Indesejáveis Moises Bastos de Morais Resenha Indesejáveis RODRIGUES, Fernando. Indesejáveis: Instituição, pensamento político e profissional dos Oficiais do Exército Brasileiro (1905-1946). Jundiaí: Paco Editorial, 2010. Moises Bastos de Morais Mestrando em História pela Universidade Salgado de Oliveira A participação do Exército Brasileiro na vida política do Brasil não é novidade para ninguém: os militares fomentaram a proclamação da República, deram apoio a Revolução de 1930 e assumiram efetivamente o leme do país a partir de 1964. Mas onde começa esse sentimento de participação e de politização desses militares? Em Indesejáveis, o Professor Doutor Fernando Rodrigues estuda com riqueza de detalhes as mudanças no sistema de educação do Exército a partir das diversas reformas que sofreramos regulamentos de ensino das Escolas Militares ao longo da primeira metade do século XX. Fernando Rodrigues percebe que as reformas ocorridas nos regulamentos de ensino eram efetuadas de acordo com momento histórico e político da época e que existia uma tentativa de criação de um padrão de formação para o aluno, futuro oficial do Exército. E é exatamente essa padronização do modelo educacional criado pela própria força terrestre que gerou padrões de discriminação no processo de seleção às Escolas Militares, pois os candidatos deveriam ter condições de se tornarem uma elite institucional, da qual negros, judeus, islâmicos e pobres eram excluídos. O autor, de forma bastante criteriosa, analisa os padrões de discriminação ocorridos na seleção de jovens candidatos à carreira militar pela via do oficial ato, sem paixões, e o faz sem fazer juízo de valor e entendendo que o pensamento discriminatório era uma característica daquele momento da história do Brasil. O livro de Fernando Rodrigues está divido em cinco capítulos. O primeiro deles como o título de “Estado, forças armadas, autoritarismo e racismo: por um debate teórico” mostra o arcabouço teórico em que a pesquisa está alicerçada. Utiliza autores como Pierangelo Schiera, Martin Carnoy e Gramsci para entender a situação do Estado brasileiro do início do século XX até o aparecimento do autoritarismo a partir de 1930, e a participação dos militares nesse Estado. Desenvolve depois uma discussão sobre o racismo contemporâneo, debatendo as teorias de gradações das três raças: branca, amarela e negra. O autor analisa as origens do racismo no Brasil alcançando a Teoria das Elites, segundo a qual em toda sociedade há uma classe superior à outra e, percebe tentativa de criação de uma elite militar. Por fim, analisa as origens do pensamento autoritário no Brasil a partir de Oliveira Viana, Azevedo Amaral e Francisco Campos como teóricos do autoritarismo. Para esses autores a conclusão da construção da nacionalidade, que tinha na miscigenação seu calcanhar de Aquiles, passava pela implantação de regimes de força e pelo branqueamento da nação. No segundo capítulo Fernando Rodrigues nota como a Revolta da Vacina selou o futuro do ensino militar no Brasil, devido à adesão de alunos da Escola Militar à revolta de R. Mest. Hist., Vassouras, v. 13, n. 1, p. 135-138, jan./jun., 2011 135 Indesejáveis Moises Bastos de Morais Resenha 1904.O comando do Exército viu a necessidade de mudar a sistemática do ensino visando o afastamento dos futuros militares das lutas partidárias. Foram tomadas medidas que iam do fechamento das escolas que se rebelaram e expulsão dos rebeldes até culminar na organização de um novo Regulamento para os Institutos Militares de Ensino em 1905. O regulamento trouxe de novo mudanças na seleção dos candidatos que, entre outros quesitos, deveriam ter aptidão para o serviço militar. Continuando as reformas no ensino, e com o objetivo de formar instrutores para as escolas foi autorizado o envio a Alemanha, de um grupo de oficiais que ficaram conhecidos como Jovens Turcos. Esses militares, no seu retorno, fundaram a revista de assuntos militares chamada A Defesa Nacionalcom a finalidade de lançar uma campanha renovadora da força. As mudanças implementadas pelos Jovens Turcos influenciaram gerações de oficiais do Exército. O terceiro capítulo trata de um novo regulamento, em 1918, que centrou esforços num dos pontos da pretendida renovação do Exército, trazida pelos Jovens Turcos: o predomínio da prática sobre a teoria no ensino militar. Uma das mudanças ocorridas foi que o curso para a formação do oficial passaria a ter duas fases, uma voltada para os conhecimentos básicos a qualquer militar e outra destinada às especificidades da Arma em que o aluno fosse atuar. Outra mudança, essa ocorrida já no regulamento de 1919, foi a decisão de ministrar conhecimentos ao oficial até o posto de capitão, forçando assim um constante aperfeiçoamento do militar durante sua carreira. Uma novidade foi instituída em 1918, além da rigorosa seleção paraos candidatos a alunos, foi a realização de uma seleção para os instrutores, onde o critério era a reconhecida capacidade e pendor para sê-lo. Esses instrutores selecionados ficaram conhecidos como “A missão indígena” e seguiam os ensinamentos dos Jovens Turcos, buscando as inovações ocorridas na guerra da Europa e focando mais nos ensinamentos práticos do que nos teóricos. Porém a missão indígena não conseguiu atingir o objetivo de manter os alunos fora das agitações políticas, pois a Escola Militar se levantou em 1922, contra a posse de Arthur Bernardes, provocando uma nova modificação no ensino com a chegada ao Brasil da Missão Militar Francesa. Com esta missão veio uma nova reforma no ensino, centrada na formação continua do oficial com um conjunto de doze escolas ou centros de instrução, sendo incluída a Aviação Militar. Com a mudança, logicamente, entrou em cena novo regulamento e que trouxe idéias que se desdobrariam em futuros fatos discriminatórios: o candidato à Escola Militar deveria apresentar na matrícula para o concurso um certificado de condição e honorabilidade assinado por autoridade civil ou militar. No quarto capítulo Rodrigues nota o surgimento de padrões de discriminação já na assunção do novo comandante da Escola Militar, Coronel José Pessoa, em 31 de janeiro de 1931. Em seu primeiro discurso, com o claro objetivo de diferenciar os alunos dos demais militares, os chama de “cadetes”, fazendo reviver a antiga de seleção do século XIX, onde a condição de nobreza era requisito para aceitação do candidato. O comandante também criou diversos símbolos, que ajudaram a criar uma mística do oficial ato, diferenciando os futuros oficias não só das praças, mas também da sociedade civil. Símbolos estes tais como o espadim, réplica perfeita da espada de Caxias, arma exclusiva do cadete, com o objetivo de unir o Exército do passado como o Exército do presente. No discurso de posse o comandante falou sobre a rigorosa seleção que deveria ser impostas aos homens os quais o Brasil confiava sua defesa. A partir daquele ano todo requerimento dos candidatos à Escola Militar passariam a ser um processo individual, onde deveria R. Mest. Hist., Vassouras, v. 13, n. 1, p. 135-138, jan./jun., 2011 136 Indesejáveis Moises Bastos de Morais Resenha constar a nacionalidade, idade, religião, fotografia de frente, profissão paterna. Uma ficha individual com informações sobre os candidatos e seus pais passou a ser utilizada para limitar a entrada na Escola Militar. No quinto e último capítulo são esmiuçadas as condições de discriminação a partir de 1937, com o advento do Estado Novo. Além do perigo comunista, deveriam ser afastados outros “perigos” que pudessem atingir o sistema estabelecido. Foi seguida política do Estado Varguista que limitava a entrada de estrangeiros no Brasil. Para compreender como funcionou a discriminação nesse período da História Militar do Brasil, Fernando Rodrigues analisou mais de 6.000 processos individuais de candidatos a Escola Militar, local que deveria formar uma elite não só institucional, mas também uma elite social. O pesquisador deixa claro que os indesejáveis - negros, estrangeiros, e pobres - tinham escrito em seus processos um “arquive-se”, e não tinham direito a recurso. As discriminações atingiam os candidatos de origem estrangeira, que poderiam trazer para dentro dos muros da escola ideologias raciais; aos negros, considerados como raça inferior; e aos pobres que não serviriam para a formação de uma elite social. Em nome dessa elite social candidatos que não fossem filhos de uma boa sociedade eram eliminados, como foi o caso de um processo em que: Ao pai do candidato que é barbeiro a bordo do navio Almirante Jaceguay (...) profissão embora honesta, era servil e a gorjeta regulava sua situação econômica, sendo que, em tal ambiente não era de se esperar uma formação moral sólida como a que deve ter um oficial (Rodrigues, 2010, p. 207). A tentativa de criação de uma elite social dentro do Exército barrava candidatos de origem negra, síria, russa, muçulmanas, judia e protestante com o arquivamento do processo e sua destruição em dois anos. Era preciso ter uma elite de brasileiros natos, branca e católica. O trabalho de Fernando Rodrigues, fruto de anos a fio de pesquisa nos arquivos, garimpando os dados para seu trabalho, nos torna capazes de compreender o pensamento político formador dos oficiais do Exército Brasileiro no período analisado e de compreender como esse pensamento está diretamente ligado a diversos fatos da História do Brasil. É um livro indispensável! R. Mest. Hist., Vassouras, v. 13, n. 1, p. 135-138, jan./jun., 2011 137