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A ORDEM E REVISTA BRASILEIRA DE PEDAGOGIA (R.B.P.): REFLEXÕES SOBRE O
DEBATE EDUCACIONAL CATÓLICO E AS RELAÇÕES FAMÍLIA E EDUCAÇÃO NA
SOCIEDADE BRASILEIRA NO PERÍODO DE 1930 A 1938.
Luciandra Gonçalves da Silva1
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
RESUMO
Considerando a importância da participação católica na educação brasileira ao longo da história e, em
especial, da utilização de impressos na disseminação do ideário e da doutrina cristã, este trabalho teve
como objetivo analisar artigos dos periódicos católicos A Ordem e Revista Brasileira de Pedagogia
(R.B.P.), referidos aos temas da educação e da família. De modo mais especifico, está sendo enfocada
a abordagem conferida pelos autores à questão do embate educacional em curso e às representações
católicas acerca da família e da educação no Brasil, nos anos de 1930 a 1938, tendo como base um
projeto de reconstrução da nação. Nesse quadro, foram ressaltadas as relações estabelecidas entre o
movimento de reação católica, constituído desde a década anterior, e o movimento da “Escola Nova”,
atentando para pesquisas históricas recentes, que vêm chamando atenção para aproximações entre a
pedagogia católica e as concepções escolanovistas. Inicialmente, o marco temporal dessa pesquisa
seria delimitado pelo período de circulação comum aos dois periódicos analisados, situado entre 1934
e 1938. Entretanto, a partir da análise da revista A Ordem, publicação cujo período de circulação é
bem mais extenso, optei por iniciar a pesquisa em 1930, a fim de focalizar os debates promovidos em
torno da reforma educacional e do projeto de reconstrução do país, intensificados após a tomada do
poder por Getúlio Vargas e, mais ainda, após a divulgação do Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova, em 1932. A relação família/educação foi destacada nesse estudo, dada a relevância atribuída
pelo discurso católico à instituição familiar na conformação de uma ordem social cristã. A
metodologia utilizada nesta pesquisa incluiu o levantamento e a análise de fontes documentais
(revistas A Ordem e R.B.P.), conduzida em constante diálogo com a bibliografia relativa ao tema. Ao
longo da pesquisa, foi possível observar a existência de apropriações de concepções escolanovistas por
parte de intelectuais católicos, apoiadas na doutrina cristã. Embora as duas revistas explorem o tema
da educação, a R.B.P., cujo foco principal é esse e cujos destinatários são particularmente os
educadores, o aborda com mais profundidade, e, especificamente no tocante “Escola Nova”, o debate
se apresenta com maior constância e abertura ao diálogo. Na revista A Ordem, observa-se, em uma
perspectiva mais ampla, a difusão de idéias e representações acerca do ideal familiar, escolar, social e
político, orientada para a conformação plena de uma sociedade alicerçada na doutrina cristã.
Impregnado de um cunho político, esse impresso apresenta, por vezes, uma abordagem das questões
analisadas revestida de um forte radicalismo, aspecto compreensível, tendo em vista a intensa
polarização de posições políticas que marcou a década de 1930. A título de conclusão, pode-se
destacar que, ainda que não houvesse uma posição unívoca entre os colaboradores das revistas acerca
dos temas tratados e, ainda que devam ser consideradas as especificidades dos dois periódicos, pôde
ser percebida nos artigos analisados, de forma incontestável, a presença de um diálogo entre o
movimento católico e as concepções escolanovistas, mesmo incluindo tensões e aspectos de
afastamento. Quanto ao tema da família, observou-se a convergência entre as idéias e representações
observadas nos artigos publicados em ambas as revistas, denotando a importância conferida pelos
católicos a essa instituição, vista como um campo de ação imprescindível para viabilizar o projeto de
reconstrução nacional sob uma ordem cristã. Nesse aspecto, destaca-se a atenção dispensada à
educação da família e à integridade da constituição familiar nas mensagens difundidas pelos
intelectuais católicos. Cabe assinalar que esse estudo se inscreve em uma importante tendência
1
Graduanda de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ – Bolsista do PIBIC/CNPQ Projeto de Pesquisa em História da Educação (UERJ): Pensamento Católico, Modernidade e Relações
Família/Educação na Sociedade Brasileira (Anos 1930-1950), coordenado pela prof.ª Ana Maria Bandeira de
Mello Magaldi.
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observada na historiografia da educação, de valorização dos periódicos como fonte privilegiada para o
estudo de temas educacionais. Nessa perspectiva, ao enfocar os debates educacionais sob a ótica dos
católicos, este trabalho teve como intenção contribuir para o enriquecimento do campo de pesquisa em
História da Educação de modo a suscitar novas questões e novos enfrentamentos.
TRABALHO COMPLETO
Nas primeiras décadas do século XX, momento histórico de transição de uma sociedade
agrária e escravocrata para uma sociedade urbano-industrial capitalista, se expressa um importante
debate político na sociedade brasileira. Nesse quadro, diversos projetos eram apresentados pelas elites
políticas e intelectuais, visando à construção de uma identidade nacional. Essa era uma tarefa
fortemente valorizada então quando, segundo muitos, a sociedade brasileira ainda não se constituiria
como uma nação organizada.
Na intenção de erguer uma nação sobre os alicerces da modernidade, a partir da década de
1920, a educação foi eleita como elemento primordial a promover o progresso social e econômico do
país através da inclusão genérica das populações à nova ordem social. Segundo Libânia Xavier (1999),
a educação se constituiu como a bandeira da construção de um país moderno. Essa convicção
contribuiu posteriormente para a criação do Ministério da Educação e Saúde (1931) após a Revolução
de 1930, no governo do Presidente Getúlio Vargas, no qual o campo educacional foi instituído como
área de política setorial do Estado Nacional, congregando vários intelectuais voltados para esse setor.
Na percepção de Marta Carvalho (1998), essa seria uma estratégia do governo para configuração e
controle, técnico e doutrinário, do aparelho escolar.
A educação, durante um período longo da história, esteve sob o controle da Igreja, pautandose em dogmas religiosos. Com a afirmação do Estado leigo pela Constituição Republicana de 1891,
erigida sobre aspirações positivistas, a Igreja Católica foi afastada da esfera política do país, decisão
que atingiu o âmbito educacional. Por essa determinação, as escolas públicas permaneceram durante
quarenta anos sob um processo de descristianização, visto que somente após a Revolução de 1930,
com a promulgação do Decreto nº 19.941 de 30 de abril de 1931, o ensino religioso tornou-se
facultativo nessas instituições.
Na concepção católica, esse processo de descristianização da nação teria sido responsável por
inúmeras crises que abalaram a estrutura social na época. Nesse contexto, os intelectuais católicos
perceberam a necessidade de reagir e repensar o papel da Igreja Católica na sociedade, a fim de evitar
a sua marginalização plena num país concebido como maior nação católica no mundo, e conter o
processo de secularização da cultura. Frente a essa conjuntura histórica, a partir dos anos 1920, foi
constituído o movimento de Reação Católica com a intenção de restabelecer a legitimidade da Igreja
perante a sociedade, reconquistar o seu espaço junto ao centro de decisões políticas e instaurar um
projeto de reconstrução nacional, almejando a hegemonia no campo educacional. 2
Porém, essa não seria uma tarefa fácil, visto que a educação tornara-se alvo de outros
intelectuais que também ambicionavam a hegemonia educacional, defendendo, por outro lado, uma
educação pública de caráter leigo, como era o caso daqueles que compuseram o movimento da Escola
Nova. Assim sendo, movidos firmemente por uma crença na solução de todos os problemas nacionais
a partir da reestruturação da esfera educacional, tanto os intelectuais católicos quanto os intelectuais
do movimento escolanovista, percebiam o controle do sistema de ensino como um elemento
fundamental na disputa pelo poder político.
Segundo Diana Vidal e André Paulilo, “a expressão escola nova designou um movimento de
renovação dos processos educacionais, apoiado no progresso das ciências biológicas e psicológicas,
nas atribuições sociais da escola, no industrialismo, na atividade infantil e no trabalho em
solidariedade” (2003, p.375). Este movimento surge na década de 1920, organizado por vários
intelectuais da educação em prol de reformas educacionais, enfocando novos métodos de ensino,
estratégias educativas e projetos de escolarização. Segundo Helena Bomeny, “os três aspectos – ensino
2
Ver, a esse respeito, Xavier,1999; Salem,1982.
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leigo, obrigatoriedade do Estado em garantir educação a todos e coeducação – constituíram o pomo da
discórdia entre os educadores que acorriam às conferências da ABE (Associação Brasileira de
Educação)” (2001, p.49). Entretanto, foi a partir da publicação do Manifesto dos Pioneiros da
Educação Nova em 1932, que as concepções desse movimento, contrariando em vários aspectos os
preceitos católicos, passaram a representar mais claramente uma ameaça aos interesses da Igreja, o que
se explica inclusive pela ampliação progressiva do número de adeptos ao movimento.
Este trabalho tem como foco principal expor as concepções apresentadas pelo grupo de
intelectuais católicos em prol do projeto de reconstrução nacional, analisando em contrapartida as
idéias provenientes das propostas apresentadas pelos intelectuais do movimento Escola Nova. Apesar
do contraste observado entre essas tendências, já bastante ressaltado na historiografia, esse estudo
mostra-se atento a pesquisas históricas recentes, que apontam para uma aproximação entre a
pedagogia católica e as concepções escolanovistas. Para conduzir essa análise, recorrer-se-á aos
artigos das revistas A Ordem e Revista Brasileira de Pedagogia - impressos católicos que circularam
durante o movimento de reação da Igreja -, visando observar no quadro dos debates educacionais dos
anos 1930, o discurso produzido pelos colaboradores desses impressos sobre temas educacionais
focalizando, em especial, as representações católicas acerca da família e da escola no período de 1930
a 1938. A ênfase na instituição familiar justifica-se pela importância conferida a esse elemento na
conformação de uma nova ordem social proposta pelos católicos. Pode-se destacar, nesse aspecto, a
atenção dispensada à educação da família e à manutenção da integridade da constituição familiar nas
mensagens difundidas pelo catolicismo. Inicialmente, o marco temporal dessa pesquisa seria
delimitado pelo período de circulação comum aos dois periódicos analisados, situado entre 1934 a
19383. Entretanto, recorrendo-se à análise de A Ordem, publicação cujo período de circulação é bem
mais extenso, optou-se por iniciar a pesquisa em 1930, a fim de focalizar os debates promovidos em
torno da reforma educacional e do projeto de reconstrução do país, intensificados após a tomada do
poder por Getúlio Vargas e, mais ainda, após a divulgação do Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova4 em 1932.
A estratégia do impresso no movimento de Reação Católica
O uso do impresso foi uma estratégia de difusão doutrinária adotada pelos membros do
movimento de Reação Católica, no intuito de difundir o seu ideário, propagar o cristianismo junto aos
diversos segmentos católicos da sociedade, e conter a disseminação desenfreada do escolanovismo
entre o professorado. Nesse período, o impresso é reconhecido como um dos principais meios de
difusão de idéias e notícias, como ratifica Cristovam Breiner, em sua intenção de criar um jornalismo
especificamente católico, orientado pela moral cristã, posto a serviço da recristianização da sociedade:
“... Na época atual o homem, perdido na multidão, só é alcançado pelos meios atuais da difusão de
idéias e notícias: - a imprensa e o rádio” (A Ordem, mar./abr.1937, p.381).
Assim sendo, a partir da década de 1920, os intelectuais do movimento de Reação Católica,
atuando em prol da revitalização do catolicismo no Brasil, através do Centro D. Vital5, da Associação
3
Esse é o período de circulação da Revista Brasileira de Pedagogia. Quanto ao periódico A Ordem, sua
publicação iniciou em 1921 permanecendo em circulação até os dias atuais.
4
Esse importante documento, redigido por Fernando de Azevedo, marca a afirmação no cenário educacional de
um grupo, o dos chamados “pioneiros do movimento Escola Nova” e teve como objetivo o de “definir as bases e
os princípios orientadores do projeto nacional de educação a partir da perspectiva escolanovista” (Camara, 2003,
p.33).
5
O Centro D.Vital foi uma instituição que assumiu grande importância na articulação do movimento católico.
Fundado em 1922, possuía como objetivo o de “promover estudos, discussões da doutrina religiosa e de
congregar intelectuais para uma missão apostólica” (Salem, 1982, p.105), constituindo-se como um dos marcos
iniciais do movimento de reação católica.
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de Professores Católicos (A.P.C.), da Confederação Católica Brasileira de Educação (C.C.B.E.)6, entre
outras entidades católicas, publicaram diversos impressos, como boletins e revistas, promoveram
congressos, cursos e conferências, com objetivo de divulgar o pensamento católico e difundir os seus
ideais. A criação e produção desses impressos compreendiam as táticas católicas de disseminação da
doutrina cristã, objetivando alcançar a hegemonia no campo pedagógico; e consequentemente,
reconquistar o seu espaço no campo das discussões políticas do país.
Considerando, portanto, a importância dos impressos como artifício para disseminar o
pensamento católico, este trabalho apresenta uma análise sobre dois periódicos católicos de grande
circulação nesse momento de renovação educacional – a revista A Ordem e a Revista Brasileira de
Pedagogia – focalizando o debate educacional em curso e, em particular, as representações produzidas
sobre as relações entre educação, família e modernidade.
Cabe ainda assinalar que esse estudo se inscreve em uma importante tendência observada na
historiografia da educação, de valorização dos periódicos como fonte privilegiada para o estudo de
temas educacionais7.
Revista A Ordem e Revista Brasileira de Pedagogia – Difusores católicos
A Ordem
A revista A Ordem foi criada em 1921 por Jackson de Figueiredo, líder leigo da militância
católica. Segundo Tânia Salem (1982), a criação da revista A Ordem e do Centro D.Vital em 1922
constituíram-se como a formalização do “renascimento católico”. “A revista, que se converte no mais
importante instrumento de difusão do ideário católico, pretendia combater as posições e ações
indiferentes ou hostis à Igreja e, deliberadamente, busca seus leitores entre os intelectuais do país”
(Salem,1982, p.105). A produção desse impresso se estabelece no extenso campo das concepções
filosóficas e doutrinárias, no qual estavam embutidas com destaque questões sobre educação.
Nesse contexto, a recristianização da sociedade e, sobretudo, a recristianização dos dirigentes
políticos, era compreendida como a forma possível de lutar contra o pluralismo político de modo a
restaurar a unidade e a ordem na nação. Esse destaque conferido às classes dirigentes, ou seja, à elite
social e política do país, prende-se à visão da capacidade desses grupos em promover mudanças
sociais no país e expandir o processo de recatolicização das massas. Partindo desse princípio, podemos
observar uma concepção elitista8 dos intelectuais católicos que, para alcançar seus objetivos, apostam,
por exemplo, numa intervenção estratégica no sistema universitário, a fim de formar uma classe
dirigente católica9. Nessa perspectiva, destaca-se na primeira fase da revista, liderada por Jackson
Figueiredo (1921-1928), a presença de um caráter político-religioso, transmitindo uma orientação mais
política do que cultural.
Com a morte de Jackson Figueiredo (1928), Alceu Amoroso Lima assume a direção da revista,
e promove uma reformulação significativa, dotando a publicação de um caráter mais marcadamente
cultural e tendo como propósito central o desenvolvimento de uma cultura católica superior. Segundo
Tânia Salem (1982), o núcleo de produção da revista assume uma postura ortodoxamente autoritária,
com base no culto à disciplina e à ordem. A revista estimulava a participação de intelectuais leigos a
fim de ampliar o debate cultural, baseando-se na pretensa idéia de regenerar moralmente as elites no
intuito de solucionar os impasses nacionais.
6
A Confederação Católica Brasileira de Educação (C.C.B.E.) foi fundada em 1933 por Everardo Backheuser,
após os intelectuais católicos abandonarem a Associação Brasileira de Educação (A.B.E.) por ocasião da
publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). A C.C.B.E. constitui-se como “organismo
centralizador do movimento católico pelo ensino, para o efeito de articular o trabalho geral, reunir idéias e
encaminhar tecnicamente a ação comum, sem desperdícios de energias, reconhecendo que só assim será possível
a difusão no Brasil, da escola católica de todos os graus” (Pena, apud Carvalho, 2003, p.111).
7
8
Ver, a esse respeito, Catani, 1997.
O foco nas elites era uma marca recorrente nas posições dos intelectuais na época. Cf. Pécaut, 1990.
É digna de nota, por exemplo, a mobilização do movimento com vistas à constituição de uma universalidade
católica.
9
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Alguns artigos veiculados por essa revista trazem estudos sobre a formação do pensamento
educacional – sob os aspectos psicológico, sociológico e histórico -, passando pela discussão de
problemas referentes ao comportamento da família na educação dos filhos. No artigo Posições
Católicas, no item terceiro, Os católicos e os problemas da educação, produzido por Paulo Sá, há
críticas dirigidas à falta de interação e colaboração dos pais com a escola e com os professores na
educação dos filhos, que conduzem à seguinte observação:
Não há educação verdadeira sem que nela colabore a família. (...) Bastará
talvez, lembrar que, se educar é preparar a criança para a vida social, como o
querem, e se a família é ainda reconhecida como base da sociedade, não
resta senão concluir que a ela compete uma importante função educadora (A
Ordem, ano XIV (nova série), n.53, jul.1934, p.28).
É perceptível, nesse fragmento, a importância conferida à instituição familiar. Outros temas
abordados vão esclarecer e orientar os católicos quanto aos cuidados necessários à educação e à
formação moral das crianças, alertando inclusive sobre a influência do comportamento dos pais na
educação dos filhos. Nos artigos, torna-se bastante evidente a preocupação da Igreja com relação à
unidade familiar, marcada por críticas severas ao divórcio, à poligamia e ao controle de natalidade.
Pois, segundo Everardo Backheuser, “toda a estrutura política das sociedades católicas tem esse
alicerce: o vínculo conjugal indissolúvel” (A Ordem, v.12, n.15/16, mai./jun.1931, p.281).
Nesse bojo, seguem algumas críticas ao feminismo e suas conseqüências, bem como à
coeducação, ressaltando a necessidade de uma educação diferenciada para o sexo feminino que
atentasse para suas peculiaridades. Esse cuidado visava preservar as virtudes femininas e preparar as
mulheres para a sua missão maior: a de mãe-esposa. De modo a exemplificar essa concepção, destacase o artigo de Flavita Lyra da Silva, intitulado Juventude feminina moderna e ação católica, “as moças
serão as esposas e as mães de amanhã – são elas os apóstolos dos lares de hoje, em todos os meios –
elas terão influência decisiva nos lares futuros” (A Ordem, out.1935, p.322). Enfocando as
representações do gênero feminino na sociedade, destacam-se alguns artigos produzidos por Lúcia
Miguel Pereira e por Nair de Andrade, que refletem sobre o papel da mulher no novo contexto social
da modernidade. Referindo-se às mulheres, Nair de Andrade se posicionava: “É preciso assim
enfrentar a vida dos nossos dias, aproveitando o que ela tem de nobre a cultivar” (A Ordem, ano XIV
(nova série), n.49, mar.1934, p.193).
O laicicismo foi outro assunto muito explorado nos artigos dessa revista, sendo
responsabilizado, segundo os católicos, pela crise moral que estaria abalando a estrutura política,
econômica e social do país, e ainda afetando significativamente o âmbito familiar. Segundo Antonio
Gabriel de Paula Fonseca, no artigo A reforma cristã da sociedade, “a família foi decaindo; e, como
nada se fazia para impedir a queda, a desorganização foi completa” (A Ordem, ano XV, v. XIII,
jan./jun.1935, p.35). Quanto à educação laica, destaca-se nessa revista, na seção Registro, o artigo
Educação leiga: “A República infelicitou o país com o ensino leigo. E a descristianização da escola,
nestes quarenta anos invadiu os nossos lares. Essas duas calamidades parecem se associar para dar
cabo da nossa infância” (A Ordem, ano XI, v. IV(nova série), jan./fev. 1931, p.64).
Vários artigos refletem sobre as transformações no campo político, econômico e social
oriundas da modernidade e da organização econômica capitalista, abordando as mudanças de
comportamento, valores morais e sociais, e trazendo para discussão as influências dos aspectos
materialistas e individualistas, que teriam se alastrado pela sociedade e abalado a estabilidade familiar.
Observa-se também em A Ordem, a abordagem, ainda que esporádica, indicando a
aproximação entre o pensamento educacional católico e a tendência educacional renovadora da
educação, como é possível perceber no artigo sobre o Movimento Social Brasileiro10, da Seção
Universitária:
10
O Movimento Social Brasileiro era uma associação cristã de cunho social, fundada por seis alunos de uma
escola de comércio, congregados em torno de um de seus professores, visando à educação que, de acordo com o
3240
É uma associação inspirada na moral cristã, demonstrando nessa época de
confusão labiríntica, ser aquela única legislação social sólida e indestrutível.
É uma associação que acompanha a evolução cultural, adotando os
princípios da pedagogia moderna, ao mesmo tempo em que renega o
laicismo corruptor e gerador de maus caracteres, a mais clamorosa das crises
que invadem o nosso país, em todas as direções. [...] A chamada escola nova
exige com muita insistência aproximação entre professores e alunos. Esse
ponto tem sido carinhosamente observado pelo Movimento Social Brasileiro.
(A Ordem, ano XII (nova série), n.27, mai.1932, p.385-6)
Numa exposição mais direta e assertiva, na seção Redação, sob o título Mobilizemo-nos, é
destacado: “os métodos mais modernos da chamada Escola Nova, estão perfeitamente dentro do
espírito da escola católica, tal como deve ser compreendida, se bem que nem sempre tal como é
praticada” (A Ordem, ano XII (nova série), n.32, out.1932, p.404-5). As duas citações apontam para
um aspecto depurativo na abordagem das proposições da Escola Nova, o que poderá ser percebido
também em vários artigos da Revista Brasileira de Pedagogia. Esta compreensão também é
apresentada nos estudos de Marta Carvalho sobre as aproximações entre católicos e escolanovistas.
Entretanto, percebe-se na revista A Ordem, pela sua marca de publicação que trata de questões mais
amplas, relativas ao cenário político e cultural, uma tendência à apresentação de posições mais
rigidamente marcadas, compreensível em um tempo caracterizado por intensa radicalização política11.
Nesse aspecto, segue como exemplo, as acusações lançadas contra os educadores reformistas
(escolanovistas), julgados comunistas e socialistas.
Num panorama geral, foi possível perceber nas publicações de 1930 a 1938, uma abordagem
ampla sobre temas diversos abrangendo diferentes áreas da esfera social - educacional, política,
religiosa, médica, entre outras -, mas sempre tendo como fundamentação os preceitos religiosos.
Entretanto, é notória a preocupação, expressa em vários artigos, com a instituição familiar e com a
manutenção de sua unidade sustentada pela moral cristã, destacando-se como temas: a crítica ao
divórcio, aos desvios morais provocados pelos avanços provindos da modernidade e à entrada da
mulher no mercado de trabalho; o incentivo a ações sociais católicas; etc.
Revista Brasileira de Pedagogia (RBP)
A Revista Brasileira de Pedagogia, organizada pela Confederação Católica Brasileira de
Educação, circulou entre 1934 e 1938, com o intuito de afirmar princípios educacionais católicos.
Nessa revista, alguns artigos confirmam os resultados dos estudos de Marta Carvalho, no que se refere
à existência de uma aproximação entre a pedagogia católica e o ideário escolanovista. Esses indícios
contrariam vários estudos historiográficos sobre o Movimento de Reação Católica que durante muito
tempo, foi caracterizado por uma posição rígida, supostamente antagônica e reacionária com relação
às propostas do movimento da Escola Nova. Problematizando esta interpretação fortemente
cristalizada na historiografia, Marta Carvalho infere uma consideração bastante pertinente assinalando
a difusão de uma versão refinada do escolanovismo pelos católicos. Essa convergência pode ser
artigo, tinha como intuito arregimentar os jovens dos institutos secundário, profissional, artístico, comercial e
superior, de modo a defendê-los da ameaça do falso socialismo, e do agnosticismo.
11
Este quadro de radicalização pode ser observado, por exemplo, a partir da importância assumida por
agremiações políticas, tais como a AIB (Ação Integralista Brasileira) organizada em 1932, inspirada no ideário
fascista, anticomunista, que defendia uma nação unida baseada no princípio de Deus, Pátria e Família, em
extrema oposição a ANL (Aliança Nacional Libertadora), frente ampla de esquerda fundada em 1935, formada
por comunistas, socialistas, sindicalistas e antifascistas, que defendia princípios da ideologia comunista,
configurando um clima de intensa polarização política e ideológica.
3241
verificada já na primeira página da Revista Brasileira de Pedagogia, publicada na Apresentação, ano
I, n.1, em fevereiro de 1934:
Todos os países devem conhecê-los e segui-los, a esses princípios católicos
de educação, especialmente o nosso, a caminho de uma Nova Constituição
política de uma nova organização. Os educadores católicos mostram assim
que comparecem ao campo da renovação educacional não apenas para exigir
o ensino religioso nas escolas, mas para defender idéias avançadas mas
criteriosas, progressistas mas ponderadas. [sic.]
Percebe-se, a partir dessa citação, uma abertura no que se refere à adoção de novas práticas
escolares difundidas pelo movimento de renovação no campo da educação, ao mesmo tempo em que
se chama a atenção para a forma de apropriação dessas inovações, recomendando-se cautela. Durante
o primeiro ano de publicação da revista (1934), a seção Debates sobre a Escola Nova foi mantida com
uma freqüência significativa, o que evidencia a intenção desse impresso em esclarecer e orientar os
educadores sobre os princípios escolanovistas.
3242
Publicando nessa seção, um artigo intitulado Coisas de educação, em fevereiro de 1934,
Antônio D’Avilla sugere esse diálogo entre os preceitos católicos e as idéias de renovação da Escola
Nova, provocando: “mas é mais cômodo lançar culpas em alheios ombros, resultando daí uma
condenação inapelável a uma escola que se por um lado oferece perigos em sua integral aceitação, de
outro constitui a mais bela e fecunda das renovações pedagógicas” (RBP, ano I, n. 1, p.26).
Ratificando essa perspectiva, Leonardo Van Acker nesta mesma seção da revista, em março de
1934, com o artigo Vários métodos no estudo da “Escola Nova”, indaga e posiciona-se:
Qual será o método dessa transformação? Não se poderá nada aproveitar da
teoria e dos métodos da escola nova, havendo de ser tudo genuína e
exclusivamente católico? – Consultemos novamente a encíclica: – A
necessária cautela com tudo aquilo que não é genuinamente católico,
inclusive a escola nova, não impede de modo nenhum que o mestre cristão
acolha e aproveite quanto de verdadeiramente bom produzem os nossos
tempos na disciplina e nos métodos, lembrando no que diz o apóstolo:
“Examinai tudo: conservai o que é bom.” (RBP, ano I, n. 2, p.66).
Através desses fragmentos, pode-se perceber que os intelectuais católicos não se opunham
plenamente às mudanças propostas pelo movimento Escola Nova; ao contrário, acolhiam e
aproveitavam com freqüência as inovações pedagógicas que julgavam coerentes em relação às suas
concepções, tendo como referência as prescrições da encíclica papal Divini Illius Magistri.
A Revista Brasileira de Pedagogia tinha como propósito apresentar e discutir questões do
campo educacional à luz dos princípios católicos, considerados imutáveis em sua essência,
demonstrando, no entanto, sensibilidade em relação às renovações exigidas pela conjuntura social da
época. Partindo desse princípio, um dos focos centrais de preocupações da Igreja Católica na década
de 1930 referiu-se às proposições apresentadas no Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova de 1932.
Segundo Sônia Câmara,
(...) a produção do Manifesto dos Pioneiros buscou capitalizar as discussões
presentes na sociedade acerca da laicidade e da liberdade como princípios
fundamentais da República brasileira, constituindo-se como parte das
estratégias dos renovadores para tornar suas propostas vitoriosas e com isto
intensificar e fortalecer as críticas aos intelectuais e educadores católicos.
(2003, p.35)
Diante de tal circunstância, os organizadores da Revista Brasileira de Pedagogia, membros da
Confederação Católica Brasileira de Educação, priorizaram a necessidade de depurar as proposições e
informações oriundas desse manifesto, com o objetivo de orientar e esclarecer os professores quanto
ao fascínio exercido pelas propostas dos escolanovistas. Com esse propósito, a publicação dessa
revista foi direcionada aos professores filiados individualmente a C.C.B.E. e às instituições
confederadas: colégios católicos, congregações religiosas, associações de professores e entidades
congêneres de todo o país. 12
Segundo Antonio Sgarbi (1997), esse impresso tinha a intenção de divulgar os princípios da
Divini Illius Magistri e dialogar com as idéias “avançadas” e “progressistas”, sobretudo com os ideais
da Escola Nova. Nessa perspectiva, pôde-se perceber que os artigos que compunham a Revista
Brasileira de Pedagogia estabeleciam diálogos constantes com áreas diversas de conhecimentos, como:
medicina (saúde e higiene), sociologia, psicologia e filosofia, demonstrando uma adaptação às novas
12
Cf. Carvalho, 2003, p.113.
3243
tendências pedagógicas no âmbito educacional, que caminhavam sobre bases científicas. Porém,
obviamente os princípios católicos prevaleciam sobre os demais.
Outro ponto a ser destacado na revista, com certeza relevante por ser o foco principal desse
impresso, refere-se à educação na instituição escolar. A ênfase era conferida, portanto, à propagação
de metodologias e práticas pedagógicas condizentes com os princípios cristãos, indicando um diálogo
nítido com pressupostos da escola nova.
A Revista Brasileira de Pedagogia, tal como a revista A Ordem, destinava ainda uma atenção
especial à instituição familiar, compreendida como a “pedra angular da sociedade”. Nesse sentido,
muito se pregava pela educação da família em atenção à educação dos filhos, pois, segundo Pio XI no
artigo A Palavra de Roma: Ambiente da Educação, “estão hoje pouco ou nada preparados muitos pais
demasiadamente absorvidos pelos cuidados temporais” (RBP, ano I, n.5, jun.1934, p.264). Daí se
explica também a preocupação direta com a educação feminina, de modo a preparar as meninas para a
futura missão de mãe e dona de casa, visto que a mulher era conformada essencialmente como
educadora no lar. Havia inclusive um debate intenso com relação à participação feminina no campo
social e profissional, no qual se questionava a ausência da mulher no lar e o abandono progressivo da
educação dos filhos. Essa questão se articulava com a própria constituição familiar que, naquela
época, vinha sendo alterada devido às transformações sociais, econômicas, políticas, provenientes da
modernização progressiva da sociedade. Sobre esses aspectos, é possível perceber um diálogo
convergente entre as idéias e representações apresentadas na Revista Brasileira de Pedagogia e na
revista A Ordem.
Considerações Finais
Pode-se afirmar, a partir dessa pesquisa, que os impressos católicos, em especial, a revista A
Ordem e Revista Brasileira de Pedagogia – exerceram uma importante força de propagação do ideário
cristão, num período conturbado de nossa história, em que se expressaram diferentes projetos para a
construção da nação. Nesse sentido, a Igreja Católica desejando resgatar o seu espaço no campo de
decisões políticas, compreenderam a necessidade de inovar sua prática pedagógica de modo a atender
as novas expectativas da sociedade moderna e reconquistar a hegemonia no campo educacional. Nesse
contexto, travou-se uma disputa acirrada pelo controle do aparelho escolar, visto que o movimento de
renovação da educação, conhecido como Escola Nova, emergiu com grande influência entre os
profissionais desta área, apresentando princípios e práticas pedagógicas inovadoras.
Todavia, nos impressos analisados, foi possível observar a existência de apropriações por parte
de intelectuais católicos, de algumas concepções escolanovistas, apoiadas na doutrina cristã. Como já
foi mencionado, nos aproximamos de estudos recentes, tais como os de Marta Carvalho e Antônio
Sgarbi, que vêm afirmando a existência de uma versão católica do escolanovismo.
A Ordem e a Revista Brasileira de Pedagogia apresentam características singulares apesar de
imbuídas, a princípio, de um mesmo objetivo: difundir os preceitos católicos. Tendo como base as
especificidades de cada uma, observa-se que, A Ordem, por sua constituição firmada na cultura geral,
não discute com tanta profundidade as questões sobre a educação como ocorre na Revista Brasileira
de Pedagogia, cujo foco principal dirige-se justamente a esse assunto. Sobre esse aspecto, o tema
Escola Nova é debatido com maior constância e flexibilidade neste impresso, que tem como objetivo
levar informação e orientação sobre educação ao maior número possível de profissionais dessa área,
buscando alcançar não só os professores das escolas católicas, como também os professores católicos
das escolas públicas13. Apesar da Revista Brasileira de Pedagogia ter como público-alvo
principalmente os educadores, vários artigos são direcionados à instituição familiar, destacando a sua
importância para a formação do cidadão, e consequentemente, para a organização social da nação. Ao
que tudo indica a escola era estimulada através de seus professores a exercer uma importante
mediação no sentido de orientar os pais com relação ao seu comportamento social, e a formação e
educação dos filhos.
A revista A Ordem, numa perspectiva mais ampla, age na conformação plena da sociedade
alicerçada na doutrina cristã. Nesse sentido, há uma preocupação em difundir idéias e representações
13
Cf. Carvalho, 2003, p.103.
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acerca do ideal familiar, escolar, social e político, a fim de constituir uma sociedade cristã sólida e
com condições, segundo os católicos, de solucionar os impasses do país. Impregnado de um cunho
político, esse impresso apresenta, por vezes, certo grau de radicalismo, perceptível, por exemplo, em
alguns artigos em que os educadores escolanovistas são caracterizados – de forma negativa - como
comunistas ou socialistas.
Numa abordagem mais geral, foi possível perceber que entre os grupos de intelectuais
católicos que publicavam nesses impressos, não havia uma posição unívoca acerca dos temas tratados.
Isso explica, por exemplo, a existência de uma aproximação de alguns colaboradores com relação a
determinados valores apresentados pelo movimento de renovação educacional da Escola Nova,
enquanto outros se mantinham mais arredios em relação às inovações propostas, manifestando
posições mais conservadoras. No entanto, apesar de devermos levar em consideração essas diferenças
nas representações católicas sobre temas educacionais, pode-se perceber, mediante a análise dos
periódicos, a existência de um diálogo incontestável entre o movimento católico e as concepções
escolanovistas.
Frente a esse horizonte, pode-se reafirmar a significância da análise de periódicos para
pesquisas historiográficas relativas a temas educacionais, visto que essa fonte é um meio de
comunicação dinâmico e atualizado, que dissemina informações, e representações que circulam no
tempo mesmo dos acontecimentos, com eles dialogando e neles interferindo, aproximando-nos de
concepções historiográficas recentes que têm valorizado as manifestações culturais e sua abordagem
com base nesse tipo de fonte, consideramos, portanto, que esse estudo, ao enfocar os debates
educacionais na perspectiva dos católicos, possa contribuir para o enriquecimento do campo de
pesquisa em História da Educação, suscitando novas questões e novos enfrentamentos.
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REVISTA BRASILEIRA DE PEDAGOGIA. Rio de Janeiro: Confederação Católica Brasileira de
Educação, 1934-1938.
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A ORDEM E REVISTA BRASILEIRA DE PEDAGOGIA (R.B.P.