Diretrizes: Diretrizes : um espaço de resistência na imprensa do Estado Novo (1938-1944) Joëlle Rouchou I Introdução O Rio de Janeiro foi o palco escolhido pelo bessarabiano Samuel Wainer (19121980) para exercer seu ofício de jornalista. Filho de pais pobres, imigrantes judeus, que se instalaram no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. A vida rotineira, sem glamour, não era suficiente para Wainer, que foi à luta e aos 12 anos, em 1924, decidiu estudar no Rio de Janeiro, no Pedro II e viver com sua irmã Rosa, que já havia se mudado para a então capital. A mais perfeita tradução do que efetivamente foi Samuel Wainer é ter sido um jornalista. A dimensão desse jornalista vem da trajetória em que galgou todos os degraus, desde o trabalho de repórter até a entrada no seletíssimo e restrito clube dos donos de jornais no Brasil. Depois trabalhou na revista Diretrizes, correu mundo como correspondente dos Diários Associados, cobriu os acontecimentos mais importantes do pós-guerra, entrevistou o então esquecido Getúlio Vargas, vaticinando sua volta, fundou o jornal Última Hora e ainda rodou algumas redações. Viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro e terminou sua vida como empregado do jornal Folha de São Paulo, empresa que havia comprado seu jornal. Diretrizes é uma etapa importante na biografia de Wainer. Em termos jornalísticos, sua carreira é das mais invejáveis. Ele se movia elegantemente cruzando a fronteira entre patrões e empregados com charme e classe que permaneceram como sua marca. O que torna suas memórias instigantes é sua carreira cheia de aventuras, sua força em buscar uma matéria jornalística, sua obsessão pelo furo. Era o homem que estava sempre no lugar onde a notícia acontecia. Wainer foi dos raros donos de empresas jornalísticas que passou pelas máquinas de uma redação. Com isso ele pôde participar do processo de feitura do jornal em todas as suas etapas. Para cumprir a tarefa de ser jornalista é preciso experimentar todas as editorias e descobrir qual o assunto preferido e ir fundo nele. Wainer foi mais longe: além de conhecer a redação, descobriu o jornal como empresa a ser gerenciada e - o mais terrível - o uso dessa empresa como um quarto poder da República. 1 Este projeto é um primeiro movimento para uma pesquisa sobre a revista Diretrizes a ser estudada entre os anos 1938 e 1944, quando dirigida por Samuel Wainer. Diretrizes foi lançada em maio de 1938 e seguiu até julho de 1944, quando Wainer exilou-se na Argentina. Sua orientação editorial era nacionalista, defender causas que protegeriam o país, como a campanha, por exemplo “O petróleo é nosso”. A vida política brasileira daquele momento estava registrada segundo um olhar diferente dos demais hebdomadários. Quando fiz minha dissertação de mestrado sobre Samuel Wainer, a revista me chamou atenção pela qualidade dos artigos, o corpo de repórteres e redatores, as ilustrações a as posições políticas lutando contra o regime de Getúlio Vargas. Ao longo de minha pesquisa sobre outro jornalista, Álvaro Moreyra, trabalhei com os artigos dele que publicava, entre outros, em Diretrizes, o que me aguçou a curiosidade em relação à publicação. Há poucos registros acadêmicos sobre a publicação, os mais recentes são de orientandos da professora Tânia de Lucas, da Universidade de Assis. II Justificativa A escassez de trabalhos sobre essa publicação que teve um papel importante na afirmação nacional e na luta pela liberdade de expressão, me parece um tema relevante e pertinente na linha de pesquisa em história da imprensa brasileira. Sua batalha contra a censura sofrida pelo DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda - foi exemplar e merece uma atenção mais precisa no campo tanto da historia cultural quanto da história política. A arena escolhida para a batalha entre o poder constituído de Vargas e as tintas e letras da equipe da revista, escrevem passagens antológicas e fornecem instrumentos para compreensão e entendimento deste período da história do Brasil. Apesar de recorrentemente citada como um veículo importante de sua época, Diretrizes não foi objeto de estudo específico. Referências esparsas sobre a revista são normalmente encontradas em obras gerais sobre história da imprensa e em depoimentos de jornalistas e intelectuais que participaram de sua produção. Segundo Nelson Werneck Sodré, o periódico manteve certa distância da máquina governamental e, principalmente entre 1938 e 1942, sua gabaritada equipe conseguiu burlar aos aparelhos repressivos reforçados a partir do Golpe de 10 de novembro de 1937: 2 (...)com esforços curiosos, muita malícia e alguma ousadia, passando assuntos entre as estreitas malhas do vastíssimo rol dos assuntos proibidos, essa revista teve, realmente, papel de relevo na época(...)1 A revista foi se firmando como uma importante publicação, defendendo interesses nacionalistas, e foi uma das primeiras a defender a criação da indústria siderúrgica brasileira. Até o final dos anos 40 a revista era mensal, e foi se modernizando graficamente, com seções de humor, entrevistas e cultura. Mas o dinheiro ficou curto, havia pouco anúncio e Samuel foi com seu amigo Rubem Braga - que também fazia parte do grupo de Diretrizes - buscar dinheiro dos capitalistas. Encontram Maurício Goulart que entrou com 100 contos, o que viabilizou a Diretrizes semanal, que foi um sucesso imediato. A revista combatia o fascismo dentro do regime fascista de Vargas. Sua característica principal era a grande reportagem, que Samuel sabia pautar como poucos e projetou repórteres como Justino Martins, Joel Silveira e Francisco de Assis Barbosa que fez a entrevista histórica com Dilermando de Assis sobre a verdadeira versão da morte de Euclides da Cunha. A entrevista de Dilermando causou rebuliço dentro da redação, pois tratava-se de uma grande tragédia da história do Brasil. O General Dilermando era cadete na época do assassinato, tinha 17 anos e namorava a mulher de Euclides da Cunha, que um dia viu o cadete saindo de sua casa. O escritor atirou no cadete, mas errou o tiro, atirou outra vez e também errou. O cadete então deu-lhe um tiro só, na testa, e matou Euclides. E foi absolvido por legítima defesa. Samuel publicou a entrevista assinada por Francisco Barbosa. Os repórteres viajavam pelo Brasil, o que era uma novidade. Naquela época, poucos jornalistas cobriam fatos fora de suas cidades. A revista defendia o ponto de vista de seu editor, que tinha preocupação em conscientizar seu público, pois Wainer queria mostrar ao seu leitor a necessidade do nacionalismo como posição redentora para o Brasil. II a) Um pouco de história 1 9 SODRÉ, Nelson W. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. P. 444. 3 A revista Diretrizes foi fundada no Rio de Janeiro pelo escritor e jornalista Antônio José de Azevedo Amaral que logo convidou o também jornalista Samuel Wainer para, juntos, editarem a revista. Amaral foi um dos intelectuais que apoiou o Estado Novo e pensava trazer para a revista a doutrina varguista. Seis meses depois da fundação revista, Azevedo Amaral sai da revista que tomava um rumo oposto a suas posições políticas. Num primeiro momento, a revista foi mensal, até 1940 ,e dois anos depois, a revista passou a ser uma publicação semanal. Durante seus mais de 200 números, o hebdomadário conseguiu independência dos demais jornais e revistas do país, buscando liberdade de expressão e uma linguagem reflexiva em seus textos elegantes e pertinentes. A complexidade da revista na escolha dos temas e as pautas explosivas oferecem um panorama daquele período no Brasil que viveu em crises internas e depois externas ao se filiarem aos Aliados na Segunda Guerra Mundial. A revista seguia a linha soviética, e teve de se sujeitar ao pacto Hitler-Stálin. Sua equipe era formada por intelectuais instigantes como Moacyr Werneck de Castro, o então comunista Carlos Lacerda e outros integrantes do Partido Comunista. Samuel convidou vários escritores como Graciliano Ramos, Astrogildo Pereira, Adalgiza Nery, Jorge Amado, Octávio Malta, Rachel de Queiróz entre outros, para formar a equipe de sua revista, que era submetida à censura prévia do DIP. Seu objetivo era lutar contra o fascismo e o nazismo. Samuel cuidava de Diretrizes desde a redação até a impressão. Buscava anúncios, escrevia artigos e assim conseguia um dinheiro que dava para pagar seu aluguel. Mas ele tinha de enfrentar a censura, a repressão do Ministério da Guerra, como aconteceu com o número do Cinqüentenário da República, ao escolher para a capa a fotografia de Benjamin Constant, quando o exército estava dividido em dois grupos: os constantistas e os deodoristas. Benjamin Constant era a tradição positivista, já o Marechal Deodoro era o Marechal da espada. E foi obrigado a escolher o Marechal na capa. III Objetivos Interessa perceber como esta revista que combatia Vargas consegue driblar o DIP. A revista seguia a linha soviética, teve de se sujeitar ao pacto Hitler-Stálin. Diretrizes como foco de resistência. Pretende-se investigar na pesquisa a resistência política da 4 equipe de jornalistas ao governo Vargas. Desde a escolha dos repórteres e jornalistas até o conteúdo das matérias. A revista sofria censura do DIP. Esse embate entre a censura e liberdade pode ser percebida através das edições publicadas? Um outro ponto que parece pertinente é o de dar destaque ao suplemento literário e averiguar se as matérias literárias tinham conteúdo político burlando a censura. Esse suplemento não está disponível no site da Biblioteca Nacional, mas insisto na sua importância para o entendimento do ambiente cultural do período, em verificar se há pistas de textos combativos em suas páginas. O outro tema que me fascina é o que diz respeito ao DIP e suas relações com a imprensa e, especialmente com Diretrizes. Acredito que essa luta entre liberdade e censura talvez mereça um olhar mais atento. Como eram as relações entre o Ministro da Propaganda de Vargas – e também jornalista - Lourival Fontes e Samuel Wainer? Diretrizes O jornalista Joel Silveira que durante anos atuou junto a Diretrizes afirmou que esta possuía “..um conteúdo subliminarmente contrário à ditadura”, tendo atraído ao longo de sua existência boa parte da “intelectualidade antiestado-novista”.2 Xavier Filho afirma que “O regime capitaneado por Getúlio Vargas se notabilizou pela extrema truculência na repressão aos veículos de comunicação de oposição.” Dentre os que tiveram graves problemas com as autoridades e que sofreram toda ordem de arbitrariedades, destaque aos jornais A Noite, A Manhã e O Estado de S. Paulo. No caso específico do diário da família Mesquita, a situação de confronto com o governo chegou ao clímax com sua desapropriação, ocorrida em março de 1940, voltando às mãos de seus antigos proprietários somente no contexto de redemocratização do país, em dezembro de 1945. O jovem Wainer se interessava por política e no Rio, nos anos 30, começou a sair do gueto familiar, abrir novas perspectivas. Conheceu Adolfo Eizen, fundador da editora 2 SILVEIRA, Joel. Tempo de contar. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. P. 105. in Duque Filho, Álvaro Xavier Política internacional na revista Diretrizes (1938-1942) Dissertação de Mestrado – Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista. 2007. 5 Brasil América, Abraham Koogan, da livraria Koogan, depois Delta Larousse. Ele queria ser bem sucedido intelectualmente. E o Rio de Janeiro oferecia essa possibilidade. Para tornar-se jornalista começou escrevendo uma coluna num jornal da comunidade judaica e aos poucos conhecendo o meio. Redigiu alguns artigos para uma coluna de assuntos israelitas no Diário de Notícias, até ser convidado por Azevedo Amaral (1881-1942) para integrar revista Diretrizes. Lembra que aceitou o desafio porque queria ser jornalista, mesmo reconhecendo que não sabia redigir. Segundo VERGARA, [...] em setembro de 1939, com o objetivo de ampliar as atividades do Departamento, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), sob a direção de Lourival Fontes. Para organizar suas tarefas e atividades, o DIP foi dividido em cinco divisões específicas: a de divulgação; rádio; teatro e cinema; imprensa, turismo e serviços auxiliares, denominação alterada em 1942 para serviço de administração. Coube ao órgão centralizar e coordenar a comunicação no Estado Novo, organizando um modelo que atendesse as necessidades de divulgação e propagação dos preceitos do regime bem como dos atos do governo.3 A partir de janeiro de 1941, a revista passou a ser semanal, abordando temas mais populares. Segundo texto publicado na página da hemeroteca da Biblioteca Nacional, A mudança deveu-se, em grande parte, às posições dos responsáveis pelo periódico face ao autoritarismo vigente em alguns países da Europa (e, por extensão, também no Brasil) e diante do desenrolar da Segunda Guerra Mundial. A mudança no teor da publicação, de acadêmico para popular, revelava, de certa forma, a busca da democratização da informação e da própria política nacional, então sufocada pelo regime fechado e violento do Estado Novo. Com a gradual politização dos artigos e o emprego de linguagem mais acessível, que lhe rendeu mais leitores, Diretrizes acentuou o seu caráter liberal e democrático, oposto ao situacionismo. Embora concordasse com grande parte das medidas econômicas e sociais tomadas pelo governo de Vargas, a revista cada vez mais evidenciava a sua oposição ao autoritarismo do regime.4 3 VERGARA,Anelize O homem da rua: Rubem Braga e a Revista Diretrizes - Projeto de Iniciação Cientifica, Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras – Assis Orientadora: Drª Tania Regina de Luca 4 http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/diretrizes 6 É na redação de Diretrizes que Wainer conhece a intelectualidade da cidade-capital, os formadores de opinião: Moacyr Werneck de Castro, o então comunista Carlos Lacerda e outros integrantes do Partido Comunista. Samuel convidou para integrar a redação, vários escritores como Graciliano Ramos, Astrogildo Pereira, Adalgiza Nery, Jorge Amado, Octávio Malta, Rachel de Queiróz entre outros. Trabalharam ou colaboraram na primeira fase de Diretrizes, entre outros, Joel Silveira (secretário de redação), Osório Borba, Marques Rebelo, Genolino Amado, Álvaro Moreyra, Apparício Torelly (o “Barão de Itararé”), Rubem Braga, Antônio Nássara, Francisco de Assis Barbosa entre muitos outros nomes. A equipe da revista sofria censura prévia do DIP. O objetivo de Diretrizes era lutar contra o fascismo e o nazismo. A briga seria árdua contra os dispositivos de Getúlio Vargas. Segundo Mônica Velloso: “(...) as origens dessa instituição remontam a um período anterior ao Estado Novo. Em 1934, Vargas defendera a necessidade de o governo associar o rádio, cinema e esportes em um sistema articulado de “educação mental, moral e higiênica”. Essa idéia começou a se concretizar no ano seguinte, quando o primeiro escalão do governo se reuniria para fazer uma avaliação da repressão à Intentona comunista. Nessa reunião seriam lançadas duas sementes de rápida frutificação: o Departamento de Imprensa e Propaganda e o tribunal de Segurança Nacional. Criado pelo decreto presidencial de dezembro de 1939, o DIP, sob a direção de Lourival Fontes, viria materializar toda prática.5 Burlando a lei, sendo chamado e censurado, Wainer ia navegando entre os intelectuais de esquerda que participavam da revista na ditadura. Era um embate permanente. O DIP foi criado por decreto presidencial6 em dezembro de 1939, com objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares” vindo do Departamento Oficial de Publicidade, criado em 1931. Ao DIP cabia, segundo o CPDOC, “coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e externa, fazer censura ao teatro, cinema e funções esportivas e recreativas, organizar manifestações cívicas, festas 5 Mônica Pimenta Velloso Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo in DELGADO e FERREIRA orgs O Brasil Republicano: o tempo do nacional –estatismo Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 203 (p 145-180) 6http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos3745/EducacaoCulturaPropaganda/DIP 7 patrióticas, exposições, concertos, conferências e dirigir o programa de radiodifusão oficial do governo.” As informações eram enviadas gratuitamente para a imprensa pela Agência Nacional que tinha um monopólio das notícias. Samuel cuidava de Diretrizes desde a redação até a impressão. Buscava anúncios, escrevia artigos e assim conseguia um dinheiro que dava para pagar seu aluguel. Mas ele tinha de enfrentar a censura, a repressão do Ministério da Guerra7, além de ter de conseguir anunciantes: Pequenas empresas paulistas e cariocas anunciaram em Diretrizes, mas as publicidades de maior destaque eram de cassinos diversos, da Companhia Nacional de Seguros de Vida Sul América e das norte-americanas Gillette, Westinghouse, Standart Oil e Ford. A publicidade de Gillette apareceu com maior freqüência e era das mais elaboradas, visto que apresentava desenhos ou “histórias em quadrinhos” acompanhados de pequenos textos. “Siga o progresso! Barbeiese em casa diariamente com Gillette”. Estes anúncios demonstraram um certo dinamismo publicitário presente nas páginas de Diretrizes.8 Encontram Maurício Goulart que entrou com 100 contos, o que viabilizou a Diretrizes semanal, que foi um sucesso imediato. A revista combatia o fascismo dentro do regime ditatorial de Vargas. Samuel lembra que a luta permanente contra o DIP foi possível graças ao entusiasmo e ao trabalho de sua equipe: “Faltavam anunciantes, faltava capital, a venda em bancas não bastava para assegurar salários justos para os homens que faziam a revista e a dívida com a gráfica aumentava. Ainda assim, prosseguíamos"9. Não era apenas de política que viva a revista. A vida cultural e debates entre intelectuais também estavam na pauta. Em 1940, lança o Suplemento Literário com um elenco de escritores invejável. Pelas páginas, lia-se Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Cecília Meirelles, José Lins do Rego, Rubem Braga. 7 Fita nº 9, p.6/157, do material bruto de S.W. FERRARI, Danilo W. Diretrizes: a primeira aventura de Samuel Wainer http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao31/materia01/ 8 9 Op. Cit, pág. 67. Grifos nossos. 8 Durante a Segunda Guerra, a revista pode expandir suas idéias liberais e democráticas, pois o Brasil esteve ao lado dos Aliados. Apoiou a entrada do país na Guerra em 1942, publicava artigos contra os países do Eixo e levantou bandeiras importantes como o apoio à siderurgia nacional, a campanha do “petróleo é nosso” e ataque incondicional ao nazi-fascismo. Para WERNECK SODRÉ, Wainer conseguiu com elegância e persistência, esgueirar-se pela rígida estrutura estadonovista: "(...) com esforços curiosos, muita malícia e alguma ousadia, passando assunto entre as estreitas malhas do vastíssimo rol dos assuntos proibidos, essa revista teve, realmente, papel de relevo na época, que foi ainda maior à medida em que, desde 1942 (...), os Estados Unidos juntaram-se aos Aliados. A participação da União Soviética na guerra, forçando a suspensão da propaganda anticomunista no ocidente, permitiu o combate ao nazi-fascismo e o Estado Novo começou a ser esvaziado de seu conteúdo originário e a debilitar-se (p. 444)." Entrevista explosiva A capa da revista nº 72, de novembro de 1941 trazia na capa uma fotografia de Dilermando de Assis, fardado e Francisco de Assis Barbosa ao seu lado, com a seguinte manchete: “Segundo o depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis” .Muita coisa já se escreveu a respeito da morte trágica de Euclides da Cunha” abria sua matéria Francisco de Assis Barbosa “E, verdade seja dita, a figura do adolescente que teve a infelicidade de matar o grande escritor não foi poupado de nenhum jeito pela maioria dos biógrafos e comentadores da obra do autor de Os sertões. Samuel queria publicar a entrevista, mas convocou uma reunião para discutir o assunto. Entre os presentes estavam Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Astrogildo Pereira. Debateram por horas: “A matéria na minha mão, que eu vou fazer com ela? Se publicarmos, o Partido nos condena às labaredas do inferno! Não publicar é uma traição jornalística da mais baixa categoria, além de ser uma traição humana! (...) prevaleceu a publicação .”10 E o título da página anunciava o furo de reportagem: 10 Fita nº 9, p.18/169, do material bruto de S.W. 9 Euclides da Cunha não foi assassinado O depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis, em entrevista exclusiva a Diretrizes Reportagem de Francisco de Assis Barbosa A revista terminou em 44: Samuel recebe um aviso do diretor do DIP de que Diretrizes perdera o direito à cota de papel que garantia sua impressão. Samuel não se surpreendeu, porque a ameaça era permanente. Como era uma revista engajada, Diretrizes era regularmente apreendida pela polícia e ele passava longas horas tendo que burlar, convencer os burocratas do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) a liberarem a publicação. Uma das primeiras atitudes da nova fase do periódico foi publicar uma série de matérias relembrando o tenentismo da década de 1920, cujos ideais eram originalmente moralizar e democratizar a República, então dominada pelas oligarquias estaduais. Assim que recebeu a carta do DIP, Samuel escreveu uma carta ao capitão Amilcar de Menezes querendo saber a razão do fechamento da revista, questionando: fecharam a revista porque ela era a favor da industrialização do país? Por que defendia a liberdade através da campanha do tenentismo? A carta correu de mão em mão e Samuel logo procurou asilo na embaixada do México, preocupado com represálias do governo. O embaixador do México no Brasil era seu amigo e o manteve na embaixada não asilado porque não havia ordem de prisão contra ele. Ficou lá três dias, depois seguiu em exílio para Buenos Aires. Na capital portenha reencontrou colegas jornalistas e mandava matérias para O Globo. Samuel havia forçado sua saída do Brasil, mas não queria ficar numa lista negra de jornalistas. Havia uma vontade de aprender, de saber mais sobre o mundo, e a melhor forma era viajar. Seu destino final acaba sendo os EUA, no princípio do ano de 1945, sob a proteção de seu amigo Nelson Rockefeller. IV Metodologia A pesquisa privilegiará uma abordagem interdisciplinar, dialogando com outras áreas do conhecimento, como literatura, ciências sociais, história e comunicação numa 10 interação de saberes. Esta linha metodológica me parece especialmente fértil na atual conjuntura histórica, em que as fronteiras interdisciplinares imbricam seus focos de análise sobre múltiplos temas pertinentes às diferentes áreas. Nessa pesquisa também discutirei, baseada em bibliografia específica da Comunicação, com ênfase em Jornalismo, a questão dos textos jornalísticos, as pautas e o comprometimento ideológico dos editores. Seguirei a estratégia de fazer um levantamento bibliográfico sobre os temas relevantes para este projeto, como: texto enquanto arma de resistência política, jornalismo, profissão de jornalista, cidade e memória, dentro das diversas disciplinas já apontadas. A idéia é utilizar a bibliografia de ciência política e de história do período da ditadura Vargas, fichando livros para contextualizar e compreender as narrativas contidas na publicação. Uma pesquisa ancorada na Internet, especificamente no site da Biblioteca Nacional, facilitará a leitura e análise dos exemplares das revistas que, em sua maioria, encontram-se digitalizados. A partir da leitura será feita uma seleção de textos mais relevantes, de acordo com os temas privilegiados, como editoriais, reportagens, crônicas, suplemento literário e memórias. A análise levará em conta a linha editorial da revista para desvendar as estratégias e táticas de ação: prioridades e critérios para veiculação, formatos, estilos e linguagens; busca de fontes de informação. V Cronograma Levantamento dos textos: março 2014 a agosto2014 Análise do material: setembro 2014 a janeiro 2015 VI Resultados da pesquisa Artigos sobre o tema para congressos de História e de Comunicação. 11 Referências bibliográficas BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica. 4ª. ed. São Paulo: Ática, 1990. FERRARI, Danilo W. Diretrizes: a primeira aventura de Samuel Wainer MARTINS, Ana Luisa. Revistas em Revista: Imprensa e práticas culturais em tempos de República. São Paulo (1890-1922). São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial do Estado, 2001. P. 21. MORAIS, F. Chatô: o rei do Brasil.São Paulo: Companhia das Letras, 1994. PARADA, Maurício Estados atoritários e meios de Comuniação de massa: Itália, Portugal e Almanha – 1922/1939, in HERSCHMANN M e RIBEIRO A P(orgs Comunicação e história – interfaces e novas abrodagens Rio de Janeniro: Mauad X:Globo Universidade, 2008. p. 205-218 PECAUT, Daniel Os intelectuais e a política no Brasil: Rio de Janeniro, Ática, 1990. VERGARA,Anelize O homem da rua: Rubem Braga e a Revista Diretrizes - Projeto de Iniciação Cientifica, Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras – Assis Orientadora: Drª Tania Regina de Luca WERNECK SODRÉ, N. História da imprensa no Brasil, Martins Fontes: São Paulo,1983. WAINER, S Minha razão de viver. Rio de Janeiro: Record, 1987. ________ Material bruto transcrito de 53 fitas gravadas pelo autor ( 1300 páginas). Referências digitais http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos3745/EducacaoCulturaPropa ganda/ Texto integrante dos Anais do XX Encontro Regional de História: História e Liberdade. ANPUH/SP – UNESP-Franca. 06 a 10 de setembro de 2010. Cd-Rom. http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/Pain%E9is/Aneli ze%20Vergara.pdf http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/diretrizes Duque Filho, Alvaro Xavier Política Internacional na Revista Diretrizes (1938 – 1942) Dissertação de Mestrado - Faculdade de Ciências e Letras - UNESP/ASSIS, 2007 12 http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048018P5/2007/duquefilho_a x_me_assis.pdf http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao31/materia01/ 13