Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
ISSN: 1414-8145
[email protected]
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Brasil
Costa Alves, Ana Paula; Assis de Sousa Moreira, Fábio; Silva Júnior, Osnir Claudiano da
Cuidado e solidariedade: São Francisco de Assis e a enfermagem
Escola Anna Nery Revista de Enfermagem, vol. 9, núm. 2, agosto, 2005, pp. 176-182
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=127720493003
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176
Interação no cuidado e Enfermagem fundamental
Castro ES et al
ARTIGOS DE PESQUISA
RESEARCH ARTICLES - ARTÍCULO DE INVESTIGACIÓN
CUIDADO E SOLIDARIEDADE:
SÃO FRANCISCO DE ASSIS E A ENFERMAGEMa
Attention and solidarity:
San Francisco de Assis and the nursing
Cuidado y solidaridad:
San Francisco de Assis y la enfermería
Ana Paula Costa Alves
Fábio Assis de Sousa Moreira
Osnir Claudiano da Silva Júnior
Resumo
O objeto deste estudo é a idéia da solidariedade franciscana como fundamento para a Enfermagem entendida como
profissão de ajuda ao ser humano em suas necessidades biológicas, psicológicas e sociais. Objetivos: Identificar as
concepções de solidariedade desenvolvidas por São Francisco, correlacionar essas concepções com o cuidado e analisar
a dimensão de sua obra como um elemento inspirador para a enfermagem. Metodologia: Estudo teórico, de natureza
qualitativa do tipo histórico-social, desenvolvendo-se a partir de análise bibliográfica no conjunto da obra de São Francisco
de Assis e na literatura sobre esse mito da cristandade. Resultados e conclusões: O cuidado prestado por São Francisco,
alicerçado na essência do ser humano, e sedimentado em todo o movimento franciscano, confirma a idéia da solidariedade
como fundamento para o cuidado e para a Enfermagem. Nesse sentido, as contribuições do personagem em questão
ultrapassaram as fronteiras da Idade Média e perduram até os dias atuais.
Palavras-chave: História da Enfermagem. Idade Média. Solidariedade.
Abstract
Resumen
The study’s object is the idea of Franciscan solidarity as a
basis for the Nursing that can be understood as a profession
of human support in their biological, psychological and social
necessities. Objectives: To identify the conceptions of
solidarity developed by San Francisco, correlate those
conceptions with care, and ot analyze the dimension of his
workmanship as an inspired element for Nur sing.
Methodology: There is an abstract study concerning
qualitative method of research about the social-historic type.
It has developed from bibliographical analysis in the set of
the workmanship of San Francisco de Assis and in literature
on this myth of the Christianity. Results and conclusions:
The care provided by San francisco consolidates the essence
of human beings, and stablishes all the Franciscan’s
movements to confirm the idea of solidarity as a basis for
the care and the Nursing. This way, the contributions of
the personage mentioned, has exceeded the borders of
the Middle Age and this contributions last so far.
El objeto de este estudio es la idea de la solidaridad
franciscana como fundamento para la Enfermería
comprehendida como profesión de ayuda al ser humano en
sus necesidades biológicas, psicológicas y sociales.
Objetivos: Identificar las concepciones de solidaridad
desarrolladas por San Francisco de Assis, correlacionar esas
concepciones con el cuidado y analizar la dimensión de su
obra como un ingrediente de inspiración para la Enfermería.
Metodología: Estudio teórico, de naturaleza cualitativa del
tipo histórico-social, desarrollándose por medio de análisis
bibliográfico en el conjunto de la obra de San Francisco de
Assis y en la literatura a cerca de esa leyenda de la
cristianidad. Resultados y conclusiones: El cuidado prestado
por San Francisco, cimientado en la esencia del ser humano,
y sedimentado en todo el movimiento franciscano, confirma
la idea de la solidaridad como fundamento para el cuidado y
para la Enfermería. En esa dirección, las contribuiciones
del personaje en tema ultrapasaron las fronteras de la Edad
Media y perduran hasta los días actuales.
Keywords:
Palabras clave:
Interação no cuidado e Enfermagem fundamental
Castro ES et al
INTRODUÇÃO
São Francisco de Assis é apresentado no livro “História
da Enfermagem” de Waleska Paixão (1979), pioneira na
pesquisa e difusão da História da Enfermagem no Brasil1,
como precursor da Enfermagem moderna. Francisco
Bernadone viveu entre 1182 e 1226 na Itália, uma região
dividida em várias unidades políticas independentes entre
si. Após o Congresso de Viena (1815), passou a ser
dominada por austríacos, franceses e pela Igreja Católica.
A unificação completa, da Itália que conhecemos hoje, se
daria bem mais tarde, em 1870, após as cidades de Roma
e Veneza aderirem à unificação.
Localizada ao norte da Itália, mais precisamente na
parte baixa da encosta do Monte Subásio, a comuna de
Assis, murada e com portões, era uma das mais antigas
aldeias e fora nominalmente cristã desde o século II,
havendo sido conquistada em 1160 pelo Imperador
Romano Frederico Barbarroxa, que governava as regiões
que hoje conhecemos como Alemanha, Áustria, Suíça,
França (metade de suas terras), Holanda e Itália (com
exceção dos Estados Papais). No entanto, o povo de
Assis não se submeteu de bom grado, e logo explodiu
revolta aberta, dominada em 1174 pelo príncipe-bispo
alemão Cristiano de Mains2.
Na Itália Medieval, assim como em toda a Europa,
formou-se, como conseqüência do desenvolvimento
demográfico e econômico, um poderoso movimento de
urbanização. Atrelado a esse movimento, entretanto,
estavam as condições miseráveis em que viviam os
cidadãos de Assis. É bem verdade que cada um desses
cidadãos era categorizado de acordo com sua importância
social, a saber: os de condição superior - essencialmente
os nobres - eram chamados de maiores, os de importância
média eram os mediani e os denominados minores eram
aqueles de categoria inferior. Essa divisão perdurou por
quase dois séculos.
A violência estampada no cotidiano refletia as difíceis
condições a que quase todos estavam submetidos,
principalmente as mulheres. Era comum a violência contra
a mulher, e somente as mulheres nobres ou membros da
corte do imperador podiam recorrer aos tribunais.
A dor e a morte prematura eram tomadas com
naturalidade. “A maioria dos recém-nascidos não passava
dos primeiros meses, e a maior parte dos sobreviventes
não chegava à adolescência”2:30. Não existiam antisépticos e grande parte das enfermidades era tratada
com algumas ervas. Noções básicas de higiene não faziam
parte do cotidiano europeu, não havia preocupação com
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a água que se ingeria, e muito menos esgotos sanitários.
Os alimentos, devido a um armazenamento inadequado,
se deterioravam rapidamente. Pequenas infecções, gripe
e diarréia, rapidamente se tornavam graves. Epidemias
deixavam os adultos vulneráveis. Havia grandes surtos
de pneumonia, febre tifóide, tuberculose, varíola, lepra e
inúmeras outras doenças. Cabe destacar que a posição
geográfica da Itália favorecia a grande circulação de
mercadores do Oriente, norte da África e Europa Ocidental,
talvez essa seja a origem da maioria dessas enfermidades.
Em Assis, assim como em toda Europa, todos os que
tinham alguma deformidade desfigurante eram
considerados leprosos e não podiam entrar nas cidades,
a não ser para pedir esmola ou comida e, ainda assim,
essas pessoas tinham que tocar uma sineta ou matraca
de alarme, de cujo som quase todos fugiam. Muito já se
escreveu sobre a origem e existência da hanseníase, por
outro lado, muitos desses escritos são citações de fontes
descrevendo a moléstia sem os seus aspectos peculiares.
Nos trabalhos de Hipócrates (467 a.C.), não há referência
a qualquer condição que se assemelhe à doença. Admitese que foram as tropas de Alexandre, o Grande, quando
voltaram à Europa, depois da conquista do mundo então
conhecido, que trouxeram soldados contaminados com a
doença nas campanhas realizadas na Índia (300 a.C.).
Essas informações são de difícil comprovação. A origem
da hanseníase, até hoje, é um assunto polêmico no meio
científico. A Bíblia, por exemplo, é outra fonte de dados
sobre a existência da hanseníase entre os judeus.
Cabe-nos um destaque especial à hanseníase, pois
se trata de uma doença que trazia, como conseqüência,
uma forte exclusão social, o que a torna diferente de
outras moléstias da época. Insignificantes, os leprosos
faziam parte do conjunto dos minores devido ao não
reconhecimento de sua força de transformação social.
Os leprosários eram verdadeiros depósitos de restos
humanos, com péssimas condições de higiene e poucos
recursos, devido à força cultural que a doença exercia,
onde se acreditava que tal patologia era uma espécie de
castigo divino. Viviam de algumas doações, mas nem
sempre supriam suas necessidades e no inverno rigoroso
muitos morriam de frio, e a fome era uma constante.
Um importante fator a considerar no presente contexto
é o grau de dependência desses indivíduos e as condições
em que viviam. Expostos e humilhados, eram tratados
como marginais. Desconfiados e com comportamento
introvertido, uma simples tentativa de aproximação era
motivo de medo e fuga.
Precisamos entender o contexto em que se insere
Francisco Bernadone para podermos evoluir num
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processo de intuição e discernimento que nos permita
isolar alguns dos fatos ocultos sob as formas antigas.
Nesse sentido, o objeto deste estudo é a idéia da
solidariedade franciscana como fundamento para a
enfermagem entendida como profissão de ajuda ao ser
humano em suas necessidades biológicas, psicológicas
e sociais. Para este estudo foram eleitas as seguintes
questões: 1. Qual a dimensão da solidariedade na vida
e obra de São Francisco de Assis?; e 2. Qual a relação
entre a vida e a obra de São Francisco de Assis com a
Enfermagem? E os objetivos do estudo são: 1.
identificar as concepções de solidariedade desenvolvidas
por São Francisco de Assis; 2. correlacionar essas
concepções com o cuidado e 3. analisar a dimensão
da obra de São Francisco de Assis como um elemento
inspirador para a Enfermagem.
METODOLOGIA
Metodologicamente, trata-se de um estudo teórico, na
perspectiva de Tachizawa e Mendes3, de natureza qualitativa
do tipo histórico-social, desenvolvendo-se a partir de análise
bibliográfica no conjunto da obra de São Francisco de Assis
e na literatura sobre este mito da cristandade, em busca da
idéia da solidariedade na vida e obra de São Francisco de
Assis e como inspiração para a Enfermagem.
Francisco foi o homem que nos inspirou o desejo de
fazer dele um objeto de história. Na verdade, o que
pudemos constatar, no período de seleção de material,
foi um quantitativo considerável de biografias superficiais
e com certo teor de romantismo, o que dificultou o
processo de seleção. Iniciamos a busca pelos prefácios
dos livros de Donald Spoto e Jacques Le Goff, ambos com
um comprometimento com a qualidade histórica das
biografias. Para a compreensão da noção de cuidado,
utilizamos as contribuições de Leonardo Boff, autor
contemporâneo, e de uma obra de Florence Nightingale4,
considerada a fundadora da enfermagem moderna.
RESULTADOS
Francisco de Assis e o cuidado do outro
Para começarmos a compreender Francisco,
precisamos enxergá-lo tanto quanto possível além de
nossos conceitos modernos, e partir do princípio que se
trata de um italiano medieval, um homem cuja realidade
era bem diferente da nossa e, portanto, dificilmente
encontraremos uma resposta sintética à questão do “ser
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enfermeiro”, pois Francisco não se anunciava assim, e
julgamos discutível vê-lo como tal. Mesmo porque a
Enfermagem Moderna nasce em 1860, com Florence
Nightingale, após a criação da Escola de Enfermagem no
Hospital St. Thomas – Inglaterra.
Nascido na região do vale de Espoleto, por volta de
1182, filho único de um próspero casal de comerciantes,
o jovem Francisco Bernadone cresceu em meio às grandes
transformações da Idade Média, marcada não somente
pela transição da economia feudal, mas certamente por
um avanço técnico significativo da sociedade medieval.
Ainda como criança, Francisco freqüentou a escola da
Igreja de San Giorgio. A escola oferecia uma educação
irregular e informal, sob a tutela de um padre residente.
As aulas não tinham horários diários fixos e eram
ministradas no pórtico da igreja. O jovem de Assis
aprendeu latim suficiente para recitar o Padre-Nosso e o
Credo na missa. Tinha noções elementares de aritmética e a
Bíblia era, naturalmente, o texto medieval básico para toda a
instrução nas universidades e nas escolas paroquiais, onde
desempenhava o papel de instrumento de alfabetização.
O principal objetivo da escola era de introduzir as mais
poderosas idéias e imagens às crianças cristãs de Assis,
com o propósito de se tornarem futuros grandes
guerreiros nas Cruzadas. “O matador de dragões e os
antigos santos eram emblemas de romance, cavalheirismo,
coragem e generosidade, e para os jovens cristãos eram
não somente modelos de conduta, mas também
intercessores celestes”2:52.
As Cruzadas foram expedições empreendidas pelos
cristãos do Ocidente para libertar do domínio muçulmano
o Santo Sepulcro de Cristo em Jerusalém. Mas foram, ao
mesmo tempo, uma forma de aliviar as pressões
demográficas que ameaçavam destruir o feudalismo.
A crise do sistema feudal refletira-se na cultura,
acentuando o sentimento religioso. A sociedade medieval
era essencialmente religiosa. Sendo incapaz de
compreender e encontrar cientificamente os meios de
superação da crise, interpretou-a de um ponto de vista
religioso. Assim, fiel ao sentimento religioso, a sociedade
procurou, nas Cruzadas, uma possível solução para seus
problemas. Porém, a religião não explica por si mesma
este movimento. As Cruzadas teriam sido impossíveis sem a
crise do sistema feudal, que marginalizou a mão-de-obra militar,
indispensável à realização das campanhas militares.
Mas não se pode ignorar o aspecto religioso das
Cruzadas. A espiritualidade e o sentimento religioso do
homem medieval eram muito fortes. Ele era antes de
tudo um fiel servidor de Deus e da Igreja. E se as Cruzadas
representavam para ele uma satisfação material,
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representavam também o cumprimento de uma obrigação
religiosa. Combater o infiel muçulmano era uma ação santa
e representava a possibilidade de salvação eterna, garantida
pelas indulgências oferecidas pela Igreja aos cruzados.
Para a Igreja Romana, as Cruzadas se configuravam
como um instrumento de expansão do Cristianismo, do
estabelecimento da supremacia do Papado sobre o
Império e da expansão de sua influência religiosa, por
meio da conquista dos locais santos da Ásia Ocidental5.
Por volta de 1194, com 12 anos de idade, Francisco é
retirado da escola pelo seu pai, Pedro Bernadone, para
viajar e ensiná-lo o ofício de comerciante.
Em 1206, aos 24 anos, deu-se início ao processo de
conversão, isolando-se do convívio social. A conversão
foi uma árdua tarefa de toda uma vida, e não efeito
completo de um único momento, e ela implica em
momentos isolados de incandescência, porém, em última
análise, é um projeto em desenvolvimento. Essa conversão
não tem um caráter institucional, não se trata de abraçar
uma religião, e sim um despertar de uma espiritualidade,
podemos dizer que se trata de uma adoção radical e
singularmente pessoal de uma nova vida. “O decisivo
não são as religiões, mas a espiritualidade subjacente a
ela. É a espiritualidade que une, liga e re-liga e integra.
Ela e não a religião ajuda a compor as alternativas de um
novo paradigma civilizatório”6:21.
Por fim, aderiu à religião cristã. Não demorou muito
para atrair diversos seguidores, mesmo com sua rigorosa
forma de vida religiosa, que tinha como fim seguir
literalmente o que estava escrito nos evangelhos, os
ensinamentos de Cristo.
Francisco que tinha enorme repulsa aos leprosos,
como ele próprio descreve em seu testamento final:
O Senhor deu a mim, irmão Francisco, essa forma de
penitência, pois quando eu vivia em pecado, pareciame demasiadamente penoso ver os leprosos. [Porém
depois] o próprio senhor me levou para junto deles, e
eu demonstrei compaixão.2:102
Dedicou-se aos cuidados com os leprosos, ajudandolhes no banho, levando palavras de conforto, afagandolhes as feridas do corpo e da alma, dedicava boa parte
do tempo à reconstrução de igrejas abandonadas e nos
leprosários onde buscava manter os doentes minimamente
limpos e confortáveis; zelava pela higiene do local e auxiliava
aqueles que não conseguiam se alimentar. Gostava de contar
os méritos de Cristo e de como Deus era benevolente.
Florence Nightingale, 4:116 no seu livro “Notas
Sobre Enfermagem,” destaca a importância desse
tipo de atenção ao enfermo:
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Você não calcula como o doente que mantém sua
capacidade intelectual, mas com pouco poder de
execução, deseja ouvir contar sobre ações meritórias,
uma vez que está incapacitado de delas participar.
Assim fazia Francisco, impregnado pelo Evangelho,
seguia através da compaixão o exemplo do Cristo.
Francisco não era um teórico da vida espiritual. Jamais
falava de Deus a não ser em termos de experiência,
porque era testemunha de um Deus vivo e atuante.
Falava somente daquilo que conhecia, ouvia e sentia.2:21
Francisco de Assis abraçou, como ele costumava dizer,
a irmã pobreza, e, em praça pública, renunciou aos bens
para grande decepção de seu pai, que via no seu mimado
filho um futuro próspero na carreira de comerciante.
Agora dependia da misericórdia de Deus para cada
momento, alcançando assim, de acordo com o que acreditava,
o sentido mais profundo da pobreza de espírito.
Além disso, cultivou costume extremo de mortificação,
com jejuns prolongados e alimentação insuficiente e logo
desenvolveu uma gastrite crônica, que o iria acompanhar
até o final dos seus dias, além dos surtos recorrentes de
malária. Mais tarde confessou que pecara grandemente
contra o “irmão corpo”, e que isso talvez fosse de se
esperar em um convertido jovem com seus 20 anos.
Fervoroso, Francisco seguia pregando o evangelho
pelo qual se apaixonou, e o fez mudar radicalmente de
vida. Chamava todas as criaturas de irmãos e irmãs, pois
tinha uma profunda admiração por tudo que foi criado
por Deus. Não demorou muito para encontrar o seu
primeiro convertido, “um homem piedoso e simples”, a
única referência sobre ele encontrada. Depois um homem
rico, cujo nome era Bernardo Quintavalle, que a pedido
de Francisco vendeu todos os seus bens e entregou aos
pobres, e assim foi, até formarem 12, uma alusão aos
apóstolos. Francisco não se colocava na condição de
Cristo, mas sim de um apóstolo, e seguiam em dupla
pregando pelas cidades adjacentes. O bispo de Assis não
gostou muito da idéia dos jovens. Pressionado, Francisco
decide ir com os 11 irmãos a Roma e pedir ao Papa Inocêncio
III que aprovasse a sua conduta e a dos seus irmãos.
O Papa Inocêncio III, em 1209, aprovou a regra nada
formal que Francisco e seus frades levaram até Roma.
Segundo Le Goff,7:74 Francisco escreveu “um simples
formulário composto de algumas frases evangélicas
orientando a vida e o apostolado dos irmãos”. Não se
sabe muito sobre essa regra, a única coisa que se sabe é
que se tratava de uma norma muito rigorosa.
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O Papa aprovou o texto que Francisco lhe submetia.
De forma cautelosa, abençoou-os verbalmente. Com uma
certa desconfiança, o Papa se despediu de Francisco e
seus irmãos dizendo que, quando o Senhor todo
Poderoso os multiplicassem em número e em graça, eles
poderiam voltar alegremente a ele, o papa, que ele os
concederia mais favores e lhes confiaria, com uma
confiança maior, maiores missões7.
A visita ao Papa pode ser considerada um marco
que mostra a necessidade que os Franciscanos tinham
de estar no mundo.
Anos mais tarde, em 1219, a fraternidade contava
com mais de três mil frades que pediam a elaboração de
uma Regra formal. Francisco não gostava dessa idéia,
pois essa estruturação exigia líderes, e a organização,
talvez inevitavelmente, gera conflitos de poder. Francisco
sempre dizia: “nenhum irmão tenha poder ou domínio
algum, máxime entre si... mas quem quiser ser maior
dentre eles, seja ministro e servo de todos”8:115.
No final de 1221, depois de rejeitadas diversas
versões de uma Regra pelo conjunto da fraternidade,
Francisco compôs um conjunto de normas que ele
acreditava refletir a opinião dos frades, o que mais tarde
o primeiro biógrafo de Francisco, Tomás de Celano,
chamaria de “primeira regra”. Esta também era composta
principalmente de citações bíblicas e aconselhamentos para
uma vida virtuosa, como a de 1209. Essa Regra foi denominada
Regra Não-bulada (ou não aprovada pela bula papal).
Na verdade, a Primeira Regra nunca foi aprovada pela
fraternidade, pois Francisco manteve a severidade de seus
costumes primitivos, mas não acrescentou códigos
disciplinares, como castigos, punições, o que e quando
rezar, entre outros. Com isso, a regra lhe foi devolvida
para que pudesse reescrevê-la mais uma vez.
Em 1223, o papa Honório III aprova a chamada
Segunda Regra ou Regra bulada (com bula papal), a
Regra definitiva, ainda hoje em vigor. Os franciscanos
passaram a ser uma ordem formal dentro da Igreja: a
Ordem dos Frades Menores. Este documento certamente
não foi escrito por Francisco (mais tarde, cardeal Ugolino
reconheceu ter colaborado com a redação), uma vez que,
em lugar do estilo simples, a Regra era bem escrita e
polida, além de ser mais curta, melhor organizada e mais
precisa que a primeira.
Desprezando até as mais simples vestimentas,
Francisco usava somente uma túnica esfarrapada de pano
com capuz, uma cueca curta e um pedaço de corda
amarrada para servir de cinto. Só não caminhou descalço
porque os amigos lhe suplicaram para que protegesse
os pés devido ao inverno rigoroso. Para Spoto,2:115 “Não
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se tratava de um uniforme; ele desejava simplesmente
vestir-se como um homem muito pobre”.
A simplicidade de Francisco representava uma
reprovação implícita ao luxo e privilégio que definia grande
parte da vida eclesiástica. Um verdadeiro exemplo de não
conformismo com as atitudes da Igreja. Existiam
movimentos que reprovavam tais atitudes da Igreja, porém
Francisco não quis se juntar a nenhum deles, na verdade
ele só desejava viver radicalmente o Evangelho.
Mais tarde, procurado por Clara, uma filha de nobres
da cidade de Perugia, Francisco recebeu o pedido para
aceitá-la na Ordem dos Irmãos Menores. Com medo da
violência e da repercussão que isso poderia acarretar à
Ordem, ele resolveu elaborar uma nova Ordem destinada
às mulheres que desejavam seguir a filosofia franciscana.
Foi então criada a Segunda Ordem, ou Ordem das Clarissas,
onde as mulheres viviam enclausuradas e se dedicavam
às orações e trabalhos manuais. Mesmo assim,
cooperavam no tratamento aos doentes que as
procuravam, dando-lhes remédios e fazendo-lhes
curativos. Para Paixão,9:41 “Só isso seria bastante para
imortalizar S. Francisco na História da Enfermagem”.
Fundou também a Terceira Ordem (ou Ordem Terceira)
para aqueles que se identificavam com os ideais
franciscanos, mas não pretendiam fazer os votos de
obediência, pobreza e castidade exigidos pela Ordem dos
Irmãos Menores. A Terceira Ordem contribuiu, de forma
significativa, no cuidado aos enfermos e, seu valor foi
enorme para o progresso da Enfermagem9. Visitavam
todos os dias os hospitais, cuidavam das feridas e
asseavam os enfermos como forma de penitência. Pouco
se sabe se eles tinham ou não alguma técnica nos cuidados,
mas suas contribuições foram de grande valia, pois havia
um descaso muito grande com o cuidado em si.
Em 1224, nos dois últimos anos da vida de Francisco,
com o corpo bastante debilitado, devido às privações que
ele mesmo se impusera, recebeu os estigmas (chagas da
crucificação) nas montanhas de Alverne. Voltou a se
dedicar ao trabalho com os leprosos. Em 1226, em
Porciúncula, aos 44 anos, se despede do frei Masseo,
dizendo: “Io mi parto da voi com la persona, ma vi lascio il
mio cuore. Quer dizer, eu me aparto de vós como pessoa,
mas vos deixo o meu coração.”6:169
Francisco, um ícone da solidariedade
O movimento das Cruzadas (1095 - 1270) teve uma
contribuição importante devido à criação de ordens
religiosas e militares para o acolhimento dos doentes
feridos nas batalhas rumo ao Oriente. O Movimento
Franciscano não foi o idealizador de ordens religiosas
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envolvidas na atenção ao cuidado dos enfermos, também
não tiveram isso como propósito. A proposta Franciscana
se insere mais nas questões do anticonsumismo, a não-violência
e na luta contra a exclusão social, fundamentados no evangelho.
O acolhimento dos excluídos foi a mola mestra de
todo o trabalho de Francisco. O cuidado ao ser humano
sem distinção de classe era um feito raro para a Idade
Média. É preciso entender a sua vida como um italiano
medieval, a partir de um quadro claro das pressões
sociais que agiam sobre seu comportamento individual
no seu novo paradigma.
A tradição Ocidental percebe Francisco como figura
exemplar de grande popularidade. Para Boff,6:169 “com
efeito, o coração de Francisco significa um estilo de vida, a
expressão genial do cuidado, uma prática de
confraternização e um renovado encantamento pelo
mundo”. É comum encontrarmos as marcas de Francisco
na literatura, na arte e na história. Destacam-se os afrescos
de Giotto, os filmes de Frederico Fellini e a ópera Saint
François d’Assise, do grande compositor francês Olivier
Messiaen. A cidade de Los Angeles nada mais é do que
uma abreviatura do nome que foi dado pelos primeiros
colonos: Nuestra Señora la Reyna de los Angeles de
Porciúncula (Nossa Senhora Rainha dos Anjos de
Porciúncula). Lugar da morte de Francisco. Sem contar
com as cidades de São Francisco e Santa clara, ambas na
América do Norte.
No Brasil, a grande popularidade de São Francisco de
Assis resultou, entre outras coisas, na criação de hospitais
franciscanos e do Hospital Escola São Francisco de Assis,
antes denominado Asylo da Mendicidade.
A escolha do nome de São Francisco de Assis para
patrono do Asylo da Mendicidade, associa a instituição
ao mito cristão da pobreza, e busca recuperar um
pouco de sua positividade mística e do valor ao socorro
à ela dado; entretanto, não mais provido pela Igreja,
mas pelo Estado.10:56
Para a Enfermagem, cabe destacar que foi no Hospital
Escola São Francisco de Assis que foi implantada a Enfermagem
Anglo-Americana, fruto da Reforma Carlos Chagas, em 1923,
e recuperado para os domínios da Escola em 198811.
É claro que muito antes do nascimento do Movimento
Franciscano já existia o acolhimento, aos enfermos, por parte
de grupos religiosos. “No século VI, os mosteiros,
particularmente os beneditinos, mantinham escolas e
pequenos hospitais onde se cultivavam plantas medicinais e
se desenvolveram técnicas de socorro aos doentes”12:61.
Entretanto, Francisco é um exemplo especial de dedicação
ao cuidado do outro, particularmente dos excluídos, dos
pobres, idosos e doentes, também da natureza e dos animais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Francisco foi um jovem rebelde, que tinha um grande
amor pela vida e por todas as criaturas de Deus. Defensor
da natureza, reverenciava tudo aquilo que se aproximava
de Deus, chamando de Irmão. O jovem de Assis tinha um
grande poder de resgatar a auto-estima dos minores,
tratando-os com respeito, cuidando de suas feridas - do
corpo e da alma. Sendo assim, a força do Movimento
Franciscano refletia uma nova dimensão do cuidado. Para
Boff,6:141 “o compromisso dos oprimidos e de seus aliados
por um novo tipo de sociedade, na qual se supera a
exploração do ser humano e a espoliação da Terra, revela
a força política da dimensão-cuidado”.
Na realidade, existe uma enorme complexidade em
tentar entender os objetivos que ele almejava.
O que se opõem aos descuido e ao descaso é o
cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude.
Portanto, abrange mais que um momento de atenção,
de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de
ocupação, preocupação, de responsabilização e de
envolvimento afetivo com o outro.6:33
Francisco se aproximava mais da ótica do cuidado,
como essência do ser humano, devido à obstinação pelo
seu novo estilo de vida, que visava se desnudar
completamente dos apegos materiais.
A compaixão de Francisco para com os excluídos deve
ser analisada de forma aprofundada. O voto de pobreza
dos Franciscanos remete a uma visão igualitária, e não
só traz a bandeira da luta contra o consumismo como
também contra o ostracismo.
Francisco de Assis deixou para a Enfermagem um
exemplo de atenção ao cuidado ao ser humano, cuidado
esse que transcende a assistência ao corpo debilitado,
fisicamente abalado pela enfermidade. É mais do que
isso, é atender às necessidades daquele Ser que é
Humano e como tal deve ser tratado, ou seja, corpo,
mente, espírito. Mostrou que dificilmente evoluiremos
sem que haja o respeito ao próximo, à natureza, isto
é, dentro da sua concepção, sem que haja o respeito
por todas as formas de vida do nosso planeta. E
através do seu carisma, exemplo e esforço deixou uma
grande contribuição no processo de construção da
profissão enfermagem, com hospitais, asilos e escolas
que levavam seu nome como forma de divulgação dos
princípios e propósitos franciscanos, mantendo assim
forte sua filosofia até os dias atuais.
182
Interação no cuidado e Enfermagem fundamental
Castro ES et al
Referências
Nota
1. Alves APC, Silva Júnior OC, Waleska Paixão e páginas de hstória
da enfermagem: presente ou passado? Anais do 56° Congresso
Brasileiro de Enfermagem. 15° Congreso de Enfermería; 2004 out.
23-27; Gramado (RS), Brasil, Gramado (RS): ABEn; 2005.
a
2. Spoto D. Francisco de Assis: o santo relutante. São Paulo
(SP): Objetiva; 2002.
3. Tachizawa T, Mendes G. Como fazer monografia na prática. 2ª ed.
Rio de Janeiro (RJ): Ed da FGV; 2001.
4. Nightingale F. Notas sobre Enfermagem. Tradução de Amália
Correa de Carvalho. São Paulo (SP): Cortez; 1989.
5. As Cruzadas. [citado 17 abr 2005]. Disponível em: http://
www.cavalaria.espiritual.vilabol.uol.com.br/cruzadas.htm.
6. Boff L. Saber cuidar: ética do humano;compaixão pela Terra. 7ªed.
Petrópolis (RJ): Vozes; 2001.
7. Le Goff J. São Francisco de Assis. São Paulo (SP): Record; 2001.
8. Boff L. São Francisco de Assis: ternura e vigor. 8ªed. Petrópolis
(RJ): Vozes; 2000.
Estudo desenvolvido no Laboratório de Pesquisa de História da
Enfermagem (LAPHE) da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto(EEAP)/
UNIRIO. Trabalho premiado com A Lâmpada - primeiro lugar - na 8ª
Jornada Nacional de História da Enfermagem/12º Pesquisando em
Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ.
Sobre os Autores
Ana Paula Costa Alves
Aluna do 6º período do curso de graduação da EEAP/UNIRIO. Membro
do Laboratório de Pesquisa de História da Enfermagem (LAPHE).
Bolsista PIBIC/CNPq.
Fábio Assis de Sousa Moreira
Aluno do Curso de Especialização nos moldes de Residência da EEAP/
UNRIO no Instituto Nacional de TraumatoOrtopedia (INTO) - Rio de Janeiro.
Osnir Claudiano da Silva Júnior
Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem Fundamental
da EEAP/UNIRIO. Doutor em Enfermagem. Pesquisador do LAPHE.
Orientador.
9. Paixão W. História da Enfermagem. 5ªed. Rio de Janeiro (RJ):
Júlio C. Reis; 1979.
10. Silva Jr OC. Do Asylo da mendicidade ao Hospital Escola São
Francisco de Assis: a mansão dos pobres. Rio de Janeiro (RJ):
Papel Virtual; 2000.
11. Figueiredo NMA, Carvalho V, Santos IR. Na emergência das águas:
as enfermeiras Anna Nery (re) tomam sua história – o caso do
HESFA. Esc Anna Nery Rev Enferm 1997 jul: 1 (nº esp): 43-51.
12. Figueiredo NMA. Práticas de enfermagem. São Paulo (SP):
Difusão; 2002.
Recebido em 19/05/2005
Reapresentado em 29/07/2005
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