O sintético e o carnavalesco: a construção biográfica de dois encenadores do teatro
brasileiro1
Lucimara de ANDRADE2
Resumo
Os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa são considerados figuras
exponenciais do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Com estéticas distintas os dois
encenadores são conhecidos pelo seu rigor e por renovarem a cena Teatral Brasileira. A
reportagem “Os Inventores do Teatro Brasileiro”, da edição comemorativa de dez anos
da Revista Bravo de março de 2008, traz uma abordagem comparativa entre Antunes
Filho e Zé Celso. O interessante da abordagem trazida na reportagem foi a forma como
foram construídas a trajetória, a personalidade e a estética desses dois ícones. Antunes é
tratado como “O Econômico” enquanto Zé Celso é tido como “O Partidário do
Excesso”. O presente artigo analisa de que maneira se dá a construção biográfica dos
dois encenadores na reportagem em questão. Para isso, a reportagem será analisada em
sua totalidade: levando-se em consideração tanto o texto, como as imagens e a
diagramação.
Palavras-chave: Antunes Filho; Zé Celso; escrita biográfica; Teatro Brasileiro.
Abstract
The directors Antunes Filho and José Celso Martinez Corrêa are considered prominent
figures of Brazilian Contemporary Theatre. With distincts aesthetics the two directors
are known for their rigor and to renew the Brazilian theatrical scene. The report “Os
Inventores do Teatro Brasileiro”, from the anniversary edition of ten years of the
magazine Bravo in March 2008, brings a comparative approach between Antunes Filho
and Ze Celso . The interesting of the approach was brought into the report was the way
how were constructed the history, the personality and the aesthetic of these two icons.
1
Inicialmente esse trabalho foi elaborado como trabalho de conclusão da disciplina “Literatura e
interdisciplinaridade”, do Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-Rei
(UFSJ), ministrada pela Profª Drª Eneida Maria de Souza.
2
Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Teoria da Literatura e Literatura Comparada da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), orientanda da Profª Drª Leda Maria Martins e bolsista
CAPES. CEP:31270-000, Belo Horizonte, Minas Gerias, e-mail: [email protected].
Antunes is treated as “The Economic" while Zé Celso is regarded as "The Partisan of
Excess”.
This article analyzes how it gives the biographical construction of two
directors in the report in question. To do this, the report will be analysed in its entirety:
taking
into
account
both
the
text,
as
the
images
and
layout.
Keywords: Antunes Filho; José Celso; biographical writing; Brazilian Theatre.
1. Introdução: uma proposta de construção
Falar em construção biográfica é também falar em representação e criação,
pois o biógrafo, segundo o jornalista Alberto Dines, “não é um mero colecionador de
informações, inéditas ou não, mas um reconstrutor de existências, narrador de vidas,
como dizia Virgina Woolf” (apud SCHMIDT, 2000, p. 65).
Os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa, figuras
exponenciais do Teatro Brasileiro Contemporâneo, conhecidos pelo seu rigor e por
renovarem a cena Teatral Brasileira, foram o tema da reportagem “Os inventores do
teatro brasileiro”, da edição comemorativa de dez anos da Revista Bravo de março de
2008. O texto, da repórter Gabriela Mellão, traz uma abordagem comparativa entre os
encenadores. Na época, ambos estavam trabalhando com a montagem da peça Senhora
dos Afogados de Nelson Rodrigues. A versão de Antunes estrearia no dia 28 do mesmo
mês, enquanto Zé Celso preparava sua encenação para o final do ano citado. O
interessante da abordagem trazida na reportagem foi a forma como foram construídas a
trajetória, a personalidade e a estética desses dois ícones. Antunes é tratado como “O
Econômico” enquanto Zé Celso é tido como “O Partidário do Excesso”.
Partindo do pressuposto que o gênero biografia é chamado ora de híbrido3
ora de fronteira4, por perambular entre o real e o imaginário, entre história e ficção,
pode-se dizer que o biografado é uma espécie de personagem fragmentado. Como uma
colcha de retalhos, em que retalhos do tecido da vida se unem ganhando um sentido e
3
MOISÉS, Massaud. Outras Expressões Híbridas. In: MOISÉS, Massaud. A criação Literária. São
Paulo: Melhoramentos, 1979, p. 281 – 291.
4
AGUIAR, Flávio; MEIHY, José Carlos Sebe Bom e VASCONCELOS, Sandra Guardini T. (orgs).
Gêneros de fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. São Paulo: Xamã, 1997. apud Schmidt
(2000).
uma forma à medida que a linha do imaginário transpassa a agulha manuseada pelo
fazedor de histórias.
2. Sobre Antunes Filho
José Alves Antunes Filho, mais conhecido como Antunes Filho, nasceu em
12 de dezembro de 1929, no Bairro da Bela Vista, o Bexiga, em São Paulo e pertencente
à primeira geração de encenadores brasileiros. É famoso pela adaptação teatral da obra
do escritor Mário de Andrade Macunaíma, realizada na década de 70. Desde 1982,
Antunes está à frente do Centro de Pesquisas Teatrais - CPT, integrado ao SESC,
unidade Consolação, localizado na Rua Dr. Vila Nova, nº 245, Bairro Vila Buarque, na
cidade de São Paulo, onde se dedica ao aperfeiçoamento de um método de interpretação
para a atores, criado por ele, que engloba estudos diversos como a psicologia junguiana,
o budismo tibetano, os princípios da filosofia de Politzer, o Tao da Física de F. Capra,
além de outros tantos.
Antunes estudou direito, mas abandonou o curso para estudar artes
dramáticas. Segundo Mariangela Alves de Lima5 (1999), no final dos anos quarenta,
quando o jovem Antunes começou a rodear o teatro a figura do diretor era ainda recémchegada. No caso de São Paulo, a figura do diretor começou com a formação do Teatro
Brasileiro de Comédia, onde jovens diretores europeus começaram a exercitar um fazer
teatral que se ordenava por compor uma unidade significativa.
Antunes Filho ingressou em 1952 no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC,
como assistente de direção. Lá teve a oportunidade de observar o trabalho de
Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e Flaminio Bollini, diretores
estrangeiros contratados para especializar a equipe da companhia paulista.
Na avaliação de Yan Michalski6:
Antunes Filho é uma das figuras exponenciais do teatro brasileiro de
hoje, talvez a única a integrar o restrito grupo internacional de
encenadores que vêm renovando, obstinada e inspiradamente, a cena
5
Mariângela Alves de Lima (São Paulo, SP – 1947) é crítica, ensaísta e pesquisadora teatral. Iniciou- se
na crítica jornalística no jornal O Estado de S. Paulo, em 1971, onde permanece como crítica
especializada.
6
Enciclopédia Itaú
Cultural Teatro. Biografia de Antunes Filho. Disponível
em:
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_
biografia&cd_verbete=699>. Acesso em: 13 jun. 2013.
mundial. Incorporando no seu trabalho influências tão contraditórias
como Bob Wilson, Tadeusz Kantor, Kasuo Ono, o expressionismo
alemão, a psicanálise junguiana, a física moderna e, com crescente
intensidade, a filosofia oriental, ele as funde numa escritura cênica de
uma feroz coerência pessoal, com características ao mesmo tempo
universais e brasileiras. Sua opção por trabalhar com atores jovens e
inexperientes, lhe tem valido não poucas críticas (...). Mas este é um
ônus que ele assume pagar para poder trabalhar num âmbito de
liberdade de criação de que nenhum outro diretor brasileiro dispõe.
3. Sobre José Celso
José Celso Martinez Corrêa nasceu em Araraquara em 30 de março de 1937.
José Celso, ou simplesmente Zé Celso destacou-se no cenário teatral por montagens
consideradas dionisíacas. Assim como Antunes, Zé Celso também estudou Direito, mas
não concluiu o curso. Foi na Faculdade de Direito do Largo São Francisco participando
do Centro Acadêmico 11 de Agosto, integrando o núcleo de estudantes que ele fundou o
Teatro Oficina. Em 1961 o Oficina inaugurou a sua fase profissional e sua casa de
espetáculos, alugada e reformada na Rua Jaceguai nº 520, no Bairro Bela Vista em São
Paulo que, mais especificamente no dia 24 de junho de 2010, foi tombada pelo
Conselho Consultivo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Em 1967, após um incêndio no Teatro Oficina Zé Celso encena O Rei da
Vela, peça considerada um divisor de águas da linguagem teatral do país. A realização
da peça ganhou ainda uma posição de liderança no movimento tropicalista, já
efervescente nas artes visuais, no cinema e na música popular, o que colocou Zé
Celso como
um dos ícones da tropicália, juntamente com Helio Oiticica, Glauber
Rocha e Caetano Veloso.
O crítico Yan Michalski7 sintetiza a importância hegemônica da trajetória
do artista durante a década de 1960:
durante cerca de uma década, década excepcionalmente efervescente,
José Celso foi, provavelmente, a personalidade criativa mais forte do
teatro brasileiro; foi, em todo o caso, o encenador mais aberto a idéias
ousadas e sempre renovadas, e capaz de realizar, a partir delas,
espetáculos
surpreendentes,
generosos,
provocantes,
excepcionalmente inventivos. Sua atuação, nessa época, marcou não
7
Enciclopédia Itaú Cultural Teatro. Biografia de José Celso Martinez Corrêa. Disponível em:
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_
biografia&cd_verbete=776&lst_palavras=&cd_idioma=28555> Acesso em: 25 jul. 2013.
só o teatro nacional - Pequenos Burgueses, O Rei da Vela e Na Selva
das Cidades, pelo menos, têm lugar garantido e importante na História
desse teatro - como também a arte brasileira em geral. Durante esse
tempo, ele foi um divisor de águas, um ponto de referência e uma
fonte básica de influências.
4. A construção Biográfica
Muito em voga no atual cenário dos Estudos Culturais, os estudos
sobre o biográfico vem ganhando cada vez mais espaço entre os estudiosos interessados
na subjetividade, no sujeito, na microhistória, na narrativa, na memória ou mesmo nos
processos linguísticos de construção de uma identidade.
O gênero biografia, até bem pouco tempo atrás, era visto como gênero
menor. O fato de as biografias terem se tornado fenômenos de venda ajudou a
consolidar esse olhar de descaso dos acadêmicos, que viam nas mesmas um relato da
vida alheia (em geral celebridades8), que só interessava a curiosos por devassar a
existência do outro, em busca de identificação ou de desvios de caráter.
Segundo Francisco de Sales Gaudêncio (2007), para que essa mudança de
visão se tornasse possível, em se tratando do âmbito nacional, foi preciso que a
“historiografia brasileira desse um salto significativo no tocante a abordagens mais
específicas e sofisticadas, valorizando a microhistória e os enfoques socioculturais,
incorporando instrumentos analíticos da antropologia e da análise literária” (p. 218).
Esse crescente interesse pelas escritas biográficas como objeto de análise
demonstra a valorização do sujeito enquanto ponto de partida para abordagens mais
amplas. Assim sendo, poderíamos dizer que o sujeito torna-se peça fundamental na
compreensão das mais variadas esferas a que ele se vincula ou transita, tais como a
sociedade, uma época, uma estética, etc.
Em se tratando de Antunes e Zé Celso, na reportagem da Bravo, poderíamos
dizer que ambos são abordados de forma tal que a obra torna-se expressão (ou seria
extensão?) de suas personalidades. Não se sabe dizer ao certo se eles são fruto de seu
processo criativo ou se este é produto de suas personalidades. Segundo Sérgio Vilas
8
Digo celebridades não apenas no sentido de “famosos” que estão expostos na mídia, mas também de
pessoas tidas como ilustres.
Boas (2006) em sua tese Metabiografia e seis tópicos para aperfeiçoamento do
jornalismo biográfico:
a obra (as realizações e irrealizações inerentes a qualquer ser humano)
é expressão da vida, porque ela se anuncia na vida como um conjunto
infinito de significados (interpretações), alguns deles atingíveis. A
obra reflete um tempo concreto, materializado, encarnado. Estamos
atravessados pelo tempo histórico tanto quanto todo conhecimento
está vazado pela problemática das identidades individuais e coletivas.
A relação vida e obra, portanto, não é uma relação funcional de causa
e efeito. É uma relação reflexiva. (p.25)
Pensar a relação vida-obra como uma “relação reflexiva” constitui todo o
enfoque da reportagem, produzida de forma a fundir homem e obra de forma a criar
ícones, divergentes esteticamente. Divergências estas que complementaram o cenário
artístico brasileiro das últimas décadas além de terem contribuído imensamente para o
fazer teatral. E, como vida e obra se mesclam e se confundem, a construção da biografia
de Antunes e Zé Celso se pauta principalmente em suas experiências estéticas no âmbito
das artes cênicas.
O texto da repórter Gabriela Mellão, constitui-se basicamente de
depoimentos prestados pelos artistas que foram influenciados pelos encenadores, ou
que devem sua formação a um ou outro; por dados gerais sobre a formação dos dois
encenadores (onde e quando começaram suas trajetórias, onde estudaram, com quem
conviveram); quais artistas os influenciaram e quais foram os espetáculos mais
relevantes de sua carreira. Esses são os aspectos principais. Dados civis localizados
cronologicamente se fazem desnecessários. O cidadão, que consta nos registros de
cartório, esse é descartado, para dar lugar ao artista, aquele em que as marcas estão
fixadas eternamente na História do Teatro Brasileiro.
Ao trabalhar com fragmentos memorialísticos profícuos ao tipo de
construção textual, a repórter atua como um construtor de identidade, o que para LéviStrauss, se assemelha a tarefa de um bricoleur, “que constrói todo o tipo de coisas com
o material que tem à mão...” (BAUMAN, 2005, p. 55). Ou seja, com todo trabalho de
memória. Trabalho este em que cacos e mais cacos se juntam e se rejuntam,
construindo um mosaico: uma imagem inteira de fragmentos de diferentes cores, em
que formas e texturas se unem para constituir uma representação uniforme, ou disforme,
do biografado.
5. Cena e obscena: marcas textuais na construção do perfil
Como o objeto aqui analisado é de uma reportagem, cabe aqui fazer uma
análise do gênero empregado. A reportagem “Os inventores do Teatro Brasileiro” traça
uma espécie de perfil de Antunes e Zé Celso. No ensaio A arte do perfil, Vilas Boas
disserta sobre o gênero:
um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um
tipo de texto biográfico sobre uma – uma única - pessoa, famosa ou
não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa
exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é
biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição
superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios,
convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um
biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um
perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central.
O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra
horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse
banida do mundo e os humanos não passassem de robôs
programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil
simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas
não ao individualismo vulgar.
Com foi dito anteriormente, a reportagem da Revista Bravo traça uma
espécie de perfil, e, enquanto pertencente ao gênero, pode-se dizer que ela não é
essencialmente uma biografia, mas que ambas trabalham com o mesmo objeto, ou seja,
as individualidades. Para a construção de tais individualidades, a repórter se utiliza de
marcas textuais que consolidam a personalidade e a estética dos encenadores, tais como:
a montagem de Antunes de Senhora dos Afogados é exemplar do
seu método: focada no ator, destituída de efeitos especiais ou cenários
mirabolantes, fortemente centrada no texto. (...) A exigência de
Antunes com os atores é lendária. Uma das características que
talvez explique o fato de ele ser um dos grandes responsáveis pela
elevação do padrão de atuação no teatro brasileiro, decorrência do
trabalho desenvolvido no centro de Pesquisa Teatral (CPT), em São
Paulo.
(...)
Se a Senhora dos Afogados de Antunes é sombria, a de Zé Celso,
ainda em fase de elaboração, tem tudo para ser um musical festivo. “O
espetáculo será certamente orgiástico, provavelmente um musical,
já que tem coro e o negócio do Zé é ópera”, diz o ator e diretor
Marcelo Drummond, que pertence à linhagem identificada com Zé
Celso, oriunda do paulista Teatro Oficina Uzyna Uzona (Revista
Bravo, 03/2008. Grifos meus).
Como pode ser notado, existe uma tendência, compartilhada por boa parte
dos biógrafos (ou aqueles que pretendem escrever histórias de vida), a criar uma
coerência ou previsibilidade do modo de agir do indivíduo. Como observa Benito
Schmidt (2000), tal forma de construção foi objeto de crítica de Pierre Bourdieu (1996)
em seu artigo “A ilusão biográgica”:
o objeto da biografia (o entrevistador e o entrevistado) têm de certo
modo o mesmo interesse em aceitar o postulado do sentido da
existência contada (e, implicitamente, de qualquer existência).
(...) Essa inclinação a se tornar ideólogo de sua própria vida,
selecionando, em função de uma intenção global, certos
acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões que
possam justificar sua existência e atribuir-lhes coerência, como
aquelas que implicam na instituição como causa ou, com mais
frequência, como fim, encontra a cumplicidade natural do biógrafo
para quem tudo, a começar por suas disposições de profissional da
interpretação, leva a aceitar essa criação artificial de sentido (p.75-76).
A crítica de Bourdieu parece incidir sobre a tentativa de rotular o indivíduo.
Tentativa que “em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente
flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar-fixo” – ser “identificado” de modo
inflexível e sem alternativa – é cada vez mais malvisto (BAUMAN, 2005, p. 35).
Focando novamente na reportagem, percebe-se que o fato de ser
identificável não é tido como algo negativo. Muito pelo contrário. No caso de Antunes
Filho e José Celso, as expressões rotulantes que definem suas personalidades são o
motivo pelo qual os dois encenadores são admirados. Zé Celso, conhecido por romper
com tabus, acaba se tornando, por mais contraditório que isso possa parecer, um
tradicional no trabalho de rupturas. Espera-se sempre que suas peças rompam com
algum tabu, espera-se que elas perturbem, que elas sejam orgiásticas e isso faz dele, de
certa forma, previsível. Ele já possui uma marca que o define. O mesmo acontece com
Antunes, já se espera que suas peças não tenham cenários e além de interpretações
impecáveis dos atores.
Cabe aqui esclarecer que não estou dizendo que esses dois grandes artistas
não acrescentam nada de novo. Eles acrescentam e muito. Digo apenas que eles
possuem uma identidade artística consagrada e isso os torna donos de um fazer teatral
conhecido e, a propósito, respeitado internacionalmente. Por isso, não acho que seja tão
ruim um pouco de coerência. Pelo menos não nesse caso. Mas essa discussão não se faz
pertinente aqui, pois esse não é o foco deste artigo.
6. Aspectos icônicos e textuais: em prol de uma transdisciplinaridade
Vejamos algumas definições do termo “esquerdo” no Dicionário Houaiss
de Língua Portuguesa: esquerdo /ê/ adj. (sXV
sinistro, sestro (...) 4 m.q.
CANHOTO
cf. FichIVPM)
1 relativo ao lado esquerdo,
(adj.) 5 desajeitado, canhestro; gauche 6
constrangedor, desagradável, incômodo.
A definição de “esquerdo” servirá para refletirmos sobre as imagens
utilizadas na reportagem da Revista Bravo. Observando atentamente percebi que todas
as fotografias de José Celso estão posicionados nas páginas de números pares, que
correspondem ao lado esquerdo da reportagem em oposição às de Antunes, que
aparecem nas páginas ímpares, ou seja, no lado direito. Outro fato interessante é que
todas as fotografias de José Celso mostram-no sorridente e expansivo. Ao passo que as
de Antunes mostram-no pensativo e centrado. José Celso aparece em seu ambiente de
criação com os braços abertos enquanto Antunes mostra-se com a testa franzida e o
punho fechado.
A escolha destas fotografias não foi em vão. Elas estão permeadas de
intencionalidade. Elas estão lá não só para ilustrar a reportagem, mas dialogar com o
texto garantindo assim certa lógica global. Diante disso,
ler uma imagem, portanto, é diferente de ler a palavra: a imagem
significa não fala, e vale enquanto imagem que é. Entender a imagem
como discurso, por sua vez, é atribuir-lhe um sentido do ponto de vista
social e ideológico, e não proceder à descrição (ou segmentação) dos
seus elementos visuais. (SOUZA, 2001, p. 10)
Segundo Santaella e Nöth (2005),
a discussão semiótica em torno da
dicotomia representação/apresentação possui dois aspectos: “por um lado, há a questão
sobre até que ponto a função de signos é “re-presentativa”; por outro, há a questão
sobre a existências de signos não-representativos” (p. 19).
Poder-se-ia dizer então, que as fotos colocadas na reportagem são meras
ilustrações? Para um leitor, menos atento, talvez sim. Não é que as fotos sejam a
representação fiel dos dois encenadores, mas não se pode negar o caráter proposital no
campo discursivo onde elas estão inseridas. Talvez, ao invés de pensarmos em
representação, o ideal fosse pensar em tradução ou metáfora.
As dualidades carnavalesco/sintético, excesso/minimalismo, gauche/ordem,
entre outras, estruturam o sistema discursivo da reportagem, tendo como modelos Zé
Celso e Antunes, respectivamente, na intenção de recriá-los como se fossem seres
mitológicos.
Para Carlos Antônio Leite Brandão (2005),
a metáfora aproxima dois entes dando a ver tanto a sua semelhança
quanto a sua diferença: ela interpreta e modifica algo, como na
tradução, não recobrindo-o inteiramente, mas conferindo-lhe um
acréscimo de ser ou um novo tributo, antes oculto. A metáfora
também não é símbolo, pois este “representa” totalmente uma coisa
em virtude de sua correspondência com ela, enquanto na relação
metafórica enfatizamos um traço de similaridade que “seleciona” e
“revela” um aspecto de alguma coisa (p.46).
A articulação do dizível com o visível, trabalhado por Brandão como busca
de um conhecimento e da pesquisa de caráter transdisciplinar aponta para vários
parâmetros. No caso do objeto aqui trabalhado, ou seja, um texto jornalístico, dentro de
um
revista
voltada
para
um
público
específico,
podemos
dizer
que
a
transdisciplinaridade trabalha em prol de uma coerência interna textual e icônica
estabelecendo assim um diálogo. Pois, como explica Brandão, a operação tradutora é de
mão dupla e não unidirecional. Ela instaura uma relação de causa e efeito.
7. Considerações finais
As metáforas do sintético e do carnavalesco utilizadas para designar
respectivamente os encenadores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa na
reportagem “Os Inventores do Teatro Brasileiro” serviria, então, não para representar no sentido classificatório, engessado -, mas para traduzir de forma poética esses dois
grandes encenadores que se instauram em uma espécie de dialética barroca. Elas servem
antes para demonstrar e não para provar algo. Assim sendo, “o olhar da tradução é
indireto, oblíquo: ele transvê. Isso se deve ao fato de que seu objeto é estabelecer
comparação e proporção entre as coisas e não sua verdade última” (BRANDÃO, 2005,
p. 83).
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dizível. In: DOMINGUES, Ivan (Org.). Conhecimento e transdiciplinaridade II:
aspectos metodológicos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p. 41-100.
BRAVO. São Paulo: Editora Abril, v. 11, n. 127, mar. 2008. p. 72-81.
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teóricas. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife: UFPE, n. 25 – 1, p. 217-237,
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SCHMIDT, Benito Bisso. Luz e papel, realidade e imaginação: as biografias na história,
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Documentos eletrônicos:
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Disponível
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Acesso em: 18 ago. 2013.
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a construção biográfica de dois encenadores do teatro brasileiro