Confronto! A REALIDADE DO PECADO A contestação de Deus provedor da vida vem das ciências naturais e a contestação da realidade do pecado vem das ciências comportamentais. Há uma visão que procura ensinar que o ser humano não possui algo inato que seja ruim ou condenável. Em suma, se quer apregoar que nada há de parecido com o que a doutrina cristã denomina „pecado‟. Ao contrário, incentiva-se o abandono de qualquer pensamento que gere um sentimento de culpa ou que requeira algum tipo de perdão ou remissão. Essa coisa de erro original geneticamente transferido nada mais seria que uma „incucação‟ culturalmente transmitida pela dita tradição judaico-cristã, e dela é preciso libertar-se para que uma personalidade equilibrada e ajustada floresça. O que é pecado? Pecado é um conceito religioso de amplo uso e de conceituação abrangente. De fato, pecado significa muitas coisas, todas elas associadas ao errado e, sobretudo, à desobediência a prescrições de cunho religioso. A infração é o descumprimento de leis civis; o pecado seria assim a infração espiritual. Esta definição ampla precisa ser refinada. Se não a entendermos corretamente acabamos aprisionados em sistemas religiosos que regram a vida dos fiéis com centenas, senão milhares de instruções de “não pode” e de “deve”. A insegurança dessa amplitude de definição faz com que muitos supliquem a Deus: “perdoe a multidão dos meus pecados” - sem consciência de quais são - e fiquem, indecisos em cada situação real, a perguntar se algo pode ou não pode ser praticado. A melhor definição é entendermos o pecado como a capacitação humana inata de não se sujeitar a Deus. É a condição de rebelião contra Deus, não apenas desobedecendo a seus preceitos, mas essencialmente não aceitando a Sua existência. O mal e o pecado Entendido pecado como rebelião contra Deus, é importante diferenciar o „mal‟ do „pecado‟. Ouvimos na voz corrente estas duas palavras serem usadas indistintamente. Mais que isso, talvez haja uma preferência pelo vocábulo mal, talvez no desejo de evitar usar pecado pela conotação carregada que o vocábulo traz. Mas, há uma distinção fundamental entre elas. Podemos entender, sem dificuldade, que todo o mal é pecado. No entanto, jamais podemos entender que a eliminação do mal significa eliminação do pecado. Pessoas bondosas, inteiramente devotadas e comprometidas com o bem continuam sendo portadoras do pecado. E, é nesta linha de pensamento que conseguimos apropriar por completo a doutrina cristã sobre o pecado, no ensino de que não existe nenhum ser humano que possa ser classificado como „não pecador‟, porque o instinto de 1 Confronto! A REALIDADE DO PECADO maldade é marca irremovível da condição humana. O fato original gerador do pecado é a rebelião contra Deus, mas as consequências estão inerentes na inveja, cobiça, ambição, ira, intriga, belicosidade e todos os outros instintos maus que afloram em cada pessoa, independente de aprendizado, vivência ou condicionamento. Por mais que uma pessoa se esforce por reprimir esses instintos maus inatos; por mais que ela tenha sucesso nesse autodomínio, a origem do pecado, a rebeldia contra Deus, a mantém na condição de pecadora. Andrew Farley equaciona com correção esse ensino da fé cristã quando provocativamente pergunta: „Quantos pecados são necessários para formar um pecador?‟ e a sua resposta é „nenhum‟, pois o ser humano já nasce nessa condição [1]. A desgraçada condição humana E então, somos levados ao reconhecimento da desgraçada condição humana, que traz em si o mal original. O problema, dizem os críticos, é que este reconhecimento é o meio que a religião – e todos aqueles a quem a religião pretensamente serve – utiliza para controlar as pessoas, mantendo-as em um estado de servilidade, para dominá-las com uma difusa promessa de remissão que as venham libertar dessa condição desgraçada, desde que elas se sujeitem ao que a religião exige. Dentro dessa linha de raciocínio, o ser humano esclarecido é então instado a libertar-se da pecha de “pecador”. A mesma lógica está também presente em todos os sistemas filosóficos, ou mesmo religiosos, de cunho otimista, com os seus ensinos do tipo: Você consegue. Tudo depende apenas de você. Todo ser humano é naturalmente bom; só é necessário deixar essa bondade frutificar. Deus está no seu interior. Você é o seu deus. No entanto, e felizmente, em oposição a esta solução para se livrar do pecado há a teologia cristã. O Cristianismo e a libertação do estigma do pecado O Cristianismo tem em si o tratamento perfeito e completo para o pecado. Não há necessidade de negá-lo ou superá-lo; mas é necessário reconhecer e aceitar a sua realidade. O sacrifício de Cristo na cruz significa a redenção do ser humano, com a remissão absoluta dos pecados e a possibilidade de uma comunhão perfeita com Deus. No verdadeiro Cristianismo, o pecado não precisa ser negado, mas o ser humano deve ser libertado dele, o que apenas o sangue de Jesus tem o poder de fazer. A culpa e o remorso da desgraça do pecado precisam ser reconhecidos e aceitos como realidade. No entanto, ninguém 2 Confronto! A REALIDADE DO PECADO precisa permanecer com eles: é só jogar a culpa para Cristo, que foi condenado à morte na Cruz para realizar esta remissão. Não se requer qualquer esforço, sequer para superar a impressão inata do mal original: é apenas entender e aceitar a nossa condição de pecado e a obra completa de Jesus Cristo para nos salvar dele. Ao sermos confrontados com esta desfiguração da verdadeira fé cristã que é a negação da realidade do pecado, tão somente reafirmemos a verdade bíblica: “... pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus”.[Rm 3.23-24] [1] Andrew Farley, “O evangelho nu” Editora Vida, SPaulo, 2011- p99. 3