O “EIXO DO MAL” X “O GRANDE SATÔ: A CONSTRUÇÃO DA DOUTRINA MANIQUEÍSTA NO
CONTEXTO DAS RELAÇÕES ESTADOS UNIDOS E ORIENTE MÉDIO.
Maurineide Alves da Silva∗
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Ocidente e Oriente na formação da Doutrina Maniqueísta
Segundo o autor José Ferrater Mora em sua obra Dicionário de Filosofia(1990)a civilização
persa, que se desenvolveu na região do planalto do Irã na Ásia Central, é conhecida por suas façanhas
político-militares,mas foi no campo religioso que se deu a contribuição mais original destes.Zoroastro ou
Zaratustra(século VI a.C.) fundou uma religião cuja doutrina foi exposta no livro sagrado Avesta. A
doutrina de Zoroastro pregava a existência de uma incessante luta entre Ormuz, deus do bem,e Arimã,
deus do mal.Zoroastro afirmava que somente no dia do juízo final,quando todos os homens seriam
julgados por suas ações,Ormuz venceria definitivamente Arimã.
Já no Ocidente a civilização grega é caracterizada pelo politeísmo e também por muitos ritos e
doutrinas, que posteriormente, são encontrados no cristianismo, como crenças no céu e no inferno, na
criação do mundo, bem como na existência de demônios. Na civilização romana foi durante o reinado do
Imperador Romano Augusto que nasceu na província de Belém,na Galiléia, Jesus de Nazaré,o fundador
do cristianismo.A doutrina cristã é caracterizada pela oposição entre o bem e o mal nas figuras de Deus e
Satanás.
No século III depois de Cristo surge no Oriente a doutrina maniqueísta que recebeu esse
nome por ter sido elaborada pelo sacerdote persa Mani(Manés). Para Mani,havia no princípio das
substâncias:a Luz (equiparada com o Bem e ás vezes com o Deus) e a escuridão ( equiparada com o Mal
e ás vezes com a Matéria).No que diz respeito a religião, o Maniqueísmo teve influência tanto do Oriente
quanto do Ocidente.Maniqueísmo é,portanto, uma mistura fantasiosa de elementos gnósticos, cristãos e
orientais,que se fundamentaram no dualismo da religião de Zaratustra.
∗
Universidade Federal de Goiás.
Graduada em História .
Pós-graduada em História e Culturas Africanas e Afro-Americanas.
Mestranda em:Identidades,Fronteiras e Processos.
Passaram-se 1.700 anos desde que o sacerdote Mani Hayya combinou as noções do dualismo
persa de Zoroastro com elementos da gnose e do cristianismo, estabelecendo uma divisão clássica de
bem e mal para explicar a formação do mundo, e até os dias atuais as ações do homem continuam
classificadas de um ou de outro desses lados.
A doutrina de Mani se tornou com o passar do tempo uma concepção bastante perigosa ao
estigmatizar de uma maneira simplista a realidade. A idéia de que qualquer conflito estivesse marcado
pela presença de um representante do bem e outro representante do mal permeia o imaginário de boa
parte da humanidade há séculos,e ainda hoje,no século XXI,é aceita por enorme contingente humano
como algo natural e inquestionável.A influência das maiores religiões do mundo,em quantidade de
fieis,pode explicar a naturalidade de tal aceitação.
As narrativas ficcionais,também tiveram um papel fundamental na difusão da idéia.Na
literatura,nos quadrinhos,no cinema,etc é recorrente a presença de personagens representantes do bem
em conflito com representantes do mal,este ultimo carregando a derrota inevitável.A justificativa é a
garantia de público consumidor para tais produtos.Prova disso é a dimensão econômica do cinema
Hollywoodiano frente o cinema Europeu,mais preocupado em apresentar a complexidade humana.
Tal concepção transformou a doutrina maniqueísta em uma crença perigosíssima, responsável
por vários danos à humanidade.A história da humanidade está repleta de exemplos de conflitos motivados
e/ou justificados pela idéia de um bem que luta contra um mal sendo que o mal carrega a derrota como
destino irreversível.Como colocamos anteriormente,por mais simplista que pareça tal crença para o século
XXI,está ainda permeia o imaginário de boa parte da humanidade com uma intensidade marcante e pode
ser encontrada em várias formas de discursos,principalmente o discurso político de líderes interessados
em arrebatar o consentimento de seu povo para suas ações belicistas. Os discursos dos dois líderes
políticos: de George W. Bush, em 2002 para o congresso norte-americano e do líder supremo do Irã,
Aiatolá Ali Khamenei em resposta a Bush,representam bem tal concepção ao se mostrarem carregados
pela crença maniqueísta.A presença desta doutrina nos discursos de tais líderes pode se explicada ao
analisarmos sua influencia na formação do imaginário de norte-americanos e iranianos.
-Estados Unidos: a nação puritana
A doutrina maniqueísta no imaginário do povo norte-americano é identificada desde a sua
formação com a colonização puritana.
Segundo Leandro Karnal, em sua obra Estados Unidos – da colônia á independência(1999)
dentre os imigrantes ingleses que constituíram as colônias dos Estados Unidos estava um grupo
minoritário que a história consagraria depois como os “peregrinos” (pilgrins). Estes vieram fugindo da
perseguição religiosa constante na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. “A América seria um receptáculo,
também desses grupos religiosos”. O autor enfatiza:
Estes “pais peregrinos” (pilgrim fathers) são, de certa forma, os fundadores do
que, mais tarde, seriam os EUA. Não os pais de toda a nação, são os pais da
parte “WASP” ( white anglo-saxon, protestant, ou seja, branco, anglo-saxão,
protestante) dos EUA. A historiografia, de todas as formas, costuma consagrá-los
como os modelos de colonos. ”(KARNAL,1999 ,p.30).
Para Karnal(1999) esses colonos “puritanos” tinham a idéia de que constituíam uma “nova
Israel”, escolhidos por Deus para criar uma sociedade de eleitos. Como os hebreus nos Egito, eles foram
perseguidos e foram em busca de uma nova terra.
Segundo o autor Luiz Fernando Garzon em seu texto O Destino Manifesto e a tragédia
anunciada(2002), esses refugiados puritanos fizeram da expulsão um motivo de engrandecimento. A idéia
da predestinação era forte entre eles. Fiéis à tradição de Lutero e Calvino, acreditavam que Deus salvava
poucos e que eles estavam entre estes.
O Autor(2002) ressalta que para manter a identidade e o sentimento de grupo, os puritanos
exerceram forte controle sobre todas as atividades dos seus membros, o que levou ao adjetivo de puritano
para as pessoas que vivem controlando-se e controlando os outros principalmente na sexualidade.O
controle nascia da necessidade de manter a unidade e coesão do grupo. Garzon(2002) ressalta que a
herança calvinista-maniqueísta dos puritanos “se Deus é por nós quem será contra nós?” teve uma
contribuição decisiva na formação da identidade do povo estadunidense e de seu senso comum. Os
puritanos só considerariam o novo lar perfeito se extraíssem dele todas as “impurezas”. “Aqueles que se
consideravam perfeitos e eleitos por Deus concluíam que o ‘mal’ só poderia ser o diferente, o distinto, o
outro.”
Trecho de uma pregação puritana em Nova Jersey no ano de 1860 revela tais ideologias:
“Deus escolheu a América para que se construísse nela a sede do paraíso terrestre, por isso, a causa da
América será sempre justa e nada de mal lhe será imputado. Os colonos são os verdadeiros herdeiros do
povo eleito, pois preservam a santa fé. Nossa missão é liderar os exércitos de luz em direção aos futuros
milênios”.Na pregação fica claro o sentimento de “povo escolhido” e de representantes do “bem” que
caracteriza a principal crença da doutrina maniqueísta.Diante disso, Garzon cita a frase do filósofo
Friederic Nietzsche: “Deus não morreu, foi seqüestrado pelo Império norte-americano”.
Garzon (2002) conclui que a herança calvinista maniqueísta dos puritanos "se Deus é por nós
quem será contra nós?" teve uma contribuição decisiva na formação da identidade do povo estadunidense
e de seu senso comum. Para o autor, os puritanos só considerariam o novo lar perfeito se extraíssem dele
todas as "impurezas”. “Aqueles que se consideravam eleitos por Deus concluíam que o ‘mal’ só poderia
ser o diferente, o distinto, o ‘outro’ ”. Tudo que se interpusesse no caminho da salvação seria designado
como maligno.
-Oriente:o maniqueísmo e o Islã
Com relação à outra sociedade, a islâmica iraniana, o autor J. O. Meira(2001) ressalta que o
islã está "fortemente influenciado pela doutrina maniqueísta ao proclamarem únicos servos do verdadeiro
Deus, defensores do Bem e destinados a morrer numa 'guerra santa' contra os infiéis”.
A Doutrina Maniqueísta surgiu no Oriente no século III e a Islâmica no século VII e segundo a
matéria da Revista Sim,sim,não,não(1996) nenhum especialista moderno honesto pode negar que
Maomé, à maneira dos sincretistas, tenha claramente se servido de empréstimos tomados ao seu próprio
meio cultural: “ As fontes desses empréstimos, que não podem ser concretamente negadas, são o
gnosticismo “cristão” e sobretudo o maniqueísmo que lhe está ligado.”
A matéria da Revista(1996) ressalta ainda que por mais grandes que sejam as diferenças
entre os sistemas religiosos de um Manés e de um Maomé, não se pode no entanto negar que o árabe
tenha tomado diversos elementos (de modo algum secundários) da escola do persa.
Tais teorias nos levam a relacionar determinadas ações políticas de líderes islâmicos no
Oriente Médio ao maniqueísmo.Para J. O. Moura(1999) a dicotomia ética aplicada à política no Oriente
Médio se encontra no próprio dualismo original da religião dos iranianos desde que seu fundador,
Zaratustra ou Zoroastro, cindiu em dois a divindade, concedendo a Ormuz ou Ahura Mazda as qualidades
de bondade e veracidade, e a ele opondo a Arimã, o "grande satã", deus do mal e da mentira e mais tarde
tomando uma forma mais pronunciada nos ensinamentos de um outro profeta, Mani.
-“O Eixo do Mal” X “O Grande Satã”
O termo "Eixo do Mal" usado por Bush tornou as relação entre Estados Unidos e Irã muito
mais delicada,como mostra a matéria do jornal The Jerusalém Post, 21/03/2003: "0 Grande Satã
Americano nunca aceitará um sistema islâmico. Ele está vindo ao lraque para completar seu cerco à
nossa República Islâmica antes de agir contra nós[...]Ao contrário dos acomodacionistas que prevêem
uma vitória fácil para os americanos, os confrontacionistas acreditam que o envolvimento dos EUA no
Iraque poderia se tornar o início de seu fim'.." (principal assessor de política exterior de Khamenei, o exministro iraniano das Relações Exteriores Ali-Akbar Valayati).
A reflexão sobre o momento crítico é permeada pelos discursos de seus lideres. De um lado
George W. Bush, em seu primeiro "Discurso da União" de 2002 para o congresso norte-americano ,
cunhou a lapidar "O Eixo do Mal" para referir-se aos três Estados que, naquele momento, simbolizam os
grandes adversários dos Estados Unidos: Irã, Iraque e Coréia do Norte,com a acusação de que os três
possuem armas de destruição em massa e patrocinam o terrorismo regional e mundial.Os mesmos,
segundo Bush, constituem uma categoria superior dentro do que convencionou-se chamar de "Estados
vilões": "Não podemos deixar o terror e o mal chantagearem os Estados Unidos e outros países que
amam a liberdade".A conselheira de segurança nacional de George W. Bush, Condoleezza Rice, disse
que o "apoio do Irã ao terrorismo" e seus esforços para "conseguir armas de destruição em massa"fazem
o país estar "completamente inserido no 'Eixo do Mal' ”. “Em resposta as declarações de Bush o líder
supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, chamou os Estados Unidos de “O Grande Satã”: “ A República
Islâmica do Irã se sente honrada de ser alvo da ira e da raiva do mais odiado Satã do mundo."
Os discursos de ambos lideres políticos:George W. Bush e Ali Khamenei refletem a crença de
suas sociedades havendo em ambas as culturas uma similitude que funcionaria como uma motivação e/ou
justificação para a relação conflituosa entre os dois lados.Como já apresentamos anteriormente a
presença da doutrina maniqueísta, que defende uma inevitável luta do bem contra o mal,está enraizada na
cultura de ambos os povos:dos Estados Unidos por sua descendência puritana e do Irã em função do islã.
Bibliografia
FERRATER MORA, José.Dicionário de Filosofia.V.2:Alianza Editorial ,1999.
KARNAL, Leandro, Estados Unidos : da colônia à independência. - 5 edição. - São Paulo : Contexto, 1999.
J. GARZON, Luis F. O Destino Manifeso e a tragédia anunciada: São Paulo, 2002. Disponível em:<
http://www.lainsignia.org/2002/septiembre/int-007.htm.>.Acesso em: 03 fev. 2005.
PENNA,J. O. de Meira.Os Hashishim:São Paulo,2001.Disponível em <
http://www.olavodecarvalho.org/convidados/terrorismo.htm. > .Acesso em:16 Abr. 2009.
PENNA,J. O. de Meira.Maniqueísmo,ignorância e mendacidade:São Paulo. 1999.
Disponível em< http://www.olavodecarvalho.org/convidados/mpenna2.htm .>Acesso em :18 Abr. 2009
O ISLÃ: uma religião tolerante e favorável com o cristianismo?.Revista Sim,sim,não,não,RJ,n.45,1996.
Disponível em: http://www.permanencia.org.br/SimSimNaoNao/045/art2.htm.>Acesso em:12 Abr. 2009.
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