Diretrizes: Diretrizes : um espaço de resistência na imprensa do Estado Novo
(1938-1944)
Joëlle Rouchou
I Introdução
O Rio de Janeiro foi o palco escolhido pelo bessarabiano Samuel Wainer (19121980) para exercer seu ofício de jornalista. Filho de pais pobres, imigrantes judeus, que se
instalaram no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. A vida rotineira, sem glamour, não era
suficiente para Wainer, que foi à luta e aos 12 anos, em 1924, decidiu estudar no Rio de
Janeiro, no Pedro II e viver com sua irmã Rosa, que já havia se mudado para a então
capital.
A mais perfeita tradução do que efetivamente foi Samuel Wainer é ter sido um
jornalista. A dimensão desse jornalista vem da trajetória em que galgou todos os degraus,
desde o trabalho de repórter até a entrada no seletíssimo e restrito clube dos donos de
jornais no Brasil. Depois trabalhou na revista Diretrizes, correu mundo como
correspondente dos Diários Associados, cobriu os acontecimentos mais importantes do
pós-guerra, entrevistou o então esquecido Getúlio Vargas, vaticinando sua volta, fundou o
jornal Última Hora e ainda rodou algumas redações. Viveu a maior parte de sua vida no
Rio de Janeiro e terminou sua vida como empregado do jornal Folha de São Paulo,
empresa que havia comprado seu jornal. Diretrizes é uma etapa importante na biografia
de Wainer.
Em termos jornalísticos, sua carreira é das mais invejáveis. Ele se movia
elegantemente cruzando a fronteira entre patrões e empregados com charme e classe que
permaneceram como sua marca. O que torna suas memórias instigantes é sua carreira
cheia de aventuras, sua força em buscar uma matéria jornalística, sua obsessão pelo furo.
Era o homem que estava sempre no lugar onde a notícia acontecia. Wainer foi dos raros
donos de empresas jornalísticas que passou pelas máquinas de uma redação. Com isso ele
pôde participar do processo de feitura do jornal em todas as suas etapas. Para cumprir a
tarefa de ser jornalista é preciso experimentar todas as editorias e descobrir qual o assunto
preferido e ir fundo nele. Wainer foi mais longe: além de conhecer a redação, descobriu o
jornal como empresa a ser gerenciada e - o mais terrível - o uso dessa empresa como um
quarto poder da República.
1
Este projeto é um primeiro movimento para uma pesquisa sobre a revista Diretrizes
a ser estudada entre os anos 1938 e 1944, quando dirigida por Samuel Wainer. Diretrizes
foi lançada em maio de 1938 e seguiu até julho de 1944, quando Wainer exilou-se na
Argentina. Sua orientação editorial era nacionalista, defender causas que protegeriam o
país, como a campanha, por exemplo “O petróleo é nosso”. A vida política brasileira
daquele momento estava registrada segundo um olhar diferente dos demais
hebdomadários.
Quando fiz minha dissertação de mestrado sobre Samuel Wainer, a revista me
chamou atenção pela qualidade dos artigos, o corpo de repórteres e redatores, as
ilustrações a as posições políticas lutando contra o regime de Getúlio Vargas. Ao longo de
minha pesquisa sobre outro jornalista, Álvaro Moreyra, trabalhei com os artigos dele que
publicava, entre outros, em Diretrizes, o que me aguçou a curiosidade em relação à
publicação. Há poucos registros acadêmicos sobre a publicação, os mais recentes são de
orientandos da professora Tânia de Lucas, da Universidade de Assis.
II Justificativa
A escassez de trabalhos sobre essa publicação que teve um papel importante na
afirmação nacional e na luta pela liberdade de expressão, me parece um tema relevante e
pertinente na linha de pesquisa em história da imprensa brasileira.
Sua batalha contra a censura sofrida pelo DIP – Departamento de Imprensa e
Propaganda - foi exemplar e merece uma atenção mais precisa no campo tanto da historia
cultural quanto da história política. A arena escolhida para a batalha entre o poder
constituído de Vargas e as tintas e letras da equipe da revista, escrevem passagens
antológicas e fornecem instrumentos para compreensão e entendimento deste período da
história do Brasil.
Apesar de recorrentemente citada como um veículo importante de sua época,
Diretrizes não foi objeto de estudo específico. Referências esparsas sobre a revista são
normalmente encontradas em obras gerais sobre história da imprensa e em depoimentos de
jornalistas e intelectuais que participaram de sua produção.
Segundo Nelson Werneck Sodré, o periódico manteve certa
distância da máquina governamental e, principalmente entre
1938 e 1942, sua gabaritada equipe conseguiu burlar aos
aparelhos repressivos reforçados a partir do Golpe de 10 de
novembro de 1937:
2
(...)com esforços curiosos, muita malícia e alguma ousadia,
passando assuntos entre as estreitas malhas do vastíssimo rol
dos assuntos proibidos, essa revista teve, realmente, papel de
relevo na época(...)1
A revista foi se firmando como uma importante publicação, defendendo interesses
nacionalistas, e foi uma das primeiras a defender a criação da indústria siderúrgica
brasileira. Até o final dos anos 40 a revista era mensal, e foi se modernizando
graficamente, com seções de humor, entrevistas e cultura. Mas o dinheiro ficou curto,
havia pouco anúncio e Samuel foi com seu amigo Rubem Braga - que também fazia parte
do grupo de Diretrizes - buscar dinheiro dos capitalistas. Encontram Maurício Goulart que
entrou com 100 contos, o que viabilizou a Diretrizes semanal, que foi um sucesso
imediato. A revista combatia o fascismo dentro do regime fascista de Vargas. Sua
característica principal era a grande reportagem, que Samuel sabia pautar como poucos e
projetou repórteres como Justino Martins, Joel Silveira e Francisco de Assis Barbosa que
fez a entrevista histórica com Dilermando de Assis sobre a verdadeira versão da morte de
Euclides da Cunha.
A entrevista de Dilermando causou rebuliço dentro da redação, pois tratava-se de
uma grande tragédia da história do Brasil. O General Dilermando era cadete na época do
assassinato, tinha 17 anos e namorava a mulher de Euclides da Cunha, que um dia viu o
cadete saindo de sua casa. O escritor atirou no cadete, mas errou o tiro, atirou outra vez e
também errou. O cadete então deu-lhe um tiro só, na testa, e matou Euclides. E foi
absolvido por legítima defesa. Samuel publicou a entrevista assinada por Francisco
Barbosa.
Os repórteres viajavam pelo Brasil, o que era uma novidade. Naquela época,
poucos jornalistas cobriam fatos fora de suas cidades. A revista defendia o ponto de vista
de seu editor, que tinha preocupação em conscientizar seu público, pois Wainer queria
mostrar ao seu leitor a necessidade do nacionalismo como posição redentora para o Brasil.
II a) Um pouco de história
1
9 SODRÉ, Nelson W. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. P.
444.
3
A revista Diretrizes foi fundada no Rio de Janeiro pelo escritor e jornalista Antônio
José de Azevedo Amaral que logo convidou o também jornalista Samuel Wainer para,
juntos, editarem a revista. Amaral foi um dos intelectuais que apoiou o Estado Novo e
pensava trazer para a revista a doutrina varguista. Seis meses depois da fundação revista,
Azevedo Amaral sai da revista que tomava um rumo oposto a suas posições políticas.
Num primeiro momento, a revista foi mensal, até 1940 ,e dois anos depois, a
revista passou a ser uma publicação semanal. Durante seus mais de 200 números, o
hebdomadário conseguiu independência dos demais jornais e revistas do país, buscando
liberdade de expressão e uma linguagem reflexiva em seus textos elegantes e pertinentes.
A complexidade da revista na escolha dos temas e as pautas explosivas oferecem
um panorama daquele período no Brasil que viveu em crises internas e depois externas ao
se filiarem aos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
A revista seguia a linha soviética, e teve de se sujeitar ao pacto Hitler-Stálin.
Sua equipe era formada por intelectuais instigantes como Moacyr Werneck de
Castro, o então comunista Carlos Lacerda e outros integrantes do Partido Comunista.
Samuel convidou vários escritores como Graciliano Ramos, Astrogildo Pereira, Adalgiza
Nery, Jorge Amado, Octávio Malta, Rachel de Queiróz entre outros, para formar a equipe
de sua revista, que era submetida à censura prévia do DIP. Seu objetivo era lutar contra o
fascismo e o nazismo.
Samuel cuidava de Diretrizes desde a redação até a impressão. Buscava anúncios,
escrevia artigos e assim conseguia um dinheiro que dava para pagar seu aluguel. Mas ele
tinha de enfrentar a censura, a repressão do Ministério da Guerra, como aconteceu com o
número do Cinqüentenário da República, ao escolher para a capa a fotografia de Benjamin
Constant, quando o exército estava dividido em dois grupos: os constantistas e os
deodoristas. Benjamin Constant era a tradição positivista, já o Marechal Deodoro era o
Marechal da espada. E foi obrigado a escolher o Marechal na capa.
III Objetivos
Interessa perceber como esta revista que combatia Vargas consegue driblar o DIP.
A revista seguia a linha soviética, teve de se sujeitar ao pacto Hitler-Stálin. Diretrizes
como foco de resistência. Pretende-se investigar na pesquisa a resistência política da
4
equipe de jornalistas ao governo Vargas. Desde a escolha dos repórteres e jornalistas até
o conteúdo das matérias. A revista sofria censura do DIP. Esse embate entre a censura e
liberdade pode ser percebida através das edições publicadas?
Um outro ponto que parece pertinente é o de dar destaque ao suplemento literário e
averiguar se as matérias literárias tinham conteúdo político burlando a censura. Esse
suplemento não está disponível no site da Biblioteca Nacional, mas insisto na sua
importância para o entendimento do ambiente cultural do período, em verificar se há pistas
de textos combativos em suas páginas.
O outro tema que me fascina é o que diz respeito ao DIP e suas relações com a imprensa
e, especialmente com Diretrizes. Acredito que essa luta entre liberdade e censura talvez mereça
um olhar mais atento. Como eram as relações entre o Ministro da Propaganda de Vargas – e
também jornalista - Lourival Fontes e Samuel Wainer?
Diretrizes
O jornalista Joel Silveira que durante anos atuou junto a Diretrizes afirmou que
esta possuía “..um conteúdo subliminarmente contrário à ditadura”, tendo atraído ao longo
de sua existência boa parte da “intelectualidade antiestado-novista”.2
Xavier Filho afirma que “O regime capitaneado por Getúlio Vargas se notabilizou
pela extrema truculência na repressão aos veículos de comunicação de oposição.” Dentre
os que tiveram graves problemas com as autoridades e que sofreram toda ordem de
arbitrariedades, destaque aos jornais A Noite, A Manhã e O Estado de S. Paulo. No caso
específico do diário da família Mesquita, a situação de confronto com o governo chegou
ao clímax com sua desapropriação, ocorrida em março de 1940, voltando às mãos de seus
antigos proprietários somente no contexto de redemocratização do país, em dezembro de
1945.
O jovem Wainer se interessava por política e no Rio, nos anos 30, começou a sair
do gueto familiar, abrir novas perspectivas. Conheceu Adolfo Eizen, fundador da editora
2
SILVEIRA, Joel. Tempo de contar. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. P. 105. in Duque Filho, Álvaro Xavier
Política internacional na revista Diretrizes (1938-1942) Dissertação de Mestrado – Faculdade de Ciências e Letras
de Assis – Universidade Estadual Paulista. 2007.
5
Brasil América, Abraham Koogan, da livraria Koogan, depois Delta Larousse. Ele queria
ser bem sucedido intelectualmente. E o Rio de Janeiro oferecia essa possibilidade. Para
tornar-se jornalista começou escrevendo uma coluna num jornal da comunidade judaica e
aos poucos conhecendo o meio. Redigiu alguns artigos para uma coluna de assuntos
israelitas no Diário de Notícias, até ser convidado por Azevedo Amaral (1881-1942) para
integrar revista Diretrizes. Lembra que aceitou o desafio porque queria ser jornalista,
mesmo reconhecendo que não sabia redigir.
Segundo VERGARA,
[...] em setembro de 1939, com o objetivo de ampliar as
atividades do Departamento, foi criado o Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP), sob a direção de Lourival
Fontes. Para organizar suas tarefas e atividades, o DIP foi
dividido em cinco divisões específicas: a de divulgação; rádio;
teatro e cinema; imprensa, turismo e serviços auxiliares,
denominação alterada em 1942 para serviço de administração.
Coube ao órgão centralizar e coordenar a comunicação no
Estado Novo, organizando um modelo que atendesse as
necessidades de divulgação e propagação dos preceitos do
regime bem como dos atos do governo.3
A partir de janeiro de 1941, a revista passou a ser semanal, abordando temas mais
populares. Segundo texto publicado na página da hemeroteca da Biblioteca Nacional,
A mudança deveu-se, em grande parte, às posições dos responsáveis pelo
periódico face ao autoritarismo vigente em alguns países da Europa (e, por
extensão, também no Brasil) e diante do desenrolar da Segunda Guerra
Mundial. A mudança no teor da publicação, de acadêmico para popular,
revelava, de certa forma, a busca da democratização da informação e da
própria política nacional, então sufocada pelo regime fechado e violento do
Estado Novo.
Com a gradual politização dos artigos e o emprego de linguagem
mais acessível, que lhe rendeu mais leitores, Diretrizes acentuou o seu
caráter liberal e democrático, oposto ao situacionismo. Embora concordasse
com grande parte das medidas econômicas e sociais tomadas pelo governo
de Vargas, a revista cada vez mais evidenciava a sua oposição ao
autoritarismo do regime.4
3
VERGARA,Anelize O homem da rua: Rubem Braga e a Revista Diretrizes - Projeto de Iniciação
Cientifica, Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras – Assis
Orientadora: Drª Tania Regina de Luca
4
http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/diretrizes
6
É na redação de Diretrizes que Wainer conhece a intelectualidade da cidade-capital,
os formadores de opinião: Moacyr Werneck de Castro, o então comunista Carlos Lacerda
e outros integrantes do Partido Comunista. Samuel convidou para integrar a redação,
vários escritores como Graciliano Ramos, Astrogildo Pereira, Adalgiza Nery, Jorge
Amado, Octávio Malta, Rachel de Queiróz entre outros. Trabalharam ou colaboraram na
primeira fase de Diretrizes, entre outros, Joel Silveira (secretário de redação), Osório
Borba, Marques Rebelo, Genolino Amado, Álvaro Moreyra, Apparício Torelly (o “Barão
de Itararé”), Rubem Braga, Antônio Nássara, Francisco de Assis Barbosa entre muitos
outros nomes.
A equipe da revista sofria censura prévia do DIP. O objetivo de Diretrizes era lutar
contra o fascismo e o nazismo. A briga seria árdua contra os dispositivos de Getúlio
Vargas. Segundo Mônica Velloso:
“(...) as origens dessa instituição remontam a um período anterior ao
Estado Novo. Em 1934, Vargas defendera a necessidade de o governo
associar o rádio, cinema e esportes em um sistema articulado de
“educação mental, moral e higiênica”. Essa idéia começou a se
concretizar no ano seguinte, quando o primeiro escalão do governo se
reuniria para fazer uma avaliação da repressão à Intentona comunista.
Nessa reunião seriam lançadas duas sementes de rápida frutificação: o
Departamento de Imprensa e Propaganda e o tribunal de Segurança
Nacional. Criado pelo decreto presidencial de dezembro de 1939, o
DIP, sob a direção de Lourival Fontes, viria materializar toda prática.5
Burlando a lei, sendo chamado e censurado, Wainer ia navegando entre os
intelectuais de esquerda que participavam da revista na ditadura. Era um embate
permanente. O DIP foi criado por decreto presidencial6 em dezembro de 1939, com
objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares” vindo do
Departamento Oficial de Publicidade, criado em 1931. Ao DIP cabia, segundo o CPDOC,
“coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e externa, fazer censura ao teatro,
cinema e funções esportivas e recreativas, organizar manifestações cívicas, festas
5
Mônica Pimenta Velloso Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo in DELGADO e FERREIRA orgs O
Brasil Republicano: o tempo do nacional –estatismo Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 203 (p 145-180)
6http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos3745/EducacaoCulturaPropaganda/DIP
7
patrióticas, exposições, concertos, conferências e dirigir o programa de radiodifusão
oficial do governo.”
As informações eram enviadas gratuitamente para a imprensa pela Agência Nacional
que tinha um monopólio das notícias. Samuel cuidava de Diretrizes desde a redação até a
impressão. Buscava anúncios, escrevia artigos e assim conseguia um dinheiro que dava
para pagar seu aluguel. Mas ele tinha de enfrentar a censura, a repressão do Ministério da
Guerra7, além de ter de conseguir anunciantes:
Pequenas empresas paulistas e cariocas anunciaram em
Diretrizes, mas as publicidades de maior destaque eram de
cassinos diversos, da Companhia Nacional de Seguros de Vida
Sul América e das norte-americanas Gillette, Westinghouse,
Standart Oil e Ford. A publicidade de Gillette apareceu com
maior freqüência e era das mais elaboradas, visto que
apresentava desenhos ou “histórias em quadrinhos”
acompanhados de pequenos textos. “Siga o progresso! Barbeiese em casa diariamente com Gillette”. Estes anúncios
demonstraram um certo dinamismo publicitário presente nas
páginas de Diretrizes.8
Encontram Maurício Goulart que entrou com 100 contos, o que viabilizou a
Diretrizes semanal, que foi um sucesso imediato. A revista combatia o fascismo dentro do
regime ditatorial de Vargas. Samuel lembra que a luta permanente contra o DIP foi
possível graças ao entusiasmo e ao trabalho de sua equipe:
“Faltavam anunciantes, faltava capital, a venda em bancas não bastava
para assegurar salários justos para os homens que faziam a revista e a
dívida com a gráfica aumentava. Ainda assim, prosseguíamos"9.
Não era apenas de política que viva a revista. A vida cultural e debates entre
intelectuais também estavam na pauta. Em 1940, lança o Suplemento Literário com um
elenco de escritores invejável. Pelas páginas, lia-se Manuel Bandeira, Oswald de Andrade,
Cecília Meirelles, José Lins do Rego, Rubem Braga.
7
Fita nº 9, p.6/157, do material bruto de S.W.
FERRARI, Danilo W. Diretrizes: a primeira aventura de Samuel Wainer
http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao31/materia01/
8
9
Op. Cit, pág. 67. Grifos nossos.
8
Durante a Segunda Guerra, a revista pode expandir suas idéias liberais e
democráticas, pois o Brasil esteve ao lado dos Aliados. Apoiou a entrada do país na
Guerra em 1942, publicava artigos contra os países do Eixo e levantou bandeiras
importantes como o apoio à siderurgia nacional, a campanha do “petróleo é nosso” e
ataque incondicional ao nazi-fascismo. Para WERNECK SODRÉ, Wainer conseguiu com
elegância e persistência, esgueirar-se pela rígida estrutura estadonovista:
"(...) com esforços curiosos, muita malícia e alguma ousadia,
passando assunto entre as estreitas malhas do vastíssimo rol dos
assuntos proibidos, essa revista teve, realmente, papel de relevo na
época, que foi ainda maior à medida em que, desde 1942 (...), os
Estados Unidos juntaram-se aos Aliados. A participação da União
Soviética na guerra, forçando a suspensão da propaganda
anticomunista no ocidente, permitiu o combate ao nazi-fascismo e o
Estado Novo começou a ser esvaziado de seu conteúdo originário e a
debilitar-se (p. 444)."
Entrevista explosiva
A capa da revista nº 72, de novembro de 1941 trazia na capa uma fotografia
de Dilermando de Assis, fardado e Francisco de Assis Barbosa ao seu lado, com a
seguinte manchete: “Segundo o depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis”
.Muita coisa já se escreveu a respeito da morte trágica de Euclides da Cunha” abria sua
matéria Francisco de Assis Barbosa “E, verdade seja dita, a figura do adolescente que teve
a infelicidade de matar o grande escritor não foi poupado de nenhum jeito pela maioria dos
biógrafos e comentadores da obra do autor de Os sertões. Samuel queria publicar a
entrevista, mas convocou uma reunião para discutir o assunto. Entre os presentes estavam
Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Astrogildo Pereira. Debateram por
horas:
“A matéria na minha mão, que eu vou fazer com ela? Se
publicarmos, o Partido nos condena às labaredas do
inferno! Não publicar é uma traição jornalística da mais
baixa categoria, além de ser uma traição humana! (...)
prevaleceu a publicação .”10
E o título da página anunciava o furo de reportagem:
10
Fita nº 9, p.18/169, do material bruto de S.W.
9
Euclides da Cunha não foi assassinado
O depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis, em
entrevista exclusiva a Diretrizes
Reportagem de Francisco de Assis Barbosa
A revista terminou em 44: Samuel recebe um aviso do diretor do DIP de que
Diretrizes perdera o direito à cota de papel que garantia sua impressão. Samuel não se
surpreendeu, porque a ameaça era permanente. Como era uma revista engajada, Diretrizes
era regularmente apreendida pela polícia e ele passava longas horas tendo que burlar,
convencer os burocratas do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) a liberarem a
publicação. Uma das primeiras atitudes da nova fase do periódico foi publicar uma série
de matérias relembrando o tenentismo da década de 1920, cujos ideais eram originalmente
moralizar e democratizar a República, então dominada pelas oligarquias estaduais.
Assim que recebeu a carta do DIP, Samuel escreveu uma carta ao capitão Amilcar
de Menezes querendo saber a razão do fechamento da revista, questionando: fecharam a
revista porque ela era a favor da industrialização do país? Por que defendia a liberdade
através da campanha do tenentismo? A carta correu de mão em mão e Samuel logo
procurou asilo na embaixada do México, preocupado com represálias do governo. O
embaixador do México no Brasil era seu amigo e o manteve na embaixada não asilado porque não havia ordem de prisão contra ele. Ficou lá três dias, depois seguiu em exílio
para Buenos Aires. Na capital portenha reencontrou colegas jornalistas e mandava
matérias para O Globo. Samuel havia forçado sua saída do Brasil, mas não queria ficar
numa lista negra de jornalistas. Havia uma vontade de aprender, de saber mais sobre o
mundo, e a melhor forma era viajar.
Seu destino final acaba sendo os EUA, no princípio do ano de 1945, sob a proteção
de seu amigo Nelson Rockefeller.
IV Metodologia
A pesquisa privilegiará uma abordagem interdisciplinar, dialogando com outras
áreas do conhecimento, como literatura, ciências sociais, história e comunicação numa
10
interação de saberes. Esta linha metodológica me parece especialmente fértil na atual
conjuntura histórica, em que as fronteiras interdisciplinares imbricam seus focos de análise
sobre múltiplos temas pertinentes às diferentes áreas.
Nessa pesquisa também discutirei, baseada em bibliografia específica da
Comunicação, com ênfase em Jornalismo, a questão dos textos jornalísticos, as pautas e o
comprometimento ideológico dos editores.
Seguirei a estratégia de fazer um levantamento bibliográfico sobre os temas
relevantes para este projeto, como: texto enquanto arma de resistência política, jornalismo,
profissão de jornalista, cidade e memória, dentro das diversas disciplinas já apontadas. A
idéia é utilizar a bibliografia de ciência política e de história do período da ditadura
Vargas, fichando livros para contextualizar e compreender as narrativas contidas na
publicação.
Uma pesquisa ancorada na Internet, especificamente no site da Biblioteca
Nacional, facilitará a leitura e análise dos exemplares das revistas que, em sua maioria,
encontram-se digitalizados. A partir da leitura será feita uma seleção de textos mais
relevantes, de acordo com os temas privilegiados, como editoriais, reportagens, crônicas,
suplemento literário e memórias. A análise levará em conta a linha editorial da revista
para desvendar as estratégias e táticas de ação: prioridades e critérios para veiculação,
formatos, estilos e linguagens; busca de fontes de informação.
V Cronograma
Levantamento dos textos: março 2014 a agosto2014
Análise do material: setembro 2014 a janeiro 2015
VI Resultados da pesquisa
Artigos sobre o tema para congressos de História e de Comunicação.
11
Referências bibliográficas
BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica. 4ª. ed. São Paulo: Ática, 1990.
FERRARI, Danilo W. Diretrizes: a primeira aventura de Samuel Wainer
MARTINS, Ana Luisa. Revistas em Revista: Imprensa e práticas culturais em tempos de
República. São Paulo (1890-1922). São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial do Estado, 2001.
P. 21.
MORAIS, F. Chatô: o rei do Brasil.São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
PARADA, Maurício Estados atoritários e meios de Comuniação de massa: Itália,
Portugal e Almanha – 1922/1939, in HERSCHMANN M e RIBEIRO A P(orgs
Comunicação e história – interfaces e novas abrodagens Rio de Janeniro: Mauad X:Globo
Universidade, 2008. p. 205-218
PECAUT, Daniel Os intelectuais e a política no Brasil: Rio de Janeniro, Ática, 1990.
VERGARA,Anelize O homem da rua: Rubem Braga e a Revista Diretrizes - Projeto de
Iniciação Cientifica, Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras – Assis
Orientadora: Drª Tania Regina de Luca
WERNECK SODRÉ, N. História da imprensa no Brasil, Martins Fontes: São
Paulo,1983.
WAINER, S Minha razão de viver. Rio de Janeiro: Record, 1987.
________
Material bruto transcrito de 53 fitas gravadas pelo autor ( 1300 páginas).
Referências digitais
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos3745/EducacaoCulturaPropa
ganda/
Texto integrante dos Anais do XX Encontro Regional de História: História e Liberdade.
ANPUH/SP – UNESP-Franca. 06 a 10 de setembro de 2010. Cd-Rom.
http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/Pain%E9is/Aneli
ze%20Vergara.pdf
http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/diretrizes
Duque Filho, Alvaro Xavier Política Internacional na Revista Diretrizes (1938 – 1942)
Dissertação de Mestrado - Faculdade de Ciências e Letras - UNESP/ASSIS, 2007
12
http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048018P5/2007/duquefilho_a
x_me_assis.pdf
http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao31/materia01/
13
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