José Rosa Sampaio
O Fidalgo Monchiquense
Francisco José de Almeida Coelho
(1744-1803)
E o seu palácio de Portimão
*
Portimão – 2005
Magistrado régio e fidalgo de Cota de Armas Francisco José de Almeida Coelho nasceu em
Monchique a 27 de Março de 17441, filho de José de Almeida Coelho (1719-1787) e de Maria
Martins de Almeida (f.1783),2 ambos naturais e moradores nesta freguesia3.
Seu pai, aqui um abastado proprietário e juiz ordinário foi, a partir da criação do concelho,
em 1773, o primeiro sargento-mor das Ordenanças e algumas vezes «vereador mais velho»,
nomeadamente em 17764.
Francisco José de Almeida Coelho viveu pelo menos duas décadas em Monchique, onde
terá feito alguns estudos, provavelmente no convento franciscano de Nossa Senhora do Desterro
e onde participou na «governança»5.
Ingressou seguidamente na Universidade de Coimbra, onde tirou o Bacharelato em Direito,
vindo depois a enveredar pela carreira da magistratura régia e ocupando sucessivamente várias
funções de magistrado6.
Nomeado Juiz-de-Fora de Vila Nova de Portimão7, aqui permaneceu entre 9 de Março de
1772 e 1778, ou talvez até a 1781, se admitirmos que tenha sido substituído provisoriamente
durante estes três anos pelo Dr. António Pedro Baptista Machado, que também foi Juiz-de-fora
de Monchique8.
Inerente ao cargo de Juiz-de-Fora e Parte encontrava-se também a presidência do Senado
Municipal da vila, onde liderou alguns executivos formados pelos grandes proprietários
terratenentes, negociantes e mercadores, nomeadamente João da Silva Jaques de Paiva, Capitão
António Bequer, Capitão Belchior Velles de Morais Bitancur, Domingos Souto-Mayor, Miguel
Fernandes de Lemos, Simão Barbudo Pinto, Miguel Fernandes de Lemos (Procurador),
Alexandre Lopes Farto (Escrivão)9.
Transitou seguidamente para Tavira, onde ocupou o mesmo cargo de Juiz-de-fora,
precisamente entre 25 de Maio de 1781 e 15 de Março de 1792, tendo-se revelado pessoa de
«virtudes e boas qualidades» e «hum Ministro completo na prudencia na politica, no agrado, no
dezemtereçe, na pronptidão dos seus despachos e acolhimento das partes observando a Ley a
risca e arecedando a fazenda Real com pronptidão», o que lhe valeu ser feito por D. Maria I
fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 14 de Julho de 1784, com brasão partido de Almeidas e
Coelhos10.
Nomeado Desembargador da Relação e Casa do Porto, ainda em 1792, manteve-se no lugar
até 1794, altura em que se aposentou11, dedicando-se desde aí em pleno tempo às suas
propriedades e negócios.
1
ANTT, Ass. Baptizos, 1736-1748, p.123. Foram padrinhos o capitão Francisco Nunes e Catarina Álvares, mulher
de Manuel Coelho.
2
Filha de Pedro Rodrigues e de Maria Martins, já tinha casado duas vezes, a primeira com André Nunes de
Siqueira e a segunda com José Martins Pinto, dos quais enviuvara. Teve um filho de cada matrimónio. (Côrte-Real,
pp.129-130; TT, DP-Algarve, 485-95).
3
A freguesia pertencia então ao concelho de Silves e só se emancipou em 1773, quando da criação do concelho do
mesmo nome.
4
ANTT, Livros de actas de vereação, ano de 1776.
5
Deverá ser o mesmo que consta de uma acta lavrada pela Mesa da Misericórdia de Monchique (Gascon, p.214).
6
A sua avó paterna, que casara com o carpinteiro e depois proprietário, Manuel Rodrigues, era irmã de tecelão e
pizoeiro Simão Coelho, que foi pai de três importantes figuras da Igreja: o “Reverendo Doutor Miguel João de
Almeida Comissário do Santo Oficio», (provavelmente o mesmo que foi provedor das Caldas de Monchique, entre
1767 e 1701. in Carvalho, p.217), o Pe. Dr. Manuel Coelho de Almeida (provedor das Caldas de Monchique, entre
1744 e 1766. in Carvalho, p.217), e o Pe. Dr. Simão Coelho de Almeida, mestre em Artes colegial do Real Colégio de
N.ª S.ª da Purificação, onde se graduou em Bacharel em Teologia, falecido em 1724.
Percorrendo os livros de assentos de Monchique e Marmelete constatamos que Francisco José de Almeida Coelho
contava ainda entre os seus familiares pessoas importantes do oficialato local de Ordenanças e Milícias e entre o clero
e o Santo Oficio. Entre os primeiros contava os capitães José Duarte de Almeida, Manuel Duarte de Almeida e
Francisco de Almeida Coelho, e entre o clero, para além dos já citados, D. Frei Luís de Almeida, prior-mor do Real
Convento de Avis, o Pe. António Duarte de Almeida e o Pe. Domingos Furtado de Almeida.
7
Recebia de «brassagem do lugar» (ordenado), trinta de dois mil réis e pagava à décima 3200 réis (Padre Vitorino
«Coisas Velhas da nossa Terra», Comércio de Portimão, n.º 2422, 22.05.1975, p.4.)
8
Vidigal, p.115.
9
CDI/MMP, Actas, eleitos pelas pautas de 1773 e 1775.
10
Tem brica azul com farpão de prata (Côrte-Real, op. cit. p.132). ANTT-CN, Liv.3, fls.137v-139 (MF: 1484).
11
Aposentou-se com o título de «Desembargador Honorário da Relação e Casa do Porto», por alvará de 19 de Julho
de 1794 (Côrte-Real, p.130).
2
Em 10 de Julho de 1795, casou em Lisboa, freguesia de S. Mamede, com Antónia Higina
Xavier de Bivar Albuquerque Mendonça e Weinholtz, moradora em Faro, mas natural de
Lisboa, onde nasceu na Quinta da Terrugem, em Caxias, sendo seus pais o tenente-coronel do
Regimento de Artilharia da Corte, Frederico Jacob António de Weinholtz (nascido na
Dinamarca) e Feliciana Teotónia de Bivar Albuquerque Mendonça. O padrinho de casamento
foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marques de Pombal.
Desta união, que daria origem aos Bivar de Weinholtz de Portimão, nasceram três filhos: o
Dr. José Lino de Almeida Coelho,12 que seria pai de Francisco de Almeida Coelho de Bivar
Weinholtz (1824-1890), 1.º Visconde de Bivar e político e figura grada da História de Portimão;
Maria de Almeida Coelho de Bivar, e Ana Maria de Almeida de Bivar Weinholtz, que casou
com José Joaquim Moreira de Brito Velho da Costa, enlace que esteve na base dos Bivar Velho
da Costa de Portimão e de Monchique13.
Entretanto, seu pai tinha-se fixado em Portimão, por volta de 1776, onde se tornou um dos
grandes proprietários fundiários do concelho e pessoa bastante influente o que o levou a ser
eleito capitão-mor das companhias de Ordenanças de Portimão, e sucessivamente nomeado
Sargento-mor da Comarca de Lagos, Deputado da Junta do Comércio e «Director das Reais
Pescarias do Reino do Algarve»14.
Brasão de Francisco José de Almeida Coelho
Embora distante do Algarve, Francisco de Almeida Coelho tirou partido das reformas
pombalinas da década de 1770, que liberalizaram e rentabilizaram a terra, tornou-se aqui o
principal proprietário fundiário, com dez fazendas, os dois salgados do Vale do Lagar, duas
marinhas, quatro «terras de pão» e várias propriedades aforadas, entre as quais os morgados do
Reguengo e de Arge e Boina, pagando por este último 450 mil réis de renda por ano.
A estes bens juntou os de seu pai do qual foi o único herdeiro. O seu desafogo financeiro
levou-o a subscrever, em 1801, acções da divida publica no valor de 480 000 réis.
12
Foi assassinando em 1833, na sua quinta de Alvor, pela guerrilha do Remexido, comandada pelo sanguinário
Trovoada (vide Pe. José Gonçalves Vieira, Memória Monográfica de Portimão, p.57)
13
Dos Bivar Velho da Costa, de Monchique, descendem algumas figuras de destaque na sociedade do seu tempo,
de que o melhor exemplo é Jerónimo de Bivar Velho de Costa e seus irmãos. Do seu solar monchiquense, outrora um
dos mais belos edifícios de Monchique, local de saraus, tertúlias e estadias de figuras importantes da intelectualidade,
resta hoje a caricata chaminé de S. Sebastião.
14
José de Almeida Coelho era filho do proprietário e juiz João de Almeida Coelho (filho de Manuel Rodrigues,
«carpinteiro que depois viveu de suas fazendas») e de Maria Alvares do Vale, ambos naturais de Monchique, tendo
vivido entre 1719 e 1787. Foi juiz ordinário de Monchique, vereador mais velho e sargento-mor das Ordenanças,
quando da criação do concelho. Recebeu depois alguns privilégios reais e cargos, numa altura em que foi tido como
um dos mais poderosos e influentes proprietários do seu tempo, vindo-lhe grande parte dos seus avultados
rendimentos das madeiras que exportava para Espanha e vendia para Lisboa e para a edificação de Vila Real de Santo
António. Esteve presente na tribuna, durante a inauguração de Vila Real de Santo António, ao lado do Marquês de
Pombal.
3
Os seus avultados rendimentos permitiram-lhe edificar, no último quartel de Setecentos o
imponente Palácio Coelho Bivar, de traça neoclássica e elementos barrocos, que durante cerca
de cento e cinquenta anos seria o solar da sua família15.
Figura da média nobreza não titular, Francisco José de Almeida Coelho era fidalgo de Cota
de Armas, Moço Fidalgo da Casa Real e Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo.
Faleceu em Portimão a 7 de Janeiro de1803, com apenas 59 anos de idade16.
O Palácio Coelho Bivar na década de 1960
Conclusão
Apraz-nos imenso registar que dois dos principais edifícios históricos de Portimão são obra
de Monchiquenses. O primeiro, o Colégio dos Jesuítas de Portimão foi obra do arquitecto e
matemático na Corte, Bartolomeu Duarte,17 sob legado de Nuno Gonçalves, que na Índia foi
feitor da Fazenda do Vice-rei D. Pedro da Silva, patrono do convento de Monchique. O segundo
é o palácio Coelho Bívar.
Só é pena que não possamos dizer o mesmo dos dois imponentes edifícios que o tempo, a
incúria e a incompetência apagou da memória das pessoas de Monchique: o outrora famoso e
reputado Colégio de Santa Catarina (desaparecido) e o Convento Franciscano (em vias de
desaparecimento). Isto numa terra onde o património histórico construído é diminuto.
Resta-nos a certeza e a consolação de que as futuras gerações irão um dia julgar e pedir
contas desta destruição.
15
Este edifício seria doado ao município, por Manuel de Bivar, em 1945, e nele funciona, desde 1956, a Câmara
Municipal de Portimão.
16
A sua mulher viria depois a casar com o também Juiz-de-fora Dr. Jerónimo José Carneiro, um dos heróis e
chefes locais da resistência aos Franceses.
17
José Rosa Sampaio, «Figuras Monchiquenses das Artes e das Letras (2). Bartolomeu Duarte (1627-1701): O
Construtor de História», Jornal de Monchique, n.º 242, 2001.
4
O palácio Coelho Bivar em 2001
Fontes e Bibliografia
ANTT, Liv. Registos Paroquiais, Óbitos, 1803.
CDI/MMP. Livro dos Termos de Vereação, 1755-1792 e 1792-1803.
CARVALHO, Augusto da Silva, Memórias das Caldas de Monchique, Lisboa, 1939.
CORTE-REAL, Miguel Maria Telles Moniz, Fidalgos de Cora de Armas do Algarve, Camarate, 2003.
GASCON, José A. Guerreiro, Subsídios para a Monografia de Monchique, Portimão, 1955.
PINHEIRO e ROSA, José António, A Família Bivar de Faro e o seu Palácio, Faro.
SAMPAIO, José Rosa, «Figuras Monchiquenses das Artes e das Letras (29). Francisco José de
Almeida Coelho (1744-1803): O Juiz Palaciano», Jornal de Monchique, n.º 277, de 22.12. 2005, p.6.
VIDIGAL, Luís, Câmara Nobreza e Povo: Poder em Vila Nova de Portimão (1755-1834), Portimão,
1993, p.213;
VITORINO, Padre (P.V.), «Coisas Velhas da Nossa Terra», Comércio de Portimão, n.º 2422 (1975), e
n.º 2426 (1979).
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Francisco José de Almeida Coelho E o seu palácio de Portimão