Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Francisco de Assis Costa Professor Associado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Pará (PPGE-UFPa). Pesquisador Associado da RedeSist (IE/UFRJ), Brasil Resumo Na discussão sobre a formação da oferta de bens ambientais, menos atenção tem sido dada ao papel das vegetações secundárias – as diversas formas de “capoeira” – e os sistemas agrı́colas a que se associam e, em consequência, pouco esforço tem sido alocado à compreensão dos processos que as geram, em particular daqueles de natureza essencialmente econômica. Fundamentais para nos balanços de carbono, as “capoeiras” são componentes da paisagem rural de grande significado na realidade agrária da Amazônia, contabilizando 4,5 milhões de hectares, associados a 16,7 milhões de hectares plantados com agricultura e pasto no ano de 1995, quando da realização do último Censo Agropecuário. Para 2005 este trabalho estima terem alcançado 7,5 milhões de hectares associados a 34,3 milhões de hectares plantados. Utilizando as variáveis do Censo Agropecuário se tem indicado que 24% desse montante se associavam às formas insustentáveis de agricultura representadas pela shifting cultivation e os demais 76% corresponderiam a terras abandonadas porque degradadas por funções agropecuárias. Utilizando argumentos evolucionários, o artigo demonstra a impropriedade dessa conclusão, indicando que pouco menos da metade dessas últimas terras se associam a usos agrı́colas mais intensivos e promissores do ponto de vista econômico e ecológico, do que os usos precedentes. Numa demonstração mais abrangente desse argumento, o trabalho reconstitui uma série de quinze anos do balanço lı́quido de emissões de carbono, explicitando a participação de todas as formas de capoeira e dos sistemas de produção de que fazem parte como seus determinantes. Ao final aponta para linhas estratégicas de atuação. Palavras-chave: Amazônia, Balanço de Carbono, Economia Agrária Classificação JEL: Q52 Abstract In the discussion about the building-up of the supply side of the environmental goods market little attention has been given to the role of the secondary vegetations and hence little effort has been allocated to the understanding of the processes that generate them, particularly those of economical nature. Essential for the CO2 balance, the “capoeiras” are components of the rural landscape of great meaning in agrarian Amazonian, amounting 4,5 Revista EconomiA Janeiro/Abril 2009 Francisco de Assis Costa million hectares in the year of 1995, when the last Agricultural Census took place. Using the variables of the Agricultural Census it have been stated that 24% of that amount relate to the unsustainable forms of agriculture represented by the shifting cultivation and the others 76% would correspond to abandoned lands degraded by agricultural functions. Using evolutionary arguments, the article demonstrates the impropriety of that conclusion, indicating that about the half of the former lands associate to more intensive and, evaluates out of both economical and ecological point of view, more promising agricultural uses then their precedent ones. And more: those uses constitute overwhelmingly stage in a path initiated by the shifting cultivation led by the peasants of the area. Such a dynamics is not trivial in the production of environmental goods and so should be closely followed by the policy makers. 1. Introdução Este artigo pretende contribuir em duas frentes da problemática que relaciona as dinâmicas econômicas na Amazônia e as questões relativas às mudanças climáticas. Numa frente, onde estão em jogo questões práticas e imediatas, evoluem os arranjos para a constituição dos novos mercados de bens ambientais, nos quais parecem se acelerar providências para a formação da demanda a partir de bases normativas da limitação de emissão de gases poluentes por parte dos agentes. Do lado da oferta, ao par da esperança no desenvolvimento de novas fontes de energia limpa e de barateamento das existentes induzidas pela alteração nos respectivos preços relativos, parece se consolidar uma perspectiva que reconhece a importância dos biomas florestais originais, sobretudo os tropicais, como fontes de bens ambientais na forma de capacidade de sequestrar carbono (sink de CO2) ou de manutenção da biodiversidade. Objetivamente, parecem inevitáveis providências para aditar o Protocolo de Kyoto (PK), que, na sua formulação original não prevê nenhum mecanismo de manutenção das florestas (Ebeling 2006). Ao mesmo tempo, ganha status uma visão mais complexa dos sistemas agrı́colas. Antes tratados (quase) exclusivamente do lado da emissão de poluentes e redução da biodiversidade – i.e. do lado da demanda na formação dos novos mercados de bens ambientais, na condição de formadores de necessidades de sequestro de carbono e reposição da complexidade biológica do planeta –, um sub-conjunto de sistemas baseados em culturas perenes e em composições agro-florestais (Stern 2007, 603–621) são reconhecidos pelo recente Stern Review como potencialmente consistentes com a conservação florestal no contexto de estratégias para reduzir emissões. Se reconhece, assim, que tais atividades, reduzindo a pressão sobre as ? Recebido em agosto de 2007, aprovado em dezembro de 2008. Texto redigido no perı́odo em que o autor se encontrava Visiting Fellow do Centre for Brazilian Studies, University of Oxford. Sem o apoio acadêmico e financeiro do CBS e do CNPq, este trabalho não teria sido possı́vel. Por isso o autor agradece encarecidamente. E-mail address: [email protected] 118 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia florestas e criando mecanismo de absorção lı́quida de carbono, podem expandir a oferta e, em consequência, baratear o bem ambiental em si – a estabilização ou reversão das mudanças climáticas – tornando mais custo-efetivas as estratégias de mitigação. De modo que é urgente explicitar, no que se refere à Amazônia brasileira e, nela, o setor rural, os termos do problema e suas expressões quantitativas, de modo que se tenha uma aproximação do que poderá constituir a oferta e a demanda da Região em um segmento fundamental desses novos mercados: as emissões de CO2. Por outro lado, por razões teóricas (que se ofereça a mais aderente percepção possı́vel da realidade em questão) e mediatas (que se possam garantir nas negociações futuras correções de assimetrias dos atores envolvidos), se farão tais cálculos procurando: • Garantir uma visão analı́tica da interação entre processos econômicos e fundamentos naturais. Com isso entendemos duas coisas: ◦ Os recursos naturais da Amazônia são fatores-chave (fund-elements) de suas economias, cuja transformação e uso constituem processos entrópicos 1 que têm que ser entendidos e tratados como tal. ◦ Visualizar a economia entropicamente permite tratar apropriadamente as dinâmicas negentrópicas, propriedades anti-entrópicas dos sistemas vivos abertos para a entrada de energia, como é o caso sobre o qual nos debruçaremos (Guha e Martinez-Alier, 2006:175). • Distinguir nos processos econômicos (e suas implicações ambientais) a heterogeneidade de agentes, reconhecı́vel na heterogeneidade de fundamentos (dotações objetivos: de base natural ou social/institucional) e racionalidades (subjetivas: difusas ou sistematizadas) e suas interações. Pois a essas diferenças estruturais correspondem assimetrias de acesso a recursos naturais e sociais que se espera refletir nas formas especı́ficas de contribuição para a desordem ambiental indicadas nos balanços de emissão de CO2. Essa expectativa é levantada pelo próprio Georgescu-Roegen em trabalho pouco conhecido (Georgescu-Roegen, 1960) e enfaticamente trabalhada por Guha e Martinez-Alier (2006), para amplos contextos, e por mim para a Amazônia (Costa 2005). • Observar implicações distributivas derivados da constituição desses novos mercados, pois as formas de uso da natureza se associam a injustiça distributiva verificável tanto entre segmentos sociais (Altvater 1993), quanto entre regiões (Bunker 1985), com a acumulação de capacidades se fazendo geralmente em posições opostas àquelas onde se materializam mais intensamente as manifestações imediatas e localizáveis de entropia. 1 Porque processo de produção material. “Any material process consists in the transformation of some materials into others (the flaw elements) by some agents (the fund elements) ...” and ...“ there is no substitution between flow and fund factors” ((Georgescu-Roegen 1979, 98),(Georgescu-Roegen 1983, 23–28)). EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 119 Francisco de Assis Costa O artigo está estruturado em 3 seções, além desta Introdução. Na Seção 2 se esclarecerão as caracterı́sticas dos sistemas produtivos, na Seção 3 se desenvolverá metodologia que relacione tais sistemas com as emissões de CO2 e recupere uma série histórica dessas relações de 1990 a 2005. Na Seção 4 discutimos esses resultados para, nas conclusões, apresentar algumas indicações estratégicas para uma nova polı́tica de desenvolvimento da Amazônica. 2. Um Componente Essencial dos Sistemas Produtivos da Amazônia Agrária: As Capoeiras Áreas de floresta são incorporadas nos processos produtivos como áreas de exploração florestal de recursos madeireiros e não madeiros, como terras agrı́colas e como pastagens. Nas duas últimas funções elas podem assumir a condição de capoeira – de áreas com bosques secundários, temporária ou definitivamente fora do processo de trabalho. Compreender estas “formas de existência” das terras, as relações delas com as formas precedentes e a lógica de seu vir-a-ser é requisito fundamental para entender a dinâmica do setor rural como economia e os processos entrópicos e negentrópicos a ele referidos. Começaremos, portanto, por aqui, nossa análise. Capoeiras são tratos de áreas de variadas dimensões, os quais se encontram em estágios diferenciados de regeneração espontânea de cobertura florestal em ecossistemas alterados de modo radical por ação humana. Como tal, são componentes da paisagem rural de grande significado na Amazônia. Na principal contabilidade do desmatamento da Amazônia, que hoje se faz por uma “taxa de desflorestamento bruto”, onde se acrescem ao “passivo ambiental”, a cada ano, as áreas desmatadas em corte raso, as capoeiras seriam parcela de um “ativo ambiental” invisı́vel, posto que áreas recuperadas ou em processo de recuperação ambiental cujos valores não são levados em consideração para o que seria uma taxa de desflorestamento lı́quido. 2 E tais valores são significativos. No último Censo Agropecuário, realizado em 1995, as áreas de capoeira perfaziam 4,5 milhões de hectares em toda a Região Norte: 3 o correspondente a 8% de toda a área apropriada naquele ano na Região, a 17% de toda área em uso com pastos naturais ou plantados, com lavouras permanentes e temporárias e com florestas plantadas e a 14% de toda a área desmatada. 2 Os cálculos de desflorestamento são processados pela equipe do Projeto de Estimativas de Desflorestamento da Amazônia (PRODES), do INPE. Sobre a metodologia das estimativas ver (Krug 2001, 92–93). 3 A não ser quando especialmente esclarecido, as estatı́sticas aqui apresentadas se referem à Região Norte, composta dos estados do Pará, do Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre, Amapá e Tocantins, à qual nos referiremos em muitas oportunidades como Amazônia. A designação de Amazônia Legal, por sua vez, inclui, além dos estados listados, aproximadamente o sul de Mato Grosso e o Noroeste do Maranhão. 120 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia As distintas concepções das capoeiras No bojo das tensões produzidas pela discussão ambiental e seus reflexos na Amazônia, tem evoluı́do duas perspectivas de observação das capoeiras. Uma negativa, em que a capoeira importa enquanto momento de um processo de negação da floresta originária, do qual faz parte o fracasso de sua justificativa social – o uso agropecuário. Outra positiva, em que a capoeira importa porque momento de recomposição das propriedades ecológicas da floresta tropical como parte de (ou após um) certo uso agropecuário da base natural. Numa visão a capoeira é expressão de um passivo, de um débito patrimonial e ecológico; noutra, ela é um ativo, uma capacidade, um patrimônio. Na primeira perspectiva, capoeiras associam-se a usos insustentáveis da base natural. Os sistemas de derruba e queima, dos quais as capoeiras fazem parte, seriam insustentáveis porque de baixa eficiência econômica. Tratar-se-ia de usos só justificáveis para (pequenos e passageiros) agentes econômicos, cujo baixo custo de oportunidade em outras regiões os teria expulsado para a “fronteira especulativa” em movimento na Região Amazônica. Esta é a posição de (Schneider 1995, 15–32), encampada por Margulis (2003), para quem, dessa “fronteira especulativa” gerar-se-ia uma “fronteira consolidada”, economicamente sustentável apenas em áreas com pluviometria intermediária, própria à formação de uma pecuária altamente rentável e profissional. Aonde, segue esse autor, a grande pecuária profissional não se instala em virtude da pluviometria muito elevada – condição, aliás, dominante na maior parte da região – nada sobreviveria. Nessas áreas, em virtude da elevada umidade que bloquearia a agropecuária mais eficiente, restariam, após o inexorável fracasso da agricultura de corte, queima e pousio (shifting cultivation), terras abandonadas: capoeiras. O exemplo da Região Bragantina, no Nordeste Paraense, seria paradigmático. Nessa Região Margulis observa, em consonância com Chomitz e Thomas (2000) e com Schneider, este último agora em associação com os engenheiros florestais e agrônomos do Imazon (Schneider et alii 2000), “a evidência irrefutável de que muito poucas atividades econômicas são viáveis em áreas de alta pluviometria e que praticamente só a atividade madeireira pode fazer sentido” (Margulis 2003, 65). A compreensão final, nesse caso, é de que capoeiras novas são componentes passageiros da paisagem, uma vez que atada a uma economia ineficiente, e capoeiras velhas representam terras abandonadas, efetivação da ineficiência prenunciada, indicadores, por isso, de decadência e incapacidade. A segunda perspectiva em relação às capoeiras desenvolveu-se com pesquisas botânicas, biológicas e agronômicas realizadas também na mesma Região Bragantina no Nordeste Paraense, as quais vêm demonstrando as propriedades desses bosques – diversidade de espécies, complexidade do sistema radicular, densidade de biomassa, sendo essas propriedades tanto mais efetivas, quanto menos intenso e mais curto tenha sido o uso da área e mais tempo tenha decorrido desde a paralisação da atividade agropecuária (Vieira et alii 1996; Pereira e Vieira EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 121 Francisco de Assis Costa 2001; Vielhauer et alii 1997; Sá et alii 2004). Para os economistas, esses resultados sublinham duas coisas: a) as capoeiras são soluções tecnologicamente consistentes uma vez que, enquanto sistemas fı́sicos (relações técnicas) com grande capacidade de deter os efeitos de lixiviação e de manter as propriedades fı́sicas e mecânicas do solo, são capazes de garantir produção agrı́cola numa mesma área indefinidamente; b) mediante as novas demandas derivadas da premência crescente das questões ambientais e das mudanças climáticas, as unidades produtivas que as adotam têm a oportunidade de ampliar seu portfólio de oferta pela prestação dos “serviços ambientais” de manutenção da biodiversidade, de sequestro de carbono e de manutenção do regime de chuvas, além das sua produção agrı́cola tradicional. Com efeito, em desenvolvimento paralelo, pesquisas econômicas sobre a dinâmica agrária da região mencionada por ambos os grupos de pesquisa, demonstraram que, estatisticamente, numa perspectiva histórica, não se verificava queda na produtividade fı́sica da agricultura de corte, queima e pousio da região – após a redução drástica das colheitas nos anos 30 e 40, houve uma estabilização na produtividade média da Região, de modo que as crises cı́clicas de rentabilidade que se observaram na agricultura a partir dos anos 50 foram mais de natureza sócio-econômica do que ecológica (Hurtienne 2001). Contudo, em observações mais localizadas e temporalmente delimitadas, se observavam naquela região diversas trajetórias de intensificação da agricultura, tanto como resposta às crises da agricultura de corte, queima e pousio – sejam elas determinadas por redução da produtividade fı́sica ou por reduções na rentabilidade monetária derivadas dos preços e das condições de mercado – quanto como resultado de mudanças no ambiente institucional e nas polı́ticas públicas de fomento agrı́cola (Costa 2000). Verificava-se, ademais, que as soluções dominantes configuraram inovações expressas numa variedade de sistemas de produção marcados pela diversidade de componentes, nos quais, todavia, tenderiam a ganhar significado culturas perenes e semi-perenes, como laranja, pimenta-do-reino e maracujá, em substituição à agricultura de derruba e queima, que, assim, vinha tendencialmente perdendo significado (Costa 1996, 1997). Esse último conjunto de resultados põe questões importantes para as duas posições anteriores: À primeira, indica que o aumento da extensão e do tempo das capoeiras pode significar a outra face de dinâmicas positivas, podem ser sinais de um processo de desenvolvimento ascendente, em perspectiva econômica. De modo que as capoeiras velhas, tratadas na totalidade como indicadores de fracasso dos sistemas agrı́colas pelo primeiro grupo de autores, podem estar associadas a processos de intensificação da agricultura e, assim, a dinâmicas adaptativas em que uma agricultura economicamente mais eficiente superou sistemas mais extensivos, seus concorrentes. Exploraremos esse ponto um pouco no segmento 2.1. À segunda posição, aponta para o fato de que as capoeiras têm duas posições em relação à shifting cultivation: ou elas são seus produtos, posto que sua parte 122 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia constitutiva, ou elas são produtos de sua negação. Elas podem representar, assim, modos distintos de constituição, cuja especificidade não é de modo nenhum irrelevantes em associação com a importância que se lhes atribui como provedora de equilı́brio ambiental. Exploraremos esse ponto no segmento 2.2. 2.1. O lugar estrutural das capoeiras: Indicações empı́ricas e teóricas As capoeiras se formam, na Amazônia, em contextos econômicos dinâmicos, fortemente marcados pela heterogeneidade dos agentes, suas formas de produção e fundamentos tecnológicos (Costa 2005). A noção de heterogeneidade que aqui se privilegiará incorpora diferenças na natureza dos agentes – especificidades moldadas nos constrangimentos estruturais de modos de produção, na tradição de Chayanov (1923), Tepicht (1973) e Costa (1989, 1995, 2007a, 2007b) – e diferenças de postura associadas a “...different hypotheses or beliefs or action...” de agentes de mesma natureza, na indicações de Arthur (1994b). Nessa perspectiva, a dinâmica agrária da Amazônia é observada a partir do movimento interno e das interações competitivas e cooperativas entre duas formas de produção, a camponesa (ou familiar) e a patronal. Na primeira, a estrutura básica é a unidade de produção camponesa na segunda, há estruturas tradicionais com caracterı́sticas de fazenda e outras com caracterı́sticas de grande empresa latifundiária (conforme Costa, 2000 e 2006). À heterogeneidade dos agentes e seus modos de produção corresponde uma heterogeneidade tecnológica. Entender-se-á tecnologia, aqui, no sentido lato de conjunto de técnicas e procedimentos que fazem a mediação entre o trabalho humano socialmente objetivado e a natureza. Trata-se de mediação feita por aparatos tangı́veis e intangı́veis herdados, por um lado, de processos de trabalho passados, os quais constituem, por isso, “... órgãos da vontade humana: o poder do conhecimento objetivado” (conf. (Marx 1953, 706); herdados, por outro lado, como um paradigma, i. e., como estrutura cognitiva, “... como um ‘modelo’ ou um ‘padrão’ de solução de problemas tecnológicos selecionados (Dosi 2006, 22–23).” As capoeiras tal como se apresentam nas estatı́sticas do Censo O Censo Agropecuário de 1995-96 traz duas categorias que juntas compõem todas as terras sobre as quais se encontravam vegetações secundárias – precisamente as capoeiras, tal como as definimos acima. São elas: “Área Utilizada em Descanso”, que comporta todas as áreas em pousio até quatro anos e “Áreas Agricultáveis não Utilizadas”, que se refere às áreas que, no momento do Censo, se encontrava fora de uso por mais de quatro anos. A Figura 1 apresenta os valores dessas variáveis na Região Norte. 4 No total 4 A utilização do Censo Agropecuário se fez com base em um banco de dados construı́do a partir dos CD-ROOM do IBGE para todos os estados da Região Norte, cada uma das 960 linhas contendo as informações relativas ao “caso” “estrato de área i” por “microrregião j”, sendo i os 15 estratos de área EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 123 Francisco de Assis Costa Fonte: IBGE – Censo Agropecuário – Estado do Pará, 1995-96. Tabulações especiais do autor. Fig. 1. Terras utilizadas em descanso e agricultáveis não utilizadas no censo agropecuário, por tipo de agente, 1995-1996 (valor que trataremos daqui por diante de Ac), são 4,5 milhões de hectares: 1,1 de terras em descanso até quatro anos e 3,4 de terras não trabalhadas por mais de quatro anos. Compondo por forma de produção, 5 os camponeses responderiam por, respectivamente, 0,7 e 1,5 milhões de hectares (32% e 68%) e as unidades de produção patronais por 0,4 e 1,9 milhões de hectares (18% e 82% do total). A Capoeira: Tempo e espaço Os problemas dessa classificação do IBGE são significativos. Estabelecendo um tempo de pousio – por definição, tempo em que a terra está “parada” porque esta é sua forma de utilização – limitado a quatro anos e, ademais, tratando as terras já uma vez trabalhadas, porém não aradas por tempo superior a isso, como “não utilizadas” ela induz a graves erros na observação da realidade da maioria dos sistemas de produção que têm a capoeira como um de seus componentes. Chomitz e Thomas (2000), por exemplo, assumem diretamente que a variável utilizados no Censo e j as 64 microrregiões da Região Norte. 5 Seguindo os critérios utilizados no trabalho FAO/INCRA (2000), foram considerados estabelecimentos camponeses aqueles cuja força de trabalho familiar compõe a capacidade total de trabalho em no mı́nimo 1/2. Estabelecimentos patronais são os que contratam trabalho assalariado em montante superior a esta proporção. Calculou-se a força de trabalho familiar total somando a categoria “Membros Não-Remunerados da Famı́lia Maiores de 14 Anos” com a metade da categoria “Membros Não-Remunerados da Famı́lia Menores de 14 Anos”. Calculou-se a força de trabalho assalariada total dividindo a soma dos gastos com salários, empreitas e outras modalidades de contratação de força de trabalho pelo valor médio da diária prevalecente no local, no ano do censo e multiplicando o resultado por 300 (dias médios de trabalho por ano). Sobre a especificidade da forma camponesa de produção ver Costa (1995) e sobre as expressões disso na Amazônia ver Costa (2000). 124 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Terras Úteis não Utilizadas, do Censo Agropecuário do IBGE é precisamente o que indica a semântica da designação: terras sem função, terras abandonadas, por isso indicadores de sistemas de produção econômica e ecologicamente insustentáveis. A tese drástica que deriva daı́ é a de que, consideradas as amplas proporções da modalidade, todas as formas de uso da terra que com ela correlacionam parecem igualmente impossı́veis (Schneider et alii 2000). Há razões lógicas para duvidarmos dessa conclusão. Na realidade, o tempo de pousio necessário aos sistemas é variável que depende de condições diversas. Ximenes e Van Dyle (2000:50) propuseram a explicitação da relação tempo-espaço na agricultura de pousio pela relação de proporcionalidade t A = (1) Aa u Isto é, a área total necessária ao funcionamento do sistema (A) está para a área plantada (Aa ) assim como o tempo completo de um ciclo de uso e pousio (t) está para o tempo em que é possı́vel plantar na mesma área (u). Desmembrando a área total do sistema em área agricultada (Aa ) e área de pousio (Ac ) e o tempo total em número de anos que se pode plantar com produtividade aceitável na mesma área (u) e número de anos de formação da capoeira (n) se re-escreveria a relação Ac n c (1) de modo que AaA+A = u+n u ... Aa + 1 = u + 1 e, portanto, a Ac Aa (2) Pc n.pc (3) n=u• Se formos um pouco adiante e fizermos Ac = e Pa (4) u.pa por entendermos que a área que se decide manter como capoeira é resultado de uma produção própria da capoeira, que tanto pode ser de um certo volume de biomassa, como de um certo conjunto de funções, tais como fornecer lenha, fornecer madeira para tutorar pimenta-do-reino ou para construção civil ou, muito importante, para sequestrar carbono e manter a biodiversidade, expressa por Pc total (expressão da disponibilidade objetiva na capoeira, dos elementos que dela se requer, nos termos do sistema de produção estabelecido), alcançada gradualmente a partir de uma produtividade anual por hectare pc , e que tal volume de biomassa ou conjunto de funções é requerido para uma produção agrı́cola total Pa , obtida a partir de uma produtividade agrı́cola hectare/ano de pa , então a relação (2) seria re-escrita, assim: Aa = n=u pa Pc • p c Pa 1/2 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 (5) 125 Francisco de Assis Costa A relação (5) explicita que para uma mesma relação Pc /Pa (i.e., válida a presunção de que a relação do valor da biomassa da capoeira por unidade de produto agrı́cola gerado com base nela é, dado um estado do conhecimento, relativamente constante), a idade da capoeira, isto é, o tempo necessário para que atinja o estágio de desenvolvimento que permita a realização de sua finalidade, varia, diretamente, com a produtividade por unidade de área da agricultura e com o aumento do tempo de plantio numa mesma área e, inversamente, com a produtividade da capoeira. Assim, o tempo da capoeira, n, como variável dependente, pode crescer ou como resultado de mudanças tecnológicas positivas na agricultura (crescimento de pa e aumento de u) ou como resultado de limitações na capacidade da capoeira (redução de pc ). O que encoraja a hipótese de que parte das Terras Úteis não Utilizadas, do Censo, pode ter função produtiva e derivar de trajetórias ascendentes (e não decadentes) dos sistemas agrı́colas. Uma questão que se coloca a partir daqui é: em que proporções isso se dá? Em que medida a possibilidade lógica se transforma em realidade? 2.2. A Capoeira: Função e disfunção A existência das capoeiras resulta de três tipos de decisões: a) As decisões que levam à adoção de técnicas que pressupõem áreas de pousio. Nesse caso, a capoeira é um componente da relação técnica de uma forma de produção, integrando, assim, um sistema de produção. b) As que levam ao abandono de áreas cuja produtividade fı́sica média tende a zero na atividade desenvolvida, a qual, por isso, tende a se repetir continuamente em outras áreas. Os procedimentos tecnológicos são constantes e as capoeiras, nesse caso, são produtos, não componentes dos sistemas de produção resultantes, de uma tecnologia. c) As que levam a alterações tecnológicas, a mudanças de procedimentos a partir das quais a relação terra/trabalho diminui pela redução absoluta do volume de terras – em outras palavras, as que levam a adoção de tecnologias terra-intensivas. 6 As capoeiras são produtos de mudanças nos procedimentos tecnológicos – são resultados de inovações. Na primeira condição, trata-se de capoeira cuja função básica é a formação de biomassa para aproveitamento na agricultura: a capoeira é, assim, meio de produção, tal qual uma máquina que produzisse, in loco, nitrogênio, fósforo e outros elementos necessários à agricultura. Por isso, chamaremos a esse tipo de capoeira de capoeira-capital. O tempo de pousio, nessa perspectiva, é o tempo de processamento da capoeira-capital : trata-se, de um lado, de um tempo próprio da natureza, regido 6 Não confundir esta noção com a de “intensivas em terra” utilizada pelos economistas para designar funções de produção que usam relativamente muita terra comparativamente aos outros fatores: trabalho e capital. O que se expressa aqui é a condição de uso da terra: um sistema “intensivo em trabalho” pode usar a terra intensivamente ou extensivamente – no primeiro caso, muito trabalho por unidade de área correspondendo a baixo volume de terras, por isso terra-intensivo; no segundo caso, pouco trabalho por unidade de área correspondendo a elevado volume de terras, por isso terra-extensivo (Costa 1996). 126 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia por leis primárias dos ecossistemas de que faz parte – o que determina, na relação (5), pc ; de outro lado, é tempo condicionado por variáveis da agricultura (Pa /Pc , pa e u) resultantes do estágio do seu desenvolvimento como atividade econômica, em dado contexto que (sempre) supõe mercado. De um modo ou de outro, trata-se de vegetação secundária com tempo determinado pela lógica do processo produtivo, para sua realização naquilo para o que foi “criada”, i. e., para sua transformação em inputs do processo agrı́cola. Respeitado o tempo da capoeira, todavia, a extensão da capoeira-capital é, também, endogenamente contida, regulada pela extensão das necessidades da agricultura (conf. a relação 2). Na segunda condição, a capoeira resulta da deterioração das relações edafo-climáticas de uma dada área, como resultado do impacto dos procedimentos tecnológicos de certos sistemas de produção sobre a base natural – solo, água, ar. A capoeira, nesses casos, associa-se a terras tratadas pelos produtores de um modo que não difere em nada daquele como na indústria se trata os bens já depreciados: as sucatas. Poderı́amos designá-la, assim, de capoeira-sucata ou capoeira-resı́duo. Como resultados das razões que levam à existência desse tipo de capoeira, seu pc e seu Pa são muito pequenos, tendendo a zero e, portanto, seu tempo, n, tende, na relação (5), ao infinito, independente das demais condições. Com o tempo tendendo ao infinito, esse tipo de capoeira teria uma extensão também tendendo ao infinito (conf. a relação (2)) – ela não seria, nesses termos, endogenamente contida. Por outra parte, as capoeiras-sucata nem sempre são sintomas da decadência econômica dos sistemas que as geraram, muito menos de seus gestores: elas podem ser condição para que a rentabilidade desses sistemas se mantenha, ou mesmo aumente. Na terceira condição, tipicamente aquela produzida pela substituição de formas extensivas por formas relativamente mais intensivas de uso da terra, a substituição, por exemplo, da shifting cultivation ou da pecuária extensiva por plantio de culturas perenes e semi-perenes, a capoeira é o resultado da adoção de novas técnicas que tornaram a capoeira-capital economicamente obsoleta, isto é, sem função no sistema de produção, mesmo que sua capacidade fı́sica de produção de biomassa seja elevada, mesmo que ela continue apresentando capacidade de operação. Por isso, tais capoeiras associam-se a terras no geral vistas como bens ociosos, justificáveis, tão somente, como reservas de valor. Chamaremos aqui tais áreas de capoeira-reserva. Em função das condições que levam à formação da capoeira-reserva, Pa (a produção agrı́cola dependente da capoeira) na relação (5) é muito pequeno e tende a zero, fazendo com que aqui também se tenha uma capoeira livre de regulação de tempo para que se transforme em elementos para agricultura. Há, entretanto, quanto a isso, uma diferença importante em relação às capoeiras-sucata: nestas, o fato de pc tender a zero faz Pc (isto é, a expressão objetiva da maturidade da capoeira) tender a zero também, indicando que dela poderá derivar a deterioração contı́nua da base natural, no caso extremo, à desertificação (conf. relação 3); nas capoeiras-reserva, por sua vez, as condições de formação permitem pc significativamente diferentes de zero, permitindo nı́veis de maturidade e complexificação correspondentes no tempo, podendo levar, no outro extremo, a formações botânicas muito semelhantes às do bioma originário, EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 127 Francisco de Assis Costa às florestas. 3. Agentes Heterogêneos, Procedimentos Tecnológicos e Formação de Capoeiras Os argumentos acima nos levam a duas perguntas. Se se dispõe dos valores totais das capoeiras, o que se pode dizer sobre as proporções que assumem suas diversas formas? O que se pode dizer, em adição, das suas respectivas posições na diversidade estrutural dos fundamentos produtivos – base tecnológica – e reprodutivos – base social? Para responder a isso temos que dar dois passos. Primeiro, descer ao nı́vel micro e verificar, para cada estabelecimento, 7 como se combinam as informações relativas às capoeiras e as demais variáveis de alocação de recursos e de obtenção de resultados. Segundo, verificar, mediante avaliação de consistência dessa relação, as proporções em que ocorre cada tipo de capoeira. O esforço exige tratar a heterogeneidade de agentes na perspectiva de um modelo evolucionário, no qual a decisão de um agente é influenciada pelas decisões dos outros agentes no quadro da competição dinâmica entre trajetórias. Em tal contexto, as decisões de mudança e inovação são tomadas em ambiente de incerteza e incorporam, por processo de busca e seleção, as possibilidades e limites do meio institucional e natural onde ocorrem (Nelson e Winter 1982; Dosi 2006). Os procedimentos resultantes se associam a processos históricos de aprendizado que “...podem ser vistos como competição dinâmica entre diferentes hipóteses ou crenças ou ações” (Arthur 1994b, 133). Testamos em outro lugar, o alcance dessas idéias na delimitação de grandes trajetórias rurais na Amazônia (Costa 2008). Para os propósitos deste artigo, importa observar os componentes “capoeiras” das trajetórias na perspectiva micro indicada por (Arthur 1994a, 13–32), mediante a qual os agentes tomam decisões path-efficient. Isto é, em qualquer tempo t, se há duas tecnologias, uma T1, que gera capoeira-sucata, por exemplo, e outra T2, que gera capoeira-reserva, por exemplo, uma escolha pela tecnologia T1, que se estabelece na variante m com payoff ΠT 1 (m), enquanto a tecnologia T2 se situa na variante k < m, se fará enquanto ΠT 1 (m) ≥ maxj {ΠT 2 (j)} para k ≤ j ≤ m. A consistência das decisões dos agentes é dada, pois, pelo grau de aderência que apresentam em relação a esse postulado. Isso implica que para um estabelecimento qualquer, o quanto de capoeira-reserva, por exemplo, teoricamente justificável, é a parcela do total que ele contabiliza de capoeiras em todas as formas (a sua parcela em Ac , cujo total foi explicitada na Figura 1) capaz de ser explicada por um cálculo compatı́vel com uma decisão path-efficient – decisão tomada antes, refletida, porém, no ano do Censo – em favor de atividades e procedimentos (de 7 Nesse estudo, não dispomos dos microdados do IBGE e, portanto, não temos as informações no nı́vel do informante. O que consideramos aqui são as informações dos 960 estabelecimentos médios correspondentes aos “casos” mencionado na nota 3 e suas respectivas frequências. 128 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia fundamentos tecnológicos, pois) que geram capoeira-reserva. O mesmo ocorre em relação à capoeira-sucata ou à capoeira-capital. 3.1. Os diversos tipos de capoeiras e os sistemas aos quais se associam no Censo de 1995-96 Esse raciocı́nio nos permite calcular todas as formas de capoeira já indicadas. Comecemos pelas capoeiras-reserva. Há as que provêm da passagem de sistemas agrı́colas extensivos para sistemas agrı́colas intensivos; as que provêm da passagem de sistemas pecuários extensivos para intensivos. Para os primeiros, considere-se que áreas com culturas temporárias ou pasto em um montante A são convertidas em áreas com culturas permanentes ou silvicultura em um montante Apa e em capoeiras, em um montante AR c , de modo que P A = AR (6) c + Aa Considerando a condição path efficient para um único agente em contexto de rendimentos constantes a conversão se fará enquanto P R r A • p ≤ AP (7) a • pa + Ac • pc Isto é, a área total aplicada no uso anterior multiplicado pela rentabilidade desse uso por unidade de área (p = proxy do payoff da shifting cultivation) é menor ou igual à área aplicada com permanentes multiplicada pela rentabilidade das permanentes por unidade de área (ppa = proxy do payoff dos sistemas com culturas permanentes) mais a área com capoeira multiplicada pela rentabilidade da capoeira (prc ). Se substituirmos A em (7) pelo seu valor em (6), se considerarmos adicionalmente que o valor produzido pela capoeira é irrelevante (momentaneamente), portanto prc = 0 e que o processo de conversão se faz até seu limite, onde os dois termos da inequação se igualam, então: P AR pP AR pP c + Aa c a a = · · · + 1 = AP p AP p a a e, assim, pP a − 1 • AP (8) a p Temos valores para todas essas variáveis no nosso banco de dados baseado no Censo Agropecuário, de modo que podemos encontrar a área das capoeiras-reserva para cada caso mencionado em 3.2, com a ressalva de que, por não termos uma distinção da área com pecuária intensiva em relação com a de pecuária extensiva, não podemos especificar a relação (6) e, portanto, não sabemos quanto das capoeiras-reservas provém da intensificação da pecuária. As capoeiras-sucata (Asc ), por sua vez, têm dois componentes, o que deriva da pecuária bovina e o que deriva da shifting cultivation. As que provêm da pecuária ec são determinadas pela proporção do solo exigida pela pecuária (AP a ) no conjunto aR c = EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 129 Francisco de Assis Costa ec das atividades que produzem capoeira – pecuária (AP a ) e culturas temporárias (ATa emp ). Essa proporção se projeta sobre a área com capoeiras que não é explicada pela formação de capoeiras-reserva (Ac − AR c ). Assim, ec AP a • (AC − AR (9) ASc = C) ec + AT em AP a a Com os dados do Censo podemos facilmente calcular, caso a caso, tais áreas. Já não temos como calcular, agora, a capoeira-sucata provinda da shifting cultivation. Finalmente, as capoeiras-capital (AK c ) seriam obtidas por diferença, de modo que: R S AK c = AC − AC − AC (10) Aplicadas essas relações a cada caso do Censo Agropecuário, criam-se as novas variáveis que representam os três tipos de capoeira em associação (i.e. como parte da mesma unidade de informação) com as demais variáveis definidoras dos sistemas tecnológicos e formas sociais de produção, as quais, tabuladas, compõem a Tabela 1, para a Região Norte. Capoeira-capital e capoeira-sucata As capoeiras-capital, as que se constituem em componentes ativos dos sistemas de produção baseados em 1,2 milhões de ha com culturas temporárias perfazem um total de 771.562 ha, dos quais os camponeses participam com 80% e os estabelecimentos patronais com 20%. As terras de fato abandonadas, provavelmente imprestáveis, que aqui tratamos como capoeira-sucata ou capoeira-resı́duo, associadas a 14,8 milhões ha de pasto, seriam equivalentes a 2,3 milhões de ha, do que 30% associados aos sistemas de produção camponeses e 70% aos sistemas de produção patronais. 130 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 352.704 1.244.211 Região Norte 771.562 157.785 613.777 727.845 185.252 542.594 1.443.200 547.757 895.443 (Arc )1 reserva 14.762.658 10.820.183 3.942.476 ec (AP ) a pastos 2.281.531 1.662.800 618.731 2 (AS c) sucata Capoeira (F P ec ) Área com floresta 25.502.292 16.191.153 9.311.140 (AM ata ) Total de Terras 46.733.300 29.917.633 16.815.667 E apropriadas/utilizadas3 Fonte: IBGE – Censo Agropecuário: todos os estados da Região Norte, 1995-96. Tabulações especiais do autor. Notas: 1 Aplicação da relação (8) com as seguintes r r r restrições: a) se Ar c > Ac então Ac = Ac; b) se Ac < 0 então Ac = 0; c) considerando p como sendo a renda lı́quida total por unidade de área aplicada à pecuária e às culturas temporárias, incluindo nesta última as capoeira necessárias para um pousio de 6 anos e uma utilização de um plantio de culturas brancas na mesma r S r 3 área por 2 anos. 2 Aplicação da relação (9) com a restrição de que se AS c > (Ac − Ac ) então Ac = Ac − Ac . Aplicação das relações (10). Todas as terras dadas como utilizadas no Censo. Há uma diferença para o total das propriedades que inclui áreas alagadas e outras dadas como inaproveitáveis. 891.507 2.Patronais (AP a) 3 (AK c ) (AT a) culturas capital permanentes culturas Temporárias Capoeira permanentes (F P ) Área com Capoeira temporárias (F T ) Área com 1.Camponeses Produção Existência de Fundamento Técnico 3: Fundamento Técnico 4: Baseadas em culturas Intensificação com culturas Dominância da pecuária Fundamento Técnico 2: Fundamento Técnico 1: Social da Tabela 1. As diversas forma de capoeira na Região Norte, seu contexto técnico e forma de produção, 1995-96 (Ha) Fundamento Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia 131 Francisco de Assis Costa Digressões sobre as estimativas de capoeira-reserva As terras em forma de capoeira-reserva, associadas a uma área com culturas permanentes de 0,73 milhões ha, alcançaram 1,4 milhões ha, dos quais 0,9 milhões dos camponeses (64% do total) e os demais 0,5 milhões (36%) dos estabelecimentos patronais. Isso significa que 42% das áreas informadas pela categoria “Terras Úteis não Utilizadas”, do IBGE resultam de intensificação do uso do solo pela introdução de culturas permanentes. No que se refere aos camponeses, isso converge com um conjunto de estudos que mostram ser esse um fenômeno observado em toda a Região Norte, detectado na mesorregião Nordeste Paraense já nos anos oitenta (Costa, 2000), em Rondônia (Maciel 2004), nas mesorregiões Sudeste e Sudoeste Paraense (Solyno Sobrinho 2004; Michelotti 2002) e Baixo e Médio Amazonas e Alto Solimões (Costa e Inhetvin 2007) nos anos noventa e na presente década. Estudos adicionais mostram, por outro, que o movimento é consistente posto que amparado em mercados urbanos regionais de grande significado e rápido crescimento, bem como na expansão do mercado nacional e internacional de produtos regionais e na articulação com uma indústria de processamento local que cresce, diversifica e moderniza a rápidas taxas (Costa e Inhetvin 2007; Costa et alii 2006; Santana 2004; Lopes e Santana 2005; Santana e Gomes 2005). 8 Do lado das empresas e fazendas, que explicam em torno de 1/3 das capoeiras-reserva, duas questões devem ser ressaltadas: que a implantação de culturas permanentes tem tido maior dependência de recursos institucionais de crédito e que, em muitas regiões, plantios com permanentes não têm se mostrado lucrativos. Temos chamado a atenção para o fato de que isso pode estar associado às dificuldades gerais de plantios homogêneos de grande escala na Amazônia (Costa 1993, 2005). A ação dos fundamentos especı́ficos da base natural amazônica tem levado a que a agricultura em geral e, em particular, a agricultura de grande escala evolua na Região sob o peso de dificuldades de ordem técnica: os sistemas agronômicos intensivos, de composição botânica homogênea, mediante a fortı́ssima pressão da biodiversidade tropical, favorecida pelo clima quente e úmido, sofrem ataques de um sem número de fungos e bactérias, que elevam a probabilidade de predação, e de um sem número de plantas invasoras, cuja concorrência limita o desenvolvimento das poucas variedades utilizadas. Tais condicionantes reduzem os ciclos de vida das culturas, a vida útil dos elementos de capital fı́sico e a resiliência produtiva do capital natural, encarecendo relativamente ou, mesmo, impossibilitando sistemas produtivos na razão direta da sua frequência e extensão. Digressão sobre erros I: Qual o significado das subestimações? As estimativas acima 8 Óleos, cosméticos, etc. 132 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia a) subestimam o valor da capoeira-reserva porque não se tem meios de calcular o efeito da intensificação da pecuária – só o efeito da intensificação pela agricultura e silvicultura; b) subestimam a capoeira-sucata porque não se tem meios de calcular sua formação a partir da shifting-cultivation e c) aos valores das subestimações mencionadas correspondem superestimações nos valores da capoeira-capital, impossı́veis de serem explicitadas. Qual o significado desses erros? Uma resposta imediata é que serão tanto mais importantes, quanto mais relevantes forem a intensificação da pecuária e a redução do tempo de rotação das capoeiras da shifting cultivation. Sobre isso convém as seguintes considerações: Sobre a intensificação da pecuária e a importância do erro da capoeira-reserva. A Figura 2 demonstra, primeiro, que a pecuária de corte não intensifica a produção até a escala média de 4,3 mil cabeças. Só a partir daı́, e numa escala de 12,5 mil cabeças, verifica-se intensificação. Segundo, que este segmento que intensifica com a escala representa 1% da atividade. Mais detalhadamente, em 1995, 48% do rebanho total provinham de estabelecimentos com rebanhos até 200 cabeças, com média de 19 cabeças. Esse grupo de estabelecimentos toca a pecuária como parte de sistemas de produção complexos e diversificados, dominantemente camponeses, pouco especializados, nos quais o valor da produção da pecuária representa apenas 24% do total. Ademais, do valor da produção pecuária bovina, 76% provém da produção de leite e seus derivados. Estas caracterı́sticas dotam estes estabelecimentos de um grau de intensificação medido pela capacidade de suporte de 0,9 cab/ha – a maior de todas as classes de rebanho (conforme Figura 2). Nas quatro escalas seguintes – 201 a 1.000 cabeças, com média de 392, 1.001 a 3.000 cabeças, com média de 1.455 cabeças, 3001 a 8.000, com média de 4.318 cabeças e mais que 8.000 cabeças, com média de 12.849 cabeças – o grau de especialização em pecuária de corte aumenta, representando respectivamente 80%, 89%, 94% e 97% do valor da produção pecuária dos estabelecimentos. O grau de intensificação dos estabelecimentos com rebanhos cai para 0,6 cab/ha e se mantém praticamente a mesma nas duas classes seguintes – respectivamente 0,59 e 0,56 cab/ha. Só nos estabelecimentos com rebanho acima de 8.000 cabeças é que este parâmetro aumenta significativamente, para 0,78 cab/ha (ver Figura 5). A rentabilidade, por seu turno, cresce com a escala de produção, não obstante a taxas decrescentes: dá um salto de R$ 1.509 para R$ 2.503 nos dois primeiros intervalos, cresce para R$ 2.929 no seguinte e para R$ 2.995, no último. Para 99% da atividade da pecuária de corte, a rentabilidade correlaciona positivamente com a escala mas é indiferente à intensidade do uso da terra. O erro, portanto, no que se refere à formação de capoeira-reserva a ela associada parece ser irrelevante. Sobre a formação de capoeira-sucata na shifting cultivation. No formato atual dos dados do Censo, verificar variações no tempo de rotação da capoeira associada à shifting cultivation para determinar em que medida daı́ poderiam resultar capoeiras-sucata parece impossı́vel. Sobre este ponto se pode, entretanto, indicar EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 133 Francisco de Assis Costa Fonte: IBGE – Censo Agropecuário – Estado do Pará, 1995-96. Tabulações especiais do autor. Fig. 2. Proporção (%) do rebanho associada à escala média (cabeças por estabelecimento) e a intensidade (cabeça por hectare) da pecuária bovina na Região Norte, em 1995 que a formação de capoeira-sucata na shifting cultivation se dá a partir ou através da pecuária de corte. Isto é, a agricultura de pousio é, a rigor, um primeiro ponto numa trajetória que, mediante crises que alguns analistas têm chamado de “crises da capoeira”, bifurca em sistemas dominados por culturas permanentes (que comporta em muitas regiões uma pecuária de leite) e sistemas dominados por pecuária de corte. 9 Estes últimos formam as capoeiras-sucata, as quais foram captadas nas estimativas feitas. Aqui, também, se entende ser o erro associado à subestimação mencionada irrelevante. 3.2. Formação de capoeiras pela expansão dos seus fundamentos: Evolução do uso do solo nos sistemas de produção fundamentais Dados os estoques em 1995 dos diversos tipos de capoeiras, dados os seus fundamentos técnicos e sociais, modelamos a evolução do conjunto, tanto à montante, quanto à jusante desse ponto. Para tanto consideramos o seguinte: 1. Que se mantiveram constantes os coeficientes técnicos das relações entre os diversos tipos de capoeira e seus fundamentos. Isso implica assumir tecnologia constante, com implicações sobre as quais discorreremos depois. 2. Que a evolução das áreas plantadas com culturas permanentes e com culturas temporárias e a expansão do rebanho bovino estimadas pelo IBGE para toda a Região Norte são indexadores robustos para a evolução dos fundamentos da existência das capoeiras. Com isso se poderia ter o seguinte: 9 Ver sobre crises da capoeira a revisão de Hurtienne (2001). Ver também a extensa dedução de trajetórias tecnológicas no setor rural da Amazônia apresentada em Costa (2006). 134 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia T F(t) P F(t) P ec F(t) = ATa(t) = AP a(t) = ec AP a(t) + AC c(t) + AR c(t) + ASc(t) = ATa(1995) .IT . = AP a(1995) .IP . = ec AP a(1995) .IP ec . 1+ 1+ AC c(1995) ! (11) ATa(1995) AR c(1995) ! (12) AP a(1995) 1+ ASc(1995) ec AP a(1995) ! (13) Para F sendo o fundamento produtivo dominante, I o indexador do fundamento em questão – se de culturas temporárias (T ), se de culturas permanentes (P ) ou se de pecuária (P ec), expressos como ı́ndices, respectivamente, da área plantada de culturas temporárias, culturas permanentes e rebanho bovino das bases de dados da Produção Agrı́cola Municipal e da Produção Pecuária Municipal, do IBGE para toda a Região Norte – para qualquer ano t, de 1989 a 2005 (conf. Tabela 2). Tabela 2 Evolução da área plantada com culturas temporárias1 e permanentes2 e do rebanho bovino3 da Região Norte como indexadores dos fundamentos da economia agrária, 1989-2005 (Índices para 1995 = 1) 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Temporárias (IT ) 0,76 0,76 0,77 0,90 0,88 0,99 1,00 0,89 0,90 0,97 1,05 1,04 0,92 0,91 1,01 1,13 1,26 Permanentes (IP ) 1,00 0,97 0,94 1,01 0,99 0,99 1,00 0,90 0,86 0,88 1,04 1,13 1,17 1,14 1,21 1,12 1,14 Pecuária (IP ec ) 0,60 0,69 0,80 0,83 0,89 0,94 1,00 0,94 1,01 1,10 1,17 1,28 1,42 1,59 1,77 2,07 2,16 Fonte: IBGE, Produção Agrı́cola Municipal (PAM) e Pesquisa da Pecuária Municpal (PAM). 1 Abacaxi, Algodão herbáceo, Amendoim, Arroz, Batata-doce, Cana-de-açúcar, Feijão, Fumo, Juta, Malva, Mandioca, Melancia, Melão, Milho, Soja, Sorgo, Tomate. 2 Abacate, Banana, Borracha, Cacau, Café, Castanha de caju, Coco-da-baı́a, Dendê, Goiaba, Guaraná, Laranja, Limão, Mamão, Manga, Maracujá, Palmito, Pimenta-do-reino, Tangerina, Urucum, Uva. 3 Número total de cabeças do rebanho bovino. Assumindo, por outra parte, a hipótese de que todo o desenvolvimento agrário do perı́odo se fez com base numa mesma estrutura de propriedade – isto é, que o conjunto de terras apropriadas em 1995 já constituı́a o patrimônio fundiário dos agentes do setor rural no inı́cio da década de noventa e continuou sendo o acervo sobre o qual operaram até 2005, de modo que E é constante (sobre o significado dessa hipótese voltaremos depois), então terı́amos: ata T P P ec AM = E(1995) − F(t) − F(t) − F(t) (t) (14) Com isso reconstituı́mos a evolução das áreas utilizadas no setor nos seus principais elementos constitutivos, conforme resultados apresentados na Tabela 3. EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 135 Francisco de Assis Costa 3.3. Sistemas de produção e balanço de carbono A essas áreas se aplicaram parâmetros de emissão e sequestro de Carbono em conformidade com Fearnside (2000) e Nepstedt et alii (1999), seguindo a seguinte metodologia: 10 + AT c(t) + AT a(t) z }| { C }| { z C Ac(t) T+ F(t) = C.(ATa(t) − ATa(t−1) ) + 5. . 15 5 AC− c(t) T− z }| { Aa(t) z }| { C AC c(t) T− F(t) = − 9.ATa(t) + . 15 5 P+ + F(t) = AP a(t) + 0 P− F(t) − AP a(t) AR− c(t) ec+ P ec P ec P ec P ec F(t) = AP = A − A a(t) a(t−1) .C + 6.Aa(t) a(t) P ec− F(t) (16) (17) z }| { z }| { C P C R = − 20 .Aa(t) + 15 .Ac(t) ec− AP a(t) (15) (18) (19) AS− c(t) z }| { z }| { C S ec = 6.AP .A a(t) + 60 c(t) M ata− M ata− ata F(t) = A(t) = 0, 45.AM (t) (20) (21) 10 Tomamos estes dois trabalhos porque apresentam o estado da arte do conhecimento relativo a essa questão na Região. O trabalho de Fearnside (2000), um famoso pesquisador em ecologia florestal na Amazônia, há anos fazendo contabilidades de variáveis importantes da questão ambiental para a região, faz uma atualização de levantamento anterior (Fearnside, 1997), e apresenta detalhadamente os resultados disponı́veis na literatura pertinente para cada tema: derruba, queima, floresta originária, etc. O trabalho de Nepstedt (e associados), também um renomado especialista em ecologia florestal da Amazônia, é menos técnico, mais um esforço de divulgação, de suma importância, contudo, porque sua avaliação e escolha de parâmetros funciona para mim, um leigo, como corroboração qualificada das suas fontes. Não obstante, se o fato de acatar médias para regiões tão vastas e diversas apresenta seus riscos, dos quais estou plenamente consciente. Nos importa, sobretudo, o exercı́cio da metodologia e a discussão estratégica que seus resultados podem permitir, mesmo quando sujeitos a considerável (porém aceitável e controlável) margem de erro. Mais um ponto deve ser anotado: a metodologia que apresentamos permite, como já mencionado, a leitura caso a caso, dos dados do Censo Agropecuário, permitindo, assim, o uso de valores regionalizados em nı́vel de municı́pio e, mesmo, distrito censitário. Se disponı́veis parâmetros de emissão e sequestro nesse nı́vel, uma contabilidade correspondentemente acurada seria possı́vel. 136 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia +− T+ T− P+ P− P ec+ P ec− M ata− E(t) = F(t) + F(t) + F(t) + F(t) + F(t) + F(t) + F(t) (22) Nas Equações (15) a (22) C representa o estoque médio de carbono contido em um hectare de mata na Amazônia (200t/ha, de acordo com as fontes indicadas), F o balança lı́quido emissão/sequestro de carbono do fundamento produtivo e E o balanço final do setor em cada ano t. Os divisores de C são os anos que a vegetação da variável em questão precisaria para atingir o nı́vel de estoque de carbono da mata (os resultados são, pois, os valores de absorção/liberação em toneladas de carbono/ha/ano). O divisor da capoeira capital é o tempo de pousio (os resultados são os volumes de capoeira que entram em operação no ano t). Os demais parâmetros (9 na Equação (16), 6 nas Equações (19) e (20) e 0,45 na Equação (22)) são valores derivados das duas fontes mencionadas de emissão/sequestro em t/ha/ano relativo à variável parametrada. Os balanços de emissão ano a ano de 1990 a 20005 e seus componentes de emissão e sequestro por fundamento produtivo e modo de produção, resultantes da aplicação desse método, estão na Tabela 4. Discutiremos esses resultados à luz do nosso questionamento inicial no próximo capı́tulo. Aqui importa anotar que o valor do balanço encontrado para 1990, de 214,1 Gt de CO2 equivalente, é muito diferente, porém não incompatı́vel com o balanço de Fearnside de 353-359 Gt de CO2 equivalente. A diferença se explicará em grande parte (difı́cil, porém, de estabelecer) porque a nossa contabilidade abarca a Região Norte, enquanto a de Fearnside a Amazônia Legal (Fearnside 2000, 2) inclui, além dos sete estados da grande região, o Mato Grosso e parte do Maranhão, onde, no perı́odo em questão importantes fronteiras se desenvolviam no Norte de Mato Grosso e no Noroeste do Maranhão. Em menor escala influi também o fato de que a contabilidade aqui apresentada não inclui, como a de Fearnside, as atividades madeireiras. EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 137 138 Camponeses Formas de Produçao Ano ec AT AT AP AR AP a(t) c(t) a(t) c(t) a(t) 1991 685.355 471.847 512.259 845.382 3.157.129 1992 801.774 551.998 549.313 906.532 3.256.751 1993 782.174 538.505 535.927 884.441 3.507.538 1994 878.157 604.586 534.570 882.202 3.692.365 1995 891.507 613.777 542.594 895.443 3.942.476 1996 797.203 548.852 487.152 803.948 3.695.749 1997 803.469 553.165 466.189 769.353 3.966.052 1998 862.426 593.756 479.831 791.866 4.336.161 1999 936.689 644.884 564.791 932.076 4.609.941 2000 927.364 638.464 615.098 1.015.097 5.038.817 2001 823.071 566.661 633.925 1.046.167 5.607.403 2002 809.599 557.386 619.752 1.022.777 6.253.677 2003 896.498 617.213 654.746 1.080.529 6.973.150 2004 1.010.994 696.040 609.105 1.005.206 8.176.983 2005 1.124.517 774.198 618.714 1.021.065 8.526.747 Patronais 1990 269.025 120.351 180.148 532.665 7.511.398 1991 271.145 121.299 174.895 517.134 8.664.788 1992 317.203 141.903 187.546 554.540 8.938.202 1993 309.449 138.435 182.976 541.027 9.626.489 1994 347.422 155.422 182.512 539.657 10.133.750 1995 352.704 157.785 185.252 547.757 10.820.183 1996 315.395 141.094 166.323 491.788 10.143.037 1997 317.874 142.203 159.166 470.625 10.884.888 1998 341.199 152.638 163.823 484.397 11.900.657 1999 370.579 165.782 192.830 570.166 12.652.052 2000 366.890 164.131 210.006 620.951 13.829.107 2001 325.629 145.673 216.434 639.957 15.389.601 2002 320.299 143.288 211.595 625.649 17.163.308 2003 354.679 158.668 223.543 660.977 19.137.914 2004 399.976 178.933 207.960 614.901 22.441.851 2005 444.889 199.025 211.241 624.602 23.401.784 Total 1990 949.024 588.510 707.792 1.403.437 10.248.274 1991 956.499 593.146 687.155 1.362.517 11.821.917 1992 1.118.977 693.902 736.859 1.461.072 12.194.953 1993 1.091.623 676.939 718.902 1.425.467 13.134.027 1994 1.225.579 760.008 717.082 1.421.859 13.826.115 1995 1.244.211 771.562 727.845 1.443.200 14.762.658 1996 1.112.598 689.946 653.475 1.295.736 13.838.786 1997 1.121.342 695.369 625.355 1.239.978 14.850.941 1998 1.203.625 746.394 643.654 1.276.263 16.236.818 1999 1.307.268 810.666 757.622 1.502.242 17.261.993 2000 1.294.254 802.595 825.104 1.636.048 18.867.924 2001 1.148.700 712.334 850.359 1.686.124 20.997.004 2002 1.129.898 700.674 831.347 1.648.426 23.416.984 2003 1.251.177 775.882 878.289 1.741.506 26.111.064 2004 1.410.969 874.973 817.065 1.620.108 30.618.835 2005 1.569.405 973.222 829.955 1.645.667 31.928.532 Fonte: Tabela 1 para o ano de 1995. Os demais, estimativas do autor com base na metodologia apresentada no texto. AS c(t) 495.479 511.114 550.472 579.479 618.731 580.010 622.431 680.516 723.483 790.790 880.024 981.450 1.094.364 1.283.293 1.338.185 1.154.320 1.331.568 1.373.585 1.479.358 1.557.312 1.662.800 1.558.739 1.672.744 1.828.843 1.944.314 2.125.199 2.365.009 2.637.585 2.941.034 3.448.769 3.596.287 1.583.844 1.827.047 1.884.699 2.029.830 2.136.791 2.281.531 2.138.749 2.295.175 2.509.359 2.667.797 2.915.989 3.245.033 3.619.035 4.035.398 4.732.062 4.934.473 ata AM (t) 10.648.215 10.238.185 10.016.611 9.644.309 9.311.140 9.902.753 9.635.008 9.071.111 8.403.802 7.790.036 7.258.415 6.571.027 5.499.165 4.034.045 3.412.241 20.149.726 18.836.804 18.404.653 17.639.900 17.001.557 16.191.153 17.101.256 16.270.133 15.046.075 14.021.910 12.601.348 10.835.330 8.815.909 6.440.819 2.625.243 1.439.806 31.252.418 29.485.019 28.642.838 27.656.511 26.645.866 25.502.292 27.004.009 25.905.140 24.117.187 22.425.712 20.391.384 18.093.746 15.386.936 11.939.984 6.659.288 4.852.046 E(t) 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 16.815.667 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 29.917.633 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 46.733.300 Tabela 3. Evolução das áreas utilizadas na economia agrária da Região Norte por forma de produção(HA0 )i Francisco de Assis Costa EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 T+ T− C+ P+ Ano A A A A a(t) a(t) c(t) a(t) Camponeses 1990 7.305.010 -6.119.986 -4.993.701 0 1991 7.362.551 -6.168.193 -5.033.036 0 1992 30.643.754 -7.215.963 -5.887.981 0 1993 3.260.161 -7.039.567 -5.744.048 0 1994 27.257.679 -7.903.411 -6.448.916 0 1995 10.853.704 -8.023.562 -6.546.955 0 1996 0 -7.174.827 -5.854.416 0 1997 8.628.677 -7.231.219 -5.900.430 0 1998 19.708.231 -7.761.836 -6.333.395 0 1999 23.451.081 -8.430.204 -6.878.761 0 2000 6.647.863 -8.346.279 -6.810.281 0 2001 0 -7.407.643 -6.044.386 0 2002 4.737.325 -7.286.391 -5.945.448 0 2003 25.609.374 -8.068.485 -6.583.610 0 2004 32.179.594 -9.098.942 -7.424.429 0 2005 33.027.256 -10.120.650 -8.258.108 0 Patronais 1990 2.025.182 -2.421.229 -1.283.742 0 1991 2.041.134 -2.440.301 -1.293.854 0 1992 11.103.726 -2.854.826 -1.513.636 0 1993 294.978 -2.785.040 -1.476.635 0 1994 9.666.955 -3.126.799 -1.657.837 0 1995 3.160.127 -3.174.334 -1.683.040 0 1996 0 -2.838.552 -1.505.008 0 1997 2.391.821 -2.860.862 -1.516.836 0 1998 6.700.200 -3.070.788 -1.628.140 0 1999 8.086.517 -3.335.212 -1.768.338 0 2000 1.450.578 -3.302.010 -1.750.734 0 2001 0 -2.930.660 -1.553.843 0 2002 844.502 -2.882.690 -1.528.409 0 2003 8.991.513 -3.192.107 -1.692.463 0 2004 11.445.243 -3.599.783 -1.908.614 0 2005 11.636.213 -4.003.998 -2.122.930 0 Total 1990 9.330.192 -8.541.215 -6.277.443 0 1991 9.403.685 -8.608.493 -6.326.890 0 1992 41.747.480 -10.070.789 -7.401.617 0 1993 3.555.139 -9.824.607 -7.220.684 0 1994 36.924.634 -11.030.210 -8.106.753 0 1995 14.013.831 -11.197.896 -8.229.995 0 1996 0 -10.013.380 -7.359.424 0 1997 11.020.497 -10.092.081 -7.417.266 0 1998 26.408.431 -10.832.624 -7.961.535 0 1999 31.537.599 -11.765.416 -8.647.099 0 2000 8.098.441 -11.648.289 -8.561.015 0 2001 0 -10.338.303 -7.598.229 0 2002 5.581.827 -10.169.080 -7.473.858 0 2003 34.600.887 -11.260.591 -8.276.073 0 2004 43.624.836 -12.698.725 -9.333.043 0 2005 44.663.468 -14.124.648 -10.381.038 0 Fonte: Tabela 1 para o ano de 1995. Os demais, estimativas Produçao P− R− P ec+ P ec− S− A A A A A a(t) c(t) a(t) a(t) c(t) -5.276.443 -11.610.294 87.097.808 -16.421.258 -1.431.749 -5.122.594 -11.271.765 100.471.855 -18.942.776 -1.651.597 -5.493.131 -12.087.094 38.867.155 -19.540.507 -1.703.712 -5.359.267 -11.792.540 69.697.814 -21.045.227 -1.834.907 -5.345.701 -11.762.688 58.010.686 -22.154.190 -1.931.596 -5.425.937 -11.939.240 72.176.307 -23.654.854 -2.062.437 -4.871.523 -10.719.307 0 -22.174.494 -1.933.366 -4.661.892 -10.258.035 76.235.126 -23.796.313 -2.074.770 -4.798.310 -10.558.208 97.818.070 -26.016.965 -2.268.386 -5.647.914 -12.427.680 80.773.031 -27.659.647 -2.411.610 -6.150.980 -13.534.627 113.434.789 -30.232.902 -2.635.968 -6.339.247 -13.948.889 143.950.182 -33.644.420 -2.933.414 -6.197.517 -13.637.026 162.899.086 -37.522.060 -3.271.501 -6.547.464 -14.407.051 181.416.778 -41.838.901 -3.647.881 -6.091.048 -13.402.753 282.605.514 -49.061.900 -4.277.645 -6.187.142 -13.614.198 119.014.725 -51.160.485 -4.460.618 -1.801.477 -7.102.205 239.041.218 -45.068.385 -3.847.733 -1.748.951 -6.895.122 275.746.487 -51.988.728 -4.438.560 -1.875.459 -7.393.871 106.671.479 -53.629.211 -4.578.617 -1.829.755 -7.213.688 191.286.678 -57.758.935 -4.931.194 -1.825.123 -7.195.427 159.211.183 -60.802.502 -5.191.040 -1.852.517 -7.303.427 198.088.939 -64.921.096 -5.542.667 -1.663.230 -6.557.174 0 -60.858.225 -5.195.797 -1.591.658 -6.275.006 209.228.428 -65.309.331 -5.575.812 -1.638.234 -6.458.627 268.463.137 -71.403.945 -6.096.143 -1.928.305 -7.602.213 221.682.773 -75.912.310 -6.481.046 -2.100.061 -8.279.351 311.323.450 -82.974.644 -7.083.996 -2.164.339 -8.532.762 395.073.397 -92.337.607 -7.883.363 -2.115.949 -8.341.990 447.078.945 -102.979.847 -8.791.949 -2.235.428 -8.813.026 497.901.023 -114.827.482 -9.803.446 -2.079.599 -8.198.681 775.615.001 -134.651.108 -11.495.897 -2.112.407 -8.328.026 326.637.668 -140.410.704 -11.987.625 -7.077.920 -18.712.499 326.139.026 -61.489.644 -5.279.482 -6.871.545 -18.166.887 376.218.342 -70.931.505 -6.090.157 -7.368.589 -19.480.965 145.538.634 -73.169.718 -6.282.329 -7.189.022 -19.006.228 260.984.492 -78.804.162 -6.766.101 -7.170.824 -18.958.115 217.221.869 -82.956.693 -7.122.636 -7.278.454 -19.242.667 270.265.246 -88.575.949 -7.605.103 -6.534.753 -17.276.481 0 -83.032.718 -7.129.163 -6.253.550 -16.533.042 285.463.554 -89.105.643 -7.650.583 -6.436.543 -17.016.836 366.281.207 -97.420.910 -8.364.529 -7.576.219 -20.029.893 302.455.804 -103.571.957 -8.892.656 -8.251.041 -21.813.978 424.758.239 -113.207.546 -9.719.964 -8.503.586 -22.481.651 539.023.580 -125.982.027 -10.816.777 -8.313.466 -21.979.016 609.978.031 -140.501.907 -12.063.450 -8.782.892 -23.220.077 679.317.802 -156.666.384 -13.451.327 -8.170.647 -21.601.434 1.058.220.515 -183.713.008 -15.773.541 -8.299.550 -21.942.224 445.652.393 -191.571.189 -16.448.242 do autor com base na metodologia apresentada no texto. M ata− A a(t) -4.996.211 -4.791.697 -4.607.183 -4.507.475 -4.339.939 -4.190.013 -4.456.239 -4.335.753 -4.082.000 -3.781.711 -3.505.516 -3.266.287 -2.956.962 -2.474.624 -1.815.320 -1.535.508 -9.067.377 -8.476.562 -8.282.094 -7.937.955 -7.650.701 -7.286.019 -7.695.565 -7.321.560 -6.770.734 -6.309.860 -5.670.607 -4.875.899 -3.967.159 -2.898.368 -1.181.359 -647.912 -14.063.588 -13.268.259 -12.889.277 -12.445.430 -11.990.639 -11.476.032 -12.151.804 -11.657.313 -10.852.734 -10.091.571 -9.176.123 -8.142.185 -6.924.121 -5.372.993 -2.996.680 -2.183.421 +− E (t) 43.553.175 54.852.748 12.975.338 15.634.944 25.381.924 21.187.015 -57.184.173 26.605.391 55.707.201 36.986.585 48.866.097 70.365.897 90.819.507 123.458.137 223.613.071 56.705.271 170.474.252 200.505.544 37.647.490 107.648.454 81.428.708 109.485.967 -86.313.551 121.169.183 178.096.726 126.432.007 201.612.626 274.794.925 317.315.453 363.430.216 623.945.203 168.660.278 214.027.427 255.358.292 50.622.828 123.283.398 106.810.632 130.672.982 -143.497.724 147.774.573 233.803.927 163.418.592 250.478.724 345.160.822 408.134.960 486.888.353 847.558.274 225.365.549 Tabela 4. Evolução das áreas utilizadas na economia agrária da Região Norte por forma de produção(HA0 )i Formas de Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 139 Francisco de Assis Costa 3.4. Digressão sobre erros II: É possı́vel assumir que a pecuária de corte não intensificou ao longo do tempo? Nas estimativas do item anterior assumo que os parâmetros tecnológicos se mantêm os mesmos ao longo de todo o perı́odo. Há pouca dúvida sobre isso no que trata da produção baseada nas culturas temporárias e permanentes dos estados da Região Norte. Todavia, no que se refere à pecuária, o pressuposto requer discussão, considerando que (Margulis 2003, op. cit.), em trabalho amplamente citado, indica como tendência a formação de uma “fronteira consolidada” na Amazônia baseada em “...uma pecuária altamente rentável e profissional” – sugerindo, com isso, uma atividade que evolui intensificando o uso da terra. O que se demonstra é que a pecuária de corte na Amazônia conduzida pelas fazendas e empresas é profissional, no sentido de que é rentável – por suposto. Contudo, isso não implica, no que se refere ao uso do solo, que seja, ou mesmo que esteja se tornando intensiva. Ao contrário: ser extensiva parece ser condição para que seja rentável. Já demonstrei isso em 4.4 para o ano de 1995. Vejamos o que se passa em perı́odos mais recentes, me autorizando a pressuposição já comentada. Nos anos de 2002 e 2003, a FNP-Consultoria fez pesquisas de custos anuais e rentabilidade da pecuária de corte, em nı́vel de fazendas, em 7 regiões da Amazônia Legal – 4 em Mato Grosso, 2 no Pará, 1 em Rondônia e 2 no Tocantins – distinguindo 3 nı́veis de intensificação tecnológica (extensivo 0,6 cab/ha; semi-intensiva 0,8 cab/ha; intensiva 1 cab/ha) e duas escalas de produção diferentes, de 500 e de 5.000 cabeças. E apresentam dois indicadores de rentabilidade: o payback, como rentabilidade sobre o patrimônio total, e a rentabilidade por unidade de área. Calculadas as médias para a Amazônia, encontramos os resultados apresentados na Figura 3 para 2003. São as seguintes as conclusões que se podem derivar: • Escala de 500 cabeças. A rentabilidade do nı́vel mais extensivo (0,64 cab/ha) é a maior rentabilidade das unidades produtivas com média de 500 cabeças. • Escala de 500 cabeças. À proporção que o nı́vel tecnológico aumenta (passa para 0,86/cab/ha), as unidades produtivas de menor escala têm menor eficiência pelos dois indicadores, chegando a proporcionar rendimento negativo no nı́vel tecnológico mais elevado (1,02/cab/ha). • Escala de 5.000 cabeças. Em maior escala, o nı́vel tecnológico mais baixo (0,61 cab/ha), tem rentabilidade em torno de quatro vezes superior a de menor escala no mesmo nı́vel tecnológico. • Escala de 5.000 cabeças. A proporção que o nı́vel tecnológico se eleva a rentabilidade por unidade de área cresce – apesar do payback reduzir em nı́vel intermediário (0,79 cab/ha) – atingindo um máximo no nı́vel mais alto de intensidade (0,98 cab/ha). Tais resultados, completamente compatı́veis com os números do Censo, indicam que a intensificação na pecuária de corte, partindo da escala média dos estabelecimentos que detêm a metade do rebanho com esse fim, não é path-efficient 140 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Fonte: FNP (2003). Fig. 3. Paybacks (%) e rendimento por hectare (R$/Ha) para diferentes escalas de produção e diferentes nı́veis tecnológicos para a Amazônia e para o resto do Brasil, em 2003 – não produz uma trajetória consistente: se os estabelecimentos com rebanho médio de 500 cabeças mudassem a tecnologia para uma intensidade de 0,86 cab/ha eles teriam a rentabilidade diminuı́da em 35%, aproximadamente; e, se forçassem a adoção de tecnologias que elevassem a intensidade para 1,02 cabeças, a rentabilidade cairia a taxas mais elevadas ainda. Todavia, a rentabilidade é crescente com a escala, para a mais baixa intensidade de 0,6 cab/ha. Como se demonstra na Figura 4, o coeficiente angular de um reta que vai do ponto A (rentabilidade por unidade de área de R$ 27,9 e escala de 500 cabeças para a menor intensidade de 0,6 cab/ha) ao ponto B (rentabilidade R$ 92,6 para escala de 5.000 cabeças para a mesma intensidade de 0,6 cab/ha) seria 0,014, de modo que a cada 100 cabeças a mais no rebanho médio acresce R$ 1,40, isto é, 5%, na rentabilidade. EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 141 Francisco de Assis Costa Em suma, na pecuária de corte na Amazônia se combinam soluções tecnológicas extensivas no uso da terra, aquelas que geram capoeira-sucata, e rentabilidade crescente com a escala. Em tal contexto, constatam-se desenvolvimentos tecnológicos que atuam mais sobre os rebanhos do que sobre as condições das pastagens e o crédito institucionalizado que internaliza esses avanços, onde se destacam os créditos provenientes do FNO, atuam fortemente no incremento da escala de produção. Dela emana, correspondentemente, uma enorme tensão de incorporação de novas terras. 4. Discussão dos Resultados A economia agrária da região amazônica é um aparato fı́sico e um sistema social. Se quiser, um sistema social que é parte de um sistema maior regulado por leis fı́sicas e naturais. Enquanto sistema social se reproduz em processos entrópicos que transformam a matéria altamente estruturada da floresta em meios de produção (sistemas agrı́colas e pecuários) e dejetos: a energia dissipada do CO2 e a matéria (relativamente degradada) das capoeiras-sucata. Nos sistemas agrı́colas e nas capoeiras o processo de absorção de CO2 pela foto-sı́ntese das plantas constitui fator de negentropia pelo potencial de neutralizar os efeitos deletérios da emissão. A emissão não neutralizada é indicador de entropia realizada, e, assim, medida objetiva de uma necessidade para a sustentabilidade – i.e. para as condições de permanência de dada sociedade. A constituição dos mercados de bens ambientais tem nesse fato seu fundamento de última instância. Uma medida do estoque lı́quido (diferenças anuais emissões-sequestro acumuladas) de carbono derivado da economia agrária da Região Norte é indicador da sua contribuição para a entropia global. A Figura 4 mostra a evolução da grandeza e seus determinantes (que se lê no eixo da esquerda em toneladas de carbono), bem como as taxas de crescimento do resultado lı́quido (que se lê do lado direito em % a cada ano). Os números absolutos mostram, por uma parte, que o saldo acumulado multiplicou por um fator 10 em 15 anos, de uma média de 330,2 Gt nos três primeiros anos para uma média 3.313 Gt nos três últimos: um resultado impressionante por si, potenciado por um crescimento rápido da emissão. O vetor de emissão cresce mais rápido, a média dos três primeiros anos sendo multiplicada por 9,6 relativamente aos três últimos. Não obstante, é importante notar que há vetores de sequestro evoluindo também (fator 8,1), espontaneamente – isto é, movidos pelas lógicas econômicas que os fundamentam Isso sugere, para uma heurı́stica de soluções, caminhos estratégicos a explorar, ao que retornaremos depois. Observadas as taxas de crescimento, evidenciam-se duas fases bem definidas: na primeira prevalecem taxas, que iniciam muito altas, mas são decrescentes até aproximadamente 1996. A partir daı́ se observam taxas crescentes com indicação de queda nos últimos anos da série. Uma associação imediata com as flutuações 142 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Fonte: Tabela 4. Notas: 1 Os valores anuais foram acumulados. 2 Para o total de emissão se somaram, para cada ano, todos os valores com sinal positivo. 3 para o total de sequestro, se somaram todos os valores com sinal negativo. 4 Para o balanço, somaram-se os resultados das operações anteriores 2 e 3. 5 Taxas de crescimento anuais. Fig. 4. Evolução do balanço lı́quido entre emissão e sequestro de carbono na economia agrária da Amazônia, 1990 a 2005 conjunturais dos principais produtos envolvidos sugere uma explicação com base na flutuação dos preços em moeda doméstica da carne e de outras comodities. Mas há a influência menos notada das polı́ticas públicas de fomento, sobretudo as associadas ao FNO, a partir das ênfases diferenciadas nessas mesmas fases: na primeira deles marcada por uma reorientação em favor dos sistemas baseados em culturas permanentes camponeses e a segundo por um retorno ao privilégio da pecuária de corte praticada pelas fazendas e empresas – como demonstramos em outro lugar (Costa 2005). EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 143 Francisco de Assis Costa Adicionalmente, três pontos merecem destaque: 1. O peso absolutamente fundamental dos sistemas baseados em pecuária de corte, em particular daquela praticada pelos estabelecimentos patronais, produtores de capoeiras-sucata, nas emissões de CO2 (Figura 5). 2. O peso, também absolutamente fundamental, dos sistemas camponeses baseados em culturas permanentes, produtores de capoeiras-reserva, no sequestro de carbono (Figura 6). 3. O peso, também importante, dos sistemas patronais de cultura permanente (Figura 6). 4. O peso decrescente da floresta na definição do saldo (Figura 6). Fonte: Tabela 4. Ver Notas da Figura 4. 1 Os valores anuais foram acumulados. 2 Se somaram, para cada ano, todos os valores com sinal positivo. Fig. 5. Evolução dos vetores de emissão de carbono na economia agrária da Amazônia, 1990 a 2005 (valores acumulados) 144 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Fonte: Tabela 4. Notas: 1 Os valores anuais foram acumulados. 2 Para o total de emissão se somaram, para cada ano, todos os valores com sinal positivo. 3 para o total de sequestro, se somaram todos os valores com sinal negativo. 4 Para o balanço, somaram-se os resultados das operações anteriores 2 e 3. 5 Taxas de crescimento anuais. Fig. 6. Evolução dos vetores de sequestro de carbono na economia agrária da Amazônia, 1990 a 2005 (valores acumulados) EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 145 Francisco de Assis Costa 5. Conclusões As capoeiras são componentes da paisagem rural de grande significado na realidade agrária da Amazônia, contabilizando 4,5 milhões de hectares no ano de 1995, quando da realização do último Censo Agropecuário. O modo como se percebe essas áreas é fundamental para uma contabilidade que delimite o potencial de oferta e demanda de bens ambientais associados à economia de base agrária na Amazônia. No bojo das discussões sobre sustentabilidade econômica e ecológica da agricultura na Região, autores relevantes assumem que a parcela desse valor correspondente à variável designada Terras Úteis não Utilizadas, no Censo Agropecuário do IBGE, são terras sem função porque associadas a sistemas de produção agrı́colas econômica e ecologicamente insustentáveis. Por esta ótica, essa variável do Censo seria indicador da insustentabilidade inerente desses sistemas. As terras nessa condição somavam, na Região Norte, no ano do Censo, 3,4 milhões de hectares, representando 76% de todas as capoeiras e 6% das terras apropriadas total. Demonstramos acima que é possı́vel explicar 42% das áreas informadas pela categoria “Terras Úteis não Utilizadas”, do IBGE, como resultado de intensificação do uso do solo pela introdução de culturas permanentes. Convergindo com um conjunto de estudos que mostram ser esse um fenômeno observado em toda a Região Norte, essas áreas estimadas de capoeira-reserva parecem resultar de inovações que fundamentam movimento ascendente (e não decadente, como se cogitou) da evolução da agricultura na Amazônia. Trata-se de constatação importante, porque explicita a existência de trajetória tecnológica consistente, resultante de padrões adaptativos e evolucionários que têm se mostrado eficientes na resolução de problemas da shifting cultivation – i.e. a busca de soluções para as crises desse padrão produtivo levando a que um número relevante de estabelecimentos camponeses configurem novos padrões baseados, dependendo da região, em sistemas diversificados de fruticultura e comodities industriais de cultivo perene ou semi-perenes. Trata-se, ademais, de trajeto consistente porque ancorado em mercados urbanos regionais, nacional e internacional de grande significado e rápido crescimento. Do lado das empresas e fazendas, que explicam em torno de 1/3 das capoeiras-reserva, ressaltamos que a implantação de culturas permanentes tem tido maior dependência de recursos institucionais de crédito e que com muita frequência plantios com permanentes não têm se mostrado lucrativos. A ação dos fundamentos especı́ficos da base natural amazônica tem levado a que, sobretudo, a agricultura de grande escala evolua na Região sob o peso de dificuldades de ordem técnica que reduzem os ciclos de vida das culturas, a vida útil dos elementos de capital fı́sico e a resiliência produtiva do capital natural, encarecendo relativamente, por vezes impossibilitando os sistemas produtivos na razão direta da sua frequência e extensão. São estas mesmas limitações, aliás, que aliadas à ligiviação do solo produzida 146 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia pela elevada pluviometria própria da Região – que leva à perda intensa tanto dos nutrientes naturais quanto dos insumos quı́micos industriais – têm fundamentado em última instância o caráter até então necessariamente extensivo da pecuária de corte, a que nos referimos acima. Não obstante, a pecuária de corte na Amazônia é atividade rentável, tanto mais quanto lhes favoreça as conjunturas de mercado, tanto mais, por outra parte, quanto lhes seja possı́vel, estrutural e sistematicamente, formar capoeira-sucata. Na dinâmica que produz capoeiras-reserva associadas à intensificação da agricultura por culturas permanentes encontramos o principal vetor de formação de capacidade de sequestro de CO2 – e portanto, de basear processos negentrópicos – do setor rural da Amazônia. Na dinâmica que produz capoeiras-sucata associadas à pecuária de corte encontramos o principal vetor de emissão de carbono: o principal vetor de entropia. Com efeito, entre os anos iniciais da década de noventa e meados do atual decênio, as emissões de carbono do setor rural na Amazônia (baseado na relação de propriedade encontrada em 1995) multiplicaram por 9,6, chegando a um total de 3.313 Gt. Contudo, arrastada pelas dinâmicas que formam copeiras-reserva, a capacidade de sequestro cresceu em ritmo próximos, atingindo −749 Gt. Tomados em conjunto, esses resultados permitem indicar, para o que está se configurando como uma nova economia polı́tica associada à institucionalidade em formação em torno das mudanças climáticas, que há fundamentos, na economia agrária da Amazônia, para uma polı́tica abrangente de contrarrestação à evolução do balanço lı́quido de emissão do setor, por dois encaminhamentos: • Confrontando o principal vetor de emissão, a pecuária de corte. A tarefa poderá ser facilitada porque a atividade central, a pecuária de corte, não obstante rentável, se mostra vulnerável por ter o payoff facilmente contestável – o que representa, numa outra ótica, baixo custo de oportunidade na reorientação dos recursos, em particular da terra, na direção de atividades com balanços lı́quidos de emissão de carbono favoráveis. • Fortalecendo os sistemas que sequestram carbono, os florestais, mais frequentemente mencionados, os propriamente agrı́colas e as diversas combinações entre uns e outros. Há trajetórias em andamento que demonstram habilidades endógenas nessa perspectiva, mostram capacidades próprias na formação de redes e ambientes que as fortalecem e consolidam. Tais fundamentos devem ser objetos de atuação estratégica de grande abrangência e penetração. Adicionalmente, os balanços produzidos contribuem: • Na criação de bases para um cálculo de virtuais perdas e ganhos sociais (para o Paı́s, para a Região) associados à eventual existência de um mercado mundial de carbono. A tı́tulo de ilustração, de 1990 a 2005 as emissões acumuladas de 4.517 Gt, num mercado cujo poder de compra 11 permitisse meros US$ 11 Tal “poder de compra” é determinante do preço que se venha a formar no mercado de bens ambientais mas é determinado por decisões não econômica – polı́ticas e éticas. É esclarecedor, nesse ponto, o EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 147 Francisco de Assis Costa 1,00/t, equivaleria a uma perda de US$ 4,5 bilhões. Adicionalmente, supondo que o poder de compra do mercado de carbono eleva o preço da tonelada para US$ 10,00, a perda seria de US$ 45 bilhões. Se explicita, aqui, os tradeoffs em relação às alternativas – o custo de oportunidade social à minimização dessas perdas –, orientando a reflexão sobre condições e necessidades institucionais que poderiam torná-los menos limitantes à um ideal de sustentabilidade. • Na criação de bases para um cálculo que permita visualizar uma injustiça distributiva e refletir sobre as possibilidades de sua correção. Se, digamos, vigorasse o preço de US$ 1,00/t de CO2 e os emissores fossem obrigados a pagar para os que produzem o bem ambiental “sequestro de carbono”, os primeiros teriam tido que transferir, nesse meio tempo, US$ 0,749 bilhão para os segundos. Numa visão invertida, isso quer dizer que nas condições atuais (em que existe a necessidade e que ela corresponderia, se existisse o mercado, a US$ 1,00 de poder de compra por tonelada de carbono) o fato desse mercado não existir estaria permitindo um ganho indevido de US$ 0, 749 bilhão por parte dos emissores e uma perda equivalente por parte dos produtores de bens ambientais: estaria havendo uma transferência de renda destes para aqueles (mediada pelas relações com a natureza). Ademais, a obrigação de pagar, imputada aos emissores, garantiria, para além da correção da injustiça em relação aos sequestradores de carbono, uma formação de recursos sociais de US$ 3,8 bilhões, os quais poderiam, por exemplo, ser aplicados na mitigação da entropia produzida pelos emissores e na formação do conhecimento que fortalecesse as atividades sequestradoras. Estes são pontos que se precisam discernir em todo o seu significado (e, para tanto, dedicar esforços sistemáticos de pesquisa) para que, no bojo das novas institucionalidades em construção ao redor das mudanças climáticas, se estabeleçam os fundamentos institucionais que, garantindo ao agente a liberdade de mudar de posição no que se refere à sua relação com os fundamentos naturais – da condição de gestor de atividades que emitem para a de gestor de atividades que sequestram – garantam, para todos, o direito a uma vida social mais digna, equilibrada e justa. comentário de Herman Daly com relação à formação de preços de bens ambientais: “A distiction should be made between ‘price-determined’ and ‘price-determining’ decisions. The criteria underlying the collective setting of the agregate constraints are ecological and ethical. These ecological and ethical decisions are price-determining, not ‘price-determined”’ (Daly 1999, 98). 148 EconomiA, Brası́lia(DF), v. 10, n. 1, p. 117–151, jan/abr 2009 Dinâmica Agrária e Balanço de Carbono na Amazônia Referências bibliográficas Altvater, E. (1993). Ilhas de sintropia e exportação de entropia – Custos globais do fordismo fossilı́stico. Caderno NAEA, 11:3–56. Arthur, W. B. (1994a). Competing technologies, increasing returns and lock-in by historical small events. In Arthur, W. B., editor, Increasing Returns and Path Dependence in the Economy, pages 13–32. University of Michigan Press, Michigan. Arthur, W. B. (1994b). Path dependence, self-reinforcement and human learning. In Arthur, W. B., editor, Increasing Returns and Path Dependence in the Economy, pages 134–158. University of Michigan Press, Michigan. Bunker, S. G. (1985). Underdeveloping the Amazon: Extraction, Unequal Exchange and the Failure of the Modern State. University of Chicago Press, Chicago. 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