma, realizada na década de 70. Desde 1982, Antunes está à frente do Centro de Pesquisas Teatrais - CPT, integrado ao SESC, unidade Consolação, localizado na Rua Dr. Vila Nova, nº 245, Bairro Vila Buarque, na cidade de São Paulo, onde se dedica ao aperfeiçoamento de um método de interpretação para a atores, criado por ele, que engloba estudos diversos como a psicologia junguiana, o budismo tibetano, os princípios da filosofia de Politzer, o Tao da Física de F. Capra, além de outros tantos. Antunes estudou direito, mas abandonou o curso para estudar artes dramáticas. Segundo Mariangela Alves de Lima5 (1999), no final dos anos quarenta, quando o jovem Antunes começou a rodear o teatro a figura do diretor era ainda recémchegada. No caso de São Paulo, a figura do diretor começou com a formação do Teatro Brasileiro de Comédia, onde jovens diretores europeus começaram a exercitar um fazer teatral que se ordenava por compor uma unidade significativa. Antunes Filho ingressou em 1952 no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, como assistente de direção. Lá teve a oportunidade de observar o trabalho de Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e Flaminio Bollini, diretores estrangeiros contratados para especializar a equipe da companhia paulista. Na avaliação de Yan Michalski6: Antunes Filho é uma das figuras exponenciais do teatro brasileiro de hoje, talvez a única a integrar o restrito grupo internacional de encenadores que vêm renovando, obstinada e inspiradamente, a cena 5 Mariângela Alves de Lima (São Paulo, SP – 1947) é crítica, ensaísta e pesquisadora teatral. Iniciou- se na crítica jornalística no jornal O Estado de S. Paulo, em 1971, onde permanece como crítica especializada. 6 Enciclopédia Itaú Cultural Teatro. Biografia de Antunes Filho. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_ biografia&cd_verbete=699>. Acesso em: 13 jun. 2013. mundial. Incorporando no seu trabalho influências tão contraditórias como Bob Wilson, Tadeusz Kantor, Kasuo Ono, o expressionismo alemão, a psicanálise junguiana, a física moderna e, com crescente intensidade, a filosofia oriental, ele as funde numa escritura cênica de uma feroz coerência pessoal, com características ao mesmo tempo universais e brasileiras. Sua opção por trabalhar com atores jovens e inexperientes, lhe tem valido não poucas críticas (...). Mas este é um ônus que ele assume pagar para poder trabalhar num âmbito de liberdade de criação de que nenhum outro diretor brasileiro dispõe. 3. Sobre José Celso José Celso Martinez Corrêa nasceu em Araraquara em 30 de março de 1937. José Celso, ou simplesmente Zé Celso destacou-se no cenário teatral por montagens consideradas dionisíacas. Assim como Antunes, Zé Celso também estudou Direito, mas não concluiu o curso. Foi na Faculdade de Direito do Largo São Francisco participando do Centro Acadêmico 11 de Agosto, integrando o núcleo de estudantes que ele fundou o Teatro Oficina. Em 1961 o Oficina inaugurou a sua fase profissional e sua casa de espetáculos, alugada e reformada na Rua Jaceguai nº 520, no Bairro Bela Vista em São Paulo que, mais especificamente no dia 24 de junho de 2010, foi tombada pelo Conselho Consultivo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Em 1967, após um incêndio no Teatro Oficina Zé Celso encena O Rei da Vela, peça considerada um divisor de águas da linguagem teatral do país. A realização da peça ganhou ainda uma posição de liderança no movimento tropicalista, já efervescente nas artes visuais, no cinema e na música popular, o que colocou Zé Celso como um dos ícones da tropicália, juntamente com Helio Oiticica, Glauber Rocha e Caetano Veloso. O crítico Yan Michalski7 sintetiza a importância hegemônica da trajetória do artista durante a década de 1960: durante cerca de uma década, década excepcionalmente efervescente, José Celso foi, provavelmente, a personalidade criativa mais forte do teatro brasileiro; foi, em todo o caso, o encenador mais aberto a idéias ousadas e sempre renovadas, e capaz de realizar, a partir delas, espetáculos surpreendentes, generosos, provocantes, excepcionalmente inventivos. Sua atuação, nessa época, marcou não 7 Enciclopédia Itaú Cultural Teatro. Biografia de José Celso Martinez Corrêa. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_ biografia&cd_verbete=776&lst_palavras=&cd_idioma=28555> Acesso em: 25 jul. 2013. só o teatro nacional - Pequenos Burgueses, O Rei da Vela e Na Selva das Cidades, pelo menos, têm lugar garantido e importante na História desse teatro - como também a arte brasileira em geral. Durante esse tempo, ele foi um divisor de águas, um ponto de referência e uma fonte básica de influências. 4. A construção Biográfica Muito em voga no atual cenário dos Estudos Culturais, os estudos sobre o biográfico vem ganhando cada vez mais espaço entre os estudiosos interessados na subjetividade, no sujeito, na microhistória, na narrativa, na memória ou mesmo nos processos linguísticos de construção de uma identidade. O gênero biografia, até bem pouco tempo atrás, era visto como gênero menor. O fato de as biografias terem se tornado fenômenos de venda ajudou a consolidar esse olhar de descaso dos acadêmicos, que viam nas mesmas um relato da vida alheia (em geral celebridades8), que só interessava a curiosos por devassar a existência do outro, em busca de identificação ou de desvios de caráter. Segundo Francisco de Sales Gaudêncio (2007), para que essa mudança de visão se tornasse possível, em se tratando do âmbito nacional, foi preciso que a “historiografia brasileira desse um salto significativo no tocante a abordagens mais específicas e sofisticadas, valorizando a microhistória e os enfoques socioculturais, incorporando instrumentos analíticos da antropologia e da análise literária” (p. 218). Esse crescente interesse pelas escritas biográficas como objeto de análise demonstra a valorização do sujeito enquanto ponto de partida para abordagens mais amplas. Assim sendo, poderíamos dizer que o sujeito torna-se peça fundamental na compreensão das mais variadas esferas a que ele se vincula ou transita, tais como a sociedade, uma época, uma estética, etc. Em se tratando de Antunes e Zé Celso, na reportagem da Bravo, poderíamos dizer que ambos são abordados de forma tal que a obra torna-se expressão (ou seria extensão?) de suas personalidades. Não se sabe dizer ao certo se eles são fruto de seu processo criativo ou se este é produto de suas personalidades. Segundo Sérgio Vilas 8 Digo celebridades não apenas no sentido de “famosos” que estão expostos na mídia, mas também de pessoas tidas como ilustres. Boas (2006) em sua tese Metabiografia e seis tópicos para aperfeiçoamento do jornalismo biográfico: a obra (as realizações e irrealizações inerentes a qualquer ser humano) é expressão da vida, porque ela se anuncia na vida como um conjunto infinito de significados (interpretações), alguns deles atingíveis. A obra reflete um tempo concreto, materializado, encarnado. Estamos atravessados pelo tempo histórico tanto quanto todo conhecimento está vazado pela problemática das identidades individuais e coletivas. A relação vida e obra, portanto, não é uma relação funcional de causa e efeito. É uma relação reflexiva. (p.25) Pensar a relação vida-obra como uma “relação reflexiva” constitui todo o enfoque da reportagem, produzida de forma a fundir homem e obra de forma a criar ícones, divergentes esteticamente. Divergências estas que complementaram o cenário artístico brasileiro das últimas décadas além de terem contribuído imensamente para o fazer teatral. E, como vida e obra se mesclam e se confundem, a construção da biografia de Antunes e Zé Celso se pauta principalmente em suas experiências estéticas no âmbito das artes cênicas. O texto da repórter Gabriela Mellão, constitui-se basicamente de depoimentos prestados pelos artistas que foram influenciados pelos encenadores, ou que devem sua formação a um ou outro; por dados gerais sobre a formação dos dois encenadores (onde e quando começaram suas trajetórias, onde estudaram, com quem conviveram); quais artistas os influenciaram e quais foram os espetáculos mais relevantes de sua carreira. Esses são os aspectos principais. Dados civis localizados cronologicamente se fazem desnecessários. O cidadão, que consta nos registros de cartório, esse é descartado, para dar lugar ao artista, aquele em que as marcas estão fixadas eternamente na História do Teatro Brasileiro. Ao trabalhar com fragmentos memorialísticos profícuos ao tipo de construção textual, a repórter atua como um construtor de identidade, o que para LéviStrauss, se assemelha a tarefa de um bricoleur, “que constrói todo o tipo de coisas com o material que tem à mão...” (BAUMAN, 2005, p. 55). Ou seja, com todo trabalho de memória. Trabalho este em que cacos e mais cacos se juntam e se rejuntam, construindo um mosaico: uma imagem inteira de fragmentos de diferentes cores, em que formas e texturas se unem para constituir uma representação uniforme, ou disforme, do biografado. 5. Cena e obscena: marcas textuais na construção do perfil Como o objeto aqui analisado é de uma reportagem, cabe aqui fazer uma análise do gênero empregado. A reportagem “Os inventores do Teatro Brasileiro” traça uma espécie de perfil de Antunes e Zé Celso. No ensaio A arte do perfil, Vilas Boas disserta sobre o gênero: um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única - pessoa, famosa ou não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central. O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas não ao individualismo vulgar. Com foi dito anteriormente, a reportagem da Revista Bravo traça uma espécie de perfil, e, enquanto pertencente ao gênero, pode-se dizer que ela não é essencialmente uma biografia, mas que ambas trabalham com o mesmo objeto, ou seja, as individualidades. Para a construção de tais individualidades, a repórter se utiliza de marcas textuais que consolidam a personalidade e a estética dos encenadores, tais como: a montagem de Antunes de Senhora dos Afogados é exemplar do seu método: focada no ator, destituída de efeitos especiais ou cenários mirabolantes, fortemente centrada no texto. (...) A exigência de Antunes com os atores é lendária. Uma das características que talvez explique o fato de ele ser um dos grandes responsáveis pela elevação do padrão de atuação no teatro brasileiro, decorrência do trabalho desenvolvido no centro de Pesquisa Teatral (CPT), em São Paulo. (...) Se a Senhora dos Afogados de Antunes é sombria, a de Zé Celso, ainda em fase de elaboração, tem tudo para ser um musical festivo. “O espetáculo será certamente orgiástico, provavelmente um musical, já que tem coro e o negócio do Zé é ópera”, diz o ator e diretor Marcelo Drummond, que pertence à linhagem identificada com Zé Celso, oriunda do paulista Teatro Oficina Uzyna Uzona (Revista Bravo, 03/2008. Grifos meus). Como pode ser notado, existe uma tendência, compartilhada por boa parte dos biógrafos (ou aqueles que pretendem escrever histórias de vida), a criar uma coerência ou previsibilidade do modo de agir do indivíduo. Como observa Benito Schmidt (2000), tal forma de construção foi objeto de crítica de Pierre Bourdieu (1996) em seu artigo “A ilusão biográgica”: o objeto da biografia (o entrevistador e o entrevistado) têm de certo modo o mesmo interesse em aceitar o postulado do sentido da existência contada (e, implicitamente, de qualquer existência). (...) Essa inclinação a se tornar ideólogo de sua própria vida, selecionando, em função de uma intenção global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões que possam justificar sua existência e atribuir-lhes coerência, como aquelas que implicam na instituição como causa ou, com mais frequência, como fim, encontra a cumplicidade natural do biógrafo para quem tudo, a começar por suas disposições de profissional da interpretação, leva a aceitar essa criação artificial de sentido (p.75-76). A crítica de Bourdieu parece incidir sobre a tentativa de rotular o indivíduo. Tentativa que “em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar-fixo” – ser “identificado” de modo inflexível e sem alternativa – é cada vez mais malvisto (BAUMAN, 2005, p. 35). Focando novamente na reportagem, percebe-se que o fato de ser identificável não é tido como algo negativo. Muito pelo contrário. No caso de Antunes Filho e José Celso, as expressões rotulantes que definem suas personalidades são o motivo pelo qual os dois encenadores são admirados. Zé Celso, conhecido por romper com tabus, acaba se tornando, por mais contraditório que isso possa parecer, um tradicional no trabalho de rupturas. Espera-se sempre que suas peças rompam com algum tabu, espera-se que elas perturbem, que elas sejam orgiásticas e isso faz dele, de certa forma, previsível. Ele já possui uma marca que o define. O mesmo acontece com Antunes, já se espera que suas peças não tenham cenários e além de interpretações impecáveis dos atores. Cabe aqui esclarecer que não estou dizendo que esses dois grandes artistas não acrescentam nada de novo. Eles acrescentam e muito. Digo apenas que eles possuem uma identidade artística consagrada e isso os torna donos de um fazer teatral conhecido e, a propósito, respeitado internacionalmente. Por isso, não acho que seja tão ruim um pouco de coerência. Pelo menos não nesse caso. Mas essa discussão não se faz pertinente aqui, pois esse não é o foco deste artigo. 6. Aspectos icônicos e textuais: em prol de uma transdisciplinaridade Vejamos algumas definições do termo “esquerdo” no Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa: esquerdo /ê/ adj. (sXV sinistro, sestro (...) 4 m.q. CANHOTO cf. FichIVPM) 1 relativo ao lado esquerdo, (adj.) 5 desajeitado, canhestro; gauche 6 constrangedor, desagradável, incômodo. A definição de “esquerdo” servirá para refletirmos sobre as imagens utilizadas na reportagem da Revista Bravo. Observando atentamente percebi que todas as fotografias de José Celso estão posicionados nas páginas de números pares, que correspondem ao lado esquerdo da reportagem em oposição às de Antunes, que aparecem nas páginas ímpares, ou seja, no lado direito. Outro fato interessante é que todas as fotografias de José Celso mostram-no sorridente e expansivo. Ao passo que as de Antunes mostram-no pensativo e centrado. José Celso aparece em seu ambiente de criação com os braços abertos enquanto Antunes mostra-se com a testa franzida e o punho fechado. A escolha destas fotografias não foi em vão. Elas estão permeadas de intencionalidade. Elas estão lá não só para ilustrar a reportagem, mas dialogar com o texto garantindo assim certa lógica global. Diante disso, ler uma imagem, portanto, é diferente de ler a palavra: a imagem significa não fala, e vale enquanto imagem que é. Entender a imagem como discurso, por sua vez, é atribuir-lhe um sentido do ponto de vista social e ideológico, e não proceder à descrição (ou segmentação) dos seus elementos visuais. (SOUZA, 2001, p. 10) Segundo Santaella e Nöth (2005), a discussão semiótica em torno da dicotomia representação/apresentação possui dois aspectos: “por um lado, há a questão sobre até que ponto a função de signos é “re-presentativa”; por outro, há a questão sobre a existências de signos não-representativos” (p. 19). Poder-se-ia dizer então, que as fotos colocadas na reportagem são meras ilustrações? Para um leitor, menos atento, talvez sim. Não é que as fotos sejam a representação fiel dos dois encenadores, mas não se pode negar o caráter proposital no campo discursivo onde elas estão inseridas. Talvez, ao invés de pensarmos em representação, o ideal fosse pensar em tradução ou metáfora. As dualidades carnavalesco/sintético, excesso/minimalismo, gauche/ordem, entre outras, estruturam o sistema discursivo da reportagem, tendo como modelos Zé Celso e Antunes, respectivamente, na intenção de recriá-los como se fossem seres mitológicos. Para Carlos Antônio Leite Brandão (2005), a metáfora aproxima dois entes dando a ver tanto a sua semelhança quanto a sua diferença: ela interpreta e modifica algo, como na tradução, não recobrindo-o inteiramente, mas conferindo-lhe um acréscimo de ser ou um novo tributo, antes oculto. A metáfora também não é símbolo, pois este “representa” totalmente uma coisa em virtude de sua correspondência com ela, enquanto na relação metafórica enfatizamos um traço de similaridade que “seleciona” e “revela” um aspecto de alguma coisa (p.46). A articulação do dizível com o visível, trabalhado por Brandão como busca de um conhecimento e da pesquisa de caráter transdisciplinar aponta para vários parâmetros. No caso do objeto aqui trabalhado, ou seja, um texto jornalístico, dentro de um revista voltada para um público específico, podemos dizer que a transdisciplinaridade trabalha em prol de uma coerência interna textual e icônica estabelecendo assim um diálogo. Pois, como explica Brandão, a operação tradutora é de mão dupla e não unidirecional. Ela instaura uma relação de causa e efeito. 7. Considerações finais As metáforas do sintético e do carnavalesco utilizadas para designar respectivamente os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa na reportagem “Os Inventores do Teatro Brasileiro” serviria, então, não para representar no sentido classificatório, engessado -, mas para traduzir de forma poética esses dois grandes encenadores que se instauram em uma espécie de dialética barroca. Elas servem antes para demonstrar e não para provar algo. Assim sendo, “o olhar da tradução é indireto, oblíquo: ele transvê. Isso se deve ao fato de que seu objeto é estabelecer comparação e proporção entre as coisas e não sua verdade última” (BRANDÃO, 2005, p. 83). Referências bibliográficas: BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2005. BOURDIEU, Pierre. Por uma ciência das obras. Apêndice 1: A ilusão biográfica. In: BOURDIEU, Pierre: Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996. p.74-82. BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. A traduzibilidade dos conceitos: entre o visível e o dizível. In: DOMINGUES, Ivan (Org.). Conhecimento e transdiciplinaridade II: aspectos metodológicos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p. 41-100. BRAVO. São Paulo: Editora Abril, v. 11, n. 127, mar. 2008. p. 72-81. ESQUERDO. In: HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 1240. GAUDÊNCIO, Francisco de Sales. Gênero Biográfico e Historiografia: considerações teóricas. 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